Dualidade

Entre a dor e o cansaço | Me delicio ao apreciar a escuridão em volta. | O céu negro, sem estrelas | As ruas quase desertas | As luzes dos postes brilham,…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Entre a dor e o cansaço
Me delicio ao apreciar a escuridão em volta.
O céu negro, sem estrelas
As ruas quase desertas
As luzes dos postes brilham,
Parece Natal.
Quase posso esquecer o dia longo e exaustivo 
Mas percebo sequelas.

Entre algumas piscadelas
Talvez um sonho, ou fruto do cansaço
Refletia na janela
Um Mimico desfigurado.

Nada fazia,
Apenas me encarava.
E apesar da fina chuva que caia
Não se molhava.

Qual não foi meu espanto quando recordara
Um dia, muito pequena e travessa
A um mimico eu aprontara.

Por imitar gestos meus,
Sem dizer que me incomodava,
O atrai para a Avenida
Perigosamente movimentada.

Com movimentos pequenos
Ameaçava seguir em frente e retornava
Quando de súbito fingi seguir,
Ele se atirou a mim, pensando que me salvava.

Um estrondo infernal invadiu minha memória
O reflexo na janela não refletia meus sonhos ou devaneios
Me virei para o assento ao lado.
E antes que pudesse perder os sentidos
Um mímico me atravessou,
Como um caminhão desenfreado.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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O Palhaço em mim

À noite estava no Parque a andar, | Havia um palhaço estranho a me olhar, | Mudo, seu rosto pálido e inquieto, | Com gestos lentos, fala em seu dialeto…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

À noite estava no Parque a andar,
Havia um palhaço estranho a me olhar,
Mudo, seu rosto pálido e inquieto,
Com gestos lentos, fala em seu dialeto.
Os olhos, vazios de som e de cor,
Clamam em silêncio, como o vento em torpor,
Um aviso sombrio, um enigma no ar:
— Não é o que parece, há algo a falhar.
Seus dedos finos desenham no ar,
Um perigo que se aproxima; um mal a rondar,
Mas ele não aponta, não grita, não chama,
Apenas reflete, apenas reclama.
O vento gela, o tempo parece parar,
A angústia aperta, já não consigo respirar.
Tento entender o que ele quer me mostrar,
Mas o eco do silêncio começa a gritar.
De repente, o palhaço dá um giro no espaço,
E seu reflexo, um espelho em pedaços, traz-me o compasso.
Eu me vejo nele, sou eu o perigo,
Eu sou o palhaço, sou o meu castigo.
As máscaras caem, e a verdade ecoa:
Eu sou o monstro que o silêncio entoa.
O parque se dissolve, a noite me consome,
E no mudo palhaço, descubro meu nome.
Agora sei, no vazio a vagar,
O perigo sou eu, a me espreitar.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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O Mímico do Cemitério

O cemitério daquela pequena cidade era um lugar de solidão. Todas as noites, ele era envolto em névoa, como se houvesse um manto translúcido cobrindo…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O cemitério daquela pequena cidade era um lugar de solidão. Todas as noites, ele era envolto em névoa, como se houvesse um manto translúcido cobrindo sua vegetação rasteira. Poucos ousavam visitar o cemitério à noite. Durante o dia, aqueles que atravessavam seus portões só o faziam por um motivo: enterrar seus mortos. Mas havia algo que afastava ainda mais as pessoas do cemitério: o mímico. Ele estava sempre lá, e ninguém lembrava desde quando. Sempre parado nos portões do cemitério, com suas roupas de luto desbotadas, o rosto coberto de maquiagem branca, olhos vazios rodeados de preto, assim como os lábios, pintados de negro, paralisados em um sorriso largo. Ali, parado no seu posto de serviço, sem nenhum movimento, como um cadáver muito bem preservado, ele seguia com os olhos vazios cada passo dos que se aproximavam. Assim que alguém entrava no cemitério, ele os seguia, imitando cada gesto, cada lágrima, espelhando cada lamento em silêncio, tão perfeito quanto uma sombra. 

Ninguém sabia seu nome; os habitantes da cidade apenas o conheciam como “O mímico do cemitério”. As autoridades locais já haviam tentado expulsá-lo diversas vezes. Em uma dessas tentativas, um policial corajoso o algemou e o levou à delegacia. Ao tocar as mãos do mímico, o policial sentiu sua pele gelada e rígida. Um frio desconfortável percorreu todo o seu corpo. Levou o mímico até a delegacia e, naquele mesmo dia, abandonou o trabalho policial, sem olhar para trás. Ele ficara em custódia na delegacia diversas vezes, mas sempre escapava, e ninguém sabia como. Sempre voltava ao seu lugar nos portões do cemitério, onde seguia os enlutados, imitando todos os gestos até o túmulo, até o último choro junto ao caixão, caminhando ao lado deles com passos silenciosos. Quem tentava confrontá-lo logo percebia que era inútil; ele só parava de imitar quando saíam do cemitério. 

Uma tarde, durante o funeral de um antigo morador da cidade, o mímico decidiu seguir a viúva do falecido, Dona Griselda, imitando todos os seus gestos. Ela o ignorou enquanto ele copiava cada passo seu, cada assentimento silencioso e cada lágrima enxugada, perfeitamente sincronizado. No final da cerimônia, o mímico a seguiu até em casa, como uma sombra. Griselda o considerava uma presença inofensiva, pois, pelo que sabia, ele nunca havia feito mal a ninguém, além de apenas imitar. Ele a seguiu, mas ela não permitiu que ele entrasse. O mímico pareceu entender e ficou do lado de fora. Mesmo sem ver os movimentos dela, ele continuava a imitá-la do lado de fora da casa. Griselda, de coração partido pela perda, sentia a ausência do marido com dor. Passou a visitar o cemitério uma vez por semana, sempre acompanhada do mímico, que a imitava, e ela o ignorava. 

Certo dia, Griselda foi novamente visitar o túmulo de seu marido, acompanhada silenciosamente pelo mímico. Já irritada com seu comportamento, que até então ignorara, decidiu confrontá-lo. Assim que chegou à entrada do cemitério, olhou para ele e, irritada, pediu: 

— Fica aí no portão e me deixe ficar a sós com meu marido. — Falou com uma irritação contida. 

O mímico apenas imitou seus gestos, sua expressão e sua fala em silêncio, e continuou a segui-la até o túmulo. Griselda chegou ao túmulo e notou uma cova recém-cavada ao lado. Olhou, incerta do que fazer. De repente, o mímico parou de imitá-la e começou a chamar sua atenção com gestos rápidos, como se quisesse que ela entendesse sua mensagem. 

— Escute, eu não entendo o que você quer. Apenas me deixe a sós com ele, só hoje, por favor. — Ela suplicou. 

Observava seus movimentos frenéticos: ele colocava a mão direita no peito e fazia uma expressão de pavor, depois colocava as duas mãos juntas ao lado do rosto e inclinava a cabeça. Em seguida, apontava para a cova. Apontava para si mesmo e para ela, como se quisesse que ela o imitasse. Repetiu isso diversas vezes, até que Griselda se irritou. 

— Me deixe em paz, palhaço! Não tenho tempo para isso hoje. Tenho que ver com o coveiro quem ousa ser enterrado ao lado do meu marido. — Ela se virou para ir em direção à saída do cemitério, quando sentiu um desconforto intenso no peito. Colocou a mão direita sobre ele, fez uma expressão de pavor e, em seguida, tudo se apagou. Escuridão. 

Todos os seus movimentos foram repetidos fielmente pelo mímico, que, após o ocorrido, voltou ao seu posto nos portões do cemitério, parado, com seu sorriso congelado, apenas esperando por alguém para imitar. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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O Mímico da Insanidade

O escritor Ivan Insanlini vivia uma insalubridade mental desde o instante em que sua esposa partira de casa. Foram casados por quase duas décadas…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O escritor Ivan Insanlini vivia uma insalubridade mental desde o instante em que sua esposa partira de casa. Foram casados por quase duas décadas, e no último Natal ele descobrira que sua amada estava se relacionando com o chefe dela. Aquela interminável noite venenosa o moldou de uma forma jamais recuperável. Ivan se observava no espelho de seu quarto: um semblante cansado, olheiras profundas, o cabelo castanho oleoso, roupas desgastadas e uma memória crua e suja escorrendo pelo reflexo de sua instabilidade emocional, enquanto tudo aquilo se desenhava no vidro manchado pelo sangue das lembranças. Recordava o momento em que caminhou até a casa do suposto amante de sua esposa e a avistou da calçada. As luzes do quarto se acenderam, e sua esposa apareceu nua na janela. Aquilo o destroçou. 

Ele o viu prensando os seios de sua esposa no suor quente do vidro moldando a definição perfeita do seu busto que ele amava. Sentiu uma tontura absurda e, então, tudo se tornou embaçado; sua visão se afunilou, e ele se recordou de arrebentar a porta da casa, adentrando como uma chama infernal pela escada acima. Arrombando a porta do quarto, entre os gritos histéricos dela, viu o imprestável chefe dela, um senhor de idade, magrelo, vestindo uma samba-canção de corações rosa. O olhar insano do escritor gritava horrorizado, sem parar, até suas pupilas dilatarem. Sentindo-se freneticamente tomado por algo entre um infarto e uma convulsão, virou as costas e foi embora, quebrando tudo em seu caminho. 

Semanas depois, presenciou-a forçando as roupas em uma mala apertada e batendo a porta do quarto com violência. Agora, sozinho naquele apartamento obscuro, ele não consegue mais dormir, escrever ou se alimentar direito. 

Na quietude daquela sala profunda e desesperadora, clamava por socorro... 

Em meio à bruma noturna, ele está parado. Seu rosto, similar ao de um cadáver, exibe um sorriso congelado como o do escritor: uma existência febril e doente. 

Uma protuberância no ócio da ferida do ódio. Mórbido sentir. 

Silenciosamente artístico, o fúnebre olhar de uma vida vazia e profunda. 

Todas as noites, antes de dormir, e, quando conseguia, despertava nas madrugadas com aquela entidade disfarçada de mímico o encarando incansavelmente. 

O escritor se levantava e, no reflexo do espelho do banheiro, ele estava lá. 

No escuro do quarto, quando ele acendia a luz, ele estava lá. 

Quando ia para a cozinha, atrás da porta, ao acender o fogão, lá ele estava: no reflexo do celular, na entrada de casa, no brilho das panelas, embaixo da cama. Seu olhar ocre surgia pela parede, surdo, mudo, feliz, sorrindo, chorando, alegre, histérico, sempre fitando o escritor. Certa vez, o escritor percebeu que enxergava o mímico até nas palavras que escrevia. No reflexo da tela do computador e da antiga máquina de escrever que possuía em sua sala, via sangue escorrendo. A banheira também escorria sangue. Suas roupas estavam sujas de sangue. Seu rosto estava pintado de branco, com a tinta escorrendo, manchando os olhos, mesclando a tinta preta com a pele esbranquiçada, enquanto o vermelho pingava sobre a folha, escorrendo de seus olhos e de seu peito. 

Ele sucumbiu ao chão, chorando, esbofeteando-se, puxando o próprio cabelo, horrorizado ao olhar novamente no espelho. E seu maior medo se materializou: ele enxergava a si mesmo como o mímico. Correu até seu quarto e viu-se dormindo, enquanto o mímico emergia de dentro de seu próprio corpo. O que estava de pé saiu do observador, enquanto o observado permanecia deitado, com os olhos frenéticos se remexendo. Então, o mímico rasgou o peito do escritor que estava na porta, colocando as duas pernas para fora, apoiando-se para encontrar a saída das entranhas mortas daquela pobre casca. Sorria maliciosamente, com dentes pontiagudos se formando em sua enorme mandíbula. Aproximando-se da cama, que começava a tremer com fumaça saindo debaixo dela, o corpo deitado se debatia. O mímico se aproximou e mordeu o peito, arrancando-lhe o coração e, em seguida, devorando-lhe o rosto... 

O escritor acorda transpirando horrores, mas não consegue gritar. Ele tenta abrir a boca e percebe que está colada. Rapidamente se levanta e corre até o banheiro. No caminho, escorrega em algo no chão e cai de joelhos. Ao passar a mão, percebe que havia escorregado em sangue. Acende a luz e se depara com um enorme rastro de sangue que se estendia até sua banheira. Horrorizado, olha primeiro no espelho e se vê com o rosto pintado de branco, um preto forte ao redor dos olhos e a boca costurada com uma linha vermelha inquebrável. Seus olhos lacrimejam. "Urgh, urgh", ele tenta gritar, sem sucesso. 

Seu roupão preto estava pendurado no lugar da toalha, e ao lado dele, um suspensório preto e uma camisa branca lisa, ensopada de sangue... 

Ele se aproxima de seu box fechado do banheiro, ele enxerga sua máquina de escrever ali dentro com muitas moscas ao redor, voando. Ao abrir bem devagar o vidro temperado escuro da cabine da ducha, um odor absurdo lhe embrulha o estômago. No exato momento quando, próximo do ralo, embaixo do chuveiro, ele vê algo terrível, ele regurgita no mesmo instante em que observa, em cima de sua máquina de escrever, a cabeça de sua esposa apodrecendo com vermes saindo dos olhos e muitas moscas de seus ouvidos. Sua "amada" também tinha parte do comprido cabelo preto raspado, o rosto coberto por uma maquiagem branca e enormes esferas escuras no lugar onde costumavam estar os olhos. Seus lábios estavam costurados. 

O escritor nunca mais foi visto, mas as autoridades dizem que todos os que tentaram destruir sua máquina de escrever foram mortos após a tentativa, enquanto outros enlouqueceram, alegando ver um mímico parado atrás da máquina, sorrindo com sangue e acenando com o dedo indicador para que não tocassem nela. Havia uma folha em branco na máquina, escrita com tinta e com algumas partes manchadas de sangue, em letras de forma. Não se sabe com o que foi escrito, se com caneta ou algum outro meio... 

“Eu fui o ‘pantomimeiro’ da minha sombra, minha persona emulava, gesticulando como um bailarino sangrando, um escultor do exílio, um estripador de palavras, um silenciador oculto da poética dos psicomotores, a eletricidade do tônus, a motricidade ampla em uma fugaz tentativa temporal de um terror atemporal. A lateralidade, a sematologia existencial, uma simbiose niilista e esquizofrênica do caos, enquanto me tornava uma estátua da minha vida e da nossa relação fria e silenciosa. Tu te afastavas e te distanciavas de mim, e eu percebi que minha vida estava se apagando. Viver sem teu amor, ou sabendo o que fizeste, matando minha sanidade, fez-me perceber que mergulhei na insanidade do meu viver. A definição do amor é a insanidade desta pintura visceral…” 

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LXXXI

Na penumbra, em meio às veredas da existência, | Adentro por rasto de clivias alaranjadas | A primaveril alegria, tão efêmera, | Ecoa o plangor daqueles que partiram…

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Na penumbra, em meio às veredas da existência,
Adentro por rasto de clivias alaranjadas
A primaveril alegria, tão efêmera,
Ecoa o plangor daqueles que partiram.
 
Seu semblante desdenhoso, com sorriso de marfim
Emana o mistério que sussurra de além-vida,
Era o teu silencio um convite macabro?
A escuridão, a prata do céu excelso, o caminho laranja.
 
Tuas mãos a desenham o destino,
Ou estaria o destino em suas mãos?
Teu olhar angustiado ante a vida que se esvai.

Eram as flores em derredor,
Um abraço silencioso,
Deste que, com olhos moribundos, faz a vigília,
Da alma inocente, em pintura inconclusa.
 
Observa, ao contar dos grãos para além da mortalidade,
No abandono do último suspiro,
Eram as tuas mãos?
Azrael, elas as tuas?

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Hipnose

Por detrás da tinta branca | Um sorriso depressivo | Os gestos de criança branda | Esconde o surto impulsivo | A cada toque, apreensivo…

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Por detrás da tinta branca
Um sorriso depressivo
Os gestos de criança branda
Esconde o surto impulsivo

A cada toque, apreensivo
Olhar transluz… da criança
Tela de vidro em dança
Hipnose. Não escapa ao crivo 

Ele faz o sinal de faca, decidido
Ao pescoço, e todos enfiam
Repetem o infortúnio do mímico 

Todos seguindo o desconhecido
Vislumbrados, corpos o copiam
Mudo, secreto como o eu lírico.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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A Janela

Mais uma madrugada em que a insônia é minha companhia. Inquieto, me aproximei da janela, abri-a e senti a brisa fresca tocar meu rosto, dispersando as…

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Mais uma madrugada em que a insônia é minha companhia. Inquieto, me aproximei da janela, abri-a e senti a brisa fresca tocar meu rosto, dispersando as gotas de suor em minha testa e trazendo um certo alívio, já que durante o dia tem sido demasiadamente quente. 

Meu quarto fica no andar superior, proporcionando uma excelente vista de toda a rua. Debruço-me sobre a janela e vislumbro aquela rua vazia, mal iluminada pelos puídos e amarelados postes. Há algum prazer oculto, o qual desconheço, em imaginar o que meus vizinhos estão fazendo dentro das quatro paredes. Consigo ver algumas casas com luzes acesas, enquanto outras estão em absoluta escuridão. No entanto, algo chama minha atenção em uma casa à minha frente. Há um homem alto que anda de um lado para o outro, parecendo nervoso. Abaixo-me para observar com cuidado. Através da cortina, vejo que ele ensaia movimentos que lembram os de um mímico. 

Não consigo desviar o olhar. Vejo-o abrir o guarda-roupa e retirar algo que se assemelha a uma fantasia listrada preta e branca. Em seguida, ele a joga sobre a cama e vai até a janela para verificar se ninguém o está observando. Noto que ainda está com a maquiagem característica dos mímicos. Ao retornar, ele carrega uma grande mala. Sinto um frio na espinha, a sensação de que ele sabe que estou a observar seus segredos. Com certa facilidade, ele ergue algumas sacolas pretas, coloca-as na mala e a fecha. 

Tomado pelo horror, emito um grito, fazendo com que ele volte à janela. Infelizmente, ele me viu. “É tarde demais, provavelmente aquelas sacolas eram... Não quero nem pensar nisso...”. Algum tempo se passou e tudo voltou a ficar calmo (pelo menos era o que eu achava). Ainda me encontrava sentado no chão, em posição fetal, quando uma suave melodia soou como a sinistra sinfonia de Bach intitulada Toccata and Fugue. Foi então que ele finalmente entrou. Seus passos firmes ecoavam por toda a casa. Subiu as escadas, cruzou o corredor e encontrou meu quarto. Então, eu o vi: tinha por volta de um metro e noventa, o rosto afinado e pálido, coberto de tinta branca, sobrancelhas marcantes, olhos vazios e perversos. Seus cabelos estavam penteados para trás, tão negros quanto aquela noite. Por fim, um sorriso malicioso, que ansiava devorar-me, surgiu. Ele trajava calça de moletom preta e camiseta branca, salpicada de escarlate. A passos lentos, se aproximou de mim e disse calmamente: 

— Não era para você ter visto. Agora você fará parte da minha coleção. 

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Espelho

O mímico das sombras, em pessoa | pelo corredor mais oblíquo
pareceu chegar. | Picadeiro exclusivo, | não fez graça, ressalva alguma…

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O mímico das sombras, em pessoa
pelo corredor mais oblíquo
pareceu chegar.
Picadeiro exclusivo,
não fez graça, ressalva alguma.
Carregado de pedras, tudo o que vi:
seu pesar.

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O Espelho do Vazio

O mímico se arrasta, | não há luz o tocando, | um vulto na escuridão, | um sussurro silencioso. | Sua face é uma máscara sombria, | imitando o mundo com…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O mímico se arrasta,
não há luz o tocando,
um vulto na escuridão,
um sussurro silencioso.

Sua face é uma máscara sombria,
imitando o mundo com suas mãos vazias,
mas o que ele reflete
não é vida, tampouco a morte,
é algo entre o tudo e o nada,
momentos perdidos nas linhas do tempo. 

Ele te observa,
seus olhos são como espelhos,
onde o teu reflexo se perde,
onde o teu medo se esconde,
onde teu silêncio se quebra.

No palco de sua vida,
ele dança sem motivos
uma coreografia macabra,
movimentos sem alma e sem cor.

E quando ele te estende as mãos,
não é para te tocar,
mas para consumir o que resta de ti,
uma fome que não cessa,
uma sombra que não morre.

O mímico é o vazio que respira,
uma entidade que se molda no escuro,
sempre esperando
pelo momento em que será parte de seu show.

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As Figuras Macabras do Wonder Teatro

O Wonder Teatro era um mausoléu vivo. Suas paredes desmoronadas e sujas de poeira eram como pele envelhecida, rachada e morta…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O Wonder Teatro era um mausoléu vivo. Suas paredes desmoronadas e sujas de poeira eram como pele envelhecida, rachada e morta, cobertas por sombras que dançavam à luz bruxuleante dos poucos holofotes acesos. O ar era denso, impregnado de um cheiro ácido de mofo e tempo apodrecido. Mesmo antes de atravessar as portas, sentia a opressão deste lugar, como se o próprio edifício sussurrasse segredos sombrios, desejando me engolir. 

Quando entrei, o silêncio se estendeu sobre mim como um manto pesado. Havia outros, sim, esperando suas audições, mas nenhum deles parecia realmente presente. Eles estavam ali, sentados nas poltronas desgastadas, mas seus olhares estavam fixos no vazio, nas sombras nascidas entre os feixes de luz do palco. 

Enquanto esperávamos, algo estava errado. Uma sensação de desconforto percorreu minha espinha, e eu senti, lá no fundo, que não deveria estar ali. Mas o desejo de ser escolhida, de provar meu valor, me segurou firme. Foi quando o vi pela primeira vez: um homem estranho e sombrio, figura pesada, vestido com um terno desbotado e remendado. Seu rosto estava pintado de branco, o sorriso congelado e terrível, esticado de uma orelha à outra como se fosse cortado a faca. Seus olhos, negros como breu, estavam vazios. Ele estava ao fundo, imóvel como uma estátua de mármore, mas parecia um mímico. 

Eu tentei desviar o olhar, mas era como se ele tivesse me enfeitiçado. Seus olhos, mortos e profundos, cravavam-se nos meus, e por um momento, tive a impressão de que ele estava dentro da minha cabeça ou torci para isso. 

— Você está bem? — A voz de uma mulher participante quebrou o transe. 

Eu olhei para o lado, forçando um sorriso tenso para a atriz ao meu lado, que parecia preocupada. Seus olhos, no entanto, estavam estranhamente distantes, quase como se ela falasse de forma automática. 

— Sim... acho que sim. Você viu o... — Olhei de volta, mas o tal mímico havia desaparecido. Aquele palco, que antes parecia vazio, agora estava apenas mais sombrio. 

— O quê? — Ela me olhou, franzindo a testa. 

Eu balancei a cabeça, tentando afastar a sensação de estar sendo vigiada. 

— Nada. 

Mas não era "nada". A partir daquele momento, o teatro se fechou ao meu redor, o ar parecia mais grosso, sufocante, cada respiração me prendia mais àquele lugar. E os outros... eles pareciam diferentes. Enquanto os chamavam um a um para o palco, a cada retorno, seus semblantes mudavam, como se algo neles estivesse sendo lentamente arrancado, inclusive aconteceu com aquela atriz que se aproximou. Suas vozes ficavam apagadas, seus olhares mortos, como se tivessem sido tocados pelo mesmo mal que eu sentia rastejar por dentro de mim. 

Finalmente, chegou a minha vez. 

Subi ao palco com os músculos tensos, as luzes ofuscantes piscando fracamente, como se estivessem prestes a se apagar para sempre. Quando comecei a recitar meu texto, algo na sala mudou. A atmosfera tornou-se sufocante, e senti que não estava mais sozinha no palco. 

Eu estava sendo observada. Não somente observada — imitada. 

Olhei para o lado e o vi. O mímico. Estava a poucos metros de mim, cada gesto meu era replicado com uma precisão perturbadora. Seus movimentos eram os meus, mas de alguma forma distorcidos, como se ele estivesse me zombando, exagerando cada curva dos meus braços, cada inclinação da minha cabeça. Seu sorriso era maior, grotesco, quase um grito mudo preso entre seus lábios pintados. 

— Pare com isso! — Gritei, mas minha voz saiu fraca, como se o teatro estivesse absorvendo o som. 

Ele não parou. Ao contrário, continuou imitando até o meu grito. Ele abriu a boca, como se estivesse gritando também, mas sem som. O eco silencioso da zombaria perfurou meus ouvidos como inúmeras facas invisíveis. Aterrorizada, corri meus olhos pelo teatro, buscando uma saída, mas as portas estavam fechadas, e os outros atores… desapareceram, mas eles não estavam desaparecidos, exatamente. Eu sabia que não. 

Quando meus olhos percorreram as fileiras de poltronas, percebi com horror que havia mais deles. Não apenas um, mas vários mímicos, todos agora levantados, saindo das sombras. Eles estavam lá o tempo todo, disfarçados. Cada um imitava um gesto meu, uma expressão. Seus corpos rígidos se moviam como bonecos quebrados. 

— Isso não pode estar acontecendo... — Murmurei, sentindo meu corpo tremer. 

Olhei ao redor e vi um espelho no fundo do palco. Me aproximei, desesperada por qualquer conexão com a realidade, mas o reflexo que vi não era o meu. No vidro sujo e empoeirado, meu rosto estava pálido, com olhos vazios e um sorriso horrendo — eu estava me tornando um deles. 

— Não… não… — Comecei a andar de costas, querendo fugir do espelho, mas o mímico estava logo atrás de mim. Quando virei, ele estava tão perto que senti o frio de sua presença. Ele estendeu a mão em um movimento lento, zombando do meu medo. 

— Quer ser uma de nós? — Ele sussurrou, mas era minha voz que eu ouvia. Ele estava falando com a minha própria voz, imitando minha entonação, cada sílaba. — Nós todos somos artistas aqui. — Ele riu em tom baixo, um riso infantil, mas que reverberava com crueldade. 

Os outros mímicos se aproximaram, cercando-me lentamente, causando-me um desespero terrífico. Seus sorrisos inexpressivos me cercavam como uma teia. Meus gestos se tornaram automáticos, meus pés imitaram seus passos, e eu já não sabia mais o que era eu e o que era eles. O teatro parecia pulsar, respirar comigo, como se eu fosse parte dele, fundida à sua escuridão. 

— Não há saída. — Disse a minha própria voz, ecoando por entre os corpos pálidos dos mímicos que se contorciam ao meu redor. — Você é uma de nós agora. 

Corri, desesperada, para as portas trancadas. Meus dedos arranharam a madeira, tentando encontrar uma saída, mas era inútil. As risadas aumentaram, ecoando por todo o salão, zombando da minha luta. E, então, eu vi: a chave, brilhando no meio da escuridão, bem no centro do palco. 

Eu sabia que nunca conseguiria alcançá-la. 

Quando me virei, o mímico original estava lá, os mesmos olhos negros e sem alma, o mesmo sorriso devorando seu próprio rosto. Ele estendeu a mão e, antes que eu pudesse reagir, tudo ficou escuro no ambiente. 

Agora, não sou mais eu; sou um reflexo no espelho e, terrivelmente, sou um dos mímicos. Espero a próxima audição de atores neste sombrio lugar. Talvez eu me veja entrar pela mesma porta por onde adentrei. Queria que isso fosse um sonho e que eu pudesse acordar, mesmo que, ao abrir os meus olhos, visse a figura mímica a me observar em meu despertar, sozinha ou acompanhada de outros como ela.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Entidade

Na fria balada da noite, sob o manto da neblina | Surge figura soturna, felina. | Com sorriso aberto, nova vítima procura. | Caçada furiosa empreende…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Na fria balada da noite, sob o manto da neblina
Surge figura soturna, felina.
Com sorriso aberto, nova vítima procura.
Caçada furiosa empreende, mediante animalesca busca 

Sem uma única palavra causa pânico e terror
Sangue-frio, entidade de puro horror
Sorriso amarelo, doentio e inebriante
Que rasga tecidos, causador de dor excruciante

Ameaça misteriosa torna a desaparecer
Assim que a mãe noite começa ao horizonte perecer
Assim, poderoso astro-rei desponta
Riso macabro, por fim, encerra sua afronta.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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