De Mãos Dadas com a Ruína
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Já havia sonhado outra vez com um prédio enorme abandonado. Um vão gigante, com a parte de baixo aberta, sem divisões por metros, enorme, parecendo uma igreja medieval. Uma porta que mais parecia uma passagem ou portal; janelões já sem vitrais. Morava nele. Morávamos nele. Na parte onde havia divisórias e dava para ser habitado, algumas poucas famílias em situação de rua eram minhas vizinhas. Era legal. Havia crianças e muitas dificuldades, mas estávamos todos bem ali, sobrevivendo.
Desta vez, foi mais louco. Entrei no sonho com uma garota. Não entendi ao certo; parecia comprometida, mas não entendi. Parecia familiar. Andávamos pelas ruas, de boa. Procurávamos algo, um porre, passamos por algumas vezes por bares, lojas, e muita gente nas calçadas à noite, estava animado, mas íamos sem parar, de rolê, como se estivéssemos investigando a cidade. O sonho parecia grande e confortável. Era como se fôssemos turistas. E estava rolando um clima com essa mulher. Uma preta. Era bonita. Lembrava alguém. O fato de caminhar é excitante, vivo e nostálgico também porque se sabe que pode demorar muito para retornar aos lugares, dependendo da situação nunca mais retorna. Começávamos a falar que estava havendo um clima legal, mas que não poderíamos por causa da condição de ambos. Vagávamos. Vagabundeávamos de mãos dadas pela cidade. Rios e ruas da frente à beira das avenidas e meio das praças.
Do nada, ela me tomou pela mão para me levar a um lugar misterioso: o prédio. Estava mais fodido do que da outra vez; só havia sujeira e escombros velhos, madeiras, pregos, dificuldade para andar por entre as madeiras e um telhado caído, defunto; enfim, estava uma porcaria ainda pior. Havia muitas portas enormes de madeira. Entramos por uma; parecia fácil encontrar a saída, mas nos perdemos.
Uma cacetada na cabeça. Um grupo de loucos selvagens, acho que três, porque passei a ter a visão da garota, na qual pelo menos dois me detonavam com madeiras estilo ripões, a paisagem era escura. Não sei por que diabos ela estava a alguns metros de mim, se estávamos de mãos dadas antes da porretada. Eu era detonado; ela gritava. Um terceiro, que acredito ser uma mulher de máscara, a que provavelmente dera o primeiro golpe da minha queda, pareceu se contentar por não estar em cima. Também seria difícil dividir o espaço; eu não sou tão grande, e dois animais são suficientes para um debilitado no chão, sendo esmagado por porretes enormes. A garota se aproxima e, não sei direito, os caras meio que somem, correm, algo assim. Só fica essa que parecia uma mulher de máscara.
Que porcaria! Meu rosto estava destruído. O queixo parecia não existir; as bochechas, inchadas e totalmente cortadas; eu já não falava, do resto da boca saía uma mistura de grunhidos e sangue. Os olhos sumiram no inchaço, e a parte de cima da cabeça não lembro bem, mas estava toda fodida. Uma obra de horror de dar inveja a cineastas com grandes recursos. Eu tinha as mãos no peito, e elas pareciam atrofiadas. Eu sei que eles ficaram estacionadas no peito, mas o “atrofiadas” é que eu as contraía; acho que queria pegar no rosto, mas sabia que não podia, e as retorcia no peito. Doía pra caralho!
A garota pega um machado; a mulher recebe um golpe na cabeça, tenta correr com a lâmina saindo da cabeça; dá as costas, mas, com as costas do machado, a garota lhe dá outra porretada. Ela cai, com a marca do golpe ainda mais aprofundada e o crânio fodido.
A cena muda para um hospital, sei lá. Só lembro que já estava na maca; parecia ainda a parte de baixo do hospital, uma ala, não uma sala. A garota, meio ao longe, meio perto. Choro. Médicos.
Acordo com um fedor de carniça do caralho. Sento-me rápido na cama. Faço o sinal da cruz e começo a rezar. Tenho calafrios; alguém estava no quarto, eu sinto. Fedor da peste. Aos poucos, o cheiro de carniça desapareceu e eu pude parar de tremer para escrever as ruínas. Já não tinha mais a mão da garota entre as minhas. Não sei se sobreviverei.a
Tiago Serigy
Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Aurollie está morta. Seu corpo esguio e pele seca, com rachaduras infindas que desvelam seu esqueleto putrefato; assim está, sob a luz d’uma noite…