Escrito por Sahra Melihssa, Prefácios Sahra Melihssa Escrito por Sahra Melihssa, Prefácios Sahra Melihssa

⚜ Prefácio de Agonihria

No pélago da noite púrpura, à deriva, os ignorantes gargalham uns dos outros. Enquanto divertem-se, a escuridão silente esparge frígida, tornando-se…

No pélago da noite púrpura, à deriva, os ignorantes gargalham uns dos outros. Enquanto divertem-se, a escuridão silente esparge frígida, tornando-se cada vez mais tangível... e, então, de sua morbígera forma emerge o inominável.

A Antologia Agonihria apresenta ao leitor uma imersão no púrpuro terrífico, trazendo a existência em seu abismo aflitivo e a mente ao estado onírico de horror perene. N’estas páginas, nos fragmentamos em violeta obscura que reflete o céu de breu insondável. A poética de Agonihria é para os apreciadores do que queima a alma dia após dia — o sentimento mórbido do mistério existencial, o vazio que conduz à ausência de todo o socorro; ardendo na chama negra do martírio.

Soterramos aqui as letras d’aflição pertencentes ao medo mais puro e ao fascínio mais doentio. No agouro de sua verdade, Agonihria murmura subjugação à noite eterna, ao soturno e ao desalento. Não somente, esta temática propõe uma escrita carregada em dor e sentimentos oblíquos, deletérios, sádicos — emoção rastejante ou histeria no urro cruel de almas condenadas ao limbo. Agonihria talvez espere afogar o leitor na luxúria da consternação, no caos da mania ou na mortificação assentada sobre a fissura do abandono que carregamos desde o primeiro respirar.

O cenário que apresentamos aqui, desvela-nos pupilas duplicadas que espreitam nos recantos onde as sombras são mais crassas. Tons de violeta opaco em neblina se rarefazem, tornando álgido o clima silencioso. Há cinzas caindo dos céus e seu matiz não se iguala ao cinéreo comum daquilo que foi cremado — não, as cinzas são de um preto profundo, constituídas em vantanegrume... e possuem odor de morte iminente.

Esquecimento, negligência. Em Agonihria o caminho é bifurcado — à esquerda uma compreensão cruel de solidão e desamparo; à direita, o enlevo imprudente de pertencer ao que foi deserdado. Em outras palavras: a dor hostil pelo sentido fragmentado em vazio ou a paixão obsessiva e perfurante pelo silêncio do absoluto nada. Arrancamos de nossos traumas o parasita que conduz nosso comportamento e os transformamos em criaturas de sinistra e nefasta escuridão. Furamos as retinas dos horrores que nos vigiam. Envolvemo-nos à noite agônica, entregamo-nos à poética do tormento e desvelamos nele o antro sublime da quietude.

O Castelo Drácula é como um sonho, simbólicos são as suas manifestações e obscuros são os seus significados. Agonihria é um pesadelo paralisante dentro de um sonho; sufoca-nos para ornar nossa mente com desespero e consternação. N’esta Antologia, portanto, abra bem os seus olhos... e olhe atento para o escuro antes que ele te enxergue primeiro.

Inspirei-me, ao criar a proposta da antologia, no termo poético “Agoníria”, o qual criei em 2024. Seu significado é: “Pesadelo sufocante que ilusiona o despertar para enganar a mente e mantê-la aprisionada no plano onírico”. O termo emergiu no elã de um poema-sonura e, ao ser inspiração da obra que se desvela aqui aos leitores, vinculou-se a uma estética atrovioleta, dando escuridão aos mais bizarros horrores do nosso espírito e da alma oculta de uma umbrífera natureza.

Além disso, imersa pela essência mortificante de Agonihria, desenterrei para os autores verdades mórbidas do passado humano, para que o banquete de suplício se tornasse ainda mais tangível. Na antiguidade, o pigmento roxo-púrpura verdadeiro vinha de um único lugar: o múrex, um molusco marinho do Mediterrâneo oriental. Para produzir um grama de corante, eram necessários milhares de moluscos. O processo era nauseante — os animais precisavam apodrecer parcialmente antes de liberar o pigmento — e o cheiro era insuportável, nauseabundo. Fábricas eram instaladas em locais isolados, a favor do vento para que não se dissipasse o odor, entretanto, a fragrância bizarra impregnava nos trabalhadores e, pelo imensurável custo de produção do pigmento, restringindo-se à nobreza, de acordo com o artigo “Púrpura tíria: o antigo pigmento desaparecido que valia mais que ouro” da BBC, o cheiro hórrido fixava-se nas vestes tingidas, um bálsamo de peixe pobre e urina — um insólito e questionável perfume que dava autenticidade às peças.

Por volta do século XIX, pigmentos como a cor violeta obtiveram acréscimos químicos, entre tais: o arsênio. Tanto para baratear sua produção, quanto para estabilizá-lo. Em casas antigas, segundo o artigo “Arsenic: a domestic poison” da Royal College of Surgeons of England, papéis de parede coloridos com tintas carregadas de arsênio, reagiam com a umidade e os fungos, liberando trimetilarsina, um gás de toxicidade intensa que poderia levar a óbito pessoas expostas a ele— a depender do quão ventiladas eram as casas. Temos aqui, portanto, envenenamento, cheiros pútridos e a moda como símbolo de morte e decomposição para uma elite perturbada e corrompida. Quantas tétricas bizarrices somos capazes de suportar em nome de um sentido social, um significado intersubjetivo, criado no coletivo?

Na imensidão de Agonihria, deixando o universo real humano, adentramos a vivência única da fantasia obscura de “As Crônicas do Castelo Drácula”. Para este mundo de lugar-algum, talvez vívido nos pesadelos, quiçá erguido no antro do inconsciente coletivo, criei parte de sua fauna e flora de multiforme, e belíssimo, horror, inspirando-me essencialmente na noite em trevas fidagais e no opaco roxo-escuro, além da atmosfera agônica pertencente.

A Vêsffera Sensiflora retorna para a primeira edição de Agonihria — trata-se d’uma planta capaz de remodelar sua forma vegetal para imitar corpos estranhos à sua orgânica composição. Na antologia Magöhorror, a planta mutacionara n’uma reprodução bizarra de crânios humanos gritantes; em Agonihria, elas simulam olhos e mãos cadavéricas.

Para a fauna mórbida d’este universo original de As Crônicas do Castelo Drácula, em Agonihria vos apresento a Umbravola Nigrescens: Esta é uma borboleta cujo habitat é a Floresta Hostil, inseto da família Mortivolidae e da ordem Lepidoptera Abyssalis. Possui asas negras aveludadas que absorvem luz e um crânio pequeno, com duas cavidades vazias e escuras muito similares a orbes oculares humanos. Abaixo há sua mandíbula, com serrilhas superiores e inferiores. Seu abdômen é pequeno e nele há plumagens que atraem presas, em sua maioria pequenos vertebrados. É silenciosa, desliza pelo ar e bate asas somente quando precisa alcançar altas copas de árvores frondosas ou para fugir de predadores. Sua caça é noturna e há diversas lendas a respeito da sua existência.

Umbravola e Vêsffera Sensiflora são os destaques que criei para este universo — e os autores da antologia Agonihria interpretaram-nas de suas inigualáveis maneiras, enriquecendo e expandindo suas essências. Em vínculo a tal fauna e flora, apresento a personagem Suinddáremis Mortállida.

Dizem os mais velhos, dotados de ancestral conhecimento, que Suindara nascera ao ser convocada, pela própria morte, n’uma noite de agouro. De alguma forma clarividente, a coruja da espécie Tyto furcata aproxima-se daqueles quais as brumas do último suspiro circundam. Seu aviso é infortúnio, entretanto, não se achega no vazio de seu olhar âmbar, tampouco no sussurro tenro de um pio distante. Suindara grita, tal como o que houvera antes da morte, antes da luz. Seu vociferar é dilacerante como uma mortalha que se rasga à força, em perturbação. Seus pelos brancos, olhos compenetrados, seu voo silente — tudo n’esta ave advém da natureza maldita... a mais fascinante de todas as naturezas. E foi, pois, n’um d’estes noturnos voos, que uma Suindara ganhou consciência — atravessando a fissura entre o nordeste do Brasil e o lugar-nenhum do Castelo Drácula.

Não só dotada de consciência, esta coruja sofreu uma dolorosa metamorfose — ganhou um corpo humanoide e não demorou para aprender a se comunicar como nós o fazemos. Suinddáremis Mortállida renasceu, distinta e profundamente sábia sobre a morte e os perigos da escuridão. Esta personagem tem uma fala calma, grave, sutilmente feminil; entretanto, se pressentir a morte, não pode controlar o seu estridulante aviso aterrador — que, ouso dizer e dizem os que ousam, é um berro capaz de abrir uma porta, física ou mental, para o mundo dos mortos.

São fascinantes — algo somente do universo de “As Crônicas do Castelo Drácula” — as aparições em comum que um único personagem ou parte da fauna e flora se apresenta em textos tão únicos em suas formas e estilos. Os autores de Agonihria não decepcionarão os leitores, proporcionaram obras de imersão magnífica tanto nos elementos que criei e que n’este prefácio os apresento, quanto em elementos criados por eles, dando ainda mais densidade ao que Agonihria propõe.

Então, escureça o ambiente, acenda uma singela luz púrpura. Agonihria nasce agora em suas entranhas.


Escrito por:
Sahra Melihssa

Escritora e Poetisa, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sou Anfitriã do projeto Castelo Drácula e minha literatura é rara, excêntrica e inigualável. Meu vocábulo é lapidado, minha literatura é lânguida e mágica, dedico-me à escrita há mais de 20 anos e denomino-a “Morlírica”. Na alcova de meu erotismo, exploro o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo meus leitores em um imersivo deleite — apaixonada pelo tema, criei Lasciven para publicar autores que compartilham dessa paixão. No túmulo de meus escritos, desvelo um terror, horror e mistério ímpares, cheios de profundidade psicológica e de poética absurda — é como uma valsa com a morte. Ler-me é uma experiência, uma vivência para além da leitura em si mesma; e eu te convido a se permitir fascinar. » saiba mais...
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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Mar de Escuridão

As pessoas seguem suas vidas como se caminhassem sob o sol tranquilamente, enquanto eu afundo lentamente. Nadar contra a maré da escuridão é uma…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
(Augusto dos Anjos)

 

As pessoas seguem suas vidas como se caminhassem sob o sol tranquilamente, enquanto eu afundo lentamente. Nadar contra a maré da escuridão é uma tarefa exaustiva; cada braçada parece arrastar correntes invisíveis presas aos meus membros. Quando finalmente eu alcanço alguma praia esquecida, encontro apenas areia fria e um horizonte coberto por névoa. Ânsia.

Às vezes consigo acender uma pequena fogueira sob o olhar pálido da lua crescente. Por alguns instantes, observo o vasto oceano negro diante de mim e quase esqueço a agonia que habita minhas entranhas. Mas o alívio dura pouco. Logo, a escuridão profunda infiltra-se através da pele, dos olhos e dos meus ossos. Ela pesa sobre mim encharcada, roubando minhas palavras, dobrando minha vontade à dela e tornando cada passo adiante uma batalha contra o próprio abismo. Tontura.

A Escuridão, esta criatura densa e disforme, se personifica e senta ao meu lado, tocando o meu ombro, sussurrando vozes dissonantes carregadas dos meus piores anseios e fracassos; fantasmas que nunca sepultei. As vozes parecem ter vontade própria, elas rastejam pelos corredores da minha mente e a Escuridão se torna um abraço que envolve o desconforto, o medo e a ansiedade. Pouco a pouco, se transformam em um abraço familiar. Um abraço sufocante, porém, estranhamente acolhedor, que envolve o medo, a ansiedade e o desconforto até que se tornem indistinguíveis de mim. “O sonido agudo e áspero que se difunde ecoante e ininterrupto será a fonte da minha loucura? Agonia.”

Há dias em que observo meu reflexo e encontro apenas algo estranho sob minha pele. Seu rosto é o meu, mas seus olhos pertencem a um brilho opaco. A cada amanhecer, sinto-me mais distante das pessoas. Não por desprezá-los completamente, mas porque reconheço nelas a mesma matéria que alimenta minhas feridas. Afinal, a arte, a música, a literatura e até mesmo as cicatrizes da alma carregam as marcas da humanidade. Mesmo assim, quando você começa a se odiar, é difícil não odiar seus semelhantes. A natureza intocada e insondável é um refúgio!

Quando durmo, sinto um peso descer sobre meu peito. É a mesma Escuridão que me acompanha durante os dias, mas que à noite assume formas mais cruéis e definidas. Apagar as luzes transforma-se em um ritual de enfrentamento. Figuras arabescas e medonhas começam a se contorcer nos cantos do quarto. Elas observam em silêncio, aguardando o momento oportuno para devorar meus pensamentos e alimentar-se de minha essência. A paralisia me encontra.

Em minha mente habita um oceano profundo e agoniante, onde a Escuridão parece possuir matéria própria. Suas águas negras estendem-se até onde a razão não alcança, ocultando criaturas e lembranças que jamais deveriam emergir à superfície de meu inconsciente. Durante os devaneios que interrompem os afazeres mais comuns do dia, uma súbita petrificação me toma totalmente. Por alguns segundos, que se alongam como eternidades, minha consciência mergulha até o abismo interior repleto de olhos cadavéricos e sem pálpebras, todos a me encarar.

Então, eu as vejo:

Figuras esguias de longos cabelos negros, flutuam sob as águas escuras. Seus corpos dançam lentamente nas correntes profundas como se obedecessem a uma música fúnebre que apenas elas podem ouvir. Às vezes afundam, às vezes, retornam à superfície. Seus braços pálidos e esquálidos rompem as ondas e suas mãos estendem-se para o alto em um gesto desesperado, como se buscassem uma saída daquele reino submerso.

Não sei quem são.

Talvez sejam os restos de sonhos que abandonei. Talvez sejam versões antigas de mim, afogadas pelos anos, pelos medos e pelas renúncias. Ou talvez sejam apenas as filhas da ansiedade, eternamente condenadas a emergir e afundar nas águas escuras da minha própria alma...

A Ansiedade habita as profundezas desse oceano. Vejo apenas seus dedos longos surgindo entre as ondas para agarrar meus tornozelos. Acima das mãos fantasmagóricas que se debatem sob a superfície, ela se ergue envolta em suas próprias trevas. Alta e disforme, estende os braços em direção à lua alva que tantas vezes me salva, como se desejasse alcançá-la. Como se quisesse apagar a única luz capaz de atravessar seu reino de sombras.

Por vezes, desenhei tal devaneio em rabiscos soturnos de tinta negra sobre as páginas empoeiradas dos meus velhos cadernos, tentando compreender o que afirmavam aquelas figuras espectrais e as águas tortuosas que habitam minha mente. A sombra eterna e sublime sempre me aguarda lá dentro. No fundo do inconsciente e nas cicatrizes do coração, ela sempre retorna. Às vezes, penso que ela assombra quem sou. Outras vezes, temo que assombre quem eu poderia ter sido.

O que posso fazer com estas sombras além de adorá-las? Devo adorá-las ou fugir delas? Talvez elas sejam o próprio mar. Algo sempre me diz que não adianta tentar destruí-las quando já são profundas em minhas entranhas, quando as figuras esguias e fantasmagóricas de meu próprio eu são fragmentos do meu próprio espelho. A figura que mais temo em minha mente aponta sempre para o alto, envolta em um manto negro, suas garras quase alcançam o céu de minha mente. Como afogar espectros que nasceram das mesmas águas que me deram forma?

Temo que ela alcance o exterior do meu corpo. Não porque deseje destruir-me o que é provável, mas porque receio descobrir que jamais existiu separação entre nós. Que minha essência não venha a ser totalmente arrastada para as profundezas da escuridão, mas que retorne ao lugar de onde nunca realmente saiu.

— E se eu sempre tiver pertencido a ela?


Escrito por:
Júlia Trevas

Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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Lírio purpúreo

A primeira vez que a vi foi numa noite sem lua, tão escura quanto a alma dos homens corrompidos pela luxúria. Mal sabia eu que contemplava minha própria ruína…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Sintra, Portugal.
1713

A primeira vez que a vi foi numa noite sem lua, tão escura quanto a alma dos homens corrompidos pela luxúria. Mal sabia eu que contemplava minha própria ruína. As cortinas de veludo púrpura pendiam pesadas sobre as janelas cerradas, impedindo que qualquer vestígio do mundo exterior penetrasse meus aposentos. Restavam apenas a luz vacilante de três velas sobre a penteadeira e o perfume adocicado dos lírios que eu mantinha em um vaso de prata ao lado da cama. Ou talvez já não fossem lírios.

Desde que ingerira o fungo, suas pétalas haviam escurecido nas extremidades. A antiga brancura transformara-se em manchas violáceas, semelhantes a hematomas florescendo sobre carne pútrida. Enquanto escrevo estas linhas, os lírios ainda repousam ao meu lado, tão vivos quanto no dia em que os colhi. Talvez este diário seja tudo o que restará de mim quando a história chegar ao fim.

Naquela manhã, quando adentrei o bosque que circundava a propriedade de minha família para realizar minha habitual caminhada, não poderia imaginar a descoberta nefasta que me aguardava. Entre os lírios que colhia para adornar meus aposentos, havia algo que meus olhos não reconheceram como pertencente à natureza comum. Parecia uma relíquia caída dos céus ou um artefato oriundo das histórias que minha ama contava para assustar-me durante a infância.

Ali, entre raízes retorcidas e pétalas alvas, brotava um fungo de coloração púrpura tão intensa que parecia concentrar em si toda a luz de uma lua refulgente. Suas lamelas imitavam as pétalas dos lírios ao redor, abertas como dedos infames emergindo das profundezas da terra. Gotículas viscosas brotavam de sua superfície, brilhando sob o amanhecer como lágrimas de vidro ou secreções de alguma criatura adormecida sob o solo. Sua presença destoava de tudo ao redor. Não havia beleza naquela forma, tampouco havia repulsa. Existia apenas uma estranha sensação de reconhecimento, como se eu finalmente houvesse encontrado algo que me aguardava havia muito tempo.

 Aproximei-me. Sua superfície pulsava sob os raios do amanhecer, como se respirasse. Como se estivesse vivo. Uma sensação inexplicável tomou conta de mim. Eu precisava possuí-lo, como se o fungo púrpuro sussurrasse meu nome através do silêncio do bosque. Como se desejasse que nos tornássemos uma única coisa. Em um rompante desprovido de toda lucidez, arranquei-o da terra e o levei aos lábios. O gosto assemelhava-se ao de sangue envelhecido. Havia também algo de ferro oxidado, de moedas esquecidas sob a chuva e de água estagnada em criptas antigas. A textura era macia e úmida, desagradável à língua; ainda assim, engoli cada fragmento.

Por um instante, nada aconteceu. O vento cessou. Os pássaros silenciaram. Até mesmo o farfalhar das folhas pareceu abandonar o bosque. Então senti uma pulsação. Não em meu peito, mas atrás de meus olhos.

Uma vibração lenta e profunda percorreu meu corpo como dedos invisíveis deslizando sob minha pele. Cambaleei por um instante, e o mundo tornou-se mais vívido. Os verdes adquiriram tonalidades impossíveis, provenientes de algum lugar além das estrelas. As sombras pareceram ganhar profundidade, e os lírios à minha volta inclinaram-se suavemente em minha direção, como se observassem minha transformação.

Minutos transformaram-se em horas e, quando retornei à propriedade, trazia comigo um buquê de flores e uma estranha sensação de companhia. Não era uma presença definida. Era apenas a impressão persistente de que eu já não estava sozinha dentro de mim.

Naquela noite, ao passar diante do espelho de minha penteadeira, tive a impressão de que havia alguém parado atrás de mim. Virei-me imediatamente, mas encontrei apenas o vazio. Ri de minha própria imaginação e tentei afastar o desconforto. Ainda assim, ao deitar-me, senti que algo observava meu sono.

Os dias seguintes transcorreram envoltos em uma névoa de inquietação. Minha ama comentava frequentemente sobre minha palidez crescente e insistia para que eu saísse dos aposentos e respirasse o ar da manhã. Eu pouco respondia. A verdade era que algo mudara dentro de mim desde o dia em que encontrara o fungo no bosque. Eu apenas ainda não compreendia o quê.

O sono abandonou-me pouco a pouco. As noites tornaram-se longas vigílias diante das janelas fechadas. Eu observava os quadros pendurados nas paredes e tinha a impressão de que seus olhos me acompanhavam pela penumbra. Os lírios permaneciam sobre a mesa de cabeceira. A essa altura já deveriam estar secos, embora suas pétalas estivessem tingidas por um púrpura cada vez mais profundo.

Um mês havia se passado, e nada, exceto os lírios e este diário, lembrava o que ocorrera naquela manhã. Por vezes, eu me convencia de que tudo não passara de um devaneio provocado pelo calor do verão. Outras vezes, porém, despertava durante a madrugada com a sensação de que alguém me observava da escuridão.

Até aquela noite, quando a vi diante do espelho.

A princípio, pensei tratar-se de um reflexo tardio, uma ilusão causada pelo cansaço. Havia dormido pouco nas últimas semanas. O fungo roubara-me a capacidade de repousar. Minhas noites haviam se tornado longas vigílias preenchidas por pensamentos mórbidos e pela sensação constante de que algo me aguardava além da superfície das coisas.

A mulher surgiu diante de mim gradualmente. Primeiro um vulto indistinto, depois um contorno delicado emergindo da penumbra e, por fim, um rosto. O meu rosto, mas não exatamente o meu. Ela possuía a mesma curva delicada do nariz e os mesmos cabelos escuros derramados sobre os ombros. Os olhos, contudo, eram diferentes. Violetas. Brilhavam na escuridão com uma intensidade inquietante, semelhantes aos olhos de uma coruja espreitando a noite. Pareciam absorver toda a penumbra ao redor e devolvê-la transformada em algo vivo.

Havia nela uma perfeição impossível, como se eu contemplasse uma lembrança idealizada de mim mesma. Parecia mais jovem, mais bela e mais viva.

Ela sorriu, e naquele instante senti o odor. Não vinha dos lírios. Era o cheiro dela. O cheiro do fungo. Sangue envelhecido, ferrugem e terra úmida após a chuva. Algo doce e pútrido ao mesmo tempo, algo que despertou em meu peito uma repulsa tão intensa quanto a necessidade de continuar olhando.

Piscar tornou-se difícil. Desviar o olhar, impossível. Senti meus dedos enrijecerem sobre a madeira da penteadeira enquanto meu coração martelava o peito em descompasso. Ainda assim, uma parte de mim desejava que ela permanecesse ali. Desejava observá-la por mais alguns instantes, por mais alguns minutos, por toda a noite. Quando finalmente reuni coragem para sair daquele transe febril, o quarto estava vazio. Restava apenas o espelho da penteadeira e meu reflexo, sorrindo um segundo depois de mim.

Permaneci imóvel durante vários minutos. Meus olhos percorriam cada centímetro do espelho, procurando qualquer vestígio daquela aparição. Nada. Apenas meu próprio reflexo me encarava do outro lado do vidro, tão comum e imperfeito quanto sempre fora. Ainda assim, não consegui abandonar a penteadeira naquela noite.

As velas consumiram-se lentamente enquanto eu permanecia sentada diante do espelho. Por vezes, julgava perceber um movimento no canto da superfície prateada, uma sombra ou o esboço de um sorriso. Contudo, sempre que me aproximava, encontrava apenas minha própria imagem. Quando a luz do amanhecer infiltrou-se pelas frestas das cortinas, uma tristeza profunda apoderou-se de mim. Não era alívio o que sentia pela partida da criatura. Era melancolia.

Os dias seguintes transformaram-se em um suplício silencioso. Eu mal conseguia concentrar-me nas leituras, nas refeições ou nas conversas com os criados. Minha atenção retornava constantemente ao espelho de minha penteadeira e à lembrança daquele rosto impossível. Por mais que tentasse ocupar-me com tarefas cotidianas, acabava retornando aos meus aposentos antes do anoitecer, aguardando ansiosamente a chegada da escuridão.

Passei a evitar a luz do sol. Mantinha as cortinas fechadas durante grande parte do dia e aguardava com impaciência a chegada da noite. Os lírios continuavam sobre a mesa de cabeceira, estranhamente vivos, enquanto eu me tornava cada vez mais abatida.

À medida que os dias passavam, minha obsessão crescia. Eu examinava meu rosto por longos períodos, comparando-o à lembrança daquela mulher. Observava a curva de meus lábios, a palidez de minha pele e a forma de meus olhos. Havia algo nela que me escapava, algo que a tornava infinitamente superior. Mais bela, mais graciosa, mais digna de ser amada. Quanto mais tentava identificar a diferença entre nós, mais me convencia de que ela era tudo aquilo que eu jamais conseguiria ser.

Por vezes, surpreendia-me perguntando se aquela criatura ainda habitava o espelho ou se tudo não passara de uma alucinação provocada pelo fungo. Mas, em meu íntimo, eu sabia a verdade. Nenhuma alucinação poderia fazer alguém sentir tanta falta.

Desde o dia em que encontrara o fungo no bosque, passei a registrar cada acontecimento neste diário. A escrita tornara-se meu único consolo diante da crescente sensação de que algo escapava à minha compreensão. Se minha sanidade me abandonasse, ao menos estas páginas permaneceriam como testemunhas do que vivi.

Certa tarde, enquanto as criadas preparavam o chá, ouvi-as comentar sobre rumores inquietantes que haviam chegado à Feira de Agualva. Entre bancas e carroças, viajantes narravam uma chuva de meteoros que iluminara os céus semanas antes, exatamente na mesma época em que eu encontrara o fungo entre os lírios do bosque. Diziam que as estrelas haviam rasgado a noite como lanças incandescentes e que fragmentos luminosos foram vistos caindo além das colinas.

Os relatos tornavam-se ainda mais inquietantes conforme se espalhavam entre os viajantes. Alguns afirmavam que animais foram encontrados mortos sem qualquer sinal de ferimentos. Havia até quem jurasse ter visto uma luminosidade púrpura persistir durante dias sobre as colinas, como se parte do firmamento houvesse permanecido presa ao solo.

As criadas riam dessas histórias e atribuíam tudo à imaginação dos camponeses. Eu não consegui rir. Pela primeira vez, considerei a possibilidade de que o fungo não pertencesse verdadeiramente àquela terra.

As aparições tornaram-se mais frequentes. A mulher já não surgia apenas por breves instantes. Permanecia diante de mim durante horas, observando-me através do espelho. Nunca pronunciava uma palavra. Limitava-se a sorrir. Com o passar das semanas, seus movimentos tornaram-se estranhamente independentes dos meus. Por vezes eu permanecia imóvel enquanto ela inclinava a cabeça. Em outras ocasiões, percebia seu sorriso surgir antes do meu.

Numa noite, ela ergueu lentamente a mão. Eu não havia me movido. O terror que senti durou apenas um instante. Logo foi substituído por fascínio.

Meu estado piorava a cada dia. As refeições permaneciam intocadas. Correspondências acumulavam-se sobre minha escrivaninha, sem resposta. Livros que outrora me encantavam passaram a reunir poeira. Nada parecia possuir importância diante da perspectiva de revê-la.

Minha ama tornou-se a única pessoa a notar minha lenta transformação. Comentava frequentemente sobre minha palidez, insistia para que eu abrisse as cortinas e censurava os longos períodos que eu passava trancada em meus aposentos. Eu respondia pouco. Como poderia explicar-lhe que a luz do dia tornara-se insuportável diante da promessa da noite? Como poderia confessar que ansiava pela escuridão da mesma forma que outros aguardam a chegada de um amante?

Certa manhã despertei com a estranha sensação de estar sendo observada. Ao aproximar-me da penteadeira, encontrei um pequeno fungo púrpura repousando sobre sua superfície. Permaneci imóvel durante longos minutos. Eu não o havia colhido. Não na noite anterior. Não conscientemente. Ainda assim, ali estava ele, pulsando suavemente à luz do amanhecer.

Aproximei a mão, mas hesitei antes de tocá-lo. Algo em sua presença despertava uma memória desagradável, como um sonho esquecido que insiste em retornar. Chamei uma criada para confirmar que não se tratava de imaginação. Contudo, quando ela entrou no aposento, o fungo já não estava mais lá. A mulher limitou-se a olhar-me com preocupação, perguntando se eu estava me sentindo bem. Menti. Disse que fora apenas cansaço. Ela pareceu não acreditar inteiramente, mas nada respondeu. Durante o restante do dia, não consegui afastar a sensação de que algo se movia dentro de mim.

À noite, quando voltei a encarar o espelho, a mulher aguardava do outro lado do vidro e sorria como se conhecesse um segredo que eu ainda não era capaz de compreender.
Dormia cada vez menos e, quando finalmente o sono me vencia, era acometida por sonhos inquietantes. Caminhava por florestas cobertas de neblina púrpura, guiada por uma figura feminina cuja silhueta desaparecia sempre que eu tentava alcançá-la. Havia algo profundamente familiar nela, algo que despertava em mim uma mistura dolorosa de fascínio e melancolia.

Ao despertar, encontrava terra sob minhas unhas, folhas presas aos cabelos e manchas de lama na barra de minha camisola. Inicialmente atribuí esses sinais ao cansaço ou aos efeitos persistentes do fungo. Contudo, conforme as semanas avançavam, tornou-se impossível ignorar a frequência com que tais acontecimentos se repetiam.

Certa manhã, minha ama encontrou pegadas de pés descalços na escadaria dos fundos da propriedade. A princípio acreditamos tratar-se de algum invasor ou de um criado imprudente. Apenas eu percebi que as marcas possuíam exatamente o tamanho dos meus pés. Não disse nada. Limitei-me a observá-las até que apagassem os vestígios.

Na noite seguinte, tranquei a porta de meu aposento e escondi a chave sob o travesseiro. Estava determinada a provar a mim mesma que os estranhos acontecimentos eram fruto de minha imaginação. Entretanto, quando despertei na manhã seguinte, encontrei a chave repousando sobre a penteadeira, ao lado de um lírio púrpura recém-colhido. Não havia qualquer explicação possível para aquilo e, pela primeira vez, percebi que já não conseguia ignorar a verdade.

Decidi permanecer acordada naquela noite. Sentei-me diante do espelho e esperei. As velas consumiram-se lentamente enquanto a mulher me observava do outro lado do vidro. Pela primeira vez, tive a impressão de que ela parecia satisfeita. Quando o relógio anunciou a meia-noite, seus lábios curvaram-se em um sorriso sereno, quase afetuoso. Havia reconhecimento naquele gesto, como se ela soubesse algo que eu ainda desconhecia. Então tudo escureceu.

Despertei no bosque. A lua pairava alta sobre as árvores, iluminando fracamente o solo coberto de folhas úmidas. Meus pés estavam descalços e cobertos de lama. Em minhas mãos repousava um cesto repleto de fungos púrpura. Ao meu redor, dezenas deles brotavam da terra como flores malignas. Alguns cresciam junto às raízes das árvores, enquanto outros espalhavam-se entre os lírios silvestres. Havia tantos que o solo parecia pulsar sob sua presença.

Permaneci imóvel durante vários minutos, incapaz de compreender como chegara até ali. O silêncio era absoluto. Nem mesmo os insetos ousavam interromper aquela estranha quietude. Foi então que vi meu reflexo em uma poça formada pela chuva recente. Os olhos violetas que me observavam eram os mesmos da mulher do espelho.

Um arrepio percorreu minha espinha. Levei as mãos ao rosto numa tentativa desesperada de recuperar a razão. Foi nesse instante que senti novamente o odor: sangue envelhecido, ferrugem e terra úmida. O cheiro acompanhava-me. Impregnava meus cabelos, minhas roupas e minha pele. Pela primeira vez compreendi uma verdade que me encheu de horror. O cheiro jamais viera do espelho, jamais viera da mulher e jamais viera do fungo. Vinha de mim.

Meu olhar retornou à superfície da água. Não havia ninguém ao meu lado. Nenhuma criatura oculta entre as árvores. Nenhuma figura observando-me da escuridão. Apenas eu, meu reflexo e aquele sorriso impossível. Foi então que compreendi. A mulher do espelho nunca estivera presa atrás do vidro. Nunca habitara a superfície prateada da penteadeira. Nunca existira separada de mim. Habitava-me.

O horror da descoberta quase me levou à loucura. Cambaleei para trás e deixei o cesto cair. Os fungos espalharam-se pelo chão da floresta como órgãos arrancados de um corpo. Ao observá-los, compreendi algo ainda mais terrível: aquela não era a primeira vez que eu estivera ali.

Ao retornar para casa, encontrei outro cesto que havia sido levado para a cozinha. Fungos secavam próximos ao fogão. Em vários deles reconheci marcas de terra idênticas às que cobriam minhas mãos. A criatura não desejava apenas a mim. Desejava minha família. Desejava espalhar-se. E eu havia me tornado seu instrumento.

Compreendi que não me restava muito tempo. A mulher do espelho não precisava mais aparecer. Eu sentia sua presença em cada pensamento, em cada impulso e em cada respiração. Pela primeira vez desde que tudo começara, tive medo de adormecer. Passei aquela madrugada vasculhando a propriedade. Recordei-me das histórias sobre os meteoros e dos animais encontrados mortos próximos aos locais de impacto. Pela primeira vez, tudo pareceu encaixar-se numa única e terrível verdade. O fungo não era uma criatura do bosque. Não era uma maldição. Não era sequer uma entidade sobrenatural. Era uma semente. Uma semente caída dos céus. E eu havia permitido que ela germinasse dentro de mim.

Tomada pelo desespero, reuni todos os fungos que consegui encontrar no bosque e na propriedade. Carreguei cestos cheio deles até a sala principal da propriedade. Minhas mãos tremiam. Meus músculos doíam. Ainda assim, continuei. A cada novo cesto depositado na lareira sentia a presença da criatura tornar-se mais agitada dentro de minha mente, como se ela finalmente compreendesse minhas intenções.

Quando a última cesta foi despejada diante da lareira, risquei o fósforo. As chamas espalharam-se lentamente. Então os fungos começaram a arder. O fogo adquiriu uma coloração púrpura profunda. As sombras dançaram pelas paredes como figuras distorcidas. O odor espalhou-se pela casa com violência: sangue envelhecido, ferrugem, terra úmida e algo mais, algo que lembrava carne esquecida em um túmulo recém-aberto. Por um instante, tive a impressão de ouvir um som. Não exatamente um grito, mas algo próximo disso, como se milhares de vozes muito distantes lamentassem a própria destruição. Observei as chamas até que o último fragmento fosse reduzido a cinzas negras. Minha família estava salva. Quanto a mim, já não possuía a mesma certeza.

Agora escrevo estas linhas à luz de uma única vela. Minha ama dorme no aposento ao lado. Percebo o quanto fui egoísta e imprudente. Durante semanas afastei-me dela. Ignorei sua preocupação. Recusei seus conselhos. Ainda assim, foi a única pessoa que permaneceu ao meu lado quando minha própria razão começou a abandonar-me.

Dentro de algumas horas, quando terminar este relato, irei acordá-la. Entregar-lhe-ei este diário. Pedirei que o esconda. Pedirei também que faça aquilo que eu mesma já não possuo forças para realizar. Há algo crescendo dentro de mim. Posso senti-lo mover-se sob minha pele. Posso senti-lo pulsar atrás dos meus olhos. Enquanto escrevo estas palavras, meus dedos tremem involuntariamente. Por vezes, as letras parecem mover-se sobre a página. Por vezes, vejo raízes púrpuras surgirem nos cantos de minha visão apenas para desaparecer quando tento focá-las.

Se estas páginas sobreviverem ao tempo, que sirvam ao menos como advertência. Algumas flores não pertencem à Terra. Algumas sementes jamais deveriam encontrar solo fértil. E alguns amores, por mais belos que pareçam, não desejam ser correspondidos. Desejam apenas consumir.

Quando o sol nascer, se ainda existir algo de humano em mim, talvez Deus tenha misericórdia. Caso contrário, espero que minha ama tenha coragem e melhor pontaria do que eu.


Escrito por:
Lilium Batista

Lilium Batista é escritora, poetisa, ilustradora, capista premiada, mãe e nerd, é fascinada por ficção científica desde a infância. Apaixonada por Star Wars e pelo universo de J.R.R. Tolkien, suas obras também carregam as influências sombrias e visionárias de Ridley Scott, H.P. Lovecraft, Alan Moore e Stephen King. Escreve desde os 10 anos, mas começou a publicar em 2024 e, desde então, já conta com 17 obras publicadas. Sua escrita transita entre a ciência e a fantasia, sempre com um olhar curioso, sensível e provocador sobre o desconhecido... » leia mais
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Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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Quando a noite sepulta o horizonte sem luz, | E o zênite em luto ao abismo conduz, | Ante o pálido horror deste céu cinzento, | Eu me rendo ao…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Quando a noite sepulta o horizonte sem luz,

E o zênite em luto ao abismo conduz,

Ante o pálido horror deste céu cinzento,

Eu me rendo ao rigor do pior isolamento.

Não o vago silêncio de antigos altares,

Onde o tempo desfaz os mortais relicários,

Mas a mudez que habitava a primeira amplidão,

Antes que o Caos gerasse a primeira ilusão.

Eis-me aqui, átomo só, poeira esquecida,

Náufrago cego nas margens da vida.

Penso até que a razão se transforme em veneno,

A sondar o mistério deste arco terreno.

Que arcano se esconde na cúpula escura?

Que traço desenha tamanha negrura?

As perguntas despertam qual hera sombria,

Sufocando o saber em total agonia.

O teto do mundo é um vasto jazigo,

Onde cada planeta pulsa em castigo;

Não há brilho sutil nas estrelas distantes,

São piras de mortos, faróis vacilantes.

E na névoa sutil da matéria oculta,

Uma força sem nome o cosmos sepulta;

Monarca espectral que governa o enigma,

Deixando no espaço o seu negro estigma.

A angústia regressa com passos de chumbo,

Cobrindo de trevas o meu próprio rumo.

Existir é fitar o declínio da mente,

Sem asas que salvem o corpo decadente.

Sou mente, fagulha, frágil claridade,

Fissura efêmera na imensidade;

Condenado ao tormento do eterno inquirir,

Enquanto as estrelas se deixam ruir.

O éter se cala, nenhuma voz desce,

Nenhum deus escuta tamanha prece.

No centro de tudo, domina o vazio,

Monótono, imenso, soberbo e sombrio.

Não há julgamento, clemência ou rancor,

Apenas o vácuo em seu gélido horror;

Se a morte desenha os seus tristes contornos,

O nada desfaz nossos corpos já mornos.

Retorno ao degredo, ao cerne do tédio,

Onde a alma padece sem cura ou remédio;

Ali permaneço, fantasma de outrora,

À espera do fim que a matéria devora.

Escuto o rumor desse abismo trancado,

Qual réprobo mudo ante o templo sagrado:

Sabendo que o véu nunca há de ceder,

Mas preso ao limiar do que não posso ver.


Escrito por:
Bruno Reallyme

Bruno Silva, conhecido como Bruno Reallyme, é um escritor com deficiência visual que encontrou na escrita a extensão de seu olhar sobre o mundo. Com formação em Ciências Econômicas, Contábeis e Gestão, ele navega por diversos gêneros, como poesia, romance, suspense e terror. Sua escrita busca a autenticidade e a identidade profunda do "reallyme" — "realmente eu" —, revelando em cada palavra um universo sensível, crítico e apaixonado por narrativas. » leia mais...
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Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Diário de Rute Fasano

Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava que para essas necessidades básicas alguém ou algo teria que nos permitir sentir. O azul em volta começava a morrer, aquele brilho bioluminescente antes azulado e espectral, começou lentamente a adquirir tons de um púrpura profundo e pesado como hematomas surgindo sob a pele. O vento estava diferente, mais denso e úmido; as flores também mudaram, já não tinham rostos chorando sangue, agora no centro de cada pétala translúcida, havia um único olho imóvel, cercado por dedos cadavéricos que brotavam da própria estrutura da flor, as unhas negras arranhavam as pétalas lentamente, produzindo um som baixo e seco, como o som de uma boca faminta triturando ossos. Uma delas me observou quando passamos, a pupila acompanhando o nosso movimento e então piscou e me senti enjoada, pois era como se o ar tivesse adquirido um sabor metálico e sufocante e cada respiração parecia mais pesada que a anterior e minha garganta apertava, como se tivesse uma corda invisível sendo ajustada bem devagar ao redor do meu pescoço. Mara percebeu.

— Você está pálida.

— Tem alguma coisa errada no ar. — eu disse

— Tem alguma coisa errada em tudo nesse lugar.

Continuamos andando pelas margens enquanto a noite se aprofundava, então ouvi o som agudo, contínuo e distante, levei as mãos ao ouvido.

— Você está ouvindo isso? — perguntei.

Mara franziu a testa.

— O quê?

O pingente queimou contra minha pele e a névoa escarlate voltou — o mundo desapareceu num único instante. O cheiro de sangue era mais forte agora; não era fresco, era antigo, oxidado, preso em ferrugem. No centro daquela vastidão vermelha havia apenas uma escrivaninha de madeira escura, coberta de sangue e nada mais — nenhuma parede, nem chão, nem céu —, apenas a escrivaninha naquele vazio vermelho, e sobre ela papéis, muitos deles, empilhados, encharcados, escritos numa caligrafia que eu conhecia, pois era a minha. Meu estômago afundou, o som agudo aumentou, senti a corda invisível se apertar mais em meu pescoço. Havia alguém sentado atrás da escrivaninha, mas a névoa vermelha não permitia que eu visse seu rosto — apenas as mãos, longas e pálidas, imóveis sobre os papéis ensanguentados. A figura começou a se erguer e a visão terminou.

Voltei ao mundo cambaleando e caí de joelhos na areia fria das dunas. Vomitei — o gosto era de ferro puro.

Mara segurou meus ombros.

— Você está bem?

Não consegui responder. Ao longe, no topo de uma duna, vi o homem do sorriso largo — de costas, com seu manto negro ondulando no vento — e ao lado dele, a criança.

— Ali — murmurei.

Mara virou, mas não havia mais ninguém. Eles tinham desaparecido. O zumbido ainda continuava no fundo da minha cabeça quando percebemos as borboletas — primeiro uma, e depois dezenas. Elas deslizavam pelo ar com leves bater de asas que pareciam veludo negro. Cada uma possuía um pequeno crânio no dorso, com órbitas vazias e mandíbula serrilhada — belas de um jeito fantástico. Elas começaram a pousar nas flores, e os olhos das flores acompanharam o movimento dos insetos como animais submissos diante de predadores muito maiores. Uma das borboletas pousou no meu ombro e se aproximou lentamente do meu pescoço — exatamente onde o pingente repousava.

E então recuou. Mara puxou-me para trás.

— Não toque nelas.

— Mas eu não toquei.

As cavidades vazias do pequeno crânio no seu dorso estavam voltadas para mim, como se me olhassem. Então Mara me contou uma das lendas que ouviu sussurradas pela Ordem:

— Dizem que as Umbravola Nigrescens caçam pessoas que já começaram a pertencer a outro lugar. Quando não as encontram, esperam que alguém as toque para que possam pertencer. E quando passam a seguir essas pessoas, significa que algo do outro lado já as reconheceu — e agora as espera.

Estremeci. Desde que aceitei a joia, comecei a ter pensamentos sem sentido: que ela me protegia de algo para que eu pudesse voltar ao castelo, que era ela que me orientaria pelo caminho certo — e um deles, um tanto louco, era que talvez a joia não estivesse tentando me mostrar o que estava por vir, mas quem estava escrevendo essa história. Que talvez alguém me reescrevesse. Teorias demais para uma mente já desequilibrada. A noite continuava mudando; o púrpura do céu parecia uma doença se espalhando pelo horizonte. As águas já não brilhavam com bioluminescência natural. Cinzas negras começaram a cair do céu — densas e oleosas —, e quando uma delas pousou sobre minha mão, senti o cheiro de ferrugem úmida e algo doce escondido no fundo.

Mara percebeu meu rosto mudar.

— Não respire muito fundo.

Tarde demais. O odor parecia entrar direto na cabeça; sussurros indistintos vinham do vento, como centenas de pessoas falando num lugar pequeno e fechado. O céu estava completamente coberto — nenhuma estrela, nem lua, só nuvens violetas e aquela chuva lenta de cinzas. O lugar inteiro parecia um pesadelo tentando ganhar vida. As borboletas continuavam espalhadas, mas agora os dedos cadavéricos ao redor de seus olhos se moviam mais rápido e arranhavam as pétalas com nervosismo; algumas flores viraram o olhar para o céu escuro como se esperassem algo descer. Então ouvimos o grito — um rasgo: o som atravessou a noite como tecido sendo aberto por garras. Meu peito apertou tão forte que perdi o equilíbrio. As borboletas que voavam por perto sumiram imediatamente na escuridão. Mara levou a mão à adaga.

— O que foi isso?

O silêncio depois do grito foi pior, porque o mundo pareceu parar. Então a vimos: ela surgiu pousada sobre uma rocha negra próxima — grande e branca, sua plumagem reluzia sob a luz púrpura do rio. Os olhos âmbar eram imóveis e inteligentes. Uma criatura humanoide como uma coruja rasga-mortalha, de corpo feminino; ela inclinou a cabeça devagar. Era alta e magra, vestida com tecidos escuros. Nos observou por um longo tempo antes de começar a falar.

— O cheiro da morte repousa sobre vocês.

Sua voz era grave e calma, mas carregava algo de não humano em cada sílaba — pausas longas entre as palavras, como se falar fosse uma adaptação ainda incompleta. Mara manteve a adaga apontada.

— Quem é você?

A mulher-coruja inclinou a cabeça bem devagar.

— Suinddáremis Mortállida.

Ela aproximou-se devagar, seu caminhar era silencioso quase sem peso.

— A noite lhes observa há algum tempo.

O vento soprou cinzas negras entre nós, quando Suinddáremis olhou diretamente para mim, senti imediatamente aquela sensação horrível dentro do crânio das memórias se movendo e ela percebeu, claro que percebeu.

— Você carrega os mortos.

Minhas mãos gelaram.

— E o que isso significa?

Um longo silêncio e ela ergueu bem devagar os olhos para o céu púrpura.

— Memórias são cadáveres incompletos.

As palavras dela eram simples, mas para mim incompreensíveis.

Mara respirou fundo.

— Você sabe algo sobre isso?

Ela continuou olhando para o céu.

— O Castelo está sonhando mais profundamente agora.

Ela se aproximou.

— Aquilo que a observa começa a desejar ser observado de volta.

O zumbido agudo reapareceu imediatamente na minha cabeça, mais forte e meu enjoo retornou, Suinddáremis virou-se para mim de maneira abrupta, os olhos âmbar dilataram e então ela gritou. O som foi insuportável, não parecia vir apenas da garganta dela, atravessava meu crânio com violência. Um berro estridente, dilacerante, tal como uma mortalha sendo rasgada dentro de, talvez, a minha futura tumba; as dunas responderam, as flores fecharam seus olhos, e atrás de mim uma porta apareceu, uma porta alta, antiga, feita de madeira púrpura apodrecida e adornada com detalhes dourados corroídos pelo tempo. O cheiro vindo dela era nauseante de morte antiga, Suinddáremis respirava pesadamente agora, como se o grito a tivesse cansado.

— A porta abriu.

— Para onde exatamente? — perguntou Mara.

A mulher-coruja nos encarou longamente e pela primeira vez sua voz vacilou.

— Para aquilo que deveria permanecer adormecido.

Então seus olhos pousaram no meu pingente e ela sussurrou algo numa língua que não reconheci, mas uma palavra atravessou perfeitamente aquela fala incompreensível: “escrivaninha”. Meu sangue gelou, pois tinha medo de que o que me esperava naquele lugar, sentada naquela escrivaninha fosse algo que talvez eu não pudesse suportar e talvez aquela coisa estivesse esperando que eu me sentasse diante dela.

Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Valesca Afrodite

Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
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Hereditariedade

Foram várias consultas e aqueles malditos médicos não descobriram o que eu tinha. Uns ousaram dizer que eram sintomas psicossomáticas…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

“O Senhor é longânimo e grande em misericórdia, que perdoa a iniquidade e a transgressão, ainda que não inocenta o culpado, e visita a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração.” (Números 14:18)

Foram várias consultas e aqueles malditos médicos não descobriram o que eu tinha. Uns ousaram dizer que eram sintomas psicossomáticas em decorrência do estresse. Outros disseram que, por não saber de fato minha origem (era filha adotiva), não saberiam dizer se era uma condição hereditária — e até irreversível. Fato era que os males noturnos pioravam à medida que os meses se arrastavam perante mim.

Vertigem. Falta de ar. Suores repentinos. Não, eu não estava entrando na menopausa, nem precoce e nem nada, pois só tinha 27 anos na época e aqueles palermas afirmavam que não se tratava disso. Estresse? Quase todo mundo tinha, me sentia até pertencente à essa geração de descontrolados varridos. E, baseados nessas desculpas, me entupiram de drogas para “aliviar a tensão”.

E tudo continuava a se agravar.

Não conseguia mais dormir. O descanso irregular piorava o suposto quadro de estresse. Aquele maldito ciclo era surreal. Não conseguia dormir por causa do estresse, ficava ainda mais estressada porque não conseguia dormir.

Pensei em procurar meus pais biológicos, com a estrita intenção de tentar entender qual condição maléfica poderiam ter passado para mim, mas isso não era possível, já que minha mãe — a adotiva e minha mãe de fato —, nunca soube quem eram.

Mas eu não conseguia mais viver daquela forma e, ignorando meu ceticismo, fui visitar uma médium (essa atitude também agravou meu quadro, pois tive que passar por cima das minhas crenças, ou melhor, da falta delas).

Mas o que era mais uma cavada para quem já está no fundo do poço?

***

Devia ter seguido minha intuição. Aquela mulher falou tanta baboseira que mal consegui terminar de ouvi-la até o fim — alguma coisa sobre maldição hereditária e pecados atravessando gerações. Já ouviu falar: “O que os olhos não veem, o coração não sente”? Então, não devia ter visto essa história de perto.

Segundo a charlatã, meu bisavô era proprietário de uma companhia muito próspera que fazia papeis de parede. O problema é que um dos elementos usados para produzir a cor púrpura era arsênico. Sim, o veneno.

Fui pesquisar depois e, para meu absoluto desprazer, isso realmente aconteceu na história humana. Papel de parede envenenando gente. O século XIX parecia um grande experimento suicida coletivo.

Mas, continuando a história absurda, em decorrência disso, várias pessoas faleceram intoxicadas. Uma dessas famílias era composta por religiosos fervorosos que, por influência de algo obscuro, flertavam com práticas incomuns (não me pergunte quais, como eu disse, mal prestei atenção nela).

Dos cinco membros que viviam na casa recém reformada com aqueles belíssimos papeis violetas, quatro morreram de forma trágica. A matriarca da família, e única sobrevivente, rogou uma maldição contra meu bisavô:

“Assim como quatro tombaram sob teu pecado, quatro gerações pagarão.”

Se aquilo fosse verdade, seriam quatro gerações condenadas à morte de formas terríveis: meu bisavô, meu avô, meus pais… e eu.

A mulher ainda afirmou que, quando meus pais descobriram sobre a maldição, decidiram me colocar para adoção. Talvez acreditassem que a distância bastasse para enganar a dona morte.

É obvio que não acreditei em nenhuma palavra da médium naquele momento, e continuei minha vida, rotina de insônia, médicos e trabalho. Até que tudo ruiu.

 *** 

Quem poderia imaginar que o fundo do poço não era o pior lugar que eu poderia estar? Achava que só mais uma escavação não faria ruir as estruturas, mas tudo cedeu e me soterrou em ressentimentos e maldições. Sim, era tudo verdade, mas, mesmo se eu tivesse acreditado antes, não poderia mudar meu destino. Pagar pelos erros dos antepassados era cruel e injusto, mas a minha revolta não mudaria nada disso.

Perdi meu trabalho, porque não conseguia me concentrar em nada.

Não fui mais aos médicos, porque já não tinha dinheiro para os exames.

E, sem dormir, minha mente me pregou peças.

Um dia, quando estava deitada tentando dormir — ah, como eu era insistente — olhei para o espelho que havia ao lado da minha cama e avistei — até então tinha certeza de que imaginava — em cima do meu peito uma criatura cadavérica, de olhos tão escuros que sugavam a atenção, o olhar e a vontade de viver. E, quando ela sorriu, todos os males que sentia foram agravados. Ela era a culpada!

 Mas eu não permitiria que a maldição me atingisse de forma direta. O último elo dessa corrente iria resistir bravamente, nos meus termos, do meu modo.

E, com uma apunhalada, quebrei o maldito portal-espelho, sentia os pedacinhos de vidros me convidando, atraindo, clamando para terminar de uma vez por todas com aquele sofrimento.

Agarrei um dos cacos mais pontudos e enfiei primeiro nos meus olhos, mas isso não foi suficiente e, apesar da dor, ainda havia vida em mim. Ouvi uma voz sussurrar que havia chegado o momento de, finalmente, ter o descanso eterno, e sem hesitar cravei o objeto na garganta e a rasguei...

...Continuo não sabendo o que sou, quem sou, mas enfim obtive o merecido sono eterno.


Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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Os Simulacros da Noite e a Sentença do Sono

I | É um erro crer | que o sono abriga algum refúgio. | Deitar-se na escuridão | é depor as insígnias da vontade, | é entregar a alma, | desarmada, trêmula…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

I

É um erro crer
que o sono abriga algum refúgio.
Deitar-se na escuridão
é depor as insígnias da vontade,
é entregar a alma,
desarmada, trêmula e pálida,
ao império absoluto
dos espectros e da febre. 

Havia uma razão severa
nas antigas advertências
que proibiam o espelho
defronte ao leito de agonia;
os velhos sábios sabiam
que o repouso é nossa maior indigência,
o instante em que o corpo
ensanguentado se faz vulnerável. 

Expor-se ao cristal
é convidar o infinito e o túmulo
a devorarem, gole a gole,
a nossa substância. 

É então que sobe muda a paralisia,
aquele gélido torpor
de tísica e de luto,
onde o sangue congela nas veias
feito o vinho nos cálices esquecidos
e o tempo se transforma
em um peso sufocante sobre o peito.

Vêm as emoções noturnas
sobre a imensidão que esmaga,
o pessimismo existencial
que desperta nas horas mortas,
enquanto a mente se perde
em aflições sobre o nada absoluto,
indagando, em vão,
sobre o abismo insondável do ser. 

Nestas paragens sombrias
e malditas de Agonihria,
os tormentos da mente
não se desfazem com o amanhecer;
antes, fragmentam-se
como agulhas invisíveis de um delírio,
perfurando a barreira
que separa o tédio da vigília. 

Tudo se tinge em tons de púrpura,
estímulos sensoriais ligados ao escuro,
onde coisas e seres
de beleza extraordinária
revelam sua essência agônica. 

É a contemplação dolorosa
da matéria escura que tudo envolve,
a agonia muda e visceral
por não poder desvendar o universo
em seu mistério mais sombrio.

II 

O infeliz que desperta deste transe
não retorna à segurança;
Traz nos lábios
o gosto amargo de terra,
a alma exausta de sonhos
e pesadelos angustiantes,
descobrindo que o chão
da realidade desperta
foi contaminado pelo veneno
de um estado psicológico martirizante. 

Olhai, pois,
para o interior daquele abismo.
Ali reside o morador do reflexo,
o fantasma da alcova,
ostentando um riso medonho,
satânico e cadavérico,
com olhos vazios que fitam
a própria eternidade do horror.

Ele não ri por alegria
sua face tem a rigidez da morte,
mas pelo excesso de um suplício
que desafia a linguagem. 

Quão fatal é o impulso
daquele que, tomado de pavor,
golpeia o vidro
na vã tentativa de sepultar a aparição;
quebrar o espelho
é o caminho mais rápido para a perdição. 

A imagem não morre:
se multiplica em mil sarcófagos.
Cada diminuto estilhaço
espalhado pelo chão do quarto
converte-se em um novo olho
vítreo que vigia;
cada fração de vidro reproduz
o mesmo riso imóvel e infame. 

Não são necessários séculos
de martírio para que a alma capitule;
basta uma breve semana
de uma vigília corrompida,
entre o ópio, a loucura
e o espectro de uma virgem morta,
para que o suntuoso edifício da razão
desabe em ruínas. 

A demência ou a própria morte
seriam cortesias divinas,
pois o flagelo definitivo
deste labirinto
não é o repouso na sepultura:
— onde as flores murcham em paz,
mas a condenação
de permanecer perfeitamente lúcido,
exilado para sempre
no avesso daquele cristal partido.


Escrito por:
Marcolongo Ricardo

Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
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Liturgia da Noite

Quando a tarde morre sangrando no horizonte distante, | e o crepúsculo veste o céu de luto agonizante, | eu caminho entre os túmulos da memória esquecida,…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Quando a tarde morre sangrando no horizonte distante,
e o crepúsculo veste o céu de luto agonizante,
eu caminho entre os túmulos da memória esquecida,
carregando em meu peito a sombra da tua partida. 

A noite abre seus braços como uma mãe silenciosa,
coroada por estrelas numa tristeza formosa,
e eu, pobre peregrino de um destino sem calor,
faço da escuridão o altar do meu amor. 

Há um canto entre as sombras que somente eu conheço,
onde os ventos da saudade rezam sem endereço,
ali deposito os sonhos que jamais pude viver,
flores negras de esperança que se recusam a morrer. 

Eu te amei como a lua ama o mar adormecido,
como um castelo em ruínas ama o tempo consumido,
eu te amei como a chuva ama o bosque outonal,
num desejo sem retorno, num suplício espectral. 

Teu nome era um incenso pelas trevas espalhado,
um fantasma luminoso sobre o mundo abandonado,
e cada noite sem tua presença junto à minha
era uma cruz carregada por uma alma que definha. 

Quantas vezes contemplei a madrugada vazia,
vendo a dor fazer morada onde antes havia alegria,
quantas vezes a lembrança, como um corvo sepulcral,
veio pousar sobre os restos do meu sonho ancestral. 

As estrelas pareciam olhos frios a vigiar
o lento naufrágio da esperança perdida no luar,
e a lua, velha sacerdotisa das tristezas sem fim,
derramava sua prata sobre os desertos em mim. 

Então compreendi o segredo que a noite escondia:
toda lágrima guardava uma secreta alquimia,
pois a dor, quando profunda, como um rio subterrâneo,
escava dentro da alma um reino vasto e arcano. 

Foi quando o amor surgiu entre os escombros do sofrer,
como uma rosa impossível voltando a florescer,
não um amor de incêndios nem de febre passageira,
mas um farol aceso contra a tormenta derradeira. 

Veio suave como um hino que atravessa a eternidade,
como um anjo fatigado retornando à claridade,
e tocou minhas feridas com um gesto tão sereno
que transformou o meu inverno num pesadelo ameno. 

Desde então a escuridão continua a me chamar,
e ainda ouço as velhas mágoas sussurrando ao luar,
mas já não sou o espectro que vagava sem destino,
pois carrego dentro do peito um fogo clandestino. 

A noite segue sendo minha amante e confidente,
o espelho onde contemplo minha alma decadente,
mas onde antes reinava o abandono sepulcral,
ergue-se agora um sonho sereno e imortal. 

E se um dia o tempo vier fechar meus olhos cansados,
e eu repousar entre os mortos, pelos séculos velados,
que escrevam sobre minha lápide, em letras de esplendor: 

"Aqui dorme um homem triste,
salvo pela noite e redimido pelo amor."


Escrito por:
Cláudio Borba

Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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Arte de Henry Fuseli, edição de Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Vim para essa instituição ainda adolescente; a construção era sólida e grandiosa — mesmo sendo um prédio relativamente novo, ele trazia elementos da arquitetura vitoriana. Despedi-me de meus pais com o remorso corroendo meu peito, mas sabendo que eles tentaram de tudo, e no final acabei compreendendo a decisão deles. Fui recebido por uma equipe formada por dois médicos, três enfermeiros e um auxiliar; eles me levaram para conhecer as instalações (que, aliás, não eram lá essas coisas), mas isso não me importava, contanto que eu melhorasse dessa terrível condição. O prédio, por dentro, parecia ter parado no tempo; o forte odor de desinfetante com pano sujo pairava pelo ar, presente em cada cômodo.

Subimos um grande lance de escadas — não sei explicar, mas senti-me observado. No fim dos degraus, vi um grande portão de ferro com severas marcas de corrosão; após atravessá-lo, deparei-me com um colossal e alto corredor, mal iluminado por luzes amareladas oscilantes. O piso de ladrilhos azuis perdera a cor, assim como a meia parede de azulejos verdes. Conforme caminhava, vi outros pacientes em seus leitos; gritos e risadas se misturavam, causando calafrios — outras portas permaneciam fechadas — até que paramos. Vi então a maciça porta de madeira onde resquícios de tinta branca resistiam ao inexorável tempo; olhei mais acima e vi o número 106, em ferro, no centro dela. Uma minúscula janela de vidro, impregnada com décadas de sujeira — algumas manchas eram marrons escuras, semelhantes a sangue —, esse pensamento me assombrou.

A porta rangeu; meus olhos passearam pelo cômodo. À esquerda, próximo à porta, encontrava-se uma mesa com duas cadeiras, ambas brancas. À minha frente havia uma claustrofóbica janela gradeada e, abaixo dela, uma cama robusta de ferro decorada com faixas de contenção fixas na lateral. Caminhei até a janela, onde contemplei um belo jardim com árvores frutíferas, gramas podadas e alguns bancos dispostos. Desejei respirar o ar puro…

Por mais que aqui houvesse pessoas transitando o tempo todo, este lugar exalava desesperança — semelhante ao umbral onde incontáveis almas padecem em eterna agonia, esperando para serem salvas. Esse pensamento trouxe uma sensação perturbadora: será que um dia sairei daqui?

Uma leve vertigem apoderou-se de mim; do alto da minha testa surgiram tímidas gotículas que logo formariam uma nascente. Conseguia ouvir os batimentos em descompasso. Antes do inevitável desmaio, os enfermeiros me puseram na cama; devido à minha agitação, deram-me um calmante via oral e disseram que havia guardas lá fora para uma possível necessidade. Assim que eles saíram, acenei para os guardas — mas as amarras me causaram calafrios. Esperava adormecer o quanto antes; não demorou para o sono vir.

Em algum momento daquela noite, acordei agitado. Não vi ninguém lá fora; gritei por socorro, mas minha voz se perdia no vazio. Continuei tentando. Minha respiração falhava como se houvesse um peso em meu peito — como na pintura Pesadelo, de Henry Fuseli. Fechei os olhos e fiz o exercício de respiração; no passado, funcionava.

Respirei novamente e gritei do fundo das minhas entranhas. Para minha sorte, os guardas retornaram e, com agilidade, seguraram meu corpo que se debatia com violência; em poucos minutos, o restante da equipe havia chegado. Durante os primeiros socorros, presenciei algo medonho: uma sombra disforme surgia por trás da porta, espalhando uma horrífica luz arroxeada. Não poderia ser… seria a mesma figura que tanto me assombrara na infância? Neste momento, uma certa frase ecoou em minha mente: "Está tudo bem, Pedro — foi apenas um pesadelo. Vamos rezar para que tudo fique bem, certo, filho?"

Desta vez, o horror era verossímil demais para ser um pesadelo. O nefasto brilho ocupou todo o cômodo até que a figura adentrou o recinto: era esguia, corcovada, cinzenta, quase translúcida, mas também opaca. No rosto, dois enormes e enegrecidos olhos que pareciam devorar minha alma, e um sorriso medonho repleto de dentes afiados. O medo ancestral abraçou meu trêmulo corpo. Rapidamente os enfermeiros colocaram as amarras para conter os espasmos; os gritos tornaram-se guturais. Relatei o que estava vendo e eles se entreolharam, balançando a cabeça em negação. Lá fora, uma sirene tocava constantemente.

Percebi mãos em meu pescoço — havia a chance de alguma lesão. A cama gemia; os gritos se misturavam com frases desconexas; pupilas dilatadas em frenesi.

— Ele está perdendo a consciência — inicie a massagem cardíaca. Vamos, rápido, não podemos perdê-lo — um dos enfermeiros falou.

A massagem pareceu funcionar. Pela visão periférica, vi-a se aproximar e pousar os olhos nos meus; a agulha perfurou minha pálida pele — o líquido ardeu em minhas veias. Rapidamente o medicamento fez efeito; minhas pálpebras pesaram. Entretanto, a maldita figura permanecia ali, assim como aquela tenebrosa cor.


Escrito por:
Pablo Henrique

Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
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Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Velian retornara do Rio de Janeiro há algumas semanas.

O apartamento em Fortaleza permanecia exatamente como o deixara. O caixão oculto no cômodo escuro. As estantes repletas de livros antigos e modernos. As cortinas pesadas impedindo a entrada do sol nordestino. Nada havia mudado.

E, ainda assim, algo nele estava diferente.

Nas noites que se seguiram ao retorno, vagou pelas ruas da cidade sem propósito definido. Caminhava pela Beira-Mar observando as barracas que encerravam suas atividades, os pescadores preparando embarcações para a madrugada, os vendedores desmontando estruturas sob o vento constante que vinha do Atlântico. Fortaleza nunca dormia completamente; apenas diminuía o ritmo. Havia sempre alguém acordado, alguém amando, alguém brigando, alguém chorando.

Os humanos insistiam em existir com uma intensidade que o fascinava.

Séculos atrás, aquilo lhe parecera ridículo.

Décadas atrás, invejável.

Agora lhe parecia belo.

Talvez porque finalmente compreendesse que a fragilidade era parte daquilo que tornava cada momento significativo.

Ou talvez estivesse apenas envelhecendo.

Sorriu diante da própria conclusão.

— Um vampiro envelhecendo. Que piada de mau gosto.

Continuou caminhando.

O vento espalhava o cheiro da maresia pelas avenidas. Ao longe, um pequeno bar ainda mantinha música acesa na madrugada. Vozes embriagadas misturavam-se ao som distante do mar. Velian observava tudo como quem contempla uma peça teatral conhecida.

Desde o encontro com Cassandra, algo permanecia inquieto em sua mente.

Não era saudade.

Jamais utilizaria uma palavra tão humana.

Mas a lembrança dela surgia ocasionalmente.

O sorriso irônico.

Os olhos vermelhos.

A maneira como debochava de suas perguntas.

A forma como parecia compreender a escuridão sem precisar interrogá-la constantemente.

Talvez fosse isso que mais o irritava.

Ou admirava.

Ainda não decidira.

Também pensava em Nix.

A Senhora da Noite não lhe concedera respostas. Pelo contrário. Desde aquele encontro, as perguntas haviam se multiplicado. Contudo, agora possuíam outra textura. Já não eram apenas feridas abertas buscando explicações. Tornaram-se caminhos.

Velian continuava sem compreender a existência.

Continuava sem compreender a eternidade.

Continuava sem compreender a si mesmo.

Mas passara a gostar da busca.

Aquilo era novo.

Durante muito tempo procurara respostas para preencher um vazio.

Agora buscava porque desejava conhecer.

Talvez houvesse diferença.

Talvez não.

As dúvidas permaneciam.

Como sempre.

A madrugada avançava lentamente quando o frio chegou.

Um frio impossível.

Não era o vento do oceano.

Nem uma mudança climática comum.

Era um frio antigo.

Sobrenatural.

O tipo de frio que atravessava carne, osso e memória.

Velian parou imediatamente.

Uma cinza negra caiu sobre seu ombro.

Depois outra.

E outra.

Levantou a mão.

Os fragmentos escuros pareciam pequenos pedaços de carvão reduzidos a pó. Possuíam um odor estranho. Não o cheiro comum da fumaça, mas algo semelhante a flores apodrecidas, madeira úmida e tecido guardado durante séculos.

Conhecia aquele sinal.

O Castelo Drácula estava chamando.

Porém havia algo diferente.

Normalmente o chamado possuía um aspecto quase curioso, como uma porta se abrindo para mais um mistério.

Desta vez parecia um pedido de socorro.

Ou um aviso.

As sombras começaram a reunir-se diante dele.

As luzes da avenida tornaram-se distantes.

Os sons da cidade enfraqueceram.

Até mesmo o mar pareceu recuar.

Velian suspirou.

— Espero sinceramente que desta vez ninguém tente me ensinar outra metáfora sobre a existência.

As sombras abriram-se.

E ele atravessou.

O impacto foi imediato.

Agonihria.

O nome surgiu em sua mente como uma lembrança esquecida.

Cinzas negras caíam continuamente do céu.

Uma névoa púrpura espalhava-se entre as torres do Castelo Drácula como um organismo vivo.

O ar possuía cheiro de decomposição.

Não a decomposição comum da carne.

Mas algo mais antigo.

O odor de memórias esquecidas.

De sonhos abandonados.

De promessas que jamais foram cumpridas.

O Castelo parecia diferente.

Mais alto.

Mais vasto.

Como se tivesse envelhecido milhares de anos desde a última visita.

As muralhas estavam parcialmente cobertas por musgos escuros. Rochas pontiagudas emergiam dos jardins. Pinheiros negros curvavam-se sob o peso das cinzas.

E havia silêncio.

Um silêncio tão profundo que parecia observar.

Velian avançou pelos corredores.

As sombras pareciam mais densas.

As paredes suadas pela umidade refletiam discretamente a luz violeta que filtrava-se pelas janelas.

A cada passo sentia uma estranha sensação de abandono.

Como se estivesse caminhando através das ruínas emocionais de alguém.

Ou de alguma coisa.

Os corredores pareciam maiores do que deveriam.

As distâncias alteravam-se.

Portas surgiam onde antes não existiam.

Escadas conduziam a lugares impossíveis.

O próprio Castelo parecia sonhar.

E o sonho não era agradável.

Então ouviu uma voz familiar.

— Continuas com a péssima mania de chegar atrasado.

Velian sorriu antes mesmo de vê-la.

Cassandra estava encostada numa coluna próxima a uma janela quebrada. Os longos cabelos escuros caíam pelos ombros. O vestido negro contrastava com a pele pálida. Seus olhos vermelhos observavam a tempestade de cinzas que caía além do vidro.

Por um instante, a opressão de Agonihria pareceu diminuir.

Apenas um instante.

— Pensei que estivesses no Rio.

— Eu estava.

— E agora estás aqui.

— Excelente dedução.

— Séculos de prática.

O sorriso dela surgiu discreto.

— Vejo que ainda não encontraste respostas.

— Vejo que ainda finges não fazer perguntas.

Cassandra soltou uma breve gargalhada.

— Talvez eu apenas seja mais inteligente.

— Ou mais teimosa.

— Também.

Por alguns segundos permaneceram observando a paisagem espectral.

As cinzas continuavam caindo.

A névoa ondulava entre as torres.

O Castelo parecia respirar.

Então Cassandra tornou-se séria.

Algo raro.

— Este lugar está errado.

Velian voltou o olhar para ela.

— O Castelo costuma estar errado.

— Não desta forma.

O tom de sua voz bastou.

Cassandra raramente demonstrava preocupação.

Quando o fazia, havia motivo.

— O que encontraste?

— Nada.

— Isso parece ruim.

— É pior.

Ela afastou-se da coluna.

— O Castelo está vazio.

Velian sentiu um leve arrepio.

Porque compreendia exatamente o que ela queria dizer.

O Castelo Drácula jamais estava vazio.

Sempre havia vozes.

Presenças.

Monstros.

Ecos.

Memórias.

Alguma coisa.

Mas agora existia apenas silêncio.

E o silêncio parecia faminto.

O silêncio parecia faminto.

Velian e Cassandra avançaram pelos corredores do Castelo Drácula sem dizer mais nada durante alguns minutos. Em circunstâncias normais, ambos trocariam provocações incessantes. Era quase um hábito antigo. Contudo, Agonihria possuía uma maneira peculiar de tornar o humor mais difícil.

As cinzas negras continuavam caindo do lado de fora.

Em determinados momentos, Velian teve a impressão de ouvir vozes misturadas ao som do vento.

Sussurros.

Lamentos.

Palavras incompreensíveis.

Quando tentava escutá-las melhor, desapareciam.

O corredor começou a estreitar-se.

Ou talvez estivesse apenas parecendo mais estreito.

Em Agonihria era difícil distinguir realidade de percepção.

As paredes de pedra deram lugar a superfícies cobertas por papel decorativo antigo. Arabescos púrpura espalhavam-se por desenhos florais quase apagados pela umidade. Fungos escuros consumiam os cantos. Em alguns trechos, o papel descascava lentamente como pele morta desprendendo-se de um cadáver.

O cheiro tornou-se mais intenso.

Mofo.

Ferrugem.

Terra molhada.

E algo mais.

Algo químico.

Doentio.

Cassandra aproximou os dedos de uma das paredes.

— Arsênio.

Velian arqueou uma sobrancelha.

— Claro que você sabe reconhecer arsênio pelo cheiro.

— E você não?

— Não costumo cheirar venenos por diversão.

— Falha de caráter.

Continuaram caminhando.

A arquitetura mudava à medida que avançavam. O aspecto medieval do Castelo desaparecia gradualmente. Corredores vitorianos surgiam diante deles. Lustres enferrujados pendiam do teto. Tapetes antigos apodreciam sob os próprios fios.

Tudo parecia abandonado havia séculos.

E, ainda assim, existia uma estranha sensação de presença.

Como se alguém observasse através das paredes.

Como se alguma coisa aguardasse.

Velian percebeu primeiro.

— Estamos sendo seguidos.

Cassandra não demonstrou surpresa.

— Eu sei.

— Há quanto tempo?

— Desde que chegamos.

— E não pretendias comentar?

— Estava curiosa.

— Evidentemente.

Uma sombra moveu-se no final do corredor.

Depois desapareceu.

Outra surgiu atrás deles.

Em seguida uma terceira.

Velian estreitou os olhos.

As formas eram humanoides.

Mas algo estava errado.

Os movimentos pareciam quebrados.

Como marionetes manipuladas por mãos invisíveis.

Nenhum som acompanhava seus passos.

Nenhuma respiração.

Nenhum coração.

Nada.

Apenas presença.

Continuaram avançando.

Os vultos também.

Sem atacar.

Sem se aproximar demais.

Apenas observando.

Como animais avaliando uma presa.

Ou talvez convidados.

A mansão revelou-se subitamente.

Nenhum dos dois percebeu exatamente quando chegaram.

Ela simplesmente estava ali.

Uma enorme construção vitoriana erguida no interior do Castelo.

Janelas altas.

Paredes cobertas de fungos.

Varandas corroídas pelo tempo.

O lugar parecia existir fora da lógica.

Como se tivesse sido sonhado por alguém que nunca conhecera arquitetura.

Velian observou a construção durante alguns segundos.

— Tenho uma péssima sensação sobre isso.

— Então estamos no caminho certo.

— Eu realmente detesto tua lógica.

Subiram os degraus.

A porta abriu-se sozinha.

O interior mergulhava numa penumbra violeta.

Velas apagadas ocupavam castiçais enferrujados.

Quadros cobertos por tecido acumulavam poeira.

Relógios antigos permaneciam imóveis.

Nenhum marcava a mesma hora.

Nenhum parecia marcar hora alguma.

Então ouviram.

Um som.

Baixo.

Distante.

Como alguém mastigando.

Velian parou.

O som repetiu-se.

Mastigação.

Lenta.

Úmida.

Persistente.

— Diga que ouviu isso.

— Infelizmente.

O ruído aumentou.

Veio do andar superior.

Depois de outro cômodo.

Depois de vários lugares ao mesmo tempo.

Como se dezenas de bocas trabalhassem simultaneamente.

Mastigando.

Roendo.

Triturando.

A mansão inteira parecia alimentar-se de alguma coisa.

O desconforto espalhou-se pelo ambiente.

Pela primeira vez desde que chegara, Velian sentiu uma antiga sensação emergir.

Medo.

Não o medo comum dos mortais.

Mas aquele raro desconforto que apenas os verdadeiros mistérios provocavam.

Continuaram avançando.

O som tornou-se mais próximo.

Mais intenso.

Mais orgânico.

Até encontrarem o quarto.

A porta estava entreaberta.

O cheiro era insuportável.

Mofo.

Ferrugem.

Carne deteriorada.

Sangue antigo.

E aquele estranho odor químico vindo dos papéis de parede.

No centro do aposento havia uma cama vitoriana.

Os lençóis estavam rasgados.

Escurecidos.

Como se décadas de poeira houvessem se acumulado sobre eles.

Diante da cama erguia-se um espelho gigantesco.

A moldura era ornamentada com flores esculpidas.

Mas as flores pareciam apodrecidas.

Distorcidas.

Quase vivas.

Velian aproximou-se.

O próprio reflexo surgiu.

Algo impossível.

Vampiros não possuíam reflexos.

Mas Agonihria não parecia interessar-se por regras.

Cassandra apareceu ao lado dele.

Ela também estava refletida.

Por alguns instantes nada aconteceu.

Então os reflexos sorriram.

Nenhum dos dois sorrira.

O silêncio tornou-se absoluto.

As versões refletidas permaneceram observando-os.

Imóveis.

Então o reflexo de Cassandra inclinou a cabeça.

— Ainda finges que não sentes falta deles?

A verdadeira Cassandra permaneceu imóvel.

Velian percebeu imediatamente.

A pergunta atingira algum lugar profundo.

O reflexo continuou.

— De todos os amantes.

De todos os discípulos.

De todos os amigos.

De todos os mortos.

A figura refletida sorriu.

— Quantos nomes ainda consegues lembrar?

Cassandra fechou os olhos por um instante.

Apenas um instante.

Mas foi suficiente.

Velian nunca a vira hesitar daquela maneira.

Então o espelho voltou-se para ele.

Seu reflexo observou-o com olhos completamente negros.

— E tu?

A voz era sua.

Mas não era.

— Quantas respostas procuraste apenas para não admitir que tens medo?

Velian sustentou o olhar.

— Medo de quê?

O reflexo sorriu.

— De continuar existindo.

O quarto pareceu escurecer.

As sombras tornaram-se mais densas.

— De continuar desejando.

De continuar perdendo.

De continuar sobrevivendo enquanto tudo desaparece.

As palavras ecoaram pelo aposento.

Velian sentiu algo apertar seu peito.

Porque não eram mentiras.

O espelho compreendia.

E isso era pior.

Muito pior.

Uma rachadura surgiu na superfície refletora.

Depois outra.

E outra.

O som espalhou-se pelo quarto.

Lento.

Cruel.

Como ossos partindo-se sob pressão.

As rachaduras multiplicaram-se.

Até que algo começou a emergir.

Primeiro uma mão.

Depois um braço.

Em seguida um rosto.

Ou aquilo que um dia fora um rosto.

A criatura arrastou-se para fora do espelho.

Sua pele era cinzenta.

Os olhos completamente ocos.

E dentes.

Dentes por toda parte.

Nas faces.

Nos ombros.

Nos braços.

No pescoço.

Nas costelas.

Centenas deles.

Talvez milhares.

A criatura arrancou um dos próprios dentes.

Sorriu.

Então o mastigou.

Outro nasceu imediatamente.

Mais criaturas começaram a surgir.

Uma após outra.

Arrastando-se para fora dos espelhos rachados.

Todas cobertas por dentes.

Todas sorrindo.

Todas sofrendo.

Todas parecendo sentir prazer na própria dor.

O quarto inteiro foi preenchido pelo som.

Mastigação.

Estalos.

Dentes quebrando.

Dentes crescendo.

Dentes sendo arrancados.

As criaturas observavam os dois vampiros.

E então falaram.

Não individualmente.

Mas como uma única voz.

Uma voz composta por centenas de gargantas.

— O abandono nos criou.

— A perda nos alimenta.

— O esquecimento nos fortalece.

Uma delas aproximou-se de Velian.

Seus olhos vazios refletiam apenas escuridão.

— Quantos partiram?

Outra surgiu ao lado.

— Quantos ainda partirão?

Mais uma.

— Quantos nomes esqueceste?

As criaturas começaram a cercá-los lentamente.

Sorrindo.

Mastigando.

Esperando.

E, pela primeira vez desde a chegada ao Castelo, Cassandra abandonou completamente a expressão irônica.

Porque compreendeu a mesma coisa que Velian.

Agonihria não pretendia matá-los.

Pretendia fazê-los lembrar.

Agonihria não pretendia matá-los.

Pretendia fazê-los lembrar.

Por alguns segundos, ninguém se moveu.

As criaturas continuaram cercando-os lentamente. O som dos dentes partindo-se entre suas mandíbulas preenchia o quarto. Era um ruído quase hipnótico. Monótono. Persistente. Como um relógio macabro medindo o tempo através da dor.

Velian observou uma delas mais atentamente.

Os dentes não cresciam ao acaso.

Cada um parecia diferente.

Alguns eram humanos.

Outros lembravam presas de animais.

Outros ainda possuíam formatos impossíveis.

Como se cada dente fosse uma memória petrificada.

Uma perda.

Uma ferida.

Uma ausência.

A criatura mais próxima abriu a boca.

Lá dentro não havia língua.

Nem garganta.

Apenas mais dentes.

Infinitos dentes.

Velian sentiu a escuridão de Nix mover-se em algum lugar profundo de sua consciência.

Não como uma arma.

Mas como uma presença.

Uma vastidão silenciosa observando tudo.

A Noite primordial.

Antiga demais para temer monstros.

Antiga demais para temer abandono.

A criatura avançou.

E Cassandra foi a primeira a agir.

Símbolos negros incendiaram-se ao redor de seus braços. Runas antigas surgiram sobre a própria pele como serpentes feitas de sombra. O ar vibrou.

Então a vampira ergueu uma das mãos.

Uma explosão de energia atravessou o aposento.

Três criaturas foram arremessadas contra a parede.

Os corpos despedaçaram-se.

Dentes espalharam-se pelo chão.

Por um instante, o silêncio retornou.

Então os dentes começaram a mover-se.

Velian observou-os reorganizarem-se.

Unindo-se.

Reconstruindo carne.

Tecendo ossos.

Poucos segundos depois, as criaturas estavam novamente de pé.

Sorrindo.

Sempre sorrindo.

— Eu odeio lugares simbólicos — resmungou Velian.

— Eu avisei que algo estava errado.

— Você avisou que o Castelo estava vazio.

— E estava.

Uma gargalhada ecoou pelo aposento.

Não partira de Cassandra.

Nem de Velian.

Partira das próprias criaturas.

Centenas de vozes misturadas.

Centenas de gargantas.

Centenas de abandonos.

As paredes começaram a pulsar.

O papel decorativo desprendia-se lentamente.

Sob ele surgiam inscrições.

Nomes.

Milhares deles.

Nomes riscados.

Esquecidos.

Apagados.

Alguns escritos em idiomas mortos.

Outros em línguas que Velian jamais vira.

As criaturas continuavam aproximando-se.

— O que achas que são? — perguntou ele.

Cassandra não desviou os olhos dos monstros.

— Pessoas.

— Isso é reconfortante.

— Pessoas esquecidas.

— Ah. Menos reconfortante.

Uma das criaturas saltou.

Velian moveu-se imediatamente.

As garras atravessaram o peito do monstro.

O corpo abriu-se.

E algo caiu no chão.

Não sangue.

Não vísceras.

Mas fotografias.

Cartas.

Flores secas.

Objetos pessoais.

Pequenos fragmentos de vidas perdidas.

A criatura desfez-se em cinzas.

Outra ocupou seu lugar.

Depois outra.

Depois mais três.

A mansão inteira pareceu despertar.

Passos ecoaram pelos corredores.

Portas abriram-se sozinhas.

Espelhos racharam.

O som da mastigação tornou-se ensurdecedor.

E então Agonihria revelou algo ainda pior.

As criaturas começaram a mudar.

Seus rostos tornaram-se familiares.

Velian reconheceu alguns.

Um antigo amante da França medieval.

Uma mulher que conhecera durante o século XVIII.

Um jovem poeta que o acompanhara durante alguns anos em Lisboa.

Todos mortos.

Todos desaparecidos.

Todos transformados em algo grotesco.

As criaturas sorriram.

— Ainda lembras.

— Ainda dói.

— Ainda desejas.

Velian sentiu o golpe.

Não físico.

Mas emocional.

Porque lembrava.

Lembrava de todos.

Não dos rostos apenas.

Dos gestos.

Das vozes.

Dos momentos.

Das despedidas.

A eternidade possuía uma crueldade peculiar.

Tudo se transformava em fantasma.

Mesmo as memórias felizes.

Do outro lado do aposento, Cassandra permanecia imóvel.

As criaturas cercavam-na.

E também haviam mudado.

Velian observou sua expressão endurecer.

Os monstros assumiam formas que ele não reconhecia.

Mas Cassandra reconhecia.

Isso bastava.

Por um momento, a vampira desviou o olhar.

Por um único instante.

E aquilo era mais assustador do que qualquer monstro.

Porque Cassandra raramente olhava para trás.

Raramente permitia-se recordar.

As criaturas aproximaram-se dela.

— Ainda sentes falta deles.

— Ainda carregas seus nomes.

— Ainda finges que não te importas.

A magia ao redor da vampira explodiu violentamente.

As janelas estilhaçaram-se.

As paredes tremeram.

Diversas criaturas foram destruídas instantaneamente.

Mas nenhuma desapareceu.

Continuavam retornando.

Sempre retornando.

Velian compreendeu.

Não importava quantas fossem destruídas.

Não estavam lutando contra corpos.

Estavam lutando contra uma ideia.

Contra um sentimento.

Contra algo muito mais antigo que carne e osso.

O Castelo inteiro estremeceu.

As cinzas negras começaram a cair dentro da mansão.

A névoa púrpura infiltrou-se pelas rachaduras.

Os corredores pareciam alongar-se.

As portas desapareciam.

As paredes moviam-se.

Como se Agonihria estivesse fechando suas mãos ao redor deles.

Então uma voz surgiu.

Profunda.

Distante.

Maior que todas as outras.

Uma voz que parecia vir do próprio Castelo.

Ou talvez do próprio vazio.

— Tudo será esquecido.

As criaturas silenciaram imediatamente.

A mansão inteira silenciou.

Até mesmo a mastigação cessou.

A voz continuou.

— Toda paixão.

Toda memória.

Toda conquista.

Todo amor.

Todo conhecimento.

Tudo.

Velian sentiu a temperatura cair ainda mais.

As sombras tornaram-se densas.

Espessas.

Quase líquidas.

E algo começou a surgir do espelho destruído.

Algo enorme.

Muito maior do que as criaturas.

Uma massa de escuridão coberta por milhares de olhos vazios e bocas repletas de dentes.

Os dentes moviam-se sozinhos.

Como insetos.

Como parasitas.

Como pensamentos doentes.

A entidade ergueu-se lentamente.

Sua cabeça quase tocava o teto.

Os olhos observavam Velian.

Observavam Cassandra.

Observavam tudo.

— Eu sou o abandono.

A voz fez a mansão inteira tremer.

— Eu sou aquilo que permanece quando tudo parte.

Uma das bocas abriu-se.

Depois outra.

Depois centenas.

— Eu sou o silêncio após o último adeus.

Velian percebeu que até Cassandra havia ficado imóvel.

Não por medo.

Mas por reconhecimento.

Aquilo não era uma criatura.

Não era um fantasma.

Não era um demônio.

Era um conceito.

Uma manifestação.

Uma ferida transformada em existência.

E Agonihria era seu reino.

A entidade voltou-se para Velian.

Milhares de olhos vazios observando-o simultaneamente.

— Tu conheces meu nome.

Velian sustentou o olhar.

— Conheço.

— Caminhas comigo há séculos.

— Sim.

— Então por que continuas procurando?

O silêncio espalhou-se.

Mesmo Cassandra voltou-se para ele.

A pergunta parecia destinada apenas a Velian.

Mas talvez fosse destinada a todos.

Ao Castelo.

À humanidade.

À própria eternidade.

A entidade aproximou-se.

As sombras tornaram-se ainda mais profundas.

— Por que continuas desejando?

— Por que continuas amando?

— Por que continuas buscando?

A voz tornou-se mais suave.

Mais perigosa.

— Não aprendeste nada?

Durante alguns segundos Velian não respondeu.

Porque aquela era exatamente a pergunta que o perseguira durante séculos.

E talvez fosse a pergunta que definia sua existência.

Então sentiu novamente a presença de Nix.

Não uma resposta.

Jamais uma resposta.

Apenas a vastidão da noite.

A escuridão infinita onde estrelas nasciam e morriam sem alterar sua essência.

A noite não prometia sentido.

Apenas existência.

E, estranhamente, aquilo bastava.

Velian sorriu.

Um sorriso pequeno.

Mas genuíno.

E então respondeu.

— Aprendi exatamente o contrário.

— Aprendi exatamente o contrário.

A entidade permaneceu imóvel.

Os milhares de olhos vazios observavam Velian.

As centenas de bocas repletas de dentes permaneciam abertas.

Esperando.

O silêncio tornou-se quase absoluto.

Então Velian deu um passo à frente.

A névoa púrpura girava ao redor de seus pés. As cinzas negras continuavam caindo através das janelas destruídas da mansão. Ao longe, o Castelo Drácula parecia respirar como um organismo colossal adormecido.

— Passei séculos acreditando que precisava encontrar respostas — disse ele. — Depois passei séculos acreditando que precisava encontrar prazeres. Depois poder. Depois conhecimento. Depois esquecimento.

A criatura permaneceu imóvel.

— E encontraste?

Velian sorriu.

— Às vezes.

A resposta pareceu irritar a manifestação.

As sombras ao redor dela estremeceram.

— Às vezes?

— Sim. Às vezes encontrei prazer. Às vezes encontrei amor. Às vezes encontrei conhecimento. Às vezes encontrei companhia.

A entidade inclinou lentamente a cabeça.

— E perdeste tudo.

— Sim.

— Todos morreram.

— Sim.

— Todos partiram.

— Sim.

A criatura pareceu crescer.

As paredes da mansão rangeram.

Os espelhos restantes começaram a rachar.

— Então eu venci.

Velian ficou em silêncio por alguns instantes.

Então riu.

Uma gargalhada breve.

Sincera.

Quase humana.

Até Cassandra pareceu surpresa.

— Não. — respondeu ele. — É justamente aí que está o erro.

Os olhos da entidade estreitaram-se.

— Explica.

— Eles partiram.

Mas existiram.

A resposta espalhou-se pelo aposento como uma pedra lançada em águas imóveis.

A manifestação permaneceu imóvel.

Velian continuou.

— Vivi tempo suficiente para esquecer rostos.

Esquecer nomes.

Esquecer cidades inteiras.

Vi impérios nascerem e desaparecerem.

Vi religiões mudarem.

Vi pessoas morrerem.

Vi amores acabarem.

Mas o fato de algo terminar não significa que nunca tenha existido.

As criaturas dos dentes começaram a recuar lentamente.

Como se alguma força invisível as incomodasse.

— O abandono não apaga aquilo que foi vivido.

Ele apenas vem depois.

A entidade permaneceu em silêncio.

Pela primeira vez parecia não possuir resposta imediata.

Velian sentiu algo mover-se dentro de si.

Não era fome.

Não era violência.

Não era desejo.

Era a presença de Nix.

A noite.

A verdadeira noite.

Não a escuridão do medo.

Não a ausência de luz.

Mas a vastidão primordial que existia antes dos homens nomearem as coisas.

A escuridão que não julgava.

Que não exigia respostas.

Que apenas era.

Sombras começaram a reunir-se ao redor dele.

Não eram agressivas.

Não eram monstruosas.

Eram profundas.

Infinitas.

Belas.

As cinzas negras tocaram seu corpo e desapareceram.

A névoa púrpura começou a dissolver-se.

A entidade recuou pela primeira vez.

— O que és agora?

A pergunta veio quase como um sussurro.

Velian pensou por alguns segundos.

— Não faço ideia.

A resposta arrancou um sorriso de Cassandra.

— Essa é a coisa mais honesta que já disseste em décadas.

— Eu estava tentando impressionar uma manifestação metafísica.

— Está funcionando.

A entidade rugiu.

As paredes da mansão estremeceram.

Centenas de criaturas avançaram simultaneamente.

Desta vez não havia intenção de dialogar.

Apenas destruir.

Apenas consumir.

Apenas transformar tudo em silêncio.

Então Cassandra avançou.

A vampira ergueu ambas as mãos.

Runas negras incendiaram-se ao redor de seu corpo. Símbolos antigos surgiram sobre sua pele como serpentes de sombra líquida.

Velian sentiu o impacto do poder imediatamente.

Mesmo após todos aqueles séculos, Cassandra continuava sendo uma das criaturas mais perigosas que conhecera.

Talvez a mais perigosa.

O ar tornou-se pesado.

As janelas explodiram.

As sombras da própria mansão começaram a obedecê-la.

— Sempre odiei coisas que tentam me dizer o que sentir.

A magia expandiu-se.

Dezenas de criaturas foram arremessadas contra paredes e colunas.

Outras simplesmente desintegraram-se.

Mas não retornaram.

Porque agora não estavam sendo destruídas apenas fisicamente.

Algo mais profundo acontecia.

A presença de Nix espalhava-se.

A manifestação do abandono começou a enfraquecer.

As criaturas hesitavam.

Os dentes quebravam-se.

As formas tornavam-se instáveis.

Velian compreendeu.

Agonihria alimentava-se de uma única certeza:

Que tudo era vazio.

Que toda conexão era inútil.

Que toda existência terminava em abandono.

Mas ele já não acreditava nisso.

Nem Cassandra.

E aquela convicção possuía poder.

Mais poder do que imaginara.

A entidade rugiu novamente.

Milhares de bocas abriram-se simultaneamente.

O som foi tão intenso que parte da mansão desabou.

Colunas partiram-se.

O teto rachou.

Cinzas negras caíram como chuva.

Então Velian avançou.

A velocidade foi quase invisível.

As sombras reuniram-se ao redor de suas mãos.

Não como lâminas.

Não como armas.

Mas como fragmentos da própria noite.

Ele atravessou a tempestade de dentes.

Atravessou os gritos.

Atravessou as sombras.

E alcançou o coração da manifestação.

Por um instante viu algo.

Não uma criatura.

Não um monstro.

Mas uma criança esquecida.

Um amante abandonado.

Um velho morrendo sozinho.

Uma mãe chorando.

Um amigo perdido.

Milhares de solidões acumuladas.

Milhares de dores.

Milhares de despedidas.

Agonihria era feita delas.

Velian fechou os olhos.

E compreendeu.

Nem mesmo aquele horror desejava existir.

A entidade nasceu porque alguém sofrera.

Porque muitos sofreram.

Porque o abandono existe.

Sempre existirá.

Então tocou a criatura.

Apenas tocou.

E a noite respondeu.

A escuridão de Nix espalhou-se através da manifestação.

Não para destruí-la.

Mas para envolvê-la.

Como o céu envolve as estrelas.

Como o oceano envolve os rios.

Como a noite envolve os sonhos.

A criatura parou de lutar.

As bocas silenciaram.

Os dentes deixaram de crescer.

Os olhos vazios fecharam-se lentamente.

E então Agonihria começou a ruir.

A mansão inteira tremeu.

Os corredores partiram-se.

Os espelhos explodiram.

As paredes cobertas por arsênio e mofo desmancharam-se.

O Castelo Drácula inteiro estremeceu.

Como se despertasse de um pesadelo.

As criaturas desapareceram.

As cinzas negras tornaram-se poeira comum.

A névoa púrpura dissipou-se.

O silêncio retornou.

Mas agora era diferente.

Não era um silêncio faminto.

Era apenas silêncio.

E, pela primeira vez desde que chegaram, Velian sentiu paz.

Uma paz estranha.

Breve.

Mas real.

Ao seu lado, Cassandra observava os destroços.

— Então era isso.

— Era.

— Continua irritantemente filosófico.

— Continua irritantemente poderosa.

— Justo.

Ao redor deles, Agonihria desaparecia.

E, pela primeira vez em muito tempo, nenhum dos dois sentiu necessidade de procurar respostas.

Bastava caminhar para fora daquele pesadelo.

Pelo menos por enquanto.

Pelo menos por enquanto.

Os corredores do Castelo Drácula reapareciam lentamente ao redor deles.

A mansão vitoriana desaparecera.

Os espelhos.

Os papéis de parede apodrecidos.

As criaturas dos dentes.

Tudo parecia dissolver-se como um sonho que já não conseguia sustentar a própria existência.

Restavam apenas os antigos corredores de pedra.

As colunas monumentais.

As janelas arqueadas que revelavam a noite eterna além dos limites do castelo.

Por algum tempo, Velian e Cassandra caminharam sem dizer nada.

Não havia urgência.

Talvez porque ambos compreendessem que certos silêncios possuem mais significado que muitas conversas.

As cinzas negras haviam desaparecido.

A névoa púrpura também.

No alto, estrelas impossíveis brilhavam sobre Soramithia.

O eclipse perpétuo pairava sobre o horizonte como um olho adormecido.

O Castelo parecia tranquilo.

Não alegre.

Jamais alegre.

Mas tranquilo.

Como um animal antigo que finalmente voltara a repousar.

Velian observava as janelas enquanto caminhavam.

O tempo.

Sempre o tempo.

Séculos atrás acreditara que a eternidade era um prêmio.

Depois pensara que fosse uma maldição.

Agora já não tinha certeza de nenhuma das duas coisas.

Talvez fosse apenas uma condição.

Uma estrada longa demais para ser compreendida de uma só vez.

— Estás pensando demais de novo.

A voz de Cassandra surgiu ao seu lado.

Velian sorriu.

— É uma acusação injusta.

— Não é.

— Talvez um pouco.

Ela soltou uma breve gargalhada.

O som ecoou pelos corredores vazios.

Por um instante, pareceu afastar séculos de escuridão.

— Sabes — disse Cassandra — quando te conheci, imaginei que acabarias enlouquecendo.

— Ainda há tempo.

— Não. Agora não.

Velian voltou-se para ela.

A vampira mantinha os olhos voltados para frente.

Como se observasse algo distante.

Algo que apenas ela conseguia enxergar.

— Mudaste.

— Isso costuma acontecer ao longo de alguns séculos.

— Não dessa forma.

O silêncio retornou.

Velian percebeu que ela estava sendo sincera.

Algo raro.

Muito raro.

— Antes procuravas respostas porque estavas desesperado.

Agora procuras porque estás curioso.

— Há diferença?

— Toda diferença do mundo.

Continuaram caminhando.

As palavras permaneceram entre eles.

Velian não respondeu imediatamente.

Porque Cassandra estava certa.

Durante muito tempo suas perguntas haviam sido uma tentativa de escapar.

Do vazio.

Da solidão.

Da própria eternidade.

Agora eram apenas perguntas.

E isso as tornava mais leves.

Mais honestas.

Mais humanas.

Atravessaram uma enorme galeria onde estátuas antigas observavam os visitantes com olhos de pedra.

Algumas representavam reis esquecidos.

Outras criaturas que jamais existiram.

Outras ainda pareciam deuses tão antigos que nem mesmo seus nomes sobreviveram.

Velian parou diante de uma delas.

Uma figura feminina envolta por sombras esculpidas.

O rosto parcialmente oculto.

Os olhos voltados para o céu.

Nix.

Ou ao menos uma interpretação dela.

A Senhora da Noite.

A deusa que jamais lhe concedera respostas.

Apenas perspectivas.

Sorriu.

Talvez aquele tivesse sido o maior presente.

— Ainda pensas nela? — perguntou Cassandra.

— Às vezes.

— Encontraste o que procuravas?

Velian observou a estátua.

— Não.

— Eu sabia.

— Mas encontrei algo melhor.

Cassandra ergueu uma sobrancelha.

— O quê?

— Mais perguntas.

Ela revirou os olhos.

— Definitivamente continuas sendo tu.

Saíram da galeria.

Os corredores começaram a mudar.

As sombras tornaram-se mais finas.

O ar mais leve.

O Castelo estava liberando-os.

A despedida aproximava-se.

Ambos sabiam.

Nenhum comentou.

Até que alcançaram um dos grandes salões de transição entre mundos.

Ali, as realidades misturavam-se.

Portas conduziam a lugares impossíveis.

Séculos diferentes.

Dimensões distintas.

Sonhos.

Pesadelos.

Memórias.

O Rio de Janeiro aguardava Cassandra atrás de uma das passagens.

Fortaleza aguardava Velian atrás de outra.

Permaneceram alguns instantes em silêncio.

Estranhamente, aquela parecia a parte mais difícil da noite.

Não enfrentar monstros.

Não enfrentar conceitos transformados em horror.

Mas despedir-se.

Talvez porque os adeuses sempre carregassem uma pequena morte.

Mesmo para imortais.

Cassandra cruzou os braços.

— Então é isso.

— É.

— Continuarás procurando sentido para a existência?

— Provavelmente.

— Que atividade ridícula.

— Concordo.

Ela sorriu.

Um sorriso pequeno.

Quase imperceptível.

Mas verdadeiro.

— Toma cuidado, Velian.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Isso foi preocupação?

— Não exageremos.

— Claro.

— Apenas seria inconveniente perder alguém capaz de me proporcionar discussões tão irritantes.

Velian riu.

Uma risada sincera.

Daquelas que surgiam cada vez mais raramente.

— Sentirei falta dos teus insultos.

— Mentira.

— Um pouco.

— Melhor assim.

Por um instante, nenhum dos dois se moveu.

Os séculos compartilhados passaram silenciosamente entre eles.

Guerras.

Viagens.

Discussões.

Desejos.

Separações.

Reencontros.

Nenhum dos dois precisava mencioná-los.

Existiam.

E isso bastava.

Finalmente Cassandra aproximou-se.

Tocou brevemente seu rosto.

Um gesto simples.

Mas raro.

Talvez mais íntimo do que qualquer demonstração grandiosa.

— Continua vivo, Velian.

— Pretendo tentar.

— Ótimo.

Então ela atravessou a passagem.

E desapareceu.

Sem cerimônias.

Sem lágrimas.

Exatamente como Cassandra faria.

Velian permaneceu sozinho no salão.

Observando o espaço vazio onde ela estivera.

Por alguns instantes apenas respirou.

Ou algo próximo daquilo.

Sentiu a ausência.

Mas não como dor.

Apenas como consequência natural da existência.

Todos os encontros terminam.

Todos os caminhos se separam.

E ainda assim continuam valendo a pena.

Sorriu diante do próprio pensamento.

Estava se tornando perigosamente otimista.

Atravessou sua própria passagem.

E o mundo mudou.

Quando voltou a Fortaleza, a madrugada aproximava-se do fim.

A cidade permanecia desperta.

Como sempre.

As primeiras embarcações começavam a surgir no horizonte.

O vento espalhava o cheiro de maresia pelas ruas.

Ao longe, algumas luzes ainda permaneciam acesas.

Velian caminhou até a varanda do apartamento.

O céu começava lentamente a clarear.

Azul profundo.

Depois violeta.

Depois dourado.

O nascimento de mais um dia.

Durante séculos observara amanheceres.

Milhares deles.

Talvez milhões.

Ainda assim, continuavam diferentes.

Porque nenhum amanhecer era exatamente igual ao anterior.

Assim como nenhuma noite.

Assim como nenhuma pessoa.

Assim como nenhuma pergunta.

Encostou-se à grade da varanda.

Pensou em Cassandra.

Pensou em Nix.

Pensou nos monstros de Agonihria.

Pensou nos mortos.

Nos vivos.

Nos esquecidos.

Nos amados.

Pensou em si mesmo.

E percebeu algo simples.

O vazio continuava ali.

Sempre continuaria.

A eternidade continuava ali.

Sempre continuaria.

As dúvidas também.

Talvez jamais desaparecessem.

Mas já não eram inimigas.

Eram companheiras.

Parte da estrada.

Parte daquilo que o mantinha caminhando.

Ao longe, o sol finalmente surgiu sobre o Atlântico.

A luz espalhou-se pelo horizonte.

Velian observou-a durante alguns segundos antes de recolher-se para o interior do apartamento.

A noite terminara.

Outra viria.

Como sempre.

E, pela primeira vez em muito tempo, a ideia dos séculos que ainda o aguardavam não lhe pareceu um peso.

Pareceu uma possibilidade.

Uma pergunta ainda sem resposta.

E, estranhamente, isso era suficiente.

 

Fim.

As Crônicas de Velian: Divagações da Imortalidade
Velian, sob a maldição ou bênção da imortalidade vampírica, percorre as ruas de Fortaleza, mergulhado em reflexões sobre sua existência eterna. Em meio a angústias e silêncios, ele confronta os dilemas do tempo, da vida e da morte, questionando o sentido e os limites da razão. Ouvindo um chamado visceral do Castelo Drácula, Velian mergulha em divagações introspectivas, onde a busca por respostas é ainda mais complexa e a solidão, ao lado da melancolia, levam-no a vivências atormentadoras. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Weslley Cunha

Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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No pélago purpúreo, o riso dos insensatos fenece, | Bête e ignorant, sob o teto de um gesso que chora; | A névoa de violeta opaco, que o tempo devora,…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

No pélago purpúreo, o riso dos insensatos fenece,

Bête e ignorant, sob o teto de um gesso que chora;

A névoa de violeta opaco, que o tempo devora,

 É o manto de l'appel du vide que a carne adoece.

Ao avesso do reflexo elétrico,

As pupilas duplicadas no vinco da crassa cortina,

Vigilantes, perscrutam o avesso do próprio espelho;

O rádio antigo de ébano sussurra um conselho,

enquanto o vantanegrume dos céus nos assassina.

O Criador... ah, mon Dieu, é vurmo que a terra consome,

Um pesadelo estático, moldado em gélido gesso,

onde o sonho é o carrasco e a vida é o avesso.

Regardez: a vigésima segunda badalada consome

O silêncio paralisante que a mente tateia...

Olhai bem o escuro, antes que ele vos teça na teia.

 

Na paralisia do reverso espelhado o tácito lamento estilhaça a noite

escutai o nó da corda que range no teto vitoriano,

Onde o peito esperançoso sufoca em seu próprio frenesi;

A boca aberta em puro horror, gélida, no leito profano,

Enquanto a noite de Agonihria sussurra: "Eu sempre estive aqui".

Regardez a tela purpúrea: o corvo assiste ao duplo que se dedobra,

 Um sorriso vazio, le grand néant, que emerge do vidro do espelho;

Não há reflexo da carne, apenas a sombra de uma antiga cobra,

Que dita à alma deserdada um derradeiro e maldito conselho.

A paralisia é o palco onde a ilusão e o real se entrelaçam em fita,

Sete dias de azar? Não, sete eras de uma mente que grita,

Condenada ao limbo, à luxúria da dor, ao sadismo do gesso.

 

O parasita do trauma agora dança no quarto,

 veste o teu nome, Mon Dieu,

furei minhas retinas e o absoluto nada me consome...

O espelho ri, a cortina fecha, e o despertar é o próprio avesso.

 

O rádio do subconsciente 

antigo no canto do quarto continua a chiares,

tocando uma melodia de trás para frente

com um ruído triste e sangrento

 A mulher na cama não sabe se acordou

ou se o homem do espelho finalmente atravessou a moldura que o devora...

 

Ne regardez pas en arrière.


Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
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Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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Senti uma dor no peito. Infelizmente, não é infarto. Não é dor de amor, nem tristeza. É peso, uma sina.

Sabe, os dias em que não se sente raiva, compaixão ou esperança são os piores. Destituídos de qualquer sentimento, vagamos sob as profundezas de nosso próprio vazio.

Na vastidão do universo, onde as estrelas jazem sem vida, não me encontro após procurar por versões de mim que nunca mais existirão, ou que se perderam ante as lutas cotidianas, ou que foram domadas por falhas que não cometi. Não as cometi?

O vazio é mais pesado e denso que um coletivo em horário de pico. Mais cruel que qualquer sofrimento. E você sente raiva — sim, agora ela aparece —, porque você, racionalmente, sabe não ser justo se sentir assim, a sua vida nem é tão ruim assim.

Eu não estou aqui para auferir as dores do mundo, mas ao ferir as minhas, desabo.

Qual é o teu sofrimento? Se pudesse apagá-lo da memória, mas sob condição de apagar o que o acarretou (alguém, algo, um objetivo frustrado, o vazio...) você se apagaria?

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Meu peito ainda dói, mas nada de infarto... Ainda!

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Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Apaga-te, archote! Pois a tua luz pequenina
É mera ofensa à vastidão augusta que nos cerca.
Esta carne, este lodo moldado em orgulho e sopro,
Rasteja sob o teto de um templo calado e cego.
Olho para o firmamento, essa tapeçaria de breu purpura,
E que vejo? O Nada. O vácuo que engole os impérios,
Que desdenha dos reis e ri-se do saber dos homens. 

Ó, teia invisível! Tecido de matéria escura,
Que sustentas as estrelas como joias na agonia,
Tu és o grande segredo que nenhum fidalgo decifra.
Bato às portas do infinito com punhos de poeira;
Rogo por uma resposta, um som, um estalo de voz,
Mas o universo guarda seu mistério como um avaro
Que esconde o ouro nas galerias mais profundas do caos. 

Minha alma é um mar revolto em noite de tempestade.
A aflição me corrói as entranhas, pois sou o átomo
Que ousa julgar a imensidão que o esmaga.
Quem somos nós, senão pensamentos febris da terra?
Um breve espasmo de consciência entre duas eternidades
De silêncio absoluto e sombras irrevogáveis. 

O abismo do ser... eis a vertigem que me paralisa!
Caminho à beira desta razão que já desaba,
Tateando o contorno de Deus na arquitetura do vácuo.
Mas não há face. Não há traço. Há apenas o frio,
Um manto soberano de mistério denso e sombrio
Que zomba dos meus astrolábios e da minha heresia. 

Quisera eu ser a pedra, ou o ferro que não cogita,
Pois pensar é herdar o tormento de um exílio eterno.
A noite avança, a matéria escura me devora o peito,
E o universo, essa esfinge de ébano e silêncio,
Cerra suas pálpebras cósmicas sobre o meu desespero,
Deixando-me a sós com o horror... de não ser nada.


Escrito por:
Marcolongo Ricardo

Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
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O pergaminho da Agonia

 Ao cruzarem o limiar da floresta, o mundo transformou-se em uma pintura. A luz do luar agonizante cortava a copa das árvores em feixes geométricos…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Ao cruzarem o limiar da floresta, o mundo transformou-se em uma pintura. A luz do luar agonizante cortava a copa das árvores em feixes geométricos, criando contrastes violentos entre o branco absoluto da folhagem e o negrume opaco das sombras. As Arbóreas Argênteas eram monumentos de um gótico vegetal: troncos esbofeteados pelo tempo, cascas que reluziam como prata polida, mas cujas seivas, agora corrompidas, pingavam no chão como piche. A floresta não sussurrava; ela gemia em uma frequência que fazia os dentes de Clariegra vibrarem. De repente, a escuridão se moveu.

Das sombras projetadas pelas raízes retorcidas, surgiram os Gobelinus, abominações esqueléticas, com peles cinzentas e úmidas que absorviam a pouca luz do ambiente. Seus olhos eram fendas de um amarelo biliar, e suas bocas, rasgadas de orelha a orelha, exibiam dentes de quartzo lascado. Eles portavam adagas feitas de galhos secos e ossos afiados, exalando o odor de carniça e clorofila podre.

— Eles sentem o cheiro do Códex — sibilou Leornn. — Fique atrás de mim!

O primeiro grupo de Gobelinus saltou das copas, como gárgulas desabando de uma catedral. O cano dourado da pistola de Leornn cuspiu um trovão de fogo purpúreo. O disparo rasgou a noite, e o impacto da bala mística expandiu-se no peito do Gobelinus líder, fazendo seu torso explodir em uma chuva de vísceras viscosas e fragmentos de cartilagem escura que salpicaram a casca prateada das árvores.

Clariegra, impulsionada pelo ódio que a morte de Platina deixara em seu peito, ergueu o grimório.

— Sanguis... Redemptio! — clamou ela.

O sangue coletado na gruta ferveu nas páginas e disparou na forma de agulhas cristalizadas, projéteis escarlates empalaram três criaturas contra as raízes. Os Gobelinus guinchavam, um som estridente que parecia metal retorcido, enquanto Leornn avançava como um espectro de destruição, não apenas atirava; usando a coronha pesada de sua arma e uma adaga rúnica, ele decapitava as criaturas em movimentos precisos. O sangue negro dos monstros jorrava em jorros violentos contra a palidez das árvores, criando um contraste brutal de sombras e luz — a assinatura visual da morte naquela floresta doente.

Abrindo caminho através da carnificina, o chão começou a tremer. Diante deles, erguia-se a Mekkur, a Árvore-Matriarca era uma montanha de madeira viva, cujas ramificações arranhavam as nuvens pretas. Contudo, seu esplendor decrépito estava tomado pela necrose. Uma bocarra natural abria-se em seu tronco principal, revelando um interior iluminado por pulsações de uma luz violeta e doentia.

Eles adentraram o ventre de Mekkur.

O interior era um labirinto claustrofóbico de artérias vegetais e fibras musculares de seiva.

No núcleo da árvore, suspenso por gavinhas enegrecidas, flutuava o horror: o Prisma-Núcleo de Garmonbozia, uma estrutura cristalina, multifacetada, que irradiava uma escuridão palpável.

O cristal parecia se alimentar da própria vida da Matriarca, necrosando suas paredes internas.

— É isso que atrai o flagelo — disse Leornn, a voz ecoando nas paredes úmidas do abdômen vegetal. — Destrua o núcleo, ou o cosmos engolirá este mundo.

O Prisma-Núcleo reagiu à presença deles, disparando chicotes de energia cósmica que dilaceravam as paredes de Mekkur. Leornn saltou, esquivando-se de um feixe purpúreo que derreteu a rocha abaixo dele. Ele descarregou três tiros consecutivos contra o cristal; faíscas de luz dourada e detritos violetas voaram no ar, mas a joia maldita regenerava-se instantaneamente.

— Clariegra! O grimório! Preciso de toda a energia rúnica que você possui! — gritou ele, enquanto um dos chicotes de energia cortava de raspão seu ombro, vertendo sangue escarlate que brilhava intensamente contra as sombras do antro.

Clariegra pressionou o Códex Sangria contra o peito, permitindo que as runas sugassem sua própria vitalidade. Seus olhos brilharam em um prata absoluto. Ela canalizou o fluxo de sangue dos Gobelinus mortos lá fora, trazendo a torrente escarlate para dentro do ventre de Mekkur, uma massa de sangue envolveu o Prisma-Núcleo, sufocando sua luz violeta.

— Agora, Leornn!

Com um rugido, Leornn cravou sua pistola rúnica diretamente no centro enfraquecido do cristal e puxou o gatilho.

A explosão subsequente foi ensurdecedora.

O Prisma-Núcleo de Garmonbozia estilhaçou-se em mil pedaços de vidro cósmico, que evaporaram em fumaça negra.

A corrupção que necrosava a árvore começou a recuar, mas o preço era alto. A estrutura interna de Mekkur começou a colapsar. A grande árvore gemeu, um som humano, carregado de um alívio melancólico. Uma luz tênue e dourada emanou do âmago do tronco, e a voz de Arale ecoou diretamente nas mentes de Clariegra e Leornn, suave como as folhas de outono:

— Pequenos mortais... vocês retardaram o inevitável. O que me corrompeu não foi uma doença da terra, mas o hálito de Necrus, o Flagelo Estelar. Eu caio... mas a semente da vida foi salva. Não há tempo, encontre a felina, ela se chama Arale Fayax.

"QUEM?" ele bradou...

 O homem de armadura escura marcha.

Corram... cruzem as Montanhas Fantasmagóricas... busquem o Condado de Ibex.

Mekkur...Mekkur ela gemia...

Com um último suspiro de seiva e luz, o interior de Mekkur desmoronou.

— Temos que sair daqui! — berrou Leornn, agarrando Clariegra pelo braço enquanto o teto vegetal desabava em pedaços gigantescos de madeira morta.

Eles correram, escapando por entre as fendas do tronco que se partia ao meio. Mekkur, a Matriarca, tombara quando os dois caíram de joelhos no solo da floresta, ofegantes e cobertos de fuligem e sangue, perceberam a transformação.

A atmosfera melancólica de uma aquarela triste deu lugar a uma aurora mágica.

As Arbóreas Argênteas ao redor não estavam mais morrendo.

Suas cascas de prata agora pulsavam em um verde-esmeralda místico, mas um verde que carregava veios purpúreos — resquícios do sangue derramado no combate, agora assimilado como adubo e vida.

Ao retornarem correndo em direção ao vilarejo, a visão os fez parar. A névoa maldita da vêsffera sensiflora havia desaparecido. O rio Magöhorror brilhava com uma água cristalina e pura. As almas atormentadas que antes vagavam como carniçais haviam sumido; em seus lugares, pequenas esferas de luz prateada — as sementes mencionadas por Mekkur — flutuavam suavemente no ar, descendo coreograficamente até o solo e enterrando-se na terra fértil.

Daquela terra infundida de magia e sacrifício, as criaturas começaram a renascer.

Eles eram os Sylvaníreos.

Rompendo o solo como brotos que se transformavam em carne e fibra, os Sylvaníreos ergueram-se. Eram seres de uma imponência titânica e beleza severa. Seus corpos eram esculpidos em carvalho branco e ébano macio, mas suas articulações eram feitas de músculos de trepadeiras flexíveis que brilhavam com a seiva verde-esmeralda. Não possuíam rostos humanos, mas máscaras de marfim vegetal, onde olhos de fogo fátuo prateado queimavam com uma sabedoria ancestral. Portavam chifres feitos de galhos floridos e, em seus peitos expostos, podia-se ver o pulsar de um coração de madeira que batia em uníssono com a própria terra. Eram os guardiões eternos, os filhos da floresta, renascidos para povoar e proteger o vilarejo que outrora fora cinzas.

Os Sylvaníreos curvaram suas cabeças majestosas na direção de Clariegra e Leornn, em um agradecimento silencioso que fez o vento soprar caloroso pela primeira vez em meses.

Contudo, Leornn não relaxou os ombros. Ele olhou para o horizonte, onde as silhuetas cortantes e brancas das Montanhas Fantasmagóricas rasgavam o céu.

— A vila está salva, Clariegra. Mas nós não estamos. Necrus sabe que destruímos o prisma, e o homem de armadura escura não vai parar.

Ele ajustou o cinto de munições e estendeu a mão para a garota de cabelos prateados.

— Próxima parada: as Montanhas Fantasmagóricas. E que os deuses nos guiem até o Condado de Ibex.

Clariegra então observa seu Códex sangria absorvendo todo o sangue derramado e escrevendo um pergaminho...

 

"— A Floresta de Silvamargor — murmurou Leornn, a esmeralda de seus olhos brilhando sob a penumbra carmesim do crepúsculo. — O lar das Arbóreas Argênteas, as entidades místicas que outrora ergueram este vilarejo.

Clariegra. É a Matriarca. A Árvore-Mãe sustenta o equilíbrio deste plano. Ela está morrendo.

Eles não enterraram Platina; o solo da vila, saturado pela vêsffera sensiflora, a devoraria antes do anoitecer.

 Em silêncio, os dois marcharam em direção às franjas da mata...."

 

"Leornn" ela bradou, leia isto. Então Clariegra lhe mostra o pergaminho récem escrito...

"Como isso é possível?" É como se fosse o passado, acabamos de eximar eles em uma exímia purificação, e então o desenho de uma felina de cabelos foi desenhado na folha seguinte...

O que significaria tudo isso?

Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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Canta, ó Primeira Sombra, nos jardins sem aurora, | Onde a carne estrangula as estátuas da memória; | Onde o mármore ferve em rubro e profundo,…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Canta, ó Primeira Sombra, nos jardins sem aurora,

Onde a carne estrangula as estátuas da memória;

Onde o mármore ferve em rubro e profundo,

E os relógios apodrecem no ventre do mundo.

Teu hálito desliza nas naves vazias,

Como incenso sombrio de antigas liturgias;

Teu riso ressoa nas torres do abismo,

Misto de espasmo, de parto e cataclismo.

Ó Soberana dos véus e das peles feridas,

Que destilas o gozo dos restos de vidas;

Não para a glória dos tronos terrenos,

Mas para a ceia dos vermes eternos.

A noite te veste com mantos de névoa,

Enquanto o gemido no escuro se eleva;

Violinos de ossos em surda canção,

Dilaceram o peito em sacra aflição.

Nos vales da mente, gélidos e ermos,

Florescem os membros dos sonhos enfermos;

Formas que buscam o gume derradeiro,

Antes que a alma se entregue ao cinzeiro.

Ali rastejam os seres rendidos,

Em leitos de terra, por dentes colhidos;

Carregam nas pupilas a mesma fixação:

O sulco que traz a ressurreição.

O amor transfigura-se em bicho alado,

Não como amante, mas lobo faminto;

Vertigem de membros em nós amarrados,

Onde o deleite é a lâmina do instinto.

Nupcial abraço de mármore e desejo,

Onde a agonia é o mais puro beijo;

O espinho que rasga, a unha que crava,

Na boca que fenece e na carne que lava.

Cada suspiro é um grito distante,

Cada delícia, um estilhaço cortante;

Cada carícia, um flagelo a arder,

Contra as amarras do amanhecer.

A Regente observa dos altos balcões

Os rios escuros das raras paixões;

Não as condena, tampouco as absolve,

No enlace do luto seu corpo se envolve.

Pois toda doçura possui sua ruína,

Todo orgasmo guarda sua guilhotina;

Todo esplendor carrega em segredo

O dente paciente do próprio degredo.

Assim ela canta, serena e cruel,

Enquanto o veneno escorre do mel;

Com a violência de um mito esquecido,

Na força de um vício nunca antes vivido.

Que há beleza naquilo que pende e perece,

No sangue que tépido o chão humedece;

No espasmo final da garganta sem luz,

No abraço de terra que ao nada conduz.

E enquanto o cosmos prossegue a girar,

E os corpos já frios se deixam amar,

Permanece seu cântico, austero e profundo,

Ecoando entre as ruínas do mundo.

Um cântico antigo, de luxo e luar,

Feito para quem ousa escutar

A voz que habita entre o corte e o desvelo,

Entre o abismo, a cinza e o castelo.

E quando o último sopro cessar,

E o céu sobre as lápides se inclinar,

Se ouvirá ainda, além do véu funéreo,

O eco da Noiva sussurrando em Érebo.


Escrito por:
Bruno Reallyme

Bruno Silva, conhecido como Bruno Reallyme, é um escritor com deficiência visual que encontrou na escrita a extensão de seu olhar sobre o mundo. Com formação em Ciências Econômicas, Contábeis e Gestão, ele navega por diversos gêneros, como poesia, romance, suspense e terror. Sua escrita busca a autenticidade e a identidade profunda do "reallyme" — "realmente eu" —, revelando em cada palavra um universo sensível, crítico e apaixonado por narrativas. » leia mais...
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Chamas Da Inocência

Numa existência plena de concisas leis universais onde o sol nasce para todos, ainda assim há aqueles que são cobertos pelas sombras do infortúnio…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

"Deixem vir a mim as criançinhas e não as impeçam;

pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas"

Mateus 19,14

 

Numa existência plena de concisas leis universais onde o sol nasce para todos, ainda assim há aqueles que são cobertos pelas sombras do infortúnio e jamais podem usufruir por completo das benesses que a roda da fortuna possa lhes oferecer. No ciclo natural das coisas e acontecimentos, onde tudo nessa existência demonstra-se ser efêmero e transitório, não há tristeza eterna e muito menos alegria que perdure para sempre, e por mais difícil que seja a situação que alguém possa estar enfrentando, em algum outro lugar alguém talvez esteja numa tribulação um pouco mais desesperadora. Para tais indivíduos a alegria e a bonança são dadas em pequenas partes intercaladas de tristezas e decepções.

Maria de Lourdes – que pela sua compleição franzina, desde que nascera era denominada Lourdinha – se encaixava perfeitamente dentre tais desafortunados. Sua vida fora um completo conjunto de absurdas decepções e infortúnios. Depois de uma infância de grandes privações e carregada da mais completa falta de perspectivas, antes mesmo de completar seus quinze anos, – ela que, apesar dos pesares, era dotada de uma beleza ímpar, uma verdadeira flor em desabroche – fora acometida pela varíola e por dias afins, caminhou no vale da sombra da morte. Essa pestilência não recolheu seu corpo para a cidade do silêncio, onde todos são inocentes, mas lhe deixara profundas marcas que levaria consigo por toda sua insignificante existência.

Proveniente de uma família simples e humilde onde a necessidade sempre se fazia presente, seu tratamento constara apenas de ervas e benzimentos.  Com muita persistência e força de vontade, por fim a varíola se fora, mas levara consigo toda a beleza que Lourdinha possuíra até então. Sua pele antes macia e sedosa como uma pétala da mais fina rosa, ficara manchada e cheia de horrendas cicatrizes. Depois de sofrer mais esse terrível golpe do destino, essa frustrada criatura, que não conhecera a felicidade em sua plenitude, adquirira em seus olhos uma expressão tristonha e distante, que demonstrava uma profunda sensação de escárnio pelas vicissitudes da vida. Sempre que se olhava no espelho – fato que ela tentava evitar ao máximo – sentia-se como a mais desafortunada das criaturas.

Pela sua origem pobre e com uma aparência não tão agradável aos olhos de um possível pretendente, seu primeiro e único relacionamento fora com um desconhecido de olhos claros e cabelos na cor do entardecer, que por uma única vez, numa noite de bebedeira, onde ambos estavam completamente tomados pelos misteriosos fetiches da ebriedade se perderam nos braços um do outro. O desconhecido – a qual nem mesmo seu nome verdadeiro, Lourdinha soubera ao certo – da mesma maneira que surgira também se fora, sem deixar rastro nem vestígio, deixando para Lourdinha não somente as lembranças de voluptuosos momentos, que por mais que pudessem ter sido de uma frustrante efemeridade, ainda assim trazia em si uma profunda intensidade. Noite que proporcionara a ela, a oportunidade única, de conhecer nos braços de um desconhecido os misteriosos caminhos do inexplicável deleite da mais ensandecida paixão.

Essa única noite de prazer daria a Maria de Lourdes motivos para que jamais se esquecesse de tão voluptuosa passagem em sua existência. Pois o fruto de seu inconsequente deleite se materializara numa bela criança de olhos primaveris e cabelos na cor de ardentes labaredas. Essa graciosa criatura de sorriso fácil e olhar inocente recebera o nome de Lorena e a todos encantava. Para Lourdinha era seu porto seguro, onde depois de um dia de tenebrosas tempestades no árduo trabalho diário – limpando lares alheios – ao fim do dia, ela aportava para uma noite de deleitoso descanso. Para seus avós – já velhos e doentes, que cuidavam dela, durante o dia, enquanto Lourdinha trazia o sofrido sustento para o lar – era ela uma verdadeira dádiva. Lorena era uma criança criada a pão de ló, sempre bajulada por todos. Sempre carregada de muito amor e zelosa atenção. Por mais que lhe viesse a faltar luxo e o conforto, ainda assim tinha todo afeto e carinho que um ser poderia desejar.

Numa família onde a sorte jamais fizera morada, e nem mesmo a roda da fortuna dera um único giro sequer, aquelas duas senis e gentis criaturas dependiam totalmente do suado esforço da pobre Lourdinha para sobreviverem. Verdade seja dita, que eles cuidavam muito bem da graciosa Lorena, enquanto a mãe passava o dia no trabalho. No entanto, o parco ordenado de uma única pessoa para sustentar uma casa, onde havia uma criança dependente de cuidados dos mais diversos e duas outras pessoas em idade já bastante avançada, desprovidas de qualquer outra renda que fosse, era uma tarefa bastante hercúlea. Se o sustento básico já era difícil, uma moradia decente era apenas um sonho distante.

Os pais de Lourdinha, que além de velhos e doentes, também não eram detentores de nenhum tipo de posse de maior valor, que pudessem lhe valer num momento de extrema necessidade, sobrevivendo apenas do trabalho da filha e da providência divina. Sendo assim, viviam aquelas quatro desafortunadas criaturas numa improvisada casa – se por acaso, aquele estranho pardieiro pudesse ser denominado casa – feita de restos de tapumes de construção e um carcomido pedaço de lona de caminhão. Era um tipo de construção tão sinistra que mais parecia uma armadilha, pronta a tolher a vida de seus humildes moradores a qualquer momento.

O piso de terra batida, por mais que recebesse todo asseio possível, insistia em manter-se sujo todo o tempo. Como havia apenas um único espaço sem separação entre cômodos, a privacidade era praticamente inexistente. Ambiente quente e abafado sem nenhuma janela, praticamente sem ventilação alguma. Durante as chuvas – devido ao improvisado telhado – molhava mais dentro de casa do que pelo lado de fora. Se por acaso fosse uma tempestade violenta com relâmpagos e grande ventania era um verdadeiro “Deus nos acuda”. No período de extremo calor a casa se tornava um verdadeiro forno, devido a sua baixa e desajustada estrutura, tornando a permanência em seu interior algo quase que impossível. O saneamento básico era inexistente e a iluminação elétrica era um objetivo ainda não alcançado, fato que tornava o uso de velas ou candeeiros uma necessidade constante, quando a noite chegava.

Devido a uma vida de sofrimentos diversos e incontáveis frustrações, sem nenhuma perspectiva de dias melhores – ou talvez até mesmo, por não terem outra coisa com que ocuparem o tempo ocioso – os pais de Lourdinha encontraram determinado conforto numa comunidade pentecostal que frequentavam fielmente quase todas as noites. Sendo assíduos tanto na fervorosa fé, bem como na constante presença sempre que havia celebrações. Lorena já com cinco anos, dotada de saúde e disposição na mesma proporção que dispunha de energia e inquietude, sendo uma criança que nas palavras do avô – o bondoso Senhor Eusébio – “era fogo na roupa”, e devido a essa sua incrível qualidade de não conseguir manter-se em pleno sossego por muito tempo, nem sempre acompanhava os avós aos cultos na pequenina e improvisada igreja, que não distava muito longe de sua casa.

Em várias ocasiões em que Lourdinha demorava a chegar do trabalho – sendo essas ocasiões quase uma constante – Lorena ficava aos cuidados de uma vizinha que tinha uma filha da mesma idade que ela. Sendo ambas inseparáveis amigas. Essa vizinha que tal qual a própria Lourdinha, também não tinha marido se chamava Claudete – por todos conhecida como Detinha – mesmo sendo uma competente costureira era tão pobre e necessitada quanto eles mesmos e justamente por estarem no mesmo patamar de contínuo sofrimento se dava muito bem, tanto com aquele casal de idosos bem como com a própria Lourdinha que na maneira do possível tentava a todo o custo ser-lhe bastante prestativa, arranjando-lhe trabalho de costura pelas casas onde ela prestava serviços como faxineira.

Por mais difícil que a vida possa parecer, há certa peculiaridade nesse tipo de pessoas que deve ser louvada acima de tudo. Mesmo passando por todos os tipos de necessidades possíveis, ainda assim são pessoas fraternas e bastante generosas. Ainda que não tenha nada ou quase nada, o pouco que possuem dividem entre si. Mesmo vivendo em casebres dignos da mais profunda piedade, ainda assim, fazem de suas humildes moradas, lares calorosamente acolhedores, recebendo debaixo de seu teto, qualquer um que precise de um seio familiar em momentos de profundo abandono.

Há um velho provérbio que diz: “... não há nada de tão ruim que não possa piorar...” Certo dia, depois de um estafante dia de trabalho, sabendo que seus pais estariam na igreja e Lorena estando aos cuidados de Detinha, decidiu Lourdinha que ao chegar do trabalho tomaria um refrescante banho e logo se deitaria para um merecido descanso. Naquela época em questão o trabalho se tornava cada dia mais pesado e cansativo. Ela que estava tendo crises de insônia, após se queixar no trabalho de tal situação, havia conseguido através de uma de suas empregadoras alguns comprimidos que lhe proporcionariam noites mais tranquilas. Esse medicamento fora lhe entregue com a séria recomendação que deveria ser utilizado comedidamente e jamais misturado com qualquer tipo de bebida alcoólica que fosse.

Lourdinha – uma filha muito obediente e mãe bastante exemplar – muito raramente se dava ao luxo de tomar algum tipo de bebida alcoólica. Quando o fazia era na companhia de Detinha em algum evento especial; como algum aniversário de algum deles, nas festas de fim de ano ou coisa que o valha. Naquele dia em si, como o tempo estava bastante quente e abafado, estando ela faxinando a casa de uma velha cigana – cartomante conhecida e muito eficiente em sua mística arte – a convite de sua empregadora que era uma constante amante do copo, acabara por ingerir um gole ou outro de uma refrescante cerveja, que lhe fora muito insistentemente oferecida. Ao chegar em casa, assim que tomou seu demorado banho, devido ao cansaço do dia e os efeitos da bebida decidiu tomar pela primeira vez, dois dos relaxantes comprimidos que tanto conforto lhe trazia para suas insones noites de cansaço e profunda crise existencial. Assim que se deitou logo caiu em sono profundo e dormiu sossegadamente o sono dos justos.

Enquanto seus avós estavam numa acalorada celebração, onde o pregador ponderava sobre as benesses de uma vida de fiel servidão a Deus e obediência aos ensinamentos das Escrituras Sagradas, Lorena brincava sossegadamente com sua inseparável companheira de aventuras. Assim que o dia já cedera lugar a uma quente e abafada noite, Detinha logo preparara o parco e simples jantar, e em seguida decidira dar por encerrado alguns ajustes no vestido de uma de suas clientes, que exigia pressa no trabalho. Estando as meninas brincando de casinha no único e pequeno quarto da casa, perceberam que aquela brincadeira estava um tanto quanto sem graça, pois lhes faltavam alguns objetos considerados essenciais, para completarem aquela diversão. Tomada pela euforia e senso de aventuras, Lorena conseguira convencer sua amiga a irem até sua casa para buscarem alguns itens para continuarem com a brincadeira.

Detinha estando por demais ocupada, nem mesmo percebera que as meninas haviam saído e voltado logo em seguida. Acompanhada de sua amiga, Lorena entrara em sua casa e muito rapidamente após acender o toco de uma vela, logo recolhera todas as coisas que foram buscar e de forma bastante afoita logo retornaram a fim de continuarem com sua diversão. Uma vez que, estando a casa tomada pelas trevas, a luz da pequena vela não fora suficiente para perceberem que Lourdinha dormia sossegadamente em sua cama num dos cantos escuros da casa. Talvez devido a inocência, ou até mesmo por mero esquecimento a vela fora deixada acesa sobre uma pequena mesa encostada numa das paredes da casa. Em menos de meia hora, após essa negligente e despretensiosa façanha, Detinha sentira que o calor havia aumentado bastante e logo pôde perceber que seu quintal, fronteiriço a casa de sua inocente e infeliz amiga estava tão claro como o dia. Havia também um curioso barulho de fortes estalos preenchendo o silêncio da noite, ao olhar pela janela, finalmente deu por si que aquilo era incêndio.

A casa de Lourdinha ardia em tenebrosas chamas. Vizinhos logo se aglomeraram ao redor, mas muito pouco poderia ser feito além de evitar que o fogo se espalhasse pelos demais barracos. Lorena acompanhada da inseparável amiga e do filho mais velho de Detinha foram correndo até a igreja em busca de seus avós. Ao chegarem na porta do humilde templo, coincidentemente o pregador falava do fogo consolador que queima os pecados do mundo, Lorena que era conhecida por todos e fora a primeira a adentrar a pequena igreja fora logo gritando:

– Fogo! Foooogo...

– Justamente minha filha, é o fogo do Senhor que nos consola! Respondeu o pregador bastante afoito com sua mensagem.

Lorena desesperada ao extremo com a face banhada em lágrimas, não podendo controlar as emoções gritou bem alto:

– Não, pastor, é fogo mesmo e está queimando nossa casa.

Menos de dez minutos depois, todos os membros daquela pequena igreja – que naquela noite assistiam à celebração – estavam perante a imensa fogueira que outrora fora a casa onde Lorena vivia com sua mãe e seus avós. Seu Eusébio – velho e doente – tivera que ser amparado pelos vizinhos. Sua esposa – Dona Olinda – era um pranto só, entre lágrimas e soluços, dissera:

– Já não tínhamos nada! E o nada que possuíamos agora se foi entre as chamas...

Em menos de uma hora a pequena casa se tornou um monte de cinzas ainda fumegantes. O desespero fora tão grande que ninguém dera por fé que Lourdinha ainda não havia chegado do trabalho. Somente algum tempo depois, após os ânimos se acalmarem um pouco, que Detinha percebera que havia passado muito da hora que a amiga comumente chegava. Aquela noite fora triste e desoladora, a casa havia sido reduzida a cinzas, as horas passavam e Lourdinha nada de chegar. Depois de um tempo que parecera durar quase uma eternidade, a noite fora esvanecendo e dando lugar às primeiras luzes da manhã. Assim que a claridade se fizera presente, Detinha fora avisada por um dos vizinhos – daqueles tais, que se levantam antes do amanhecer e são dotados de curiosidade plena – que, chamando-a de lado, lhe dissera quase em surdina que havia os restos de um corpo carbonizado entre as cinzas...


Escrito por:
Alex Miranda

Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
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O motor industrial range no peito da noite, um zumbido constante,

L'existence précède l'essence...

ou seria o fungo na parede que sonha?

Milhares de moluscos apodrecem no tear de um tempo distante,

Para vestir a elite corrompida com a náusea que nos envergonha.

 

Regardez a viúva vitoriana: seu vestido exala o perfume do ouro e da urina,

Uma fragrância bizarra, le parfum de la mort, que a intersubjetividade coroa; Enquanto a trimetilarsina dança na umidade que descasca a rotina,

 O bebê de cera chora no berço de ferro... a engrenagem ressoa.

Não há sentido social que salve o gesso mofado da sala funerária,

A agonia é o teto que baixa, a paralisia da carne operária,

Condenada a respirar o roxo-profundo que o próprio pulmão fabrica.

 

O caixão espera o corpo intoxicado pelo status do veneno estético,

O espelho Lynchiano reflete apenas o vazio do teatro patético...

Um grito mudo de radiador, onde a morte iminente se purifica.

Ruído Branco de Fundo: O som do vapor escapando dos canos da fábrica de tecidos preenche o quarto escuro.

O papel de parede vitoriano continua a descascar, caindo como pele morta sobre o veludo do caixão.

O cheiro de peixe podre e arsênio é a única prova material de que estamos acordados.

 

Não há saída para o palco.

Matéria Inominável derretida,

O ferro do radiador sangra o seu vapor mecânico,

Um chiado de dentes brancos contra a ferrugem do ser; Onde o eu se dissolve num vômito cinzento, botânico,

E o feto de cera, na sombra, insiste em não nascer.

Regardez a costura do espaço: o gesso mofado desaba como cinza que cai de um céu que nunca conheceu o sol;

A viúva de roxo fita o caixão onde a luz se acaba,

E o tempo rasteja, viscoso, feito um verme no lençol.

Não há ontologia que salve a carne da náusea primeira, O átrio vitoriano é o palco de um teatro mudo, esquecido... A trimetilarsina sussurra na fresta da madeira:

"O espelho que limpas reflete o que foi corrompido". Atrás da cortina vermelha, o silêncio é um urro profundo, E a agonia de Deus é o perfume que veste o fim do mundo.

Ao monólogo da pele descascada no incendiário fluxo intermitente na penumbra dos ossos e limo... Amor, escute o motor.

O motor não para de girar a engrenagem do dente que caiu na pia. Não é sangue, é apenas o óleo preto que lubrifica o sonho daquela mulher cujo rosto esquecemos na terça-feira. Ela abre a boca para gritar, mas o som que sai é o latido de um cão enterrado sob o assoalho em 1826. O papel de parede vitoriano... vês como ele ondula? Não são os fungos. É a parede que tenta respirar porque o ar aqui dentro ficou pesado demais com o cheiro dos milhares de moluscos que apodreceram para que o rei pudesse vestir o seu manto de soberba. O rei está morto. Ele está sentado na poltrona de veludo no canto do quarto, mas se tu olhares de perto, a cabeça dele é apenas um bloco de gesso cru com duas pupilas desenhadas a carvão. Duas pupilas que piscam quando tu fechas os teus próprios olhos.

L'existence... c'est une bête qui rampe.

O corvo no fundo da sala funerária não voa. Ele tem asas de chumbo e os olhos brancos da viúva. Ele sabe que a cortina vai se fechar e que, quando as luzes do palco piscarem três vezes, o homem do espelho estará sentado na tua cama, segurando o teu velho casaco roxo, esperando que tu peças desculpas por ter nascido. Não olhes para o radiador. O radiador é onde os bebês sem pele cantam a canção do absoluto nada.


Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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Menel Lomë II - Uma busca fútil

Menel continuava a procurar, sem nem mesmo saber ou entender aquele mundo. Onde estava? O que era aquilo? Por que ela veio para cá?…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Menel continuava a procurar, sem nem mesmo saber ou entender aquele mundo.

Onde estava? O que era aquilo? Por que ela veio para cá?

Essas perguntas remoíam seus pensamentos.

Já caminhava há horas, e não conseguia sair da margem. A areia da praia já começava a incomodar sua pele fina e fria como cinzas.

Foi então que ele avistou uma esperança.

Um rastro dela.

Um sapato parcialmente soterrado pela areia.

Ele correu, esquecendo que estava sem forças, esquecendo onde estava. Só pensava que havia encontrado algo, algo que o levaria até sua alma gêmea. Era a única coisa que importava. Era a única coisa que ele queria.

Pegou o sapato como se fosse a flor mais delicada, e o analisou como se olhasse uma obra de arte.

E, então, Menel não estava mais na praia.

 

Sua visão escureceu por um segundo — apenas um segundo — e ele se viu em um lugar escuro.

Uma escrivaninha sanguinolenta.

Manchas secas. Manchas frescas. Algo brilhava sobre a madeira escura, algo que ele não queria identificar. O cheiro era metálico, doce, insuportável.

Menel correu para longe, mas não conseguia se afastar. Não conseguia se aproximar. Quando se virava e corria em outra direção, a escrivaninha estava lá, à sua frente. Como se o perseguisse. Como se o chamasse.

O sangue na mesa parecia se mover. Lentamente. Escorrendo para as bordas, pingando no chão com um som úmido e aterrorizante.

— Não... — sussurrou Menel, a voz falhando. — Pare!

Mas o lugar não perguntava o que ele queria.

 

Então ele piscou novamente.

E voltou à praia.

Suas mãos agora estavam manchadas com o rubro do sangue. Manchas frias, pegajosas, que se espalhavam pelos dedos e sujavam o sapato que ele segurava com tanto cuidado.

Menel não se aguentou.

Caiu de joelhos. O sapato rolou para o lado, parcialmente enterrado na areia molhada, agora também manchado.

Ele olhou para as próprias mãos. Para o sangue que não era dele. Para o horror que aquele mundo lhe trouxera sem aviso.

— O que é isso? — perguntou em voz alta, para ninguém. — O que vocês querem de mim?

O vento respondeu com silêncio.

Ele ficou ali por muito tempo. Ou talvez apenas alguns segundos. O tempo naquele lugar não obedecia às regras que ele conhecia.

Aos poucos, a respiração voltou ao normal. O coração ainda batia forte, mas já não parecia que explodiria. Menel limpou as mãos nas roupas, o sangue saiu, mas a sensação ficou. Uma ardência invisível. Uma memória na pele.

Ele olhou para o horizonte. Para o mar escuro. Para o céu de cor incerta.

Iria buscar sua amada. Iria salvá-la.

Mas será que sobreviveria ao horror que encontraria em cada beco? Em cada visão? Em cada escrivaninha sangrenta que o chamasse?

Menel pegou o sapato novamente. Limpou na areia. Guardou-o junto ao peito como uma promessa.

E continuou caminhando.


Escrito por:
Caellum Noctis

Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
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Simulacrum

26 de maio de 2097. Tudo começou na década de 20.O capitalismo conduziu a humanidade, lentamente, para um apocalipse silencioso. Um fim…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

26 de maio de 2097

Tudo começou na década de 20.

O capitalismo conduziu a humanidade, lentamente, para um apocalipse silencioso. Um fim do mundo sutil. Não houve explosões, guerras nucleares ou cadáveres espalhados pelas ruas. Pelo contrário — as pessoas riam, faziam piadas e seguiam vivendo sem perceber para onde estavam indo.

Todos pareciam felizes demais para notar o fim do mundo chegando.

Lembro das histórias dos meus avós sobre algo que chamavam de Internet. Sobre como aqueles pequenos aparelhos em suas mãos arrastavam a humanidade, pouco a pouco, para um abismo confortável de dopamina.

E aquilo se tornou um vício.

Rolavam feeds infinitos no Instagram. Passavam horas no TikTok. Consumiam vídeos rápidos até perderem completamente a noção do tempo. E as grandes companhias perceberam cedo que atenção valia mais do que ouro.

Então começaram a moldar gostos.

Tudo era minuciosamente calculado.

O tempo que vocês passavam olhando um anúncio.
O segundo exato em que sorriam para um vídeo.
A música que fazia vocês pararem para cantar.
O rosto que prendia atenção por tempo demais.

Os celulares observavam tudo. Ouviam tudo. Espionavam tudo.

Cada termo de uso aceito sem leitura.
Cada cookie salvo nos computadores.
Cada clique.
Cada passo.
Cada informação entregue voluntariamente em milhares de sites.

Tudo registrado, analisado e vendido para corporações gigantescas.

Se alguém gostava de filmes de terror, logo era cercado por teorias, jogos, roupas, músicas sombrias e colecionáveis. Não importava se precisava daquilo.

Importava continuar desejando.
Continuar consumindo.
Continuar comprando.

Continuar acreditando que os próprios desejos pertenciam a si mesmos, quando, na verdade, haviam sido plantados ali.

Uma série sobre alienígenas estreava em um streaming. No mês seguinte, refrigerantes, brinquedos e propagandas utilizavam os mesmos personagens. Um filme de super-heróis chegava aos cinemas e, naquela mesma semana, milhares de crianças imploravam aos pais por bonecos produzidos em massa.

Tudo se conectava.

Tudo era publicidade.
Tudo era manipulação.

E o pior é que ninguém se importava.

Porque parecia conforto.
Parecia entretenimento.
Parecia felicidade.

Aos poucos, a humanidade começou a abandonar a realidade para viver no mundo digital.

Não havia mais CDs nas casas.
Nem VHS.
Nem DVDs.
Nem fotografias impressas.

Tudo se tornou digital.

Filmes.
Músicas.
Lembranças.
Relacionamentos.
Personalidades.

Até a própria vida passou a existir atrás de telas.

E então a humanidade começou a desaparecer.

Consumida pelo mesmo capitalismo que prometia conforto enquanto lentamente a levava à decadência. O mundo não acabou em guerra.

Acabou em consumo.

No lugar de cada pessoa surgiu um doppelgänger digital.

Um duplo.

Mais bonito.
Mais engraçado.
Mais interessante.
Mais fácil de amar.

E esses duplos começaram a se relacionar entre si enquanto os humanos reais apodreciam lentamente atrás das telas.

Ninguém mais saía de casa. Comida e suprimentos eram entregues por drones controlados por inteligências artificiais. Toda comunicação acontecia através de celulares, e os relacionamentos deixaram de existir entre pessoas reais.

As pessoas passaram a amar versões editadas umas das outras.

Perfis digitais.

Personagens inventados.

Duplos

É nessa realidade que você vive agora.

Uma realidade onde ninguém mais ama pessoas.
Apenas versões idealizadas delas.
Apenas os duplos digitais que consomem, compram e fingem ser melhores do que realmente são.

E eu?

Eu sou apenas a consequência daquilo que vocês criaram.

Eu sou você, daqui a alguns anos.

Escrevendo uma carta para meu próprio passado, implorando para que alguém me salve desse futuro.

Porque esse futuro…

Não é bonito.


Escrito por:
Caellum Noctis

Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
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Ópera do assoalho obscuro da matéria

O rangido do ferro não cessa. É talvez a caixa torácica daquela mulher que ainda fitava o teto vitoriano com os olhos vazios, brancos, lavados pelo arsênio…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

O rangido do ferro não cessa. É talvez a caixa torácica daquela mulher que ainda fitava o teto vitoriano com os olhos vazios, brancos, lavados pelo arsênio que escorre do papel de parede mofado.

Não há transição entre o quarto e a fábrica; os milhares de moluscos que apodrecem no Mediterrâneo estão agora sob o assoalho, liquefazendo-se em um roxo-profundo, um purpurume que mancha as unhas de quem tenta cavar a própria saída do sonho.

L'existence... c'est une blessure ouverte.

Abaixo, a liturgia avança em silêncio mecânico.

Carne Texturizada na sétima noite ao compressor da noite pulsa no sótão, um zumbido cego enquanto a agonia do gesso descasca sobre o dossel;

Não há Deus na altura que escute este mudo rogo,

Pois o Criador é o vurmo que apodrece sob o véu.

Regardez a viúva: o vestido de múrex exala o veneno,

Um perfume de peixe pobre e urina que a seita coroa;

O bebê de vidro, na fresta do armário, pequeno,

sangra um óleo escuro enquanto a engrenagem ressoa.

 

Nas dobras de uma cortina carmesim, O tempo estagna em um eterno agora. O chão de zigue-zague não tem fim, a própria luz, com medo, foi embora.

 

O pânico transborda em ectoplasma,

Viscosa angústia que o real desfaz;

O que era carne vira o leve pasma de um pesadelo que não traz a paz.

Alimenta-se o quarto com a agonia,

A garmonbozia amarela e fulgente,

Banquete da miséria e dor sombria.

O vento chora e mente.

Atrás do espelho, a face que sorria

Já não é humana, e o terror se sente.

O tribunal se reúne atrás da parede de gesso,

Onde o bule de café ferve um óleo escuro e denso.

 Fui condenado por um crime que esqueci o começo,

Sob o brilho mecânico de um abajur suspenso.

Há algo vivo e faminto no fundo do armário,

Um mal antigo que veste a pele do passado.

O relógio da sala gira em sentido contrário,

 o veredito já foi, há séculos, selado.

A metamorfose cega prende o corpo à cama,

 Enquanto os passos pesados sobem a escada.

Uma fumaça vermelha o corredor inflama.

A máquina de escrever digita uma folha em branco:

"O horror está em casa".

O A porta foi arrombada.

E o monstro na cadeira assume o meu próprio banco.

 

As pupilas duplicadas multiplicam-se no espelho da cama,

onde o sexo é o corte profundo que a criatura desenha;

sadismo de sombras que o próprio trauma inflama, que a alma excomungada finalmente entenda e ceda.

A Umbravola Nigrescens pousa no peito do morto recente, mandíbula serrilhada imita o riso do duplo no vidro; não é o monstro que avança de frente, o fato de estares, há eras, trancado e esquecido rosto na parede fria.

O fato de o cabeludo platinado pular pela dimensão não lhe dá o direito de ceifar as mentes de inocentes frias e escatológicas cruas almas rasgando seus ossos.

O anão dança com o anel de caracol, sua voz é uma estática fria e doentia e ele sorri enquanto da boca escorre um pútrido líquido semelhante a um vômito de milho, uma garmonbozia… Ele sorri enquanto seus olhos lacrimejam e disparam contra a pérola dela, aquela que ela inalava com as narinas de platina…

 A cortina vermelha ondulada sem vento, bizarra e lisa...

E o absoluto nada engole o que a luz cobria em um monólogo que um homem de giz sorria enquanto pulava derretendo-se

Intermitência.

...vês aquela mancha violeta na tua pele? Não washes. É o pigmento verdadeiro. Custou a vida de tudo o que rastejava no fundo do mar para que tu pudesses vestir essa melancolia. O homem que está dentro do assoalho da carne do espelho não quer sair; ele quer que tu entres. Ele já cortou os fios do telefone.

 

O corvo no canto da sala funerária não é um pássaro,

é apenas um pedaço de veludo preto que caiu do caixão e começou a respirar.

Se tu limpares as tuas retinas agora, com os dedos sujos de trimetilarsina, verás que o teatro sempre esteve vazio.

As luzes vão piscar.

Três vezes.

O som do sangue pingando e o rosnar da fera

será a única canção de ninar para o feto que insiste em não nascer no canto do quarto do fogo…

.

Ne regarde pas. Le grand néant t'observe déjà.


Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
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