Mente Assombrada
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Era mais um dia de brigas.
Mais um dia do mundo tentando reconstruir minhas ruínas, sem eu nem mesmo ter pedido. Fazendo com que eu fosse culpado por apenas… existir.
Esse mundo podre e corrompido. Escondendo absurdos à vista de todos que fingem não olhar. Esse mundo que destrói sonhos e enterra potencial. Sempre querendo acabar com quem somos, sempre querendo destruir quem é diferente.
Mas eu sou assim.
E não vou mudar para ser aceito.
O ciclo começa como sempre.
Despertador gritando, meu corpo pesado demais para se levantar. Minha mente cansada antes mesmo do dia começar.
E levantar da cama é uma tortura que envolve cálculos para entender se vale a pena. E cada movimento exige uma negociação silenciosa com os fantasmas que me prendem — “só mais cinco minutos”, e depois mais cinco, e mais cinco, até que, por fim, a culpa me levanta.
O banho é uma vitória. Escovar os dentes é mais demorado do que deveria.
E eu não comemoro nenhuma ação. Pode ser difícil para mim, mas para os outros é o mínimo e ninguém comemora o mínimo.
O dia se arrasta como areia no deserto. As pessoas falam alto demais, e eu escuto mais do que gostaria. Sorrio quando preciso sorrir. Respondo o suficiente para não ser notado.
Seria esforço demais ficar com essa máscara, se olhassem muito para mim.
Mas ninguém vê o esforço. Ninguém vê o cansaço nos ossos. As pessoas não me veem.
E eu…
Eu finjo que está tudo bem.
Mas sempre tem alguém para tirar minha paz.
E foi então que ela chegou. Sorrindo com os olhos.
Olhava para mim como se eu fosse a sombra imperfeita do seu dia.
Ela desfilou até mim, com uma mistura de ódio e preocupação, e sem saber o quanto aquilo iria me ferir, perguntou:
— Por que está triste?
Aquela pergunta. Mais uma vez. Ouvia ela todos os dias desde que me lembro. Ouvia dos meus pais, na escola, na faculdade, no trabalho. Ninguém me deixava em paz. E eu só queria gritar para eles: “ME DEIXEM FICAR EM PAZ!”
Eu não quero que se preocupem. Não quero que me ajudem. Não quero nada. Só quero ficar sozinho.
Mas ela ainda se incomodava, como se eu devesse ser grato por sua preocupação; que deveria ser feliz apenas por viver. E então, com impaciência no olhar, continuou, com um sorriso que tentava ser doce:
— Nada aconteceu, então fique feliz!
“Fique feliz”, repeti para mim mesmo. Como se felicidade fosse um botão que eu gostava de manter desligado. Como se fosse escolha. Como se já não tentasse todos os dias.
Podia sentir meus punhos se fechando. A raiva subindo pelo meu corpo. Mas consegui me controlar. Respirei fundo e comecei a sair dali. Comecei a ir embora.
Mas…
Algo aconteceu ali. Quando ela segurou meu braço e me impediu de ir embora.
Ela segurou em mim, e eu me virei para protestar. E naquele momento… aquilo fez o mundo parar por um segundo.
E eu vi em seus olhos horrorizados uma lágrima caindo.
Não era por mim. Não ainda. Era por ela. Pelo que ela viu ao me tocar e não sabia como nomear.
Pelo vazio que de repente ficou visível, como se por um segundo ela entrasse na minha mente e entendesse que felicidade era mais difícil para quem lutava pra se manter de pé.
Eu a olhei por mais tempo do que pareceu. E então percebi que já não estávamos no mesmo lugar.
Olhei para os lados e vi que o mundo parou de fazer sentido.
Pra cima era pra baixo. Pra baixo era pra cima. Corredores de escadas em labirintos que não levavam a lugar nenhum. Algumas portas tinham maçanetas quentes. Outras, frias. Algumas, sabia que não deveria abrir. Elas gemiam baixo quando prestava atenção demais.
O teto não existia. Ou existia, mas mudava de altura. O chão às vezes inclinava sem aviso, e o pé afundava como se pisasse em areia fofa, e no próximo passo o chão era pedra dura, e no próximo, algo pegajoso que não queria soltar.
Um relógio sem ponteiros flutuava no centro de um salão vazio. E o som das engrenagens ecoava pelo ambiente, fazia tudo parecer urgente, mas sem importância, fazia tudo ser tarde demais, tudo ser perigoso, tudo precisar de atenção.
Meu corpo quente reclamava do frio. E o peso da dor parecia triplicar ali. Mas não era uma dor de machucado. Era uma dor de existir. Uma dor surda, velha, encostada nos ossos como um inquilino que se recusa a sair. Eu já nem lembrava como era antes dela. Talvez nunca tenha existido um antes.
E a mulher estava comigo. Gritava e chorava como uma criança. Olhou para mim tentando entender.
E então eu respondi:
— Meu lar.
Ela, ainda mais horrorizada, não entendia.
Para ela, estar ali era como estar coberta de agulhas que tentam rasgar sua pele e corroer seus ossos, mas eu parecia tranquilo.
— Minha mente. É onde estamos.
Ela olhou ao redor. Viu os corredores infinitos. Ouviu, pela primeira vez, os ecos. Vozes que não estavam ali, mas enchiam o espaço. “Você está exagerando.”, “É só preguiça.”, “Você tem tudo pra ser feliz.” — As frases batiam nas paredes, voltavam, batiam de novo. Ela tapou os ouvidos, mas eu já sabia que era inútil, não havia como escapar.
E ainda horrorizada, com os olhos fechados e os ouvidos tapados, ela me perguntou:
— Como você consegue…
Ela não conseguiu terminar, a dor era pesada demais. Mas eu já sabia o que ela iria perguntar: “Como viver com a mente assim?”.
— Estou vivo, e morto ao mesmo tempo. Como se tivesse tomado do Magöhorror minha sina. Eu sobrevivo. Todo dia. — eu disse, me ajeitando no conforto desse caos. — Mas você não precisa entender. Ninguém entende. E está tudo bem. Só… não me diga que nada aconteceu. Porque tudo aconteceu. Tudo acontece. O tempo todo. Dentro de mim. E eu não posso desligar. Então me deixa ficar em paz, pelo menos do lado de fora.
E ela começou a chorar. Porque já não aguentava. Porque cinco minutos ali dentro já eram mais peso do que ela suportava.
Mas eu sabia. Sempre soube. Por isso nunca deixei ninguém entrar.
Caellum Noctis
Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Aurollie está morta. Seu corpo esguio e pele seca, com rachaduras infindas que desvelam seu esqueleto putrefato; assim está, sob a luz d’uma noite…