12. Castelo Vampírico: Não sabeis o que acontecerá amanhã
Finalmente comecei a ter boas noites de sono; fazia tempo que eu não dormia bem. Os chás que tomei com Ameritt…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
04 de janeiro? - Finalmente comecei a ter boas noites de sono; fazia tempo que eu não dormia bem. Os chás que tomei com Ameritt estavam fazendo o bem prometido por ela. Cheguei até a sonhar, e, na maioria deles, eu me via sentada à escrivaninha à frente da janela, lendo o livro e fazendo anotações. Sentia-me distante de mim mesma e, ao mesmo tempo, ligada ao livro. Voltei à rotina habitual no castelo, à qual eu já havia me acostumado, agora que meus nervos pareciam ter se acalmado. Via sempre o livro sobre a mesa, apenas esperando para ser lido, e ia em sua direção. Lembrava do seu peso, de sua textura, tão próxima à minha pele quando o coloquei por baixo da blusa para protegê-lo da chuva. Às vezes, meus dedos quase o tocavam enquanto eu estava perdida em pensamentos, mas logo sentia um frio percorrer minha espinha e recuava. Respirava fundo e sussurrava “Hoje não” para mim mesma; algo dentro de mim dizia que eu não estava pronta. Então, coloquei alguns papéis sobre o livro para que eu não ficasse olhando para ele a todo momento.
A manhã trouxe uma mudança na atmosfera do exterior do castelo; a chuva havia cessado, deixando um clima mais ameno. Olhei pela janela, vi o jardim e me senti disposta a fazer mais uma visita a Ameritt — isso se tornara rotineiro. Antes de sair do quarto, passei a pomada em minha ferida, como eu havia prometido a ela. Meus dias e minhas noites no castelo pareciam estar voltando aos eixos: dormia bem, acordava disposta, visitava Ameritt. Ficávamos conversando sobre entomologia, botânica, qualquer assunto relacionado às ciências da natureza, e me permiti ouvi-la falar sobre misticismo, esoterismo, alquimia e todas as pseudociências possíveis. Eu não estava mais num mundo onde a razão fazia sentido; depois de tudo que passei no castelo, presenciar algo e tentar explicar tudo apenas com fatos faria minha mente colapsar. Eu tinha que entender que não estava mais no “Kansas” e, como Dorothy, deveria apenas aceitar esse caminho e continuar na estrada sombria dos tijolos amarelos.
Ameritt me fazia experimentar diversos chás e me mostrou ervas que cresciam somente no castelo, além de me explicar o efeito de cada uma no corpo humano, oferecendo-me somente aquelas que pudessem me acalmar, nunca me dopar. Explicou-me o significado de besin, e fiquei surpresa ao saber que era uma palavra do idioma dos Séttimôros, um povo pelo qual passei a ter certa afeição; a palavra significava "besouro". Depois da visita, voltava para o quarto e focava na escrita. Os dias iam ficando mais calmos, mais rotineiros. Vez ou outra, eu me lembrava do livro, mas logo voltava minha atenção ao que eu estava fazendo. O ambiente ao redor do castelo parecia se tingir de um tom laranja: as folhas nas árvores, o céu da manhã, abóboras em profusão cresciam no jardim, cogumelos em tons de laranja e outros terrosos. Tudo tinha uma tonalidade vibrante, e à noite, com uma lua laranja contrastando com o céu escuro.
Tudo fora do castelo e dentro de mim aparentava outono, simulava uma lenta mudança, mas eu sabia que não era totalmente assim. O castelo parecia despertar para uma nova fase, mais viva e inquietante, como se estivesse sendo alimentado de forma constante, com muito mais inspiração. Eu esperava que fosse assim dentro de mim também; sentia algo diferente no ar e dentro de mim, de forma que despertava meus sentidos. Como uma comichão que eu sentia por todo o meu corpo e me fazia sentar em frente à escrivaninha e apenas escrever todas as imagens, sons e palavras que vinham em abundância à minha mente. Era como se o castelo me desafiasse a apenas aproveitar essa atmosfera peculiar para pôr as ideias que borbulhavam em minha cabeça no papel. Então, me deixei levar, e, como se inspirada divinamente, eu escrevi até altas horas.
05 de janeiro? - Acordei um pouco mais tarde que o habitual, fui até o jardim, e me encontrei mais uma vez com Ameritt, curvada sobre uma fileira de cogumelos em tons terrosos, tão belos, parecendo pequenos guarda-chuvas, que ela colhia com cuidado. O aroma da terra úmida e da vegetação se espalhava ao redor; era tão agradável estar naquele jardim. Ameritt sorriu quando me viu, e senti aquele calor confortável no peito, o que sentimos ao ver alguém a quem temos grande afeto.
— Rute-besin, parece que o castelo te deixou dormir um pouco mais esta noite — disse ela com sua voz carinhosa de sempre, embora com um leve traço de inquietação.
— Não exatamente, fui bem tarde para a cama. Passei a noite escrevendo — respondi, admirando aquele horizonte alaranjado. — Este lugar parece estar mais cheio de vida, como uma entidade bem alimentada, não é?
Ameritt soltou um riso suave, que tirou minha atenção do horizonte. Olhei para ela, e seus olhos brilhavam, como já era habitual, pois aquele era o momento em que ela compartilharia mais conhecimento comigo.
— Rute-besin, esse castelo é vivo, como você já sabe. Isso é por causa da estação Aborom, a meia estação primavera-verão. Bem, é a época em que tudo se intensifica. Veja as abóboras e esses cogumelos; é essa magia que não se pode nomear que os mantém tão vibrantes nessa época. E há as criaturas da noite, que, em época de Aborom, podem ser hostis, especialmente quando a lua negrume surge no firmamento laranjim. Elas despertam em cólera, parecem famintas; creio que sejam morbidades criadas pelo caráter próprio deste lugar.
Ela se ajoelhou perto de um grupo de cogumelos, colhendo alguns com cuidado.
— Esses são Obomitas — disse, apontando para pequenos guarda-chuvas de uma tonalidade alaranjada. — Em noites como esta, eles podem ser perigosos se manipulados sem o devido cuidado. — Ela se pôs de pé e foi andando em direção a grandes abóboras de um laranja vibrante. — Essas abóboras são venenosas, mas com elas se pode produzir elixires perturbadores, dependendo do uso.
Caminhou até outras abóboras, apontando para elas.
— Essas são especiais; além de produzirem doces e tortas maravilhosos, servem para proteção também. Esse provérbio, você já ouviu? — Ela começou a recitar de maneira quase ritualística: — “Quando estiverdes em vossos aposentos, mantenham as fenestras aldravadas e ponham uma vela de abóbora-doce à porta, no chão. Pois eles se erguerão de seus túmulos e mancharão vossos umbrais com macabros infortúnios, caso não sejam expulsos pela trêmula luz aromantada.”
Balancei a cabeça, indicando que não conhecia o provérbio. As palavras pararam entre nós, cheias de advertência.
— As noites de Aborom trazem mais do que mudanças na atmosfera do castelo e na vegetação, Rute-besin. Há uma passagem belíssima de um pergaminho antigo, escrito por uma poetisa murmura: “Ouça o cântico das almas, nesta noite de lua negrume; ouça-o no manto do horror, almas que buscam vingança, paixão e dulcíferas frutas de meia-estação.” Terrivelmente belo, não é?
Um calafrio percorreu meu corpo enquanto ela recitava aquela bela passagem, e olhei para ela, confusa.
— Acho que não estou pronta para enfrentar o que o castelo tem para revelar nessa época. Dessa vez vou seguir as regras e ficarei dentro do meu quarto, escrevendo — confessei, com um ligeiro medo na voz.
Ela sorriu, com aquele sorriso quase maternal.
— Ninguém nunca está, Rute-besin, porém o castelo tem a sua maneira de preparar os que vivem sob seu teto. Então, descanse, besin, cuide de sua mente. Quando estiver pronta, você saberá. E, quando isso acontecer, bem… espero que você esteja disposta a enfrentar o que encontrar.
O fim da tarde se aproximava, e nuvens laranjas pairavam sobre nós como um manto. Olhei para Ameritt me observando. Por mais perturbador que esse lugar fosse, algo em mim estava irremediavelmente ligado a ele; talvez minha alma, a qual nunca acreditei existir, agora fosse parte do castelo. A questão era: o que ele esperava de mim, além da escrita?
— A senhora acha que devo ficar trancada no quarto? — perguntei.
— Só se for da sua vontade — respondeu ela, enquanto colhia alguns Obomitas. — Mas, para se proteger, recomendo que leve aquela abóbora que separei para você. Coloque-a na porta do seu quarto ou na janela; ela deve ser iluminada por dentro com esta vela — disse, mostrando-me uma vela de um laranja claro. — Isso afastará os que se levantam de seus túmulos, espíritos inquietos e todas as criaturas que não desejam nada além de manchar os umbrais dos vivos de infortúnios. Eles são atraídos por este lugar nessa época de Aborom, por vingança, paixão ou até mesmo por um pouco de consolo ou companhia. Se sentirem sua presença, poderão tentar se aproximar, especialmente se perceberem que está mexendo com algo que os afeta.
Essas palavras ecoaram em mim, e logo a imagem do livro que encontrei se formou em minha mente. Eu ainda não havia mencionado o livro a Ameritt, mas sentia que ela sabia sobre ele. O peso de seu conteúdo, ainda não revelado, parecia dobrar meus ombros. Após uma agradável conversa acompanhada de chá, voltei ao meu quarto. Seguindo a recomendação de Ameritt, coloquei uma vela dentro da abóbora e a pus sobre o parapeito da janela. Tranquei a porta e as janelas e me sentei para escrever. Enquanto escrevia, sentia-me inspirada a rascunhar algumas poesias. Fazia tempo que não tentava nada. Talvez o que me faltava fosse motivação, ou talvez uma boa noite de sono. As palavras fluíam com tanta facilidade, que era como se o próprio castelo estivesse ditando as palavras exatas que eu deveria escrever. Estava tão absorta na escrita que não percebi o som suave que veio da janela.
Foi um bater suave, dado três vezes, bem distinto. Levantei devagar meus olhos do papel e fui surpreendida. Do lado de fora, pressionado contra o vidro, havia algo ou alguém. Seu rosto era indefinido, sem traços, olhos escuros e vazios olhando através da janela e de mim. Sua pele, de um branco translúcido, era lisa, sem marcas ou qualquer coisa que definisse seu gênero. Dedos longos e finos, rosto anguloso, sem qualquer expressão; sem sobrancelhas, cílios ou cabelos, apenas o vazio liso. Os lábios finos, quase invisíveis, não se moviam. Seu corpo, alto e magro, apesar de translúcido, parecia denso, e o espaço ao redor dele parecia se curvar ligeiramente. Sua voz, quando falava, estava dentro da minha mente, como um sussurro dobrado.
— Você pegou o livro — sua voz soava como se duas pessoas falassem ao mesmo tempo.
Paralisada e sentindo calafrios percorrerem o meu corpo, apertei a caneta com força, sem saber se deveria responder ou correr.
— O livro… — repetiu a criatura, estendendo um dedo por trás da vidraça em direção ao livro. — Por favor, abra-o.
Falava sem emoção, mas sua voz parecia repuxar minhas entranhas. Levantei-me e dei um passo para trás, sem tirar os olhos da criatura. Olhei para onde o livro estava, coberto de papéis, mas eu ainda assim o sentia, como algo à espreita.
— Se você o abrir — a voz da criatura vibrava em minha mente —, eu poderei descansar, ou talvez, me lembrar. Por favor, abra o livro — sua voz estava mais alta em minha cabeça.
— O que é você? — perguntei, olhando aqueles olhos vazios.
— Um nome esquecido — murmurou, sua voz reverberando como uma onda dentro da minha cabeça. — Mas o livro guarda o que resta de mim. Ele deve ser lido para que eu me lembre.
— Mas e se isso for perigoso? — perguntei.
— Todo conhecimento o é, mas a ignorância também não? Por favor, eu só preciso lembrar — a voz voltou a ecoar em minha cabeça.
Suspirei e tentei me acalmar. Não podia ceder a uma criatura desconhecida. Talvez amanhã, pensei, talvez quando eu estivesse mais preparada. Hoje, eu só poderia prometer à criatura que aguardava do outro lado do vidro:
— Eu vou pensar sobre isso — falei.
A criatura pareceu entender. Sentou-se no peitoril da janela, enquanto a abóbora continuava a iluminar com sua luz trêmula. A criatura, ou o que quer que fosse, parecia estar à espera.
Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa
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11. Castelo Vampírico: Você será como um jardim bem regado, como uma fonte cujas águas nunca faltam
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
01 de janeiro? — Acordei num sobressalto e com a respiração pesada. O silêncio incômodo era apenas interrompido pelas batidas frenéticas do meu coração, eu estava de volta ao meu quarto. Meus olhos percorreram o aposento à procura de qualquer coisa que indicasse perigo, parecia que a criatura que feriu meu braço não estava mais lá. Meu braço esquerdo latejava, olhei para ele e percebi que estava envolto com novos curativos. Quem teria feito isso? A última lembrança que eu tinha era uma raiva tremenda e minha ferida sangrando, depois disso apenas escuridão. Levantei me sentindo zonza e vi meus óculos sobre a mesa ao lado do meu diário. Não sei como ele ainda sobrevive a tantas quedas e desmaios. Coloquei os óculos e olhei pela janela e o dia estava bonito, e eu não sentia mais aquela vontade de me esconder dentro daquele quarto. Queria ir para fora sentir o calor do sol no meu rosto. Decidi que esse momento seria ótimo para explorar e fui para aquele jardim que estive no dia da grande lua, onde avistei Hadassa.
Fui de encontro ao jardim e senti um aroma de terra molhada, ervas e algo mais que não pude identificar, isso me atraiu. Então me deparei com um canteiro de rosas muito vermelhas, cheguei perto delas para sentir seu cheiro e era tão pungente, toquei devagar suas pétalas aveludadas e parecia que uma lembrança ia se formar em meu cérebro. Até que, um pouco mais além desse canteiro, pude perceber lírios prateados e lírios vermelhos feito aranhas mexendo suas pétalas de forma suave, como aqueles que eu havia visto no vale dos settimôros. Esse pensamento me trouxe aquela solidão incomoda, interrompendo uma lembrança sobre as rosas que tardou a se formar. Caminhei um pouco mais apreciando a luz do sol que iluminava agora aquele jardim. As estátuas de anjos e damas esculpidas em mármores não passavam mais aquela melancolia de antes. Agora pareciam contemplar a profusão de vida naquele jardim. Um pouco mais a frente havia uma figura curvada sobre um canteiro, era uma senhora idosa de cabelos grisalhos presos em um coque frouxo e alguns fios rebeldes escapando aqui e ali, suas mãos mexiam nas flores de maneira delicada. Parei, e já ia refazer o meu caminho para não a incomodar.
— Ah, Rute-besin, não tenha medo. — Ela falou sem nem se virar, como se me esperasse. — Venha e sente-se, está com cara de quem não dorme bem há tempos. Venha, tome um chá comigo.
Havia uma mesa de madeira com duas cadeiras perto do canteiro onde ela se encontrava. Sentei-me, relutante, à mesa; havia um bule e duas xícaras de cerâmica marrom com formas desenhadas em diversos tons de verde. Dali emanava parte daquele cheiro de ervas que me atraiu ao jardim. Eu estava intrigada por ela saber meu nome.
— Nós nos conhecemos? — Falei em dúvida enquanto apreciava aquele aroma que parecia me acalentar. Ela se levantou, caminhou devagar e se sentou à minha frente, sua aparência era amável. Sua pele branca marcada pelo tempo e levemente avermelhada por longas horas sob o sol. Vestia o que parecia ser uma túnica preta com pequenas flores vermelhas bordadas no busto. Um colar com um grande pingente dourado e uma pedra vermelha em seu centro e brincos com belas gotas negras.
— Oh, não pessoalmente, mas eu a conheço, Rute-besin, sei que gosta de violetas, rosas, orquídeas, lírios, dálias... — Ela contava nos dedos enquanto falava. — E observar a fauna e a flora. Ah! Você possui uma orquídea roxa, que eu cultivei também. Espero que você esteja cuidando bem dela.
Me lembrei da orquídea que apareceu em meu quarto depois do meu primeiro encontro com Drácula. Me perdi em pensamentos me lembrando daquele momento e do cheiro de rosas que Drácula possuía, o mesmo presente nas rosas do jardim. Ah! Era essa a lembrança que queria se formar. Senti um formigamento em meu braço ferido, que me trouxe de volta ao momento, e o levantei para olhar. Vi um belo besouro de um verde-esmeralda que eu nunca havia visto. Não é como se eu conhecesse todos os tipos de insetos existentes, mesmo tendo um apreço especial por insetos, mas esse besouro específico não parecia fazer parte de nenhuma fauna que eu conhecesse. Eu estava fascinada por aquele exoesqueleto brilhoso, ouso dizer que quase hipnotizada com seu andar lento sobre a minha ferida. Ele me lembrava os besouros da família Buprestidae, só que o brilho deles costuma ser metálico, esse possuía uma luminosidade que parecia emanar de dentro dele, de uma beleza única.
— Oh, então é aí que você estava, Alyric-besin. Venha minha criança arteira. Já falei para você tomar cuidado por onde anda. — Ela retirou com delicadeza o besouro do meu braço, se levantou e o colocou com carinho no meio de algumas flores no jardim. — Ah, crianças, é uma pena que cresçam tão rápido e logo se vão. — Essas últimas palavras dela foram ditas com um certo pesar na voz. — Ela voltou à mesa e se sentou à minha frente. — Alyric-besin parece ter se afeiçoado a você, minhas crianças se sentem bem perto daqueles que os respeitam. — Enquanto falava serviu o chá quente com mãos cuidadosas. O cheiro se espalhou e era tão bom, respirei profundamente e assim encontrei de onde vinham aqueles cheiros que eu não sabia descrever muito bem, vinham do chá e da senhora a minha frente.
— Tome, isso vai te ajudar, besin. Foi feito com uma planta que só cresce aqui, nas terras do castelo. Cura até as feridas da alma, é o que dizem. Talvez te ajude a ter uma boa noite de sono hoje. E a propósito meu nome é Ameritt. — Disse ela com o mesmo tom doce que usou para falar com o besouro.
— Obrigada. E… prazer em conhecê-la. É... qual espé… — E lá estava eu de novo tropeçando em palavras, tentando formular uma pergunta. Inspirei e expirei, enquanto Ameritt, me olhava com paciência. — É…qual é a espécie daquele besouro?
— É um Agrilus Eridahem. Essa espécie é endêmica do Castelo. Você só a encontrará aqui, são ótimos polinizadores, além de serem criaturinhas divertidas de se conversar. — Ela deu uma boa gargalhada ao dizer isso. — Excelentes companhias também. Vamos, beba seu chá, juro que ele irá te ajudar.
Concordei com um aceno de cabeça, e inalei o vapor do chá antes de beber, o cheiro era muito bom e o seu calor parecia espantar o desânimo que me dominava. Bebi o chá e senti aquele sabor terroso e com um amargor suave, equilibrado com um toque de doçura e algo picante. Não importava o quanto eu tentasse, não conseguia identificar o sabor ou compará-lo a qualquer outro. O chá descia pela minha garganta, um calor aconchegante, como se me acariciasse por dentro, soltando todos os nós nas minhas entranhas. Ouvia Ameritt falar com um tom doce, quase que maternal, dos besouros que estavam sob seus cuidados. “Minhas crianças” ela dizia orgulhosa, detalhando tudo que elas faziam por ela e o que ela fazia por suas crianças. Que suas crianças conheciam todos os lugares do Castelo e cada hóspede nele. Falava sobre sua anatomia, sobre as plantas que eles mais gostavam de polinizar. Disse o quanto ficava triste por suas vidas serem tão curtas. E que depois de mortos fazia uma bela sopa de funghi com os besouros. Eu estava fascinada com a forma que ela falava sobre eles e ficaria a ouvindo por horas. Até que ela falou sobre comê-los, e percebeu meu semblante de dúvida.
— Não, Rute-besin, eu não os mato, nunca. Apenas os como quando já se foram. Eles possuem propriedades mágicas, me alimentar deles é como ter um pouco deles dentro de mim. — Ela me olhou com um sorriso de pesar, e acenei com a cabeça para ela saber que eu compreendia. — Acabei me estendendo demais, quando começo a falar das minhas crianças acabo me empolgando um pouco. — Fez uma pausa e levantou com delicadeza sua xícara enquanto me olhava e tomou um gole do seu chá. — E você Rute-besin, tem algo a dizer? Você está muito tensa e abatida.
De alguma forma aquele chá parecia ter não só soltado os nós das minhas entranhas, mas também a minha língua, pois quando dei por mim, eu já havia confessado mais do que pretendia.
— Bem... Meu corpo anda cansado de sentir. Tenho tentado voltar à razão, mas estou cansada de pensar nela e ficar triste com isso. Tenho suspeitado que o castelo talvez tenha algo a ver com essa vontade de ir além do pensamento usual, da razão, da mesmice. Me sinto compelida a experimentar de tudo, provar hipóteses, fazer parte de experimentos. Como um…— Parei para respirar tentando encontrar as palavras. — Como um animal de teste, receptivo a qualquer experiência que me ofereçam. — Não conseguia segurar as lágrimas, comecei a chorar na presença de Ameritt, sem me preocupar se o que eu dizia faria sentido a ela ou não. Me envergonho de chorar na frente de outros, mas ultimamente tem sido difícil segurar qualquer sentimento dentro de mim. Ela assentiu em silêncio, os olhos fixos nos meus enquanto eu continuava.
— E pensar que, desde que cheguei ao castelo, o explorei com terrível medo. Agora, me exponho a ele com curiosidade, sem cautela, procurando uma resposta que nem sei se eu realmente quero. — Comecei a gesticular de maneira incontrolável enquanto falava. — Todos esses sentimentos plantados, tão bem cuidados e nascidos por causa dela, todos cultivados, para no fim não valerem de nada, já que ela, a pessoa para quem cultivei tudo isso, não está mais aqui.
Ameritt ficou em silêncio por um momento, depois colocou uma das mãos enrugadas sobre a minha, seu toque era leve e reconfortante. Reparei numa aliança grossa de ouro, de aparência bem antiga em sua mão esquerda.
— Rute-besin, o luto é uma planta teimosa. Ele se agarra ao solo mais árido, mas o que você está sentindo não é apenas luto. Você sabe, o castelo tem uma vida própria, ele mexe com a mente e com o coração. Talvez ele esteja tentando te mostrar algo que você ainda não entendeu. Algo além do luto, além da razão. Espere aqui. — Ela se levantou e caminhou para além de onde minha visão alcançava, demorou alguns minutos. Minutos esses que aproveitei para me recompor e enxugar as lágrimas. E logo ela apareceu, com uma tigela de barro e uma colher de madeira em uma mão e um pequeno pote de vidro em outra.
— Tenho algo para seu braço e para seu estômago. Para o caso de você continuar explorando hoje. — Colocou a tigela na mesa e olhou para mim como se pedisse minha permissão, pegou a pomada dentro do pequeno pote e a aplicou em meu braço com movimentos delicados, quase como se estivesse cuidando de uma planta ferida. O cheiro das ervas me acalmou e a pomada parecia diminuir aquele latejar insistente.
— Esse castelo é uma entidade viva, Rute-besin. — Ela falava com uma voz baixa e suave. — Ele sente, ele responde. E ele tem segredos que nem mesmo eu, em todos os meus anos aqui, consegui desvendar. Mas uma coisa é certa, ele nos muda. E talvez, só talvez, ele esteja te preparando para algo maior do que seu luto. Algo que pode, de alguma forma, trazer um tipo de paz que você ainda não encontrou. Ou a resposta para uma certa questão que te perturba.
Suas palavras pareciam me consolar. Algo além do luto, da razão, e talvez até da culpa. Ainda não sabia muito bem o que pensar, mesmo que eu sentisse o conforto com suas palavras naquele momento, eu ainda teria que refletir mais sobre aquilo.
— Passe essa pomada duas vezes ao dia e ela vai sarar sua ferida. — Ela falou me dando o pequeno pote de vidro que coloquei no bolso da calça. — Arylic-besin disse que ela está infeccionando, então precisa de cuidados. Tome a sopa, ela também irá ajudar na cicatrização.
Tomei a sopa devagar, sua textura cremosa. Seu sabor, assim como o chá, terroso, era como lamber o solo úmido de uma floresta. Não que eu tivesse lambido um, mas se tivesse esse talvez seria o sabor. O cheiro da sopa era como o de dias de chuvas em meio a natureza, só que ao invés de ter um cheiro fresco, ele era quente e reconfortante. Senti algo com a minha língua, os besouros, é claro. Mastiguei devagar, segurando a vontade de cuspir. Percebi Ameritt me olhando como se me analisasse. Senti a crocância do exoesqueleto, e para minha surpresa era bom, um sabor amadeirado com um leve amargor, me lembrava nozes. A sensação era de ter a natureza descendo para dentro de mim. Se assentado no meu corpo, se espalhando por meus nervos e músculos, me enchendo de vitalidade. Fluindo como um rio e repousando no jardim que parecia crescer em minhas entranhas. Terminei a sopa, Ameritt percebendo logo se levantou, pegou a tigela e a levou. Me levantei e fiquei em pé perto da mesa esperando sua volta. Ela voltou e logo me preparei para me despedir.
— Sim, sim! É hora de você ir. E eu entendo. — Ela não me deu nem a chance de formular uma despedida, o que é o básico para se viver em sociedade, mas que às vezes é difícil para mim. — Rute-besin! Me prometa que vai voltar de novo e que vai tratar essas suas feridas. Nós vamos adorar a sua presença aqui mais vezes. — Ela segurou minhas mãos entre as suas, e de pé, perto de mim, pude perceber o quanto ela parecia frágil e pequena, mas seus olhos, de um azul acinzentado, diziam ao contrário. Sorri para ela.
— Eu prometo que voltarei, e… obrigada pelo chá, a sopa…Ah! e a pomada também. — Disse sem saber mais o que acrescentar a esse péssimo agradecimento. Me sentia uma criança tímida perto dela. Soltei suas mãos e sai andando em direção ao castelo. Voltei para Ameritt para mais uma pergunta.
— Para onde devo ir para talvez… — Novamente estava tentando encontrar as palavras. — Encontrar o que preciso? — Disse receosa.
— Se você seguir para além desse jardim, bem ao fundo, talvez você encontre o que precisa no centro naquela floresta. — Ela se virou e apontou para além de algumas árvores altas bem distante de onde estamos. — Tenha cuidado, minha criança, com o que pode encontrar lá.
Agradeci e segui o caminho apontado por ela. Olhei para trás quando já havia alcançado alguma distância. E ela já havia voltado aos seus afazeres no jardim. Depois de me despedir de Ameritt me percebi inquieta, ansiosa para explorar o que mais tivesse para ser explorado. Enquanto caminhava pude observar como aquele jardim era bem cuidado. E a diversidade de flora que tinha nele. Se eu tivesse ficado lá e observado mais tempo, talvez também me surpreenderia com a fauna. Diversas estátuas de tamanhos diferentes espalhadas por diversas áreas do jardim e bem ao longe um grande chafariz, talvez de pedra, adornado pelo que parecia pequenos anjos, jorrava incessante uma água límpida. No ápice do chafariz havia uma escultura do que parecia também um grande anjo que transparecia certa introspecção. Talvez eu o veja mais de perto no futuro.
Antes de entrar na floresta, vi que à minha esquerda havia um velho cemitério. A natureza parecia ter tomado conta daquele espaço, uma profusão de verde cobrindo o chão daquele terreno. Lápides antigas, algumas inclinadas, outras afundadas no solo, envoltas por trepadeiras e musgos que se agarravam às pedras desgastadas. Um belo mausoléu de pedra também envolto por musgo e rosa-trepadeiras, mas bem cuidado. Me senti tentada a seguir em direção a ele. Na minha direita, mais ao fundo do jardim, que agora eu estava saindo, tinha uma pequena casa de pedra. Rosas-trepadeiras, em tons de um vermelho profundo e outras em um rosa suave, entrelaçam-se pelas paredes de pedra, subindo ao longo das paredes, emoldurando a casa. Na entrada principal uma pequena escada de pedra que levava ao portal da casa. Os degraus desgastados pelo tempo, ladeados por mais rosas-trepadeiras. A porta com um arco de pedra que parecia me convidar. As janelas altas e abobadadas se estendiam do chão até o teto. O jardim ao redor da casa tinha caminhos sinuosos de pedras e canteiros cheios de flores. Se tivesse que adivinhar, coisa que não tenho o hábito, eu diria que aquela é a casa da Ameritt.
Eu tinha que seguir em frente, para a floresta, esses lugares poderiam ser investigados outra hora. Andei um longo caminho no meio daquelas densas árvores e encontrei um arco de pedra em ruínas, envolto com trepadeiras e heras. No passado talvez tenha sido a entrada de uma pequena casa, mas agora era só ruínas. Havia um alçapão no chão de pedra, levantei a portinhola e olhei para a abertura. Uma luz bem fraca me fez enxergar uma escada. Inspirei e expirei, devagar comecei a descer. Me deparei com um portão de ouro velho, com um lampião que emitia uma luz fraca. Borboletas delicadas na cor de marfim, repousavam na superfície dourada. Como se tivessem guardando aquele portão velho por eras, talvez. Empurrei o portão devagar, para não assustar as borboletas. O portão cedeu com um gemido baixo. As borboletas permaneceram, fizeram apenas leves movimentos, desafiando qualquer explicação lógica que eu poderia encontrar para explicar aquele comportamento incomum.
Passei por aquele portão, e para minha surpresa, encontrei uma biblioteca. Ah! Eu estava feliz, até que enfim uma biblioteca. O dia de hoje parecia estar bom demais para ser real e eu iria aproveitá-lo antes que eu, ou algo fora do meu controle, estragasse ele. A biblioteca estava envolta em relva e vegetação, era como se a natureza tivesse tomado aquele lugar para si mesma. O teto era de vidro, que permitia a entrada de uma luz difusa, que penetrava com dificuldade uma espessa camada de musgo e folhas que cobriam tudo. Eu estava dentro de uma estufa, sendo que desci por uma entrada subterrânea. A explicação lógica seria uma estufa subterrânea, escavada a vários metros abaixo da terra, com apenas o teto de vidro para a entrada da luz solar, que construção fascinante. Havia prateleiras com dezenas de livros empilhados, muitas delas estavam inclinadas pelo peso dos livros e talvez também por conta da umidade. Uma coleção de livros de biologia, alquimia, matemática, história e esoterismo. A pessoa dona dessa coleção talvez estivesse buscando respostas além da ciência e da magia conhecida.
Conforme avançava, contemplando todos os títulos ali presentes, percebi alguns sinais no centro daquela estufa. Círculos desenhados no chão, agora cobertos de musgo e relva, velas derretidas. Em algumas prateleiras havia recipientes de vidro com substâncias que possuíam um brilho estranho. Quem quer que fosse a pessoa que utilizava esse lugar, tinha interesses bem peculiares. Segui mais adiante, e havia três portas, cada uma afastada uma da outra, quase que escondidas por camadas de musgo. Abri a primeira porta, e fui recebida por uma enxurrada de cheiros, ervas secas, enxofre, umidade e um leve cheiro de metal. Uma grande mesa de madeira maciça, havia um equipamento de destilação montado, com tubos e vidros sinuosos, conectados a alambiques, retortas e balões. Havia uma prateleira com diversas vidrarias, tubos e frascos. Havia sinais de, talvez, experimentos falhos, fragmentos de vidro quebrados, cobertos de ervas e manchas estranhas. Um almofariz com um pilão jogado a um canto da mesa, ao lado de uma balança e uma ampulheta. Ervas secas penduradas no teto. E, em um canto mais afastado da mesa, um forno. Eu me encontrava em um velho e abandonado laboratório.
Sai dali e fui investigar as outras portas. A segunda porta resistiu às minhas tentativas de abri-la. Lancei meu corpo com força sobre ela, que finalmente cedeu. Entrei naquela sala escura e úmida, musgo e cogumelos cobriam tudo naquela sala, livros, móveis e quadros. Exceto um único livro fechado em um pedestal de pedra. Sua capa de um couro envelhecido muito escuro, quase preto, com finas ranhuras, bordas reforçadas com metal. As páginas amareladas que eu podia observar pelas bordas, o livro parecia estar em bom estado — levando em consideração tudo naquela sala. Me aproximei, hesitante, e o toquei e sua textura era áspera. Gravado na capa, finas linhas que se espalham, se emaranhado, formando um símbolo que não tem início nem fim. Abri o livro e folheei algumas páginas e o que eu pude enxergar, com a pouca luz que entrava pela porta, fez irradiar do meu peito aquele formigar que me tira o sossego. Desenhos de criaturas que desafiavam a lógica, sua anatomia e anotações que eu não compreendia. Símbolos alquímicos, ciência e magia misturados entre rabiscos e ilustrações. Me forçar a compreendê-las fazia com que eu me sentisse à beira de um ataque de pânico.
Fechei o livro com as mãos trêmulas e sorri comigo mesma, apesar do desconforto. Parecia que eu havia encontrado o que eu estava procurando. Fui até a terceira e última porta que abriu com facilidade, tinha muita umidade. As paredes e teto cobertos de musgo verde escuro, o chão tomado por um tapete de cogumelos de diversas cores, alguns até luminescentes. Todos espalhados em cada canto, outros também nas paredes, fazendo com que eu não conseguisse definir o que esse lugar poderia ter sido. Aquele cheiro forte de madeira em decomposição e umidade que alimentava os musgos e os cogumelos. Fechei a porta e voltei à segunda sala, hesitei, mas peguei o livro. Eu tinha que levar ele comigo. O som inesperado da chuva forte batendo no teto da estufa me alarmou. Batidas rápidas que logo aumentaram e ficaram intensas, gotas explodindo contra o vidro com violência, pareciam fazer o vidro vibrar. Coloquei o livro por baixo da camiseta e me preparei para enfrentar a chuva.
Corri em disparada até o castelo, entrei e, mesmo já protegida da chuva, continuei correndo até chegar no quarto. Entrei, coloquei o livro na escrivaninha e tirei as roupas molhadas e as estirei em uma cadeira. Tomei um banho demorado, pois estava protelando para voltar para o quarto e encarar aquele livro. Saí e fiquei sentada na beirada da cama olhando para o livro. Pensei em Ameritt, com seu chá e seus besouros, quase como um sonho, se comparado com o que eu estava prestes a fazer. O castelo havia explorado os meus segredos, e agora eu estava começando a explorar ainda mais os seus. E talvez agora não houvesse mais volta.
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10. Jardim da Morte: Na paz que a morte traz
O jardim estava envolto em uma tranquilidade quase palpável, o ar estava fresco e carregado do aroma que as flores exalavam. A mulher, que a cada dia trazia...
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
O jardim estava envolto em uma tranquilidade quase palpável, o ar estava fresco e carregado do aroma que as flores exalavam. A mulher, que a cada dia trazia mais vida àquele jardim e que agora se sentia em casa ali mais do que se sentira em vida, contemplava suas rosas negras. Foi então que a ceifadora apareceu, como sempre fazia, sem aviso, apenas emergindo das sombras com um sorriso misterioso nos lábios. Ela trazia consigo uma pequena cesta de vime, com diversas mudas ainda frescas.
— Trouxe algo para você. — Disse a ceifadora entregando a cesta à mulher.
Os olhos da mulher brilharam ao ver as mudas, não conseguiu segurar tamanha felicidade e sorriu. E isso se tornara mais comum agora. Ela olhou e não reconheceu algumas das flores, com folhas que eram de um verde profundo, e outras com pétalas de um vermelho sangue tão vibrantes.
— Onde você conseguiu essas belezas? — Perguntou curiosa.
— Com a jardineira do Castelo Drácula. — Respondeu a ceifadora com um leve aceno de cabeça. — Ela me deve alguns favores.
— Alguém nesse castelo não te deve algum favor? — Perguntou a mulher rindo.
— Escuta moça, o que posso fazer se sou uma pessoa muito requisitada. — Ela respondeu usando uma certa afetação na voz. — As pessoas me pedem favores, dessa forma me devem favores, simples.
— Entendi. — A mulher disse ainda rindo.
Sem perder tempo, a mulher se ajoelhou na terra macia e escolheu com cuidado os lugares onde plantar cada muda. Movia as mãos com delicadeza, plantando cada nova vida que ela iria cultivar naquele solo incomum. Enquanto trabalhava no jardim, a ceifadora ficou em silêncio, a observando, até que a mulher quebrou o silêncio, falando com suavidade.
— Sabe, eu encontrei paz no ócio. — Começou ela, seus olhos ainda fixos na terra enquanto plantava outra muda. — Mesmo que, de vez em quando, eu esteja aqui, no jardim cuidando das plantas, eu não vejo isso como um trabalho, não como via antes, em vida.
A ceifadora continuou em silêncio, esperando que a mulher continuasse.
— Antes de tudo isso. — Disse a mulher, se referindo a sua vida passada. — Eu tinha uma vida agitada. Não conseguia parar, eu precisava estar sempre fazendo algo, sempre produzindo. Parar para descansar era perigoso, porque se eu parasse, começava a ouvir minha própria voz na minha cabeça. — Ela fez uma pausa, sua expressão se tornou distante por um momento, como se estivesse revivendo memórias que havia tempo não visitava.
— Essa voz… — Parou tentando encontrar as palavras certas. — Ela insistia em me lembrar do quão sem propósito minha vida era, do quanto eu estava errada por ter virado as costas a Deus e à minha família por amor. Eu nunca me sentia como se estivesse fazendo o suficiente. Nunca.
A ceifadora escutava tudo com atenção, mas seu silêncio era de compreensão, permitindo à mulher um espaço seguro para ela desabafar.
— Aqui no jardim. — Continuou a mulher, agora plantando a última muda. — Eu sinto que estou experimentando uma vida de paz, mesmo que na morte. — Ela riu. — Parece meio complexo, mas a clareza que eu não tinha em vida, agora eu a possuo. E aquela voz, eu consegui silenciá-la. — Ela terminou de plantar e se sentou na terra ao lado das novas mudas, contemplando seu trabalho com um sorriso suave. — Não há mais aquela pressão incessante, aquele vazio que parecia sempre me consumir. Agora, eu só existo, e isso basta.
A ceifadora, ainda de pé ao lado dela, olhou para o jardim à sua frente, e contemplou toda a vida que a mulher havia trazido para aquele lugar.
— Você encontrou seu lugar. — Disse a ceifadora em voz baixa.
— Sim, e por mais estranho que pareça, estou feliz por ter encontrado essa paz na morte. — A mulher acenou com a cabeça.
A ceifadora deu um passo à frente e estendeu a mão para ajudar a mulher a se levantar.
A mulher aceitou a mão da ceifadora, levantando-se com leveza.
— Obrigada. — Sussurrou. — Então, o que vamos jogar hoje?
— Ah, sim! Hoje vamos jogar senet. — A ceifadora foi caminhando até a mesa, pegou sua maleta e tirou o tabuleiro de dentro.
— Nunca joguei esse.
— É fácil, um pouco parecido com um gamão. Existe a lenda de que, para sua alma ir para o paraíso, a pessoa deveria vencer Rá numa partida de senet. — A ceifadora falou com um tom de mistério na voz.
— Isso é sério?
— Talvez sim. — Disse a ceifadora enquanto separava as peças. — Mas duvido que você trocaria esse paraíso por outro que desconhece. — Ela sorriu, olhando para a mulher que retribui o sorriso. — Vamos começar.
A ceifadora sabia que, independentemente do que viesse a seguir, aquele jardim seria o lugar onde a mulher havia encontrado a paz que sempre buscou em vida e nada, nem ninguém, conseguiria mudar isso.
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9. Castelo Vampírico: Não se ponha o sol sobre a vossa ira
31 de dezembro? — Antes que começasse a me ensinar algo, a criança de cabelos escuros veio até mim com um tecido de…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
31 de dezembro? — Antes que começasse a me ensinar algo, a criança de cabelos escuros veio até mim com um tecido de algodão e um vidro âmbar com um líquido que, pelo cheiro, parecia ser álcool. Limpou a ferida no meu antebraço e o enrolou com cuidado com outro tecido de algodão, dando pequenos nós em suas pontas. Após todo esse procedimento, ela colocou suas pequenas mãos nas minhas, me fazendo sentir uma onda quente e reconfortante que me envolveu. Senti como se meu corpo vibrasse, como se as minhas moléculas estivessem vibrando e aquecendo. Um súbito medo tomou conta de mim. Fechei os olhos e senti como se meu corpo encolhesse e se tornasse leve. Abri os olhos e estava na altura da menina de cabelos negros. Eu havia me transformado em uma criança outra vez, e uma felicidade parecia me inundar, tomando o lugar daquele medo inicial.
Logo, outra criança, com uma sombra um pouco maior do que a da menina de cabelos escuros, veio até mim. Segurou minhas mãos sorrindo, e a mesma sensação de calor reconfortante me envolveu. Dessa vez, mantive meus olhos abertos. Senti-me crescer e fui preenchida por pensamentos confusos que começavam a me incomodar. Depois, outra criança, com uma sombra grande e curvada, me tocou. Meu corpo pesou e senti um cansaço físico, mas minha mente parecia mais clara. A experiência era ao mesmo tempo fascinante e assustadora, uma montanha-russa física e emocional. Voltei para meu corpo original, um pouco atordoada. As crianças me olhavam com curiosidade, parecendo esperar algum comentário meu sobre a experiência, mas eu estava sem palavras. A menina de cabelos pretos veio até mim sorrindo.
— A transmutação não é apenas física. Ela envolve a essência, a percepção e o controle do próprio ser no fluxo do tempo. Há aqueles mais aptos que conseguem ir além da transmutação temporal, conseguem se tornar outras versões deles mesmos e até outras pessoas. — disse isso com um sorriso inocente.
Minha mente estava em turbilhão, mas fisicamente eu estava cansada. A menina percebeu isso.
— Agora, como prometido, vou te levar aos seus aposentos. Acho que a aula foi demais para você. — falou isso com preocupação no rosto, parecendo sincera.
— Talvez voltar aos meus aposentos neste momento não seja uma boa ideia. — Eu disse preocupada. Não me sentiria segura lá nesse momento.
Ainda atordoada pela experiência de transmutação, perguntei a ela se haveria um lugar seguro para ficar. Ela confirmou com um aceno de cabeça e caminhou comigo pelo castelo. Enquanto isso, minha mente fervilhava com as novas informações. Caminhamos por entre corredores e subimos várias escadas. Eu acompanhava seus pequenos passos rápidos e ritmados. Ela me levou até uma área do castelo onde havia uma escada em caracol que ia muito mais alto do que eu podia enxergar.
— Suba por essa escada até o fim. Você vai encontrar um observatório e poderá ficar lá por enquanto. Mas aconselho que volte para seus aposentos depois, pois lá é sempre o lugar mais seguro. — disse ela ainda com aquele sorriso infantil estampado no rosto.
Fui subindo aquela escada e refletindo sobre aquele conhecimento, até que a compreensão me atingiu. Drácula, a figura que tanto me causava temor e que às vezes me confundia, aparecera para mim de diversas formas, idades e aparências diferentes durante minha permanência aqui. Ele tinha a capacidade de transmutar, assim como aquelas crianças naquele salão. Lembrei-me do nosso primeiro encontro no corredor, Drácula como um jovem de aparência andrógina e olhos cor de violeta; do nosso encontro na capela, onde ele parecia um Cristo vampírico grotesco; e no baile de máscaras, como um homem de meia-idade imponente que parecia carregar o peso dos séculos em seus olhos profundos. Cada uma dessas suas formas parecia trazer uma presença distinta, uma aura diferente. Agora fazia sentido, Drácula talvez dominasse a transmutação. Ele podia escolher a aparência e a idade conforme sua vontade. Todas aquelas formas eram manifestações do mesmo ser, utilizando a transmutação temporal para se moldar.
Drácula não era apenas um vampiro imortal, ele talvez também fosse um mestre do tempo, com capacidade de navegar pelas eras e se adaptar a qualquer situação. Porém, para confirmar qualquer hipótese que meu cérebro poderia conceber sobre Drácula e seus poderes, eu precisaria de mais conhecimento. Preciso encontrar uma biblioteca, talvez aquela em que tive uma conversa com minha doppelganger no mundo espelho. Talvez essa biblioteca exista nessa versão do castelo também. Uma sala com um computador facilitaria meu trabalho na hora de juntar as informações, mas isso talvez seria pedir demais. Terei que me contentar apenas com papéis e livros. Terei que vencer certos temores também, explorar mais o castelo e sempre me lembrar que estou lidando com um ser que talvez transcenda qualquer limitação e entendimento humano.
Enquanto essas ideias se assentavam em minha mente, cheguei ao observatório. Entrei naquele cômodo, fechando a porta atrás de mim. Havia uma abóbada de vidro que permitia uma visão clara do céu. No centro, um telescópio, um instrumento ao qual estou familiarizada. Sentei-me numa poltrona ao lado de uma mesa cheia de papéis antigos com belas ilustrações de planetas e símbolos astronômicos. Observei o anoitecer enquanto fui tomada novamente por pensamentos que chegavam em turbilhões. Estava me sentindo dividida entre aceitar que Hadassa se foi e essa nova obsessão de trazê-la de volta com o conhecimento que talvez Drácula pudesse ter sobre a morte. Por que devo aceitar? Por que devo desistir? Ainda assim, ouço minha voz interior me advertindo sobre os perigos de se buscar conhecimentos que não compreendo. Tentei me convencer a desistir e aceitar a realidade, mas o que é a realidade se tudo aqui parece uma ilusão tentando se passar por realidade? Fui tomada por uma fúria por não conseguir parar meus pensamentos. Meu corpo tremia, senti minha mente se despedaçar em questionamentos complexos demais.
Anoiteceu totalmente e me deparei com um eclipse total quando olhei para a abóbada de vidro. Levantei-me e decidi investigar os céus, na esperança de encontrar alguma distração. Posicionei-me e comecei a ajustar o telescópio, procurando algo naquele breu, minhas mãos tremiam. Um vento atormentado soprava, fazendo as árvores e as flores mortas do jardim abaixo, mal iluminado por um antigo poste de luz, balançarem de maneira assustadora. Ao longe, pude ouvir o som de ondas quebrando com violência contra as rochas. Fiquei surpresa com isso, pois não sabia da existência de mar tão perto do castelo. A natureza parecia responder de modo violento ao eclipse, como se estivesse compartilhando comigo meu tormento interno.
Minha mente foi assaltada por lembranças rápidas de quando Hadassa e eu observávamos as estrelas juntas, falando da beleza cósmica, a beleza que agora apenas me traz angústia. Lembrei-me dela sempre repetindo: “Somos poeira das estrelas, Rute. Do pó viemos e ao pó voltaremos. Isso é maravilhoso, não é?”. Era mesmo maravilhoso ouvi-la falar disso, mas saber que agora ela talvez não passe de restos do que um dia foi me entristece. De repente, uma sombra cobriu o telescópio. Levantei-me e vi, através da abóbada de vidro, uma figura gigantesca e disforme pairando no céu como um manto escuro salpicado de estrelas. Emanava uma fúria que nem de longe poderia ser comparada à minha. Olhava diretamente para mim com o que pareciam olhos em espirais. Fiquei paralisada de terror. Será que, de alguma forma, essa figura era uma manifestação dos meus sentimentos? Ou apenas um alerta para que eu desista dessa empreitada? Ou algo ao acaso que calhou de eu observar? Não sei. Só sei que as dúvidas, o terror e a ira dentro de mim continuaram. Devo aceitar a morte de Hadassa e deixá-la descansar em paz? Ou devo seguir em frente nessa ideia de que sei ser perigosa e trazê-la de volta?
Fechei meus olhos por um momento, esperando que, assim que eu os abrisse, a figura desaparecesse. E ela desapareceu, mas a sensação de terror permanecia. Deixei o telescópio e me virei para a poltrona, dando alguns passos. Tudo em mim pesava. Minha mente se questionava se Hadassa merecia uma segunda chance ou se eu queria me dar uma segunda chance, não importando o que fosse necessário para isso. Eu me sentia em frangalhos, tonta, com dores pelo corpo; fazia tempo que eu não tinha uma boa noite de sono. Senti algo escorrer pelo meu antebraço e vi que a ferida estava sangrando muito através do tecido. Senti-me fraca. Mal havia chegado à poltrona e apenas me deixei cair na escuridão.
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8. Castelo Vampírico: O Vale da Sombra da Morte
31 de dezembro? - Um tremular doloroso e frio me consumia, a criatura continuou lá me acalentando e esperando paciente…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
31 de dezembro? - Um tremular doloroso e frio me consumia, a criatura continuou lá me acalentando e esperando paciente que eu fechasse meus olhos. Tudo ao meu redor começava a se tornar nebuloso e indistinto. Ao pé da minha cama uma mulher vestida de preto, de pele de um cinza escuro e cabelos prateados, me olhava com seus olhos brancos. Seu olhar agudo parecia me culpar pela minha situação. Meus olhos se fecharam devagar, eu estava cansada de lutar para me manter acordada. Fechei meus olhos. Quando os abri, eu estava deitada em outro lugar, entre sombras e neblinas. Me levantei e percebi que estava em meio a um vale cinzento, deitada perto de onde corria um rio com águas que pareciam mercúrio líquido. Olhei de um lado a outro e nem sinal do castelo, apenas neblina e vários tons de branco, vermelho, preto e cinza. E com infelicidade percebi que teria que andar descalça, já que fui para lá sem os sapatos.
Porém ao começar a caminhar comecei a ficar deslumbrada. A flora desse vale cinzento era ao mesmo tempo perturbadora e fascinante, havia uma certa estranheza que me estimulava a querer continuar aqui. Eu caminhei naquele lugar tentando entender a lógica da sua existência, mas era em vão. Observei cada detalhe da flora que me rodeava. As árvores eram as mais impressionantes, seus troncos de um branco pálido, como se fossem ossos muito bem preservados e com sua alvura intacta. Eu toquei a superfície da casca e era fria e lisa, me lembrando de mármore levemente acetinado. As árvores eram altas, galhos retorcidos formando contornos intrincados contra aquele céu nebuloso. As poucas folhas dessas árvores eram de um vermelho tão profundo, quase negro.
Espalhado pelos troncos das árvores havia líquens de um vermelho vivo como se estivesse saturado de sangue recém derramado. A presença de líquens aqui me encheu com uma sensação de alegria, respirei até mais profundamente para testar o ar, aquele líquen era um indicador de que o ar dali era puro, ou pelo menos eu queria acreditar nisso, já que aquela era uma outra realidade. Eu estava extasiada, as flores de lá possuíam um tom vermelho escuro, pareciam crescer em profusão, tinha caules finos e frágeis, mas ao tocá-los percebi que eram incrivelmente resistentes, algumas flores tinham pétalas com bordas serrilhadas que pareciam prontas para cortar qualquer um que as ousasse arrancar dali. Outras flores exibiam um vermelho muito mais intenso com pétalas que se abriam em espirais complexas, o centro delas de um negro profundo que parecia absorver toda a minha atenção como se eu estivesse a olhar um abismo.
No chão, uma vegetação rasteira cobria quase tudo. A grama era de um vermelho enegrecido, e ao pisar nela com meus pés nus, senti como se estivesse caminhando sobre um tapete de veludo. Espalhados por entre as árvores e a grama, havia os arbustos de folhas longas e estreitas, tingidas de uma cor que varia entre o vermelho escarlate e o preto. Esses arbustos estavam cobertos de bagas negras, que exalavam um aroma doce. Peguei uma dessas bagas, mas não ousei experimentar seu sabor, sua textura era macia. Apertei uma delas e um líquido vermelho vivo escorreu por entre meus dedos aparecendo sangue arterial fresco. As rochas que havia ali possuíam uma luminosidade, como se estivessem banhadas de orvalho. Havia musgo em algumas delas de um preto profundo.
Outras flores diversas haviam ali entre as rochas, umas se assemelhavam a lírios de um tom prateado, com pétalas longas e curvadas. Outras eram como lírio-da-aranha-vermelha bem vibrantes que se movimentavam em sincronia em seus caules como aranhas reais mexendo suas patas. Toda a flora daquele ambiente parecia estar saturada de uma vitalidade incomum, uma energia que parecia me fascinar e ao mesmo tempo me levar a uma saudade de algo que eu não sabia o que era, uma saudade equilibrada entre a beleza e o horror. Tentava, por hábito, procurar significado nessa sensação, e talvez decifrar a linguagem das flores que eu via neste vale cinzento. Mas aquele não era o momento para decifrar aquilo, eu tinha que encontrar o castelo.
Andei por aquela neblina, procurando o caminho de volta. E avistei uma vila peculiar, havia pessoas lá, com seus rostos disformes e uma fumaça negra que emanava de seus olhos e bocas, outros nem rosto possuíam, me deixaram intrigada e um pouco assustada. Porém eles não pareciam ser perigosos, mas olhar diretamente para eles me perturbava. Respirei fundo, eu fui até um deles, precisava voltar ao castelo. Cheguei perto com receio.
— Olá. Poderia me dizer em que lugar estou e como posso voltar ao castelo? — perguntei receosa.
— Essa é a Vila de Séttimor — ele respondeu com paciência. — Nem todas as pessoas são bem-vindas aos umbrais de Drácula ou aos cuidados de Olga Nivïttiz, então criamos aqui um lugar para existirmos. Para voltar ao castelo você deverá seguir em direção ao ramoso nevoeiro. — Ele apontou para esquerda para um lugar cheio de brumas e ramos brancos translúcidos que pareciam vivos. — Você é hospede do castelo? — ele perguntou se virando para mim.
— Sim, mas de alguma forma que não entendo, vim parar aqui.
— Você é bem-vinda aqui, se quiser ficar por um tempo. Mas ficar por tempo demais distante do castelo pode te fazer perder partes do seu corpo, memória, moral, consciência e existência. Tudo será corroído pelo paradoxo da atemporalidade. Nós, os settimôros, nos acostumamos a isso. Mas aconselho que, se não for da sua vontade, é melhor não permanecer por muito tempo aqui.
Mesmo com esse aviso eu não sentia vontade de ir, não naquele momento. A aparência fora do comum dos habitantes, aquele vale, aquela vila, tudo parecia me acolher. Enquanto eu o seguia para a vila em meio àquela neblina densa, pude reparar nas casas cinzas e de telhados pretos, alguns tão pontiagudos que pareciam espetar a neblina que ocultava aquele céu também cinzento. Em certos telhados eu podia ver aquele líquen vermelho como sangue, diferente do vale em que eu havia acordado, a flora daquele lugar parecia morta, flores secas e árvores altas com troncos e galhos enegrecidos. Os habitantes, apesar das aparências perturbadoras, não transmitiam perigo algum, assim como o morador que me guiava pela vila. Todos pareciam viver suas vidas, crianças, jovens, velhos todos, mesmo que sem nenhuma expressão em seus rostos vazios e cheios de fumaça, pareciam transparecer felicidade. Suas vestimentas variavam em estilos e cores, alguns usavam mantos longos e escuros, outros se vestiam com roupas que pareciam feitas de couro. Existiam aqueles que se apresentavam com trajes nobres em cores entre vermelho, preto e tons cinzentos, com diversos adornos. Resolvi ficar um pouco mais naquela vila, talvez para entender o motivo de eu me sentir tão confortável lá.
O morador, que depois se apresentou com um nome que parecia soar como Dalvk, ou coisa parecida, virou-se para mim talvez percebendo meu interesse na vila.
— Vejo que está interessada na vila, muitos que acabam aqui perdidos a acham extraordinária, outros a acham terrífica. Eu posso apresentá-la para que você tire suas próprias conclusões. Você aceita?
— Sim, claro. — Eu disse animada.
Ele me guiou pela vila me mostrando cada parte dela, me levou até uma das casas que era cinzenta também por dentro e dominada pela neblina que vinha de fora. Ele me mostrou um pequeno altar e me explicou que havia um desse em todas as casas da vila, onde diariamente eram deixadas oferendas ao Ente. Alguns deixavam pedras preciosas, flores colhidas no vale fora da vila, ou objetos feitos à mão. Ele me explicou que o Ente era uma entidade que representa para os habitantes da vila o entendimento além do paradoxo, ele representa a paz em meio ao desconhecido. Me contou que o Ente se manifesta para aqueles que estão próximos de sucumbir ao paradoxo, guiando-os.
Ele relatou que em noites de lua nova, os moradores vestem roupas cerimoniais em preto ou cinza e acendem velas em um ritual silencioso. Essa cerimônia era chamada de noite das sombras, onde eles homenageavam aqueles que passaram pela sétima e última morte. Toda a vila ficava em silêncio enquanto as velas eram levadas até o cemitério e deixadas sobre as lápides. Acho que ele percebeu que eu não estava entendendo essa coisa de “sétima e última morte”, pois olhou para mim como se sorrisse e me explicou.
— Eis as sete mortes que conduzem a vila. Me permita explicar cada uma delas.
— Sete mortes? — eu disse curiosa.
— A primeira morte é adentrar ao paradoxo, o nascer na vila. Esta morte é o início da nossa jornada, o momento que deixamos o desconhecido e entramos nessa existência. A segunda morte é sentir o paradoxo, na infância. Nesta fase começamos a sentir o paradoxo e nos deparamos com a complexidade do nosso mundo pela primeira vez. A terceira morte é perceber o paradoxo, na pré-adolescência. É quando começamos a perceber claramente as inconsistências do paradoxo, questionando a lógica que nos cerca. A quarta morte é questionar o paradoxo, na adolescência. Nessa fase, começamos a questionar o paradoxo em busca de respostas. A quinta morte é compreender o paradoxo, na vida adulta. É quando começamos a aceitar e entender o paradoxo e abraçando sua complexidade e sua existência. A sexta morte é desejar o paradoxo, na velhice. Nesta fase passamos a desejar o paradoxo buscando a complexidade que antes nos desafiava. E, finalmente, a sétima morte é sucumbir ao paradoxo, a morte em si. É quando deixamos essa existência e vamos de encontro ao um estado mental de paz, somos consumidos pelo paradoxo, nos entregando ao desconhecido uma vez mais e indo de encontro ao Ente.
— Isso é tão profundo e bonito. — Eu fiquei fascinada com a sua explicação.
— Sim, cada fase é uma pequena morte que nos transforma, nos prepara para a nossa próxima morte. Venha, quero te mostrar algo.
Eu o segui por entre o cemitério da vila, e a cada passo eu queria fazer parte daquele mundo e daquele povo. Ele me levou até um local que parecia um pequeno templo, sentado lá dentro algo que parecia um homem envolto em um manto negro sentado em posição de lótus, com o rosto virado para cima como se olhasse fixamente para o teto. Seu rosto paralisado, olhos profundos e negros, uma fumaça cinza escura que parecia sair dos seus poros.
— Este é nosso líder ancião Kvvus, ele está passando pela sétima e última morte. Ele não fala mais, não escreve, apenas fica a meditar e a sucumbir lentamente ao paradoxo. Logo o paradoxo o consumirá, e acredito eu, ele encontrará o Ente.
Não sei se foi a presença do ancião ou estar em um cemitério, mas comecei a me sentir estranha. Um enjoo, sonolência, uma sutil sensação de pavor que subia pelo meu ventre e se fixava no meu estômago. Olhei para minha pele que antes era um marrom claro e estava adquirindo um tom acinzentado.
— Os efeitos do paradoxo chegaram cedo demais para você. Aconselho que vá agora, pois depois não conseguirá sair mais. Venha.
Ele me levou até o ramoso nevoeiro e disse que eu deveria seguir por ele sem olhar para trás. Me despedi dele como quem se despede de um amigo de longa data e me surpreendi ao abraçá-lo sem pensar. Ele retribuiu o abraço e disse para que eu fosse logo. Caminhei por entre a neblina e cada passo era um desafio, sentia vertigens que se intensificavam aos poucos. Eu precisava encontrar alguém, a solidão que antes era uma necessidade para mim, agora era um incômodo insuportável, talvez o encontro com os settimôros tenha me deixado com a necessidade de estar no meio de outros. Eu não queria estar sozinha, eu queria voltar para a vila. Os galhos do nevoeiro me prendiam tentando me arrastar de volta para névoa e dentro de mim a vontade de apenas me deixar ir e ser levada por ele de volta à vila era quase irresistível. Enquanto me deixava ser puxada vi uma sombra parada para além da névoa. Eu precisava saber o que era ou quem era, sua aparência me era familiar. Então ela apareceu diante de mim, imponente e serena. Seus olhos de um branco cadavérico. Era a mulher que me olhava ao pé da minha cama. Ela me olhou por um tempo.
— Não é a sua hora, você não deveria querer estar aqui. — Sua voz era suave como um sussurro. — Hadassa não te culpa por nada. — Ela pegou um globo parecido com uma bola de cristal só que menor e me mostrou ela em um jardim cuidando de belas flores negras. — Ela está em paz e quero que permaneça assim. Esse apego está te matando aos poucos, volte para o castelo. — Ouvir o nome da minha amada sair de seus lábios fez com que eu sentisse um frio subir pela minha espinha e um incômodo no peito. E, enquanto escrevo essas palavras em meu diário, a lembrança do evento faz com que consiga sentir outra vez esse frio me percorrer.
Enquanto eu olhava para ela, tentava processar suas palavras. Minha mente era um turbilhão de pensamentos e emoções. Vê-la feliz em um jardim, saber que todos os encontros que tive com ela foram talvez reais, despertou uma ideia que dominou minha mente. Comecei a falar comigo mesma em voz alta, gesticulando de maneira incontrolável com as mãos, andando de um lado a outro.
— Será que é possível trazer ela de volta? Drácula fez isso, se eu soubesse como talvez eu poderia fazer o mesmo. Mas como ter acesso a esse conhecimento?
Perdida em minhas reflexões, mal percebi que a mulher tinha desaparecido e que a névoa ao meu redor se adensava. Seus ramos me reconfortavam de forma sutil. Só que agora com essa ideia na mente eu não queria mais permanecer lá, por mais tentador que fosse. Eu corri e seus ramos se moviam rápidos na bruma, mas meus esforços pareciam em vão. A mulher misteriosa de antes apareceu de novo, dessa vez carregando um lampião prateado, ela me entregou ele.
— Isso a guiará de volta ao castelo. — Voltei a me movimentar pela névoa e a mulher misteriosa segurou meu braço me obrigando a voltar a olhar para ela. — Que ela permaneça em paz onde ela está, para sua segurança. — Seu tom soou como uma ameaça e isso me alarmou. Ela soltou meu braço com delicadeza, fechou os olhos por uns segundos como se parasse para refletir. — Há mistérios que não precisam ser conhecidos. — Ela disse isso e desapareceu em meio à névoa, me deixando sozinha com o lampião.
Voltei a correr, segurando firme o lampião, e de repente me senti puxada na direção em que eu seguia. Logo me encontrei no quarto como se estivesse acordando de um sonho. Me sentei sobressaltada, uma euforia febril tomou conta de mim. Senti uma dor muito forte no antebraço esquerdo, a criatura estava roendo-o. A visão era horrível, seus dentes afiados cravados na minha carne, o sangue escorrendo. Senti uma onda de desespero e instintivamente, com toda a força que pude reunir, bati com o lampião na cabeça da criatura. O impacto foi brutal e deixou o lampião em pedaços, espalhando vidro e metal pelo quarto. A criatura urrou de dor, recuando com o golpe. Aproveitei a oportunidade e corri para fora do quarto, sentindo o coração bater forte e o sangue pulsar em meus ouvidos. Os corredores do castelo se estendiam intermináveis diante de mim, mas eu não podia parar, precisava escapar da criatura.
Corri até minhas pernas começarem a doer e meus pulmões arderem. Parei em um corredor por um momento para tomar fôlego. Havia uma grande janela à minha direita, me aproximei. Fiquei sem palavras com o que vi, depois de 6 dias de completa escuridão azulada, o céu estava finalmente clareando. Uma manhã cinza e enevoada, as flores estavam mortas e as árvores sem vida. A solidão que antes eu tinha como refúgio, agora me consumia. Aquela manhã gelada e cinza parecia tornar tudo mais incômodo dentro de mim. Eu não queria estar sozinha, não depois de passar um tempo com os settimôros e ver neles toda aquela união e o desapego por aquilo que era permanente. De repente, ouvi risadas. Risadas infantis, ecoando pelos corredores. Dissonante naquela atmosfera solitária. Sem pensar muito segui o som, na esperança de encontrar qualquer coisa.
Quanto mais eu me aproximava das risadas, mais meu coração acelerava de ansiedade. Passei por salas vazias com apenas retratos antigos que pareciam me seguir com o olhar. Cheguei a uma porta e as risadas vinham lá de dentro. Empurrei a porta e fiquei perplexa com aquele salão imenso e alto, bem iluminado, cheio de brinquedos, artes penduradas nas paredes de pedra e várias crianças brincando. Seus rostos angelicais, suas roupas anacrônicas. Ao me verem entrar pararam de brincar e me olharam com curiosidade. Uma das crianças, uma menina de cabelos negros e olhos brilhantes, se aproximou de mim.
— Você está perdida? — ela perguntou com uma voz inocente. Senti as lágrimas virem e as segurei enquanto olhava para aquelas crianças.
— Sim. — Respondi com a voz tremendo. — Estou perdida. — A menina sorriu e segurou minha mão.
— Venha talvez depois da aula eu possa te ajudar a encontrar o caminho.
Ela me levou para o fundo da sala, me sentei no chão e fiquei observando as crianças enquanto elas pareciam brincar. Então algo perturbador chamou minha atenção, sete espectros brancos agindo como sombras e imitando cada movimento das crianças. Cada espectro de tamanho diferente. De repente uma das crianças, em segundos, se transmutou e assumiu a forma de um adulto. Fiquei surpresa quando uma a uma as crianças assumiram a forma dos espectros e se transformaram cada uma, umas em adultos, outras em adolescentes, outras em velhos. Me lembrei das sete mortes dos settimôros, e senti falta daquele lugar incomum ao qual passei tão pouco tempo. A menina de cabelos negros havia acabado de se transformar em uma adulta e logo depois voltou a ser criança.
— Como isso é possível? — Perguntei cheia de curiosidade e espanto.
— Todos aqui são aprendizes do domínio do tempo. Aprendemos a nos transmutar com o professor Monm. Podemos viver a infância em um segundo e logo depois nos tornarmos adultos. Quer aprender? — Ela me perguntou cheia de entusiasmo na voz. Hesitei por um momento, mas a curiosidade de experimentar esse conhecimento era tentadora.
— Sim. — Respondi trêmula e fiquei um pouco em dúvida se era o certo a fazer.
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7. Jardim da Morte: Dança da Morte
Na penumbra da noite eterna, um jardim agora floresce no Sheol. O jardim…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Na penumbra da noite eterna, um jardim agora floresce no Sheol. O jardim agora possuía rosas negras que exalavam um perfume fúnebre. A ceifadora trouxe de uma de suas viagens e deu a mulher a responsabilidade de cultivá-las naquele solo incomum. A mulher estava fazendo um bom trabalho com as flores. Antes só ficava ali sentada perdida em pensamentos à espera da ceifadora para mais um de seus jogos habituais e suas conversas, mas agora a mulher tinha uma atividade além de só esperar.
— Você voltou rápido dessa vez. — Murmurou a mulher olhando para a ceifadora que se sentava à mesa e descansava a sua foice ao seu lado, o símbolo do seu inescapável ofício.
— Sim — A ceifadora respondeu com um sorriso enigmático.
— Ainda bem que está de volta, depois do nosso passeio você saiu tão rápido para seus afazeres que nem pude te contar os detalhes do que ocorreu. — A mulher se sentou à mesa de mármore de frente à ceifadora.
— Você sabe que eu estava lá, não é? Eu presenciei tudo. — Disse a ceifadora.
— Eu sei, eu sei, mas você é a única com quem posso falar e eu queria falar sobre isso.
— Está bem. Podemos falar disso enquanto jogamos então? — Disse ela arrumando as peças de xadrez à mesa, brancas para ela e pretas para mulher. — Depois tenho um convite a te fazer. — A ceifadora sorri, seu olhar penetrante refletindo a luz pálida da lua.
— Humm…que misteriosa, agora fiquei curiosa. Está bem, vamos jogar. — A mulher se preparava.
A ceifadora sorri e avança o peão da dama para a quarta casa.
— Ah…— Suspirou a mulher. — Aquela belíssima capela, iluminada pelas chamas das velas naqueles castiçais dourados tão brilhantes. — A mulher responde com o peão da dama para a quarta casa.
— Eu vi, tudo estava perfeito. Como se fosse feito só para você. — A ceifadora prossegue avançando seu peão da coluna “c” para a quarta casa, expondo sua rainha de maneira tão prematura.
— A música que tocava, uma sonata tão melancólica que fazia ter vontade incontrolável de cantar e dançar. Rute debruçada sobre a Bíblia. Ela sempre foi curiosa e não resistia a um livro, não importa qual fosse. — A voz tingida de nostalgia. — E, quando nos vimos, era como se nunca tivéssemos nos separado. Dançamos ao som daquela sonata. Cada movimento era uma lembrança tão saudosa. — A mulher faz seu peão avançar e capturar o peão da ceifadora na coluna “c”.
— Vocês dançaram lindamente. — Disse a ceifadora sorrindo para ela e avançando o cavalo do rei para a terceira casa.
— Então tudo ficou escuro e voltei para cá num piscar de olhos. — Disse a mulher em tom triste.
— Os momentos mais preciosos são fugazes. — A ceifadora murmurou isso acenando lentamente.
A mulher tentou reagir, mas os movimentos da ceifadora foram implacáveis. Cada avanço, uma captura, uma dança mortal. Peões caem, cavalos são abatidos até que em um movimento final, a ceifadora encurrala o rei da mulher com um xeque-mate inescapável.
— E mais uma vez você vence. — A mulher suspira.
— E olha que nem me esforcei hoje. — Diz a ceifadora sorrindo. — Estou cansada de tantas vitórias. — Confessa a ceifadora, apoiando as mãos no queixo.
— E o convite? — A mulher pergunta ansiosa.
— Ah, sim, o convite, sim. — Ela tira um envelope vermelho e preto adornado de arabescos dourados da maleta e entrega à mulher. — Então minha adorável dama, você aceita me acompanhar em um baile de máscara no castelo do Conde Drácula? — Disse isso de forma afetada.
— É claro, que dizer é… — A mulher falava tropeçando nas palavras. — Conde Drácula, o vampiro? Baile de máscaras? Isso não seria quebrar as regras? — Ela olha a ceifadora em dúvida.
— Sim é o baile anual do Conde Drácula o vampiro e…sim, em partes estaríamos quebrando algumas regras, mas recebi o convite para esse baile, estou trabalhando demais também, preciso de um pouco de diversão, entende? — A ceifadora olha para ela com um sorriso forçado.
— Então, por que não? Vamos? — A mulher sorri intrigada.
E assim, uma porta preta, adornada de arabescos dourados nas bordas envolta em uma névoa carmesim se materializou foram transportadas para um grande salão suntuoso. As duas estavam belamente vestidas, a mulher com um magnífico vestido de veludo sanguíneo com decote em V, mangas longas bem justas terminadas em um punho largo finalizado em rendas. A saia volumosa que arrastava graciosamente pelo chão. Em seu pescoço um colar dourado que pendia um camafeu delicado. Em seu rosto uma máscara simples em tom de sangue adornada de dourado, os cabelos escuros longos presos atrás como uma cascata de cachos.
A ceifadora em seu vestido preto vitoriano, com a saia volumosa em camadas que varriam o chão com graça a cada movimento, o vestido parecia sussurrar lamentos. Um corpete justo que realçava sua figura esguia. Uma gola alta e austera, mangas bufantes nos ombros que desciam justos até os punhos, com babados delicados de renda. Em sua cabeça, a ceifadora usava um pequeno chapéu preto de abas, posicionado de lado. O chapéu adornado com fita preta de seda e uma única pena negra. Os cabelos grisalhos, que contrastavam com a sua pele de um grafite cinzento, preso atrás com uma trança única. No rosto uma máscara de médico da peste ocultava suas feições. Feita de couro branco, a máscara tinha um bico longo e curvado semelhante a um corvo, com lentes redondas e escuras que ocultavam seus olhos de um branco leitoso sem pupila. Segurava firmemente uma bengala de ébano, no lugar de sua foice. A bengala com um cabo ornamentado em prata, terminava em sua ponta metálica que ressoava de modo suave ao tocar o chão.
A ceifadora entrou no salão de braços dados à mulher, com sua confiança habitual. Observava cada detalhe através das lentes escuras da máscara. A música espectral, as luzes tremeluzentes criavam um ambiente convidativo para elas. Algumas pessoas no baile não ousavam se aproximar demais da ceifadora devido a sua presença impactante. Ao lado dela a mulher estava deslumbrada com toda aquela decoração, parecia um sonho para ela estar presente num evento tão impressionante.
— Vamos dançar? — Sugeriu a ceifadora, sua voz ecoando através do bico de sua máscara.
— É claro. — Disse a mulher radiante. — Mas vou logo te avisando, não sei conduzir.
— Sem problema, eu só sei conduzir. — Tomando a mão da mulher, a ceifadora a levou até o meio do salão. Seus movimentos eram fluidos e precisos. As duas a dançar criavam um espetáculo hipnotizante.
Elas dançaram graciosamente pelo salão. Se divertindo enquanto rodopiavam. O riso de ambas se misturando a música. Trocaram de pares várias vezes aproveitando cada segundo do baile e cada companhia excêntrica. Aproveitaram da comida e das bebidas, conversaram amenidades com aqueles que queriam dialogar e dançaram com aqueles que estavam ali somente para dançar. Retornaram a dançar juntas, era chegada a hora da última dança da noite. Bailaram aproveitando cada movimento e a música findou. O baile havia chegado ao fim, a mulher estava eufórica:
— Nunca imaginei que em morte iria realizar um sonho de adolescente de participar de um baile de máscara vestida como uma verdadeira dama gótica. — Ela sorria e apertava as mãos eufórica. Enquanto a ceifadora sorria para ela por trás da máscara.
Elas andaram pelo castelo procurando um portal que as levasse de volta ao jardim. Seus passos ecoando juntos com tantos outros que seguiam para seus aposentos ou para a saída do castelo. Tantos seres tão estranhos quanto elas. A atenção da mulher foi atraída para a vista de uma varanda, seguiu adiante e se deparou com um céu estrelado tão belo e uma lua cheia descomunal que parecia quase dominar o firmamento. Sentiu-se preenchida por uma sensação serena, como se pudesse sentir uma mão divina acariciar seus cabelos a deixando tranquila. Começou a cantarolar de modo suave uma canção e sua voz ecoava. A melodia saía de seus lábios harmonizando com a calmaria da noite. Ela estava hipnotizada por aquela lua, seus olhos fixos nela enquanto cantava. Ficou ali cantando para o luar e perdida em pensamentos. A ceifadora se aproximou, interrompendo seu canto suave:
— Vamos, princesinha gótica, já passou do nosso horário. Temos que ir logo. Já encontrei o portal. — Ela falou batendo sua bengala no chão de pedra impaciente.
— Até a próxima vez. — Sussurrou a mulher para o castelo e a lua. Relutante ela se virou e foi de encontro à ceifadora. Entraram na porta cinza adornada de beladona e voltaram ao jardim.
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6. Castelo Vampírico: O firme fundamento das coisas que se esperam
Diário de Rute Fasano. 25 de dezembro — Acredito que você tenha perguntas — Ela fixou seu olhar no meu…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Diário de Rute Fasano
25 de dezembro -
— Acredito que você tenha perguntas — Ela fixou seu olhar no meu, sorrindo. — Venha, vamos procurar um lugar mais calmo para poder conversar.
Andou à minha frente me guiando pelos corredores do castelo, abriu uma grande porta que dava para uma imensa biblioteca com inúmeros livros, fechou a porta atrás de nós deixando lá fora o barulho da música. eu estava deslumbrada com aquele cômodo que eu ainda não tinha conhecimento. Imaginava se na minha versão do castelo também havia uma igual, estantes altas, livros de diversas cores, uns muito antigos e outros mais novos. Havia uma mesa no centro com um tecido preto e acima dela um livro muito antigo, ao qual não pude deter minha atenção, minha doppelgänger apontou para algumas poltronas num canto da biblioteca. Nos sentamos, ela retirou sua máscara e eu permaneci com a minha:
— Como isso é possível? — Eu disse ansiosa por uma resposta que fizesse sentido.
— Eu poderia explicar isso usando o conceito de multiversos, das múltiplas versões de nós mesmas vivendo vidas diferentes em cada mundo, mas acredito que você já pensou nessa hipótese. — Ela falava com tanta desenvoltura, que eu me perguntava se a natureza vampírica dela que a tornou assim.
— Você tem razão. Não é essa a pergunta que eu quero fazer. — Me endireitei na poltrona tentando formular a pergunta na minha cabeça enquanto balançava a perna esquerda. — Qual é o motivo de tudo isso? Esses bailes, assombrações, perturbações, revelações, tudo isso.
Ela sorriu, talvez percebendo o quão mal eu poderia formular uma pergunta. Cruzou as pernas, colocou as mãos sobre o colo, respirou fundo mantendo aquele sorriso intacto:
— Entenda, Drácula não está em busca de poder, e sim, como cada hóspede deste castelo, em busca de conhecimento e tudo que o mantenha vivo, que faça com que ele se sinta mais vivo. A eternidade às vezes nos leva a não sentir nada, ser indiferente a certos prazeres e a nossa presença enche o castelo de vitalidade. — Me olhou séria. — Os estratagemas terríveis que ele usa é para despertar em nós sentimentos e sensações que às vezes não nos permitimos sentir, mas que alimentam o castelo e a nós mesmo. Ninguém aqui é como antes de adentrar o castelo. Ele não pode sair daqui, mas pode trazer e convidar quem há de melhor lá fora para cá. E ele aceita os curiosos, os sedentos, os perdidos e os fugitivos. — Na última palavra ela levantou as sobrancelhas, com um sorriso que já começava a me irritar e fixou o olhar em mim por bastante tempo.
— Entendo, mas qual o motivo de ele se apegar a partes muito específicas do meu passado? O que ele quer conseguir com isso? Eu já superei essas coisas. — Eu disse já bastante incomodada e com uma certa irritação na voz.
— Você está tentando se enganar, ou melhor me enganar, não é? — Falou usando um tom de voz debochado.
— Então o que devo fazer? deixar as coisas acontecerem e ver o que vai dar? — Me endireitei mais uma vez na poltrona e cruzei os braços.
— Escute, eu não posso te dar todas as respostas, apenas partes delas, não posso dar a você o refrigério da alma que você necessita. — Falou isso olhando para cima e movimentando a cabeça de um lado para o outro. — O que aconteceu comigo, os caminhos que percorri aqui, as escolhas que fiz são diferentes das que você tem tomado, compreende isso? Em nenhum momento desde a minha entrada no castelo até esse momento eu não me encontrei com nenhuma doppelgänger, o que significa que talvez você não venha se tornar o que eu me tornei, então não posso dizer o que você deve fazer, você entende isso? A única coisa que posso dizer a você é… — Ela parou por um momento, fechou os olhos sorrindo e balançando levemente a cabeça. — Me surpreendo com o que vou dizer agora, mas deixe a lógica por um breve momento de lado e tenha fé.
— Sério? — Olhei para ela em dúvida, ainda de braços cruzados, tentando acreditar no que ela havia dito.
— Sei que parece piada, mas leve em consideração a nossa nova família.
Ficamos em silêncio até que tomei fôlego para mais uma pergunta. Ela me surpreendeu colocando os dedos gelados em um movimento suave em meus lábios, impedindo que eu formulasse uma frase.
— Eu sei que pode parecer estranho, mas sinto que devemos dançar. — Disse retirando os dedos devagar. — Daqui a pouco vão anunciar a última dança e após isso devemos voltar a nossos aposentos. Sei que Drácula se ocupará em fazer você voltar sã e salva, talvez nem tanto sã, para seu mundo. Então vamos aproveitar a nossa própria companhia por alguns instantes?
Não havia percebido que o tempo passou tão depressa. E como tinha pouco tempo aceitei a última dança. Ela recolocou sua máscara e voltamos ao salão. Todos os pares já se preparavam para dançar. E dançamos no meio do salão com ela conduzindo, repetindo exatamente os passos que dancei com minha amada na capela. E rodopiamos uma, duas, três e quatro vezes e meu corpo, como se eu não tivesse controle sobre ele, foi jogado em seus braços. Do meu peito apertado pude sentir irradiar aquele formigar característico que parece abrir caminho pelos meus músculos como se eu estivesse eletrificada. No meio daqueles rostos que me olhavam por trás das máscaras e gargalhavam mais alto do que eu havia percebido inicialmente, a música alta, o arrastar dos pés sobre o chão do salão que agora parecia mais cheio, o som rascante dos tecidos roçando em outros tecidos, tudo isso me consumia e eu precisava fugir dali. A música cessou:
— Calma. Inspire e expire lentamente. — Ela disse suavemente com um olhar preocupado. — Nosso tempo acabou, espero que sua experiência com a Selenoor seja diferente da minha. Nos veremos de novo e com mais tempo, espero. — Ela tirou minha máscara e me deu um beijo suave na minha face direita, olhando em meus olhos ainda preocupada. Em um piscar de olhos eu estava de frente a porta do meu quarto.
Já havia passado das 3h, coloquei a mão na maçaneta e fiquei à porta pensando se devia entrar no quarto ou tentar a sorte por entre o castelo, sei que deveria seguir as regras, mas e se eu não as seguir? Drácula foi bem específico no convite dizendo que as três deveríamos estar em nossos aposentos, mas o tempo que fiquei pensando se entrava ou não, deve ter feito com que eu passasse das três. Então eu já estava quebrando a regras, o que de pior ou anormal poderia acontecer comigo além do que já aconteceu? Assim que tirei minha mão da maçaneta pude sentir um frio percorrer meu corpo e irradiar por ele, gelando meu coração, trazendo a ele uma sutil tristeza e desesperança já conhecida minha. Fui então em rumo do que o castelo tinha a me proporcionar, a palavra “Selenoor” ecoava em minha cabeça, o que seria isso, algo com que eu deveria me preocupar? Então fui em busca de mais uma perigosa aventura e a cada passo que eu dava eu me perguntava o motivo de estar fazendo isso tudo, por que estou me colocando em perigo, me fazendo presenciar situações intensas, procurando gatilhos para acionar memórias traumáticas?
Caminhei sem rumo, perdida em pensamentos e encontrei novamente a capela de outrora. E a capela que antes se encontrava em ruínas, agora estava no ápice de sua beleza, não havia somente traços dessa vez, ela era bela e imponente. Eu entrei e o ar dentro dela estava denso e gélido, os castiçais com velas que antes estavam velhas e quebradas, agora tremulavam de modo suave suas chamas sobre o altar, percorri o corredor entre os bancos de madeira agora todos em perfeito estado para chegar ao ambão. A bíblia estava em perfeito estado e curiosa fui olhar se haveria de novo algo marcado, aberta no livro de Mateus no capítulo 17 e em um azul-pálido bem fraco apenas parte do versículo 20 estava marcado “Por causa da vossa pouca fé” li e ri disso, aparentemente minha falta de fé era algo perturbador. Uma luz azul pálida vinda da lua se infiltrava pelos vitrais, iluminava a capela de modo incomum, e isso me perturbava, eu sentia o brilho da lua penetrar a minha pele através das minhas vestes e sua luminosidade era fria. Me sentei trêmula em um dos bancos, e coloquei as mãos sobre o colo. Fechei meus olhos e deixei minha mente vagar permitindo qualquer pensamento vir, fui invadida por uma fragrância cítrica e nostálgica, que trouxe memórias de infância. Me lembrei de segurar a mão de minha mãe enquanto entrávamos por portas grandes de madeira maciça. A luz do sol sendo filtrada pelos vitrais coloridos, espalhando um arco-íris quase que hipnótico pelo chão de pedra. Me lembrei de correr pelos bancos da igreja, os sapatos ecoando por aquele espaço santo, minha mãe rindo e me chamando para que eu me sentasse ao seu lado. As missas sempre com aqueles cantos alegres que me envolviam com um calor reconfortante, como se eu pudesse sentir o abraço de algo divino. A sensação de pertencimento era incontestável, eu me sentia segura, parte de algo que era muito maior que eu mesma.
Deixei minhas lembranças continuaram a fluir e chegarem à minha adolescência, a igreja que antes era meu lugar seguro, se tornou um local de exclusão. Eu sentia o peso dos olhares de desaprovação, os sussurros abafados quando eu adentrava aquele local santo. As mesmas pessoas que antes me tinham como família agora me olhavam com desconfiança e desgosto. Eu não compreendia o que havia mudado até perceber que a questão estava em quem eu era. O lugar que sempre me acolheu agora me rejeitava, as palavras de carinho se tornaram sermões fervorosos sobre pecado e redenção. Cada palavra era como facas afiadas penetrando minha alma. As palavras de amor ditas no púlpito começaram a parecer cada vez mais contraditórias atreladas com os olhares de julgamentos que passei a receber. E a cada dia a sensação de não pertencimento crescia, aquele lugar sagrado se tornou para mim apenas mais um edifício de pedra, as orações não eram mais um consolo e eu me sentia traída.
Meus pensamentos foram interrompidos por um som etéreo, vozes em coro vindo de todas os lados ao mesmo tempo e ecoando e preenchendo aquela capela, de modo suave cantavam em uníssono de modo quase tangível:
— Iesum, salvator mundi. Tue famuli subveni. Quos pretioso sanguine. Quos pretioso sanguine. Redemisti.¹
Apertei os olhos e as mãos com força para tentar controlar meus sentimentos e as sensações que logo me dominariam. Ouvir aquela canção depois de tantos anos irrompeu em mim um sentimento de nostalgia e pesar. Uma voz feminina familiar, vinha do lado de fora, além das paredes de pedra do castelo, começou a cantarolar:
— Fairy lady who stands on the walls, life is short and wait is long… — Era a voz da minha amada morta, um soprano angelical que ressoava com um toque sobrenatural. — The stars, away, dim with the dawn, fairy lady who stands on the walls…
Abri os olhos e ao reconhecer a melodia, e logo me levantei. Olhei para os vitrais e a luz azul pálida da lua parecia ter se intensificado. Fui em direção a música que parecia flutuar pelo ar me atraindo para algum lugar fora do castelo. Corri por aqueles corredores de pedra fria, sentia aquele ar gelado queimar os meus pulmões, meu coração palpitava descompassado. Eu podia ouvir meus passos ecoarem naquelas paredes de pedra. A cada curva, um novo corredor, a voz que me guiava parecia estar mais próxima e ao mesmo tempo fora do meu alcance. Os castiçais nas paredes lançavam uma luz rubra que contrastavam com minha ansiedade. Meus pensamentos eram inundados por lembranças, pelas nossas lembranças, fui tomada por uma mistura de medo e desejo. Será mesmo que eu queria vê-la de novo depois do nosso último encontro?
— Your tale has only begun, it comes from far, the Nowhereland…
Finalmente cheguei aos jardins do castelo, parei por um momento tentando recuperar o fôlego, me virei em direção a voz, minha respiração ainda ofegante. Olhei para cima e inclinada sobre o parapeito da sacada alta do castelo estava ela. Meu coração pareceu parar por um instante. Era ela com um vestido vermelho vivo longo, de mangas longas com punhos largos, como uma dama de conto de fadas. Curvilínea, saudável e corada, o cabelo comprido escuro em cachos, exatamente como eu me lembrava. Minha amada.
— The wind is blowing a sound well known, fairy lady, your love is long gone…
Ela cantou mais um verso da canção, que era a sua preferida e o tempo pareceu congelar. Eu queria gritar seu nome, mas as palavras ficaram presas na minha garganta. A luz da lua iluminava seu rosto e seu olhar era atraído para ela. E antes que eu pudesse fazer qualquer movimento, ela se virou lentamente, como se tivesse alguém dentro do castelo a chamando, e entrou sem nem notar a minha presença. Dei alguns passos, tentando encontrar fôlego para gritar. “Espera, por favor!” e minha voz saiu como um sussurro que foi levado pelo vento. Ela já havia ido e a visão dela desvaneceu na escuridão do castelo. Fiquei ali, parada, olhando para onde ela estava, sentindo as lágrimas virem e usando toda a força possível para não deixar elas descerem. Eu ouvia apenas o leve som do vento nas folhas.
Inspirei profundamente, segurei o ar por alguns segundos e soltei, virei para a lua cheia que havia chamado a atenção dela. O céu de um azul profundo salpicado de estrelas, e com uma lua descomunal tão perto. Reparei no jardim em que eu estava, envolto em um clima gélido, eu sentia o ar frio cortando a minha pele. Uma nuvem de vapor saía com cada respiração minha. A escuridão naquele jardim só era amenizada pelo brilho daquela lua cheia enorme e opressiva no céu iluminando os chuviscos que começaram a cair. Cada passo meu naquele chão úmido rangia sobre os meus pés enquanto caminhava. Havia estátuas de anjos com expressões melancólicas, de asas abertas ao vazio, damas esculpidas em mármore, com véus sobre seus rostos escondendo talvez semblantes tristes. Naquele jardim havia uma profusão de rosas espalhadas em arbustos, com pétalas de um vermelho sanguíneo que contrastava violentamente com o azul profundo do céu e o branco sobrenatural daquela lua cheia.
Enquanto eu caminhava o chuvisco aumentava, suas gotas frias se misturavam às lágrimas quentes que eu não conseguia mais segurar. As rosas, agora mais úmidas, pareciam mais vibrantes, era como se sangrassem sob a luz da lua. Um perfume adocicado levemente metálico impregnava o ar junto com o cheiro da terra úmida e do musgo sobre o chão e as estátuas. O jardim estava vivo e pulsante e fui invadida por um sentimento de solidão. A chuva aumentou ainda mais, o frio se infiltrou em meus ossos e precisei voltar para dentro do castelo. Corri para ele e escorreguei pisando em poças de água e terra que haviam se formado. Logo me levantei e continuei meu caminho. Todos aqueles corredores longos se tornaram tão curtos na minha volta ao quarto. Meus pensamentos eram um redemoinho confuso de saudade e culpa que me consumiam. Entrei no quarto, um ambiente agora familiar que me proporcionava um mínimo de conforto, com as mãos trêmulas fechei a porta atrás de mim com força numa tentativa vã de me afastar de tudo lá fora. Eu sentia que algo além da tristeza havia entrado comigo.
Tirei as roupas molhadas que agora eram um incômodo, o tecido colado em meu corpo. O vestido molhado que pesava e precisava ser removido como um fardo. Tomei um banho rápido para tirar a lama, mas não consegui tirar a sensação de que tinha algo agarrado a mim. Vesti algo confortável e largo e me deitei cansada. O sono veio logo, mas sem tranquilidade. Estava inquieta, sonhos conturbados agitavam minha mente, uma criatura escondida na escuridão azulada me observando silenciosa. Sua forma era nebulosa, mas sua presença era palpável, senti um peso sobre meu peito, tentei gritar no sonho, mas minha voz não saía.
26 de dezembro - Abri meus olhos e um calafrio percorreu todo meu corpo. No quarto escuro iluminado apenas pela luz da lua, percebi uma presença naquela escuridão azulada. Uma forma indefinida, com olhos como brasa. Meu coração batia descompassado e minha mente tentava racionalizar aquilo como produto da minha imaginação. Mas o medo intenso que me consumia dizia o contrário. Me sentei na cama e a forma sumiu, talvez fosse apenas um resquício dos meus pesadelos. Não consegui mais dormir, então fui usar meus sentimentos para escrever algo que valesse a pena ser lido. Percebi que não amanhecia, a lua continuava lá, cada vez mais brilhante, eu sabia que era manhã, pois o café-da-manhã trazido para mim no mesmo horário acompanhado pelas três batidas na porta já havia chegado. Passei o dia abatida, a presença da criatura ainda fresca em minha mente. Na hora de dormir sentia arrepios constantes e a sensação de ser observada por olhos invisíveis. Mal conseguia fechar os olhos. Sonhei com corredores intermináveis, sempre correndo, mas nunca chegando a lugar nenhum.
27 de dezembro - Acordei assustada, com uma sensação de algo se infiltrando em meus pensamentos. A lua agora parecia assustadoramente mais próxima. A criatura parecia mais distinta dessa vez, os olhos ardendo em chamas. Tentei me apegar aos pensamentos de que ela era apenas fruto da minha imaginação e voltei a dormir um sono agitado. Minhas noites se tornaram um tormento, sonhos terríveis onde minha amada aparecia, os olhos cheios de uma dor incompreensível, a voz melodiosa agora carregada de desespero. E na escuridão azulada, a criatura espreitava, aguardando sua oportunidade.
28 de dezembro - A lua não desapareceu ao amanhecer e sua presença já tornava o tempo irrelevante. Acordei sentindo dores pelo corpo, sensação de fraqueza e náuseas. Mesmo assim sentei-me para escrever e por vezes podia enxergar a criatura pelo canto do olho a me rondar como se esperasse seu momento. A sensação de mal-estar parecia piorar então voltei para cama e adormeci.
29 de dezembro - Os dias se misturavam, eu já não tinha muita certeza de que dia era. Me guiava apenas pelas batidas habituais na porta do café-da-manhã, almoço e jantar. O mal-estar piorará e eu estava febril, uma dor de cabeça lancinante, enjoos incessantes, me levantava da cama com dificuldade. Dormia várias vezes ao dia em uma sequência de tormento e vigília. E sentia a criatura mais próxima a cada abrir e fechar de olhos. Em meus sonhos eu ouvia gritos acusatórios da minha amada me culpando por sua morte. Minha mente parecia à beira da ruptura. A criatura estava mais próxima, quase tocando a cama onde eu dormia.
30 de dezembro? - A lua permanecia no céu, uma sentinela que vigiava meu sofrimento. A febre queimava a minha mente, dores incessantes em meu corpo. Não conseguia mais sair da cama, e a criatura estava tão próxima que eu podia sentir seu hálito gelado, grandes olhos vermelhos brilhando com intensidade, o corpo esquelético, a pele pálida e esticada sobre os ossos protuberantes, parecia faminto com aquele sorriso aberto de orelha a orelha com dentes afiados e amarelos. Comecei a delirar, não distinguia mais o que era real e alucinação. Meus sonhos eram um entrelaçamento de imagens de morte, gritos de agonia, imagens distorcidas. A criatura ao meu lado de olhos fixos em mim, parada apenas a espera.
31 de dezembro? - Mais um dia sem conseguir levantar da cama. A lua parecia estar prestes a devorar tudo ao redor, era tão grande que eu já nem via mais o céu. A criatura estava deitada ao meu lado com o rosto frio bem junto ao meu, seus grandes olhos vermelhos e aquele sorriso incômodo. Com uma mão de dedos finos e longos acariciava minha cabeça como se eu fosse sua cria ou um pequeno filhote, parecia testar minha sanidade. Eu só conseguia me imaginar morrendo ali e meu corpo, talvez devorado, sendo encontrado tempos depois. Tentava me segurar ao pouco de sanidade que eu ainda tinha. Sentia a criatura como um abutre apenas esperando minha morte para se apossar do meu corpo ou saciar seus hábitos necrófagos, ou fazer sabe-se lá o que. A lua, essa entidade, o medo, a culpa, tudo se misturava na minha mente, eu não encontrava mais forças para lutar contra aquilo, eu havia deixado toda a esperança escapar por entre meus dedos febris. Tentava me agarrar ao pouco de sanidade que me restava, mas eu não tinha esperança de que sobreviveria mais uma noite.
Nota de rodapé:
1.Jesus, Salvador do mundo / Teus servos te pedem ajuda / Aqueles a quem com teu precioso sangue /Aqueles a quem com teu precioso sangue / Você resgatou
Senhora encantada que espera no muro /A vida é curta e a espera é longa / As estrelas ao longe, enfraquecem com o alvorecer / Senhora encantada que espera no muro / Seu conto apenas começou / Vem de longe, da Terra de Lugar Nenhum / O vento está soprando um som bem conhecido / Senhora encantada, seu amor há muito se foi.
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5. Castelo Vampírico: Agora conheço em parte, mas, um dia, conhecerei plenamente
Estou há dez dias sem sair do quarto, são muitas as sensações…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Diário de Rute Fasano
23 de dezembro - Estou há dez dias sem sair do quarto, são muitas as sensações, a ansiedade, o medo, a raiva, tristeza, todas elas presas e misturadas na minha mente, borbulhando, e correndo pelas minhas sinapses e causando um estrago no meu psicológico. As únicas coisas que tenho feito esses dias já se tornaram tão rotineiras que nem me dei ao trabalho de escrevê-las diariamente, pois se resumem apenas a acordar, tomar banho, meditar, esperar pacientemente com o ouvido atrás da porta para a boa alma que ainda não conheço e sempre vem deixar o café da manhã, o almoço e o jantar na mesa ao lado da porta do quarto. Nunca vejo essa pessoa, mas ela sempre bate três vezes na porta e sai caminhando a passos lentos e arrastados. Eu só a ouço, porém sempre agradeço com um bilhete escrito à mão. Depois do café da manhã eu escrevo ouvindo música, tem um toca-discos aqui que foi deixado provavelmente por essa pessoa depois do meu primeiro encontro com Drácula.
O som muito específico da agulha passando pelo vinil me faz relaxar, então escrevo até o almoço e depois fico à porta ouvindo, me alimento e coloco o prato e o copo na mesa do lado de fora. Escovo os dentes, releio um pouco do único livro que trouxe. Preciso encontrar uma biblioteca nesse castelo. Volto a escrever até o jantar, volto à porta e escuto, me alimento, faço minhas outras necessidades fisiológicas específicas e tomo banho, escovo os dentes e me preparo para dormir. Me deito e leio até ficar com sono e durmo. Essa rotina é parecida com a que eu tinha fora do castelo, tirando a parte da escrita e adicionando um trabalho repetitivo, fascinante, porém estressante.
Tenho estado tanto tempo presa no quarto que memorizei todo o ambiente, tanto que consigo perceber quando algo diferente aparece no quarto. A grande cama com dossel, com lençóis de linho na cor verde escura, travesseiros com fronhas bordadas à mão, papéis de parede verdes com arabescos numa tonalidade que parece bronze, há uma escrivaninha de castanho-avermelhado bem escuro perto de uma janela, parece algo de muito boa qualidade, diferente dos móveis de madeira suspeita que tenho em casa. Há uma cadeira da mesma cor onde me sento para escrever, um armário com espelho grande ao lado, uma poltrona em frente a uma lareira que nunca precisei usar, pois aqui parece que o clima nunca muda. Um grande tapete persa com detalhes verdes escuros, diferentes tons de marrons e vinho, a textura macia que me faz andar descalça por ele por horas quando estou bloqueada criativamente ou cheias de questões não resolvidas na minha cabeça, gosto da textura dele em meus pés, me acalma.
Uma vez ou outra eu penso em fugir do castelo e voltar para minha vida, mas me vejo obcecada por algo novo, e só quero saber disso, ouvir e falar sobre isso. E Drácula, o castelo e seus hóspedes são minha nova obsessão, eu quero entendê-los, estudá-los, me aprofundar neles, analisá-los minuciosamente até que eu me sinta saciada por esse conhecimento tão fora do comum, tão fora do meu comum lógico e pragmático. Porém, tenho medo, pois sinto que de alguma maneira, aos poucos, Drácula tem tentado ter controle sobre mim, me controlar como uma marionete, será? Eu não consigo pensar sobre o motivo disso, já que estou aqui por vontade própria. Se ele quer que eu escreva para alimentar ele e o castelo, por mim tudo bem, desde que se mantenha longe das minhas veias e artérias.
Fui despertada das minhas viagens dentro da minha mente pelas batidas na porta fora dos horários habituais, fui até a porta e pude ouvir os passos se distanciaram, era a mesma pessoa de sempre, já conheço seus passos. Abri e tinha uma grande caixa baixa, porém larga com um envelope vermelho e preto adornado de arabescos dourados, abri o envelope e aqui escrito com uma bela caligrafia, escrito dessa forma:
“Prezada Rute,
É com imensa honra e profundo fascínio que lhe envio esta carta, convidando-a para o anual Baile de Máscaras do Castelo Drácula. Este é um evento de requinte e mistério, onde o traje formal é obrigatório, e uma máscara é imprescindível.
À meia-noite, será servido um banquete memorável, seguido pelo brinde com nosso especial liquor-carmesim, servido em taças de diamante vestal, para celebrarmos o ápice da Lua Cheia. A música encantadora nos acompanhará até às três da manhã, momento em que solicito gentilmente que nossos estimados hóspedes retornem aos seus aposentos.
Sua presença, sem atrasos, é solicitada para as dezenove horas de amanhã. Esperamos ser agraciados com sua presença sublime neste deslumbrante evento.
Com respeito, Conde Drácula"
Dentro da caixa havia um belo vestido preto, com pequenos bordados dourados no busto parecendo estrelas num céu negro, godê longo, acinturado, gola alta, mangas longas bufantes, o tipo de vestido que eu usaria se eu tivesse o hábito de usar vestido. Junto a ele também havia uma máscara grega trágica negra com uma lágrima dourada do lado direito. Um baile mesmo que pareça um evento social assustador que já me causa certa comichão, é também uma oportunidade de saber mais e ainda, quem sabe, poder me encontrar com outros hóspedes. Tenho que preparar meu psicológico para isso e aproveitar essa oportunidade.
24 de dezembro - Chegou o dia do baile, e eu estaria mentindo se dissesse que estou preparada para ele. Uma vez li que quando você tem medo de uma situação e a faz mesmo assim, isso é coragem, então tenho que ir e acreditar que sou corajosa, pois de que outra forma eu conseguiria saciar essa minha curiosidade, se não fosse enfrentando meus medos?
Me vesti, prendi meus cabelos atrás, deixando algumas tranças soltas, estava ansiosa demais para planejar um penteado mais elaborado. Coloquei minhas botas confortáveis, mesmo que junto à caixa estivessem saltos adequados para a festa, eu não conseguiria usá-los. O vestido longo escondia um pouco dos meus sapatos, além deles serem mais úteis caso eu precisasse correr. Me olhei no espelho e o que vi me agradou. Coloquei a máscara que me obrigou a deixar os óculos de lado, pois não dava para usar os dois. Respirei fundo e saí do quarto, e como sempre eu não sabia o caminho, mas sabia como chegar lá.
No salão de baile, com lustres e candelabros majestosos, todos bem-vestidos, com uma diversidade de máscaras bem decoradas, músicos tocando uma música num volume agradável, pessoas conversando, outras rindo, a maioria dançando, olhei ao redor tentando ver se reconhecia alguém mesmo com máscaras, mas não fui bem-sucedida, fiquei um longo tempo no canto apenas observando. A única pessoa que reconheci pelo jeito de se movimentar foi Drácula. Vestido com requinte, todo de preto, com a camisa de seda de um vermelho vivo brilhante, uma sobrecasaca preta com bordados dourados e o forro escarlate. Ficou um tempo conversando com os convidados e dançou com alguns deles. Olhou em minha direção e era como se soubesse que eu os estava observando, veio andando e eu podia sentir cada passo seu. Respirei fundo e me preparei.
— Permita que eu conduza? — Ele disse estendendo a mão para mim, olhei para ele e concordei com a cabeça sem pensar demais. Dançamos em silêncio por algum tempo, até ele quebrar o silêncio:
— Ah, sim, os bailes de máscaras... uma festa para os vivos, onde escondem suas verdadeiras faces por trás de máscaras elaboradas. Interessante observar como revelam mais de si mesmos do que jamais admitiriam em suas formas mundanas.
Silencio entre nós novamente:
— Entendo suas hesitações, minha cara, seu desejo de às vezes escapar deste lugar que pode parecer uma prisão. Mas saiba que posso oferecer a você e a todos os que aqui estão algo muito mais profundo do que simples entretenimento. Posso saciar a sede insaciável de vocês por inspiração e conhecimento, através de meios que alguns considerariam sombrios. E eu sei que você compreende o preço que deve ser pago por tal conhecimento?
Nada do que ele estava dizendo era mentira, desde que entrei no castelo as ideias fervilham da minha mente, mesmo que às vezes eu não consiga colocá-las no papel, elas estão lá se debatendo para serem criadas e escritas. Essa situação não era nem um pouco agradável para mim, como no nosso último encontro, sua presença tentava impor tranquilidade, mas ele estava tão perto de mim, mais perto do que permito a maioria estar, era desagradável, pois meu corpo lutava contra essa imposição. Não conseguia responder nada a ele, a proximidade me deixava sem palavras, só olhava através dele e percebia seu sorriso pelo canto do olho.
— Ah, minha querida, não se preocupe. Estou aqui apenas para facilitar sua adaptação neste ambiente. Jamais a forçaria em algo que não desejasse. Afinal, você veio ao baile por sua própria vontade. Como um verdadeiro cavalheiro, sempre solicito permissão, mesmo para os atos mais... sombrios, por assim dizer. Embora possam não ser explicitamente revelados. — Ele sorriu ao dizer isso. — Veja, não há necessidade de se sentir obrigada a me acompanhar nesta conversa, se assim não desejar. Simplesmente desfrute da dança, entregue-se ao ritmo e deixe-se levar pela atmosfera deste lugar.
Mesmo que aquele sorriso fosse uma tentativa de me acalmar, seus caninos brancos e protuberantes me causaram arrepios. Quando estou muito ansiosa com um alto nível de adrenalina, não consigo pronunciar nem uma palavra sequer e, então, a única coisa que me foi possível foi concordar com a cabeça. Dançamos, ele me conduzia, e para mim era difícil me deixar conduzir quando eu sempre conduzia na dança, sempre seguia os mesmos passos básicos, não importava a dança. Ele me conduziu de maneira tão suave que era como se eu sempre tivesse dançado nos passos dele.
— Não vá tão precipitadamente, minha cara. Lembre-se de sua inata curiosidade científica. Se partir agora, perderá a oportunidade de compreender tudo isso. Permita-se um momento para acalmar os ânimos. Talvez uma breve caminhada para espairecer, uma conversa amistosa com os demais presentes, desfrutar da comida e da bebida, tentar se integrar socialmente... ou, se preferir, a opção da fuga sempre está disponível. Faça o que julgar melhor para si. — A música havia terminado. — Porém, antes que siga seu caminho, permita-me um gesto de cortesia. — Ele segurou minha mão e depositou um leve beijo sobre ela, fazendo uma reverência. — Devo agora dispensar-lhe minha atenção, pois há outros hóspedes e convidados a quem devo dedicar minha presença. Afinal, há mais danças não solicitadas a serem atendidas. — Com um sorriso sutil, ele se virou e se afastou, entre os demais convidados.
Vi-o andar resoluto por entre os convidados e soltei o ar, era como se eu tivesse prendido minha respiração sem perceber todo o tempo em que estava com ele. Fui aproveitar um pouco do baile antes de fugir para meu quarto, me sentei e comecei a olhar todos em volta, reparando em suas belas máscaras e vestimentas, tudo tão elegante. Os passos ecoados pelo chão de mármore, a música suave que agora tocava enquanto todos dançavam e se divertiam, a decoração e o grande banquete era de encher os olhos, eu estava deslumbrada. Peguei uma taça cristalina com um líquido escarlate que me foi oferecida, aparentemente já era meia-noite e brindaríamos o ápice da lua cheia. Torci para que não fosse sangue ou vinho, eu nunca bebo vinho. Levantei um pouco a máscara para tentar sentir o cheiro que exalava e não parecia nenhum dos dois, virei a taça nos lábios para experimentar e o sabor que sentia de um amargor adocicado, eu podia sentir uma textura aveludada que envolvia minha língua. Tomei coragem e tomei logo um gole, me deleitei com aquela sensação, e aquele gole foi o bastante para me conduzir a outro mundo, tão rápido como um piscar de olhos.
Esse mundo era uma cópia sombria do castelo com cheiro sutil ferroso de sangue fresco com um fundo de rosas. E, para meu pavor, todos os presentes emanavam uma aura pesada e, de alguma forma que não sei explicar, eu sabia que eu era a única humana ali. Eu estava aterrorizada naquele lugar suntuoso, mas tinha que passar a impressão que fazia parte daquilo, tudo era como no castelo original, só que mais sombrio, mais pesado e frio. Andei entre eles e encontrei todos os hóspedes do castelo que eu já conhecia de vista e, junto a eles, outros que eu ainda não havia visto.
De alguma forma, dentro de mim, eu sabia que todos eram vampiros ou qualquer outra criatura sobrenatural que eu não conseguia identificar, todos com máscaras que cobriam apenas os olhos, todos bem-vestidos, conversando e entre si. Então eu vi uma mulher de olhos amarelos como de um gato, cabelos negros longos e volumosos, pele lisa de um marrom translúcido brilhoso e sobrenatural que permitia que eu visse suas veias esverdeadas em todo seu rosto, busto e braços, com um vestido vermelho decotado, a saia com camadas pretas e vermelhas com rendas douradas em suas bordas e uma fenda que deixava exposto sua coxa esquerda, um corpete preto justo, joias douradas em profusão, envolta em um ar de mistério e sensualidade, tão bela e assustadora como eu jamais seria.
Conversava tranquilamente e se expressando com as mãos e o rosto, parou e olhou para mim, sorrindo com os incisivos e caninos brancos à mostra, lábios grossos com vermelho carmesim, fiquei chocada a ponto de rir daquela situação surreal ao qual eu estava presente, não havia bebido tanto assim para me transportar para o universo espelho tal qual como em jornada nas estrelas, onde eu encontraria minha “gêmea do mal”. Coloquei as mãos no rosto só para me certificar que eu ainda estava de máscara, imagine a minha surpresa quando ela veio em minha direção:
— Já estou tão acostumada com o funcionamento do castelo que encontrar minha doppelgänger não me surpreende. É difícil se esconder de você mesmo por trás de uma máscara, quando se conhece tão bem. Não preciso me preocupar em ser apunhalada ou ter que te apunhalar, espero?
Era como olhar um espelho onde eu via uma versão inverossímil, porém atraente de mim mesma, tão assustadoramente imponente, terrivelmente bela que me despertou uma vontade incontrolável de interrogá-la para saber mais sobre ela. Eu tinha tantas perguntas, e também com quem mais eu poderia encontrar as respostas que eu precisava senão comigo mesma?
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4. Jardim da Morte
Na penumbra de um jardim oculto, úmido e sombrio, onde não existe tempo, onde todas as coisas sempre estão perto de findar, porém nunca se extinguem…
Kay Steventon - The Wheel of Fortune
Na penumbra de um jardim oculto, úmido e sombrio, onde não existe tempo, onde todas as coisas sempre estão perto de findar, porém nunca se extinguem; onde as flores eternamente exalam seu perfume como suspiros finais e os raios de uma lua cheia incomum derramam-se pálidos sobre a relva, uma mulher está sentada esperando. Os animais que lá estão já não podem ser diferenciados dos objetos que compõem aquele cenário, pouco se movem e mal fazem ruídos, parecem apenas aguardar, se ouve apenas o sussurro inquietante do vento, como se fosse um eco dos lamentos dos que se foram. Uma ceifadora, envolta com sua capa negra como uma mortalha, chega e se senta de frente à mulher em uma mesa de mármore gasta, com fissuras e imperfeições. A mulher, que aparenta estar habituada a toda aquela encenação, inicia a conversa:
— Vamos jogar xadrez desta vez?
A ceifadora responde com uma voz calma:
— Hoje não, deixarei você escolher.
A mulher, imersa em seus pensamentos, lembra-se que em vida era boa com cartas:
— Vamos jogar carteado dessa vez, nesse eu sou boa. — Murmura ela, com uma pontada de esperança de que dessa vez iria ganhar.
A ceifadora pega sua maleta, um artefato antigo coberto de runas estranhas, e tira um baralho tarô. As cartas, gastas pelo tempo, são embaralhadas com um ranger sinistro.
— Sério? Você vai ler meu futuro? — A mulher pergunta, com um riso nervoso. — Estou morta, não tenho um futuro.
— Apenas vamos jogar e ver o que pode acontecer. — Responde a ceifadora.
Com habilidade ela segura as cartas como se fosse um leque e olha para a mulher: — Tire uma carta, para que se dê início ao jogo.
A mulher olha a ceifadora com dúvida e pergunta:
— O que isso significa? Normalmente você é quem escolhe o jogo e é a mais falante e agora fica nesse silêncio e me pede para escolher uma carta? — A mulher dá mais um riso nervoso — Não era esse tipo de jogo que eu estava falando, há algo que eu preciso saber?
A ceifadora suspira e olha para a mulher:
— Há certas regras aqui no Sheol que não posso burlar, porém há outras que algumas pessoas que estão fora dele podem. E é isso que estou fazendo agora, fazendo um favor a um conhecido que pode burlar essas regras. Então apenas escolha a carta.
A mulher fita as cartas com uma mistura de temor e esperança. Sem saber muito bem o que esperar. A mulher tirou uma carta do leque e entregou à ceifadora que sorriu e mostrou a ela a carta.
— Ótimo, la roue de fortune. — Cantarola a ceifadora numa pronúncia perfeita e musical — A roda da fortuna.
— E isso significa que? — A mulher pergunta curiosa.
A ceifadora sorriu para ela, segurou as mãos da mulher e falou:
— Essa carta significa o ciclo da vida e com ela irei dar a você a oportunidade de ver a sua amada, pois eu sei que isso que passa pela sua cabeça o tempo inteiro, não é?
— Sim, isso passa pela minha cabeça sempre, falo sobre ela para você o tempo todo, mas se ela tiver que morrer para que isso ocorra eu prefiro não a ver.
A ceifadora falou: — Nesse momento ela está num local envolto em magia, num local de vivos, mortos e não tão mortos — a mulher arregalou os olhos — Calma, ela está viva e consciente, é claro — disse a ceifadora acalmando a mulher — Então será possível que vocês tenham um breve encontro, nesse exato momento, então aproveite.
— Eu tenho que ir? — A mulher fez uma careta.
— Oras, mas é claro, estou te dando a oportunidade de encontrar a sua amada em um lugar além dos véus da morte. Só aproveite, nem todos têm a chance de reencontrar os que perderam.
— Isso meio que parece uma pegadinha — diz a mulher ainda em dúvida.
— Oras, querida, apenas vamos, não há muito o que se fazer aqui no Sheol, um passeio fora irá ser bom para você, e não se preocupe, estarei por perto para te trazer de volta. — A ceifeira se levanta sorrindo e segura a mão da mulher — Então, vamos?
A mulher fecha os olhos e inspira profundamente e solta o ar por hábito:
— Sim, vamos, não é sempre que algo diferente ocorre nesse lugar.
E assim, uma porta roxa, adornada de arabescos prateados nas bordas envolta em uma névoa púrpura se materializou, a mulher e a ceifadora desaparecem daquele jardim incomum, deixando para trás apenas o eco de suas palavras e as cartas sobre a mesa.
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3. Castelo Vampírico: Agora e na Hora de Nossa Morte
Diário de Rute Fasano. 12 de dezembro - Depois daquele encontro com Drácula…
Criado para o Castelo Drácula com Midjourney
Diário de Rute Fasano
12 de dezembro - Depois daquele encontro com Drácula, pude me sentir inspirada o bastante para escrever. Aquilo foi um pouco parecido com a experiência que tive quando minha terapeuta me recomendou usar 2g do Psilocybe cubensis para tratar minha ansiedade, foi uma experiência ao qual eu não estava preparada e não sei definir se foi boa ou ruim, uma mistura de medo e prazer, inquietação e paz, que não quero repetir por ser algo muito imprevisível. Mesmo que depois dela eu tenha me tornado mais funcional por um breve momento. E assim como a viagem de cogumelo, eu não sei definir se quero outro encontro com Drácula. Esqueça as flores, esqueça o afeto por elas. Eu gostei daquele gesto, mas a experiência que veio antes eu não consigo definir bem o bastante para saber se quero repetir.
Estou um pouco irracional ultimamente, mesmo sendo bastante mente aberta e curiosa por demais, tem coisas que tem acontecido que estão além de uma explicação racional. Uma delas é essa minha vontade de andar nas madrugadas pelo castelo, feito aquelas damas de filmes góticos antigos com vestidos esvoaçantes e castiçal em mãos. Outra é a sensação latente de que eu irei ouvir a voz da minha amada a qualquer momento como um o sussurro do vento e seus dedos gélidos baterem à minha janela para que eu a deixe entrar. Isso faz com que eu queira perambular pelo castelo e apenas voltar para o quarto quando tiver que dormir. E realmente foi o que fiz, perambulei por todo ele sem encontrar uma alma viva ou morta. Investigando cada local que fosse possível e memorizando todos os caminhos que eu poderia passar sem que ninguém me percebesse.
13 de dezembro - Essas madrugadas de caminhada pelo castelo tem sido um bálsamo para mim, sem aquela ansiedade anterior que eu tinha de talvez encontrar Drácula ou um hóspede do castelo. Sei que uma hora ou outra terei que me dirigir a eles e compartilhar minhas dúvidas e reflexões sobre esse local que agora todos habitamos. Mas ainda não sinto que é chegada a hora. Estou escrevendo alguns contos, mas não os sinto bons o bastante, aquela sensação latente de sair do quarto tem me agitado, mais tarde sairei para caminhar.
Mais tarde - Escrevo isso com ódio, com um choro preso na garganta e usando tanta força para escrever que chega a marcar o papel. Fui, como de costume, perambular pelo castelo como há quatro dias já havia feito e caminhando pelos mesmos caminhos que eu havia memorizado. Me perdi por um momento em pensamentos sobre o que escrever dessa vez, o que fez com que eu caminhasse sem rumo. Encontrei uma capela abandonada em ruínas, odor de mofo entranhado nas paredes de pedra, bancos de madeiras todos danificados, castiçais com velas velhas e quebradas com suas chamas extintas, mesmo em destroços e esquecida, havia nela traços de que um dia fora bela e imponente, ainda era bela da sua maneira. Vitrais coloridos quebrados que em outros tempos mostravam imagens sacras, um crucifixo de ouro envelhecido acima do altar ao qual não pude olhar atentamente, pois a grande bíblia sobre o ambão tomou toda a minha atenção. Suas páginas estavam amareladas pelo tempo, porém intactas em comparação a todo o cenário envolta dela, aberta aguardando para ser lida. Toquei suas páginas e como esperado estava no salmo 91, porém marcado com o que parecia ser sangue seco estava o salmo 89, tentava em vão conseguir ler o versículo 48 que estava mais manchado, até que ouvi um sussurro muito perto do meu ouvido a pronunciar essas palavras:
— Que homem pode viver e não ver a morte, ou livrar-se do poder da sepultura?
Surpreendida, olhei a pessoa dona daquele sussurro, uma figura translúcida oscilante, vestida de branco, me aproximei devagar, sentindo o peso do meu próprio desconforto e angústia aumentarem. Seus olhos castanhos claros e a palidez sobrenatural que sempre a envolvera. Era ela, aquela que amei incondicionalmente sem nunca entender o porquê. Aquela que sempre soube que havia algo errado comigo, que via além das máscaras que eu usava para enfrentar o mundo, que compreendia minhas obsessões estranhas e meus medos mais profundos. Aquela que o nome eu nem sequer ouso mais pronunciar. Olhou-me com aquele seu olhar paciente e gentil e aquele sorriso doce que sempre me desarmava, e naquele momento minha mente se esqueceu do motivo de estar ali, pois nada mais importava. Tomei ela nos braços, senti-a com todo o meu corpo e meu coração, sentindo seu cheiro doce, fresco e leve. A beijei sem pressa como se nunca tivesse partido, ela me olhou ainda sorrindo e se desvencilhou delicadamente, segurou minha mão esquerda, e colocou minha mão em sua cintura e depois pôs a mão em meu ombro, e começamos a valsar, naquele silêncio incômodo, como nos velhos tempos. Dançamos, não sei por quanto tempo, até que abruptamente rodopiamos uma, duas, três, quatro vezes, ela olhou em meus olhos e curvou o corpo para trás com certa violência no meu braço direito e parou, e era como se eu tivesse despertado para aquele momento. Tudo aconteceu tão rápido que fui impedida de conseguir fugir da situação que me paralisou.
O pouco de cor que sua pele pálida tinha foi roubado, tornando seu rosto uma máscara de cera, seu belo rosto desvanecendo em um grito surdo. Aquela casca vazia, mole e sem movimentos. Pesada em meus braços, e sendo um peso sufocante em meu coração. Havia vozes, vindas não sei de onde, em uníssono sussurrando como em uma oração: — Pallor Mortis.
Seu corpo começava a pesar mais e mais, fazendo com que eu fosse obrigada a me sentar e acomodar melhor seu corpo sem vida, um frio gélido a envolveu, penetrando minha carne, me causando calafrios e um ardor nos olhos, como se eu tivesse em meus braços um mármore gelado. As vozes novamente: — Algor Mortis.
Eu tentava aquecê-la em vão, impedir que se fosse, friccionar sua pele, mas nada adiantava. Seus músculos se enrijeceram, uma imobilidade agonizante, deveria tê-la soltado para que não presenciasse mais nada daquilo, só que não havia coragem em mim para deixá-la sozinha mais uma vez. Vozes: — Rigor Mortis.
Sua pele começou a adquirir tons avermelhados profundos, com sangue estagnado nas extremidades, marcando seu corpo agora inchado, meus dedos afundaram na sua carne mole e apodrecida enquanto eu a banhava em lágrimas que não conseguia conter, pois, a cada estágio, sua falta de vida era um peso no meu coração, que me consumia e matava aos poucos. Vozes: — Livor Mortis.
Seu corpo começou lentamente a se desfazer nos meus braços, deixando seu rosto disforme, desconhecido. O odor repulsivo e forte, já conhecido meu, invadiu minhas narinas e adentrou a minha garganta, sentir ele tão fresco, tão perto, era lancinante, fazia revirar o meu estômago e tentava me controlar para não regurgitar, o que foi em vão, pois além de lágrimas, também a sujei de restos malcheirosos do meu estômago. Vozes: — Putrefação.
Ela foi resumida a um esqueleto com vestígios de algo que antes seria alguém. Despida de sua antiga beleza, para uma beleza macabra, sem carne, envolta num manto alvo, como uma santidade cadavérica. Vozes: — Decomposição.
As vozes em coro silenciaram. Seu esqueleto em meus braços. Vestígios de tudo que foi e nunca mais será. E eu presenciei cada etapa de seu inevitável fim. Aquele fim que imaginei detalhadamente quando a deixei sozinha apodrecendo naquele cemitério. Ela definhou em meus braços, pela segunda vez. Entre lágrimas e dor, vi-a morrer pela segunda vez. Meu olhar então se voltou para a cruz que antes eu não havia dado atenção, e lá, em lugar do Cristo morto, vi uma figura que me encheu de ódio. Era um Jesus vampírico, uma distorção grotesca daquilo que um dia acreditei por ela. Na primeira morte dela, reneguei Deus; agora, diante dessa imagem profana, reneguei Drácula, por me fazer passar por essa agonia novamente. Seu sorriso maldito parecia zombar de minha dor, alimentando ainda mais a minha revolta.
Ele desceu lentamente daquela cruz, como uma figura divina, era como se o tempo desacelerasse ao seu redor, coroado e envolto em um manto de sangue e carne, extremamente pálido como se não houvesse sangue em seu corpo. Eu tremia, não queria mais nenhum encontro com Drácula, mas aqui estamos novamente, e eu o temo e o odeio, porém sua figura parecia obrigar uma contemplação forçosa e uma paz ilusória que lutei para não me permitir sentir. Não agora, pois naquele momento eu precisava odiá-lo. Cada vez mais, a presença opressiva de Drácula se fazia sentir, seu olhar penetrante atravessando minha alma enquanto eu lutava para manter minha mente própria. Não queria permitir que ele exercesse nenhum poder sobre mim.
Eu estava perdida naquela capela abandonada, presa entre o céu e o inferno, entre o amor e o ódio, entre a vida e a morte. Talvez condenada àquele purgatório que era o castelo, uma prisioneira, talvez assim como Drácula. Sua presença me oprimindo, e com um comando de mãos, como da última vez, me fez despertar mais uma vez em meu quarto, onde estou nesse momento a escrever meu segundo encontro com ele.
P.S. Talvez Drácula, tentando pensar racionalmente agora, use desses subterfúgios para que os que estão no castelo se sintam mais inspirados, ou tenham sobre o que escrever, talvez olhar nossa dor, analisá-la e escrever sobre ela, não sei. Só sei que ele ultrapassou alguns limites nesses seus métodos. Usou de coisas que eu tentava esquecer ou achei que deveria esquecer. Outra coisa que percebi foi que em nossos encontros, nunca trocamos palavras, mas sim pensamentos, sensações, como se respeitássemos mutuamente a decisão de manter o silêncio. Ainda não o compreendo e isso me perturba, porém naquele momento terrível, pude compreender que minha jornada estava bem longe de terminar.
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2. Castelo Vampírico: O Encontro
4 de dezembro — Ainda não tomei coragem para socializar com outros membros do Castelo, fico com receio de…
Diário de Rute Fasano
4 de dezembro — Ainda não tomei coragem para socializar com outros membros do Castelo, fico com receio de falar algo errado, ou esquecer de dizer algo que era certo dizer. Pude observar de longe alguns membros, todos parecem muito interessantes. Depois do encontro de ontem na sala principal do Castelo, cada membro foi se ocupar dos seus interesses. Uns foram levados para um quarto do castelo, outros ficaram na sala principal admirando a decoração, outros conversavam entre si. Eu apenas observava e tentava criar um roteiro na minha cabeça de como me apresentar a cada um deles sem parecer estranha, enquanto tocava a ponta dos óculos o tempo todo como uma forma de me acalmar a cada momento que alguém trocava olhares comigo, isso fazia eu parecer realmente estranha.
Observei de longe os membros e poucas coisas pude perceber:
— Anelly tem aura romântica e etérea, parece vinda de um mundo de sonhos, alheio às sombras que permeiam o castelo.
— Astrid emana uma aura de seriedade e erudição, seus olhos penetrantes revelam um intelecto afiado.
— Jason é um gato, ele veio com Maria, observa tudo com uma curiosidade felina, suas ações parecem mais calculadas do que instintivas, e isso é bastante curioso.
— Maria parece ter conhecimento de ervas, desperta uma curiosidade misturada com cautela. Seu conhecimento de ervas faz ela ter a habilidade para aliviar a dor e também a capacidade de causar danos irreparáveis.
— Olga tem uma postura enigmática, transmite uma sensação de mistério, como se guardasse segredos profundos por baixo de uma expressão imperturbável.
Há dois membros que ainda não sei o nome:
— O rapaz que parece imerso em suas próprias reflexões, uma melancolia sutil paira sobre ele, como se carregasse o peso do mundo em seus ombros.
— A jovem indígena que possui um olhar desconfiado, parece estar constantemente avaliando os motivos ocultos por trás das interações, sempre alerta para possíveis perigos.
Fiz todas essas observações, mas podem não ser exatas. Deduzi de apenas observar, ainda não conversei com nenhum deles para confirmar tais deduções. Ouvi alguém comentar que ainda tem mais membros chegando. Isso me deixa um pouco ansiosa.
Fui para o quarto e fiquei pensando no rumo que a minha vida tomou, sonhava na infância viver da escrita e de todas as ideias e histórias loucas na minha mente, mas a curiosidade intensa e a obsessão de entender o mundo e seu funcionamento fez com que eu fosse para o caminho da ciência. Não me arrependo nem um pouco disso, ela continua sendo a minha obsessão. Porém, cheguei à conclusão de que deixei o caminho de viver da escrita para chegar a esse momento em que eu preciso dela para manter essa entidade, o Castelo, viva. Que louco, não?
6 de dezembro — Eu acho que vi Drácula pelos corredores nesta madrugada, pode ser que não seja ele, mas sim o efeito da cafeína e noites maldormidas. Eu saí do meu quarto para esticar as pernas, mais ou menos às 3h da manhã, comecei a andar pelos corredores e os ecos dos meus passos aumentavam junto com aquela agradável sensação de solitude. Depois daquele passeio eu iria retornar ao conto que eu mal havia iniciado, passei a maior parte do tempo fazendo arabescos nas bordas da folha. Em meio à penumbra daquele corredor pouco iluminado, eu vi uma figura solitária diante de mim, caminhando lentamente, seu andar era quase etéreo e ecoava pelos corredores como sussurros.
Meu primeiro pensamento era de que outro hóspede do castelo teve a mesma ideia que eu e decidiu perambular pelos corredores. Essa figura segurava um castiçal que emitia uma luz suave que lançava sombras dançantes no corredor do castelo. Tudo que eu conseguia ver era suas costas. Vestia uma blusa branca de mangas bufantes com punho em renda que contrastava com a calça preta justa que parecia moldada a seu corpo. Para completar, botas de cano alto pretas. Os cabelos negros longos que caíam como cascata até a sua cintura e, quando virou à esquerda, fez uma breve pausa e olhou através de mim como se não me visse. Senti um arrepio subir a minha coluna que me fez paralisar. Um feixe de luz do castiçal que segurava revelou seu rosto e fui incapaz de definir se o que eu via era um homem ou uma mulher, mas tinha certeza de que não era nenhum dos hóspedes do castelo.
Seu rosto era uma obra de arte andrógina, sem traços que me ajudassem a definir o seu gênero. A pele pálida da figura parecia quase que translucida sob aquela luz fraca, o que me permitia vislumbrar suas veias roxas através dela. Nariz adunco que adicionava uma elegância à sua aparência. Mas foi nos olhos que vi a característica mais intrigante, um matiz de azul-violeta, mais profundos e enigmáticos do que os olhos de Elizabeth Taylor e ecoando o mistério do próprio castelo. E o seu cheiro! Tão pungente de uma mistura de rosas com nuances amadeiradas tão real que podia sentir o toque aveludado das pétalas das rosas na minha face —ou seria o toque de Drácula?
E o gosto de cobre suave e adocicado que me provocou um excesso de salivação, tive que pôr a mão na boca rapidamente — e assim me tirando daquela paralisia momentânea — para impedir que escorresse, pisquei para voltar a si. Decidi não esticar mais as pernas aquela noite, não exatamente por medo, quero dizer, claro que eu estava apavorada, mas ao mesmo tempo fascinada a ponto de não saber o que fazer, mas não estava preparada para aquela presença. Acho que foi o bastante por hoje para estimular meu cérebro a continuar produzindo. E assim me vi imersa em um mistério, aquela presença enigmática era Drácula?
O que quer que fosse deixou uma marca na minha mente.
P.S. Em meio à escrita, meu cérebro descontrolado foi criar teorias. Drácula existia isso era óbvio, e é de conhecimento geral também, mas será que Bram Stoker quando escreveu Drácula não usou suas próprias experiências com o Conde para escrever o livro? Isso seria um ótimo assunto para ter com os demais membros do Castelo. Adoraria ouvir as teorias deles, se eu tiver oportunidade para iniciar a conversa.
Estou incrivelmente surpresa que Drácula cheira tão bem para quem é um morto-vivo, imaginava algo como odor de putrefação, esse eu conheço bem, sangue seco e mofo escondido por baixo de um forte odor impregnante de canela e cravo. Se a figura for mesmo Drácula, isso eu ainda não tenho certeza.
7 de dezembro — Depois de pensar muito e me esconder no quarto fugindo de interações sociais, decidi esperar o mesmo horário que eu vi o que eu acho ter sido Drácula. Sai do quarto e dessa vez não havia ninguém no corredor, aliviada e, ao mesmo tempo, decepcionada, dei passos cautelosos pelo corredor e virei à esquerda. Aquele cheiro novamente, porém sem a figura que eu esperava. Segui adiante até chegar numa porta roxa, adornada de arabescos prateados nas bordas, como aqueles que eu havia feito nas folhas em branco que eu deveria escrever. Empurrei a porta devagar e entrei e o cheiro ficava mais intenso. Uma névoa púrpura densa preenchia aquele lugar, e espectros disformes estavam de um lado a outro produzindo uma cacofonia de sons, fui em direção aquele que emanava o cheiro que eu imaginava ser o de Drácula. Caminhei em direção a esse espectro e o toquei.
Fui levada para um local onde a névoa púrpura estava mais fina, mas a música mais alta e a figura, que de alguma forma agora eu tinha certeza de que era Drácula, estava de costas para mim. Ele no alto de uma montanha, como um maestro, fazia movimentos e cada movimento formava uma parte do castelo, como uma parte de uma melodia numa partitura. Estávamos no castelo, porém fora, era como um mundo dentro de outro mundo, só que no castelo. Drácula de costas para mim se destacava de pé em uma colina escarpada contra aquele céu crepuscular arroxeado, fazendo gestos precisos como de um maestro conduzindo uma orquestra, e com cada gesto ele parecia moldar aquela névoa púrpura com as mãos.
Pude ouvir a música calma, atenuada, suave como uma valsa lenta. Olhava tudo em volta e aos poucos as vozes em coro iam crescendo, crescendo e tomando tudo ao redor. Com movimentos amplos ele fez as rochas se erguerem do chão formando as muralhas do castelo, tudo acompanhado da melodia, tudo em volta respondia à sua vontade. Eu sentia a melodia me apertar e pressionar, despertando os meus sentidos e crescendo como se a qualquer momento fosse explodir. E tudo era preenchido por essa melodia. O castelo tomava forma, as torres, as janelas, as portas, tudo se erguia como notas ascendentes em uma partitura, as janelas se abriram seguindo o ritmo da música e pude ver os hóspedes do Castelo, cada um ocupado com sua própria criação, e eu pude me ver dali.
Senti como se meus ouvidos fossem tapados com a pressão que a melodia causava expandindo sem cessar, eu não mais a ouvia, mas sentia a vibração e o ritmo através da minha pele e uma pulsação inexplicável dentro na minha cabeça que crescia e vibrava com a música. O último tijolo foi colocado e Drácula ergueu os braços para o céu fazendo a música atingir seu clímax. O castelo estava completo, e era uma obra de arte viva que nós, hóspedes, estávamos alimentando. Pude ver os finos filamentos violetas que interligam Drácula ao castelo e aos hóspedes.
A melodia cessou, algo que parecia eletricidade passou por aqueles filamentos em direção a mim e percorreu todo o meu corpo, se detendo no meu cérebro que relaxou. E uma sensação de leveza caiu sobre mim. Minha mente se aquietou, vazia, sem pensamentos. Ele olhou para trás com meio sorriso como se somente naquele momento tivesse percebido a minha presença, fez um lento e último gesto com a mão para que eu me fosse, mas assim que meu cérebro quis dar a ordem para minhas pernas se moverem, eu simplesmente apaguei.
8 de dezembro — Acordei na cama, renovada como nunca antes. Coloquei meus óculos que haviam sido deixados na mesa de canto e vi que em cima da escrivaninha um toca-discos tocava Réquiem em Ré menor de Mozart e também um vaso com belas orquídeas roxas. Automaticamente lembrei do que minha avó dizia: “o amor é uma flor roxa que nasce no coração dos trouxas”. O que sei sobre o amor tem relação com bioquímica e escolha, então escolhi ter afeição por esse ato. E aqui está a trouxa que vos fala. É melhor eu começar a escrever agora. E que Deus, se existe um, tenha piedade de mim.
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21 de outubro — Envolvida na análise de vários artigos científicos sobre os processos biológicos da morte e sua relação com a natureza, busquei compreender os mitos e tabus que cercam a morte. Essa atenção afasta minha mente da melancolia da sobrevivência, proporcionando-me um breve descanso mental. Ao me distrair nas redes sociais, fui abordada por um chamado para fazer parte do Castelo Drácula. Ao investigar, percebi que seria necessário provar minha aptidão, o que me fez hesitar. Optei por deixar de lado e preparar um café forte para estimular meu cérebro cansado, retomando a leitura dos artigos. Porém, a ideia persistente de que talvez aquilo fosse para mim, continuava a me inquietar. Deixando de lado os estudos por um momento, busquei antigos escritos pessoais que, em outros momentos, me proporcionaram paz de espírito. Será que integrar o Castelo seria o problema que minha alma necessita para essa melancolia que me encontro?
Insatisfeita com todos os escritos, reescrevi aquele que se aproximava mais da paz que buscava, o enviei e agora espero ansiosamente por uma resposta. E agora estou incapaz de me concentrar nos estudos aos quais estava focada anteriormente.
Sair um pouco da minha reclusão e me conectar com outros indivíduos semelhantes parece ser a escolha lógica a ser feita?
30 de novembro — Recebi a notícia da minha aceitação no Castelo e, junto com ela, “A carta” que estabelecia minha ligação ao pacto de sangue da linhagem Drácula. Embora tenha ficado ansiosa por essa confirmação, uma sensação de temor apertou meu peito, embrulhou meu estômago e despertou minha síndrome da impostora. Por que, meu caro cérebro, você insiste em me sabotar?
3 de dezembro — Prevendo que talvez a jornada até o castelo seria longa e desgastante, vesti roupas e botas pretas confortáveis. Preparada com o essencial na mochila — livro, diário, folhas de rascunho, caneta e uma garrafa de água — não tinha ideia de para aonde ir, mas senti que ao começar a andar encontraria o caminho. Uma sensação intensa de paz e familiaridade tomou conta do meu ser, aguçando meus sentidos. Era como se eu estivesse retornando a um lugar que nunca visitei, mas conhecia o caminho.
Passando por um belo cemitério no percurso, não pude deixar de observar toda a fauna e flora local. Era surreal ver plantas fora de época coexistindo, várias flores, todas em tons escuros, entrelaçando aromas. Árvores, também diversas, que faziam parte da paisagem, atraindo uma variedade de animais, dos que eu pude observar, morcegos, mariposas, aranhas, lagartos, sapos, que, por sua vez, atraíam gatos, cachorros, corujas, urubus e corvos. Havia variedades de cogumelos, outros animais, plantas, rios e lagos, tudo formava um ecossistema fascinante e estranho, mas que naquele momento eu não poderia pausar para dedicar um tempo e observar todos os detalhes.
Essa diversidade incomum de vida selvagem e vegetação peculiar me cativava, guiando-me em direção ao caminho do castelo, em meio a esse cenário de fantasia sombria ou uma versão às avessas de folhetos de uma certa denominação cristã. Diversas espécies compartilhavam um espaço que não parecia ser o seu habitat natural. Não conhecia a exata localização do castelo, apenas sentia a necessidade de alcançá-lo. Se alguém me perguntasse sobre como chegar, não teria uma resposta precisa, mas estava certa de que havia chegado. Me questionava se toda essa diversidade não era algo criado pelo próprio castelo para me guiar até ele, como uma espécie de estrada de tijolos amarelos. Se assim fosse, significaria que o destino final prometia algo bom?
O castelo era sombrio, envolto por uma sutil névoa e algumas árvores de galhos retorcidos, exibia várias torres altas que se elevavam como espinhos negros afiados, prontos para romper o céu noturno estrelado. Sua arquitetura não seguia padrões, com torres irregulares que pareciam capazes de brotar a qualquer momento para acomodar novos aposentos. Janelas obscuras, grandes como os olhos de sentinelas, decoravam a estrutura. Ao chegar à imponente porta de madeira maciça, bati três vezes, ela se abriu com um leve rangido, fui prontamente recebida por uma figura misteriosa vestida de preto da cabeça aos pés. Com um sorriso discreto, fez sinal para que eu pudesse entrar, e pronunciou com calma e cortesia:
— Seja bem-vinda ao castelo! Entre por sua livre e espontânea vontade. Vá com segurança e deixe um pouco da felicidade que você traz!
A menção ao livro Drácula arrancou de mim um sorriso breve. Fui guiada pelos corredores labirínticos, cheguei a uma sala iluminada por velas em majestosos lustres e castiçais. A decoração, repleta de quadros e esculturas, revelava um intrigante anacronismo, onde elementos clássicos e contemporâneos convivem em harmonia, não apenas na decoração, mas também nas pessoas presentes.
Na longa mesa central desta sala, indivíduos de aparência misteriosa aguardavam, ansiosos assim como eu, pela chegada de outros membros. Todos sedentos pelo conhecimento sombrio que nos aguardava. A entrada da anfitriã chamou a atenção de todos. Com olhos profundos e uma presença tranquila, nos cumprimentou com serenidade, pronunciando as seguintes palavras:
— Bem-vindos, sombrios visitantes, ao majestoso Castelo Drácula. Este recinto suntuoso serve de abrigo para aqueles destemidos que ousaram adentrar os domínios das sombras, desbravando os abismos do profundo e desvelando os mistérios do oculto. O castelo, qual entidade viva, nutre-se vorazmente de toda expressão artística mergulhada na obscuridade, transcendendo as fronteiras do tempo e do espaço.
Então era das narrativas, da poesia, da música e de todas as formas de arte que o castelo absorvia para se nutrir? Fiquei fascinada com a ideia de o castelo ser uma entidade viva. As artes eram como o fluido vital escarlate que alimentava o castelo, lhe dando vida, grandiosidade e uma aura acolhedora. Eu pude sentir a relação simbiótica entre o castelo e seus membros, estabelecida a partir do momento em que o pacto foi selado. Quanto mais fosse oferecido a ele nossos dons artísticos, mais seríamos beneficiados com uma inspiração sombria. Fiquei bastante curiosa para entender os mistérios do castelo e, também, ser beneficiada com essa experiência. Acredito que meu tempo no castelo será bastante proveitoso e mal posso esperar pelo que o futuro reserva.
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…