7. Jardim da Morte: Dança da Morte

Na penumbra da noite eterna, um jardim agora floresce no Sheol. O jardim…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Na penumbra da noite eterna, um jardim agora floresce no Sheol. O jardim agora possuía rosas negras que exalavam um perfume fúnebre. A ceifadora trouxe de uma de suas viagens e deu a mulher a responsabilidade de cultivá-las naquele solo incomum. A mulher estava fazendo um bom trabalho com as flores. Antes só ficava ali sentada perdida em pensamentos à espera da ceifadora para mais um de seus jogos habituais e suas conversas, mas agora a mulher tinha uma atividade além de só esperar.

— Você voltou rápido dessa vez. — Murmurou a mulher olhando para a ceifadora que se sentava à mesa e descansava a sua foice ao seu lado, o símbolo do seu inescapável ofício.

— Sim — A ceifadora respondeu com um sorriso enigmático.

— Ainda bem que está de volta, depois do nosso passeio você saiu tão rápido para seus afazeres que nem pude te contar os detalhes do que ocorreu. — A mulher se sentou à mesa de mármore de frente à ceifadora.

— Você sabe que eu estava lá, não é? Eu presenciei tudo. — Disse a ceifadora.

— Eu sei, eu sei, mas você é a única com quem posso falar e eu queria falar sobre isso. 

— Está bem. Podemos falar disso enquanto jogamos então? — Disse ela arrumando as peças de xadrez à mesa, brancas para ela e pretas para mulher. — Depois tenho um convite a te fazer. — A ceifadora sorri, seu olhar penetrante refletindo a luz pálida da lua.

— Humm…que misteriosa, agora fiquei curiosa. Está bem, vamos jogar. — A mulher se preparava.

A ceifadora sorri e avança o peão da dama para a quarta casa.

— Ah…— Suspirou a mulher. — Aquela belíssima capela, iluminada pelas chamas das velas naqueles castiçais dourados tão brilhantes. — A mulher responde com o peão da dama para a quarta casa.

— Eu vi, tudo estava perfeito. Como se fosse feito só para você. — A ceifadora prossegue avançando seu peão da coluna “c” para a quarta casa, expondo sua rainha de maneira tão prematura.

— A música que tocava, uma sonata tão melancólica que fazia ter vontade incontrolável de cantar e dançar. Rute debruçada sobre a Bíblia. Ela sempre foi curiosa e não resistia a um livro, não importa qual fosse. — A voz tingida de nostalgia. — E, quando nos vimos, era como se nunca tivéssemos nos separado. Dançamos ao som daquela sonata. Cada movimento era uma lembrança tão saudosa. — A mulher faz seu peão avançar e capturar o peão da ceifadora na coluna “c”.

— Vocês dançaram lindamente. — Disse a ceifadora sorrindo para ela e avançando o cavalo do rei para a terceira casa.

— Então tudo ficou escuro e voltei para cá num piscar de olhos. — Disse a mulher em tom triste.

— Os momentos mais preciosos são fugazes. — A ceifadora murmurou isso acenando lentamente.

A mulher tentou reagir, mas os movimentos da ceifadora foram implacáveis. Cada avanço, uma captura, uma dança mortal. Peões caem, cavalos são abatidos até que em um movimento final, a ceifadora encurrala o rei da mulher com um xeque-mate inescapável.

— E mais uma vez você vence. —  A mulher suspira.

— E olha que nem me esforcei hoje. — Diz a ceifadora sorrindo. — Estou cansada de tantas vitórias. — Confessa a ceifadora, apoiando as mãos no queixo.

— E o convite? — A mulher pergunta ansiosa.

— Ah, sim, o convite, sim. — Ela tira um envelope vermelho e preto adornado de arabescos dourados da maleta e entrega à mulher. — Então minha adorável dama, você aceita me acompanhar em um baile de máscara no castelo do Conde Drácula? — Disse isso de forma afetada.

— É claro, que dizer é… — A mulher falava tropeçando nas palavras. — Conde Drácula, o vampiro? Baile de máscaras? Isso não seria quebrar as regras? — Ela olha a ceifadora em dúvida.

— Sim é o baile anual do Conde Drácula o vampiro e…sim, em partes estaríamos quebrando algumas regras, mas recebi o convite para esse baile, estou trabalhando demais também, preciso de um pouco de diversão, entende? — A ceifadora olha para ela com um sorriso forçado.

— Então, por que não? Vamos? — A mulher sorri intrigada.

E assim, uma porta preta, adornada de arabescos dourados nas bordas envolta em uma névoa carmesim se materializou foram transportadas para um grande salão suntuoso. As duas estavam belamente vestidas, a mulher com um magnífico vestido de veludo sanguíneo com decote em V, mangas longas bem justas terminadas em um punho largo finalizado em rendas. A saia volumosa que arrastava graciosamente pelo chão. Em seu pescoço um colar dourado que pendia um camafeu delicado. Em seu rosto uma máscara simples em tom de sangue adornada de dourado, os cabelos escuros longos presos atrás como uma cascata de cachos. 

A ceifadora em seu vestido preto vitoriano, com a saia volumosa em camadas que varriam o chão com graça a cada movimento, o vestido parecia sussurrar lamentos. Um corpete justo que realçava sua figura esguia. Uma gola alta e austera, mangas bufantes nos ombros que desciam justos até os punhos, com babados delicados de renda. Em sua cabeça, a ceifadora usava um pequeno chapéu preto de abas, posicionado de lado. O chapéu adornado com fita preta de seda e uma única pena negra. Os cabelos grisalhos, que contrastavam com a sua pele de um grafite cinzento, preso atrás com uma trança única. No rosto uma máscara de médico da peste ocultava suas feições. Feita de couro branco, a máscara tinha um bico longo e curvado semelhante a um corvo, com lentes redondas e escuras que ocultavam seus olhos de um branco leitoso sem pupila. Segurava firmemente uma bengala de ébano, no lugar de sua foice. A bengala com um cabo ornamentado em prata, terminava em sua ponta metálica que ressoava de modo suave ao tocar o chão. 

A ceifadora entrou no salão de braços dados à mulher, com sua confiança habitual. Observava cada detalhe através das lentes escuras da máscara. A música espectral, as luzes tremeluzentes criavam um ambiente convidativo para elas. Algumas pessoas no baile não ousavam se aproximar demais da ceifadora devido a sua presença impactante. Ao lado dela a mulher estava deslumbrada com toda aquela decoração, parecia um sonho para ela estar presente num evento tão impressionante.

— Vamos dançar? — Sugeriu a ceifadora, sua voz ecoando através do bico de sua máscara.

— É claro. — Disse a mulher radiante. — Mas vou logo te avisando, não sei conduzir.

— Sem problema, eu só sei conduzir. — Tomando a mão da mulher, a ceifadora a levou até o meio do salão. Seus movimentos eram fluidos e precisos. As duas a dançar criavam um espetáculo hipnotizante. 

Elas dançaram graciosamente pelo salão. Se divertindo enquanto rodopiavam. O riso de ambas se misturando a música. Trocaram de pares várias vezes aproveitando cada segundo do baile e cada companhia excêntrica. Aproveitaram da comida e das bebidas, conversaram amenidades com aqueles que queriam dialogar e dançaram com aqueles que estavam ali somente para dançar. Retornaram a dançar juntas, era chegada a hora da última dança da noite. Bailaram aproveitando cada movimento e a música findou. O baile havia chegado ao fim, a mulher estava eufórica:

— Nunca imaginei que em morte iria realizar um sonho de adolescente de participar de um baile de máscara vestida como uma verdadeira dama gótica. — Ela sorria e apertava as mãos eufórica. Enquanto a ceifadora sorria para ela por trás da máscara.

Elas andaram pelo castelo procurando um portal que as levasse de volta ao jardim. Seus passos ecoando juntos com tantos outros que seguiam para seus aposentos ou para a saída do castelo. Tantos seres tão estranhos quanto elas. A atenção da mulher foi atraída para a vista de uma varanda, seguiu adiante e se deparou com um céu estrelado tão belo e uma lua cheia descomunal que parecia quase dominar o firmamento. Sentiu-se preenchida por uma sensação serena, como se pudesse sentir uma mão divina acariciar seus cabelos a deixando tranquila. Começou a cantarolar de modo suave uma canção e sua voz ecoava. A melodia saía de seus lábios harmonizando com a calmaria da noite. Ela estava hipnotizada por aquela lua, seus olhos fixos nela enquanto cantava. Ficou ali cantando para o luar e perdida em pensamentos. A ceifadora se aproximou, interrompendo seu canto suave:

— Vamos, princesinha gótica, já passou do nosso horário. Temos que ir logo. Já encontrei o portal. — Ela falou batendo sua bengala no chão de pedra impaciente.

— Até a próxima vez. — Sussurrou a mulher para o castelo e a lua. Relutante ela se virou e foi de encontro à ceifadora. Entraram na porta cinza adornada de beladona e voltaram ao jardim.

Texto publicado na 6ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de junho de 2024. → Ler edição completa

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6. Castelo Vampírico: O firme fundamento das coisas que se esperam

Diário de Rute Fasano. 25 de dezembro — Acredito que você tenha perguntas — Ela fixou seu olhar no meu…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Diário de Rute Fasano

25 de dezembro - 

— Acredito que você tenha perguntas — Ela fixou seu olhar no meu, sorrindo. — Venha, vamos procurar um lugar mais calmo para poder conversar. 

Andou à minha frente me guiando pelos corredores do castelo, abriu uma grande porta que dava para uma imensa biblioteca com inúmeros livros, fechou a porta atrás de nós deixando lá fora o barulho da música. eu estava deslumbrada com aquele cômodo que eu ainda não tinha conhecimento. Imaginava se na minha versão do castelo também havia uma igual, estantes altas, livros de diversas cores, uns muito antigos e outros mais novos. Havia uma mesa no centro com um tecido preto e acima dela um livro muito antigo, ao qual não pude deter minha atenção, minha doppelgänger apontou para algumas poltronas num canto da biblioteca. Nos sentamos, ela retirou sua máscara e eu permaneci com a minha:

— Como isso é possível? — Eu disse ansiosa por uma resposta que fizesse sentido.

— Eu poderia explicar isso usando o conceito de multiversos, das múltiplas versões de nós mesmas vivendo vidas diferentes em cada mundo, mas acredito que você já pensou nessa hipótese. — Ela falava com tanta desenvoltura, que eu me perguntava se a natureza vampírica dela que a tornou assim.

— Você tem razão. Não é essa a pergunta que eu quero fazer. — Me endireitei na poltrona tentando formular a pergunta na minha cabeça enquanto balançava a perna esquerda. — Qual é o motivo de tudo isso? Esses bailes, assombrações, perturbações, revelações, tudo isso.

Ela sorriu, talvez percebendo o quão mal eu poderia formular uma pergunta. Cruzou as pernas, colocou as mãos sobre o colo, respirou fundo mantendo aquele sorriso intacto:

— Entenda, Drácula não está em busca de poder, e sim, como cada hóspede deste castelo, em busca de conhecimento e tudo que o mantenha vivo, que faça com que ele se sinta mais vivo. A eternidade às vezes nos leva a não sentir nada, ser indiferente a certos prazeres e a nossa presença enche o castelo de vitalidade. — Me olhou séria. — Os estratagemas terríveis que ele usa é para despertar em nós sentimentos e sensações que às vezes não nos permitimos sentir, mas que alimentam o castelo e a nós mesmo. Ninguém aqui é como antes de adentrar o castelo. Ele não pode sair daqui, mas pode trazer e convidar quem há de melhor lá fora para cá. E ele aceita os curiosos, os sedentos, os perdidos e os fugitivos. — Na última palavra ela levantou as sobrancelhas, com um sorriso que já começava a me irritar e fixou o olhar em mim por bastante tempo.

— Entendo, mas qual o motivo de ele se apegar a partes muito específicas do meu passado? O que ele quer conseguir com isso? Eu já superei essas coisas. — Eu disse já bastante incomodada e com uma certa irritação na voz.

— Você está tentando se enganar, ou melhor me enganar, não é? — Falou usando um tom de voz debochado.

— Então o que devo fazer? deixar as coisas acontecerem e ver o que vai dar? — Me endireitei mais uma vez na poltrona e cruzei os braços.

— Escute, eu não posso te dar todas as respostas, apenas partes delas, não posso dar a você o refrigério da alma que você necessita. — Falou isso olhando para cima e movimentando a cabeça de um lado para o outro. — O que aconteceu comigo, os caminhos que percorri aqui, as escolhas que fiz são diferentes das que você tem tomado, compreende isso? Em nenhum momento desde a minha entrada no castelo até esse momento eu não me encontrei com nenhuma doppelgänger, o que significa que talvez você não venha se tornar o que eu me tornei, então não posso dizer o que você deve fazer, você entende isso? A única coisa que posso dizer a você é… — Ela parou por um momento, fechou os olhos sorrindo e balançando levemente a cabeça. — Me surpreendo com o que vou dizer agora, mas deixe a lógica por um breve momento de lado e tenha fé.

— Sério? — Olhei para ela em dúvida, ainda de braços cruzados, tentando acreditar no que ela havia dito.

— Sei que parece piada, mas leve em consideração a nossa nova família.

Ficamos em silêncio até que tomei fôlego para mais uma pergunta. Ela me surpreendeu colocando os dedos gelados em um movimento suave em meus lábios, impedindo que eu formulasse uma frase.

— Eu sei que pode parecer estranho, mas sinto que devemos dançar. — Disse retirando os dedos devagar. — Daqui a pouco vão anunciar a última dança e após isso devemos voltar a nossos aposentos. Sei que Drácula se ocupará em fazer você voltar sã e salva, talvez nem tanto sã, para seu mundo. Então vamos aproveitar a nossa própria companhia por alguns instantes?

Não havia percebido que o tempo passou tão depressa. E como tinha pouco tempo aceitei a última dança. Ela recolocou sua máscara e voltamos ao salão. Todos os pares já se preparavam para dançar. E dançamos no meio do salão com ela conduzindo, repetindo exatamente os passos que dancei com minha amada na capela. E rodopiamos uma, duas, três e quatro vezes e meu corpo, como se eu não tivesse controle sobre ele, foi jogado em seus braços. Do meu peito apertado pude sentir irradiar aquele formigar característico que parece abrir caminho pelos meus músculos como se eu estivesse eletrificada. No meio daqueles rostos que me olhavam por trás das máscaras e gargalhavam mais alto do que eu havia percebido inicialmente, a música alta, o arrastar dos pés sobre o chão do salão que agora parecia mais cheio, o som rascante dos tecidos roçando em outros tecidos, tudo isso me consumia e eu precisava fugir dali. A música cessou:

— Calma. Inspire e expire lentamente. — Ela disse suavemente com um olhar preocupado. — Nosso tempo acabou, espero que sua experiência com a Selenoor seja diferente da minha. Nos veremos de novo e com mais tempo, espero. — Ela tirou minha máscara e me deu um beijo suave na minha face direita, olhando em meus olhos ainda preocupada. Em um piscar de olhos eu estava de frente a porta do meu quarto.

Já havia passado das 3h, coloquei a mão na maçaneta e fiquei à porta pensando se devia entrar no quarto ou tentar a sorte por entre o castelo, sei que deveria seguir as regras, mas e se eu não as seguir? Drácula foi bem específico no convite dizendo que as três deveríamos estar em nossos aposentos, mas o tempo que fiquei pensando se entrava ou não, deve ter feito com que eu passasse das três. Então eu já estava quebrando a regras, o que de pior ou anormal poderia acontecer comigo além do que já aconteceu? Assim que tirei minha mão da maçaneta pude sentir um frio percorrer meu corpo e irradiar por ele, gelando meu coração, trazendo a ele uma sutil tristeza e desesperança já conhecida minha. Fui então em rumo do que o castelo tinha a me proporcionar, a palavra “Selenoor” ecoava em minha cabeça, o que seria isso, algo com que eu deveria me preocupar? Então fui em busca de mais uma perigosa aventura e a cada passo que eu dava eu me perguntava o motivo de estar fazendo isso tudo, por que estou me colocando em perigo, me fazendo presenciar situações intensas, procurando gatilhos para acionar memórias traumáticas?

Caminhei sem rumo, perdida em pensamentos e encontrei novamente a capela de outrora. E a capela que antes se encontrava em ruínas, agora estava no ápice de sua beleza, não havia somente traços dessa vez, ela era bela e imponente. Eu entrei e o ar dentro dela estava denso e gélido, os castiçais com velas que antes estavam velhas e quebradas, agora tremulavam de modo suave suas chamas sobre o altar, percorri o corredor entre os bancos de madeira agora todos em perfeito estado para chegar ao ambão. A bíblia estava em perfeito estado e curiosa fui olhar se haveria de novo algo marcado, aberta no livro de Mateus no capítulo 17 e em um azul-pálido bem fraco apenas parte do versículo 20 estava marcado “Por causa da vossa pouca fé” li e ri disso, aparentemente minha falta de fé era algo perturbador. Uma luz azul pálida vinda da lua se infiltrava pelos vitrais, iluminava a capela de modo incomum, e isso me perturbava, eu sentia o brilho da lua penetrar a minha pele através das minhas vestes e sua luminosidade era fria. Me sentei trêmula em um dos bancos, e coloquei as mãos sobre o colo. Fechei meus olhos e deixei minha mente vagar permitindo qualquer pensamento vir, fui invadida por uma fragrância cítrica e nostálgica, que trouxe memórias de infância. Me lembrei de segurar a mão de minha mãe enquanto entrávamos por portas grandes de madeira maciça. A luz do sol sendo filtrada pelos vitrais coloridos, espalhando um arco-íris quase que hipnótico pelo chão de pedra. Me lembrei de correr pelos bancos da igreja, os sapatos ecoando por aquele espaço santo, minha mãe rindo e me chamando para que eu me sentasse ao seu lado. As missas sempre com aqueles cantos alegres que me envolviam com um calor reconfortante, como se eu pudesse sentir o abraço de algo divino. A sensação de pertencimento era incontestável, eu me sentia segura, parte de algo que era muito maior que eu mesma.

Deixei minhas lembranças continuaram a fluir e chegarem à minha adolescência, a igreja que antes era meu lugar seguro, se tornou um local de exclusão. Eu sentia o peso dos olhares de desaprovação, os sussurros abafados quando eu adentrava aquele local santo. As mesmas pessoas que antes me tinham como família agora me olhavam com desconfiança e desgosto. Eu não compreendia o que havia mudado até perceber que a questão estava em quem eu era. O lugar que sempre me acolheu agora me rejeitava, as palavras de carinho se tornaram sermões fervorosos sobre pecado e redenção. Cada palavra era como facas afiadas penetrando minha alma. As palavras de amor ditas no púlpito começaram a parecer cada vez mais contraditórias atreladas com os olhares de julgamentos que passei a receber. E a cada dia a sensação de não pertencimento crescia, aquele lugar sagrado se tornou para mim apenas mais um edifício de pedra, as orações não eram mais um consolo e eu me sentia traída.

Meus pensamentos foram interrompidos por um som etéreo, vozes em coro vindo de todas os lados ao mesmo tempo e ecoando e preenchendo aquela capela, de modo suave cantavam em uníssono de modo quase tangível:

Iesum, salvator mundi. Tue famuli subveni. Quos pretioso sanguine. Quos pretioso sanguine. Redemisti

Apertei os olhos e as mãos com força para tentar controlar meus sentimentos e as sensações que logo me dominariam. Ouvir aquela canção depois de tantos anos irrompeu em mim um sentimento de nostalgia e pesar. Uma voz feminina familiar, vinha do lado de fora, além das paredes de pedra do castelo, começou a cantarolar:

Fairy lady who stands on the walls, life is short and wait is long… — Era a voz da minha amada morta, um soprano angelical que ressoava com um toque sobrenatural. — The stars, away, dim with the dawn, fairy lady who stands on the walls…

Abri os olhos e ao reconhecer a melodia, e logo me levantei. Olhei para os vitrais e a luz azul pálida da lua parecia ter se intensificado. Fui em direção a música que parecia flutuar pelo ar me atraindo para algum lugar fora do castelo. Corri por aqueles corredores de pedra fria, sentia aquele ar gelado queimar os meus pulmões, meu coração palpitava descompassado. Eu podia ouvir meus passos ecoarem naquelas paredes de pedra. A cada curva, um novo corredor, a voz que me guiava parecia estar mais próxima e ao mesmo tempo fora do meu alcance. Os castiçais nas paredes lançavam uma luz rubra que contrastavam com minha ansiedade. Meus pensamentos eram inundados por lembranças, pelas nossas lembranças, fui tomada por uma mistura de medo e desejo. Será mesmo que eu queria vê-la de novo depois do nosso último encontro?

Your tale has only begun, it comes from far, the Nowhereland…

Finalmente cheguei aos jardins do castelo, parei por um momento tentando recuperar o fôlego, me virei em direção a voz, minha respiração ainda ofegante. Olhei para cima e inclinada sobre o parapeito da sacada alta do castelo estava ela. Meu coração pareceu parar por um instante. Era ela com um vestido vermelho vivo longo, de mangas longas com punhos largos, como uma dama de conto de fadas. Curvilínea, saudável e corada, o cabelo comprido escuro em cachos, exatamente como eu me lembrava. Minha amada. 

The wind is blowing a sound well known, fairy lady, your love is long gone…

Ela cantou mais um verso da canção, que era a sua preferida e o tempo pareceu congelar. Eu queria gritar seu nome, mas as palavras ficaram presas na minha garganta. A luz da lua iluminava seu rosto e seu olhar era atraído para ela. E antes que eu pudesse fazer qualquer movimento, ela se virou lentamente, como se tivesse alguém dentro do castelo a chamando, e entrou sem nem notar a minha presença. Dei alguns passos, tentando encontrar fôlego para gritar. “Espera, por favor!” e minha voz saiu como um sussurro que foi levado pelo vento. Ela já havia ido e a visão dela desvaneceu na escuridão do castelo. Fiquei ali, parada, olhando para onde ela estava, sentindo as lágrimas virem e usando toda a força possível para não deixar elas descerem. Eu ouvia apenas o leve som do vento nas folhas.

Inspirei profundamente, segurei o ar por alguns segundos e soltei, virei para a lua cheia que havia chamado a atenção dela. O céu de um azul profundo salpicado de estrelas, e com uma lua descomunal tão perto. Reparei no jardim em que eu estava, envolto em um clima gélido, eu sentia o ar frio cortando a minha pele. Uma nuvem de vapor saía com cada respiração minha. A escuridão naquele jardim só era amenizada pelo brilho daquela lua cheia enorme e opressiva no céu iluminando os chuviscos que começaram a cair. Cada passo meu naquele chão úmido rangia sobre os meus pés enquanto caminhava. Havia estátuas de anjos com expressões melancólicas, de asas abertas ao vazio, damas esculpidas em mármore, com véus sobre seus rostos escondendo talvez semblantes tristes. Naquele jardim havia uma profusão de rosas espalhadas em arbustos, com pétalas de um vermelho sanguíneo que contrastava violentamente com o azul profundo do céu e o branco sobrenatural daquela lua cheia.

Enquanto eu caminhava o chuvisco aumentava, suas gotas frias se misturavam às lágrimas quentes que eu não conseguia mais segurar. As rosas, agora mais úmidas, pareciam mais vibrantes, era como se sangrassem sob a luz da lua. Um perfume adocicado levemente metálico impregnava o ar junto com o cheiro da terra úmida e do musgo sobre o chão e as estátuas. O jardim estava vivo e pulsante e fui invadida por um sentimento de solidão. A chuva aumentou ainda mais, o frio se infiltrou em meus ossos e precisei voltar para dentro do castelo. Corri para ele e escorreguei pisando em poças de água e terra que haviam se formado. Logo me levantei e continuei meu caminho. Todos aqueles corredores longos se tornaram tão curtos na minha volta ao quarto. Meus pensamentos eram um redemoinho confuso de saudade e culpa que me consumiam. Entrei no quarto, um ambiente agora familiar que me proporcionava um mínimo de conforto, com as mãos trêmulas fechei a porta atrás de mim com força numa tentativa vã de me afastar de tudo lá fora. Eu sentia que algo além da tristeza havia entrado comigo.

Tirei as roupas molhadas que agora eram um incômodo, o tecido colado em meu corpo. O vestido molhado que pesava e precisava ser removido como um fardo. Tomei um banho rápido para tirar a lama, mas não consegui tirar a sensação de que tinha algo agarrado a mim. Vesti algo confortável e largo e me deitei cansada. O sono veio logo, mas sem tranquilidade. Estava inquieta, sonhos conturbados agitavam minha mente, uma criatura escondida na escuridão azulada me observando silenciosa. Sua forma era nebulosa, mas sua presença era palpável, senti um peso sobre meu peito, tentei gritar no sonho, mas minha voz não saía.

26 de dezembro - Abri meus olhos e um calafrio percorreu todo meu corpo. No quarto escuro iluminado apenas pela luz da lua, percebi uma presença naquela escuridão azulada. Uma forma indefinida, com olhos como brasa. Meu coração batia descompassado e minha mente tentava racionalizar aquilo como produto da minha imaginação. Mas o medo intenso que me consumia dizia o contrário. Me sentei na cama e a forma sumiu, talvez fosse apenas um resquício dos meus pesadelos. Não consegui mais dormir, então fui usar meus sentimentos para escrever algo que valesse a pena ser lido. Percebi que não amanhecia, a lua continuava lá, cada vez mais brilhante, eu sabia que era manhã, pois o café-da-manhã trazido para mim no mesmo horário acompanhado pelas três batidas na porta já havia chegado. Passei o dia abatida, a presença da criatura ainda fresca em minha mente. Na hora de dormir sentia arrepios constantes e a sensação de ser observada por olhos invisíveis. Mal conseguia fechar os olhos. Sonhei com corredores intermináveis, sempre correndo, mas nunca chegando a lugar nenhum.

27 de dezembro - Acordei assustada, com uma sensação de algo se infiltrando em meus pensamentos. A lua agora parecia assustadoramente mais próxima. A criatura parecia mais distinta dessa vez, os olhos ardendo em chamas. Tentei me apegar aos pensamentos de que ela era apenas fruto da minha imaginação e voltei a dormir um sono agitado. Minhas noites se tornaram um tormento, sonhos terríveis onde minha amada aparecia, os olhos cheios de uma dor incompreensível, a voz melodiosa agora carregada de desespero. E na escuridão azulada, a criatura espreitava, aguardando sua oportunidade.

28 de dezembro - A lua não desapareceu ao amanhecer e sua presença já tornava o tempo irrelevante. Acordei sentindo dores pelo corpo, sensação de fraqueza e náuseas. Mesmo assim sentei-me para escrever e por vezes podia enxergar a criatura pelo canto do olho a me rondar como se esperasse seu momento. A sensação de mal-estar parecia piorar então voltei para cama e adormeci.

29 de dezembro - Os dias se misturavam, eu já não tinha muita certeza de que dia era. Me guiava apenas pelas batidas habituais na porta do café-da-manhã, almoço e jantar. O mal-estar piorará e eu estava febril, uma dor de cabeça lancinante, enjoos incessantes, me levantava da cama com dificuldade. Dormia várias vezes ao dia em uma sequência de tormento e vigília. E sentia a criatura mais próxima a cada abrir e fechar de olhos. Em meus sonhos eu ouvia gritos acusatórios da minha amada me culpando por sua morte. Minha mente parecia à beira da ruptura. A criatura estava mais próxima, quase tocando a cama onde eu dormia.

30 de dezembro? - A lua permanecia no céu, uma sentinela que vigiava meu sofrimento. A febre queimava a minha mente, dores incessantes em meu corpo. Não conseguia mais sair da cama, e a criatura estava tão próxima que eu podia sentir seu hálito gelado, grandes olhos vermelhos brilhando com intensidade, o corpo esquelético, a pele pálida e esticada sobre os ossos protuberantes, parecia faminto com aquele sorriso aberto de orelha a orelha com dentes afiados e amarelos. Comecei a delirar, não distinguia mais o que era real e alucinação. Meus sonhos eram um entrelaçamento de imagens de morte, gritos de agonia, imagens distorcidas. A criatura ao meu lado de olhos fixos em mim, parada apenas a espera.

31 de dezembro? - Mais um dia sem conseguir levantar da cama. A lua parecia estar prestes a devorar tudo ao redor, era tão grande que eu já nem via mais o céu. A criatura estava deitada ao meu lado com o rosto frio bem junto ao meu, seus grandes olhos vermelhos e aquele sorriso incômodo. Com uma mão de dedos finos e longos acariciava minha cabeça como se eu fosse sua cria ou um pequeno filhote, parecia testar minha sanidade. Eu só conseguia me imaginar morrendo ali e meu corpo, talvez devorado, sendo encontrado tempos depois. Tentava me segurar ao pouco de sanidade que eu ainda tinha. Sentia a criatura como um abutre apenas esperando minha morte para se apossar do meu corpo ou saciar seus hábitos necrófagos, ou fazer sabe-se lá o que. A lua, essa entidade, o medo, a culpa, tudo se misturava na minha mente, eu não encontrava mais forças para lutar contra aquilo, eu havia deixado toda a esperança escapar por entre meus dedos febris. Tentava me agarrar ao pouco de sanidade que me restava, mas eu não tinha esperança de que sobreviveria mais uma noite. 


 Nota de rodapé:

1.Jesus, Salvador do mundo / Teus servos te pedem ajuda / Aqueles a quem com teu precioso sangue /Aqueles a quem com teu precioso sangue / Você resgatou

Senhora encantada que espera no muro /A vida é curta e a espera é longa / As estrelas ao longe, enfraquecem com o alvorecer / Senhora encantada que espera no muro / Seu conto apenas começou / Vem de longe, da Terra de Lugar Nenhum / O vento está soprando um som bem conhecido / Senhora encantada, seu amor há muito se foi.

Texto publicado na 6ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de junho de 2024. → Ler edição completa

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5. Castelo Vampírico: Agora conheço em parte, mas, um dia, conhecerei plenamente

Estou há dez dias sem sair do quarto, são muitas as sensações…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Diário de Rute Fasano

23 de dezembro - Estou há dez dias sem sair do quarto, são muitas as sensações, a ansiedade, o medo, a raiva, tristeza, todas elas presas e misturadas na minha mente, borbulhando, e correndo pelas minhas sinapses e causando um estrago no meu psicológico. As únicas coisas que tenho feito esses dias já se tornaram tão rotineiras que nem me dei ao trabalho de escrevê-las diariamente, pois se resumem apenas a acordar, tomar banho, meditar, esperar pacientemente com o ouvido atrás da porta para a boa alma que ainda não conheço e sempre vem deixar o café da manhã, o almoço e o jantar na mesa ao lado da porta do quarto. Nunca vejo essa pessoa, mas ela sempre bate três vezes na porta e sai caminhando a passos lentos e arrastados. Eu só a ouço, porém sempre agradeço com um bilhete escrito à mão. Depois do café da manhã eu escrevo ouvindo música, tem um toca-discos aqui que foi deixado provavelmente por essa pessoa depois do meu primeiro encontro com Drácula.

O som muito específico da agulha passando pelo vinil me faz relaxar, então escrevo até o almoço e depois fico à porta ouvindo, me alimento e coloco o prato e o copo na mesa do lado de fora. Escovo os dentes, releio um pouco do único livro que trouxe. Preciso encontrar uma biblioteca nesse castelo. Volto a escrever até o jantar, volto à porta e escuto, me alimento, faço minhas outras necessidades fisiológicas específicas e tomo banho, escovo os dentes e me preparo para dormir. Me deito e leio até ficar com sono e durmo. Essa rotina é parecida com a que eu tinha fora do castelo, tirando a parte da escrita e adicionando um trabalho repetitivo, fascinante, porém estressante. 

Tenho estado tanto tempo presa no quarto que memorizei todo o ambiente, tanto que consigo perceber quando algo diferente aparece no quarto. A grande cama com dossel, com lençóis de linho na cor verde escura, travesseiros com fronhas bordadas à mão, papéis de parede verdes com arabescos numa tonalidade que parece bronze, há uma escrivaninha de castanho-avermelhado bem escuro perto de uma janela, parece algo de muito boa qualidade, diferente dos móveis de madeira suspeita que tenho em casa. Há uma cadeira da mesma cor onde me sento para escrever, um armário com espelho grande ao lado, uma poltrona em frente a uma lareira que nunca precisei usar, pois aqui parece que o clima nunca muda. Um grande tapete persa com detalhes verdes escuros, diferentes tons de marrons e vinho, a textura macia que me faz andar descalça por ele por horas quando estou bloqueada criativamente ou cheias de questões não resolvidas na minha cabeça, gosto da textura dele em meus pés, me acalma.

Uma vez ou outra eu penso em fugir do castelo e voltar para minha vida, mas me vejo obcecada por algo novo, e só quero saber disso, ouvir e falar sobre isso. E Drácula, o castelo e seus hóspedes são minha nova obsessão, eu quero entendê-los, estudá-los, me aprofundar neles, analisá-los minuciosamente até que eu me sinta saciada por esse conhecimento tão fora do comum, tão fora do meu comum lógico e pragmático. Porém, tenho medo, pois sinto que de alguma maneira, aos poucos, Drácula tem tentado ter controle sobre mim, me controlar como uma marionete, será? Eu não consigo pensar sobre o motivo disso, já que estou aqui por vontade própria. Se ele quer que eu escreva para alimentar ele e o castelo, por mim tudo bem, desde que se mantenha longe das minhas veias e artérias.

Fui despertada das minhas viagens dentro da minha mente pelas batidas na porta fora dos horários habituais, fui até a porta e pude ouvir os passos se distanciaram, era a mesma pessoa de sempre, já conheço seus passos. Abri e tinha uma grande caixa baixa, porém larga com um envelope vermelho e preto adornado de arabescos dourados, abri o envelope e aqui escrito com uma bela caligrafia, escrito dessa forma:

“Prezada Rute,

É com imensa honra e profundo fascínio que lhe envio esta carta, convidando-a para o anual Baile de Máscaras do Castelo Drácula. Este é um evento de requinte e mistério, onde o traje formal é obrigatório, e uma máscara é imprescindível.

À meia-noite, será servido um banquete memorável, seguido pelo brinde com nosso especial liquor-carmesim, servido em taças de diamante vestal, para celebrarmos o ápice da Lua Cheia. A música encantadora nos acompanhará até às três da manhã, momento em que solicito gentilmente que nossos estimados hóspedes retornem aos seus aposentos.

Sua presença, sem atrasos, é solicitada para as dezenove horas de amanhã. Esperamos ser agraciados com sua presença sublime neste deslumbrante evento.

Com respeito, Conde Drácula"


Dentro da caixa havia um belo vestido preto, com pequenos bordados dourados no busto parecendo estrelas num céu negro, godê longo, acinturado, gola alta, mangas longas bufantes, o tipo de vestido que eu usaria se eu tivesse o hábito de usar vestido. Junto a ele também havia uma máscara grega trágica negra com uma lágrima dourada do lado direito. Um baile mesmo que pareça um evento social assustador que já me causa certa comichão, é também uma oportunidade de saber mais e ainda, quem sabe, poder me encontrar com outros hóspedes. Tenho que preparar meu psicológico para isso e aproveitar essa oportunidade. 

24 de dezembro - Chegou o dia do baile, e eu estaria mentindo se dissesse que estou preparada para ele. Uma vez li que quando você tem medo de uma situação e a faz mesmo assim, isso é coragem, então tenho que ir e acreditar que sou corajosa, pois de que outra forma eu conseguiria saciar essa minha curiosidade, se não fosse enfrentando meus medos?

Me vesti, prendi meus cabelos atrás, deixando algumas tranças soltas, estava ansiosa demais para planejar um penteado mais elaborado. Coloquei minhas botas confortáveis, mesmo que junto à caixa estivessem saltos adequados para a festa, eu não conseguiria usá-los. O vestido longo escondia um pouco dos meus sapatos, além deles serem mais úteis caso eu precisasse correr. Me olhei no espelho e o que vi me agradou. Coloquei a máscara que me obrigou a deixar os óculos de lado, pois não dava para usar os dois. Respirei fundo e saí do quarto, e como sempre eu não sabia o caminho, mas sabia como chegar lá.

No salão de baile, com lustres e candelabros majestosos, todos bem-vestidos, com uma diversidade de máscaras bem decoradas, músicos tocando uma música num volume agradável, pessoas conversando, outras rindo, a maioria dançando, olhei ao redor tentando ver se reconhecia alguém mesmo com máscaras, mas não fui bem-sucedida, fiquei um longo tempo no canto apenas observando. A única pessoa que reconheci pelo jeito de se movimentar foi Drácula. Vestido com requinte, todo de preto, com a camisa de seda de um vermelho vivo brilhante, uma sobrecasaca preta com bordados dourados e o forro escarlate. Ficou um tempo conversando com os convidados e dançou com alguns deles. Olhou em minha direção e era como se soubesse que eu os estava observando, veio andando e eu podia sentir cada passo seu. Respirei fundo e me preparei.

— Permita que eu conduza? — Ele disse estendendo a mão para mim, olhei para ele e concordei com a cabeça sem pensar demais. Dançamos em silêncio por algum tempo, até ele quebrar o silêncio:

— Ah, sim, os bailes de máscaras... uma festa para os vivos, onde escondem suas verdadeiras faces por trás de máscaras elaboradas. Interessante observar como revelam mais de si mesmos do que jamais admitiriam em suas formas mundanas.

Silencio entre nós novamente:

— Entendo suas hesitações, minha cara, seu desejo de às vezes escapar deste lugar que pode parecer uma prisão. Mas saiba que posso oferecer a você e a todos os que aqui estão algo muito mais profundo do que simples entretenimento. Posso saciar a sede insaciável de vocês por inspiração e conhecimento, através de meios que alguns considerariam sombrios. E eu sei que você compreende o preço que deve ser pago por tal conhecimento?

Nada do que ele estava dizendo era mentira, desde que entrei no castelo as ideias fervilham da minha mente, mesmo que às vezes eu não consiga colocá-las no papel, elas estão lá se debatendo para serem criadas e escritas. Essa situação não era nem um pouco agradável para mim, como no nosso último encontro, sua presença tentava impor tranquilidade, mas ele estava tão perto de mim, mais perto do que permito a maioria estar, era desagradável, pois meu corpo lutava contra essa imposição. Não conseguia responder nada a ele, a proximidade me deixava sem palavras, só olhava através dele e percebia seu sorriso pelo canto do olho.

— Ah, minha querida, não se preocupe. Estou aqui apenas para facilitar sua adaptação neste ambiente. Jamais a forçaria em algo que não desejasse. Afinal, você veio ao baile por sua própria vontade. Como um verdadeiro cavalheiro, sempre solicito permissão, mesmo para os atos mais... sombrios, por assim dizer. Embora possam não ser explicitamente revelados. — Ele sorriu ao dizer isso. — Veja, não há necessidade de se sentir obrigada a me acompanhar nesta conversa, se assim não desejar. Simplesmente desfrute da dança, entregue-se ao ritmo e deixe-se levar pela atmosfera deste lugar.

Mesmo que aquele sorriso fosse uma tentativa de me acalmar, seus caninos brancos e protuberantes me causaram arrepios. Quando estou muito ansiosa com um alto nível de adrenalina, não consigo pronunciar nem uma palavra sequer e, então, a única coisa que me foi possível foi concordar com a cabeça. Dançamos, ele me conduzia, e para mim era difícil me deixar conduzir quando eu sempre conduzia na dança, sempre seguia os mesmos passos básicos, não importava a dança. Ele me conduziu de maneira tão suave que era como se eu sempre tivesse dançado nos passos dele. 

— Não vá tão precipitadamente, minha cara. Lembre-se de sua inata curiosidade científica. Se partir agora, perderá a oportunidade de compreender tudo isso. Permita-se um momento para acalmar os ânimos. Talvez uma breve caminhada para espairecer, uma conversa amistosa com os demais presentes, desfrutar da comida e da bebida, tentar se integrar socialmente... ou, se preferir, a opção da fuga sempre está disponível. Faça o que julgar melhor para si. — A música havia terminado. — Porém, antes que siga seu caminho, permita-me um gesto de cortesia. — Ele segurou minha mão e depositou um leve beijo sobre ela, fazendo uma reverência. — Devo agora dispensar-lhe minha atenção, pois há outros hóspedes e convidados a quem devo dedicar minha presença. Afinal, há mais danças não solicitadas a serem atendidas. — Com um sorriso sutil, ele se virou e se afastou, entre os demais convidados.

Vi-o andar resoluto por entre os convidados e soltei o ar, era como se eu tivesse prendido minha respiração sem perceber todo o tempo em que estava com ele. Fui aproveitar um pouco do baile antes de fugir para meu quarto, me sentei e comecei a olhar todos em volta, reparando em suas belas máscaras e vestimentas, tudo tão elegante. Os passos ecoados pelo chão de mármore, a música suave que agora tocava enquanto todos dançavam e se divertiam, a decoração e o grande banquete era de encher os olhos, eu estava deslumbrada. Peguei uma taça cristalina com um líquido escarlate que me foi oferecida, aparentemente já era meia-noite e brindaríamos o ápice da lua cheia. Torci para que não fosse sangue ou vinho, eu nunca bebo vinho. Levantei um pouco a máscara para tentar sentir o cheiro que exalava e não parecia nenhum dos dois, virei a taça nos lábios para experimentar e o sabor que sentia de um amargor adocicado, eu podia sentir uma textura aveludada que envolvia minha língua. Tomei coragem e tomei logo um gole, me deleitei com aquela sensação, e aquele gole foi o bastante para me conduzir a outro mundo, tão rápido como um piscar de olhos.   

Esse mundo era uma cópia sombria do castelo com cheiro sutil ferroso de sangue fresco com um fundo de rosas. E, para meu pavor, todos os presentes emanavam uma aura pesada e, de alguma forma que não sei explicar, eu sabia que eu era a única humana ali. Eu estava aterrorizada naquele lugar suntuoso, mas tinha que passar a impressão que fazia parte daquilo, tudo era como no castelo original, só que mais sombrio, mais pesado e frio. Andei entre eles e encontrei todos os hóspedes do castelo que eu já conhecia de vista e, junto a eles, outros que eu ainda não havia visto. 

De alguma forma, dentro de mim, eu sabia que todos eram vampiros ou qualquer outra criatura sobrenatural que eu não conseguia identificar, todos com máscaras que cobriam apenas os olhos, todos bem-vestidos, conversando e entre si. Então eu vi uma mulher de olhos amarelos como de um gato, cabelos negros longos e volumosos, pele lisa de um marrom translúcido brilhoso e sobrenatural que permitia que eu visse suas veias esverdeadas em todo seu rosto, busto e braços, com um vestido vermelho decotado, a saia com camadas pretas e vermelhas com rendas douradas em suas bordas e uma fenda que deixava exposto sua coxa esquerda, um corpete preto justo, joias douradas em profusão, envolta em um ar de mistério e sensualidade, tão bela e assustadora como eu jamais seria. 

Conversava tranquilamente e se expressando com as mãos e o rosto, parou e olhou para mim, sorrindo com os incisivos e caninos brancos à mostra, lábios grossos com vermelho carmesim, fiquei chocada a ponto de rir daquela situação surreal ao qual eu estava presente, não havia bebido tanto assim para me transportar para o universo espelho tal qual como em jornada nas estrelas, onde eu encontraria minha “gêmea do mal”. Coloquei as mãos no rosto só para me certificar que eu ainda estava de máscara, imagine a minha surpresa quando ela veio em minha direção:

— Já estou tão acostumada com o funcionamento do castelo que encontrar minha doppelgänger não me surpreende. É difícil se esconder de você mesmo por trás de uma máscara, quando se conhece tão bem. Não preciso me preocupar em ser apunhalada ou ter que te apunhalar, espero?

Era como olhar um espelho onde eu via uma versão inverossímil, porém atraente de mim mesma, tão assustadoramente imponente, terrivelmente bela que me despertou uma vontade incontrolável de interrogá-la para saber mais sobre ela. Eu tinha tantas perguntas, e também com quem mais eu poderia encontrar as respostas que eu precisava senão comigo mesma? 

Texto publicado na 5ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de maio de 2024. → Ler edição completa

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Escrito por Valesca Afrodite, -Artigos Valesca Afrodite Gomes Escrito por Valesca Afrodite, -Artigos Valesca Afrodite Gomes

Drácula, Morcegos, Vampiros e Tudo Mais

A história dos vampiros remonta a tempos muito antigos, tão antigos que é difícil determinar sua origem precisa. No entanto, sua associação com os…

The Vampire (1897) by Philip Burne-Jones

A história dos vampiros remonta a tempos muito antigos, tão antigos que é difícil determinar sua origem precisa. No entanto, sua associação com os morcegos só foi estabelecida entre 1756 e 1763, quando o naturalista francês Conde de Buffon fez a ligação entre o morcego hematófago da América do Sul e o mito do vampiro em seu livro "Histoire naturelle, générale et particuliére (1749-1767)". Antes disso, havia apenas alguns relatos, no século XVI, de exploradores europeus que observaram morcegos se alimentando de sangue na América do Sul.

Em 1839, durante sua expedição a bordo do HMS Beagle, Charles Darwin fez uma observação crucial ao descrever a primeira observação direta de um morcego vampiro verdadeiro, o Desmodus rotundus, se alimentando de sangue. Este evento foi fundamental para inspirar a representação dos vampiros com características e comportamentos parecidos aos dos morcegos na literatura, como visto em uma ilustração de “Varney, o Vampiro” de James Malcolm Rymer (1845). As características que morcegos e vampiros têm em comum são incisivos afiados (apenas no caso de Nosferatu, os demais vampiros costumam ter os caninos afiados), se alimentam do sangue de outros mamíferos, possuem haréns, gostam de locais escuros e ambos também são mamíferos. 

Apenas em 1897 que a ligação entre morcegos e vampiro ficou popular com a publicação do livro “Drácula”, onde Bram Stoker juntou o folclore da Transilvânia, com morcegos-vampiros e Vlad, o Empalador. Quando Stoker escreveu Drácula em 1890, alguns dizem que ele encontrou uma notícia em um jornal de Nova York que falava sobre os morcegos-vampiros, o que pode o ter inspirado, com isso a relação morcego e vampiro se consolidou mais ainda, porém ele preferiu ignorar o fato que o morcego-vampiro é uma espécie bem pequena com 9 cm de comprimento, pois toda vez que ele cita o morcego no livro ele o descreve como “um grande morcego”.

Pintura a óleo de Vlad Țepeș no Palácio de Ambras, Áustria, datada de 1560

Existe teoria de que Bram Stoker se inspirou na história de Vlad, o Empalador para escrever o livro de Drácula, mas não há comprovações para isso, aparentemente ele apenas viu o nome Drácula em um livro numa biblioteca e usou o nome por significar “diabo” em romeno para alguns mais supersticiosos e inimigos de Vlad. O nome “Draculea” tem como significado o filho do dragão. Porém, há quem diga que ele compôs a aparência de Drácula numa mistura de Henry Irving, ator e amigo de Bram, isso foi confirmado pelo próprio Bram e o poeta Walt Whitman, a quem ele admirava muito, há outras teorias de que Drácula pode ter se inspirado em Oscar Wilde, ao qual supostamente cortejava Florence Balcombe, que depois veio a casar-se com Bram. Talvez ele tivesse uma homoafetividade reprimida, e usou a personalidade de Oscar Wilde, que era na época considerado perigoso, porém fascinante, para compor Dracula. Tudo isso torna o livro de Bram Stoker ainda mais interessante.

Desmodus rotundus | Link | Autor: © Roberto Leonan Morim Novaes

Bram Stoker se inspirou bastante no folclore romeno para criar sua narrativa, inspirado por conversas que teve com o aventureiro Arminus Vambery e o  explorador Henry Morton Stanley conhecidos seus do Beefsteak Club, que Henry Irving também fazia parte, principalmente Vambery que conhecia profundamente a cultura, o folclore e as paisagens da Transilvânia, assim o príncipe Vlad III Dracul da Valáquia ou Vlad, o Empalador se tornou também o conde Drácula, o nome Empalador veio por conta do hábito de Vlad III Dracul executar suas vítimas, ele recorria ao empalamento para assustar o exército Turco que na época queria conquistar a Valáquia, diziam que ele gostava de olhar as vítimas empaladas enquanto se banqueteava, ainda havia quem acreditava que ele bebia o sangue dessas vítimas. Para alguns ele era um sádico, mas para o povo da Valáquia um herói que manteve os Turcos longe por algum tempo, por conta de tantos mitos e histórias relacionadas a ele, como a crença de que bebia sangue, de que era imortal e segundo algumas análises químicas feitas em cartas de sua autoria, ele poderia ter hemolacria, uma doença rara que faz a pessoa chorar sangue, o que dava a ele uma essência mais mítica. A figura histórica e a fictícia de Drácula acabaram por se tornar uma só. 

Diphylla ecaudata | Link | Autor: © Roberto Leonan Morim Novaes

Diaemus youngii | Link | Autor: © Roberto Leonan Morim Novaes

No livro o conde Drácula além de beber sangue e ser imortal se transforma em morcego e sai à noite para ingerir sangue. Existem cerca de 1400 espécies de morcegos no mundo, no Brasil existem cerca de 180 espécies e de todas essas apenas três são hematófagas, ou seja, se alimentam de sangue. Essas únicas três espécies de morcegos-vampiros só existem na América do Sul e na América Central, são elas: O morcego-vampiro-comum (Desmodus rotundus), espécie que se alimenta de mamíferos. O morcego-vampiro-de-asas-brancas (Diaemus youngii), que tem preferência por aves. E o morcego-vampiro-de-pernas-peludas (Diphylla ecaudata), que também tem preferência por aves. Os morcegos da Europa são insetívoros, eles se alimentam de insetos, então se o Conde Drácula saía à noite para se alimentar, era somente de insetos, mas o nome “Comedor de insetos” não traria tanto terror às suas vítimas quanto o nome “O bebedor de sangue”. Dessas espécies hematofagas também temos o extinto morcego-vampiro-gigante (Desmodus draculae) que provavelmente se alimentava de preguiças-gigantes e mamíferos gigantes. Seu nome é uma homenagem ao Conde Drácula. Mesmo que envoltos em mitos, os morcegos são criaturas de grande importância na nossa ecologia, não importando como a mídia os tenha mostrado, não são criaturas más, apenas pouco compreendidas, dessa forma é muito importante a preservação dessas criaturas da noite que, são tão diversas, que não se resume apenas a consumir sangue.

Referências: 

DARKSIDE. SERIA DRÁCULA INSPIRADO EM OSCAR WILDE?: Relação entre o autor e Bram Stoker ia além do triângulo amoroso com Florence Balcombe. [S. l.]: Darkside, 18 fev. 2022. Disponível em: https://darkside.blog.br/seria-dracula-inspirado-em-oscar-wilde/. Acesso em: 12 mar. 2024.

PITTALÀ, Maria G. G. et al. Count Dracula Resurrected: Proteomic Analysis of Vlad III the Impaler’s Documents by EVA Technology and Mass Spectrometry. [S. l.]: ACS Publications, 8 ago. 2023. Disponível em: https://pubs.acs.org/doi/10.1021/acs.analchem.3c01461. Acesso em: 15 mar. 2024.

PROJETO MORCEGOS NA PRAÇA. História da Magia: O Mito de Drácula. Rio de Janeiro. 23 fev. 2023. Instagram: @projetomorcegosnapraca. Disponível em  https://www.instagram.com/p/CpBbKhTpCRy/. Acesso em: 11 mar. 2024

PROJETO MORCEGOS NA PRAÇA. Quem veio primeiro, o morcego ou o vampiro?. Rio de Janeiro. 29 nov. 2021. Instagram: @projetomorcegosnapraca. Disponível em  https://www.instagram.com/p/CW4HCfWpMsy/?img_index=1. Acesso em: 11 mar. 2024

NESTAREZ, OSCAR. De volta à estaca zero - uma jornada pela criação de ‘Drácula”. Barueri: Novo Século, 2021 (Suplemento literário).

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa

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4. Jardim da Morte

Na penumbra de um jardim oculto, úmido e sombrio, onde não existe tempo, onde todas as coisas sempre estão perto de findar, porém nunca se extinguem…

Kay Steventon -  The Wheel of Fortune

Na penumbra de um jardim oculto, úmido e sombrio, onde não existe tempo, onde todas as coisas sempre estão perto de findar, porém nunca se extinguem; onde as flores eternamente exalam seu perfume como suspiros finais e os raios de uma lua cheia incomum derramam-se pálidos sobre a relva, uma mulher está sentada esperando. Os animais que lá estão já não podem ser diferenciados dos objetos que compõem aquele cenário, pouco se movem e mal fazem ruídos, parecem apenas aguardar, se ouve apenas o sussurro inquietante do vento, como se fosse um eco dos lamentos dos que se foram. Uma ceifadora, envolta com sua capa negra como uma mortalha, chega e se senta de frente à mulher em uma mesa de mármore gasta, com fissuras e imperfeições. A mulher, que aparenta estar habituada a toda aquela encenação, inicia a conversa:

— Vamos jogar xadrez desta vez?

A ceifadora responde com uma voz calma:

— Hoje não, deixarei você escolher.

A mulher, imersa em seus pensamentos, lembra-se que em vida era boa com cartas:

— Vamos jogar carteado dessa vez, nesse eu sou boa. — Murmura ela, com uma pontada de esperança de que dessa vez iria ganhar.

A ceifadora pega sua maleta, um artefato antigo coberto de runas estranhas, e tira um baralho tarô. As cartas, gastas pelo tempo, são embaralhadas com um ranger sinistro.

— Sério? Você vai ler meu futuro? — A mulher pergunta, com um riso nervoso. — Estou morta, não tenho um futuro.

— Apenas vamos jogar e ver o que pode acontecer. — Responde a ceifadora.

Com habilidade ela segura as cartas como se fosse um leque e olha para a mulher: — Tire uma carta, para que se dê início ao jogo.

A mulher olha a ceifadora com dúvida e pergunta:

— O que isso significa? Normalmente você é quem escolhe o jogo e é a mais falante e agora fica nesse silêncio e me pede para escolher uma carta? — A mulher dá mais um riso nervoso — Não era esse tipo de jogo que eu estava falando, há algo que eu preciso saber?

A ceifadora suspira e olha para a mulher:

— Há certas regras aqui no Sheol que não posso burlar, porém há outras que algumas pessoas que estão fora dele podem. E é isso que estou fazendo agora, fazendo um favor a um conhecido que pode burlar essas regras. Então apenas escolha a carta.

A mulher fita as cartas com uma mistura de temor e esperança. Sem saber muito bem o que esperar. A mulher tirou uma carta do leque e entregou à ceifadora que sorriu e mostrou a ela a carta.

— Ótimo, la roue de fortune. — Cantarola a ceifadora numa pronúncia perfeita e musical — A roda da fortuna.

— E isso significa que? — A mulher pergunta curiosa.

A ceifadora sorriu para ela, segurou as mãos da mulher e falou:

— Essa carta significa o ciclo da vida e com ela irei dar a você a oportunidade de ver a sua amada, pois eu sei que isso que passa pela sua cabeça o tempo inteiro, não é?

— Sim, isso passa pela minha cabeça sempre, falo sobre ela para você o tempo todo, mas se ela tiver que morrer para que isso ocorra eu prefiro não a ver.

A ceifadora falou: — Nesse momento ela está num local envolto em magia, num local de vivos, mortos e não tão mortos — a mulher arregalou os olhos — Calma, ela está viva e consciente, é claro — disse a ceifadora acalmando a mulher — Então será possível que vocês tenham um breve encontro, nesse exato momento, então aproveite.

— Eu tenho que ir? — A mulher fez uma careta.

— Oras, mas é claro, estou te dando a oportunidade de encontrar a sua amada em um lugar além dos véus da morte. Só aproveite, nem todos têm a chance de reencontrar os que perderam.

— Isso meio que parece uma pegadinha — diz a mulher ainda em dúvida.

— Oras, querida, apenas vamos, não há muito o que se fazer aqui no Sheol, um passeio fora irá ser bom para você, e não se preocupe, estarei por perto para te trazer de volta. — A ceifeira se levanta sorrindo e segura a mão da mulher — Então, vamos?

A mulher fecha os olhos e inspira profundamente e solta o ar por hábito: 

— Sim, vamos, não é sempre que algo diferente ocorre nesse lugar. 

E assim, uma porta roxa, adornada de arabescos prateados nas bordas envolta em uma névoa púrpura se materializou, a mulher e a ceifadora desaparecem daquele jardim incomum, deixando para trás apenas o eco de suas palavras e as cartas sobre a mesa.

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa

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Escrito por Valesca Afrodite, -Poesias Valesca Afrodite Gomes Escrito por Valesca Afrodite, -Poesias Valesca Afrodite Gomes

Plácido Jardim

Plácido é o jardim onde posso me deitar | E simplesmente descansar | Alimentar as árvores com meu corpo, | Fazendo parte delas e elas de mim…

Plácido é o jardim onde posso me deitar 
E simplesmente descansar
Alimentar as árvores com meu corpo, 
Fazendo parte delas e elas de mim
Simples assim, afundar na terra 
E quem sabe ser alimento, 
adubo para esse calmo jardim
Consumida lentamente pelo solo,
que usufrui de mim 
Que faz parte de mim e eu dele, 
Aqui sozinha, porém rodeada de vida 
Na morte do que fui, e trabalhei para ser
Destituída das máscaras que construí 
Para no fim, enfim
Ser útil a esse sereno jardim
Deitada no solo eu olho as estrelas e tudo o mais não importa
Apenas o verde e o marrom me acomodam
E isso é o bastante para descansar
Sim! Tenho certeza absoluta 
de que esse de fato é o meu lar
Fico calma sem movimentos
Sem sonhos e pesadelos
Sem esperanças e frustrações
E descanso, aqui jaz e até que enfim
Finalmente em paz.

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa

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3. Castelo Vampírico: Agora e na Hora de Nossa Morte

Diário de Rute Fasano. 12 de dezembro - Depois daquele encontro com Drácula…

Criado para o Castelo Drácula com Midjourney

Diário de Rute Fasano

12 de dezembro - Depois daquele encontro com Drácula, pude me sentir inspirada o bastante para escrever. Aquilo foi um pouco parecido com a experiência que tive quando minha terapeuta me recomendou usar 2g do Psilocybe cubensis para tratar minha ansiedade, foi uma experiência ao qual eu não estava preparada e não sei definir se foi boa ou ruim, uma mistura de medo e prazer, inquietação e paz, que não quero repetir por ser algo muito imprevisível. Mesmo que depois dela eu tenha me tornado mais funcional por um breve momento. E assim como a viagem de cogumelo, eu não sei definir se quero outro encontro com Drácula. Esqueça as flores, esqueça o afeto por elas. Eu gostei daquele gesto, mas a experiência que veio antes eu não consigo definir bem o bastante para saber se quero repetir.

Estou um pouco irracional ultimamente, mesmo sendo bastante mente aberta e curiosa por demais, tem coisas que tem acontecido que estão além de uma explicação racional. Uma delas é essa minha vontade de andar nas madrugadas pelo castelo, feito aquelas damas de filmes góticos antigos com vestidos esvoaçantes e castiçal em mãos. Outra é a sensação latente de que eu irei ouvir a voz da minha amada a qualquer momento como um o sussurro do vento e seus dedos gélidos baterem à minha janela para que eu a deixe entrar. Isso faz com que eu queira perambular pelo castelo e apenas voltar para o quarto quando tiver que dormir. E realmente foi o que fiz, perambulei por todo ele sem encontrar uma alma viva ou morta. Investigando cada local que fosse possível e memorizando todos os caminhos que eu poderia passar sem que ninguém me percebesse.

13 de dezembro - Essas madrugadas de caminhada pelo castelo tem sido um bálsamo para mim, sem aquela ansiedade anterior que eu tinha de talvez encontrar Drácula ou um hóspede do castelo. Sei que uma hora ou outra terei que me dirigir a eles e compartilhar minhas dúvidas e reflexões sobre esse local que agora todos habitamos. Mas ainda não sinto que é chegada a hora. Estou escrevendo alguns contos, mas não os sinto bons o bastante, aquela sensação latente de sair do quarto tem me agitado, mais tarde sairei para caminhar.

Mais tarde - Escrevo isso com ódio, com um choro preso na garganta e usando tanta força para escrever que chega a marcar o papel. Fui, como de costume, perambular pelo castelo como há quatro dias já havia feito e caminhando pelos mesmos caminhos que eu havia memorizado. Me perdi por um momento em pensamentos sobre o que escrever dessa vez, o que fez com que eu caminhasse sem rumo. Encontrei uma capela abandonada em ruínas, odor de mofo entranhado nas paredes de pedra, bancos de madeiras todos danificados, castiçais com velas velhas e quebradas com suas chamas extintas, mesmo em destroços e esquecida, havia nela traços de que um dia fora bela e imponente, ainda era bela da sua maneira. Vitrais coloridos quebrados que em outros tempos mostravam imagens sacras, um crucifixo de ouro envelhecido acima do altar ao qual não pude olhar atentamente, pois a grande bíblia sobre o ambão tomou toda a minha atenção. Suas páginas estavam amareladas pelo tempo, porém intactas em comparação a todo o cenário envolta dela, aberta aguardando para ser lida. Toquei suas páginas e como esperado estava no salmo 91, porém marcado com o que parecia ser sangue seco estava o salmo 89, tentava em vão conseguir ler o versículo 48 que estava mais manchado, até que ouvi um sussurro muito perto do meu ouvido a pronunciar essas palavras:

— Que homem pode viver e não ver a morte, ou livrar-se do poder da sepultura?

Surpreendida, olhei a pessoa dona daquele sussurro, uma figura translúcida oscilante, vestida de branco, me aproximei devagar, sentindo o peso do meu próprio desconforto e angústia aumentarem. Seus olhos castanhos claros e a palidez sobrenatural que sempre a envolvera. Era ela, aquela que amei incondicionalmente sem nunca entender o porquê. Aquela que sempre soube que havia algo errado comigo, que via além das máscaras que eu usava para enfrentar o mundo, que compreendia minhas obsessões estranhas e meus medos mais profundos. Aquela que o nome eu nem sequer ouso mais pronunciar. Olhou-me com aquele seu olhar paciente e gentil e aquele sorriso doce que sempre me desarmava, e naquele momento minha mente se esqueceu do motivo de estar ali, pois nada mais importava. Tomei ela nos braços, senti-a com todo o meu corpo e meu coração, sentindo seu cheiro doce, fresco e leve. A beijei sem pressa como se nunca tivesse partido, ela me olhou ainda sorrindo e se desvencilhou delicadamente, segurou minha mão esquerda, e colocou minha mão em sua cintura e depois pôs a mão em meu ombro, e começamos a valsar, naquele silêncio incômodo, como nos velhos tempos. Dançamos, não sei por quanto tempo, até que abruptamente rodopiamos uma, duas, três, quatro vezes, ela olhou em meus olhos e curvou o corpo para trás com certa violência no meu braço direito e parou, e era como se eu tivesse despertado para aquele momento. Tudo aconteceu tão rápido que fui impedida de conseguir fugir da situação que me paralisou.

O pouco de cor que sua pele pálida tinha foi roubado, tornando seu rosto uma máscara de cera, seu belo rosto desvanecendo em um grito surdo. Aquela casca vazia, mole e sem movimentos. Pesada em meus braços, e sendo um peso sufocante em meu coração. Havia vozes, vindas não sei de onde, em uníssono sussurrando como em uma oração: — Pallor Mortis.

Seu corpo começava a pesar mais e mais, fazendo com que eu fosse obrigada a me sentar e acomodar melhor seu corpo sem vida, um frio gélido a envolveu, penetrando minha carne, me causando calafrios e um ardor nos olhos, como se eu tivesse em meus braços um mármore gelado. As vozes novamente: — Algor Mortis.

Eu tentava aquecê-la em vão, impedir que se fosse, friccionar sua pele, mas nada adiantava. Seus músculos se enrijeceram, uma imobilidade agonizante, deveria tê-la soltado para que não presenciasse mais nada daquilo, só que não havia coragem em mim para deixá-la sozinha mais uma vez. Vozes: — Rigor Mortis.

Sua pele começou a adquirir tons avermelhados profundos, com sangue estagnado nas extremidades, marcando seu corpo agora inchado, meus dedos afundaram na sua carne mole e apodrecida enquanto eu a banhava em lágrimas que não conseguia conter, pois, a cada estágio, sua falta de vida era um peso no meu coração, que me consumia e matava aos poucos. Vozes: — Livor Mortis.

Seu corpo começou lentamente a se desfazer nos meus braços, deixando seu rosto disforme, desconhecido. O odor repulsivo e forte, já conhecido meu, invadiu minhas narinas e adentrou a minha garganta, sentir ele tão fresco, tão perto, era lancinante, fazia revirar o meu estômago e tentava me controlar para não regurgitar, o que foi em vão, pois além de lágrimas, também a sujei de restos malcheirosos do meu estômago. Vozes: — Putrefação.

Ela foi resumida a um esqueleto com vestígios de algo que antes seria alguém. Despida de sua antiga beleza, para uma beleza macabra, sem carne, envolta num manto alvo, como uma santidade cadavérica. Vozes: — Decomposição.

As vozes em coro silenciaram. Seu esqueleto em meus braços. Vestígios de tudo que foi e nunca mais será. E eu presenciei cada etapa de seu inevitável fim. Aquele fim que imaginei detalhadamente quando a deixei sozinha apodrecendo naquele cemitério. Ela definhou em meus braços, pela segunda vez. Entre lágrimas e dor, vi-a morrer pela segunda vez. Meu olhar então se voltou para a cruz que antes eu não havia dado atenção, e lá, em lugar do Cristo morto, vi uma figura que me encheu de ódio. Era um Jesus vampírico, uma distorção grotesca daquilo que um dia acreditei por ela. Na primeira morte dela, reneguei Deus; agora, diante dessa imagem profana, reneguei Drácula, por me fazer passar por essa agonia novamente. Seu sorriso maldito parecia zombar de minha dor, alimentando ainda mais a minha revolta.

Ele desceu lentamente daquela cruz, como uma figura divina, era como se o tempo desacelerasse ao seu redor, coroado e envolto em um manto de sangue e carne, extremamente pálido como se não houvesse sangue em seu corpo. Eu tremia, não queria mais nenhum encontro com Drácula, mas aqui estamos novamente, e eu o temo e o odeio, porém sua figura parecia obrigar uma contemplação forçosa e uma paz ilusória que lutei para não me permitir sentir. Não agora, pois naquele momento eu precisava odiá-lo. Cada vez mais, a presença opressiva de Drácula se fazia sentir, seu olhar penetrante atravessando minha alma enquanto eu lutava para manter minha mente própria. Não queria permitir que ele exercesse nenhum poder sobre mim.

Eu estava perdida naquela capela abandonada, presa entre o céu e o inferno, entre o amor e o ódio, entre a vida e a morte. Talvez condenada àquele purgatório que era o castelo, uma prisioneira, talvez assim como Drácula. Sua presença me oprimindo, e com um comando de mãos, como da última vez, me fez despertar mais uma vez em meu quarto, onde estou nesse momento a escrever meu segundo encontro com ele.

P.S. Talvez Drácula, tentando pensar racionalmente agora, use desses subterfúgios para que os que estão no castelo se sintam mais inspirados, ou tenham sobre o que escrever, talvez olhar nossa dor, analisá-la e escrever sobre ela, não sei. Só sei que ele ultrapassou alguns limites nesses seus métodos. Usou de coisas que eu tentava esquecer ou achei que deveria esquecer. Outra coisa que percebi foi que em nossos encontros, nunca trocamos palavras, mas sim pensamentos, sensações, como se respeitássemos mutuamente a decisão de manter o silêncio. Ainda não o compreendo e isso me perturba, porém naquele momento terrível, pude compreender que minha jornada estava bem longe de terminar. 

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa

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Morto-Vivo

No altar o odor pútrido paira no ar, | Nessa igreja de cadáveres esquecidos, | Seu jardim sagrado é o cemitério, | Onde os mortos estão escondidos…

Foto de Zoltan Tasi 

No altar o odor pútrido paira no ar,
Nessa igreja de cadáveres esquecidos,
Seu jardim sagrado é o cemitério,
Onde os mortos estão escondidos
Estou rezando e sentindo o péssimo odor do altar
Meu senhor está morto-vivo, morto e eu também vou estar

A terra engoliu todos aqueles corpos
Entre gemidos e lamentações
Neste santo jardim mal cuidado com odor de podridão
Eu vejo um manto de trevas cobrir o pouco de devoção que restou 
Do alto do altar a morte se ergue em sua glória
Meu senhor está morto-vivo, morto e eu também estou

Os fiéis se curvam em dor
Sinto o odor pútrido, doce e forte
Ouço um hino sem o fim do redentor
Em meio a oração uma presença se manifestou
Vejo suas cicatrizes e seu sangue seco
Meu senhor está morto-vivo, morto-vivo e eu também estou

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa

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Tumba para duas

Escrevo essas palavras sabendo que você nunca as lerá, | Mesmo assim mergulho em minha alma com ansiedade | Nesta noite turbulenta que agita a minha mente…

Foto de Veit Hammer

Escrevo essas palavras sabendo que você nunca as lerá,
Mesmo assim mergulho em minha alma com ansiedade
Nesta noite turbulenta que agita a minha mente
E as escrevo sem piedade,
Pois me odeio nesse momento por respirar sem a sua presença,
Percebo como é doloroso viver,
Sabendo que tudo que faço ou irei fazer
Não será mais do seu conhecimento.
Nem meus pensamentos,
Nem meu dia-a-dia a partir do momento de sua partida
Já que não está mais aqui,
Desejo apenas não sentir,
Não ter esses sentimentos,
Talvez atenuá-los e seguir minha vida,
Mas todos os caminhos que sigo me conduzem a você
E as vezes eu quero poder te fazer companhia,
Descansar, como você faz, na terra fria
Aquilo que outrora nos unia, agora parece uma barreira
Oh vida, como gostaria de dissolvê-la
Para nos deixar a sós novamente
As vezes ouço sussurros e passos,
E me percebo te procurando,
Como se de algum lugar você estivesse me assombrando
Não é real, é apenas meu cérebro a me enganar
Crendo que nosso amor além da morte poderia estar
E confesso silenciosamente que, eventualmente,
Eu queria poder descansar em paz
Naquela tranquilidade final que só a morte traz
E se por uma tranquilidade silenciosa
Nos deitássemos lado a lado pela eternidade nessa cova?
Sei que há espaço nessa tumba para nós duas.

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa

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2. Castelo Vampírico: O Encontro

4 de dezembro — Ainda não tomei coragem para socializar com outros membros do Castelo, fico com receio de…

Foto de Rita Ox na Unsplash

Diário de Rute Fasano

4 de dezembro — Ainda não tomei coragem para socializar com outros membros do Castelo, fico com receio de falar algo errado, ou esquecer de dizer algo que era certo dizer. Pude observar de longe alguns membros, todos parecem muito interessantes. Depois do encontro de ontem na sala principal do Castelo, cada membro foi se ocupar dos seus interesses. Uns foram levados para um quarto do castelo, outros ficaram na sala principal admirando a decoração, outros conversavam entre si. Eu apenas observava e tentava criar um roteiro na minha cabeça de como me apresentar a cada um deles sem parecer estranha, enquanto tocava a ponta dos óculos o tempo todo como uma forma de me acalmar a cada momento que alguém trocava olhares comigo, isso fazia eu parecer realmente estranha. 

Observei de longe os membros e poucas coisas pude perceber:

— Anelly tem aura romântica e etérea, parece vinda de um mundo de sonhos, alheio às sombras que permeiam o castelo. 

— Astrid emana uma aura de seriedade e erudição, seus olhos penetrantes revelam um intelecto afiado. 

— Jason é um gato, ele veio com Maria, observa tudo com uma curiosidade felina, suas ações parecem mais calculadas do que instintivas, e isso é bastante curioso.

— Maria parece ter conhecimento de ervas, desperta uma curiosidade misturada com cautela. Seu conhecimento de ervas faz ela ter a habilidade para aliviar a dor e também a capacidade de causar danos irreparáveis. 

— Olga tem uma postura enigmática, transmite uma sensação de mistério, como se guardasse segredos profundos por baixo de uma expressão imperturbável. 

Há dois membros que ainda não sei o nome:

— O rapaz que parece imerso em suas próprias reflexões, uma melancolia sutil paira sobre ele, como se carregasse o peso do mundo em seus ombros. 

— A jovem indígena que possui um olhar desconfiado, parece estar constantemente avaliando os motivos ocultos por trás das interações, sempre alerta para possíveis perigos. 

Fiz todas essas observações, mas podem não ser exatas. Deduzi de apenas observar, ainda não conversei com nenhum deles para confirmar tais deduções. Ouvi alguém comentar que ainda tem mais membros chegando. Isso me deixa um pouco ansiosa.

Fui para o quarto e fiquei pensando no rumo que a minha vida tomou, sonhava na infância viver da escrita e de todas as ideias e histórias loucas na minha mente, mas a curiosidade intensa e a obsessão de entender o mundo e seu funcionamento fez com que eu fosse para o caminho da ciência. Não me arrependo nem um pouco disso, ela continua sendo a minha obsessão. Porém, cheguei à conclusão de que deixei o caminho de viver da escrita para chegar a esse momento em que eu preciso dela para manter essa entidade, o Castelo, viva. Que louco, não?

6 de dezembro — Eu acho que vi Drácula pelos corredores nesta madrugada, pode ser que não seja ele, mas sim o efeito da cafeína e noites maldormidas. Eu saí do meu quarto para esticar as pernas, mais ou menos às 3h da manhã, comecei a andar pelos corredores e os ecos dos meus passos aumentavam junto com aquela agradável sensação de solitude. Depois daquele passeio eu iria retornar ao conto que eu mal havia iniciado, passei a maior parte do tempo fazendo arabescos nas bordas da folha. Em meio à penumbra daquele corredor pouco iluminado, eu vi uma figura solitária diante de mim, caminhando lentamente, seu andar era quase etéreo e ecoava pelos corredores como sussurros.

Meu primeiro pensamento era de que outro hóspede do castelo teve a mesma ideia que eu e decidiu perambular pelos corredores. Essa figura segurava um castiçal que emitia uma luz suave que lançava sombras dançantes no corredor do castelo. Tudo que eu conseguia ver era suas costas. Vestia uma blusa branca de mangas bufantes com punho em renda que contrastava com a calça preta justa que parecia moldada a seu corpo. Para completar, botas de cano alto pretas. Os cabelos negros longos que caíam como cascata até a sua cintura e, quando virou à esquerda, fez uma breve pausa e olhou através de mim como se não me visse. Senti um arrepio subir a minha coluna que me fez paralisar. Um feixe de luz do castiçal que segurava revelou seu rosto e fui incapaz de definir se o que eu via era um homem ou uma mulher, mas tinha certeza de que não era nenhum dos hóspedes do castelo.

Seu rosto era uma obra de arte andrógina, sem traços que me ajudassem a definir o seu gênero. A pele pálida da figura parecia quase que translucida sob aquela luz fraca, o que me permitia vislumbrar suas veias roxas através dela. Nariz adunco que adicionava uma elegância à sua aparência. Mas foi nos olhos que vi a característica mais intrigante, um matiz de azul-violeta, mais profundos e enigmáticos do que os olhos de Elizabeth Taylor e ecoando o mistério do próprio castelo. E o seu cheiro! Tão pungente de uma mistura de rosas com nuances amadeiradas tão real que podia sentir o toque aveludado das pétalas das rosas na minha face —ou seria o toque de Drácula?

E o gosto de cobre suave e adocicado que me provocou um excesso de salivação, tive que pôr a mão na boca rapidamente — e assim me tirando daquela paralisia momentânea — para impedir que escorresse, pisquei para voltar a si. Decidi não esticar mais as pernas aquela noite, não exatamente por medo, quero dizer, claro que eu estava apavorada, mas ao mesmo tempo fascinada a ponto de não saber o que fazer, mas não estava preparada para aquela presença. Acho que foi o bastante por hoje para estimular meu cérebro a continuar produzindo. E assim me vi imersa em um mistério, aquela presença enigmática era Drácula?

O que quer que fosse deixou uma marca na minha mente.

P.S. Em meio à escrita, meu cérebro descontrolado foi criar teorias. Drácula existia isso era óbvio, e é de conhecimento geral também, mas será que Bram Stoker quando escreveu Drácula não usou suas próprias experiências com o Conde para escrever o livro? Isso seria um ótimo assunto para ter com os demais membros do Castelo. Adoraria ouvir as teorias deles, se eu tiver oportunidade para iniciar a conversa. 

Estou incrivelmente surpresa que Drácula cheira tão bem para quem é um morto-vivo, imaginava algo como odor de putrefação, esse eu conheço bem, sangue seco e mofo escondido por baixo de um forte odor impregnante de canela e cravo. Se a figura for mesmo Drácula, isso eu ainda não tenho certeza.

7 de dezembro — Depois de pensar muito e me esconder no quarto fugindo de interações sociais, decidi esperar o mesmo horário que eu vi o que eu acho ter sido Drácula. Sai do quarto e dessa vez não havia ninguém no corredor, aliviada e, ao mesmo tempo, decepcionada, dei passos cautelosos pelo corredor e virei à esquerda. Aquele cheiro novamente, porém sem a figura que eu esperava. Segui adiante até chegar numa porta roxa, adornada de arabescos prateados nas bordas, como aqueles que eu havia feito nas folhas em branco que eu deveria escrever. Empurrei a porta devagar e entrei e o cheiro ficava mais intenso. Uma névoa púrpura densa preenchia aquele lugar, e espectros disformes estavam de um lado a outro produzindo uma cacofonia de sons, fui em direção aquele que emanava o cheiro que eu imaginava ser o de Drácula. Caminhei em direção a esse espectro e o toquei.

Fui levada para um local onde a névoa púrpura estava mais fina, mas a música mais alta e a figura, que de alguma forma agora eu tinha certeza de que era Drácula, estava de costas para mim. Ele no alto de uma montanha, como um maestro, fazia movimentos e cada movimento formava uma parte do castelo, como uma parte de uma melodia numa partitura. Estávamos no castelo, porém fora, era como um mundo dentro de outro mundo, só que no castelo. Drácula de costas para mim se destacava de pé em uma colina escarpada contra aquele céu crepuscular arroxeado, fazendo gestos precisos como de um maestro conduzindo uma orquestra, e com cada gesto ele parecia moldar aquela névoa púrpura com as mãos. 

Pude ouvir a música calma, atenuada, suave como uma valsa lenta. Olhava tudo em volta e aos poucos as vozes em coro iam crescendo, crescendo e tomando tudo ao redor. Com movimentos amplos ele fez as rochas se erguerem do chão formando as muralhas do castelo, tudo acompanhado da melodia, tudo em volta respondia à sua vontade. Eu sentia a melodia me apertar e pressionar, despertando os meus sentidos e crescendo como se a qualquer momento fosse explodir. E tudo era preenchido por essa melodia. O castelo tomava forma, as torres, as janelas, as portas, tudo se erguia como notas ascendentes em uma partitura, as janelas se abriram seguindo o ritmo da música e pude ver os hóspedes do Castelo, cada um ocupado com sua própria criação, e eu pude me ver dali.

Senti como se meus ouvidos fossem tapados com a pressão que a melodia causava expandindo sem cessar, eu não mais a ouvia, mas sentia a vibração e o ritmo através da minha pele e uma pulsação inexplicável dentro na minha cabeça que crescia e vibrava com a música. O último tijolo foi colocado e Drácula ergueu os braços para o céu fazendo a música atingir seu clímax. O castelo estava completo, e era uma obra de arte viva que nós, hóspedes, estávamos alimentando. Pude ver os finos filamentos violetas que interligam Drácula ao castelo e aos hóspedes.

A melodia cessou, algo que parecia eletricidade passou por aqueles filamentos em direção a mim e percorreu todo o meu corpo, se detendo no meu cérebro que relaxou. E uma sensação de leveza caiu sobre mim. Minha mente se aquietou, vazia, sem pensamentos. Ele olhou para trás com meio sorriso como se somente naquele momento tivesse percebido a minha presença, fez um lento e último gesto com a mão para que eu me fosse, mas assim que meu cérebro quis dar a ordem para minhas pernas se moverem, eu simplesmente apaguei. 

8 de dezembro — Acordei na cama, renovada como nunca antes. Coloquei meus óculos que haviam sido deixados na mesa de canto e vi que em cima da escrivaninha um toca-discos tocava Réquiem em Ré menor de Mozart e também um vaso com belas orquídeas roxas. Automaticamente lembrei do que minha avó dizia: “o amor é uma flor roxa que nasce no coração dos trouxas”. O que sei sobre o amor tem relação com bioquímica e escolha, então escolhi ter afeição por esse ato. E aqui está a trouxa que vos fala. É melhor eu começar a escrever agora. E que Deus, se existe um, tenha piedade de mim.

Texto publicado na 3ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datada de março de 2024. → Ler edição completa

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Fogo Santo na Igreja

Minha querida A.: Penso em você constantemente, e isso tem me afastado de Deus, pois pensar em você é pecar…

“Porque o nosso Deus é um fogo consumidor.” Hebreus 12:29

3 de abril

Minha querida A.:

Penso em você constantemente, e isso tem me afastado de Deus, pois pensar em você é pecar contra ele. Tenho feito as peregrinações que eu disse a você que eu faria. Cada cidade que vou sempre tento alugar um local modesto perto de igrejas. Tenho feito bom uso do dinheiro que você me deu, além de alimentação, papeis e tinta, doações para os necessitados. Sei que você me alertou para usar esse dinheiro com sabedoria, mas alguns hábitos são mais fortes. Numa dessas peregrinações me instalei numa pequena cidade em busca de perdão, mas minha antiga natureza me impulsiona a frequentar as missas noturnas aos domingos e buscar perdão nos confessionários de madeira polida. Mesmo sendo uma criatura contrária à natureza, você sabe que ainda carrego os dogmas e rituais da fé católica. Desde a primeira missa que frequentei naquela pequena igreja pude perceber o caráter duvidoso do padre Marcos, cujas más intenções ele escondia por trás de uma fachada de humildade. Ao ter minha presença nas missas e no confessionário, uma mórbida curiosidade e desejo sobre mim, despertou nele. Fui em todos os dias possíveis da quaresma e o via me olhar com intenso interesse enquanto falava de jejum, arrependimento e penitência, naqueles dias de reflexão e respeito a paixão, a morte e ressurreição de nosso Cristo. Eu sentia o pecado latente nele por baixo daquelas vestes púrpuras. Observava seus olhares furtivos em minha direção enquanto lia a palavra, ou das vezes que eu participava da santa ceia e ele se deleitava ao me oferecer o corpo e o sangue de Cristo.

Me confessei com ele diversas vezes e o assunto sempre era você, e isso o cobria de curiosidade e ele me enchia de perguntas. Contei a ele como você é diferente de mim. Ama a liberdade e a natureza e acredita que a sua natureza é uma benção de entidades da floresta de onde veio. Disse que me apaixonei por você quando a vi há muitos anos em uma de suas visitas ao convento, numa das suas excursões, e sabia que estava pecando contra Deus só por admirá-la à distância. Falei da nossa primeira conversa, que descobri o quanto seu humor poderia ser profano, e mesmo escandalizada com algumas de suas palavras eu percebi que estava me afeiçoando de maneira proibida por uma criatura pecadora. Você recitou de cor 1 Coríntios 13, e fazendo eu me banhar em lágrimas e assim me apaixonar, você percebeu isso e quis compartilhar comigo a sua liberdade. Eu aceitei e logo após isso me arrependi, e você seguiu o seu caminho me prometendo que voltaria quando eu estivesse pronta. Depois disso não pude continuar fazendo parte das irmãs, pois elas perceberiam logo que eu estava afundada em pecado, e que as deixei com aperto no peito de quem deixa os membros favoritos de sua família. Segui minha peregrinação de expiação dos pecados. Me perdoe minha amada confessar essas coisas a ele. Não revelei mais do que deveria. De qualquer forma não faria diferença.

Eu tenho conhecimento da minha beleza, porém sempre me percebi com certa estranheza, mas usando as suas palavras, essa minha aparência suave, olhos doces, lábios rosados e a face mestiça com maçãs do rosto avermelhadas como se estivesse ruborizada o tempo inteiro, esse ar de inocência que te atraiu, também atraiu ele. Percebi o desejo do padre e isso me encheu de repulsa. Para mim um homem que escolheu amar a Cristo sobre todas as coisas cobiçar uma pessoa, seja ela mulher ou homem, e na pior das hipóteses crianças, é uma heresia imperdoável, ainda mais desejando a mim, uma criatura condenada por Deus! Se ele fosse mesmo um escolhido de Deus, já teria percebido que minha presença é maligna. Decidi confrontá-lo. No final da missa entreguei a ele um bilhete com essas mesmas palavras:

“Posso lhe contar com mais detalhes que ela fez comigo. Me encontre na igreja à meia-noite. — L.”

Então numa noite quase sem lua, marquei um encontro na igreja com Padre Marcos. Sobre a luz fraca das velas e o sutil odor de incenso me ajoelhei no genuflexório com meu terço em mãos e rezei. Pedi a Deus que minha impressão sobre o padre não estivesse correta e que ele não aparecesse ao encontro vendo naquele bilhete uma afronta a fé dele. Porém, mesmo atrasado, ele apareceu, tocou no meu ombro enquanto eu estava prostrada em oração e, quando olhei sua face, eu vi aquele sorriso repulsivo e herético de desejo. Impulsiva pulei sobre ele e o mordi, não havia planejado aquilo, eu juro, mas deixei minha natureza sombria tomar o controle da situação. Puxei seus cabelos para trás para ter um acesso melhor ao seu pescoço e mais uma vez cravei meus dentes, a ferida aberta bem grande, e o sangue saía como um fluxo intenso tingindo tudo ao redor, suguei e lambi todo aquele sangue. Mas minha natureza sombria não estava satisfeita apenas com aquilo. Olhei seu rosto em agonia, ele estava a ponto de perder os sentidos, sorri para ele e disse:

— Eu sou a sua salvação e, ainda que você morra, você viverá.

Repetindo o ritual que você havia realizado comigo, mordi meu braço com força e arranquei um pedaço da minha carne:

— Esta é minha carne. — Coloquei em sua boca e tive que usar dos dedos para conseguir fazer descer pela sua garganta, tapei sua boca com a minha mão e o fiz engolir. Quando vi a carne descer pela sua laringe, mordi novamente o braço para abrir mais a ferida e verter mais sangue:

— Esse é o meu sangue, para o perdão dos seus pecados.

Depois desse ritual, arranquei a grande cruz do altar, pedindo a Deus perdão, mas sem conseguir controlar meus atos, levei até ele e com a ajuda dos tecidos púrpuros que havia no púlpito e que cobriam as imagens dos santos, amarrei suas mãos e cintura na cruz, a base dela sobre o púlpito para que ficasse inclinada e invertida, ele não era digno de ser crucificado como Cristo, me afastei para olhar a minha obra com a companhia dos santos que agora não estavam mais cobertos. A cena era perfeita para a expiação de pecados. Abri as portas da igreja, pois o dia logo ia nascer. Os primeiros raios de sol já atravessavam os vitrais coloridos, queimavam aos poucos a pele do padre, seu grito ecoava pelas paredes sagradas da igreja, eram música para os meus ouvidos. Um odor de carne queimada se misturava ao cheiro sutil do incenso da igreja. Os gritos chamaram a atenção dos moradores da cidade que correram para a igreja e ficaram alarmados quando se depararam com a terrível cena.

O padre envolto em chamas, preso à cruz como um sacrifício profano de expiação de pecados. Enquanto isso eu me escondia no confessionário, observei com deleite a justiça sendo feita, enquanto pedia perdão a Deus por estar pecando contra a minha fé novamente. Eu juro, não era minha intenção fazer isso, pois de Deus é a vingança e a justiça, não minha. Depois de um tempo algumas coisas da igreja começaram a pegar fogo, aproveitei a algazarra para me esconder nos fundos até que fosse seguro sair. Fui para o quarto que eu tinha alugado, me lavei, fiz as malas e parti. A sociedade cuidou desse caso, estou surpresa de que os jornais o trataram como um suicídio, mesmo assim esse ato teve consequências. Soube através de um membro que você partiu para uma viagem de pesquisa de grande relevância. Deus é testemunha do quanto eu admiro seu trabalho e que eu não a incomodaria se não fosse algo de extrema importância. Rezo para que essa carta chegue a você em segurança onde quer que você esteja e que você possa interceder por mim em meu julgamento. 

Com amor L.

P.S. Você sempre está nas minhas orações.

Texto publicado na 3ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datada de março de 2024. → Ler edição completa

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1. Castelo Vampírico

21 de outubro — Envolvida na análise de vários artigos científicos sobre os processos biológicos da morte e sua…

MidjourneyAI

Diário de Rute Fasano

21 de outubro — Envolvida na análise de vários artigos científicos sobre os processos biológicos da morte e sua relação com a natureza, busquei compreender os mitos e tabus que cercam a morte. Essa atenção afasta minha mente da melancolia da sobrevivência, proporcionando-me um breve descanso mental. Ao me distrair nas redes sociais, fui abordada por um chamado para fazer parte do Castelo Drácula. Ao investigar, percebi que seria necessário provar minha aptidão, o que me fez hesitar. Optei por deixar de lado e preparar um café forte para estimular meu cérebro cansado, retomando a leitura dos artigos. Porém, a ideia persistente de que talvez aquilo fosse para mim, continuava a me inquietar. Deixando de lado os estudos por um momento, busquei antigos escritos pessoais que, em outros momentos, me proporcionaram paz de espírito. Será que integrar o Castelo seria o problema que minha alma necessita para essa melancolia que me encontro?

Insatisfeita com todos os escritos, reescrevi aquele que se aproximava mais da paz que buscava, o enviei e agora espero ansiosamente por uma resposta. E agora estou incapaz de me concentrar nos estudos aos quais estava focada anteriormente.

Sair um pouco da minha reclusão e me conectar com outros indivíduos semelhantes parece ser a escolha lógica a ser feita?

30 de novembro — Recebi a notícia da minha aceitação no Castelo e, junto com ela, “A carta” que estabelecia minha ligação ao pacto de sangue da linhagem Drácula. Embora tenha ficado ansiosa por essa confirmação, uma sensação de temor apertou meu peito, embrulhou meu estômago e despertou minha síndrome da impostora. Por que, meu caro cérebro, você insiste em me sabotar?

3 de dezembro — Prevendo que talvez a jornada até o castelo seria longa e desgastante, vesti roupas e botas pretas confortáveis. Preparada com o essencial na mochila — livro, diário, folhas de rascunho, caneta e uma garrafa de água — não tinha ideia de para aonde ir, mas senti que ao começar a andar encontraria o caminho. Uma sensação intensa de paz e familiaridade tomou conta do meu ser, aguçando meus sentidos. Era como se eu estivesse retornando a um lugar que nunca visitei, mas conhecia o caminho.

Passando por um belo cemitério no percurso, não pude deixar de observar toda a fauna e flora local. Era surreal ver plantas fora de época coexistindo, várias flores, todas em tons escuros, entrelaçando aromas. Árvores, também diversas, que faziam parte da paisagem, atraindo uma variedade de animais, dos que eu pude observar, morcegos, mariposas, aranhas, lagartos, sapos, que, por sua vez, atraíam gatos, cachorros, corujas, urubus e corvos. Havia variedades de cogumelos, outros animais, plantas, rios e lagos, tudo formava um ecossistema fascinante e estranho, mas que naquele momento eu não poderia pausar para dedicar um tempo e observar todos os detalhes.

Essa diversidade incomum de vida selvagem e vegetação peculiar me cativava, guiando-me em direção ao caminho do castelo, em meio a esse cenário de fantasia sombria ou uma versão às avessas de folhetos de uma certa denominação cristã. Diversas espécies compartilhavam um espaço que não parecia ser o seu habitat natural. Não conhecia a exata localização do castelo, apenas sentia a necessidade de alcançá-lo. Se alguém me perguntasse sobre como chegar, não teria uma resposta precisa, mas estava certa de que havia chegado. Me questionava se toda essa diversidade não era algo criado pelo próprio castelo para me guiar até ele, como uma espécie de estrada de tijolos amarelos. Se assim fosse, significaria que o destino final prometia algo bom?

O castelo era sombrio, envolto por uma sutil névoa e algumas árvores de galhos retorcidos, exibia várias torres altas que se elevavam como espinhos negros afiados, prontos para romper o céu noturno estrelado. Sua arquitetura não seguia padrões, com torres irregulares que pareciam capazes de brotar a qualquer momento para acomodar novos aposentos. Janelas obscuras, grandes como os olhos de sentinelas, decoravam a estrutura. Ao chegar à imponente porta de madeira maciça, bati três vezes, ela se abriu com um leve rangido, fui prontamente recebida por uma figura misteriosa vestida de preto da cabeça aos pés. Com um sorriso discreto, fez sinal para que eu pudesse entrar, e pronunciou com calma e cortesia:

— Seja bem-vinda ao castelo! Entre por sua livre e espontânea vontade. Vá com segurança e deixe um pouco da felicidade que você traz!

A menção ao livro Drácula arrancou de mim um sorriso breve. Fui guiada pelos corredores labirínticos, cheguei a uma sala iluminada por velas em majestosos lustres e castiçais. A decoração, repleta de quadros e esculturas, revelava um intrigante anacronismo, onde elementos clássicos e contemporâneos convivem em harmonia, não apenas na decoração, mas também nas pessoas presentes.

Na longa mesa central desta sala, indivíduos de aparência misteriosa aguardavam, ansiosos assim como eu, pela chegada de outros membros. Todos sedentos pelo conhecimento sombrio que nos aguardava. A entrada da anfitriã chamou a atenção de todos. Com olhos profundos e uma presença tranquila, nos cumprimentou com serenidade, pronunciando as seguintes palavras:

— Bem-vindos, sombrios visitantes, ao majestoso Castelo Drácula. Este recinto suntuoso serve de abrigo para aqueles destemidos que ousaram adentrar os domínios das sombras, desbravando os abismos do profundo e desvelando os mistérios do oculto. O castelo, qual entidade viva, nutre-se vorazmente de toda expressão artística mergulhada na obscuridade, transcendendo as fronteiras do tempo e do espaço.

Então era das narrativas, da poesia, da música e de todas as formas de arte que o castelo absorvia para se nutrir? Fiquei fascinada com a ideia de o castelo ser uma entidade viva. As artes eram como o fluido vital escarlate que alimentava o castelo, lhe dando vida, grandiosidade e uma aura acolhedora. Eu pude sentir a relação simbiótica entre o castelo e seus membros, estabelecida a partir do momento em que o pacto foi selado. Quanto mais fosse oferecido a ele nossos dons artísticos, mais seríamos beneficiados com uma inspiração sombria. Fiquei bastante curiosa para entender os mistérios do castelo e, também, ser beneficiada com essa experiência. Acredito que meu tempo no castelo será bastante proveitoso e mal posso esperar pelo que o futuro reserva.

Texto publicado na 2ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2024. → Ler edição completa

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A Noiva em Ruínas

Em um casarão antigo, e um tanto conservado, morava um solitário cientista obcecado em criar a noiva perfeita, ele se…

Foto de Denny Müller

A mulher sábia constrói o seu lar. Provérbios 14:1

Em um casarão antigo, e um tanto conservado, morava um solitário cientista obcecado em criar a noiva perfeita, ele se embrenhava em cemitérios e necrotérios, onde outros homens davam a ele — por uma generosa quantia — acesso às partes que ele precisava para sua criação. Tudo era levado para seu frio e organizado laboratório, munido com seu conhecimento de anatomia, alquimia e tecnologia ele pode dissecar e meticulosamente selecionar os órgãos e membros que precisava, suturando membros, conectando vasos sanguíneos e nervos, e para finalizar muita eletricidade e, assim, a noiva estava terminada. Ela era um belo exemplar de partes costuradas, um quebra-cabeça de carne morta-viva — que se sentia mais morta do que viva — trazida à vida pela obsessão por perfeição do homem que a criou.

A noiva era perfeita — pelo menos na visão de seu criador — ela foi criada para ser a companheira carinhosa, sempre disposta a dizer sim, esposa, mãe, ouvinte, cozinheira e excelente dona do lar. De estatura mediana, esbelta e de traços delicados, lábios belos de uma tonalidade rosada, de tom de voz baixo e acanhado, olhos gateados da cor de âmbar, sempre submissos, pele muito alva e delicada, cabelos longos como um véu translúcido, de uma beleza feérica e melancólica metodicamente criada, com uma sutileza de vaidade. Partes suturadas com delicadeza, todas elas bem selecionadas e imaculadas. Sua mente — como inocentemente acreditava seu criador — era uma tabula rasa, sempre pronta a aprender aquilo que seu senhor desejasse.

Porém, ela refletia confusamente com tudo o que ele permitia que ela lesse, ele achava conveniente que ela tivesse — nem que fosse um pouco — conhecimento. E assim como selecionara suas partes, escolheu um a um aquilo que ela tinha permissão para ler. Astronomia, arqueologia, botânica, filosofia e aventuras fantásticas onde os protagonistas — sempre homens — viajavam, exploravam e — assim como ela que lia — se fascinavam com as belas paisagens. Ela ficava perturbada por desejar conhecer tudo aquilo, mas não queria ser o homem, apenas desejava ter a liberdade de experimentar — como eles — tudo o que lia nos livros. As vezes se esquecia dos seus afazeres domésticos, entretida com tantas palavras e imagens, perdidas entre as prateleiras daquela biblioteca desordenada.

O homem, estudioso de renome, sussurrava belas palavras ensaiadas no ouvido dela, discursava — de maneira sutilmente dominadora — sobre o seu vasto conhecimento e de como ela era abençoada por merecer o seu amor, pois ele não era como os outros, outros esses que ela não conhecia e nunca tinha ouvido falar. Quando ela declarava querer conhecer o mundo fora dali, ele dizia que ela tinha liberdade para ir aonde quisesse, desde que fosse nos limites da sua propriedade, pois o mundo lá fora poderia corrompê-la. Ele a considerava o ápice da perfeição até não ser mais. Às vezes ela sentia o peso da sua mão, por uma palavra ou ação errada, logo o peso cedia e a mesma mão que a havia ferido, a acariciava, assim ela voltava a ser a noiva idealizada. A noiva ficava confusa com os sentimentos conflitantes que tinha por ele. Ele sempre estava ocupado demais em seu laboratório — a única parte do casarão ainda intacta — para ouvir ou fazer as vontades da noiva e perceber o que nela aos poucos se alterava.

A noiva não tinha um nome ou uma identidade própria que pudesse chamar de sua, mesmo que seu criador a chamasse de Sofia, que significa sabedoria — para o “homem” o significado dele era admirável — não era um nome ao qual ela sentia ser o seu. Ela era apenas a companheira perfeita, planejada e idealizada para o solitário monstro que ela conhecia como o “homem”. Cada parte do seu corpo era um retalho, a união de muitas mulheres que tiveram suas vidas extintas. Ela era uma amálgama de sonhos quebrados e esperanças fragmentadas, e era assim que agora ela se sentia.

Em quase todas as noites em que a escuridão parecia abraçar aquele casarão decadente, onde a luz da lua mal conseguia penetrar as grossas cortinas poeirentas, a noiva repousava em seu leito de seda escura, seus olhos brilhavam com uma luz fantasmagórica e observavam as sombras que dançavam no teto e nas paredes úmidas, refletia sobre a sua existência, enquanto o “homem” nela mergulhava para satisfazer suas próprias vontades, ela mergulhava em si mesma. E ansiava por algo além de ser a criação e serva do outro. Seu coração, já havia noites, estava sendo, aos poucos, alimentado por uma centelha sobrenatural, pulsando pela necessidade de escolha e liberdade. Porém, suas memórias eram um mosaico de vozes que em vida foram silenciadas, um coro de almas desesperadas sepultadas em carne ressuscitada.

Ela olhava para suas mãos, seus braços, pernas e pés, partes que antes pertenceram à artistas, musicistas, dançarinas, donas de casa, universitárias, e tantas outras mulheres que poderiam ter sido importantes, que encontraram o fim antes do tempo. Cada parte carregava uma história não contada, uma narrativa trágica de vidas interrompidas. Os olhos, que agora observavam o mundo, já haviam testemunhado o auge e a decadência, mas suplicavam por mais. A noiva ansiava por se libertar daquele casarão decrépito, que ela sozinha não conseguia dar conta, se sentia pressionada e cansada demais de apenas servir e manter um lar. Ela queria ser mais que uma sombra no caminho do “homem” que a criou para servi-lo. Todas as suas partes desejavam a liberdade de escolher seu próprio destino, ser sua própria criadora, de escrever e viver sua própria história, assim como nos livros que ela lia.

E a cada dia, em secreto, ela sentia a comunhão com as suas partes mortas-vivas em um pacto silencioso feito dentro de si mesma. Cada pedaço seu desejava insistentemente — a ponto de ela não conseguir controlar — escapar das correntes da obediência e ser livre. O cérebro antes uma cacofonia de vozes em desespero, agora uma sinfonia de pensamentos e memórias desenterradas que clamavam por autonomia. Os membros — uma união de habilidades antigas e paixões — que desejavam por serem livres para explorar o mundo fora dos muros daquele casarão arruinado.

A noiva ergueu-se do seu leito conjugal — onde todas as noites aguardava por ele -, seus cabelos pálidos ao redor dela como um véu. Ela se olhou no espelho e analisou a sua imagem por um longo tempo e em concordância com todas as suas partes, decidiu que era hora de as correntes do “homem” serem quebradas. Desafiando o que foi imposto a ela, ainda carregada de ansiedade e insegurança, andou por aqueles corredores escuros, malcuidados, úmidos e rachados com determinação. A noiva saiu às escondidas daquela prisão e as almas que a tinham como morada sussurravam entre si agradecidas pela liberdade. Porém, mesmo rompendo os grilhões da obediência, deixando para trás o casarão em ruínas, elas sabiam que haveria outras que ocupariam o seu lugar na vida do “homem”.

Texto publicado na 2ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2024. → Ler edição completa

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Assunto: Revisitação às Sombras do Passado

Espero que esta mensagem a encontre bem e revigorada. Como solicitado, venho compartilhar…

Querida Dra. Joana,

Espero que esta mensagem a encontre bem e revigorada. Como solicitado, venho compartilhar minhas reflexões após nossa última conversa, na qual a senhora sugeriu que me conectasse com minha criança interior. É um exercício desafiador, mas que me levou a revisitar um capítulo peculiar de minha infância.

Ao fechar os olhos, vi-me novamente de frente a igreja, a fachada de tijolos avermelhados, com três portas de madeiras, a do meio tem a imagem de Santa Cecilia em relevo, logo acima três vitrais na mesma direção que as portas, sua fachada tem quatro colunas retangulares e as duas do meio vão até o alto. Elevando meus olhos admiro a torre do centro que tem uma janela redonda, mais adiante, o campanário com um sino, do qual só me recordo de conseguir ouvir de perto ao meio-dia; olhando mais além tem uma pirâmide pontuda que termina com uma cruz, a igreja fica no bairro onde cresci conhecido como o mais quente do Rio de Janeiro. Ao lado daquela igreja tem uma praça e, sob o calor infernal e sufocante do bairro, era para mim um oásis de esperança que ecoou em minha memória. Naquelas tardes intermináveis, a praça tornava-se meu refúgio e, a igreja, meu castelo de segredos. Minha mente infantil criava um mundo onde Drácula, senhor das trevas, era meu salvador. Cada descida no escorregador, aquecido pelo sol, eu vislumbrava Drácula como meu guardião com suas asas escuras, alguém capaz de me proteger das aflições da minha infância complicada, pois sempre tive amor pelos cantos inquietos e escuros da minha imaginação, amor esse que eu não conseguia compartilhar com todas as outras crianças, por algumas delas não compreenderem que eu me via distante do comum. A igreja, imponente e majestosa, era o palco onde as promessas de Drácula ecoavam em coros celestiais.

Adentrar a igreja era como entrar num santuário de magnificência. No seu interior, altos arcos que se estendem ao teto, a ala central é espaçosa, ao andar mais um pouco eu posso ver o altar com uma cruz de madeira no centro com o Cristo morto, a direita dele São Sebastião, a esquerda Santa Cecilia, acima um vitral com o sagrado coração de Jesus que filtra a luz do sol. O cheiro bem suave, terroso e amadeirado que dava à igreja uma aura misteriosa, fazia-me imaginar se aquele não seria o cheiro do próprio Drácula. As sombras tremulavam, o coro preenchia o espaço e, em minha mente infantil, Drácula habitava as sombras dançantes entre os bancos. Essas memórias, mesmo após o peso dos anos, permanecem como se gravadas em pedra.

Chegando à juventude, os ecos da infância me acompanharam. Unia-me aos jovens alternativos na praça à noite, onde as sombras se entrelaçavam com risos, segredos sussurrados e vinhos baratos. Porém, mesmo estando entre eles ainda me sentia distante do mundo deles. Alguns, desrespeitosos, profanavam o lugar que para mim era sagrado. Eu, sempre fiel ao meu imaginário salvador, alertava aos meus companheiros que mesmo que não compartilhassem da minha veneração pelo local, ao menos o respeitassem, pois na minha mente a igreja era o refúgio do meu salvador e eu não permitiria que desonrassem. Os corredores da igreja, mesmo ao longo da adolescência, continuaram a me acolher. As sombras ainda dançavam, o coro ecoava, o cheiro mesmo que leve ainda era persistente e a presença de Drácula, mesmo que de forma sutil, na minha mente permanecia.

Hoje, na idade adulta, senti-me compelida a voltar à igreja. A vida adulta trouxe consigo dores e desafios, como você bem sabe, estou perdida nos corredores labirínticos da minha própria mente e as sutilezas das interações sociais entre os adultos fazem eu me perder em um mar de confusão que me levam a querer me refugiar no isolamento, então mais uma vez, busquei naquele santuário a promessa de alívio. E ao entrar, a grandiosidade do local envolveu-me como nos dias de infância, mas algo mudou. A sensação de que Drácula não apenas residia ali, mas dentro de mim, tornou-se inegável. E sem perceber, pronunciei as palavras: “Agora não mais eu vivo, mas Drácula vive em mim.” Foi como se eu tivesse feito um pacto com as sombras do passado, aceitando que o verdadeiro poder para enfrentar as dores da vida reside na compreensão do que vive dentro de mim, e agora eu sentia de forma real que meu salvador não apenas vive, mas vive em mim.

Espero que estas palavras possam fornecer uma compreensão mais profunda sobre o que ocorre dentro da minha mente, e que com esse relato, você possa me guiar nessa jornada de autodescoberta. Agradeço pelo seu tempo.

Com respeito e gratidão,

Vânia R. Campos

Conto publicado na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa

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