Lírio purpúreo
A primeira vez que a vi foi numa noite sem lua, tão escura quanto a alma dos homens corrompidos pela luxúria. Mal sabia eu que contemplava minha própria ruína…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Sintra, Portugal.
1713
A primeira vez que a vi foi numa noite sem lua, tão escura quanto a alma dos homens corrompidos pela luxúria. Mal sabia eu que contemplava minha própria ruína. As cortinas de veludo púrpura pendiam pesadas sobre as janelas cerradas, impedindo que qualquer vestígio do mundo exterior penetrasse meus aposentos. Restavam apenas a luz vacilante de três velas sobre a penteadeira e o perfume adocicado dos lírios que eu mantinha em um vaso de prata ao lado da cama. Ou talvez já não fossem lírios.
Desde que ingerira o fungo, suas pétalas haviam escurecido nas extremidades. A antiga brancura transformara-se em manchas violáceas, semelhantes a hematomas florescendo sobre carne pútrida. Enquanto escrevo estas linhas, os lírios ainda repousam ao meu lado, tão vivos quanto no dia em que os colhi. Talvez este diário seja tudo o que restará de mim quando a história chegar ao fim.
Naquela manhã, quando adentrei o bosque que circundava a propriedade de minha família para realizar minha habitual caminhada, não poderia imaginar a descoberta nefasta que me aguardava. Entre os lírios que colhia para adornar meus aposentos, havia algo que meus olhos não reconheceram como pertencente à natureza comum. Parecia uma relíquia caída dos céus ou um artefato oriundo das histórias que minha ama contava para assustar-me durante a infância.
Ali, entre raízes retorcidas e pétalas alvas, brotava um fungo de coloração púrpura tão intensa que parecia concentrar em si toda a luz de uma lua refulgente. Suas lamelas imitavam as pétalas dos lírios ao redor, abertas como dedos infames emergindo das profundezas da terra. Gotículas viscosas brotavam de sua superfície, brilhando sob o amanhecer como lágrimas de vidro ou secreções de alguma criatura adormecida sob o solo. Sua presença destoava de tudo ao redor. Não havia beleza naquela forma, tampouco havia repulsa. Existia apenas uma estranha sensação de reconhecimento, como se eu finalmente houvesse encontrado algo que me aguardava havia muito tempo.
Aproximei-me. Sua superfície pulsava sob os raios do amanhecer, como se respirasse. Como se estivesse vivo. Uma sensação inexplicável tomou conta de mim. Eu precisava possuí-lo, como se o fungo púrpuro sussurrasse meu nome através do silêncio do bosque. Como se desejasse que nos tornássemos uma única coisa. Em um rompante desprovido de toda lucidez, arranquei-o da terra e o levei aos lábios. O gosto assemelhava-se ao de sangue envelhecido. Havia também algo de ferro oxidado, de moedas esquecidas sob a chuva e de água estagnada em criptas antigas. A textura era macia e úmida, desagradável à língua; ainda assim, engoli cada fragmento.
Por um instante, nada aconteceu. O vento cessou. Os pássaros silenciaram. Até mesmo o farfalhar das folhas pareceu abandonar o bosque. Então senti uma pulsação. Não em meu peito, mas atrás de meus olhos.
Uma vibração lenta e profunda percorreu meu corpo como dedos invisíveis deslizando sob minha pele. Cambaleei por um instante, e o mundo tornou-se mais vívido. Os verdes adquiriram tonalidades impossíveis, provenientes de algum lugar além das estrelas. As sombras pareceram ganhar profundidade, e os lírios à minha volta inclinaram-se suavemente em minha direção, como se observassem minha transformação.
Minutos transformaram-se em horas e, quando retornei à propriedade, trazia comigo um buquê de flores e uma estranha sensação de companhia. Não era uma presença definida. Era apenas a impressão persistente de que eu já não estava sozinha dentro de mim.
Naquela noite, ao passar diante do espelho de minha penteadeira, tive a impressão de que havia alguém parado atrás de mim. Virei-me imediatamente, mas encontrei apenas o vazio. Ri de minha própria imaginação e tentei afastar o desconforto. Ainda assim, ao deitar-me, senti que algo observava meu sono.
Os dias seguintes transcorreram envoltos em uma névoa de inquietação. Minha ama comentava frequentemente sobre minha palidez crescente e insistia para que eu saísse dos aposentos e respirasse o ar da manhã. Eu pouco respondia. A verdade era que algo mudara dentro de mim desde o dia em que encontrara o fungo no bosque. Eu apenas ainda não compreendia o quê.
O sono abandonou-me pouco a pouco. As noites tornaram-se longas vigílias diante das janelas fechadas. Eu observava os quadros pendurados nas paredes e tinha a impressão de que seus olhos me acompanhavam pela penumbra. Os lírios permaneciam sobre a mesa de cabeceira. A essa altura já deveriam estar secos, embora suas pétalas estivessem tingidas por um púrpura cada vez mais profundo.
Um mês havia se passado, e nada, exceto os lírios e este diário, lembrava o que ocorrera naquela manhã. Por vezes, eu me convencia de que tudo não passara de um devaneio provocado pelo calor do verão. Outras vezes, porém, despertava durante a madrugada com a sensação de que alguém me observava da escuridão.
Até aquela noite, quando a vi diante do espelho.
A princípio, pensei tratar-se de um reflexo tardio, uma ilusão causada pelo cansaço. Havia dormido pouco nas últimas semanas. O fungo roubara-me a capacidade de repousar. Minhas noites haviam se tornado longas vigílias preenchidas por pensamentos mórbidos e pela sensação constante de que algo me aguardava além da superfície das coisas.
A mulher surgiu diante de mim gradualmente. Primeiro um vulto indistinto, depois um contorno delicado emergindo da penumbra e, por fim, um rosto. O meu rosto, mas não exatamente o meu. Ela possuía a mesma curva delicada do nariz e os mesmos cabelos escuros derramados sobre os ombros. Os olhos, contudo, eram diferentes. Violetas. Brilhavam na escuridão com uma intensidade inquietante, semelhantes aos olhos de uma coruja espreitando a noite. Pareciam absorver toda a penumbra ao redor e devolvê-la transformada em algo vivo.
Havia nela uma perfeição impossível, como se eu contemplasse uma lembrança idealizada de mim mesma. Parecia mais jovem, mais bela e mais viva.
Ela sorriu, e naquele instante senti o odor. Não vinha dos lírios. Era o cheiro dela. O cheiro do fungo. Sangue envelhecido, ferrugem e terra úmida após a chuva. Algo doce e pútrido ao mesmo tempo, algo que despertou em meu peito uma repulsa tão intensa quanto a necessidade de continuar olhando.
Piscar tornou-se difícil. Desviar o olhar, impossível. Senti meus dedos enrijecerem sobre a madeira da penteadeira enquanto meu coração martelava o peito em descompasso. Ainda assim, uma parte de mim desejava que ela permanecesse ali. Desejava observá-la por mais alguns instantes, por mais alguns minutos, por toda a noite. Quando finalmente reuni coragem para sair daquele transe febril, o quarto estava vazio. Restava apenas o espelho da penteadeira e meu reflexo, sorrindo um segundo depois de mim.
Permaneci imóvel durante vários minutos. Meus olhos percorriam cada centímetro do espelho, procurando qualquer vestígio daquela aparição. Nada. Apenas meu próprio reflexo me encarava do outro lado do vidro, tão comum e imperfeito quanto sempre fora. Ainda assim, não consegui abandonar a penteadeira naquela noite.
As velas consumiram-se lentamente enquanto eu permanecia sentada diante do espelho. Por vezes, julgava perceber um movimento no canto da superfície prateada, uma sombra ou o esboço de um sorriso. Contudo, sempre que me aproximava, encontrava apenas minha própria imagem. Quando a luz do amanhecer infiltrou-se pelas frestas das cortinas, uma tristeza profunda apoderou-se de mim. Não era alívio o que sentia pela partida da criatura. Era melancolia.
Os dias seguintes transformaram-se em um suplício silencioso. Eu mal conseguia concentrar-me nas leituras, nas refeições ou nas conversas com os criados. Minha atenção retornava constantemente ao espelho de minha penteadeira e à lembrança daquele rosto impossível. Por mais que tentasse ocupar-me com tarefas cotidianas, acabava retornando aos meus aposentos antes do anoitecer, aguardando ansiosamente a chegada da escuridão.
Passei a evitar a luz do sol. Mantinha as cortinas fechadas durante grande parte do dia e aguardava com impaciência a chegada da noite. Os lírios continuavam sobre a mesa de cabeceira, estranhamente vivos, enquanto eu me tornava cada vez mais abatida.
À medida que os dias passavam, minha obsessão crescia. Eu examinava meu rosto por longos períodos, comparando-o à lembrança daquela mulher. Observava a curva de meus lábios, a palidez de minha pele e a forma de meus olhos. Havia algo nela que me escapava, algo que a tornava infinitamente superior. Mais bela, mais graciosa, mais digna de ser amada. Quanto mais tentava identificar a diferença entre nós, mais me convencia de que ela era tudo aquilo que eu jamais conseguiria ser.
Por vezes, surpreendia-me perguntando se aquela criatura ainda habitava o espelho ou se tudo não passara de uma alucinação provocada pelo fungo. Mas, em meu íntimo, eu sabia a verdade. Nenhuma alucinação poderia fazer alguém sentir tanta falta.
Desde o dia em que encontrara o fungo no bosque, passei a registrar cada acontecimento neste diário. A escrita tornara-se meu único consolo diante da crescente sensação de que algo escapava à minha compreensão. Se minha sanidade me abandonasse, ao menos estas páginas permaneceriam como testemunhas do que vivi.
Certa tarde, enquanto as criadas preparavam o chá, ouvi-as comentar sobre rumores inquietantes que haviam chegado à Feira de Agualva. Entre bancas e carroças, viajantes narravam uma chuva de meteoros que iluminara os céus semanas antes, exatamente na mesma época em que eu encontrara o fungo entre os lírios do bosque. Diziam que as estrelas haviam rasgado a noite como lanças incandescentes e que fragmentos luminosos foram vistos caindo além das colinas.
Os relatos tornavam-se ainda mais inquietantes conforme se espalhavam entre os viajantes. Alguns afirmavam que animais foram encontrados mortos sem qualquer sinal de ferimentos. Havia até quem jurasse ter visto uma luminosidade púrpura persistir durante dias sobre as colinas, como se parte do firmamento houvesse permanecido presa ao solo.
As criadas riam dessas histórias e atribuíam tudo à imaginação dos camponeses. Eu não consegui rir. Pela primeira vez, considerei a possibilidade de que o fungo não pertencesse verdadeiramente àquela terra.
As aparições tornaram-se mais frequentes. A mulher já não surgia apenas por breves instantes. Permanecia diante de mim durante horas, observando-me através do espelho. Nunca pronunciava uma palavra. Limitava-se a sorrir. Com o passar das semanas, seus movimentos tornaram-se estranhamente independentes dos meus. Por vezes eu permanecia imóvel enquanto ela inclinava a cabeça. Em outras ocasiões, percebia seu sorriso surgir antes do meu.
Numa noite, ela ergueu lentamente a mão. Eu não havia me movido. O terror que senti durou apenas um instante. Logo foi substituído por fascínio.
Meu estado piorava a cada dia. As refeições permaneciam intocadas. Correspondências acumulavam-se sobre minha escrivaninha, sem resposta. Livros que outrora me encantavam passaram a reunir poeira. Nada parecia possuir importância diante da perspectiva de revê-la.
Minha ama tornou-se a única pessoa a notar minha lenta transformação. Comentava frequentemente sobre minha palidez, insistia para que eu abrisse as cortinas e censurava os longos períodos que eu passava trancada em meus aposentos. Eu respondia pouco. Como poderia explicar-lhe que a luz do dia tornara-se insuportável diante da promessa da noite? Como poderia confessar que ansiava pela escuridão da mesma forma que outros aguardam a chegada de um amante?
Certa manhã despertei com a estranha sensação de estar sendo observada. Ao aproximar-me da penteadeira, encontrei um pequeno fungo púrpura repousando sobre sua superfície. Permaneci imóvel durante longos minutos. Eu não o havia colhido. Não na noite anterior. Não conscientemente. Ainda assim, ali estava ele, pulsando suavemente à luz do amanhecer.
Aproximei a mão, mas hesitei antes de tocá-lo. Algo em sua presença despertava uma memória desagradável, como um sonho esquecido que insiste em retornar. Chamei uma criada para confirmar que não se tratava de imaginação. Contudo, quando ela entrou no aposento, o fungo já não estava mais lá. A mulher limitou-se a olhar-me com preocupação, perguntando se eu estava me sentindo bem. Menti. Disse que fora apenas cansaço. Ela pareceu não acreditar inteiramente, mas nada respondeu. Durante o restante do dia, não consegui afastar a sensação de que algo se movia dentro de mim.
À noite, quando voltei a encarar o espelho, a mulher aguardava do outro lado do vidro e sorria como se conhecesse um segredo que eu ainda não era capaz de compreender.
Dormia cada vez menos e, quando finalmente o sono me vencia, era acometida por sonhos inquietantes. Caminhava por florestas cobertas de neblina púrpura, guiada por uma figura feminina cuja silhueta desaparecia sempre que eu tentava alcançá-la. Havia algo profundamente familiar nela, algo que despertava em mim uma mistura dolorosa de fascínio e melancolia.
Ao despertar, encontrava terra sob minhas unhas, folhas presas aos cabelos e manchas de lama na barra de minha camisola. Inicialmente atribuí esses sinais ao cansaço ou aos efeitos persistentes do fungo. Contudo, conforme as semanas avançavam, tornou-se impossível ignorar a frequência com que tais acontecimentos se repetiam.
Certa manhã, minha ama encontrou pegadas de pés descalços na escadaria dos fundos da propriedade. A princípio acreditamos tratar-se de algum invasor ou de um criado imprudente. Apenas eu percebi que as marcas possuíam exatamente o tamanho dos meus pés. Não disse nada. Limitei-me a observá-las até que apagassem os vestígios.
Na noite seguinte, tranquei a porta de meu aposento e escondi a chave sob o travesseiro. Estava determinada a provar a mim mesma que os estranhos acontecimentos eram fruto de minha imaginação. Entretanto, quando despertei na manhã seguinte, encontrei a chave repousando sobre a penteadeira, ao lado de um lírio púrpura recém-colhido. Não havia qualquer explicação possível para aquilo e, pela primeira vez, percebi que já não conseguia ignorar a verdade.
Decidi permanecer acordada naquela noite. Sentei-me diante do espelho e esperei. As velas consumiram-se lentamente enquanto a mulher me observava do outro lado do vidro. Pela primeira vez, tive a impressão de que ela parecia satisfeita. Quando o relógio anunciou a meia-noite, seus lábios curvaram-se em um sorriso sereno, quase afetuoso. Havia reconhecimento naquele gesto, como se ela soubesse algo que eu ainda desconhecia. Então tudo escureceu.
Despertei no bosque. A lua pairava alta sobre as árvores, iluminando fracamente o solo coberto de folhas úmidas. Meus pés estavam descalços e cobertos de lama. Em minhas mãos repousava um cesto repleto de fungos púrpura. Ao meu redor, dezenas deles brotavam da terra como flores malignas. Alguns cresciam junto às raízes das árvores, enquanto outros espalhavam-se entre os lírios silvestres. Havia tantos que o solo parecia pulsar sob sua presença.
Permaneci imóvel durante vários minutos, incapaz de compreender como chegara até ali. O silêncio era absoluto. Nem mesmo os insetos ousavam interromper aquela estranha quietude. Foi então que vi meu reflexo em uma poça formada pela chuva recente. Os olhos violetas que me observavam eram os mesmos da mulher do espelho.
Um arrepio percorreu minha espinha. Levei as mãos ao rosto numa tentativa desesperada de recuperar a razão. Foi nesse instante que senti novamente o odor: sangue envelhecido, ferrugem e terra úmida. O cheiro acompanhava-me. Impregnava meus cabelos, minhas roupas e minha pele. Pela primeira vez compreendi uma verdade que me encheu de horror. O cheiro jamais viera do espelho, jamais viera da mulher e jamais viera do fungo. Vinha de mim.
Meu olhar retornou à superfície da água. Não havia ninguém ao meu lado. Nenhuma criatura oculta entre as árvores. Nenhuma figura observando-me da escuridão. Apenas eu, meu reflexo e aquele sorriso impossível. Foi então que compreendi. A mulher do espelho nunca estivera presa atrás do vidro. Nunca habitara a superfície prateada da penteadeira. Nunca existira separada de mim. Habitava-me.
O horror da descoberta quase me levou à loucura. Cambaleei para trás e deixei o cesto cair. Os fungos espalharam-se pelo chão da floresta como órgãos arrancados de um corpo. Ao observá-los, compreendi algo ainda mais terrível: aquela não era a primeira vez que eu estivera ali.
Ao retornar para casa, encontrei outro cesto que havia sido levado para a cozinha. Fungos secavam próximos ao fogão. Em vários deles reconheci marcas de terra idênticas às que cobriam minhas mãos. A criatura não desejava apenas a mim. Desejava minha família. Desejava espalhar-se. E eu havia me tornado seu instrumento.
Compreendi que não me restava muito tempo. A mulher do espelho não precisava mais aparecer. Eu sentia sua presença em cada pensamento, em cada impulso e em cada respiração. Pela primeira vez desde que tudo começara, tive medo de adormecer. Passei aquela madrugada vasculhando a propriedade. Recordei-me das histórias sobre os meteoros e dos animais encontrados mortos próximos aos locais de impacto. Pela primeira vez, tudo pareceu encaixar-se numa única e terrível verdade. O fungo não era uma criatura do bosque. Não era uma maldição. Não era sequer uma entidade sobrenatural. Era uma semente. Uma semente caída dos céus. E eu havia permitido que ela germinasse dentro de mim.
Tomada pelo desespero, reuni todos os fungos que consegui encontrar no bosque e na propriedade. Carreguei cestos cheio deles até a sala principal da propriedade. Minhas mãos tremiam. Meus músculos doíam. Ainda assim, continuei. A cada novo cesto depositado na lareira sentia a presença da criatura tornar-se mais agitada dentro de minha mente, como se ela finalmente compreendesse minhas intenções.
Quando a última cesta foi despejada diante da lareira, risquei o fósforo. As chamas espalharam-se lentamente. Então os fungos começaram a arder. O fogo adquiriu uma coloração púrpura profunda. As sombras dançaram pelas paredes como figuras distorcidas. O odor espalhou-se pela casa com violência: sangue envelhecido, ferrugem, terra úmida e algo mais, algo que lembrava carne esquecida em um túmulo recém-aberto. Por um instante, tive a impressão de ouvir um som. Não exatamente um grito, mas algo próximo disso, como se milhares de vozes muito distantes lamentassem a própria destruição. Observei as chamas até que o último fragmento fosse reduzido a cinzas negras. Minha família estava salva. Quanto a mim, já não possuía a mesma certeza.
Agora escrevo estas linhas à luz de uma única vela. Minha ama dorme no aposento ao lado. Percebo o quanto fui egoísta e imprudente. Durante semanas afastei-me dela. Ignorei sua preocupação. Recusei seus conselhos. Ainda assim, foi a única pessoa que permaneceu ao meu lado quando minha própria razão começou a abandonar-me.
Dentro de algumas horas, quando terminar este relato, irei acordá-la. Entregar-lhe-ei este diário. Pedirei que o esconda. Pedirei também que faça aquilo que eu mesma já não possuo forças para realizar. Há algo crescendo dentro de mim. Posso senti-lo mover-se sob minha pele. Posso senti-lo pulsar atrás dos meus olhos. Enquanto escrevo estas palavras, meus dedos tremem involuntariamente. Por vezes, as letras parecem mover-se sobre a página. Por vezes, vejo raízes púrpuras surgirem nos cantos de minha visão apenas para desaparecer quando tento focá-las.
Se estas páginas sobreviverem ao tempo, que sirvam ao menos como advertência. Algumas flores não pertencem à Terra. Algumas sementes jamais deveriam encontrar solo fértil. E alguns amores, por mais belos que pareçam, não desejam ser correspondidos. Desejam apenas consumir.
Quando o sol nascer, se ainda existir algo de humano em mim, talvez Deus tenha misericórdia. Caso contrário, espero que minha ama tenha coragem e melhor pontaria do que eu.
Lilium Batista
Lilium Batista é escritora, poetisa, ilustradora, capista premiada, mãe e nerd, é fascinada por ficção científica desde a infância. Apaixonada por Star Wars e pelo universo de J.R.R. Tolkien, suas obras também carregam as influências sombrias e visionárias de Ridley Scott, H.P. Lovecraft, Alan Moore e Stephen King. Escreve desde os 10 anos, mas começou a publicar em 2024 e, desde então, já conta com 17 obras publicadas. Sua escrita transita entre a ciência e a fantasia, sempre com um olhar curioso, sensível e provocador sobre o desconhecido... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Hereditariedade
Foram várias consultas e aqueles malditos médicos não descobriram o que eu tinha. Uns ousaram dizer que eram sintomas psicossomáticas…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“O Senhor é longânimo e grande em misericórdia, que perdoa a iniquidade e a transgressão, ainda que não inocenta o culpado, e visita a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração.” (Números 14:18)
Foram várias consultas e aqueles malditos médicos não descobriram o que eu tinha. Uns ousaram dizer que eram sintomas psicossomáticas em decorrência do estresse. Outros disseram que, por não saber de fato minha origem (era filha adotiva), não saberiam dizer se era uma condição hereditária — e até irreversível. Fato era que os males noturnos pioravam à medida que os meses se arrastavam perante mim.
Vertigem. Falta de ar. Suores repentinos. Não, eu não estava entrando na menopausa, nem precoce e nem nada, pois só tinha 27 anos na época e aqueles palermas afirmavam que não se tratava disso. Estresse? Quase todo mundo tinha, me sentia até pertencente à essa geração de descontrolados varridos. E, baseados nessas desculpas, me entupiram de drogas para “aliviar a tensão”.
E tudo continuava a se agravar.
Não conseguia mais dormir. O descanso irregular piorava o suposto quadro de estresse. Aquele maldito ciclo era surreal. Não conseguia dormir por causa do estresse, ficava ainda mais estressada porque não conseguia dormir.
Pensei em procurar meus pais biológicos, com a estrita intenção de tentar entender qual condição maléfica poderiam ter passado para mim, mas isso não era possível, já que minha mãe — a adotiva e minha mãe de fato —, nunca soube quem eram.
Mas eu não conseguia mais viver daquela forma e, ignorando meu ceticismo, fui visitar uma médium (essa atitude também agravou meu quadro, pois tive que passar por cima das minhas crenças, ou melhor, da falta delas).
Mas o que era mais uma cavada para quem já está no fundo do poço?
***
Devia ter seguido minha intuição. Aquela mulher falou tanta baboseira que mal consegui terminar de ouvi-la até o fim — alguma coisa sobre maldição hereditária e pecados atravessando gerações. Já ouviu falar: “O que os olhos não veem, o coração não sente”? Então, não devia ter visto essa história de perto.
Segundo a charlatã, meu bisavô era proprietário de uma companhia muito próspera que fazia papeis de parede. O problema é que um dos elementos usados para produzir a cor púrpura era arsênico. Sim, o veneno.
Fui pesquisar depois e, para meu absoluto desprazer, isso realmente aconteceu na história humana. Papel de parede envenenando gente. O século XIX parecia um grande experimento suicida coletivo.
Mas, continuando a história absurda, em decorrência disso, várias pessoas faleceram intoxicadas. Uma dessas famílias era composta por religiosos fervorosos que, por influência de algo obscuro, flertavam com práticas incomuns (não me pergunte quais, como eu disse, mal prestei atenção nela).
Dos cinco membros que viviam na casa recém reformada com aqueles belíssimos papeis violetas, quatro morreram de forma trágica. A matriarca da família, e única sobrevivente, rogou uma maldição contra meu bisavô:
“Assim como quatro tombaram sob teu pecado, quatro gerações pagarão.”
Se aquilo fosse verdade, seriam quatro gerações condenadas à morte de formas terríveis: meu bisavô, meu avô, meus pais… e eu.
A mulher ainda afirmou que, quando meus pais descobriram sobre a maldição, decidiram me colocar para adoção. Talvez acreditassem que a distância bastasse para enganar a dona morte.
É obvio que não acreditei em nenhuma palavra da médium naquele momento, e continuei minha vida, rotina de insônia, médicos e trabalho. Até que tudo ruiu.
***
Quem poderia imaginar que o fundo do poço não era o pior lugar que eu poderia estar? Achava que só mais uma escavação não faria ruir as estruturas, mas tudo cedeu e me soterrou em ressentimentos e maldições. Sim, era tudo verdade, mas, mesmo se eu tivesse acreditado antes, não poderia mudar meu destino. Pagar pelos erros dos antepassados era cruel e injusto, mas a minha revolta não mudaria nada disso.
Perdi meu trabalho, porque não conseguia me concentrar em nada.
Não fui mais aos médicos, porque já não tinha dinheiro para os exames.
E, sem dormir, minha mente me pregou peças.
Um dia, quando estava deitada tentando dormir — ah, como eu era insistente — olhei para o espelho que havia ao lado da minha cama e avistei — até então tinha certeza de que imaginava — em cima do meu peito uma criatura cadavérica, de olhos tão escuros que sugavam a atenção, o olhar e a vontade de viver. E, quando ela sorriu, todos os males que sentia foram agravados. Ela era a culpada!
Mas eu não permitiria que a maldição me atingisse de forma direta. O último elo dessa corrente iria resistir bravamente, nos meus termos, do meu modo.
E, com uma apunhalada, quebrei o maldito portal-espelho, sentia os pedacinhos de vidros me convidando, atraindo, clamando para terminar de uma vez por todas com aquele sofrimento.
Agarrei um dos cacos mais pontudos e enfiei primeiro nos meus olhos, mas isso não foi suficiente e, apesar da dor, ainda havia vida em mim. Ouvi uma voz sussurrar que havia chegado o momento de, finalmente, ter o descanso eterno, e sem hesitar cravei o objeto na garganta e a rasguei...
...Continuo não sabendo o que sou, quem sou, mas enfim obtive o merecido sono eterno.
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Chamas Da Inocência
Numa existência plena de concisas leis universais onde o sol nasce para todos, ainda assim há aqueles que são cobertos pelas sombras do infortúnio…
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"Deixem vir a mim as criançinhas e não as impeçam;
pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas"
Mateus 19,14
Numa existência plena de concisas leis universais onde o sol nasce para todos, ainda assim há aqueles que são cobertos pelas sombras do infortúnio e jamais podem usufruir por completo das benesses que a roda da fortuna possa lhes oferecer. No ciclo natural das coisas e acontecimentos, onde tudo nessa existência demonstra-se ser efêmero e transitório, não há tristeza eterna e muito menos alegria que perdure para sempre, e por mais difícil que seja a situação que alguém possa estar enfrentando, em algum outro lugar alguém talvez esteja numa tribulação um pouco mais desesperadora. Para tais indivíduos a alegria e a bonança são dadas em pequenas partes intercaladas de tristezas e decepções.
Maria de Lourdes – que pela sua compleição franzina, desde que nascera era denominada Lourdinha – se encaixava perfeitamente dentre tais desafortunados. Sua vida fora um completo conjunto de absurdas decepções e infortúnios. Depois de uma infância de grandes privações e carregada da mais completa falta de perspectivas, antes mesmo de completar seus quinze anos, – ela que, apesar dos pesares, era dotada de uma beleza ímpar, uma verdadeira flor em desabroche – fora acometida pela varíola e por dias afins, caminhou no vale da sombra da morte. Essa pestilência não recolheu seu corpo para a cidade do silêncio, onde todos são inocentes, mas lhe deixara profundas marcas que levaria consigo por toda sua insignificante existência.
Proveniente de uma família simples e humilde onde a necessidade sempre se fazia presente, seu tratamento constara apenas de ervas e benzimentos. Com muita persistência e força de vontade, por fim a varíola se fora, mas levara consigo toda a beleza que Lourdinha possuíra até então. Sua pele antes macia e sedosa como uma pétala da mais fina rosa, ficara manchada e cheia de horrendas cicatrizes. Depois de sofrer mais esse terrível golpe do destino, essa frustrada criatura, que não conhecera a felicidade em sua plenitude, adquirira em seus olhos uma expressão tristonha e distante, que demonstrava uma profunda sensação de escárnio pelas vicissitudes da vida. Sempre que se olhava no espelho – fato que ela tentava evitar ao máximo – sentia-se como a mais desafortunada das criaturas.
Pela sua origem pobre e com uma aparência não tão agradável aos olhos de um possível pretendente, seu primeiro e único relacionamento fora com um desconhecido de olhos claros e cabelos na cor do entardecer, que por uma única vez, numa noite de bebedeira, onde ambos estavam completamente tomados pelos misteriosos fetiches da ebriedade se perderam nos braços um do outro. O desconhecido – a qual nem mesmo seu nome verdadeiro, Lourdinha soubera ao certo – da mesma maneira que surgira também se fora, sem deixar rastro nem vestígio, deixando para Lourdinha não somente as lembranças de voluptuosos momentos, que por mais que pudessem ter sido de uma frustrante efemeridade, ainda assim trazia em si uma profunda intensidade. Noite que proporcionara a ela, a oportunidade única, de conhecer nos braços de um desconhecido os misteriosos caminhos do inexplicável deleite da mais ensandecida paixão.
Essa única noite de prazer daria a Maria de Lourdes motivos para que jamais se esquecesse de tão voluptuosa passagem em sua existência. Pois o fruto de seu inconsequente deleite se materializara numa bela criança de olhos primaveris e cabelos na cor de ardentes labaredas. Essa graciosa criatura de sorriso fácil e olhar inocente recebera o nome de Lorena e a todos encantava. Para Lourdinha era seu porto seguro, onde depois de um dia de tenebrosas tempestades no árduo trabalho diário – limpando lares alheios – ao fim do dia, ela aportava para uma noite de deleitoso descanso. Para seus avós – já velhos e doentes, que cuidavam dela, durante o dia, enquanto Lourdinha trazia o sofrido sustento para o lar – era ela uma verdadeira dádiva. Lorena era uma criança criada a pão de ló, sempre bajulada por todos. Sempre carregada de muito amor e zelosa atenção. Por mais que lhe viesse a faltar luxo e o conforto, ainda assim tinha todo afeto e carinho que um ser poderia desejar.
Numa família onde a sorte jamais fizera morada, e nem mesmo a roda da fortuna dera um único giro sequer, aquelas duas senis e gentis criaturas dependiam totalmente do suado esforço da pobre Lourdinha para sobreviverem. Verdade seja dita, que eles cuidavam muito bem da graciosa Lorena, enquanto a mãe passava o dia no trabalho. No entanto, o parco ordenado de uma única pessoa para sustentar uma casa, onde havia uma criança dependente de cuidados dos mais diversos e duas outras pessoas em idade já bastante avançada, desprovidas de qualquer outra renda que fosse, era uma tarefa bastante hercúlea. Se o sustento básico já era difícil, uma moradia decente era apenas um sonho distante.
Os pais de Lourdinha, que além de velhos e doentes, também não eram detentores de nenhum tipo de posse de maior valor, que pudessem lhe valer num momento de extrema necessidade, sobrevivendo apenas do trabalho da filha e da providência divina. Sendo assim, viviam aquelas quatro desafortunadas criaturas numa improvisada casa – se por acaso, aquele estranho pardieiro pudesse ser denominado casa – feita de restos de tapumes de construção e um carcomido pedaço de lona de caminhão. Era um tipo de construção tão sinistra que mais parecia uma armadilha, pronta a tolher a vida de seus humildes moradores a qualquer momento.
O piso de terra batida, por mais que recebesse todo asseio possível, insistia em manter-se sujo todo o tempo. Como havia apenas um único espaço sem separação entre cômodos, a privacidade era praticamente inexistente. Ambiente quente e abafado sem nenhuma janela, praticamente sem ventilação alguma. Durante as chuvas – devido ao improvisado telhado – molhava mais dentro de casa do que pelo lado de fora. Se por acaso fosse uma tempestade violenta com relâmpagos e grande ventania era um verdadeiro “Deus nos acuda”. No período de extremo calor a casa se tornava um verdadeiro forno, devido a sua baixa e desajustada estrutura, tornando a permanência em seu interior algo quase que impossível. O saneamento básico era inexistente e a iluminação elétrica era um objetivo ainda não alcançado, fato que tornava o uso de velas ou candeeiros uma necessidade constante, quando a noite chegava.
Devido a uma vida de sofrimentos diversos e incontáveis frustrações, sem nenhuma perspectiva de dias melhores – ou talvez até mesmo, por não terem outra coisa com que ocuparem o tempo ocioso – os pais de Lourdinha encontraram determinado conforto numa comunidade pentecostal que frequentavam fielmente quase todas as noites. Sendo assíduos tanto na fervorosa fé, bem como na constante presença sempre que havia celebrações. Lorena já com cinco anos, dotada de saúde e disposição na mesma proporção que dispunha de energia e inquietude, sendo uma criança que nas palavras do avô – o bondoso Senhor Eusébio – “era fogo na roupa”, e devido a essa sua incrível qualidade de não conseguir manter-se em pleno sossego por muito tempo, nem sempre acompanhava os avós aos cultos na pequenina e improvisada igreja, que não distava muito longe de sua casa.
Em várias ocasiões em que Lourdinha demorava a chegar do trabalho – sendo essas ocasiões quase uma constante – Lorena ficava aos cuidados de uma vizinha que tinha uma filha da mesma idade que ela. Sendo ambas inseparáveis amigas. Essa vizinha que tal qual a própria Lourdinha, também não tinha marido se chamava Claudete – por todos conhecida como Detinha – mesmo sendo uma competente costureira era tão pobre e necessitada quanto eles mesmos e justamente por estarem no mesmo patamar de contínuo sofrimento se dava muito bem, tanto com aquele casal de idosos bem como com a própria Lourdinha que na maneira do possível tentava a todo o custo ser-lhe bastante prestativa, arranjando-lhe trabalho de costura pelas casas onde ela prestava serviços como faxineira.
Por mais difícil que a vida possa parecer, há certa peculiaridade nesse tipo de pessoas que deve ser louvada acima de tudo. Mesmo passando por todos os tipos de necessidades possíveis, ainda assim são pessoas fraternas e bastante generosas. Ainda que não tenha nada ou quase nada, o pouco que possuem dividem entre si. Mesmo vivendo em casebres dignos da mais profunda piedade, ainda assim, fazem de suas humildes moradas, lares calorosamente acolhedores, recebendo debaixo de seu teto, qualquer um que precise de um seio familiar em momentos de profundo abandono.
Há um velho provérbio que diz: “... não há nada de tão ruim que não possa piorar...” Certo dia, depois de um estafante dia de trabalho, sabendo que seus pais estariam na igreja e Lorena estando aos cuidados de Detinha, decidiu Lourdinha que ao chegar do trabalho tomaria um refrescante banho e logo se deitaria para um merecido descanso. Naquela época em questão o trabalho se tornava cada dia mais pesado e cansativo. Ela que estava tendo crises de insônia, após se queixar no trabalho de tal situação, havia conseguido através de uma de suas empregadoras alguns comprimidos que lhe proporcionariam noites mais tranquilas. Esse medicamento fora lhe entregue com a séria recomendação que deveria ser utilizado comedidamente e jamais misturado com qualquer tipo de bebida alcoólica que fosse.
Lourdinha – uma filha muito obediente e mãe bastante exemplar – muito raramente se dava ao luxo de tomar algum tipo de bebida alcoólica. Quando o fazia era na companhia de Detinha em algum evento especial; como algum aniversário de algum deles, nas festas de fim de ano ou coisa que o valha. Naquele dia em si, como o tempo estava bastante quente e abafado, estando ela faxinando a casa de uma velha cigana – cartomante conhecida e muito eficiente em sua mística arte – a convite de sua empregadora que era uma constante amante do copo, acabara por ingerir um gole ou outro de uma refrescante cerveja, que lhe fora muito insistentemente oferecida. Ao chegar em casa, assim que tomou seu demorado banho, devido ao cansaço do dia e os efeitos da bebida decidiu tomar pela primeira vez, dois dos relaxantes comprimidos que tanto conforto lhe trazia para suas insones noites de cansaço e profunda crise existencial. Assim que se deitou logo caiu em sono profundo e dormiu sossegadamente o sono dos justos.
Enquanto seus avós estavam numa acalorada celebração, onde o pregador ponderava sobre as benesses de uma vida de fiel servidão a Deus e obediência aos ensinamentos das Escrituras Sagradas, Lorena brincava sossegadamente com sua inseparável companheira de aventuras. Assim que o dia já cedera lugar a uma quente e abafada noite, Detinha logo preparara o parco e simples jantar, e em seguida decidira dar por encerrado alguns ajustes no vestido de uma de suas clientes, que exigia pressa no trabalho. Estando as meninas brincando de casinha no único e pequeno quarto da casa, perceberam que aquela brincadeira estava um tanto quanto sem graça, pois lhes faltavam alguns objetos considerados essenciais, para completarem aquela diversão. Tomada pela euforia e senso de aventuras, Lorena conseguira convencer sua amiga a irem até sua casa para buscarem alguns itens para continuarem com a brincadeira.
Detinha estando por demais ocupada, nem mesmo percebera que as meninas haviam saído e voltado logo em seguida. Acompanhada de sua amiga, Lorena entrara em sua casa e muito rapidamente após acender o toco de uma vela, logo recolhera todas as coisas que foram buscar e de forma bastante afoita logo retornaram a fim de continuarem com sua diversão. Uma vez que, estando a casa tomada pelas trevas, a luz da pequena vela não fora suficiente para perceberem que Lourdinha dormia sossegadamente em sua cama num dos cantos escuros da casa. Talvez devido a inocência, ou até mesmo por mero esquecimento a vela fora deixada acesa sobre uma pequena mesa encostada numa das paredes da casa. Em menos de meia hora, após essa negligente e despretensiosa façanha, Detinha sentira que o calor havia aumentado bastante e logo pôde perceber que seu quintal, fronteiriço a casa de sua inocente e infeliz amiga estava tão claro como o dia. Havia também um curioso barulho de fortes estalos preenchendo o silêncio da noite, ao olhar pela janela, finalmente deu por si que aquilo era incêndio.
A casa de Lourdinha ardia em tenebrosas chamas. Vizinhos logo se aglomeraram ao redor, mas muito pouco poderia ser feito além de evitar que o fogo se espalhasse pelos demais barracos. Lorena acompanhada da inseparável amiga e do filho mais velho de Detinha foram correndo até a igreja em busca de seus avós. Ao chegarem na porta do humilde templo, coincidentemente o pregador falava do fogo consolador que queima os pecados do mundo, Lorena que era conhecida por todos e fora a primeira a adentrar a pequena igreja fora logo gritando:
– Fogo! Foooogo...
– Justamente minha filha, é o fogo do Senhor que nos consola! Respondeu o pregador bastante afoito com sua mensagem.
Lorena desesperada ao extremo com a face banhada em lágrimas, não podendo controlar as emoções gritou bem alto:
– Não, pastor, é fogo mesmo e está queimando nossa casa.
Menos de dez minutos depois, todos os membros daquela pequena igreja – que naquela noite assistiam à celebração – estavam perante a imensa fogueira que outrora fora a casa onde Lorena vivia com sua mãe e seus avós. Seu Eusébio – velho e doente – tivera que ser amparado pelos vizinhos. Sua esposa – Dona Olinda – era um pranto só, entre lágrimas e soluços, dissera:
– Já não tínhamos nada! E o nada que possuíamos agora se foi entre as chamas...
Em menos de uma hora a pequena casa se tornou um monte de cinzas ainda fumegantes. O desespero fora tão grande que ninguém dera por fé que Lourdinha ainda não havia chegado do trabalho. Somente algum tempo depois, após os ânimos se acalmarem um pouco, que Detinha percebera que havia passado muito da hora que a amiga comumente chegava. Aquela noite fora triste e desoladora, a casa havia sido reduzida a cinzas, as horas passavam e Lourdinha nada de chegar. Depois de um tempo que parecera durar quase uma eternidade, a noite fora esvanecendo e dando lugar às primeiras luzes da manhã. Assim que a claridade se fizera presente, Detinha fora avisada por um dos vizinhos – daqueles tais, que se levantam antes do amanhecer e são dotados de curiosidade plena – que, chamando-a de lado, lhe dissera quase em surdina que havia os restos de um corpo carbonizado entre as cinzas...
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Mente Assombrada
Era mais um dia de brigas. Mais um dia do mundo tentando reconstruir minhas ruínas, sem eu nem mesmo ter pedido. Fazendo com que eu fosse culpado por apenas…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Era mais um dia de brigas.
Mais um dia do mundo tentando reconstruir minhas ruínas, sem eu nem mesmo ter pedido. Fazendo com que eu fosse culpado por apenas… existir.
Esse mundo podre e corrompido. Escondendo absurdos à vista de todos que fingem não olhar. Esse mundo que destrói sonhos e enterra potencial. Sempre querendo acabar com quem somos, sempre querendo destruir quem é diferente.
Mas eu sou assim.
E não vou mudar para ser aceito.
O ciclo começa como sempre.
Despertador gritando, meu corpo pesado demais para se levantar. Minha mente cansada antes mesmo do dia começar.
E levantar da cama é uma tortura que envolve cálculos para entender se vale a pena. E cada movimento exige uma negociação silenciosa com os fantasmas que me prendem — “só mais cinco minutos”, e depois mais cinco, e mais cinco, até que, por fim, a culpa me levanta.
O banho é uma vitória. Escovar os dentes é mais demorado do que deveria.
E eu não comemoro nenhuma ação. Pode ser difícil para mim, mas para os outros é o mínimo e ninguém comemora o mínimo.
O dia se arrasta como areia no deserto. As pessoas falam alto demais, e eu escuto mais do que gostaria. Sorrio quando preciso sorrir. Respondo o suficiente para não ser notado.
Seria esforço demais ficar com essa máscara, se olhassem muito para mim.
Mas ninguém vê o esforço. Ninguém vê o cansaço nos ossos. As pessoas não me veem.
E eu…
Eu finjo que está tudo bem.
Mas sempre tem alguém para tirar minha paz.
E foi então que ela chegou. Sorrindo com os olhos.
Olhava para mim como se eu fosse a sombra imperfeita do seu dia.
Ela desfilou até mim, com uma mistura de ódio e preocupação, e sem saber o quanto aquilo iria me ferir, perguntou:
— Por que está triste?
Aquela pergunta. Mais uma vez. Ouvia ela todos os dias desde que me lembro. Ouvia dos meus pais, na escola, na faculdade, no trabalho. Ninguém me deixava em paz. E eu só queria gritar para eles: “ME DEIXEM FICAR EM PAZ!”
Eu não quero que se preocupem. Não quero que me ajudem. Não quero nada. Só quero ficar sozinho.
Mas ela ainda se incomodava, como se eu devesse ser grato por sua preocupação; que deveria ser feliz apenas por viver. E então, com impaciência no olhar, continuou, com um sorriso que tentava ser doce:
— Nada aconteceu, então fique feliz!
“Fique feliz”, repeti para mim mesmo. Como se felicidade fosse um botão que eu gostava de manter desligado. Como se fosse escolha. Como se já não tentasse todos os dias.
Podia sentir meus punhos se fechando. A raiva subindo pelo meu corpo. Mas consegui me controlar. Respirei fundo e comecei a sair dali. Comecei a ir embora.
Mas…
Algo aconteceu ali. Quando ela segurou meu braço e me impediu de ir embora.
Ela segurou em mim, e eu me virei para protestar. E naquele momento… aquilo fez o mundo parar por um segundo.
E eu vi em seus olhos horrorizados uma lágrima caindo.
Não era por mim. Não ainda. Era por ela. Pelo que ela viu ao me tocar e não sabia como nomear.
Pelo vazio que de repente ficou visível, como se por um segundo ela entrasse na minha mente e entendesse que felicidade era mais difícil para quem lutava pra se manter de pé.
Eu a olhei por mais tempo do que pareceu. E então percebi que já não estávamos no mesmo lugar.
Olhei para os lados e vi que o mundo parou de fazer sentido.
Pra cima era pra baixo. Pra baixo era pra cima. Corredores de escadas em labirintos que não levavam a lugar nenhum. Algumas portas tinham maçanetas quentes. Outras, frias. Algumas, sabia que não deveria abrir. Elas gemiam baixo quando prestava atenção demais.
O teto não existia. Ou existia, mas mudava de altura. O chão às vezes inclinava sem aviso, e o pé afundava como se pisasse em areia fofa, e no próximo passo o chão era pedra dura, e no próximo, algo pegajoso que não queria soltar.
Um relógio sem ponteiros flutuava no centro de um salão vazio. E o som das engrenagens ecoava pelo ambiente, fazia tudo parecer urgente, mas sem importância, fazia tudo ser tarde demais, tudo ser perigoso, tudo precisar de atenção.
Meu corpo quente reclamava do frio. E o peso da dor parecia triplicar ali. Mas não era uma dor de machucado. Era uma dor de existir. Uma dor surda, velha, encostada nos ossos como um inquilino que se recusa a sair. Eu já nem lembrava como era antes dela. Talvez nunca tenha existido um antes.
E a mulher estava comigo. Gritava e chorava como uma criança. Olhou para mim tentando entender.
E então eu respondi:
— Meu lar.
Ela, ainda mais horrorizada, não entendia.
Para ela, estar ali era como estar coberta de agulhas que tentam rasgar sua pele e corroer seus ossos, mas eu parecia tranquilo.
— Minha mente. É onde estamos.
Ela olhou ao redor. Viu os corredores infinitos. Ouviu, pela primeira vez, os ecos. Vozes que não estavam ali, mas enchiam o espaço. “Você está exagerando.”, “É só preguiça.”, “Você tem tudo pra ser feliz.” — As frases batiam nas paredes, voltavam, batiam de novo. Ela tapou os ouvidos, mas eu já sabia que era inútil, não havia como escapar.
E ainda horrorizada, com os olhos fechados e os ouvidos tapados, ela me perguntou:
— Como você consegue…
Ela não conseguiu terminar, a dor era pesada demais. Mas eu já sabia o que ela iria perguntar: “Como viver com a mente assim?”.
— Estou vivo, e morto ao mesmo tempo. Como se tivesse tomado do Magöhorror minha sina. Eu sobrevivo. Todo dia. — eu disse, me ajeitando no conforto desse caos. — Mas você não precisa entender. Ninguém entende. E está tudo bem. Só… não me diga que nada aconteceu. Porque tudo aconteceu. Tudo acontece. O tempo todo. Dentro de mim. E eu não posso desligar. Então me deixa ficar em paz, pelo menos do lado de fora.
E ela começou a chorar. Porque já não aguentava. Porque cinco minutos ali dentro já eram mais peso do que ela suportava.
Mas eu sabia. Sempre soube. Por isso nunca deixei ninguém entrar.
Caellum Noctis
Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Reflexos do Mal
— Senhor Wilson, por favor! Há quase dez anos que o senhor está internado nesta instituição, condenado pelos terríveis crimes que cometeu…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“Quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você”.
— Friedrich Nietzsche
— Senhor Wilson, por favor! Há quase dez anos que o senhor está internado nesta instituição, condenado pelos terríveis crimes que cometeu. Desde então, de seis em seis meses, nos conta essa mesma história absurda, de uma forma enfática e repetitiva. Quando será que o senhor irá nos confessar o que realmente aconteceu? Por que assassinou sua esposa e seus filhos? O senhor precisa realmente cooperar conosco; só assim poderemos tentar ajudá-lo.
O paciente baixou a cabeça e começou a chorar copiosamente, entrando numa terrível crise de histeria. Os enfermeiros foram chamados e conseguiram contê-lo, aplicando-lhe um forte calmante, que o fez ficar inerte na cadeira, mas ainda assim com os olhos abertos e vidrados em alguma direção a esmo, como se avidamente quisesse enxergar algo que ninguém mais pudesse ver.
Assim que aquele paciente se acalmou e o ambiente ficou mais tranquilo, o renomado psiquiatra Doutor Eugênio de Abreu, que conduzia aquela sessão e que também era o mais velho dos três médicos ali presentes, disse aos outros dois profissionais que estavam ao seu lado:
— Esse paciente que está à nossa frente é um espécime raro nesta instituição. Na visão de um leigo, que não saiba de seus crimes, ele pode parecer uma pessoa completamente normal. Há quase dez anos tenho acompanhado seu tratamento e, durante todo esse tempo, ele tem nos contado a mesma história sem nunca, nem mesmo sob o forte efeito de drogas pesadas — ou outros tipos de tratamentos nada ortodoxos —, ter mudado uma única vírgula do que sempre tem sido contado ao longo de todos esses anos. Sua inverossímil história parece o enredo de um conto de terror e mistério. Segundo ele, um antigo espelho que ele teria herdado de sua avó seria o responsável por toda a tragédia que assola sua família há muitos anos...
... Seu nome é Wilson Bernardes — mesmo nome do avô — ele era uma espécie de artista fracassado que ganhava a vida como professor de artes e, vez por outra, conseguia vender uma de suas pinturas por uma ninharia qualquer. Era casado com uma promissora médica — de nascimento nobre, filha de família rica — que abandonara a fortuna e carreira para acompanhar o marido, cuidar da casa e dos filhos que os dois logo tiveram no início do casamento.
Segundo a sogra — dona de uma renomada galeria de arte —, seu genro sempre havia demonstrado um comportamento estranho e arredio, com certo senso de inferioridade. O relacionamento dele com sua filha foi o típico casamento entre “a princesa e o plebeu”, fato esse que sempre gerou discórdia entre eles, e que, a todo custo, tentava se manter distante da família dela.
Professor Wilson é oriundo de um núcleo familiar onde a tragédia parece fazer parte da própria família. Ele mesmo era órfão desde os cinco anos, quando perdera os pais num terrível acidente de carro, onde somente ele conseguira sobreviver — as causas do acidente nunca foram totalmente esclarecidas —. Até os 18 anos, fora criado por sua avó materna numa pequena cidade do interior — uma bondosa e sofrida mulher que já havia criado seu filho sozinha, após a trágica morte do marido, que tirara a própria vida em circunstâncias misteriosas —.
O avô do nosso paciente, o senhor Wilson Bernardes, era motorista de um ônibus escolar. Um profissional competente e muito querido por todos, mas que, numa triste manhã de sexta-feira, sem nenhum motivo aparente, havia jogado o veículo que dirigia numa ribanceira, matando, além dele mesmo, mais 17 crianças, deixando outras tantas feridas — algumas das crianças que sobreviveram ao acidente disseram, em depoimento, que o sempre meigo e atencioso tio Wilson estava com um sorriso bastante estranho e se comportava de uma forma muito esquisita naquele dia —.
Assim que terminou os estudos escolares, o jovem Wilson veio estudar na capital, onde se formaria em História da Arte, tornando-se posteriormente professor de uma pequena escola de bairro. Ainda na faculdade, conheceria sua futura esposa. Clarisse estava cursando o penúltimo ano de medicina quando ele iniciou seus estudos no curso de Licenciatura em História da Arte. Em menos de cinco anos, oficializariam um relacionamento bastante conturbado devido a inúmeras diferenças que havia entre eles. Ele, que era bastante solitário desde que perdera sua avó, teria uma família novamente. Ela, por sua vez, estava selando seu trágico destino.
Quando se casaram, a esposa tinha certeza da vida simples e humilde que o futuro esposo poderia lhe proporcionar e nunca reclamara por isso, até o dia em que viria receber uma pequena fortuna de herança do pai. Dinheiro esse que era visto pelo marido como uma profunda ofensa a seus nobres princípios de homem humilde e trabalhador. Com a herança recebida pela morte do pai e a constante companhia da mãe, a esposa retomou alguns costumes e contatos da época de solteira, quando ainda vivia em uma vida de opulência e riqueza na casa dos pais. Esse fato causou a inevitável separação dos dois, devido ao sentimento de profunda inferioridade do marido.
Uma vez separado de sua esposa e longe da companhia de seus filhos, decidira tirar umas merecidas férias e retornar à sua cidade natal. Pois, desde que se mudara para a capital, jamais havia retornado à sua antiga cidade. Sua avó, que terminara seus dias no mais completo abandono numa clínica de repouso para idosos, havia deixado a ele — seu único herdeiro — sua casa e todos os seus pertences — essa casa estava fechada há muitos anos —. Professor Wilson, que trabalhava na mesma escola há 15 anos, solicitara uma licença do trabalho, alegando, além das questões pessoais — que todos já sabiam —, que também gostaria de um tempo para voltar a pintar de forma profissional ou, quem sabe, até mesmo poder escrever um livro sobre a história de sua família.
Após esclarecer seus planos à ex-esposa — com quem ainda mantinha um relacionamento de respeito e admiração, por ser ela a mãe de seus filhos —, despedira-se de seus filhos de forma bastante carinhosa e voltara para sua antiga casa dos tempos de infância, onde ficaria quase dois meses sem dar nenhuma notícia. Sua cidade natal ficava a mais de 150 km distante da capital.
Certa noite, já em alta madrugada, o vulto de uma pessoa parecida com o professor Wilson fora visto por um dos vizinhos — que chegava de uma noitada — entrando sorrateiramente em sua antiga casa, onde ele vivera por mais de 10 anos com a ex-esposa e seus dois filhos. Nenhum deles jamais seria visto novamente. A mãe de Clarisse — que estava em viagem à Europa —, ao perceber que Clarisse não respondia às suas ligações, retornou imediatamente de sua viagem e, assim que percebeu que sua filha e seus netos haviam desaparecido, logo teve a plena certeza de que o ex-genro era o responsável pelo sumiço de todos eles.
A polícia foi acionada imediatamente. Um pedido de prisão preventiva fora expedido contra o professor Wilson pelo desaparecimento de sua ex-esposa e também de seus filhos. Ele fora encontrado no porão da casa que herdara da avó, pintando um autorretrato, inocente a tudo que havia acontecido. Ao saber do desaparecimento de sua família, entrara em choque. Uma antiga conhecida da família, que ele havia contratado como uma espécie de governanta, dissera que ele não havia saído de casa na noite do assassinato.
Tanto a casa da avó quanto a casa onde eles viviam foram periciadas até pelo avesso em busca de evidências que pudessem comprovar um triplo assassinato. Paredes foram minuciosamente verificadas, os dois quintais foram revirados, vários testemunhos foram colhidos, porém nenhuma prova fora encontrada. De certo modo, o crime parece ter sido perfeito.
Wilson — que já não era mais professor — ficou preso até o julgamento, mas este douto e persuasivo ex-professor, contando com a competência de um bom advogado e a anuência da Lei, fora solto após o julgamento por ter sido considerado inocente, pois, segundo as negligentes leis vigentes desse país, “se não há corpo, não há crime”...
Depois de todos esses episódios que vocês ouviram, esse paciente à nossa frente começou a dar mostras de um comportamento que variava entre o lúcido e o mais completo delírio. Envolveu-se em algumas confusões em bares e boates, muitas das vezes sendo expulso desses locais por quebrar os espelhos que encontrava pela frente. De alguma forma, criou uma espécie de total aversão pelo próprio reflexo.
Segundo sua governanta, alguns dias após o seu julgamento, ele tivera algum tipo de surto psicótico sobre um determinado espelho que havia em seu porão. Fez várias pesquisas sobre a origem do antigo objeto que pertencera ao seu avô, comprou diversos livros sobre ocultismo e chegava a ficar dias inteiros trancado no porão de sua casa, sussurrando palavras estranhas que ela não conseguia compreender direito, pois eram frases sem nexo algum. Falava sobre demônios, espelhos, portais e coisas desse tipo...
Depois de quase dois anos desde que tudo ocorrera, parece que as coisas estavam voltando ao normal e Wilson demonstrava que se tornaria uma pessoa lúcida novamente, até que, certa noite, em uma hora já bastante avançada, após a governanta ouvir estranhos barulhos de uma terrível luta no porão, além de vozes lamentosas e gritos de profundo desespero, ela, temendo pela integridade do seu patrão, que ela ajudara a criar desde criança, desceu até aquele ambiente onde lhe era proibido adentrar e pôde conferir com seus próprios olhos que ele já não estava mais lá. O ambiente estava tranquilo e silencioso. Era estranho, pois seu carro estava na garagem e ela não o ouvira sair pela porta da frente.
De alguma forma, Wilson havia chegado à casa de sua ex-sogra e tentou assassiná-la. A pobre mulher — que ainda chorava pela perda da filha e dos netos — conseguiu se salvar das garras do alucinado agressor, gritando por socorro aos seus vizinhos, que já estavam previamente avisados do comportamento psicótico e agressivo de seu ex-genro. Wilson foi preso tentando arrombar a casa da ex-sogra, de posse de uma afiada faca. Naquele momento, seu estado parecia ser de total embriaguez, mas parecia haver algo mais, pois, mesmo com a presença da polícia, mantinha um comportamento agressivo e alienado, ficando o tempo todo murmurando palavras sem sentido algum. Sua prisão em flagrante por tentativa de assassinato fora revertida em internação em uma clínica psiquiátrica de segurança máxima.
De alguma forma, ele conseguira escapar. Mesmo vestindo trajes de um interno, descalço, sem dinheiro algum e sem nenhum documento, conseguira retornar até sua antiga casa. A governanta fora encontrada aos prantos do outro lado da rua, amparada por vizinhos que também chamaram a polícia e os bombeiros. Segundo ela, ao ouvir barulhos estranhos no porão, desceu rapidamente para ver o que estava havendo, temendo ser um invasor. Encontrou a porta do porão trancada por dentro e logo sentiu cheiro de fumaça e o calor do fogo por debaixo da porta. Os bombeiros agiram rápido e conseguiram controlar as chamas e salvar a casa. Wilson, com quase 70% do corpo queimado, fora preso mais uma vez. Ficou mais de seis meses se recuperando das queimaduras e, logo após se restabelecer, foi enviado até nós. Desde então, tentamos mantê-lo longe de espelhos ou qualquer objeto ou superfície que possa refletir sua imagem.
Acredito que seja de total conhecimento de vocês, jovens e devotados calouros em psiquiatria, que todo e qualquer indivíduo, com qualquer tipo de distúrbio, por menor que seja, uma vez internado numa instituição como essa, muito dificilmente conseguirá sair para o convívio social novamente. Principalmente em se tratando de casos específicos, como esse, em que o paciente transita em paralelo entre universos de fantasia e realidade. Como podem saber, sou um profissional com mais de quarenta anos de carreira e já vi muitas coisas estranhas em todos esses anos de psiquiatria. Tenho acompanhado o caso do paciente Wilson desde que ele chegou aqui nesta clínica. Em todos esses anos, nunca havia me deparado com um caso tão peculiar como esse, onde o paciente jamais desiste de contar a mesma história. De alguma forma, ele realmente acredita em tudo o que diz, como se toda essa insanidade fosse realmente verdade, e não apenas um mero fruto de sua fértil imaginação...
Um dos jovens calouros, que atentamente ouvia todo aquele relato e que tentava anotar tudo o que o experiente médico dizia, ousou perguntar:
— Doutor Eugênio, em algum momento, o senhor, com toda a sua experiência, cogitou a possibilidade de que ele talvez estivesse falando a verdade? Sobre o espelho amaldiçoado em seu porão? O senhor não nos disse muitas coisas sobre esse espelho.
Aquele sábio e experimentado psiquiatra deu um longo suspiro e, olhando para aquele jovem e inexperiente médico com certa indulgência, disse num tom paternal:
— Cuidado, meu jovem rapaz... Aqui, entre essas paredes, tem um lugar reservado a todos aqueles que contam histórias fantásticas e também para quem acredita nelas...
— O tal espelho realmente existe, mas é somente uma peça antiga, talvez do século XVIII ou XIX. Depois que nosso paciente foi definitivamente considerado incapaz de retornar à sociedade, sua casa, com todos os pertences que restaram após o incêndio, foi leiloada pelo Estado. Eu mesmo arrematei o tal espelho por mera curiosidade, devido a todas as histórias que o acompanham. Era uma das peças da coleção particular do avô de nosso paciente. Senhor Wilson Bernardes era um aficionado por coisas antigas e colecionava todo tipo de quinquilharia. Era um verdadeiro saudosista dos tempos idos, que, em sua estranha coleção de velharias, sempre optava por objetos que tivessem algum tipo de relato macabro em sua história...
Saindo daquela sala especial onde os internos eram examinados a cada seis meses, Doutor Eugênio convidou os outros dois médicos a acompanhá-lo até seu consultório, onde o espelho se encontrava. Naquela mesma tarde, Doutor Eugênio de Abreu fora brutalmente assassinado dentro de seu próprio consultório; um dos médicos que o acompanhava está em coma profundo após ter o seu crânio fraturado e os olhos perfurados com um bisturi. O outro médico encontra-se foragido...
Revisado por Sahra Melihssa
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Todos os lamentos serão ouvidos
Hoje faz cinco meses desde a grande mudança. Da imagem veio a idealização, a concepção e a efetivação. Ouvi o chamado retumbante…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Hoje faz cinco meses desde a grande mudança.
Da imagem veio a idealização, a concepção e a efetivação. Ouvi o chamado retumbante permeado por vozes angelicais que exigiam uma sacra ação. Não ousei olvidar, quem ousaria? A petição era simples, mas requeria dedicação e comprometimento ímpares.
Foram anos de estudos para lapidar um dom concedido por Deus. As aulas de anatomia eram as mais instigantes, estudar cada milímetro de corpos inertes e impuros — impuros pois estavam destituídos do privilégio de adorar e dar graças a Ele. Eu ainda não sabia, mas tudo transcorria a fim de se fazer cumprir a vontade daquEle a quem devo a minha vida.
Todo conhecimento tinha uma finalidade, agora eu o sei. Visualizar o que cada um traz dentro de si é algo divino e assim eu compreendi que fora destinada para aquela missão. Nenhum outro poderia compreender.
Eu era enfermeira. Ainda sou, pois mesmo impedida de exercer minha função, isto me é inato. Há coisas que os olhos mundanos não enxergam — só os escolhidos veem. Só aqueles que foram tocados.
E eu fui.
No início, pensei que fosse exaustão. Vinte e quatro horas de plantão, pacientes morrendo sem dignidade, máquinas apitando, familiares desesperados, médicos indiferentes. Mas naquela noite… naquela noite fatídica, enquanto segurava a mão fria da Dona Lurdes — pele frágil, os olhos quase em paz — ouvi a suave brisa.
Não com os ouvidos. Não como qualquer outro ouviria. Ouvi com a alma. Uma voz que se insinuava: Ela está pronta. Ajude-a a atravessar.
E eu ajudei.
Foi com delicadeza. Uma prece cochichada. Um leve ajuste no equipamento de morfina. Uma transição suave. Celestial. Ela sorriu, juro, no segundo que antecede a partida, sorriu como quem vê a luz no fim do túnel e reconhece o rosto de um anjo. Ali compreendi: eu não era apenas uma enfermeira. Era uma escolhida.
Nos dias seguintes, vieram outros sinais dos pacientes: as auras em suas cabeças e as palavras murmuradas. Estavam inconscientes, logo, só podia ser obra do criador. Ah, também tinha o brilho nos olhos dos que já estavam com um pé na eternidade. Deus me escolheu para conduzir essas almas.
E eu o fiz.
Mas não é fácil. Precisa sensibilidade. Discernimento. Disciplina. Nem todos estão prontos, e nem todos merecem. Eu o ouço. Ainda o sinto. O julgamento não era meu — era apenas um instrumento.
Os outros não entenderam. Disseram que sou diferente. Que ficava muito tempo sozinha na UTI. Que enlouqueci. Que os pacientes precisavam de cuidados paliativos e que eu os matei. Não foi isso! Eles não sabem o que eu sei! Não veem o que eu vejo!
Não é morte. É libertação. Eutanásia celestial, como aprendi a chamar ou foi Ele quem me disse.
Um gesto de amor.
O último foi o Sr. Armando. Setenta e nove anos, falência múltipla dos órgãos, ninguém o visitava mais. Ele segurou minha mão com tanta força e então murmurei: Está na hora.
Lágrimas escorreram do canto dos seus olhos fechados. Paz. Ele partiu em paz.
Ainda hoje sinto a presença dele aqui, me agradecendo.
Escrevo tudo neste diário, pois sei que um dia alguém irá encontrá-lo e poderá entender a minha missão. Talvez outra enfermeira. Talvez outro escolhido. Talvez continue com a sacra ação. Será que outros seres iluminados iguais a mim virão parar nesta caixa de concreto cercada de grades e guardas mal-humorados?
E você, que está lendo isso agora, saiba: não é loucura. É missão. Um chamado. E quando ouvir a voz — aquela voz suave, inconfundível — apenas escute.
E aja com fé.
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Quando os deuses se cansam
No alto de um dos galhos eternos da Yggdrasil, a grande árvore que sustenta os nove reinos, duas figuras antigas contemplavam o vazio. Acima delas…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
(Adaptação do conto “A Carona”)
No alto de um dos galhos eternos da Yggdrasil, a grande árvore que sustenta os nove reinos, duas figuras antigas contemplavam o vazio. Acima delas, Asgard reluzia em sua glória estagnada; abaixo, Midgard pulsava com o caos dos mortais. Entre um mundo e outro, o tempo parecia hesitar, preso a num suspiro prolongado dos deuses.
Elas já haviam cruzado cada trilha dos nove domínios — de Niflheim, gélido e sombrio, até o abrasador Muspelheim. Conheciam os segredos de Alfheim e os lamentos de Helheim. Cada canto da existência havia sido explorado, sentido, moldado... e, com o passar das eras, perdera seu sabor.
Nada mais surpreendia: nem a fúria dos guerreiros em Vanaheim, nem a sabedoria dos anões em Svartalfheim. Tudo era apenas repetição. Mesmo os ecos do passado, que antes traziam nostalgia ou orgulho, agora não passavam de ruídos distantes.
Em silêncio, uma delas ergueu os olhos para os céus de Asgard, como quem procura um presságio. A outra voltou-se para Midgard, onde o coração humano ainda batia com força e imprevisibilidade. Havia algo ali — algo incerto, caótico, tolo, talvez... mas vivo.
E, naquele instante, sem dizer palavra alguma, ambas compreenderam: era tempo de descer.
**
Matias dirigia tranquilamente pela estrada deserta, após seu primeiro encontro com Paula. Havia alcançado uma sintonia bem interessante com a moça, o que lhe deu bons pressentimentos sobre um possível relacionamento. Ouvia Black Sabbath em volume baixo para seus padrões, pois não pretendia suprimir os pensamentos a respeito do date maravilhoso de algumas horas antes.
Após passar por um trecho com uma curva sinuosa, foi obrigado a frear bruscamente. O carro ancorou no chão como se houvesse batido em uma parede invisível, deixando seu corpo dolorido. À sua frente, estava uma jovem loira, que aparentava ter uns 20 anos. Vestia um jeans imundo, uma camiseta amarela rasgada e pincelada com manchas de várias cores e tons — sendo a maioria nuances de vermelho.
Olharam-se por alguns segundos e, enquanto ele tentava entender a situação, ela correu até seu carro, abriu a porta do passageiro, entrou e gritou desesperadamente:
— Vai logo, ela está vindo!!!
Matias, ainda atormentado pelo susto, olhava para o nada, e mais uma vez a jovem gritou, enquanto puxava a cabeça dele pelo queixo em sua direção, a fim de se fazer entender:
— Você é idiota, cara? Vai logo, vamos sair daqui agora!!!
Matias despertou do transe em que se encontrava e, ainda sem compreender muito bem a situação, arrancou com seu carro potente, deixando para trás uma mistura de mistério, poeira e fumaça. Após alguns minutos na estrada, e percebendo que não havia ninguém os seguindo, foi recobrando a consciência e perguntou incisivamente:
— Que porra foi essa? Quase não consegui parar o carro, garota. Você poderia me dizer o que caralhos tá acontecendo?
— Eu estava fazendo uma trilha, me perdi na mata e encontrei uma pessoa estranha vestida de preto. Foi isso! — disse, despretensiosamente.
— Tava sozinha?! — perguntou indignado.
— Sim.
— Você é maluca? Fazer trilha num lugar desses... e sozinha!
— Eu sempre fiz isso e nunca aconteceu nada.
— Nunca acontece nada, até que um dia acontece, né?
— Pode ser... — Respondeu, dando de ombro.
Matias não conseguia esconder seu mau humor, todos os seus pensamentos sobre uma noite agradável haviam sido sugados por um problema que não era dele, mas ele não podia deixar a moça sozinha na estrada. Decidiu encontrar um lugar seguro para deixá-la e depois iria embora antes que “sobrasse para ele”.
— Você tem um cigarro? — perguntou a jovem.
— Não, eu não fumo.
— Como assim? Com essa cara e não fuma?
— Quê? “Com essa cara” — repetiu indignado — o que você quer dizer com isso?!
— Bem, olha o que você escuta, olha para suas roupas e tatuagens... pensei que fosse um drogado. — Ela respondeu com uma risada sarcástica.
— Cara, você só pode ter problemas. Eu estou te ajudando e você vem zombar da minha cara? Sua sorte é que minha mãe sempre me ensinou a respeitar e cuidar das mulheres, senão eu ia te jogar pra fora do carro!
— Ei, calma garotão, eu tava brincando — disse levantando as mãos em sinal de rendição, tentando apaziguar a situação desagradável que havia gerado — Aff, você está muito estressadinho!
— Nossa, como você é engraçada...
— Tudo bem, isso foi péssimo mesmo. Vou tentar me redimir com você. Eu também curto esse tipo de música e tenho tatuagens, mas, ao contrário de você, eu curto uns “negócios a mais” ... Se é que você me entende. Aliás, posso usar aqui?
— Eu não disse que não curtia uns baratos, eu só disse que não fumava. Mas usa, ué... O que é que você tem aí?
— Ahhhh, é algo muito diferente de tudo o que você já viu. Eu mesma criei. — Respondeu com um sorriso soberbo e uma piscadela cúmplice.
— Tá, mas o que tem aí?
— Aí você teria que experimentar...
— Tá de sacanagem? Como eu vou usar um negócio que eu nem sei o que é?
— Só vai saber se usar...
Matias permaneceu irritado. A moça era enigmática demais, e ele não gostava desse tipo de interação, pois preferia tudo “preto no branco”, como costumava dizer. Resolveu ficar calado enquanto ela consumia a substância que, diferente das outras que ele estava acostumado a ver, era aplicada na pele como um creme hidratante.
Ela foi entrando, gradativamente, em um estado letárgico, o que deixava Matias ainda mais curioso — mas não a ponto de decidir usar, porque queria chegar logo em casa. “Esta noite infernal tem que terminar!”
Horas e horas de viagem e a estrada parecia não ter fim. Pensou estar perdido, mas não conseguia consultar o GPS, pois o celular havia descarregado. A moça permanecia quase inerte, despertando de vez em quando para reaplicar o “creme”.
O sono começou a bater forte. Matias aumentou o volume e tentou cantar para espantá-lo, mas estava ficando cada vez mais difícil manter-se acordado, precisava de um estimulante o quanto antes, mas naquela maldita estrada, não aparecia um posto de gasolina ou qualquer outro estabelecimento aberto àquela hora.
Depois de um tempo imensurável a estrada foi ficando iluminada por luzes fluorescentes piscantes e Matias imaginou que seu cérebro estava lhe pregando uma peça, então parou o carro no acostamento e começou a chorar desesperadamente.
— Que caralho tá acontecendo? — gritava ele, enquanto esmurrava o volante.
— Essa sensação é boa, né? — a jovem o olhava sensualmente, com um olhar simultaneamente penetrante e gélido.
— Quê? Cara, eu tô cansado e com sono, o que me deixa ainda mais sem paciência. Como isso pode ser bom?
— Você não está com sono... Você só está morrendo, bobinho. Rs.
— Morrendo??? Para mim, já deu! Saia agora do meu carro!!!
— CALA A BOCA!!! Já cansei de você! Você só reclama e reclama, não sabe aproveitar o presente que lhe foi dado... vamos acabar logo com isso então!
Ela abriu a bolsa, retirou outro pote, abriu a tampa e enfiou os dedos, retirando uma quantidade considerável de outro creme, de aspecto avermelhado, e passou no rosto de Matias. Ele começou a gritar desesperadamente. Luzes fluorescentes piscaram por um tempo impreciso, e então, se apagaram. Escuridão. Após suas pupilas se reajustarem à luz natural do luar percebeu que estava preso nas ferragens do carro. Paula jazia ao seu lado, a cabeça caída de uma forma humanamente impossível, mas ainda “ligada” ao corpo por uma fina camada de pele.
Em seus últimos respiros, Matias entendeu que havia batido contra uma árvore e que aquele era seu fim.
Ao lado da janela dele, estavam a jovem de camiseta amarela e uma outra vestida de preto, com metade da face cadavérica, ambas acenaram e riram descompassadamente enquanto falavam:
— Eu falei para você experimentar a outra substância, pelo menos teria morrido em paz... — disse a jovem de amarelo, dirigindo-se a Matias.
— Mas eles sempre insistem em ficar sóbrios até o fim haha. — disse a de preto enquanto virava-se para a outra — Freya, você insiste em inovar, mas acho que prefiro fazer como antigamente.
— Ah, Hela, mas era tudo tão rápido, sem diversão nenhuma... Olha a carinha de desespero dele. E olha como você está estilosa, mesmo insistindo no preto, mais sorridente e sem aquela roupa sem graça. Você precisava disso!
— Que seja! Eu estava entediada mesmo... Só acho asqueroso você ficar se esfregando com essa massa mórbida nojenta feita dos restos deles. Vamos embora, ainda há muito o que fazer por aqui.
E os ruídos finais de Matias foram embalados pelas risadas de escárnio das deusas. Estavam apenas começando a experimentar as novas sensações que as mortes e os corpos humanos poderiam lhes proporcionar... E ainda havia uma longa estrada à frente...
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
A Carta de Íris Cohen
Escrevo esta carta porque devo explicações aos meus familiares e queridos amigos, já que sumi há anos e, decerto, sou dada como morta…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Escrevo esta carta porque devo explicações aos meus familiares e queridos amigos, já que sumi há anos e, decerto, sou dada como morta por todos aqueles quais amei um dia. Sei que o mundo não é mais como outrora e sei acerca de uma das razões por detrás do horror que acomete o momento; creio que aquilo que vivenciei, e que hei de descrever ― até quando me for possível ―, poderá acrescentar majestosas ― e medonhas ― compreensões a respeito de tudo, inclusive possíveis hipóteses de resolução.
Até hoje não sei o que de fato aconteceu, não a coisa em si, mas o verossímil sentido que a cinge, contudo o que sei ― e tenho uma certeza inegável ― é que desde então sou perturbada, terrivelmente, por meio da paralisia do sono que faz as imagens daqueles instantes confusos e sinistros retornarem ao meu presente infortúnio e, como se ocorressem no exato agora, eu vejo aquele homem obscuro outra vez, observando-me, parado na janela, olhando-me como o seu retrato antigo.
Peço desculpas se meu vocabulário se apresentar exageradamente extenso, é que a ninguém revelei este segredo e o guardo como um íntimo calvário; sinto-me, de fato, aplacada em poder segredar tudo o que sofri e não quero poupar meu léxico para tal, porque sei que isso há de aliviar um pouco esta intimidatória lembrança, de algum jeito, apesar de eu já estar velha e perto da morte.
Tudo aconteceu no ano de dois mil e setenta e três, quando eu já me afastava do convívio social pelo cansaço da existência miserável, pela lassidão solitária que fora, por tantos anos, minha única verdade. Vocês não sabiam e não souberam que me imergi em uma vil consternação e percebi estar curvada à depressão que, tão familiar, se achegava; por esse motivo tomei a decisão de ir embora daquele extenuante e monótono lugar onde passei todos os meus trinta anos de vida e onde a vida era vivida em conjunturas esmigalhadas, ano por ano e, sim, tão assaz frequente era a minha penúria, o meu desalento.
Dei nome às minhas melancolias e, sequer percebi, que se enraizaram como figueiras. Contudo, a desolação que me acometera nem de perto assemelha-se ao que supus estar prestes a vivenciar com o baixo humor contínuo, a fadiga e o isolamento; o horror que me acometera estava há um adeus de distância, o adeus de meu lar amarescente que era ― e eu não sabia ― suficientemente seguro.
Contextualizo-vos que era demasiado raro eu ter um momento de prazer, o vazio sufocava meu cerne e eu estava sempre naqueles cárceres cotidianos ― os quais soavam deveras como um hospício ― e no aproximar das confraternizações de dezembro eu me sentia, em grau superior, a um poço de aversão imutável, porque o perfume de hipocrisia irritava-me mais do que as luzes piscando em cada janela de cada maldita residência. Mas eu não odiava vocês, acreditem, o ódio pertencia apenas a mim, por mim e para mim, refletindo no mundo como um espelho. Esta é, enfim, a razão pela qual realizei a fuga para um espaço na terra desprovido, o quanto fosse possível, de pessoas. Eu sentia que para que o ato de meditar alcançasse o seu cume necessário, era crucial o afastamento, eu precisava refletir em como tomar certas atitudes quais, quiçá, poderiam me dar uma última esperança de vida ― e para tal, a mudança era inevitável.
Em poucas horas, depois de uma lancinante crise existencial, no crepúsculo mundano do dia vinte e três de dezembro, tomei as comuns doses de pessimismo após notar o quão errôneo era imaginar que meus planos seriam dignos de um plausível desfecho de realização plena, tudo isso porque eu estava prestes a ir embora da minha cidade até ser notificada de que o único trem daquela segunda-feira, único e último da semana para lugares distantes da capital, estava indisponível, sequer uma única vaga, por incrível que pareça.
Fiz o possível para que me permitissem entrar, implorei por um lugar, mínimo que fosse, ainda que no apertado núcleo ruidoso dos vagões menos tersos, pois eu não poderia apenas voltar para casa e esvair na agonia daqueles quartos, era meu último saldo de fé. Contudo não havia condescendência. Vi com meus olhos lacrimejantes a partida desesperadora do último trem e fiquei apenas inerte, observando seu vazio deixado na encantadora linha de cobre, desocupada em seus trilhos envelhecidos. Porém, perto de abandonar a estação, visualizei um novo comboio a se aproximar; de imediato açodei até a bilheteria e indaguei o destino do, aparentemente, verdadeiro último trem, mas não souberam me informar, a verdade é que, para eles, tratava-se de algum tipo de trem particular ― isso existe? Eu duvidei, mas observei que em poucos minutos algumas pessoas adentravam-no, entregando, ao que me parecia ser o condutor, bilhetes em um dourado-escuro deveras brilhante. Não hesitei em perscrutar.
O homem era velho, seus olhos fundos estavam distantes, no entanto a sua cordialidade ainda vívida apaziguou-me a ansiedade. Com serena voz dissera-me que o Aecqer ― este era o nome da comitiva ― partiria para Nehen, uma cidade muitíssimo afastada, além das cordilheiras de Ahvalanch. Segundo o ancião, tratava-se de uma cidade pouco conhecida, visitada particularmente por sujeitos de alto poder econômico que, com o objetivo de afastarem-se dos dias festivos, iam para Nehen usufruir dos seus belíssimos e caros chalés. Interessei-me, é evidente, mas desde a passagem até a hospedagem era preciso alguns rins de pagamento. Por sorte, ou não, o bom homem quis fazer a caridade natalina de me permitir ingressar sem bilhete ― já que eu estava em prantos incorpóreos, com a fronte franzina, cabisbaixa, demasiado abatida e profundamente símil a um ser moribundo. Além disso, o homem revelara-me que um velho chalé, o mais afastado do mais apartado centro de Nehen, pertencia à sua tia e ele poderia, pois, alugá-lo para mim com condições de pagamento menos sufocantes.
Apesar da suave alegria que dera, pois, o ar de sua graça nos segundos discorridos após o ato de compaixão, não senti o júbilo qual expectei e, talvez por isso, sequer contestei a revelação posterior do homem ― Jonathan D’orvalho ―, mas fremi em certo grau com ela ― o que agora entendo como um tipo de aviso intuitivo. Jonathan entornava recomendações acerca da hospedagem qual eu seria obrigada a permanecer por uma semana ou mais ― eis a revelação ―, uma vez que, afirmara, não há possibilidade de retorno de Nehen até que a nevasca cesse ― qual nevasca? Eu indagaria, mas o senhor D’orvalho antecipara sua resposta e explicou que há um dia havia iniciado uma grande nevasca em Nehen e, esta, em breve chegaria às cidades centrais de Ahvalanch.
— Aproveite, minha jovem, que há uma lindíssima biblioteca na vivenda de madeira e tire algumas horas para ler sobre Nehen. ― dissera-me no cortar de seu raciocínio; a tal nevasca estava demasiado intensa e a previsão não estava tão boa para os próximos dias, ela decerto acometeria todo o estado, impossibilitando que os trens galgassem principalmente no cruzamento do leste, a ponte estaiada, e outras linhas próximas das cordilheiras, uma vez que o congelamento da superfície poderia desnivelar os trilhos e comprometer o comboio ― o qual Jonathan não hesitou em enunciar, a cada segundo, sua tradicionalidade, fazendo questão de desvelar o regozijo que sentia por ser maquinista dos trens de Ahvalanch há mais de cinquenta anos.
Resolvemo-nos e pude acessar o interior de Aecqer. Era mesmo um trem mais luxuoso, verdadeira classe alta, com passageiros que, mesmo sozinhos, reservavam cabines grandes para o conforto egoísta que não hei de objetar, eu também preferiria a solidão. Por infortúnio maldito, minha insistência corroborou ao objetivo primevo, isto é, eu estava de partida. O corredor do comboio era belíssimo, embora eu tenha pouco vislumbrado a sua extensão, pois eu estava apressava em encontrar a minha cabine. Eu precisava de um descanso agradável e taciturno.
Ao adentrar a pequeníssima sala, avistei um homem sentado no sofá esquerdo, em silêncio; eu não esperava por isso e retrocedi alguns instantes na memória para lembrar das cruciais recomendações de Jonathan, em algum momento ele decerto dissera acerca do compartilhamento da cabine, acredito; eu e minha maldita incapacidade de prestar atenção, não por menos, pois eu estava profundamente sorumbática, como já vos disse, nada era mais digno de concentração do que minha própria soledade. Sorri tímida, seus olhos estupidamente claros fixaram-se em mim como duas joias raras cujo núcleo era dominado por um exíguo abismo nocivo.
— Íris? ― Indagara-me. Sim, alguma coisa eu perdi no meio do caminho entre a conversa com Jonathan e o encontro com aquele ser estupidamente belo ― não estou, pois, lhes revelando quaisquer sentimentos senão aqueles que permeiam a pura e simples estupefação, aquele homem era belo, belíssimo, demasiado bem-posto, amedrontadoramente venusto, eis a primeira ponta de verossímil desconfiança que fiquei. Nenhum ser humano, mesmo com toda a tecnologia possível, seria capaz de ter aquele aspecto tão esplêndido.
Meu sorriso emergido continha profundo incômodo e ao homem eu me apresentei, sim, apresentei-me e questionei-me o fato dele já saber o meu nome ― “não tire satisfações”, eu pensei, “isso não importa”, eu pensei. Eu preferia mesmo é que permanecêssemos em silêncio e, na medida do possível, distantes. Sentei-me à sua frente e nada mais lhe dirigi, desviei o olhar, pois, como um quadro, eu poderia olhá-lo pela eternidade ― e não é, pois, que estou a olhá-lo desde então? É o meu anátema, oh sim, a minha maldição.
Desconfiada e desolada, senti os segundos vastos como eternidades de meu completo desconforto, enquanto insistia em me convencer de que Jonathan havia sim falado sobre aquele homem, embora não houvesse nenhum resquício de lembrança, nem a ínfima reminiscência, a favor desta possível verdade; senti-me indisposta rapidamente, pela veemência que a timidez atravessava minhas entranhas, além do lapso mental e todas as minhas opressões internas.
A cabine era um cômodo pequeno com dois sofás, um de frente para o outro; a grande janela ao lado mostrava a paisagem noturna que surgia no horizonte abismal. Já do outro lado, à direita, havia apenas a porta de vidro escuro e ornamental, bem intacta, venerando o que acontecia no sepulcro daquele antro. Tentei cessar o pessimismo e o desalento até que fui novamente cingida por aquela voz; falei-vos da voz? Um grave-rouco, perturbador e instigante, de caráter unicamente persuasivo, peculiarmente imponente mesmo possuindo calma e suavidade em seu timbre. Entrevi-o sem desejar olhá-lo, mas fortemente ansiosa para.
— Edgard Venesthron, é um prazer conhecê-la ― ele disse. Sua mão à minha direção, mirei-a em completa ausência de reação até ser capaz de tocá-la. Era absurdamente álgida. Sorri mais uma vez, constrangida e com grande transtorno inexprimível. Voltei-me à minha mala e retirei dela uma revista qualquer para minha leitura desprovida de raciocínio e conhecimento. Diante daquele embaraço acentuado, tudo o que eu almejava era passar o tempo enquanto sentia a apática friagem invernal vagarosamente se estabelecendo ao redor. Assim como eu estava exausta naquela época, bem, eu continuo, embora um pouco mais.
Peço que me desculpem, eu não estou bem, enquanto escrevo sinto-me à deriva em um oceano de exaustão, este é o terceiro dia desde que decidi relatar-vos a experiência que tive com a sutileza vil do horrífico aquém, e agora acabo de acordar, estou sob o crepúsculo demoníaco e minhas instáveis visões estão perturbadoras, além do que estive há anos acostumada. Nesta noite aquele sonho retornara para ludibriar e decair todo o meu esforço de esquecimento, lá estava o homem na janela, como seu quadro, observando-me. Por vezes hesito em continuar a escrita desta carta, porque me pego continuamente descrevendo inúteis detalhes que não deveriam estar aqui, que tipo de relato estou fazendo? Isto não é ficção! Logro mais indulgência, quero ser mais concisa, entretanto, conforme adentro o cerne do horror, ele aparenta estar mais claro dentro de mim e não posso apenas destruir o que já foi redigido com tanta alma e que possui um caráter intensamente relevante, pelo menos para mim. Acabo de pedir para ser colocada esta noite na sala acolchoada, sei que estarei segura lá, fisicamente.
Quarto dia de escrita desta carta e agora eu volto ao dia vinte e três, ao comboio, ao homem na cabine. A minha leitura naquela noite, notei após alguns minutos, residia em assuntos de entretenimento pouco dignos, eis a razão pela qual me dispersei ainda mais, entretanto vi pela visão paralela de minhas retinas que Edgard movimentava-se e observava-me e, antes de ousar fitá-lo em retorno, uma moça batera lentamente à obscura porta cristalina, três vezes; foi Edgard que a atendeu, dissera-lhe para entrar. A moça abriu a porta da cabine e sorriu para o senhor Venesthron, foi um largo, extenso e sombrio sorriso, aquilo me enojou de modo irracional, contudo havia alguma coisa de horrendo naquele feitio, uma face estranha que incomodava tanto quanto a beleza de Edgard que me prendia tão cruel, porém antes do prolongar de minha racionalidade a respeito daquela cena, Edgard interrompeu meus pensamentos indagando-me se eu desejava algo, quem sabe um chá.
Nada, eu nada pedi, minha resposta esvaiu sem voz enquanto Edgard solicitava um tipo de vinho seco para a moça e lhe tratava com demasiada cortesia, algum clima acontecia ali e eu, ébria demais com a melancolia, fracassei em notar quaisquer atmosferas dissemelhantes à minha própria, que era densa e nebulosa. Isabelle se foi, sim, Isabelle ― vocês verão no futuro, caso investiguem, que ela nunca existiu, mas por hora eu vos posso afirmar que sim, tudo aquilo aconteceu, e ela foi em busca do pedido de Edgard enquanto ele ajustava seu casaco um pouco mais.
— Uma jovem agradável por sua bela tristeza ― ele expressou, e eu não consegui compreender o teor do que afirmara. Eu estava sã, creiam, e o caráter demoníaco intrínseco daquela situação que se iniciava em espúria inocência foi exatamente da forma que vos relato. Aproveito para expor que minha doença de memória, por infortúnio, não afetou em nada o que aconteceu naquela noite e a razão pela qual verão em minha ficha a condição de “possível suicida” é, pois, que eu tento destruir, com certa frequência, as memórias, sempre me ferindo no crânio para que cada lembrança se dissipe. Vocês fariam o mesmo, eu sei, se estivessem no meu lugar e passassem pelo que passei. Se estou aqui agora, na casa de repouso psiquiátrica, não é porque sou louca, tudo o que descrevo é real, vocês terão a oportunidade de compreender melhor os motivos que me trouxeram até aqui, mas tudo tem o seu devido tempo para ser dissertado. Eu não quis tornar esta carta em algo demasiado emocional, porém, é difícil, trabalho para que ela tenha uma lógica perfeitamente formulada de cada fato e cada tétrica verdade, assim acreditarão em mim, tenho certeza.
Prossigo, sem descanso, aquieto-me nesta casa, eu e a memória fumegante daquele momento em que olhei para o rosto de Edgard e imergi-me em sua face absurdamente perfeita ― perfeita, como um anjo, quão sinistra em sua agradabilidade, como um demônio. Não tivemos educação religiosa, vocês sabem, mas se tem alguma coisa que sei a respeito dos anjos é que alguns caíram na Terra, pelo menos dentro da mitologia cristã, e eu estou certa de que aquele homem não poderia ser humano, por vezes sei que paro para analisar hipóteses sobre a sua verdadeira origem, jamais chego à nobres conclusões.
— Está falando de mim? ― perguntei com certo fremir em meu baixo timbre. Edgard, o maldito, sorriu para ascender a sua gloriosa forma.
— Não, não, estou falando de Isabelle, mas, bem, você também beira as margens da consternação, então, posso afirmar o mesmo de você. ― Sua narrativa embrulhava meu estômago e eu tão rápido passei a sentir uma nascente gélida de suor em minha espinha dorsal. Voltei-me aos meus pertences, sem responder a Venesthron, em busca de uma garrafa de água esquecida para aliviar o que estava engasgado em minha garganta. O homem ainda me olhava, a sua desumana visão era tangível e tocava minha tez como se fosse as suas mãos galgazes.
O alívio, oh sim, o alívio da sede foi transmutado na agonia mais execrável; vocês pouco imaginariam, mesmo que suas mentes estivessem banhadas do azeite fétido do averno, ainda assim vocês não seriam suficientemente bárbaros de imaginar que aquela garrafa, naquela pequena abertura, na parte frontal da bolsa, estaria ― eu juro por tudo o que há de mais sacrossanto ― abundante no mais rubro e denso sangue, cheirando à ferro; era assim que estava, escoando como se crivada intencionalmente ― quem dera, quem dera fosse uma divagação.
Assustei-me com um furor tão descomunal que mais célere do que era possível prever, como um reflexo, um feixe de luz frenética, arremessei aquela coisa na janela e a vi espatifar... todo o sangue verteu e terrificou ao jorrar-se em nossos corpos. Fiquei atônita e imóvel; o sangue borbulhava e, como exprimir o inenarrável? Aquilo era... tão impossível..., mas ao mesmo tempo era nítido de modo intimamente infernal.
Uma eternidade de mudez pela paralisia perdurou até ouvirmos Isabelle novamente à porta, olhei-a na escuridão fugaz de minha visão estendida, provavelmente, pelo pavor. Isabelle adentrou a cabine, entregou ao homem o vinho seco e partiu. Desta vez sua feição era mais horrenda, como se ela estivesse sorumbática e fizesse, eu pressenti, o possível para não se virar para mim, portanto, não pude vê-la completamente, ela se foi mais apressada do que antes e aí está mais um sinal de que sua realidade não era a mesma que a minha e que a sua constituição não era a constituição humana. Ela simplesmente não notou o sangue e sequer questionara o estrondoso som, como pôde? Eu estava tão perturbada, posso sentir na minha língua agora enquanto discorro estas letras de infortúnio; mais do que isso, eu estava intrinsecamente inibida pelo horror, pela face do mais grotesco horror.
Mas... o sangue... Sangue? Não havia sangue, não havia água, não havia garrafa. Edgard bebia o seu vinho e olhava atentamente para mim com seu ar galanteador enquanto eu não encontrava nenhum vestígio da cena terrífica. Em um átimo... tudo se foi... nada do mórbido ebulir férreo sobre o rubro oxidante que tão há pouco fora apreendido, nada daquilo estava acessível na realidade. Eu... eu me desolei... minha alma pesou na difícil e funérea sensação de insanidade; tudo o que me faltava, pensei, era me tornar uma louca e, no íntimo mais soturno, depressiva; senti que em meus olhos as lamúrias brotariam como erva daninha e que, na relva aparada da angústia, as águas salgadas verteriam para alimentá-las e fazê-las proliferarem-se até cobrirem todo o meu corpo e me estrangular, mas eu as interrompi quando Edgard questionou-me:
— Está tudo bem? Parece assustada. Foi o que eu lhe contei? Se for, por favor, não tema, isso é tão somente uma coincidência ― alegou Edgard. Eu estava sim aterrada em pânico, no entanto fui capaz de questioná-lo ― de modo um tanto incivil, admito, o que o deixou sutilmente austero, seus ares triunfantes diminuíram, todavia eu simplesmente não sabia do que ele estava falando e a seiva do inferno respirava no meu intestino. A resposta de Edgard foi sensata e em absurda genialidade, não pelas palavras em si, mas porque o que ele dizia era irrefutável e por isso me acometeu ainda mais a sensação ordinária de ambiguidade meândrica.
“Você indagou sobre o que faço e eu lhe disse que sou escritor e lhe apresentei, em suma, um dos meus livros sobre uma mulher curiosamente chamada Íris” ― explicou. Eu não sei o que houve entre a busca por uma garrafa de água até o sutil instante não vivido de um diálogo tão perfeitamente formulado. A seiva gotejando da janela ao chão frígido ainda reluzia e cintilava como um astro no meu pensar. “Você também disse ser ilustradora” ― acrescentou. Levei minhas mãos à minha testa e tentei compreender o que acontecia, eu só podia não estar atenta aos horrores daquele momento por causa da maldita melancolia ― é isso, meus caros, a tristeza profunda, o vazio.
Que sirva de lição a todos que lerem este relato, a condição depressiva é o pior de todos os males, é como se o corpo rejeitasse quaisquer informações de caráter perigoso ou duvidoso e, portanto, não se qualificasse na tarefa de ativar seus instintos de proteção e sobrevivência; estar vulnerável ao mundo, sem filtro, sem cuidado, e com disposição contrária, é um erro, o pior de todos os erros inconscientes. Olhei para a janela de novo e pensei no cenário estendido em exagerado breu, nada além da obscura paisagem enquanto o pouco silêncio, que se propagava na cabine e acolhia-me em toda a aflição gélida, foi mais uma vez obstruído pelo meu sentir nauseante, suspirei a dor, quis me controlar, mas as grandes aguilhoadas em minha cabeça, como golpes bestiais, acometeram-me de modo inenarrável, era um tipo de enxaqueca nímia que me fez levantar e sair da cabine em busca de um banheiro que me permitisse a solidão. Levei comigo alguns de meus remédios, cujas receitas estão anexadas a esta carta para garantir-lhes que nenhum deles possuíam efeitos colaterais alucinógenos, sim elas estiveram comigo até hoje porque precisei delas muito mais, uma vez que as dores se estenderam continuamente dia após dia desde então. Não observei bem a reação de Edgard, mas, dentre as confusas e inconstantes visões causadas pelo sucessivo fechar de olhos como reflexo dos árduos espasmos, ele parecia incólume frente à minha reação febril e súbita.
Foi então que me vi no corredor, aquele corretor que outrora era magnífico e que naquele momento tornara-se análogo a uma dimensão de severo esconjuro insuportável, em certo nível de turvação eu observei as cabines pelas singelas frestas dos vidros das portas ornamentais e me vi mais do que espavorida diante daqueles corpos; as pessoas estavam apáticas, estáticas, secas e todas com um semblante de horrenda agonia; muito semelhante à Isabelle, embora cada indivíduo expressasse um suplício tão próprio. Aquele calvário insólito arrefecera-me, o abalo cerebral ainda pulsava quando me vi apressada em busca de um refúgio do cenário aziago que me vinha de encontro. E a cada passo, um agouro; e o som do trem em contínuo oscilar. Indago outra vez, seriam vocês capazes de conceber a ideia de um espaço subvertido, outrora tão admirável e então, em um átimo, um mofino átimo, integralmente enfermiço? Os rostos, os risos, as consternações mórbidas. Não era magia, não, sequer um tipo de trabalho pagão cuja oferenda era, pois, eu mesma; não, não se tratava disso, eu podia sentir por cada um dos meus cinco sentidos; era algo bem pior do que tudo o que já havia sido visto até então.
Encontrei um lavabo e fechei-me em seu antro estreito, de imediato coloquei dois comprimidos em minha boca e com a água da torneira tomei-os, mas, em desespero não a vi de imediato, só a vi quando fitei aquele espelho de moldura ornamental à minha frente, a água que eu bebia era imunda e negrume, embora de gosto neutro; ela tinha um aspecto esverdeado e nojento, sim, era como ter um pântano na língua, ó mais um pavor! Assustei-me tanto que abandonei o cubículo com mais pressa do que antes, para tentar despertar a mim mesma daquele pesadelo deletério. Quem dera fosse só um pesadelo de uma noite conturbada, quem me dera. Foi mais um daquele piscar tão singelo, a visão toldada, e eu estava de volta à cabine, não sei exatamente de que modo consegui passar pelo cemitério dos vivos, dos semblantes infelizes prostrados em perturbação e afetados na paralisia imortal de seus introspectivos desgostos, não sei como, todavia, consegui e eu estava na cabine, meu cérebro ainda pungente na agonia, e eu olhava para Edgard enquanto ele admirava um papel à sua frente, fascinado, com sua fronte em límpida formosura, tão diferente dos demais rostos enlutados na desgraça. Quis revelá-lo o meu horror por um segundo, mas esmaeci nas ondas de seu proferir.
“Está perfeito! Você é uma exímia artista!” ― Sem compreender e completamente espantada, recebi de Edgard um papel e eu o vi. Ali estava uma ilustração em grafite com o rosto de Edgard numa janela de um tipo de quarto numa casa rústica. Era uma ilustração perfeita, bem próxima as que eu fazia quando jovem ― hábito que perdi com escassez mundial de papel. “Sinto-me honrado por esse presente, mas, por favor, assine!” ― pediu. Onde estava todo o sangue e todo o horror da água negra? E os rostos e as intensas dores? Quis dizer-lhe que eu não havia desenhado aquilo, mas, a melancolia, o medo... entreguei-lhe o papel sem assinar, eu apenas queria fugir, mais uma vez fugir, fugir era a minha lei, o meu único possível, e eu pensei que estava salva quando o trem parou, havia se passado duas horas e a viagem chegou ao seu fim, não posso afirmar saber como todo aquele tempo passou, soava-me no máximo meia hora, eu não sabia se estivera mesmo em um sonho ou se tinha sido envenenada ou se algo entre o espaço-tempo trouxera a lacuna mais perturbadora de minha existência, eu não sabia e naquele momento como eu poderia saber?
“Eu... preciso ir” ― eu disse com dificuldade, Edgard apenas sorriu para mim, de novo, acenou com seu chapéu e viu-me deixar a cabine levando comigo todo aquele martírio. Eu não olhei ao redor, esbarrei naqueles corpos que se retiravam do comboio, mas eu não os fitei; fui o mais rápido que pude para fora daquele poço, mas ali eu já estava completamente submetida ao horror aspecto de Edgard Venesthron, sua imagem não esvaía, sua voz não se esquecia e se eu não estivesse tão assustada, voltaria para questioná-lo e para, estranhamente, só estar com ele. É isso que ele faz.
Cheguei até Jonathan, vocês podem imaginar o quanto fui rápida, eu queria descansar do caos que se repetia em minha psique ou, ao menos, entender um pouco de seu fundamento, algo me alertava que aquele homem quase inabitado por palavras não deveria ser real e esperei em Jonathan encontrar as respostas quais eu almejava. Lá estava ele, se preparando para deixar o ofício amado, embora provavelmente descansaria em alguns minutos e retornaria para a capital. Tão logo ao me encontrar, Jonathan questionara, solícito, sobre minha viagem e eu ainda mais inocente afirmei-lhe que o homem com o qual dividi a cabine era um tanto excêntrico. O homem qual eu dividi a cabine. Edgard Venesthron. Quem sabe alguma informação pertinente, não é mesmo? Algumas informações sobre a origem de Venesthron, porventura seu contato ou quiçá um reconhecimento singelo que me acalmasse ao afirmar, mesmo com astúcia, meu equilíbrio psíquico, entretanto, tal como eu imaginei, as expectativas caíram por terra. “Ó, não, deve haver algo errado” ― afirmou o senhor D’orvalho. “Eu a direcionei a uma cabine vazia e, pela lista de passageiros, tudo estava perfeitamente correto, era previsto que uma cabine estivesse vaga” ― declarou, eu não insisti... Edgard Venesthron... Edgard Venesthron estava lá, não pode se tratar de um delírio ― pensei ― tampouco de algum outro tipo de deslize mental, seja qual for, as cenas eram vívidas e indiscutíveis ― eu quis me convencer. Não fui capaz de indagá-lo, é verdade, sequer de dizer o nome de Edgard, pois, temi ter minha estabilidade questionada e, consequentemente, não ter mais minha estadia permitida nas vísceras de Nehen. “Minha querida Íris, vamos, venha, eu a levarei para o chalé agora, tenho pouco tempo para voltar à cidade depois disso” ― advertiu Jonathan.
Meia hora até a moradia mais afastada de Nehen. Pelo caminho aprendi que na historicidade daquele pequeno lugar-nenhum, havia, pois, uma estirpe que por séculos governou a restrita população da cidade lá no centro, onde casas populares se ergueram. Na época os chalés eram poucos, mas bem funcionais para o turismo que abençoou mesmo a população mais simples. A família-governo, aparentemente justa, sempre dividia de modo razoável todos os ganhos conseguidos com os aluguéis em temporada de inverno, de modo que todos os moradores mais simples puderam erguer seus próprios chalés e passaram a alugá-los pouco tempo depois. A população continuou morando no centro, com a fonte de renda principal vinda dos chalés e, claro, do comércio local. Embora essa história me soasse profundamente interessante, eu só conseguia pensar em Edgard, em sua face perfeita e o horror entorno de sua existência, entendo o esforço de Jonathan em entreter-me com aquelas explanações, eu quis dar-lhe atenção, mas fui incapaz.
Tão logo ao chegarmos no Chalé da família D’orvalho, percebi que havia muitos quadros antigos, pinturas clássicas de rostos e pessoas desconhecidas; segundo Jonathan aqueles eram da estirpe governante de Nehen e aquele chalé pertencera a eles até que o último herdeiro conhecido o doou, ficando apenas com o castelo das montanhas; o indivíduo faleceu ainda lá e dizem, pois, que sua alma vagante permanece nos cômodos obscuros do alcácer ― esta foi a explicação de Jonathan.
“Quem foi o último herdeiro?” ― perguntei e a sua resposta misteriosa poderia ter me atiçado a curiosidade se não fosse pelo meu estado de espírito tão débil.
“Você saberá quem é, está no belíssimo quadro fixado à parede frontal da suíte” ― explicara.
Fui deixada na casa com os quadros e os rostos, a madeira escurecida e o frio. A lareira estava acesa e eu analisei cada espaço dos cômodos de meu atual lar. Para o meu infortúnio havia mesmo uma imensa moldura no quarto e, imaginem, ela carregava o rosto de Edgard pintado em tinta óleo. Eu não dormiria naquele antro ou assassinaria aquela maldita pintura, foi o que pensei, mas aquela beleza chamava-me e observá-la era uma sede imoral que me acometia com furor, ó, e que furor! Acomodei-me na sala por um tempo, mas tão logo retornei ao quarto e por ali permaneci, com o rosto de Edgard observando-me cuidadosamente como uma negra coruja à espreita, acima dos altos galhos de um carvalho seco. Os olhos azuis, a perfeição.
Eu apenas o fitava, demorando-me a piscar, para contemplar toda a sua graça inenarrável e assim se estendia a noite lúgubre e a cada segundo eu me envolvia mais à sua simetria; foi neste contínuo admirar que um tormento se revelou em assombro perturbador, taciturno e hediondo. Levantei-me da cama com lassidão exacerbada ― com meu corpo tão ártico e minha alma dilacerada na ilusão do encanto ― e aproximei-me do quadro, sem tirar minha visão de sua inquietante sublimidade. Assim ousei tocá-lo e ao fazê-lo uma vaga sombra acomodou-se pelo quarto, sim, de modo indizível, desalumiada atmosfera; como se uma névoa alvacenta viesse devagar pelas frestas, nas janelas e portas, em quaisquer tênues lacunas. Era como se todas as luzes diminuíssem e se tornassem estranhamente rarefeitas. Toquei-lhe toda a extensão do rosto e não me apeguei ao horror de estar, pois, da mesma estatura que eu, sim, o quadro, não estava imenso como estivera se observado em distância considerável; ao me aproximar toda a sua dimensão foi afetada, era como vislumbrar Edgard em sua real constituição, bem à minha frente, separado tão somente por uma camada de óleo, pigmentos e tela.
Toda a experiência macabra do sangue e das águas negrumes e dos rostos sorumbáticos que estivera até então singularmente inexpressiva em mim ― como forma de privação do que achei ser minha loucura ―, retornou vívida quando meus níveos dedos harpejaram os lábios enrubescidos do quadro, com o cuidado de quem toca um instrumento divino pela primeira vez. Hesitei, levei minhas mãos ao meu rosto suado, a dor de cabeça volveu e eu ouvi, claro que ouvi, era a voz de Edgard vindo da biblioteca já mencionada por Jonathan antes mesmo de minha viagem. Olhei imediatamente para a porta e vislumbrei o corredor, caminhei devagar, ó como era nítida a sua voz clamando meu nome como música fúnebre; eu tive a esperança de vê-lo, uma tétrica esperança de intransigente autenticidade que posso descrever-vos como uma reza ― eu jamais havia rezado antes daquela viagem, entretanto tive de aprender e agora eu sei que me acometia, pois, uma sensação de prece ao mais bondoso de todos os deuses enquanto, no íntimo, eu almejava e esperava com afinco o perturbar do mais feral demônio.
Cheguei ao recanto, abri suavemente sua porta maciça e barroca que rangia insalubre, e adentrei. As estantes eram altas e perfeitamente arrumadas, embora com bastante poeira, senti-me instigada com o conhecimento que jazia ali, pois os títulos dos exemplares ressoavam a antiguidade de suas histórias rompendo a barreira do tempo, muito mais do que eu poderia prever. Tateei devagar cada um deles nas imensas prateleiras ― muito embora eu estivesse tensa e ainda com aquela enxaqueca dos precipícios de meu averno. Eram obras raras, percebia-se pelos títulos, muitos em latim e outras línguas quase mortas. Observei por minutos longos todos os abandonados papéis na escrivaninha também, documentos perdidos ― indaguei-me sobre quantos anos alguém não inspecionava aquele recôndito, era tão grandioso. A grandiosidade daquele lugar, entretanto, não trazia sentires fleumáticos, sua aura agoniava e minha abominação renascia das covas, reencarnado em estranheza e medo, muito mais quando os dois candeeiros próximos à escrivaninha se acenderam em chamas negras e, ainda, reluzentes, trouxeram a voz de Edgard outra vez.
Se não fosse o seu valor, para mim, tão estranhamente fascinante, eu decerto teria fugido daquele lugar no momento seguinte de sua voz ter, pois, espargido pela primeira vez na densa neblina que cobria cômodo a cômodo; ou ainda o teria feito logo ao ver o quadro na parede; contudo Edgard era fascinante, deslumbrava-me, horrorizava-me e seduzia-me. As circunstâncias favoreciam a permanência, além de meu completo abandono aos recursos primitivos de autocuidado, o feitiço daquele ser já morto ― e revivido por algum tipo de patogênica alquimia ― conseguia cativar toda a minha atenção e assim me fazer estar ali. Foi por isso que não fugi ― tal como me era ordinário fazer ― e, por consequência, as escuras chamas, em um paradoxo inconcebível, iluminaram um livro na estante e, neste livro, eu não sabia, o feitiço fúnebre habitava do mesmo modo que a tragédia e a agonia me habitavam.
A obra estava na segunda prateleira atrás da escrivaninha, era a única de capa cor gaultéria, escrito em dourado rústico. Acerquei o exemplar com todo o desvelo que a mim mesma jamais doei, sem esforço notei que meu nome era proferido bem ali, aquela era a fonte da voz de Edgard e que harmonizava com a ansiedade que me sorvia: “Íris... Íris” ao passo que segurei o livro, finalmente, muito apreensiva, e li seu título cursivo: “Minha Íris” escrito por Edgard Vanesthron, todas as agulhadas em minha fronte esvaíram como chuva de verão assim que li aquele título, e o vazio deixado pela dor ocupou-se de sua lembrança, para me oprimir silenciosamente; junto dela, uma expectativa infesta de encontrar na leitura compulsiva, sob a rédea do extraordinário, algo próximo a um vínculo sentimental, além, claro, da avidez desvelar o que havia nas páginas daquele livro e por que ele me chamava e por que encontrei Edgard ― ou o seu espírito ― em meu caminho. Pelas indagações e pela diabólica atração, decidi lê-lo, inda que debaixo da angústia que advinha da asfixia, do pesar árduo que me consumia e da afronta que me esperava, serena, para o xeque-mate.
Vislumbrei as primeiras folhas de seu interior, e admirei-me ao ter a consciência de que eu estava mesmo ludibriada, o apego na possibilidade de estar frente uma majestosa, romântica, ― e mais ainda ―, mágica e cálida história, repercutia em meu espírito sigilosamente, por conseguinte comecei a ler cada singela sílaba em voz alta e nítida, ato este que cessara sem que eu percebesse e não poderia ser diferente, toda a formosura exacerbada protege uma verdade dantesca vinda de suas entranhas e eu comecei a notá-la assim que me embrenhei na primeira estrofe. O bálsamo daquela simetria de Edgard, a ambição por seu tom, a ganância por suas retinas, a vasta relevância de seu enigma e, por fim, o meu caos afetivo, chocavam-se com a factualidade coexistencial, tão mundana, discorrida naquelas folhas cor de pólen, arfando-me frente a tal medonha malignidade.
Edgard escrevera cada coisa ― repito, cada coisa ― acontecida no período da viagem que fiz em Aecqer, acreditem ou não, estava escrito e possuía detalhes meus que nem mesmo eu poderia saber; como se não bastasse, a dissertação incluía os pormenores funestos da mente daquele sujeito ― quem me dera nunca os ter conhecido. A assustadora narração do amaldiçoado romance transtornou-me a um pânico umbrífero, paralisei, a verdade era-me intimamente aterradora, minha sepulcral condição anterior a tudo aquilo jamais seria símil à mediocridade da vulnerabilidade que compreendi estar sujeita sabe-se lá desde quando, pois, se a narração se iniciava no trem, como julgar que tais presságios terríveis não vieram de outras histórias absconsas? Quais eram as magias ocultas invocadas por Edgard? Que tipo de diabólica premonição era aquela? Sua sombra estava sobre mim e como eu me lembro... lembro-me tão bem e posso, e irei, transcrever agora até onde minha mente suportar.
“Eu estou morto ― onnomapherhesí ― todavia, pelo antro de Pherhesí, veem-me ressurgir como anima, tão consciente, como se vivo; em vida redigi a beleza execrável do que acontece ― onnomapherhesí ― no futuro, no dia vinte e três de dezembro do ano dois mil e setenta e três. Ela, de nome Íris, com agradável aspecto, está digna e pronta ― onnomapherhesí ― para os horrores que estou cometendo, a começar pela angústia lôbrega que faço jorrar aos seus lábios de sepulcral-escarlate. Eu a escolhi e ela é minha, pertence à fonte primeva de Pherhesí, esta fonte que eu sou, assim, ― onnomashryos ― por meio da permutação, fazemo-nos uno espectro das sombras de modo a germinar o primogênito do vigésimo segundo século, o século da soberania ― onnoma ehret ― de Pherhesí. Meus planos são incontáveis, minha sede é a sede de Pherhesí e eu estou em Aecqer, o comboio, e eu espero Íris pacientemente ― Aecqer phrephahen ― tenho o poder de ludibriar estes seres da terceira dimensão, pois já não faço parte dela e, mediante Pherhesí, eu sou imortal, eu ― onnomashryos ― abismo o novo mundo com o meu eterno retorno. Íris alcançara a languidez precisa para o meu desvelar como anima e, por isso, não há dúvidas de que eu a conduzo pelas palavras originárias.” ― escrevera.
Como eu gostaria de olvidar aquilo tudo. Cada frase daquela primeira estrofe ressoava em meus ouvidos, minha voz não tinha vigor algum para ler, mas o quadro lia, ó sim, mesmo estático, mesmo no quarto, mesmo distante, ele lia ao pé de meu ouvido, tão limítrofe à minha cerviz com sua névoa agora opaca a incensar o ambiente de madeira; o seu vil poder fulgurava e eu, apenas e por demais, lia. Nenhum tipo de oxigênio parecia ser capaz de alcançar meus pulmões, tudo isso no parágrafo exordial; meus olhos, no entanto, transitaram frenéticos na alínea seguinte e eu não pude contê-los. Compreendam que a dificuldade de transcrever a memória tão estável daquelas páginas crescera, pois agora absorvo Edgard se aproximando de mim outra vez, posso assimilar sua presença prestímana como há tempos não apreendia e, por isso, minha dúvida a respeito de conseguir continuar a redigir esta missiva arde bem mais do que outrora, arde tanto que já não durmo porque eu sei, ele estará lá para me aprisionar. Tenho certeza de que as palavras ― as malditas palavras impronunciáveis e repetitivas ― são a razão do que agora me acomete, deste intrínseco desespero, desta medonha sensação de companhia. Sempre que penso naquelas palavras, uma consumição emerge insípida e se demora a esvair; não seria diferente agora em que as escrevo, aliás, talvez por escrevê-las, tenham mais poder sobre mim.
“Quão bela, minha bela, minha Íris; sinto seu choro, ouço o seu pesar; cada passo seu conta-me um desespero singular que traz cálido conforto ao predomínio de Pherhesí. Quando o corpo de Íris adentra a cabine de Aecqer, eu vislumbro a sua sujeição ― onnomashryos onnomapherhesí ―; profiro seu nome para deixá-la perturbada e ela está perturbada tal como aprecio, possuída de uma soturnidade nímia cujo perfume declina-me ao fogo do inferno profano. Seus pensamentos são estes ― onnomapherhesí ― de angústia e incerteza: “Jonathan dissera-me a respeito deste homem? Que beleza estupidamente fascinante! Estes olhos, parece que posso fitá-lo pela eternidade.”; assim ela se senta e promove cada um de seus questionamentos ao obscuro de sua melancolia, é assim que eu a quero e por isso é assim que acontece, mesmo no furor de sua razão, toda a autopreservação há tempos lhe foi tirada, para ser digna e estar pronta ― onnomashryos onnomapherhesí.
Apresento-me, embora todo o seu corpo já me reconheça; ela sorri no embaraço de seu incômodo ardiloso. Isabelle surge, tal como previ, para trazer-me um pouco de vinho; nada disso é real, mas sei que envolve Íris de modo a apaziguá-la para o que há de vir, seu desconforto é a minha morada, de fato, e traz as pujanças cruciais para o efetivar da primeira das suaves ilusões que tramei há muitos anos, desde quando sua elementar treva formou-se no cerne da sua desgraça, eu poderia achegar-me na realidade tangível que a cinge sem os jogos quais aprecio, mas sou em demasia admirador da beleza fúnebre, por isso oscilo a serenidade com o pavor, o horror com a angústia, a agonia com a quietude, ó quão aprazível. Aqui está, minha Íris, em busca de alívio, vejo-a e faço a minha seiva viva em suas mãos, a reação de seu rosto tristonho, ó, tão delicada, tão deslumbrante lutuosa constituição, transforma-se em pavor atônito partindo de uma reação súbita. O sangue que ferve tão logo se orvalha sobre nós, admiro-a na repugnância e ascendo o poder de sohmphorhen”.
Devorei suas palavras como um demônio devora um ser vulnerável, como Edgard devorara-me e devora novamente pelo seu retorno hediondo. Sinto-me nas anuviadas ojerizas, possuída de fraqueza e aversão. Acreditem, o que li perfurou-me tão inerente que, como posso explicar, toda a índole lúbrica, a feição mortífera, o traço indigno comprimiam meus órgãos e impediam-me de sustentar vida. Estava, igualmente, cada vez mais árduo sustentar o corpo; as minhas pernas trepidavam tal como minhas mãos vibravam, todo o meu equilíbrio se desestabilizava e meus sentidos alçavam cumes opostos, de minuto a minuto; eu era capaz de ouvir o crepitar da lenha na sala e a efemeridade das percepções queimavam no meu calvário. Eu gostaria de ainda ter aquele livro e eu o teria em minhas mãos se não fosse pela fúria de queimá-lo, instigada pelo crepitar, na busca pela sanidade e pelo aprumo, apenas queimá-lo e assim vê-lo desfazer-se na magia tétrica das chamas umbrosas. Demorara a, para a minha infelicidade, advir este esforço de coragem, uma ou, quiçá, sete mil eternidades ― assim soava para mim, pois o afã, ah, o afã em ler as palavras daquele ser inumano, o afã era o flúmen das veias minhas, a torrente de minha paixão inconcepta e de minha aversão conjecturável. Se não fosse tal híbrido afã ― não importa, essa é a verdade, sem a avidez ou com ela, o destino seria o mesmo, minha via-crúcis esteve sempre consumada.
“Íris, ó, minha Íris, tão estática, aproximo-me de seu corpo e perfuro o portal para o seu espírito, delicadamente, seu eflúvio é agradável e quente; introduzo ali, em êxtase, a minha figura pelo fragmento de minha alma; minha infeliz adorável se assusta e está mais pálida, contudo ainda imóvel pelo pavor, porque o poder de sohmphorhen faz ― onnomapherhesí ― conservar-se a condição inerte de minha desventurada e de todos os pobres infelizes que estão sob o controle pérfido e magnífico de Pherhesí. Ssahmqenehr, Ssahmqenehr Pherhesí, seu poder conduz a humanidade através do espelho de mim sobre o corpo de Íris e sobre o ser do primogênito; tudo o que desvelei e desvelo de sua consciência é a chave etérea, ó Ssahmqenehr Pherhesí, crio mundos com o seu poder, destruo dimensões que se negarem a perpassar a sua grandiosidade ― onnoma ehret. Agora em minhas mãos está Íris, sorrio porque isso a amedronta, a noite é obscura, pois esta é a reação universal diante Pherhesí, o fundamento responde ao poder do fundamento quando este é exposto pela fundação; a criatura é maior agora, e está acima do criador. ― Escute, minha Íris, na eternidade de sua subjugação, retirarei o único fragmento de júbilo que descansa em sua alma, retirarei através de seus olhos pulcros ― digo-lhe, suas lágrimas esvaem em pavor; sorvo-a e sua feição se torna fantasmagórica, sorvo-a pois que foi essa a minha atração desde o princípio, a troca de almas, a eternidade em lembrança e melancolia; neste plano eu a destruo devagar para que refulja sempre e tão somente o seu merencório ser, para a efetivação do perfeito devir do primogênito”.
Porventura haja uma desconfiança, eu sei, estes relatos seriam mesmo reais? Sem o livro de Edgard, provar sua existência é laborioso, mas, tenham certeza de que nada disso viera de uma criatividade bestial, reviver verso por verso, eternizando-os na escrita outra vez tem me destruído, minhas crises pioraram, as paralisias se estendem a pequenos comas obscuros; foram duas paradas respiratórias nos últimos dois dias, está tudo relatado e a tudo isso vocês terão acesso, esteja eu viva ou não. Sabe, reside em minha natureza um imensurável medo de morrer, desde que vi e li Edgard, a morte é o palco de meu drama e, jamais, as cortinas; será que encontrarei ele, o escritor, em algum outro lugar além? Sinto que sim, algum outro lugar além de minha própria alma. Edgard espera-me e eu temo, porém, entrego-me, porque não há circunstâncias suficientemente nobres que signifiquem a vida para mim, ele tirou tudo, toda a ledice, toda a esperança; era mesmo demasiado raro eu ter um momento de prazer, agora é apenas impossível.
“Ordeno a vinda de Isabelle, a alma vagante que encontrei ao vagar minha própria alma jamais desvinculada do que foi, em vida, redigido por meio de Pherhesí. Denomino-a Isabelle para fazê-la real, nomear energias perdidas, eis um inquestionável fato, enleia-as àquele qual as nomearam. Portanto posso moldar, e moldo, a face de Isabelle no horror que me convém, seu corpo é também a minha criação desde que proferi: ‘sehsqor phrephahen’, e sua estrutura humana instituiu-se. Ela adentra para quebrantar a híbrida realidade que transmutei, para abrandar a paralisia sublime de sohmphorhen e trazer meu ilusório líquido. Ordeno que se achegue disposta, sempre apaixonada, e assim apreendo as nuances do encanto de Íris por mim. Íris está no êxtase da melancolia, o apagar da chama frágil de sua alacridade demonstra o efeito esperado, além disso, está estarrecida e confusa com a ausência de todos os elementos sanguinolentos que ludibriei para terrificá-la, é assim que deve ser; digo-lhe sobre nosso diálogo jamais existido, pois não é preciso haver, de fato, já que sei tudo sobre Íris e a manipulo devagar, conforme sua abertura natural chama por mim; sinto-a mais intricada, tanto que suas dores floreiam tal como previ ― suas dores indicam o efeito de estar, pois, em elo com o que está do outro lado, isto é, comigo. Ah, o outro lado, a morada de todos no pós-vida, somente eu, contudo, sou capaz de fazer o que almejo neste lugar-nenhum, só eu possuo Pherhesí. Íris guardará um abismo, assim a preparo, este abismo a deixará no futuro para o vir a ser do primogênito, no entanto, ela jamais se esquecerá deste abismo, pois ele sou eu; hoje ouve minha voz e vê minha face e se deleita e se terrifica, amanhã há de odiar e amar a lembrança.”
Mas há muito, há muito o que vos segredar ― que naquela noite eu desvaneci na agonia mais pútrida, sim, dentro do silêncio mais violento e sem saber como respirar, ó sim, decerto pela alma de Edgard em meu âmago eu fui afetada; ele sabia tudo o que fiz e deve saber o que faço, ele escreve-me desde então, e talvez guie assim minhas próprias ações. Não sei quantas noites passei imersa naquela atrocidade inenarrável, e a escuridão sombria aos olhos vinha como lapsos de imobilidade e tempo, semelhantes ao que acontecera no trem, cenas de indescritível aflição de minhas próprias mãos contra meu próprio corpo, tudo tão frequente e febril, como se eu tentasse destruir tudo o que Edgard penetrara em meu espírito; assim não vi brilhar dia algum; todo o tempo estive com cada uma de suas frases que li se repetindo como um sempiterno sino de mortuário, em especial aquelas que estruturavam a última estrofe que fui capaz de ler; aquela hediondez que no mais inconsciente de mim, eu sei, compreendi, pois foram elas que me levaram à fúria.
“Há de beber sempre este meu dissabor ― eu digo ao vê-la de joelhos com suas escleras fulgurantes enquanto me ilustra com seu grafite a cena que há de se repetir para sempre em seus pesadelos ― abri-lhe os lábios trêmulos e dei-lhe o licor do infortúnio, da blasfêmia, do mais horrífico vazio perturbador que eu sou; e ela bebeu, sua ébria mente tornou-se ainda mais sã sobre sua absurda desolação; agora cada noite mais escura ser-lhe-á e sendo mais escura, há de verter-lhe a solidão e o desconsolo, prostrada ao soturno que eu sou, e ela assina seu eviterno elo comigo, porque toma agora minha essência desta fonte primeva, e ergue-nos ao novo gênesis de um nascimento. Toco-lhe o rosto frígido ― Você pertence ao meu aflito pranto agora, às minhas trevas e à minha atra luz, e chamarás, pela eternidade, o nome de meu fundamento, para que eu lhe afogue no mais côncavo de meu oceano elegíaco e guie todos os seus rumos. O primogênito há de tomar o meu reino e abrir as portas dos últimos abismos ― sussurro-lhe e preceituo, ela obedece e diz, para manar-lhe, por fim, toda a nequícia cruciante: Srhyos ― ela diz por que há de sempre dizer ― Srhyos.”
Não sei bem quando fui encontrada, mas eu estava franzina, violácea e sem forças, em meio à branquidão, e só sei disso porque os médicos me revelaram. Fui levada às pressas para o hospital por um lenhador e permaneci desde então entre o horror da lembrança e a vida que perdi, e como perdi, mais inacreditável do que vocês possam devanear, eu fiquei um ano desaparecida. Do dia que narrei em perfeição de detalhes, vinte e três de dezembro de dois mil e setenta e três, ao dia vinte três de dezembro de dois mil e setenta e quatro. Um ano de fragmentos. A maldição e meu martírio são infinitos; desnutrida, fantasmagórica e sozinha, após ondas bárbaras de demência ― só podia ser loucura, não é?
A perturbação do mais hediondo, a tortura da não-morte e do não-morrer, tudo era minha insânia, eis a resposta do mundo, insânia, nada além dela, alienação e desatino, mesmo que as cenas ditem o contrário e revelam minha luta para sobreviver naquele lugar. Pouco depois de me ver no hospital, consciente, um escândalo floresceu no meu imo, o caos por uma busca: o bebê. Sim, eu só conseguia vociferar sobre o bebê, eu o resgatei na lembrança das cenas vividas naquele ano extraviado e que me vinham em clarões, como reminiscências de um sonho. Doutora Paole contara-me com uma delicadeza indizível: “Os exames revelam uma gravidez, mas, infelizmente, você estava sozinha quando foi encontrada”. Foi entre os pinheiros densos das cordilheiras de Ahvalanch que sangrei, mas não morri, por uma fuga em busca de salvação e, sim, a morte daquele ser vindo de uma imunda concepção de almas, apenas almas, quão horrífico! Não sei como, dei-lhe à luz na neve esquálida e o perdi para a escuridão.
Fui encaminhada para o hospício porque as paralisias traziam sempre alucinações e eu, como um explosivo, buscava a morte súbita ― não queiram conceber a ideia de um eterno nascimento maldito em seu útero, dia após dia. Permaneço aqui porque é preciso... eu sei, eu sei que deveria lutar para defender minha sanidade e talvez retornar àquela mansão tétrica e encontrar aquela criança... eu sei. Mas a confusão que me toma é o maior obstáculo e as crises são nefandas, eu não compreendo o porquê de tudo isso e sei que não hei de compreender, talvez se eu tivesse lido o livro até o fim, para saber meu exício e o começo da vida da criança, talvez. Eu nunca fui uma heroína, eu sinto muito, sou o soturno medo, dominada pelas lembranças, refém de palavras impronunciáveis; eu sou o fundo de um abismo sem fim. Quando miro esta minha face apavorada e aponto a mim mesma a possibilidade de eu ser só mais uma pobre sujeita acometida de patologias mentais, logo me lembro, as cenas, os clarões, as sensações, as emoções, a luta, o bebê, os olhos de Edgard, o licor, o sangue. Não é, não, não é uma desordem da minha psique, eu estava lá e eu sei o que eu vivi.
Eu também sei que sou menos desgraçada por não ter total consciência de cada vivência naquele lugar que não era o chalé, ó não, pois ainda no dia de minha chegada, após a leitura daquele livro ominoso, eu saí transtornada em meu delírio para o meio da nevasca e andei longas horas até encontrar aquele castelo. O Castelo de Venesthron. Seria impossível se o impossível não caísse por terra desde o dia nefando, o dia vinte e três. Ainda tenho minha razão questionada, em qualquer instância, por todos ao redor mesmo depois de tantos anos, eu menti minha identidade para preservar cada pessoa que um dia conheci, pois decerto morreriam de desgosto se soubessem, pois que ouviriam as más línguas que acreditam que eu fui para as cordilheiras para matar aquele pobre recém-nascido e o abandonei no manto do arvoredo; isto não é verdade, não era um pobre ser, era o ser concebido pelo diabo, pelo horrífico, o ser que decerto está por detrás do caos dos nossos dias, da névoa que esparge sempre às dezoito horas e do sol que já não brilha como antes, a ele pertence toda a culpa, que estejam cientes e em alerta, pois se aquela coisa veio a ser de dentro de mim e sumiu naquela escuridão gélida, decerto está viva e abre, desde então, os portais do inferno.2
Sete Abismos — Abyssalum
Espere encontrar em Sete Abismos um universo de contos terríficos que se vinculam nas entrelinhas, causando uma imersão integral no horror de suas entranhas. Espere ser perturbado por complexas mentes de personagens distintos e por mistérios cujas faces se desvendam no absurdo; deguste de uma leitura com atmosfera hedionda que perdura mesmo nos contos mais breves. Descubra o horror que reside no inofensivo e perceba que de tudo, de absolutamente tudo, pode emergir uma monstruosidade inimaginável. Prepare seu estômago, a repugnância surgirá e ela é imprevisível. » Leia todos os contos.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Lotus Aqua Obscura
Agachada sob a sombra crepuscular, olhei e vi um ancião cujos olhos exaustos caiavam seu espírito perverso; o que, se por mim fosse evidente…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Agachada sob a sombra crepuscular, olhei e vi um ancião cujos olhos exaustos caiavam seu espírito perverso; o que, se por mim fosse evidente, dali eu teria fugido antes mesmo do poente efetivar-se. A verdade é que, até então, eu ignorava o domínio inenarrável dos seres Magistas sobre a realidade humana; mas ali, diante do velho em vestes míseras e ínfima voz, tive de renunciar às minhas ignorâncias, as quais, por anos, governaram-me o ser. O senil peregrinava entre os arvoredos mais úmidos e, quando colidia, por sorte ou azar, com alguma alma vivente, já de imediato iniciava a revelação perturbadora que era obrigado a carregar consigo. Confesso o haver julgado um Mago, mas, revelo que não detenho tal vera; por muito ousaria dizer que se tratava mais de um demônio atormentador originário de intermúndios tétricos; ainda assim a dúvida persistia, pois que suas habilidades fascinavam qualquer deus e, portanto, não poderiam advir dos seus caídos e expulsos — o herói nunca admira o vilão.
Antes de dar-me conta, seu timbre acre invadiu-me os tímpanos e eu fitei o sujeito franzino. Eis que, então, já não pude deter-lhe; estagnei-me à sua presença e, ao léu, o ouvi do início ao fim, e os seus lábios contavam em penumbra que a noite há de ser, por tempos, única possível; pois que os céus negros não se banharão do sol; o sol em si, negrume, cálido pousará apagado no horizonte. E nas orlas os barcos guiar-se-ão, não pelas estrelas, mas pelas divergentes sombras. O plantio noturno gerará frutos sombrios e os frutos serão ingeridos em silêncio; seus sumos violáceos serão doces, mas turvarão os corpos famintos; e as plantas, e os grãos e tudo o que vem da terra deterá sutilezas nos sabores e eflúvios constituintes. “E até as chuvas ― não duvides ― cairão como gotas de obsidianas ácidas. Por tempos todo fel cobrirá os mares e” ― descrevia — “as herbáceas brotarão dos solos e das águas e elas serão feitas de treva e a treva será insólita”. E, por cada segundo, o ancião trazia à voz etérea os pormenores daquela realidade que não nos pertencia mais, entretanto, conforme o ouvia sentia-me estar inserida nela como pertencente. “Ouça, não só escute! Pois que as árvores secretarão licor viscoso e seus galhos languinhentos soarão fúnebre sibilo que será, pois, apreendido em perfeição pelas orelhas dos ouvidores e dos moucos”.
Tentei, ávida, retirar-me, em corpo, daquela insanidade; no entanto caíra a noite com o peso das palavras ouvidas e o peso era similar às montanhas laminadas das Cordilheiras do Sul. “Pois que das mais horríficas herbáceas, a Lotus Aqua Obscura, invicta, mui mais apavorará; o manjar de seu caule e suas pétalas em ilusão, o êxtase, provocará; e a água qual se fundamentará será mais umbrosa que o firmamento; e quisera eu não a ter degustado com afinco, pela fome miserável a corromper meu antro”. Com frêmitas mãos, o velho, de seu bolso, retirou uma caixa amadeirada cuja fragrância era de bambu e tão logo abriu-a revelando uma semente. Esticou à minha direção o objeto e gargalhou, orate, aos ventos todos que, inopinos, tornaram-se violentos. “Coma esta semente!” ― ordenou o velho. Olhei aos céus, roguei piedade. “Saberás que cada Lotus Aqua Obscura é, pois, um humano sucumbido, transformado, fadado por fim, e sentirás em tua tez o sabor da língua pegajosa e a saliva cinza dos famintos; e toda a vivência de sê-la! Tu passarás e testemunharás o veneno de suas vísceras. Coma esta semente, coma agora esta semente!” ― e pôs-se a repetir, ininterrupto, o dito final, de modo a desordenar-me a sanidade. Tomei-lhe a semente e a engoli, seca. “Assim renascerás a única planta de espírito e corpo igual aos animais desta classe sapiens sapiens, caso contrário o meu haver não mais firmar-se-á no juramento: Hei de vagar pelo mundo humano fundindo o sórdido ao vil para alertar a infame escuridão que há de vir”.
Aflita, forcei-me a arrevessar o grão, mas, já era tarde. Presenciei os pinheiros a vergarem-se e a tempestade vir a ser e todo o sombrio a firmar-se e o homem, maldito, esvaiu como saibro em alto-mar deixando, apenas, uma abominável mensagem: a revelação perturbadora que era obrigado a carregar consigo. Segurei-a em minhas mãos e senti a saliva e as línguas, e fui, na pele, a planta coloidal; e do reino Plantae espargi essência de clorofila debaixo da atmosfera fumegante em névoa, a névoa mais rara em gigante e medonho horizonte abominável. E a névoa era densa como meus olhos, os quais eu não possuía; e meus pés, que não eram pés, estavam sucumbidos ao gomoso e frio chão, o qual não era chão e, antes de haver, pois, senso sobre a insânia a difundir-se; senti sede, a inenarrável sede pelo sangue do inimaginável. A treva acima, a neblina e o terror; bem soube que era eu a plantae-animalia, pois que o veneno se açodava em minhas artérias hialinas e a maldição era hedionda e a ela eu me debruçava; assim, tão logo senti uma presença próxima e era no flúmen qual eu me firmava, então roguei pelos deuses de todos os elementos e vi ― juro aos santos e profanos ― eu vi o ancião perverso a, de novo, aproximar-se. E quis vociferar pelo socorro de um ser qualquer sob ou sobre a escuridão a cingir, mas eu não tinha boca e minha boca era feita de pétalas e das pétalas escorria elixir de morte e argila.
Eis que o macróbio sórdido e vil, com violência bruta arrancou-me do pântano e levou meu venusto caule à língua áspera. E a língua áspera era cinza e pegajosa e eu vi, por fim, a névoa mais rara no gigantesco horizonte e eu a vi antes da absurda dor tomar-me o âmago. Moída em fel feneci antes da ausência ser-me única possível, chorei as lágrimas moribundas que me restavam e despertei de súbito como de uma paralisia do sono e olhei para o céu e era dia e o dia luzia tenro e afável. Nada havia além da lembrança vívida dos tempos mais obscuros que virão, onde o sol será negrume e queimará e as algas serão alimentos pútridos aos famintos e as frutas terão sumo violáceo. Retomei à angústia mais etérea, pois que agora eu detinha como cruz ao torso, a pesada revelação perturbadora e, sem ter como dela livrar-me, sendo obrigada a carregá-la comigo; tornei-me andarilha das terras humanas em busca de alguém para devorar minha própria semente.
Sete Abismos — Abyssalum
Espere encontrar em Sete Abismos um universo de contos terríficos que se vinculam nas entrelinhas, causando uma imersão integral no horror de suas entranhas. Espere ser perturbado por complexas mentes de personagens distintos e por mistérios cujas faces se desvendam no absurdo; deguste de uma leitura com atmosfera hedionda que perdura mesmo nos contos mais breves. Descubra o horror que reside no inofensivo e perceba que de tudo, de absolutamente tudo, pode emergir uma monstruosidade inimaginável. Prepare seu estômago, a repugnância surgirá e ela é imprevisível. » Leia todos os contos.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Observadores
Desperto sobre um chão asséptico, duramente frio, cheirando a desinfectante recém-passado. Sento-me devagar, estou desorientado…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Desperto sobre um chão asséptico, duramente frio, cheirando a desinfectante recém-passado. Sento-me devagar, estou desorientado. Fico imóvel por algum tempo, tentando centrar a minha visão. Tudo treme e vibra.
O que aconteceu comigo? Depois que minha visão centrou, observo minhas roupas. Estou sentado, com as pernas estendidas. As costas estão apoiadas no canto de um espaço pequeno e quadrado. O chão é de um metal polido e cinza, muito brilhante, eu vejo o meu reflexo distorcido nele, de tão brilhante.
Eu visto roupas comuns: calça jeans, sapatênis e uma camisa polo vermelha. Não me recordo de onde estava. O que fazia com essas roupas? Onde? Nada vem à minha mente. Um grande vazio, absoluto! Preenchido apenas por perguntas: será que fui sequestrado, será que morri?
Ouço alguma coisa? Sim! É um barulho muito distante! Sons abafados. Tento identificar de onde eles vêm, cruzo a sala, então a noto. Uma única vela acesa. Ela está exatamente no centro da sala e sua chama... ela parece estar atrelada de alguma forma a mim, ao que eu faço, ao que eu penso... não posso provar, mas sinto isso.
Quero sair daqui, não me sinto bem nesse lugar. Meus olhos percorrem as quatro paredes. Ao terminar, se desconcertam. Cresce o desespero que meus olhos foram capazes de gerar. Não havia uma janela sequer. Nenhuma forma sequer de abri-la. Sim, a única porta da sala era um tipo de elevador, porém não tinha como abri-la… Eu não conseguiria, não havia como forçar os dois lados a se abrirem, não havia botões para serem apertados e comandá-la. Então ela permaneceu totalmente fechada e impassível.
Não sei quanto tempo fiquei acordado, mas me sinto desgastado, minha visão pesa. Mas certamente eu dormi, pois estou acordando agora. Minhas retinas registram as mesmas paredes frias e metálicas. Elas, o meu reflexo.
Meus olhos registraram, meu cérebro notou. A chama da vela está ligeiramente diferente. O fogo que antes aquecia o lugar, com reflexos laranjas e quentes, agora trepida e hesita, com chamas azuis crepitantes. No entanto, o reflexo dela parece que guardou o reflexo de quando eu chegara: amarelado, os tons alaranjados estavam apenas nos reflexos. Deveriam refletir a cor azul, mas pareciam testemunhas renitentes do passado.
Num átimo, a chama da vela apagou-se e acendeu novamente. Agora a cor da chama que as paredes refletiam era idêntica à da chama: um azul intenso e profundo. Sentia que dentro daquela chama havia um universo que me atraía.
Apesar de assustar-me com o reflexo da chama destoante nas paredes, insisto em fazer o meu olhar vagar por elas, em busca de uma saída daquele lugar, cada vez menor na minha percepção. Dou um pulo para trás: ali, nas paredes onde uma luz laranja bruxuleava... ali, agora há um detalhe a mais — marcas de riscos nas paredes fazem meu estômago revirar. Um dos espelhos estava rachado, de fora a fora, na diagonal.
Continuando a vagar pelo que o estranho espelho reflete, chego até ele. Minha própria imagem encara os meus olhos friamente. Do lado de lá, é a imagem refletida quem conduz a ação. Apenas um reflexo de mim, sim. Mas por que meus olhos parecem ser um engodo? Sinto medo, por ela ser deformada e diferente, devido à rachadura que apareceu agora. A única verdade que seus olhos ameaçam entregar é a de que quer me fazer mal.
Será que aquela imagem sou eu? E, na verdade, eu é que estou confuso? Será que as paredes limpas, lisas e espelhadas do elevador em que me encontro apenas estão refletindo a realidade: uma vela com chama laranja em seu centro; e eu é que estou a imaginar que a chama é azul, que algo riscou e rachou as paredes? Por que as minhas mãos estão arranhadas?
Sinto um cansaço pesar, minhas pálpebras fazem força para se fechar. Eu luto para me manter acordado. A tarefa é difícil, cansativa, árdua, eu diria que se tornou hercúlea. Como se o meu próprio corpo não fosse meu. Estranho. Eu tento controlar as minhas expressões faciais, mas o olhar hostil do meu reflexo se recusava a mudar, resoluto.
Acho que dormi nessa cansativa luta de fazer o reflexo do espelho mudar. Por mais que sentisse os músculos do meu rosto se mexerem, o rosto no reflexo estava imóvel e com uma expressão ambígua, ameaçadora. Se o reflexo era eu, por que me olhava com raiva? Se não era eu, por que era igual a mim?
Acho que agora desperto pela terceira vez nesta sala. Sinto frio. O chão me parece mais frio ou foi a minha temperatura que cedeu? O cúbico do elevador, já não o percebo tão pequeno, ele parece um pouco maior. A vela? Ah, sim, ela está bem menor, derreteu… Agora, está bem mais escuro do que antes.
Eu próprio me sinto menor. Como se os meus músculos, tal qual a cera daquela vela, tivessem diminuído, tivessem derretido. E parte de minha essência tivesse se dispersado pelo chão, como se eu fosse uma vela de chama azul, igual àquela: triste e pequena; obedecendo a um desígnio além do que ela pode controlar, certa de que ela será, indubitavelmente, não mais uma vela, mas uma mera poça de cera derretida.
— Estamos quase completos! — uma voz inumana diz, mas entendo claramente o que foi dito. As palavras claras, como água cristalina em meus ouvidos, vindas do outro lado da parede.
Agora percebo que estou junto à vela, no centro da sala. Eu sou uma criatura dada em sacrifício, a chama azul da vela me disse isso, em meio às imagens projetadas em sua pequenina chama que eu observo deitado. Algo está sendo vaticinado. Meu sangue está sujando o chão, percebo que não só o meu nariz está sangrando, mas todo o meu corpo está se moldando a algo que não conheço, mas já não estranho.
Mas ela também me mostrou memórias de outras vidas. Outros Jeremias. Um era pai, e abraçava suas filhas no quintal. Outro era policial e dera um tiro na testa de alguém — que horror! Havia outro que era branco, e não negro como eu. Tinha uma criatura estranha, que eu também sabia que era eu — ela passava por ruas, como as nossas.
Agora desperto pela quarta vez. Flutuamos, eu e a vela, pelo espaço oco. Vejo escamas finas da minha pele se soltarem. Sinto-as desprenderem das mãos, das pernas, das costas encurvadas. Elas vão flutuando pela escuridão, formando uma galáxia, um redemoinho bizarro de peles mortas vagando pela escuridão, iluminadas apenas por uma chama fraca.
Desespero-me ao perceber que estou me desfazendo aos poucos. Sou como um embrião que desfaz sua casca, sumindo a cada porção perdida no espaço. Não é um processo que pode ser parado. Acho que não. Talvez eu seja só a casca de algo que amadureceu.
Agora desperto. Vejo a porta se abrir pela primeira vez. A vela está no teto, assim como eu sinto que estou. Não tenho voz, não tenho corpo. Quem eu era, não recordo. Mas isso não importa mais.
Junto-me aos meus companheiros lá fora… lá fora, no espaço-tempo, eu vejo: somos muitas criaturas. Temos garras e escamas brancas, e olhos grandes e esbugalhados. Nos chamam de observadores…
Aryane Braun
Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
O Coelho Vermelho
O solitário castiçal iluminava as cartas sobre a escrivaninha. Sua luz trêmula projetava…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O solitário castiçal iluminava as cartas sobre a escrivaninha. Sua luz trêmula projetava a sombra disforme do homem sem rosto – um aristocrata cujo semblante ninguém jamais vira. Os rumores sobre sua origem remontavam a séculos, mas sua existência permanecia um enigma envolto na imensidão e silêncio do seu castelo. Apenas alguns servos fiéis, de olhares baixos e lábios selados, lhe faziam companhia.
O homem mergulhou a pena no tinteiro negro. O arranhar no pergaminho ecoava como unhas em um caixão.
"O Conde te espera na celebração dos Láparos. Haverá um baile em prol do Aesttera — Tempo de Conceber Novas Vidas. Te esperamos neste franco deleite", escreveu com caligrafia meticulosa.
Era o décimo quinto ano do ritual. Os Láparos, segundo os antigos manuscritos guardados nas catacumbas do castelo, eram espíritos da fertilidade que exigiam sangue para conceder vida. O Aesttera, ciclo lunar de conceber, aproximava-se do auge.
Mulheres solteiras ou casadas, sem filhos, e homens livres de qualquer preconceito eram bem-vindos. Muitos ignoravam o verdadeiro propósito da celebração, atraídos apenas pela promessa de libertação. O grande evento era visto como um encontro de possibilidades e de escalada social. As melhores joias, as melhores roupas visavam ostentar seus alter egos, que para muitos seriam inalcançáveis caso não fossem ao baile.
A noite chegou com um céu sem estrelas. Coelhos híbridos com humanos, advindos de várias carruagens, rompiam o silêncio espectral daquele lugar. O relinchar dos cavalos misturava-se ao murmúrio excitado dos convidados. Máscaras ornamentadas com penas, joias e cristais escondiam identidades, mas revelavam olhares cheios de desejo, esperançosos pela entrega à libido. O aroma de incenso e almíscar impregnava o ar, enevoando os sentidos já turvos pela expectativa.
Um tilintar numa taça de cristal reverberou pelo salão, evocando a atenção dos convidados que sorriam inocentemente, ansiosos pelo deleite do raro vinho da maçã sangrenta. O líquido escarlate brilhava sob a luz dos candelabros, sua viscosidade deixando rastros rubros nas taças de cristal. Um aroma metálico, adocicado, emanava da bebida.
"Este néctar", anunciou o servo principal, "foi preparado pelo próprio Conde durante o ciclo completo da lua negra."
Eles bebiam. O líquido escorria por gargantas sedentas, esquentando-os por dentro. Comiam. Carnes raras, frutas exóticas, manjares nunca antes provados. Tocavam-se. A princípio com timidez, depois com voracidade crescente. Mas só havia uma única regra: nunca remover a máscara.
E continuavam... As risadas tornavam-se mais estridentes, quase histéricas. Contorciam-se, despiam-se... O som úmido da carne contra carne mesclava-se ao tilintar das joias. Elevavam acima de suas cabeças as taças cheias do néctar afrodisíaco, seus reflexos vermelhos manchando o teto como sangue espalhado.
De seu trono nas sombras, o anfitrião, o homem sem rosto, assistia ao espetáculo daqueles a quem denominava como selvagens. Sob seu manto negro, suas mãos pálidas apertavam os braços entalhados do assento. Era o décimo quinto sacrifício, e cada ano a sede dos Láparos crescia.
"Bebam, velhas bestas, coelhos malditos, hoje celebramos a morte e a vida", e por detrás de sua máscara — única com a cabeça de coelho vermelho, olhos de rubi e pelagem escarlate — projetou sua voz enquanto tilintava sua taça. "Olhem, admirem a origem do sangue que bebem."
Um véu pesado foi removido no centro do salão. E numa gaiola dourada, uma pobre e fértil mulher definhava, pálida como marfim polido, os pulsos cortados e enfaixados, seus olhos vidrados fixos nos convidados. Uma mangueira transparente ligava suas veias à grande ânfora de cristal de onde o vinho era servido. Ela assistia seus algozes deleitarem-se com o viscoso vinho escarlate – seu próprio sangue, drenado lentamente para alimentar a celebração.
Os convidados congelaram. Taças caíram, estilhaçando-se contra o mármore. Alguns levaram as mãos à boca, outros permaneceram imóveis, fascinados pelo horror.
"Os Láparos exigem sangue voluntário," continuou o Conde, sua voz agora mais profunda, inumana. "Ela se ofereceu em troca de riquezas para sua família. Um sacrifício nobre, não acham?"
E a mulher na gaiola, como se esperasse este momento, moveu seus lábios ressecados. "Vocês... todos... malditos..." sussurrou ela, sua voz fraca atravessando o silêncio absoluto do salão. E, destarte, a sua vida esvaiu-se, porém, não com os olhos cerrados, mas fixos em seus carrascos mascarados, em uma maldição silenciosa que cada um deles levaria consigo para sempre.
Por baixo de suas máscaras, imperceptivelmente, pequenos tufos de pelo branco começavam a brotar na pele dos convidados.
Carlos Conrado
Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
A Casa dos Quatro
Tinha uma bruxa na lua... | Eu sei, | Eu vi. | Subia, ao fim da rua, num ruído verdejante de poeira... poeira de livro velho. | Pó de cravo, sálvia do inverno…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Outro inverno, outro dia no inferno, outro nascer de fraco sol. Dói, Maria, a víscera dessa saudade... Apague o fogo! Abafe o chá; aonde vai, pai? Não é hora de ir descansar?... leve flor pra Elizabeth. Ao menos leve flor. Onde anda o passarinho?... Onde anda o meu amor?! “Dorme num canto de estrada, morto e mal enterrado...” – Cala-te, sombra maldita! Criatura nojenta que se esgueira... Oh, e Aninha? Já banhou? Pois vá! Tire essa lama velha do cabelo. Penteie a menina; já comeste a tangerina? A chuva... a chuva há de chegar.
Aonde vai, Pai? Mal voltou... puseste a flor de Beth? Leve, agora, a de Maria. Ora, onde foi Marta? Sem ela a casa para... onde foi a aurora?
Morreste o céu do dia?... Amanhã, lava amanhã a roupa e o chão da casa. Bater bolo, no canto açucarado da cozinha, pra dormir de bucho alegre. Pro dia surgir novo. Volta ele, morno em cachaça. Fecha a porta. Aquele outro vagabundo não vem. Hoje não... que fechem, com ele dentro, as portas do bar; amanhã o bolo espera.
- E tu, menina, comeste tangerina?
- Comi não, Marta. Aonde foi?... Por que demorou pra voltar?
- Fui porque ainda não brota a comida no chão da casa, mas diga, por que chora? Sei que chora. Não tenhas tu a esperteza de me enganar.
- Nada... nada. Outro dia frio; tô cansada do inverno. Tô é sendo boba, nem tem por que chorar. – Há a vida de banhar de sol esse pinheiro, tão mirrado. Há de corar a bochecha do dia... há de brotar a begônia num outro luar.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Tic-Tac
Acordei com o som das engrenagens daquele maldito relógio que ressoa em minha mente. O barulho ensurdecedor que nunca cessa não é…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Acordei com o som das engrenagens daquele maldito relógio que ressoa em minha mente. O barulho ensurdecedor que nunca cessa não é apenas um simples "tic-tac"; está mais para um motor a vapor. Quando meu tio me presenteou, indaguei sobre a fumaça que saía dele.
— É como uma respiração. Cuide bem do relógio e mantenha-o hidratado com dois litros de água por dia — disse ele.
O velho era caduco, cuidava do relógio como um bicho, mas, por hábito, acabei fazendo o mesmo. Há um pequeno compartimento atrás dele, como um reservatório de água. Está quase sempre vazio. Essa coisa bebe muito. Começo a me questionar se não precisa de comida também.
Mas o som não para, não reduz. Já estou há noites sem dormir, porém não vou quebrar o presente que ganhei. Talvez ele esteja com raiva; afinal, emite uma estranha fumaça que inunda a casa. Não lhe dou atenção suficiente e está me importunando por isso? Deveria dar-lhe mais cuidados, mas o que relógios gostam de fazer? Talvez esteja com fome, mas o que devo dar de comer? Óleo? Seria bom para acabar com o som e me deixar dormir.
Liguei para meu tio e nada dele atender. Já não aguento mais; irei abri-lo. Pego meu kit de ferramentas, que estava junto de umas tralhas no quintal, e desparafuso o fundo do relógio. Quantas engrenagens! Precisa de tudo isso para funcionar? Há uma bomba ligada ao reservatório de água. Isso explica por que nunca precisou de tomada ou pilhas, mas também explica o som e o vapor. Deveria desligar a bomba, mas isso seria o mesmo que matá-lo. Ora, pois, no que estou pensando? É um relógio e não um ser pensante.
“Tic-tac, tic-tac, tic-tac”. Como posso dizer que não pensa, se é ele que faz todo o trabalho de contar segundo por segundo, dando-me horas e minutos, até despertar em momentos oportunos? Talvez eu já esteja louco pelas noites em claro, mas cuidar do relógio parece razoável. Volto à rotina de sempre, lubrifico suas engrenagens e abasteço seu tanque, mantendo-o em atividade constante. Adapto-me aos sons e construo uma janela atrás. Hoje já não há mais insônia, e a sutil fumaça que emanava agora escapa como uma chaminé.
Até que acordo com um estrondo e, então, silêncio. Sem tic-tac, sem motor, apenas o vazio. Levanto e corro até o relógio. Seu pêndulo estava parado, os ponteiros já não contavam mais o tempo e a fumaça, agora, era só uma simples neblina que, aos poucos, se dissipava. Observo a parte de trás e está cheia de furos. Desparafuso a tampa e lá está: o tanque furado. A água se foi, como se ele tivesse sangrado até a morte.
Deito-me à noite com um vazio imensurável em meu peito. A casa fora tomada por um silêncio angustiante. Não consigo dormir, é como se arrancassem um pedaço de mim. Chamei alguns relojoeiros para saber se daria jeito, mas ninguém jamais havia visto algo como aquilo. Resolvi visitar meu tio. Ele deve saber como trazê-lo de volta. Chego à sua casa e, apesar de tocar a campainha, ninguém atende. Vou até uma janela, de onde saía muita fumaça. Não dá para ver nada, mas parece haver algo impedindo minha passagem.
Encontro uma barra de ferro junto com algumas sucatas no quintal e a utilizo para remover seja lá o que estiver no caminho. Um estrondo, e a fumaça se torna uma névoa translúcida. Quando entro na casa, a ficha cai. O objeto que derrubei era como o meu relógio, e os furos que encontrei mais cedo são os mesmos que fiz com a barra. Agora já estava feito. Ouço passos e, assustado, levanto o relógio caído e saio por onde vim, com as mãos sujas de óleo. Talvez eu possa me redimir se conseguir criar outro igual e presenteá-lo ao meu sobrinho, para que cuide dele como eu não cuidei.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Maldita Melodia
Algumas vezes, as coisas habituais se tornam estranhas; não o estranho de não reconhecer, mas o estranho desconfortável, aquele que incomoda, que é anormal…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Algumas vezes, as coisas habituais se tornam estranhas; não o estranho de não reconhecer, mas o estranho desconfortável, aquele que incomoda, que é anormal. Coisas que antes eram familiares se tornam incomuns. Assim foi com a música. Tudo começou como um sonho, ou melhor, como um sussurro musical no meio da noite, que penetrava a minha mente. Quando acordei, a melodia continuava ali, flutuando no meu cérebro e, por algum motivo, ela não ia embora. Às vezes, acontecia de uma melodia se prender à minha mente, e eu ficar a cantarolar por horas e, às vezes, dias, aquela mesma melodia. Sentei-me na beira da cama, tentando capturar a melodia que ainda flutuava no meu cérebro. Era bela, embora impossível de cantarolar. Meus lábios não conseguiam formar os sons. Fui até meu violoncelo e tentei transcrever aquela melodia para as cordas. Posicionei o arco, alinhei os dedos e, então, nada. Eu não conseguia tirar aquela melodia da minha cabeça e, ao mesmo tempo, não conseguia trazê-la ao mundo real.
Os dias pareciam passar lentos, e a repetição daquela melodia começou a se tornar torturante. A música, antes lenta e tranquila, parecia aumentar aos poucos. Ela não parava, não alterava, repetia-se em um loop dentro da minha cabeça. Eu tentei escrevê-la, traçava as pautas com rapidez, mas as notas não se encaixavam. Era como se a música fugisse de qualquer estrutura lógica; as notas pareciam se negar a tomar forma no papel, rejeitando existir fora da minha mente. Minhas tentativas de cantarolar eram inúteis: o som na minha cabeça parecia se dissolver assim que passava pela minha garganta. Ainda assim, eu insistia. Insistia dia após dia. Minhas mãos tremiam a cada tentativa, e minha mente parecia se desfazer lentamente, exausta de tantas noites sem dormir com aquela melodia que não queria existir.
Eu me recordo do momento exato em que essa música começou a me torturar de verdade. Eu estava fora de casa, em uma tarde, tentando me concentrar nos sons das folhas, dos pássaros, dos carros, de tudo ao meu redor. Tentando me concentrar na paisagem. Mas parecia que tudo ia ficando mais cinzento, mais escuro, e, lá no fundo, a música aumentava. Seu tom se intensificava, suas pausas diminuíam, e as notas se elevavam, como se, a qualquer momento, fosse alcançar o clímax e, com isso, fazer meus miolos escorrerem pelos ouvidos.
Voltei para casa e tentei mais uma vez tocar aquela melodia maldita. As cordas vibravam de maneira errada, as notas vinham distorcidas, o tom estava errado, e eu, frustrada. Até o violoncelo parecia se recusar a cooperar comigo. Algo estava diferente nele — ou talvez eu estivesse diferente.
Comecei a evitar as pessoas. Suas vozes pareciam intensificar-se ainda mais; cada conversa me perturbava, tornando o som mais intrusivo, mais alto. Eu não suportava mais o mundo lá fora; cada ruído acrescentava mais urgência à melodia. O violoncelo tornou-se um fardo, mas eu não conseguia parar de tentar tocar a melodia. Achava que, se eu conseguisse, talvez ela cessasse.
Então, tentei. Presa em minha casa, com janelas e portas trancadas e o som de fora abafado, coloquei o arco sobre as cordas, fechei os olhos e me concentrei na melodia dentro da minha cabeça. Ela já se misturava com o tique-taque do relógio, os ruídos dos canos, o som da geladeira, o barulho do ventilador e até o zumbido da eletricidade da casa. Puxei o arco com força, e o som que saiu não era da melodia. Talvez nem fosse humano. Era como um lamento, que fez todo o meu corpo se arrepiar, as paredes tremerem e a madeira do violoncelo vibrar.
Soltei o violoncelo e olhei para ele com horror, mas não conseguia controlar o impulso de pegá-lo outra vez e tentar tocar a melodia, que agora parecia rir dentro da minha cabeça. Já nem sei o que é real. A melodia não me deixa, e eu não consigo deixar de tentar tocá-la. O violoncelo parece não aguentar mais: suas cordas estão tensas, prestes a arrebentar. Eu só quero tocar essa maldita melodia, só quero que ela tome forma — ou talvez seja melhor que ela permaneça aqui, dentro da minha mente, onde sempre esteve.
Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa
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O Retrato
Com um movimento violento e preciso de minhas mãos, um arremesso de tinta laranja-abóbora na tela completava a pintura, e o transe finalmente…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Com um movimento violento e preciso de minhas mãos, um arremesso de tinta laranja-abóbora na tela completara a pintura, e o transe finalmente terminava. Vivaz, espirituoso e, ao mesmo tempo, fúnebre, o retrato estava completo. Ele é a lembrança de um passado mais simples, um passado mais calmo, em que eu era eu mesmo. Que retrato, você me pergunta? Ora, o retrato da defunta, da decomposição, do que acontece com a carne morta quando vai ao chão. O retrato de minha mãe.
Ela morrera cinco outonos atrás. Terminei seu retrato meses depois. É assim que me lembro dela, é a imagem mais vívida que tenho, minha âncora em meio à tempestade da loucura. Lembro-me de seu corpo parcialmente devorado pelos vermes e dos fungos que crescem onde antes floresciam suas generosas pupilas. Penso nesse retrato com frequência. É a melhor memória que tenho de quem eu era e foi também assim que tudo isso, o que escrevo agora nessas páginas, começou.
Em nossa família, pintamos assim há gerações. Das abóboras, fazemos o pigmento alaranjado; das beterrabas, o vermelho-sangue; das hortaliças, o verde; do musgo, os tons mais escuros. Trazemos vida para a arte morta ao usar a própria vida. A vida decomposta, esmagada, misturada, transformada, morta, mas ainda assim viva. Esses são meus ingredientes; esses sempre foram nossos ingredientes. A morte traz para a tela o que um dia já foi, e dali em diante, eternamente será. É inebriante como conseguimos cristalizar o efêmero; é a nossa própria forma de honrar e dar vida eterna aos ingredientes que alimentam nossa arte — e, por extensão, nossa própria vida. Outrora, já fomos muitos, nosso sobrenome carregado por dezenas, sim, dezenas de receptáculos. Dezenas de pintores, de artistas, pessoas capazes de, assim como eu, eternamente capturar o que há de mais belo e mais transitório neste mundo: a vida.
Mesmo que hoje esteja sozinho, ainda sou muitos. A verdade é que o mundo seguiu em frente e nós ficamos. Cada vez menos primos tinham descendentes, tios que não encontravam tias, irmãs que morriam cedo; cólera, tísica, a ciência, a medicina, o progresso — cada um, um golpe em nossa família, em nossa vida. O mundo seguiu em frente, e eu sou o último.
Não há mais ninguém; somente eu conheço o segredo que vive em minha família há centenas de anos, talvez milhares. Um segredo lúgubre, laranja-carmesim. O segredo de que, para capturar a vida, é necessário também a morte. A mesma carne que alimenta os vegetais alimenta também nossas tintas: carne fresca, ossos, sangue e carne putrefata. Há incontáveis retratos de nossa família espalhados pelo mundo, todos feitos de acordo com a tradição: o corpo ancestral alimenta a própria tinta em um ciclo perpétuo de decomposição e arte.
É claro que não parei de pintar nesses últimos anos em que fui o único. Eu não poderia cessar a arte e deixá-la morrer, a arte que é a própria vida. A pulsação da vida precisava continuar. Mesmo não tendo mais corpos ancestrais, eu precisava pintar. Descobri que nem só de ancestrais se faz tinta — mas de qualquer um. Essa é a beleza da minha obra desde então: posso honrar qualquer pessoa. Qualquer um que seja digno pode ser cristalizado em arte — basta, é claro, que eu tenha acesso a seu corpo decomposto, a seu sangue putrefato, e à vida que cresce nutrida pelos seus restos. Criei muito mais nesses últimos cinco anos do que nos trinta que os antecederam, pois não preciso mais esperar o curso natural da vida. Posso, afinal, antecipar a morte. Basta querer. Basta fazer.
Foi por causa dessa descoberta e dessa prática que me perdi. Desconfio que não fui o primeiro de minha família a fazer tal descoberta — mas fui o primeiro de quem tive certeza. Hoje sei que não fui o único; há ecos de vidas passadas que habitam minha mente, dançam em meu consciente e se confundem com quem eu sou.
Há algo mais que preciso registrar nestas páginas: desde que pintei minha mãe, eu a escuto. Ela sussurra em meus pensamentos — e grita, algumas noites — conta-me verdades esquecidas. Mas mãezinha não é a única, não, é claro que não. Eu sei tanto sobre tantas pessoas, são tantas vozes... todas as pinturas, todos os retratos que pintei, estão mais vivos do que nunca. Os corpos se movem, as tintas tomam formas, se misturam e formam novas cores, as pinturas falam. Falam diretamente em meus pensamentos — e eu as escuto.
Mais do que escutar, eu me tornei outros. Com o passar dos anos, à medida que lentamente me perdia, acabei por esquecer quem eu era. Há tantas histórias, tantas famílias, tantas vidas interrompidas por minhas mãos, e que agora vivem pela minha mão, veem pelos meus olhos e são meus pensamentos. Não poderia lhe contar meu nome, pois ele se dissolveu em muitos. Não poderia lhe contar o nome de minha família, pois o sangue foi misturado.
Em meu desespero, há dois outonos, ofereci meu braço esquerdo ao jardim. E pintei. Pintei meu próprio braço — não um retrato, não, não. Nunca ousamos pintar um retrato de alguém vivo. Estremeço agora, mesmo amarrado, só de pensar nas possíveis consequências. Mas a verdade é que retomei um pouco mais de mim. Meu braço direito começou a se comportar mais como eu mesmo — mas os pensamentos, as vozes, a sabedoria e a existência, ah! Elas continuaram se misturando. Em um esforço de compreender melhor meu passado, passei então a retocar antigos retratos de meus antepassados com tintas frescas — tintas de outros corpos, tintas de outras pessoas.
Sou lembrado agora de uma doce, feliz memória: o dia em que ganhei meus pincéis das mãos ensanguentadas de minha mãe. Meu irmão acabara de nascer, e minha mãe me contou que eu teria a honra de pintá-lo. Nasceu natimorto. Foi uma noite feliz, e a lembrança me faz sorrir. Sou lembrado de outra memória: do dia em que dei meu primeiro beijo, anos depois de já ter ganhado meus pincéis. Um rapaz elegante visitava minha família querendo vender sementes para nosso jardim de rosas. Como era encantador... Espere. Rosas? Nós nunca tivemos um jardim de rosas. Enfurecido, reconheço que assim têm sido meus dias. Confusos, com memórias que são minhas e memórias que são minhas, mas não originalmente minhas. Vejo os quadros andando pela casa. Vejo meu avô cozinhando o almoço e me alimento da comida que ele preparou. Mas meu avô está morto há décadas. Fui eu quem cozinhou? Foi sua vida animada com poderes sobre a própria matéria, mesmo depois de morto? Não sei dizer. Mas meu pai limpava a casa enquanto eu comia.
Foi assim que pude, então, conhecer muito mais sobre nossa família; soube que não fui o primeiro a explorar retratos de fora da linhagem. Outros parentes ousados já o haviam feito, mas nunca tiveram os excelentes resultados que obtive. Fui o primeiro a misturar tinturas, fazendo com que o próprio sangue se misturasse. Nosso — meu — legado hoje se confunde com o legado de tantos outros. Sou pintor. Sou vendedor. Sou bailarina. Sou médico. Não, médico não. Médicos não compreendem a beleza da morte; prolongam, inutilmente, a efemeridade da vida. Eu posso cristalizá-la para todo o sempre.
A confusão me levou a continuar tentando, tentando conseguir voltar a ser único novamente. Mesmo que meu braço tenha se tornado meu novamente, mesmo que tenha continuado pintando, a confusão crescia. Precisava descobrir mais sobre quem eu era. Precisava saber. Foi então que ofereci, no outono passado, minhas pernas ao jardim e as pintei. Minha esperança era de que — pelo mesmo princípio da oposição que restaurou meu braço — a parte inferior de meu corpo restauraria a parte superior. Não foi o que aconteceu.
Hoje, é como se minhas pernas tivessem tomado vida própria. Pela primeira vez, não cristalizei um momento efêmero de vida, mas, sim, dei vida a uma pintura. Elas andam por aí, vagando; às vezes me trazem notícias, outras vezes somem por vários dias. Não as vejo, é claro, mas sei que vagam. Eu sei que andam com rumo e propósitos próprios. Nós sabemos. Meus pés vagantes nos contam segredos que descobrem. Às vezes estou aqui, mas estou também tão longe, tão distante, experimentando chãos sob os quais nunca pisei. Agora mesmo, enquanto escrevo estas páginas em uma noite fria, com lágrimas escorrendo de meus olhos, sinto — em ambas as minhas mãos — o chão úmido e convidativo do jardim onde plantamos, ansioso, aguardando o que está por vir. Mas sinto também a textura do veludo. Sedoso, leve, aquecido, das deliciosas roupas de cama onde minhas pernas se deitam com outrem. Somos tantos. Vivi mais vidas do que jamais pude imaginar. Deitei-me com mais pessoas do que jamais me deitaria se não fosse por minha arte. Por minha pintura. Sinto que descobri o verdadeiro significado de honrar a vida através da morte. Sou a própria materialização de tal honra, pois, através da morte, vivo — vivemos.
Estou perdido. Perdi-me em tal honra — por um lado, essa é a maior e mais intensa exploração da arte de minha família em séculos — meus antepassados me dizem o tempo todo. Suas vozes ecoam em minha mente, pedindo que eu continue e me incentivando a não desistir, implorando que não abandone minha família. Por outro lado, anseio ser eu novamente. Quero poder viver minha vida, descobrir coisas novas e não saber de coisas que não vivi. A angústia entre abandonar a tradição secular para ser eu mesmo ou continuar era tremenda. Preciso me libertar das memórias que não me pertencem, e por isso, decidi, há duas semanas, decidi. Eu precisava de uma saída, precisava voltar a ser eu mesmo, mas também precisava continuar com a arte. Era a única solução.
Cortei a madeira, comprei o aço, afiei a lâmina. Além de pintor, tornei-me carpinteiro. Trabalhei arduamente noite após noite e, nesse mesmo jardim, construí uma guilhotina. Minha própria guilhotina. A consciência de estar criando-a pesava em cada golpe do martelo. Sei que fui eu quem a construiu, sei que essa arte foi somente minha: as vozes gritavam em meus pensamentos a cada segundo em que trabalhei nela. Uma cacofonia ensurdecedora ocorria em minha mente enquanto meu braço trabalhava: “Não faça isso!”, “Pare imediatamente!”, “Você condenará sua família ao esquecimento!”, entre tantas outras advertências, ameaças e súplicas. Não dei ouvidos a nenhuma delas. Sei que estão enganadas. Quanto mais avançava, mais difícil ficava. Somente uma parte de mim não lutou contra o restante do meu corpo enquanto construía: minhas pernas. Não posso dizer o porquê com certeza, é claro. Mas desconfio que seja porque elas sabem que estaremos reunidos ao fim de tudo.
Em minha desesperada busca por mim mesmo, fui mais longe do que qualquer um de minha família já foi. Quebrei a última barreira esta noite: terminei meu próprio retrato. Completo. Ainda vivo. Pela primeira vez pintamos alguém a partir de seu corpo vivo e não putrefato. A profundidade dessa criação não posso ainda compreender, não sei mais quem sou, mas sei o que pintei. Sei que posso voltar a ser eu mesmo. Sei que posso ter minha própria vida.
Enquanto contemplo, agora, a lâmina brilhante sob a luz laranja da própria lua, percebo que o retrato não é apenas um reflexo de quem fui, mas também de quem posso me tornar. Preciso desfazer completamente a linha entre a vida e a arte, pois o que está por vir não é um fim, mas um recomeço. Meu coração, meus pulmões, meu torso, ali — aqui — está a vida. Ali está o ar que respiro, o sangue que percorre minhas veias — e a tela de meu retrato — ali estou eu.
Minha mente, no entanto, está tomada por todos os retratos que pintei e restaurei, por todas as outras vidas que interrompi e que vivi. Preciso separar eu de mim mesmo, para que possa novamente me tornar quem serei. Amarrei-me à guilhotina para que não fuja do meu próprio destino — não sei do que as vozes, meus pensamentos, seriam capazes nesses últimos minutos de suas vidas, enquanto escrevo minha própria história para mim mesmo.
É chegada a hora. Com a mesma mão com a qual registro essas últimas palavras, liberarei a lâmina que entregará minha cabeça — minha mente — ao jardim. Sei que somente assim meu corpo poderá seguir, sendo eu, apenas eu. Meu retrato será alimentado com o alimento que nascerá da minha cabeça, do jardim fertilizado novamente. E então, finalmente, serei eu novamente. Completo. Como arte. E o resto? O resto é sangue.
Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa
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OTO
Dizem que a única coisa perfeita no mundo é Deus, mas eu tenho que discordar. Sempre fui do tipo que acredita na capacidade do homem…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Dizem que a única coisa perfeita no mundo é Deus, mas eu tenho que discordar. Sempre fui do tipo que acredita na capacidade do homem de se adaptar, e, usando os métodos certos, qualquer um pode atingir a perfeição. Por essa razão, estou estudando estética. Na noite passada, conheci uma garota na aula; havia recém se transferido para nossa cidade, então resolvi dar as boas-vindas e ser educado. Havia algo nela que realmente me atraía, não sei dizer se eram seus olhos, com heterocromia, que proporcionavam uma assimetria hipnotizante, ou seu sorriso torto, que transmitia uma simplicidade contagiante.
A conversa fluiu tão bem, como um riacho tranquilo desaguando nas violentas águas marítimas. Fazia tempo que eu não encontrava alguém como ela, era perfeita para mim. A cada dia que passava, dedicávamos mais tempo um ao outro; passamos a fazer trabalhos juntos e até saíamos para beber. Tudo estava bem. Tomei a liberdade de preparar algumas surpresas, no anseio quase embriagante de revelar tudo a ela.
Logo, o festival de inverno chegou, a melhor época do ano. Amo como o doce frio da neve torna tudo estático e belo. Tomei coragem e a convidei para o baile. O suspense de aguardar sua resposta me dava náuseas, tudo girava... Como pode? Uma única mulher me fazer sentir assim. Ela é realmente perfeita para mim. Dois dias depois, a resposta foi dada. Meu coração quase saía pela boca. Estava tudo pronto.
A grande noite chegou. Saímos, dançamos e bebemos. Porém, ela parecia um pouco estranha, desconexa. Perguntei se estava bem, e ela dizia que sim. Eu planejava convidá-la a ser minha para sempre, mas fui surpreendido pela iniciativa da jovem que, outrora, fora tímida: “Vamos para a sua casa”. Ainda sinto os arrepios de seu sutil e sedutor sussurro em meu ouvido.
Entramos no meu carro e seguimos para o nosso glorioso destino. Chegamos à minha casa, e já estava tudo arrumado, cada móvel organizado de forma perfeitamente simétrica, como tudo deveria ser. Minha amada, tomada por luxúria, me conduziu ao meu próprio quarto; guiada pelos seus instintos, como se já conhecesse a casa. Ela deitou-se sobre a cama, me convidando para nos perdermos em nossos corpos. Minha boca salivava de tamanho prazer, o grande momento havia chegado. Peguei um par de algemas e a prendi na cama, ela parecia excitada; seu rosto ruborizado e seu corpo exposto, era ainda mais do que eu imaginei. Coloquei uma fita em sua boca.
Minha querida se debatia, confusa, o que era compreensível; as outras também ficaram assim. Peguei meus instrumentos, o processo precisava começar imediatamente, mas com minha doçura se movendo tanto, seria impossível. Tratei de dopá-la de uma vez. Ela dormiria agora, mas acordaria perfeita. A primeira coisa era arrumar essa boca desalinhada, nada que um enxerto de pele não resolvesse. O próximo passo foi pegar a cuba de olhos na geladeira; por sorte, a anterior tinha da mesma cor. Retirei o errático e o substituí.
Passei o resto da noite corrigindo outras assimetrias em seu corpo. Agora, está perfeito.
Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa
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Amor de maldição
Ela tinha a voz rouca, rasgada; quando falava, eu percebia em sua garganta o esforço que aquele gogó tinha para dar vazão ao som que parecia…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Ela tinha a voz rouca, rasgada; quando falava, eu percebia em sua garganta o esforço que aquele gogó tinha para dar vazão ao som que parecia friccionar as cordas vocais. O resultado era aquele tom, aquele sonzinho meio que aveludado saindo de sua boca. Aquilo me lembrava das brincadeiras de infância, de quando eu transformava as pás do ventilador da empregada em microfone, o que me deixava com aquela voz metálica, de robô...
Entrei naquele cursinho sem saber o que me esperava. De início, era tudo uma surpresa, afinal, fazia tempo que eu não estudava, não abria um caderno. Naquele momento, tudo o que eu precisava era de conhecimento, elevar minhas capacidades para os vestibulares que se aproximavam. Eu estava disposta a estudar, a entrar numa faculdade, a ter um futuro em mente. Só não imaginava que começaria a amar...
Ela surgiu numa das matérias onde eu tinha as maiores dificuldades. Nunca gostei de ler, somente o necessário: revistas, jornais; eu lia o que tinha de mais banal, o mais corriqueiro; uma lida básica sobre a programação de tv e a previsão do tempo, alguma notícia policial, fofoca das celebridades... Literatura, nada... Machado de Assis, Clarice Lispector, Graciliano Ramos... eram nomes que eu só ouvira falar.
Quando ela começou a explicitar a importância daqueles autores, a dizer sobre o que eles tinham inovado, deixado para trás e começado a fazer, foi quando eu senti um choque, uma nova leva de sensações que eu nunca imaginei sentir. Se eu já havia amado alguém antes daquela maneira? creio que sim, mas há muito tempo. Aquilo tinha ocorrido com as mesmas proporções quando eu ainda estava no ensino fundamental, quando tinha recém deixado de ser uma criança, me preocupando já com roupas de marca e me decidindo pelos artistas favoritos. Gostava de um menino lá; não só eu, mas diversas colegas compartilhavam do mesmo gosto — até os meninos, que pareciam orbitar sempre ao redor do rapaz, meio que o amavam. Acabou que ele ficou com uma das apaixonadas por ele, uma alemã, que hoje em dia fiquei sabendo estar um horror de esquisita.
Enquanto passava aquele filme na minha cabeça, retornei ao estado de atenção que antes me proporcionara a reflexão. A professora me conquistava pela voz, cativava com seu doce modo de falar, de explicar a matéria. No ensino médio, nem perto chegavam de tal capacidade as professorinhas sonsas, que sabiam apenas copiar dos livros o conteúdo transmitido aos alunos — estes, então, achavam mais interessante bagunçar a sala ou ficar na deles escutando música nos fones de ouvido.
Ali, na frente da sala de aula do cursinho, se destacava um tipo diferente de professora, mais sabedora do assunto, mais culta, mais elegante. Detrás daqueles enormes aros dos óculos, eu observava uma profissional segura do que falava, preocupada em fisgar seus alunos pela transparência do discurso, sem rodeios, sem gaguejar. Era de outro mundo a professora de literatura daquele cursinho...
Alguns meses se passaram e as aulas foram se tornando mais e mais interessantes. Mergulhada no mundo dos livros, eu me via já prestes a poder me decidir sobre um futuro, sobre um rumo seguinte àquelas deliciosas horas passadas na pequena sala de aula. Enquanto copiava as coisas escritas no quadro branco, porém, eu compreendia receber estímulos não apenas dos esquemas organizados pelas canetas coloridas, das datas que me colocavam diante dos momentos-chave da literatura brasileira; enquanto eu transcrevia para as folhas do meu caderno o conteúdo exibido no quadro, eu escutava o som lírico e mágico fluindo lá da frente até meus ouvidos, que recebiam as angélicas vibrações acústicas da professora letrada e simpaticíssima, que falava e falava e falava, conquistando-me de maneira irreversível...
Minha intimidade com ela era do mesmo nível que o dos colegas: uma aproximação simplesmente comum, que bastava à solução de dúvidas e dicas de leitura. Numa dessas oportunidades, quando eu realmente precisei conversar a sós com ela para lhe avisar sobre uma futura falta minha nas aulas, foi quando tive um abalo bastante desagradável, um erro grosseiro da minha parte, um passo em falso da minha confiança que crescia e já não cabia em mim.
Sentada na classe dela, a professora percebeu minha aproximação, depois que todos os outros estudantes tinham ido embora. Cheguei ao seu lado, cumprimentei-a nervosamente e comecei a falar. Disse-lhe os motivos da minha ausência na aula seguinte, assuntos pessoais, um caso de saúde psíquica... Ela, calma e aberta ao diálogo, compreendeu no mesmo instante meu problema, passando a alongar o assunto até um ponto em que eu me esquecia do que falávamos. Respondendo-lhe de maneira automática, eu apenas concordava com suas proposições, acenando maquinalmente com minha cabeça a cada ideia ou exemplo de vida que ela me revelava. Em certo momento da conversa, já envolta pela aura animadora da professora, aliciada por uma força esmagadora imanente dela, eu me via, cegamente, de encontro ao ombro da mulher, jogando-me adormecidamente sobre o corpo imóvel e repousado da educadora... Num átimo, saída de uma viagem inebriante, numa fuga temporal incompreensível, eu retornava àquela realidade estudantil, sendo cutucada no pulso, no antebraço pelos dedos finos e delicados da professora.
Baixo minhas vistas e me deparo com o sorriso indeciso dela, um sorriso que me deixava contra a parede, obrigada a me explicar imediatamente...
Minha vontade era de sumir, consumir-me em pó e sair voando pela janela aberta da sala — janela que eu abria, às vezes, devido aos calores desconfortáveis que sentia de uma hora para outra —, que lá de fora recebia um vento refrescante e rumoroso da noite. Como explicar-me, encontrar palavras para traduzir os efeitos efusivos da voz conquistadora e enfeitiçada que dela vinha até meus tímpanos? Como eu iria me aprumar, retomar uma postura que já não se sustentava com forças naturais, e me manter séria ao confessar à professora o sortilégio que era escutar os ruídos quase imperceptíveis de sua voz rouca?
Fiz-me de desentendida e contornei a situação. Revelei a ela uma suposta queda de pressão, que vez ou outra me acometia nos momentos mais inoportunos, fazendo-me buscar apoio nos esteios mais próximos do corpo. Pedi a ela que não tomasse "conclusões precipitadas", fazendo de tudo para fazê-la acreditar naquele sintoma mentiroso. Fiquei segura da minha conduta ao ver a professora depositar seus materiais, suas canetas e celular dentro da bolsa, pedindo a seguir que eu lhe avisasse caso sentisse a necessidade de ir ao hospital.
De início, achei "gracioso" da parte dela oferecer assim, sem empecilhos, uma carona para me socorrer. Contudo, eu sabia que seria um logro, uma enganação da minha parte continuar com aquele jogo. Por mais que eu quisesse escalar aquele montante de chances que eu tinha de me aproximar ainda mais da professora, "coloquei meus pés no chão" e resolvi não fazer uso da boa vontade dela. Abrandei sua autêntica preocupação e me apresentei revigorada, passado o "susto" que antes me afligira.
Despedimo-nos uma da outra e saí da sala. Enquanto caminhava pelo longo corredor da escola, rumo à saída, eu sentia no peito um misto de ardor e esmorecimento, duas temperaturas que se misturavam e formavam um sentimento esquisito, caótico e — o que sobressaltava dentre minhas suposições — "verdadeiro", resultado de uma experiência vivenciada num ambiente de estudos, de discussões literárias...
Naquele dia em que faltei à aula do cursinho, me senti extremamente mal. Como se um buraco surgisse no meu âmago, meu organismo se agitava dum modo que eu não conseguia acompanhar. Não era dor, nem um desconforto passageiro; o mais próximo que eu chegava de concluir era que sofria de uma "falta", de um furto às minhas necessidades mais vitais.
A terapia que eu frequentava já não supria a realidade em que eu me via feliz, saudável, "normal". As palavras da doutora, "profissional", "especialista", entravam por um ouvido e saíam no outro. Eu já tinha me apercebido do poder da palavra: era tarde. As tentativas dela de me ludibriar, de me fazer ver meus "problemas" de uma outra forma, eram falhas. A professora de literatura do cursinho tinha me apresentado, de um modo muitíssimo superior, a virtude das palavras, a estética das boas letras, a medida intocável da poesia formal, a anarquia revolucionária do estilo livre... A psicologia, perto da literatura, era apenas uma sombra, incapaz de tomar o protagonismo da prosa humana, patrimônio "material" da humanidade.
Saí do consultório decidida a não mais voltar — que me cobrassem os custos necessários! O que eu precisava era ler, adicionar mais material à minha cultura, armazenar mais informação no meu histórico de leituras feitas. Eu chegaria em casa, onde vivia sozinha, herdeira de um casamento suicida, e faria uma maratona, um sarau literário comigo mesma. Tinha nas minhas prateleiras quase todos os romances indicados pela professora, dos mais basilares do academicismo brasileiro até os clássicos do Velho Continente.
Chegando em casa, estagnei diante daqueles novíssimos volumes que enfeitavam as paredes da sala, dos quartos, dos criados-mudos. Sobre o tapete oriental, volumoso e colorido, ornamento secular da residência, havia caixas de papelão, encomendas pagas, títulos esgotados no mercado editorial brasileiro, encontrados apenas em revendedores particulares — um labirinto de opções, horas e horas possíveis de se passar num universo criado por autores nacionais e internacionais, por cânones, por vanguardistas...
Subi ao meu quarto e optei por uma leitura em voga nas últimas aulas do cursinho. Uma coletânea de contos, tramas fantásticas e absurdas, escritas por um autor maldito e obscuro... coisas que a professora dizia nas aulas. Aquela seria a obra que me acompanharia em mais uma noite, passada sob a luz da lua que penetrava curiosa pelas janelas retangulares do solar...
Na semana seguinte, eu estava de volta ao cursinho. Sete dias longe da sala de aula, e eu havia me dado conta do efeito avassalador causado pelo acúmulo de histórias na minha cabeça; um zunido capcioso, sugestivo, sobrepunha agora as picuinhas cotidianas que eu estava acostumada a vivenciar. A simples observação dos raios do sol, a lamúria dos pombos, o barulho sussurrante das folhas que no jardim exterior caíam das árvores, que até pouco tempo me comunicavam alguma "poesia", agora eram transformados em meros significados, em raquíticos acontecimentos, muito aquéns de uma realização potencial; havia agora um verdadeiro motivo na vida, que eu cogitava ser plausível, real...
Não seria nenhuma grande loucura, uma atitude impensada... Poe, ao escrever seu conto, devia estar sob o efeito de alucinógenos, do ópio talvez. Eu estava alucinada, sabia disso. O sortilégio que me dominava era real, vinha da professora, do ar expelido pelos pulmões dela. Sua voz me conquistara desde o primeiro dia de aula, quando ela chegou na sala e se apresentou para a turma. A partir dali, nenhum domínio eu tinha sobre o futuro de nossa relação; fosse uma amizade, um namoro, uma simples relação alternativa entre duas mulheres, fato é que não seria um relacionamento normal. Havia desde aquele primeiro encontro um combustível a mais para a minha presença ali, entre gente desconhecida e em busca de uma vaga na universidade. Eu chegava apenas ao cume de um romantismo tardio, não vivenciado de maneira semelhante até àquela altura da minha vida.
Aproximando-me da escola, eu me descobria trêmula, bastante ansiosa para aquela chegada na sala de aula após uma semana longe das exposições, da classe, da voz aveludada da professora. O meu desejo era que as coisas ocorressem como eu fantasiava: uma recepção acalorada da educadora, um "como estás?" sincero, preocupado, naquele tom de voz ruidoso pelo qual eu amava ser "seduzida"...
Soubesse eu que a dura realidade ainda vigorava, que os acontecimentos lidos nos livros estavam longe dos destinos traçados pela efêmera e limitante existência efetiva, eu faltaria mais uma semana, abandonava de vez o cursinho, não mais iria ao encontro da professora...
Meus pêsames professora, foi uma infelicidade, uma grandessíssima pena eu ter visto a senhora naquela situação, quando eu cruzava a rua, prestes a adentrar no portão da escola. Você e seu namorado, seu marido, eu não sabia... Para mim você era única, singular, uma pessoa imaculada, sem traços de parentesco com ninguém, uma divindade na Terra. Eu, órfã e sozinha, sem amparos que me fizessem acreditar na solidariedade humana, depositava em você toda esperança de ainda me ver com alguém, preenchida de um amor que eu nunca tive... Uma lástima aquela visão...
Ainda mais cruel foi você ter me chamado, com seu irrecusável sorriso no rosto, a fim de me apresentar para aquele invasor, seu companheiro. O que você queria? que eu me abrisse toda para ele? que eu demonstrasse simpatia diante do ladrão de sonhos? Impossível. Eu estava arrasada, não conseguindo acreditar em tamanha desilusão.
Cumprimentei você e seu homenzinho e desviei para o corredor da morte, em direção à sala de aula, que jazia abandonada pela professora e sua pureza intocável.
Aquela foi a pior aula, a menos interessante, sem graça alguma. Você, absolutamente calma, parecendo não suspeitar da dor que eu sentia, continuava falando, sem interromper sua ladainha, nem por um minuto. Quando você finalmente parou, não foi para descansar, para beber um pouco d'água na sua garrafinha e revigorar o encanto da sua distinta voz: vi que você pegou o celular e pediu licença a todos, saindo porta afora a seguir... Aquilo irritou-me profundamente, foi o estopim!
Quando você retornou, com aquele seu costumeiro sorriso, eu já era outra, assumira uma insólita identidade. Mantive a pose, fazendo de conta que escutava e me interessava pela sua aula, ficando assim até o final, até onde minha paciência suportava. Podia-se dizer que minha feição exterior era completamente oposta à interior; corroída, deteriorada... insuportável era o peso que me atormentava naqueles minutos finais de aula.
Quando acabou aquele tormento, esperei que todos tivessem juntado seus pertences, me certificando de que não sobrasse nenhuma vivalma para testemunhar meus passos seguintes. Esperei você guardar suas coisas, apagar o quadro, fechar seu livro... Eu reorganizei a sala, coloquei as cadeiras no lugar, alinhei-as todas; deixei o ambiente limpo, para assim ele ser encontrado pela turma da manhã seguinte, como você sempre nos lembrava... Então me aproximei de ti.
Você nem suspeitava, estava segura, tranquila como nunca! Parecia feliz; sem sorrir, sem exclamação alguma, eu detectava essa felicidade, esse porto seguro existindo em algum lugar... um lugar distante dali, daquela sala. Nem meu olhar, que fuzilava seu rosto, sua boca, em busca de respostas para desmascarar a bruxaria oriunda de sua voz você era capaz de decifrar... Você realmente estava em outra...
Primeiramente, eu pensei em mentir, em te deixar preocupada como naquela vez em que quase desmaiei no seu colo, e pedir uma carona até a minha casa. Mas aí pensei de novo. Num instante, achei melhor nutrir sua curiosidade e dizer que havia lhe comprado um presente, uma "coleção de obras" que você não acreditaria quando visse; você me olhou interessada, dando créditos àquelas palavras... Eu torcia para que você não acreditasse.
Fomos juntas no seu carro, pela primeira vez. Você dirigia e me perguntava pelo nome das ruas, confirmando no seu GPS o endereço da minha casa. Mal habituada àquele bairro distante da periferia, sua cabeça não parava de se mexer, olhando a todo momento para os lados — creio que fascinada pela arquitetura das residências. Enfim, tínhamos chegado...
Desembarcamos do carro e caminhamos lado a lado até as proximidades da minha casa. Você continuava surpresa com a região onde que eu morava, elogiando a limpeza das ruas, estimando o silêncio "respeitoso" da vizinhança... Quando eu contornei o imenso cercado, acionando a abertura do portão, você perguntou: "chegamos?"... Sim, essa era a minha casa...
Com as luzes ligadas aqui dentro, você achou que tinha gente, perguntou se eu estava "acompanhada". Claro que não. Mas não te julgo, eu nunca lhe disse nada, nenhum detalhe sobre a minha vida... Você passou pela porta, esperei que se aproximasse da vasta prateleira com livros, e te golpeei...
Atingi sua nuca com o atiçador da lareira, esforçando-me com o mínimo da força necessária para fazê-la desmaiar. Você caiu dura, causando um estrondo no tapete da sala. Corri para o seu lado e logo me certifiquei do seu desmaio; você ainda respirava, fazia barulhos com a garganta, saía ar do seu nariz..., mas não abria os olhos...
Peguei as chaves da empregada, há muito esquecidas sobre a papelada dos advogados, e abri o pequeno compartimento embaixo da escadaria. Após, voltei para perto do seu corpo desacordado, assustadoramente imóvel, e agarrei seus calcanhares; tive de me esforçar para puxá-la até o pequeno quarto, depositando com extrema agonia e dó sua figura inerte sobre aquele colchão surrado...
O arrependimento, mesmo que tardio, não trará mais nada de volta, nem sua confiança, nem seu espectro simpático, que tanto me fez tentar contornar a desconfiança sobre este mundo, essa realidade ora estimulante — como a sua voz acalentadora —, ora insatisfatória...
Subi agora há pouco, ainda posso te ouvir, caso você desperte... Enquanto você dorme — espero que durma —, continuarei lendo A carne, de Júlio Ribeiro, livro que você me indicara. Estou amando... verbo perigoso esse... Espero ouvir novamente sua voz.
Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa
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Quitandas da Vovódelícia
O ano era 1994, o mês era agosto, um período terrível no Cerrado. Nessa época do ano, o tempo é quente e seco. Uma camada de poeira e fumaça paira no ar…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
“As mãos das mulheres piedosas cozeram seus próprios filhos e serviram-lhes de alimento”
Livro das Lamentações 4;10
O ano era 1994, o mês era agosto, um período terrível no Cerrado. Nessa época do ano, o tempo é quente e seco. Uma camada de poeira e fumaça paira no ar. A baixa umidade relativa do ar torna os dias abafados e sufocantes. Respirar é quase um suplício; a pele, ao mesmo tempo ressecada pela manhã, fica também bastante pegajosa à tarde, devido ao calor que causa uma sudorese constante. Verdadeiramente, é uma época praticamente insuportável.
No esporte, após a tristeza pela morte de Ayrton Senna — o maior piloto de Fórmula 1 da época — numa triste manhã de domingo, no mês de maio, logo a alegria voltaria aos lares brasileiros com a conquista do tetracampeonato mundial pela seleção brasileira de futebol, numa animada tarde de domingo, no mês de julho. Mesmo mês em que entrou em vigor o Plano Real. O país ganhava uma nova moeda e a perspectiva de uma tão sonhada estabilidade econômica. Tudo parecia estar às mil maravilhas, até mesmo para o jovem Cláudio Martins, que acabara de conseguir seu primeiro emprego, iniciado já no primeiro dia do mês de julho.
Oriundo de uma família simples e muito humilde, o jovem Cláudio, após uma infância bastante sofrida numa pequena cidade do interior do estado — lugar onde não havia muito trabalho, tampouco perspectivas para um jovem sem muitas posses —, se mudara com a família para a capital. O pai — um humilde homem do campo — logo conseguira emprego como vigilante noturno numa garagem de ônibus urbano. Sua mãe — uma cozinheira bastante talentosa — arranjara uma ocupação como auxiliar de cozinha numa pequena escola do bairro onde moravam. Ele, após quase seis meses fazendo pequenos biscates, também conseguira um trabalho fixo num supermercado, no cargo de entregador.
O supermercado não era muito grande, por isso não havia muitas entregas a serem feitas. Sendo assim, Cláudio auxiliava na seção de hortifruti, repunha mercadorias nas prateleiras e também era responsável pela precificação dos produtos. As entregas — quando havia — eram feitas apenas para clientes do próprio bairro e adjacências, num raio de no máximo 5 quilômetros, pois as mercadorias eram transportadas numa velha bicicleta cargueira. O trabalho em si não era de todo ruim. Cláudio era um adolescente pobre, mas cheio de sonhos e precisava de dinheiro para ajudar nas despesas do lar e também custear suas vaidades juvenis.
Morando na capital, cursando a primeira série do Ensino Médio e com 16 anos completos, Cláudio necessitava desse emprego. Fã de rock and roll desde a mais tenra infância, agora, vivendo numa cidade grande, teria a oportunidade de assistir a shows de bandas nacionais que volta e meia se apresentavam na capital. Naquele ano em particular, a banda mineira Skank havia lançado um álbum chamado Calango e estava em turnê pelo país. Cláudio estava ansioso e apreensivo, pois essa banda faria uma apresentação na cidade em outubro. Seria o primeiro show de rock de sua vida. Ele, que ficara maravilhado com o casamento do rei do pop com a filha do Elvis, mesmo após alguns dias de profunda melancolia pela morte do líder do Nirvana, ainda assim, imaginava em sua inocência que 1994 seria o grande ano de sua vida. Cláudio era jovem e sonhador. Estudava, trabalhava, curtia rock and roll e já trocava olhares mais calientes com uma ou outra coleguinha de escola. A vida se abria para Cláudio num sedutor leque de oportunidades.
Devido a lapsos de rebeldia, já enfrentava alguns problemas relacionados a divergências de opinião com sua família, que era muito católica e bastante conservadora. Seus pais eram religiosos ao extremo e fiéis defensores da moral e dos bons costumes. Assistir à missa pelo menos uma vez na semana era algo sagrado. Cláudio andava muito ocupado com todas as suas responsabilidades. Domingo era seu único dia de ócio. A missa pela manhã iniciava-se bem cedo, e ele queria ficar mais tempo na cama. À noite, a celebração era bem no horário de seu programa de rádio preferido. Depois de quase um mês sem ir à igreja, após um belo sermão do pai e muita insistência da mãe, decidiu ir à celebração. Como se não bastasse a missa ter sido bastante maçante e a homilia muito longa, a ponto de ele cochilar enquanto o padre falava, quando chegou em casa, seu irmão caçula ainda lhe dissera que naquela noite, no rádio, havia sido apresentada a biografia de Paul McCartney — seu Beatle preferido.
Naquela noite, Cláudio fora se deitar muito ensimesmado com a vida. Era jovem e não entendia ainda — talvez jamais viesse a compreendê-lo — como era o verdadeiro funcionamento do mundo, com seus estranhos mecanismos de controle emocional e segregação social e econômica. Ficou até bem tarde ouvindo o insistente cantar de um grilo na parede e os demais sons que o silêncio da noite lhe oferecia. Depois de muita especulação filosófica, adormeceu por volta da meia-noite, sem saber que, naquela mesma semana, sua vida iria mudar para sempre.
Na segunda-feira, como era de costume, logo pela manhã, dona Cleuza, uma simpática quitandeira — uma quarentona ainda na flor da idade e bastante vaidosa — fazia suas compras para o início da semana. Além dos itens domésticos de consumo próprio, ela também adquiria os ingredientes necessários para a produção de doces e salgados da quitanda que ela e sua mãe — dona Valdelice — tocavam juntas. As Quitandas da Vovódelícia eram bastante afamadas por quase toda a cidade. Os doces não eram tão diferentes de qualquer outro que se vendesse em uma padaria qualquer. Contudo, os salgados eram extraordinários, e ninguém num raio de quilômetros-luz conseguiria fazer algo nem mesmo parecido. O tempero era esplêndido, causando uma explosão de sabor na boca, e o recheio era de uma carne com sabor bastante exótico, mas muito agradável ao paladar, devido à textura e às nuances dos condimentos.
Todas as vezes que Cláudio levava suas compras — pelo menos duas vezes na semana — dona Cleuza lhe presenteava com um apetitoso salgado e um copo de refresco. Enquanto ele saboreava seu lanche, ela lhe cobria de voluptuosos olhares, que às vezes o deixavam até constrangido. Dona Cleuza era uma mulher singular, dotada de uma beleza hipnotizante. Na altura de seus quarenta anos, muito facilmente poderia ser confundida com uma jovem de, no máximo, uns vinte e cinco, talvez até um pouco menos. Era uma dessas raríssimas criaturas sobre as quais o tempo não parece ter efeito. Cláudio era um jovem com os hormônios em ebulição, e saber que aquela bela mulher o devorava com os olhos lhe causava imensa satisfação.
Naquela manhã em particular, dona Cleuza estava bastante sorridente e parecia mais amável do que de costume. Assim que terminou de fazer suas compras, solicitou ao dono do mercado que enviasse suas encomendas o mais rápido possível, pois teria um importante compromisso e, sendo assim, talvez depois não houvesse ninguém em casa para receber o entregador. Seu Nelson — o proprietário do mercado — deu sua palavra de que a entrega seria executada sem demora, pois, além de ser um prestativo comerciante, tinha certa queda pela quitandeira, que, por sua vez — por questões pessoais — não dava ousadia a homens casados, mas nunca havia sido grosseira com ele. Dona Cleuza era o tipo de mulher de sorriso fácil e meiguice espontânea, dotada de uma gentileza ímpar, que chegava a causar certa inveja.
Naquele momento, Cláudio estava fazendo uma entrega numa clínica de repouso para idosos ali próximo. Essa clínica também fazia suas compras naquele mercado. Contudo, aquela entrega em si era uma doação que o próprio dono do mercado fazia toda semana para a instituição — era quase sempre a mesma coisa: frutas, verduras e carne, ou seja, produtos frescos, que eram entregues na clínica na segunda-feira pela manhã. A maioria dos outros itens básicos para a alimentação dos internos também era proveniente de doações. A clínica — uma instituição de caridade sem fins lucrativos — sobrevivia da bondade alheia e do voluntariado de algumas pessoas de alma nobre, que, além de doações materiais, também dedicavam parte de seu tempo ao cuidado dos idosos. Havia poucos funcionários remunerados.
Pela primeira vez, Cláudio — que demonstrava bastante retidão de caráter e muita seriedade em suas funções — demorou mais do que o normal com a entrega, fato que causou estranheza ao seu patrão, que estava até mesmo preocupado com a integridade física do rapaz, pensando que ele poderia ter sofrido algum tipo de acidente. Entretanto, quando Cláudio retornou ao mercado com as caixas de entrega já vazias, logo explicou o motivo de sua demora. Já acomodando as compras de dona Cleuza sobre a bicicleta para a entrega, relatou o ocorrido na clínica.
... Na noite anterior, um dos internos havia desaparecido. Havia um verdadeiro rebuliço, com a presença da polícia e tudo mais. A diretora da clínica estava exigindo, por parte dos policiais, que um inquérito fosse aberto para investigar o desaparecimento de mais um de seus internos. Um dos policiais, após anotar num pequeno bloco os dados pessoais do idoso que sumira, disse que, assim que completassem 24 horas do ocorrido, abriria um boletim de ocorrência. Também aconselhou a diretora da clínica a aumentar a segurança do local, ao que ela respondeu prontamente, até com certa rispidez, ao perceber a má vontade do policial:
— Aqui não é um presídio, rapaz! É uma casa de repouso. Zelamos pelo bem-estar daqueles que já não têm ninguém por eles. Não prendemos ninguém aqui!
— Sendo assim, a senhora não deveria reclamar quando um deles, não apreciando a comida ou as acomodações, decide ir embora — respondeu o outro policial em tom de pilhéria.
— Como de costume, devo prestar meus sinceros agradecimentos por mais uma eficaz demonstração de profissionalismo de nossa honrada força policial. Ou seja, muito obrigada por nada! Exijo que pelo menos fique registrado nos autos que, somente este ano, aqui na clínica já foram seis internos que desapareceram de forma misteriosa no meio da noite. Sumiram com a roupa do corpo, sem deixar nenhum vestígio...
Os policiais, sentindo-se bastante ultrajados pela fala da diretora — que demonstrava estar bastante irritada com a piadinha que um deles fizera —, como nada mais tinham a fazer no local, logo entraram no carro e saíram em disparada, com a sirene da viatura ligada. Assim que Cláudio terminara o seu relato, o dono do mercado não emitira nenhuma opinião sobre o acontecido, além de lamentar profundamente o fato em questão.
Cláudio, que tinha muito apreço pelo trabalho que a clínica fazia no cuidado com aquelas pobres almas inocentes, ficou bastante acabrunhado pela negligência com que os policiais atenderam a ocorrência, mas principalmente ao pensar na triste situação de quem chega ao fim da vida sem ter com quem contar. Ficou bastante melancólico e reflexivo sobre a forma como um idoso é tratado pela sociedade. Primeiro, repudiado pela família que o abandona; segundo, pela própria sociedade, que enxerga uma pessoa mais velha como alguém que tem uma doença contagiosa — por isso, precisa ficar isolada —; e, por último, pela negligência do próprio poder público, que, após pagar uma mísera aposentadoria, lava as mãos e deixa aqueles que um dia tanto significaram para a nação entregues à própria sorte.
Perdido nessas tristes reflexões, mas, mesmo assim, cumprindo suas obrigações profissionais, Cláudio logo chegou à casa de dona Cleuza e, após encostar sua bicicleta com as compras no muro — há anos aquela bicicleta não tinha mais o descanso —, bateu palmas no portão da quitandeira e aguardou que alguém viesse atendê-lo. Esperou por uns dois minutos e, como não ouviu nenhum movimento, bateu palmas novamente, dessa vez com maior intensidade. Após aguardar por quase cinco minutos e não ser atendido por ninguém, decidiu testar a maçaneta do portão e, caso não estivesse trancada, entraria e deixaria as compras na cozinha, mesmo se não houvesse ninguém em casa. Para sua sorte, o portão estava destrancado.
Pegou as pesadas caixas com as compras e adentrou a casa, indo direto para a cozinha. A mesa onde ele colocava as compras sempre que as trazia estava repleta de caixas de plástico brancas — do tipo que são usadas em açougues. Como não havia outro lugar para colocar as compras, decidiu deixá-las na bancada da pia. Enquanto executava esse processo de descarregar as compras, ouviu o som de música e de um chuveiro ligado em um dos quartos da casa. Pensou que, talvez devido a esse barulho, quem estivesse na casa não teria ouvido quando ele batera palmas no portão. A música que ele ouvira era do grupo Roupa Nova e, se não estivesse enganado, a canção se chamava "Tímida".
Imaginando que estivesse sozinho na casa, e com sua curiosidade ardendo para saber quem estaria no banho, caminhou sorrateiramente na direção do barulho e logo se viu diante de um belíssimo aposento. Muito grande e bastante aconchegante. A enorme cama em estilo colonial ficava numa parede de frente para uma grande janela panorâmica, que dava para um jardim lateral da casa. Todo o mobiliário do aposento era de fino estilo colonial. No chão, um grande tapete felpudo fazia conjunto com as cortinas em tom de vermelho púrpura. Sobre a cabeceira da cama, na parede logo acima, havia um grande quadro com uma pintura a óleo de uma serena paisagem campestre. O ambiente era bastante perfumado, tanto pelo cheiro das flores nos jarros espalhados pelo quarto quanto pelo aroma de sabonete que vinha do banheiro, onde alguém — certamente dona Cleuza — tomava um demorado banho.
Sem muita cerimônia adentrou pelo quarto e se aproximou do banheiro que ficava aos fundos. Tentou ser o mais silencioso possível para não ser notado. Parou a uma distância segura e ficou observando dona Cleuza que estava em todo seu esplendor, da mesma maneira que chegou a esse mundo. Ela que trazia em seu ventre um calor tão quente como o fogo do próprio Tártaro, naquele momento, debaixo das tépidas águas daquele convidativo chuveiro, se tocava voluptuosamente na tentativa de abrandar aquele fogo que lhe queimava as entranhas.
Cláudio que devido a idade já havia acordado com os lençóis de sua cama sujos e pegajosos após despertar de um sonho molhado que tivera com a própria dona Cleuza, se encontrara naquele momento numa situação bastante embaraçosa. Havia um emaranhado de sentimentos tomando conta de todo o seu ser. Desejo de entrar no chuveiro com aquela bela criatura, medo de que alguém o visse ali no quarto de uma dama naquela situação e curiosidade em saber como tudo aquilo terminaria. Estava ele tão entretido com aquela lasciva visão que nem mesmo se dera conta de que dona Valdelice entrara no quarto e estava de pé logo atrás dele.
Quando percebeu que havia sido flagrado, — em pleno horário de trabalho — dentro do quarto de uma dama em seu momento de mais pura inocência e intimidade, saiu correndo do recinto trombando em tudo que via pela frente, inclusive na própria dona da casa. Ao passar pela cozinha para se evadir do local, acabou derrubando uma das caixas que estava sobre a mesa. Ficou pasmo quando viu que dentro da caixa havia partes de uma perna humana. Levantou o pano que cobria as demais caixas e viu que havia mais partes humanas, um pouco de carne já moída, massas para salgados e temperos e condimentos de todos os tipos.
Naquela mesma tarde daquele quente e sufocante final de agosto, além dos restos mortais do idoso que havia desaparecido da clínica na noite anterior, também fora encontrado várias ossadas humanas enterradas no quintal da casa de Dona Cleuza. Logo se soube que um dos enfermeiros da clínica era amante da quitandeira. Era ele quem lhe fornecia a carne para os, até então, saborosíssimo e inigualáveis salgados da Vovódelícia. Dona Cleuza foi presa em flagrante e logo depois condenada e sentenciada à pena máxima por vários crimes: canibalismo, homicídio, ocultação de cadáver etc. Dona Valdelice, devido a idade e seu estado de debilidade, fora internada numa clínica para idosos com problemas mentais. Terminou seus dias de forma lamentável, no mais completo abandono. O suposto amante nunca fora encontrado para responder por seus crimes. Ao saber que dona Cleuza havia sido presa, foragiu sem deixar vestígios, ninguém mais soube de seu paradeiro. O inquérito policial concluiu que ele usava uma documentação falsa que havia sido abandonada em seu alojamento na clínica.
Cláudio, em pouco tempo, saiu do emprego de entregador e buscou outra ocupação até se formar em medicina, especializando-se em geriatria. Mesmo depois de muitos anos e, sendo ele um clínico renomado, atendendo em um grande e respeitado hospital particular da capital, ainda assim presta serviços voluntários em diversas clínicas e casas de apoio aos idosos espalhadas pela cidade. Ele jamais se esqueceu daquele ano de 1994. Nunca mais comeu nenhum outro tipo de salgado. Na verdade, tornou-se totalmente vegano, ao ponto de sentir repugnância a qualquer tipo de proteína, seja ela qual for...
A primeira vez que a vi foi numa noite sem lua, tão escura quanto a alma dos homens corrompidos pela luxúria. Mal sabia eu que contemplava minha própria ruína…