No Reino do Sonho – Desejo

Ó figura pálida, de encanto secreto, | Onde o lilás dança entre véus discretos, | És a chama etérea que me seduz, | Na linha tênue entre sombra e luz…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Ó figura pálida, de encanto secreto,
Onde o lilás dança entre véus discretos,
És a chama etérea que me seduz,
Na linha tênue entre sombra e luz.

Teus lábios, rubros de desejo calado,
Guardam segredos que o mundo há negado.
E teu toque, murmúrio de ardor contido,
É brisa e incêndio no meu peito perdido.

Nos salões dos sonhos, és rainha distante,
Intocável na vigília, mas tão próxima errante.
Teus olhos, astros da noite encantada,
São abismos de astúcia, doçura velada.

Sob o véu onírico, somos livres enfim,
Corpos enlaçados, sem começo ou fim.
E em teu perfume, que embriaga e sufoca,
Eu encontro a vida que a realidade me troca.

Mas quando desperto, só resta o vazio,
Um eco gentil de um amor sombrio.
E ao silêncio retorno, teu servo fiel,
Guardando-te em sonho, como doce infiel.

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Escrito por Cláudio Borba, -Poesias Cláudio Borba Escrito por Cláudio Borba, -Poesias Cláudio Borba

Ecos de um Jardim Sepulcral

Adentro o campo como quem adentra um sonho, | lavandas por toda parte, um oceano roxo e calmo, | elas flutuam suaves ao toque de leves brisas…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Adentro o campo como quem adentra um sonho,
lavandas por toda parte, um oceano roxo e calmo,
elas flutuam suaves ao toque de leves brisas,
parecendo guardar uma paz que jamais acaba.

Mas há algo aqui, algo invisível que rasteja,
um segredo escondido no doce perfume e na cor,
uma inquietude perdida no meio do silêncio
tal qual um coração que bate lentamente.

Caminho, e as flores parecem murmurar,
o som parece uma prece feita no começo da noite,
uma estranha melodia, palavras mal-ditas,
sussurrando meu nome em uma voz que nunca ouvi.

O que diz o campo que fere a minha mente?
Por que o horror se veste de algo tão belo, tão sereno?
É como se escondesse as garras sob suas pétalas.
Há algo ancestral, um toque gelado que toca minha pele.

Não é um jardim, é um túmulo em flor,
uma prisão aveludada que me convida a ficar,
e, no entanto, ao me virar, as lavandas me cercam,
o murmúrio cresce, toma conta do ar,
um canto fúnebre que desencanta a beleza.

Sinto o pavor apertar minha garganta,
e as vozes falam de dor e de sombras,
de destinos que ninguém ousa lembrar,
é como se o campo guardasse os segredos dos mortos
e a alma de que o adentra fosse um preço.

Eu corro, mas os murmúrios me seguem,
as flores balançam como dedos que apontam,
e toda a paz se dissolve em uma neblina,
me deixando só entre sussurros sombrios,
perguntando se algum dia eu estive desperto.

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Sonuras de Áurea Lihran: Saudade

Aborom! Larajim d’esta manhã | Desponta a quint’essência de meu ser; | O frutossangue: mélica romã | D’arbórea que m’encanta a aquiescer;…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Aborom! Larajim d’esta manhã 
Desponta a quint’essência de meu ser; 
O frutossangue: mélica romã 
D’arbórea que m’encanta a aquiescer; 

Aparta em lume doce o negr’oblívio 
Que assombra tal pupila ébria no céu 
De mórbido terror e horror sonívio… 
Abrigo em lanrinura, a noite-véu; 

Da morte d’idos ledos — falta fúnebre —  
Compr’ende o querer tanto um lhano lar? 
Ruínas, fogo-fátuo rubro e lúgubre 

Nas dunas, n’azul íris, no sonhar, 
Nos braços d’um demônio — meu ambíguo —  
Nos sais meus, lacrimais, elã exíguo 
E a frágil esperança a se abeirar. 

Palavra criada por Sara Melissa de Azevedo: Lanrinura (substantivo feminino poético): Languidez causada por uma introspecção acentuada. 

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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A Vingança

Sinopse: Uma morte por envenenamento é causada durante o banquete de Aborom e agora todos os convivas, em especial o Detetive, precisam descobrir quem é o assassino.

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

A Vingança: Envenenamento 

Pupila-lua ao céu mui laranjim, 
Crepúsculo de lânguido calor,
Servido Funghi ao Creme-Galarim
E à mesa estão os convivas em horror; 

Alguém envenenara Dom Mortez!
Ninguém, este recinto, deixará!
E traga-os, da cozinha, de uma vez!

— Dissera — “O culpado expor-se-á!

A noite s'inclinava umedecida;
Que o réu revele agora o assassinato!
De súbito — as velas — distorcidas, 

A chama pontiaguda, o breu-regato
De mórbido ar regélido e terrível;
Anae Mortez: “Que olor tão putrescível!
O espírito sibila: “Vizir... rato...

~ ❦ ~ 

A Vingança: Verdades

Um rasgo em sua garganta. Anae, o fim...
Uníssono de assombro enlouquecido,
E Correm todos, gritos e motim,
Enquanto Nohn ofende o seu cupido;

O sangue em flúmen, ela apodrecendo...
Amava-te, mi'a Anae...” — Silêncio horrente,
O bravo detetive estremecendo...
Nohn, casa-te comigo...” — a voz pruriente;

Os olhos esgazeados, puro medo;
Anae aos braços dele: decomposta,
Sorrindo lhe revela um vil segredo:

Vindita aos imorais Mortez, exposta
Está toda a verdade no porão...

Mil corpos esfolados, que aflição!
O caldo especial da Sopa à Tosta.

~ ❦ ~ 

A Vingança: Descoberta

Nohn vira Anae pútrida e possuída,
A morta co'a verdade que confessa
Que a vil família, em peso, era homicida
E o cárcere, o porão… Nohn logo apressa:

Chamai-vos a polícia… que já basta…
Amá-la foi um erro, e eu sempre soube…
Seus olhos âmbar, doces, alma casta…
À mala, meu ser tolo, mui bem coube
”;

Cuidavam das perversas evidências,
Convivas abalados, decadentes…
Fantasma vingativo? Que ocorrência!” —

Dissera alguém p'ra outrem, pouco descrente,
Até que viram, pois, cadáver-Dinho
“Receita, Sopa à Tosta " em pergaminho.
Virara, o cozinheiro, o ingrediente.

~ ❦ ~ 

A Vingança: Razões

Querido Vizir Dinho, traga a janta!
— Dissera Luhna — “Há fome a me atingir!”;
Grã-mestre dos sabores! Anae, canta!
À mesa pôs-se o pão para cerzir;

Qoe santhis dorvirmor devatte ziinm
Cantara enquanto a sopa era servida,
Porém, no degustar, pleno festim,
Mortez, o Dom, presença requerida;

Estranha carta entregue, sugerindo
Que Dinho era um covarde traidor:
Mudara a grã-receita, confundindo.

Sabia!” — Vociferara o Dom, no agror.
Então desembainhada a adaga — Morte!
Vizir sangrara à sopa, pouca sorte,
Ó rato! Morra agora, opositor!”. 

~ ❦ ~ 

A Vingança: Receita (Final)

Colha alguma abóbora vistosa,
Marine ao sangue fresco d'um infante,
Prepare o moedor que, para a Tosta,
Precisa pó de ossos de gestante;

Cuidado para o ponto, ponha sal!
Na massa da torrada vai farinha;
À sopa: um limão, uma dorsal,
Tomates frescos, mel e pimentinha - 

Com alho, o creme-queijo, abundante,
Afogue a manjerona e as nove línguas
Enquanto ao forno as tostas. Fascinante! 

Polvilhe a seca tez, não tenha mínguas!
E sirva com liquor de olhos castanhos;
Os crânios de bebês têm bom tamanho,
São belas cumbuquinhas ou morínguas.

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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A noite de todas as almas

Folhas secas, | Abóboras adornadas | Não é outono por aqui, | Mas não muda nada. | Os ventos que sopram | Me trazem lembranças de você…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Folhas secas,
Abóboras adornadas
Não é outono por aqui,
Mas não muda nada.

Os ventos que sopram
Me trazem lembranças de você
Sussurram segredos
Que me fazem temer.

A noite de todas as almas
É sempre muito mais iluminada
E isso porque
Todos nós amamos alguém
Que não se pode mais ver.

Alcanço as lápides frias
Não sinto seu cheiro
Se o véu entre os mundos se abriu
Por que não te vejo?

Doces ou travessuras?
Minha vida pela sua.
De que me adianta uma eternidade
Sem sua ternura?

Como oferenda aos Deuses distantes
Deixe meu retorcido coração
Pode não valer mais nada
Mas todo o amor que me restou,
É ele quem guarda.

Minha vida pela sua...
Apenas um vislumbre na penumbra
E eu finalmente
Poderia adormecer.

Doces ou travessuras?
O que está feito,
Não se anula.

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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Abóboras e Confetes

É 31 | Todas as Bruxas e Vampiros | Passeiam livres por aí | Todos no Castelo irão se divertir…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

É 31
Todas as Bruxas e Vampiros
Passeiam livres por aí
Todos no Castelo irão se divertir.

É 31
Cuide de seu pescoço
Para não perder muito sangue
Não tropece em meu sapato
Para que não vire um lagarto.

As abóboras já foram enfileiradas
Ganham vida e iluminam a estrada.

Vem crianças,
Venham ler
O Castelo Aguarda você...

Seres sombrios de todos os lugares
Dando vidas a distintas realidades
Os confetes são para você
Que o escuro costuma temer.

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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Déjà-vu em forma de haicai

Um haicai de Aryane Braun

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Sei que em outras vidas,
eu já te vi.
Quantas vezes, sob tua espada, pereci.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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O colecionador

Sou acumulador destas saudades | que fazem coleção dentro de mim… | Eu guardo todas co’a maior vontade, | e ao peso que elas dão não dou um fim…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Sou acumulador destas saudades
que fazem coleção dentro de mim…
Eu guardo todas co’a maior vontade,
e ao peso que elas dão não dou um fim.

Algumas sem razão, de antiga idade,
não têm mais serventia e, outrossim,
compõem com as outras um destaque
que faz eu me orgulhar do meu jardim.

Usando de outras mais, de outras menos,
dão todas, de algum modo, o seu exemplo
às vezes, se alguém pede que as exiba…

É quando eu alivio o enorme peso
de nunca dividir o meu apreço
por coisas que ninguém pensa que exista…

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

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Contato

Buscando os lisos universitários | um passatempo que não muito exija, | retiram lá de cima do armário | um roto e velho tabuleiro ouija…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Buscando os lisos universitários
um passatempo que não muito exija,
retiram lá de cima do armário
um roto e velho tabuleiro ouija…

Colocam, sem conter a estranheza,
em meio à roda de sentados corpos,
o alfabeto todo sobre a mesa,
e os dedos apoiados num só copo...

Momentos de silêncio… Inicia
a troca de olhares: quem faria
a corajosa, inaugural questão…?

o M é indicado… O e R…
depois o T… o E… não mais alegres,
Aos gritos, todos fogem da sessão!

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

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Coração de poeta

Essa massa purulenta | cuja dor e sofrimento | o meu peito, enquanto aguenta, | faz por ela um juramento, | tem por força de promessa…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Essa massa purulenta
cuja dor e sofrimento
o meu peito, enquanto aguenta,
faz por ela um juramento,
tem por força de promessa
um sinal de que tem cura:
algo indica, mesmo infesta,
pois mais quero — e mais perfura.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

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Manequim

De bruços | amortalhado | escondo o rosto e | não rezo | há dias que me rendi | às horas | à persecução | desse uniforme humano…

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De bruços
amortalhado
escondo o rosto e
não rezo

há dias que me rendi
às horas
à persecução
desse uniforme humano

em sua pose
santificado
ele é quem me acorda
ele é quem me atesta 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

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Déjà-vu

De soslaio | en passant | caminho retrátil da vida | a vida | sensorialmente | num piscar de olhos |desembarque brusco | ato que rende e assalta…

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De soslaio  
           en passant
caminho retrátil da vida 

a vida
           sensorialmente
num piscar de olhos

desembarque brusco
ato que rende e assalta
o trem cronológico dos fatos 
espécie de horror
ao lado

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Abram a porta

Trabalhar era meu refúgio. | Eu via pessoas e conversava. | Me distraia, | Sorria... | Mas o mundo parou, | Silenciou | E diante de tanto horror, | Se trancou…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Trabalhar era meu refúgio.
Eu via pessoas e conversava.
Me distraia, 
Sorria...

Mas o mundo parou,
Silenciou
E diante de tanto horror,
Se trancou.

Mas o que eu faria
Ali sozinha,
Com o que mais temia:
A velha da minha tia.

Há tempos acamada,
Face que me aterrorizava
Voz cavernosa,
Chorosa e pegajosa.

Presa nesse pesadelo de vida,
Acompanhando pela Tv
Tantas vidas perdidas
Sem ao menos uma despedida.

Sem trabalhar,
Tendo que dela cuidar,
Lamentava ensandecida.

Enfim a epifania!
Uma vida moribunda
Pela minha,
Pela sua.

O Diabo deveria aceitar
Ficar com ela e nos salvar
Precisamos abrir as portas.

Tal qual não foi minha surpresa,
Quando no dia seguinte,
Sentada à mesa,
Minha tia estava a fumar?

Por um golpe do destino,
Seu fantasma agora era inquilino
Do que deveria ser meu lar.

O inferno estava lotado.
Não houve barganha,
Nenhum trato.

E até que o mundo padeça
Ou se recupere, não tenho certeza
Pode ser que eu enlouqueça
E esta vida passe a aceitar.

Enquanto isso não acontece
Ela está aqui a me torturar
Uma alma que, por muito tempo, esteve calada,
Agora me despeja toda sua raiva.

Sem ter para onde ir,
Esperando a porta abrir
Inalo fumaça de um fantasma.

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Colapso

A grama arde | O ar sufoca | O canto dos pássaros foi silenciado. | As árvores, | Antes, imponentes e frutíferas,…

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A grama arde
O ar sufoca
O canto dos pássaros foi silenciado.

As árvores,
Antes, imponentes e frutíferas,
Agora retorcidas, em agonia.

O mundo cai abaixo
As promessas já não mais importam
Tudo é cinza e triste.

O céu cai aos pedaços
Seus escombros cortam minha pele
É só questão de tempo para que eu colapse também.

Não há mais refúgio
Nem mesmo em minha própria mente
A dor me impede de pensar.

Promessas
Não salvaram inocentes
Tudo o que sei, é que nada sobrará.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

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Boneca de Ossos

Pálida e fria como porcelana | Sentia-me como uma boneca. | Os olhos, antes cerrados, | Agora conseguiam observar tudo ao redor…

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Pálida e fria como porcelana
Sentia-me como uma boneca.
Os olhos, antes cerrados,
Agora conseguiam observar tudo ao redor.

Vestes aprumadas
E um perfume que não disfarçava
Meu pútrido odor
Mas eu estava linda.

Meus amigos não sorriam
Mas minha alma se deleitava
Agora disposta,
Tal qual minhas bonecas na prateleira.

Me sentia leve,
O corpo já não pesava
Me divertia com as expressões amedrontadas
Ah, se eu pudesse...

A fotografia foi tirada
Uma última recordação
Antes que eu vire alimento para os vermes
A despedida vem chegando...

Começo sentir o vazio a me preencher
O calor de quem amo fica cada vez mais longe
Se minhas lágrimas ainda rolassem
Se minha boca ainda falasse..

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

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Canto Escuro

No canto ali do quarto| No escuro | Sentada e descalça, no chão frio | Observo as sombras que ninguém mais vê…

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No canto ali do quarto
No escuro
Sentada e descalça, no chão frio
Observo as sombras que ninguém mais vê.

Rabisco na penumbra
Todas as formas distorcidas
Que não me causam mais medo.
Registro-as para mim mesma.

A luz que as afastava
É a mesma que machucava meu pobre coração.
Nunca suportei não ser igual aos demais
Talvez por isso, esse canto escuro seja o meu favorito no mundo.

Olhares vazios
Expressões que me julgavam
E até mesmo enojavam
Nunca foram fáceis de aceitar.

Mas duvidarem da minha sanidade
Do mundo ao qual eu realmente pertencia
Foi demais para mim
Adentrei ao véu.

Meu corpo falho
Face retorcida por um mau nascimento
Sempre a esquisita,
Anomalia...

Mas somente do outro lado
Eu vi que todos estavam errados
As sombras que ninguém enxergava
Eram os próprios defeitos, eles só tinham medo.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

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Alimária

Padres, trabalhadores, | médicos, cantores, | poetas, trovadores... | Ninguém os quis ouvir! | Lençóis negros são estendidos…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Padres, trabalhadores, 
médicos, cantores, 
poetas, trovadores... 
Ninguém os quis ouvir! 
Lençóis negros são estendidos 
pelas ruas cinzentas. 
Flores inexistentes 
em túmulos indigentes. 
A foice da caveira horrenda 
contaminou os ares: 
uma criança leva uma flor, 
mas não lhe sobrou nada, 
nem tempo para cheirá-la. 
Bombas e tiros vomitados. 
A mãe tenta ninar seu bebê. 
Gritos de dor suprema. 
Fome. 
Dor. 
Placenta. 
Simplesmente não importa. 
Se eu te pago amanhã, 
você aí de perna morta. 
Filhos morrem, 
os pais, os assassinos. 
Mercados vazios, 
ele matou o próprio vizinho. 
O primeiro item que acabou 
foi o rolo higiênico, 
meu senhor! 
O que causou tudo isso... 
Ah sim! 
Ah foi! 
A falta, a seca 
de amor... 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Morte em Simetria

Em cada traço há um lamento, | a navalha corta sem compaixão. | Simetria, o cruel tormento, | que exige sangue em profusão. | O rosto aberto…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Em cada traço há um lamento,
a navalha corta sem compaixão.
Simetria, o cruel tormento,
que exige sangue em profusão.

O rosto aberto em duas partes,
olhos vazios e frios de horror.
A carne dividida em formas exatas,
molda-se ao toque do escultor.

Cada pedaço, lado a lado,
repousa em total perfeição.
Mas no corpo morto, destroçado,
há apenas o reflexo da escuridão.

O corpo é belo, exato e preciso,
mas o preço é alto, paga-se em dor.
A simetria é um fardo indeciso,
que arrasta a vida para o terror.

E assim, no espelho, o reflexo sorri,
perfeito, inerte, sem emoção.
Pois a simetria que aqui flori,
só vive na morte e na podridão.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Círculo de Sombras

Sinto o frio de uma cena conhecida, | um sentimento de algo que já vivi, | a memória oculta de uma vida esquecida, | o reflexo de algo antigo que já senti…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Sinto o frio de uma cena conhecida,
um sentimento de algo que já vivi,
a memória oculta de uma vida esquecida,
o reflexo de algo antigo que já senti.

Meus passos ecoam na noite vazia,
como se o tempo sussurrasse meu nome,
um déjà-vu que rouba minha alegria,
um eterno ciclo que jamais some.

Olho por tudo e vejo a mesma cena,
momentos perdidos no véu do tempo,
uma repetição cruel que me envenena,
revivendo cenas em todo momento.

Seria real, ou um truque de minha mente?
Por que o hoje se traja de ontem?
Serei um prisioneiro do passado eternamente,
preso na teia do tempo que nunca se rompe.

E assim permaneço, sem saber o fim,
envolto em ecos de um passado sombrio,
a cada passo que dou, sinto-me assim
dando voltas e voltas neste círculo frio.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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No Coração dos Labirintos

[O labirinto do quarto de tua mente vagante e doente ensaio do mundo lá fora...] Em uma cidade onde a luz se tornara uma memória distante…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

[O labirinto do quarto de tua mente vagante e doente ensaio do mundo lá fora...]

Em uma cidade onde a luz se tornara uma memória distante, Harry encontrava-se aprisionado em um quarto minúsculo, um cubículo que parecia pulsar com a própria essência do desespero. As paredes, tingidas de um cinza pálido e desconfortável, pareciam encolher ao seu redor, como se quisessem abraçá-lo em um gesto de contenção, um convite à claustrofobia. O ar, pesado e impregnado com o cheiro de mofo, envolvia-o como uma névoa densa, enquanto o eco distante do mundo exterior se transformava em uma melodia sufocante, um murmúrio de vozes que pareciam sussurrar segredos sombrios.

[No silêncio grave, onde o tempo se aquieta,
Caminhos de asfalto, serpentes de solidão,
A cidade, espectro, em névoa se afeta,
Ecoa o lamento de uma vida em suspensão....]

Harry sentava-se em um canto do quarto, as pernas encolhidas contra o peito, os olhos perdidos em um vazio profundo.

Seu reflexo em um pequeno pedaço de vidro, improvisado como espelho, revelava um homem consumido pela inquietude.

Os cabelos, grisalhos e desgrenhados, pareciam mais uma floresta selvagem do que a coroa de um ser humano.

Sua pele, pálida como a lua minguante, estava marcada por sombras que falavam de noites insones e de pesadelos que dançavam em sua mente como espectros.

[Em sua descida ao umbralino eco,
Eu perambulo por ruas desertas,
Com máscaras que ocultam o ser eterno,
E o medo pulsante nas almas despertas.]

As visões começaram como sussurros, ecos de memórias distorcidas que se transformaram em monstros.

A cada hora que passava, o quarto tornava-se um labirinto de assombrações.

Cores vibrantes se desvaneciam, dando lugar a um mar de cinzas, onde figuras fantasmagóricas flutuavam — sombras de pessoas que ele conhecera, mas cujos rostos agora eram borrões indistintos.

Elas o observavam com olhos vazios, como se esperassem algo de Harry, uma resposta que ele não sabia como dar.

[A janela embaçada, o olhar que perscruta,
Revela demônios, cujos rostos são planos,
Rostos familiares, em visagens corruptas,
Famílias em ruínas, os traumas insanos.]

Eis que surgem os monstros, nas sombras a dançar,
Criaturas de pânico, nas noites sem fim,
Vêm do abismo, da mente a vagar,
Sussurros de horrores que habitam em mim.

[O mundo, um teatro de angústia e desdém,
Onde o vírus é sombra, e a esperança, um eco,
Na luta por um futuro, que é fútil, amém,
A luz se oculta, num instante seco.]

Os pesadelos eram invasores, surgindo como tempestades de emoções descontroladas. No silêncio ensurdecedor, as paredes pulsavam com as batidas de um coração que não era mais o seu, mas que, ainda assim, o aprisionava.

As vozes tornavam-se gritos, clamando por redenção, enquanto Harry lutava para discernir a realidade das alucinações.

Cada esquina do quarto, cada fresta de luz que entrava pela única janela suja, parecia esconder verdades ocultas — labaredas de dor e arrependimento.

[Perdidos nas casas, em cárcere estreito,
Os pensamentos se tornam serpentes ferozes,
Com a mente emaranhada, num ciclo imperfeito,
As vozes interiores transformam-se em vozes.]

Ele se lembrava de um tempo em que o mundo era vasto e repleto de promessas. As lembranças dançavam à sua frente como uma miragem — imagens de risos e amores, de viagens e descobertas. Mas agora, tudo isso parecia distante, como uma canção que havia sido esquecida. O isolamento tornara-se uma prisão, e Harry, um prisioneiro de sua própria mente, via-se enredado em teias de angústia e paranoia.

[Mas lá fora, nas ruas, a noite se extasia,
Um riso maligno ecoa na escuridão,
Os monstros se alimentam da nossa agonia,
E dançam nas calçadas, em sádica união.]

Numa noite particularmente escura, quando a lua estava oculta atrás de nuvens pesadas, Harry teve uma visão que o abalou até a alma. Ele viu o quarto se transformar em um grande teatro — as paredes se ergueram, e as sombras tornaram-se espectadores, encarando-o com um olhar faminto. Ele estava no centro do palco, cercado por olhares que o julgavam, que o acusavam. A cada movimento seu, um murmúrio crescente ecoava pela sala, como se o universo inteiro estivesse à espera de sua sentença.

[Assim, perdido, eu clamo por alento,
Por um sopro divino que rompa a prisão,
Mas na penumbra, só resta o tormento,
E o silêncio de um mundo em colapso, em tensão.]

"Harry, você não pertence a este lugar", uma voz profunda e ressoante sussurrou, mas ele não sabia se era real ou uma criação de sua imaginação. A dúvida se infiltrou em seu ser como veneno, corroendo o que restava de sua sanidade. Ele tentava gritar, mas as palavras se perdiam na neblina de sua mente, transformando-se em lamentos que se dissipavam como fumaça.

[Oh, quão longe a luz que já fomos a cantar,
Na primavera que os deuses, em riso, nos deram,
Agora a dor e o medo nos vêm atormentar,
E a vida, um poema de terrores que ferem.]

A madrugada se arrastou, e, em meio à penumbra, Harry começou a notar pequenos detalhes ao seu redor que antes lhe escapavam. O canto do quarto, onde a luz mal conseguia entrar, revelava um universo de rachaduras e formas. Ele viu rostos, figuras que pareciam se contorcer em expressões de dor e sofrimento. Eram os ecos de sua própria angústia, espelhos quebrados de suas inseguranças. Ele fechou os olhos, tentando ignorar aquelas visões, mas elas se tornaram mais intensas, mais insistentes, como se quisessem chamar sua atenção.

[Quando a quarentena acabar, o que será?
Renascem os monstros, do pânico em nós?
Num ciclo eterno, a sanidade a chorar,
No labirinto da vida, onde a esperança é atroz.]

Em um momento de clareza, Harry compreendeu que estava vivendo em um ciclo vicioso. O medo alimentava suas alucinações, e as alucinações, por sua vez, alimentavam o medo. Era um círculo que o aprisionava, uma dança macabra de realidades distorcidas. Com um esforço quase sobre-humano, ele começou a desenhar no chão com os dedos, linhas que se entrelaçavam como a própria vida, tentando criar uma rota de fuga, um mapa para escapar daquela prisão invisível.

[Um espectro se ergue, a vida se disfarça,
Ecos de lamentos se entrelaçam na razão.
Qual no umbral do que se avizinha,
Errante, em desatino, por ruas desoladas,
Não são chamas que ardem na cruenta mesquinha;
É o temor que se enlaça em almas desesperadas.]

As horas se tornaram dias, e os dias se tornaram semanas. O quarto, antes apenas um espaço físico, agora pulsava como um organismo vivo. Harry sentia seu coração sincronizar-se com as batidas daquela prisão, como se estivesse se tornando parte dela. Ele percebeu que as visões, em sua essência, eram parte dele, fragmentos de uma identidade que ele havia esquecido. Ao aceitar sua dor, ao abraçar suas memórias, ele começou a desenhar um novo destino.

[A luz do dia, fugidia, retrocede, temerosa,
Diante das sombras que em torno se avultam,
Monstros de pânico, em dança sinistra e voraz,
De almas em ruínas, qual vísceras, se exultam.]

A luz da manhã começou a infiltrar-se pelas frestas da janela, e Harry, com um novo brilho nos olhos, compreendeu que a liberdade não era apenas a saída física daquele quarto, mas uma jornada interna. Com um último olhar ao seu redor, ele sorriu para as sombras, agora não mais como inimigos, mas como aliados em sua luta.

Com o coração mais leve, Harry deixou o quarto, não como um homem quebrado, mas como um viajante de sua própria alma, pronto para redescobrir o mundo que o aguardava além das paredes...

[Eis a janela embaçada, qual olho de um ser,
Que perscruta o abismo onde a razão se fratura,
Rostos que, outrora, eram afeto a florescer,
Agora se corrompem em neblina de amargura.]

Vagueia... [Estais a divagar?] Vagueia o pensamento...

Canto II

[Oh, mundo! Teu teatro, de angústia em compasso,
O vírus, sombra opressora, esperança é um sussurro,
Na luta por um futuro que esmorece e se esvaço,
A luz se oculta, no turvo instante que urdo.]

Com um passo hesitante, Harry deixou o quarto, e a realidade ao seu redor se desdobrou em um cenário surreal e distorcido. A luz da manhã, que antes parecia um alívio, agora se misturava a um crepúsculo anárquico, onde cores vibrantes e sombras dançantes entrelaçavam-se em um balé macabro. As ruas, que antes eram familiares, transformaram-se em um labirinto de pesadelos, cada esquina uma nova possibilidade de terror.

[As casas, as paredes, um cárcere onde os espíritos se encolhem,Pensa
mentos emaranhados, serpentes a devorar,
Vozes interiores, na mente que se acolhem,
Transformam-se em gritos, ecos prontos a explodir.
Mas do lado de fora, na noite que se espraia,
Um riso maligno ecoa, como brisa envenenada,
Os monstros se alimentam da dor que se ensaia,
E dançam nas calçadas, em dança amedrontada.]

Conforme caminhava, Harry sentiu a pulsação da cidade sob seus pés, como se o chão estivesse vivo, respirando com uma cadência errática. Os edifícios, altos e grotescos, pareciam se inclinar sobre ele, como sentinelas malignas, sussurrando segredos que ele não desejava ouvir. Ele era um intruso em um mundo que agora

lhe parecia hostil, cercado por entidades cósmicas que espreitavam nas sombras, criaturas que transcenderam a compreensão humana.

[Perdido, clamo por alento, um sopro divino,
Que rompa as correntes desta prisão que é nosso ser,
Mas na penumbra, restam apenas o destino,
E o silêncio de um mundo que não sabe viver.
Oh, quão distante a luz que outrora nos aquecia,
Na primavera de riso que os deuses nos deram,
Agora a dor e o medo se fazem a companhia,
E a vida, um poema de terrores que ferem...]

De repente, ele avistou uma figura ao longe, envolta em uma névoa espessa e turva. Era uma entidade de proporções impossíveis, uma silhueta que misturava características de seres conhecidos e deformações indescritíveis. Os olhos da criatura eram abismos de escuridão, sugando a luz e a esperança. Harry sentiu seu coração disparar, um compasso descontrolado que ecoava em sua mente. Essa não era apenas uma criatura; era a personificação de seus medos mais profundos, uma sombra viva que se alimentava de sua incerteza.

[Quando a quarentena findar, que resquício haverá?
Renascem os monstros, do pânico em nós?
Num ciclo eterno, a sanidade a clamar,
No labirinto da vida, onde a esperança é atroz.
E assim, em desassossego, persisto a vagar,
No labirinto dos dias, onde a razão é um eco,
A cidade, um espelho, refletindo o pesar,
E em cada esquina, um pesadelo que me afeco.]

“Harry…”

a voz sibilante da entidade ecoou em seu ser, como um cântico perdido nas correntes do tempo.

“Você fugiu de mim, mas nunca poderá escapar.”

[Cai a noite, o mundo em sombra,
As portas trancadas, a mente assombra.
Na casa, ecoa um sussurro gelado,
Um medo profundo, um espaço aprisionado.]

Ele começou a correr, os passos ecoando nas ruas desertas, mas a criatura estava ali, sempre a poucos passos atrás. Ao olhar para trás, Harry viu que outras figuras haviam surgido, cada uma mais grotesca que a anterior. Uma mulher de olhos vazios, seu rosto distorcido em uma expressão de dor eterna; um homem cujos membros se contorciam de maneiras impossíveis, como se estivesse preso em uma dança horrenda. Cada uma dessas entidades representava um fragmento de sua própria

psique, os medos que ele tentara enterrar, agora ressurgindo com uma força devastadora.

[Olhos nas janelas, sombras espreitai,
Corações aceleram, é hora de escutai
As paredes se fecham, um abraço voraz,
A sanidade grita, mas ninguém faz paz.]

As ruas estavam repletas de portas e janelas que se abriam para mundos ainda mais distorcidos. Harry se viu diante de um espelho quebrado que refletia não apenas sua imagem, mas versões dele mesmo em desespero. Ele viu o homem que poderia ter sido, suas esperanças despedaçadas, seus sonhos se transformando em poeira. “Não deixe que eles te definam”, uma voz sussurrou dentro dele, um eco de sua própria determinação.

[Relógios marcam horas, mas o tempo se esvai,
Cada batida é um eco, um aviso que não sai.
Paranoia se espalha, como névoa a flutua, você flutua também?
Suspeitas sussurradas, desespero quebrado, salvação estilhaçada]

Com um esforço sobre-humano, Harry parou e encarou a criatura que mais o aterrorizava. Ele percebeu que a única maneira de se libertar era confrontar aquilo que temia. Com um grito que rasgou o silêncio da rua, ele declarou: “Você não é real! Você é uma parte de mim, e eu não vou deixar que você me domine!”

[Os fantasmas do medo dançam ao redor,
E a solidão é um grito, um silencioso clamor.
A realidade distorcida, um pesadelo real,
Sonhos se fragmentam, a mente perdida,
No labirinto sombrio, não sei como fugir.
Entre paredes e sombras, a esperança se esconde,
E na noite eterna, a sanidade responde.]

A criatura hesitou, como se suas palavras tivessem cravado uma fissura na armadura de terror que a envolvia. Harry, sentindo uma onda de coragem, avançou. A luz que emanava de seu ser, uma luz que ele pensava ter apagado, começou a brilhar intensamente. Os outros monstros pararam, suas formas se contorcendo, como se o brilho os queimasse. Ele entendeu que tinha o poder de transformar aquela escuridão em luz, de resgatar não apenas a si mesmo, mas também as partes dele que estavam presas em medo e angústia.

[Caminhos invisíveis, a mente destroça,
Neste terror do agora, o futuro é um revés.
Mas na escuridão profunda, uma luz pode brilhares,
Se a coragem renascer, podemos nos libertares...]

Com cada passo que dava em direção à entidade, o abismo nos olhos da criatura começou a se iluminar, revelando não apenas horrores, mas memórias que ele havia escondido. Harry viu momentos de alegria, de amor e de amizade, vislumbres de uma vida que ainda podia ser vivida. Ele percebeu que os monstros não eram apenas criaturas, mas partes de sua própria história, suas lutas e seus triunfos.

[Ecos do Enclaustro... Sangue, luz, penumbra...
A cidade adormece, um lamento,
As luzes apagadas, não há onde
A porta é um muro, o mundo, um espectro,
No silêncio profundo, um eco de medo.
Paredes sussurram segredos ancestrais,
Histórias de pragas, de destinos fatais.
Cada esquina é sombra, cada ruído, um ser,
Paranoia nas veias, um desejo de correr.]

Finalmente, diante da criatura, Harry ergueu a mão e a tocou. Ao fazer isso, a escuridão ao redor começou a dissipar-se como névoa ao sol. A entidade, antes tão imponente, começou a se desintegrar, suas formas grotescas desvanecendo-se em poeira dourada. “Eu sou mais forte do que você”, ele sussurrou, e a cidade ao seu redor começou a se transformar.

[Os relógios se arrastam, os dias se fundem,
A mente, um labirinto onde os demônios se escondem.
Um olhar pelo vidro, um vulto errante,
No confinamento eterno, quem pode fugir?
Sonhos se tornam pesadelos, noites em claro,
A mente em espiral, um terror avassalador.
E a solitude grita, rasgando o silêncio,
No fundo do peito, um eco imenso...]

As ruas se iluminavam com um brilho cálido, as sombras recuavam, e o horizonte se expandia em cores vibrantes. As criaturas, agora despojadas de sua hostilidade, tornaram-se ecos distantes, fragmentos que já não o aterrorizavam. Harry percebeu que havia vencido não apenas uma batalha contra monstros cósmicos, mas também uma guerra interna. Ele tinha a força para enfrentar seus medos e redefinir seu caminho.

[Mas no abismo do medo, uma luz pode surgir,
A força da resistência, o desejo de existir.
Quebrar as correntes, libertar a alma do pensamento.
Cárcere Silencioso...

No silêncio pesado, o mundo se foi,
As janelas embaçadas, sem sol que nos foi.
A vida é um eco de risos distantes,
No cárcere sombrio, somos todos errantes.
Paredes que fecham, um labirinto sem fim,
A mente em tormento, um pesadelo de mim.
As horas se arrastam, cada minuto é um grito,
E o medo, como sombra, se torna o infinito...]

Com a nova luz da manhã banhando seu rosto, Harry sorriu. Ele havia emergido das trevas, não como um prisioneiro, mas como um conquistador de seu próprio destino. As ruas da cidade, agora vivas e pulsantes, aguardavam sua exploração, cada passo uma nova possibilidade, cada esquina uma nova história a ser contada. E assim, ele caminhou para frente, um viajante de sua própria alma, pronto para reescrever a narrativa de sua vida.

[Passos no corredor, será alguém?
Ou só o murmúrio de um passado que vem?
Os relógios parados, a esperança se esconde,
Na trama do isolamento, a paranoia responde.
E no fundo da alma, um desejo de sair,
Mas as correntes da mente não deixam existir.
Cada som é um presságio, cada silêncio, um horror,
Neste poço profundo, o coração é dor.
Mas nas frestas da noite, uma luz
A força da resistência, o anseio de amor.
Quebrar as barreiras, voltar a respiração,
No cárcere silencioso, renascerão...]

Nas sombras frias, o metal ressoa,
Caminhos de dor onde a luz não voa.
Paredes de pedra, um labirinto amargo,
Sussurros de almas, um lamento largo.

A cela dos olhos é um ventre que nunca se acalma,
Guardião de pesadelos, rouba a alma
em pranto no quarto, nos tetos e nas paredes
Correntes que arrastam o sonho perdido,
O tempo é um monstro, o tempo é ferido.

[Olhos vazios, como faróis apagados,
Refletem a angústia de corações calados.
A solidão grita, um grito silencioso,
Um eco eterno, um destino duvidoso.
Nos corredores frios, o passado é um peso,
Cada passo, uma sombra, um eterno desprezo.
As risadas distantes, como ecos de morte,
Na prisão da mente, onde não há sorte.]

Quando a liberdade parece um estandarte,
Surgem correntes invisíveis, um novo arte.
Pois quem carrega a prisão dentro do peito,
Viverá eternamente no mais denso leito.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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