Hereditário - Parte 1 - Gardênia
A brejeira e simpática criatura que arrastava seu único filho pelo braço, acompanhando aquele fúnebre cortejo, era a única filha…
MidjourneyAI
Capítulo 1 — Desalento
A brejeira e simpática criatura que arrastava seu único filho pelo braço, acompanhando aquele fúnebre cortejo, era a única filha do falecido, ali sendo transportado. Seu peculiar nome — Gardênia — era uma forma de homenagear a espécie de flor, preferida de sua saudosa mãe. Gardênia era uma mulher singular, dotada de uma beleza hipnotizante. Na altura de seus quarenta anos, muito facilmente, poderia ser confundida com uma jovem de no máximo uns vinte cinco, talvez até um pouco menos. Era ela uma dessas raríssimas criaturas, em que o tempo não tem efeito sobre si, e mesmo sendo uma mulher de meia idade, já com a sagrada experiência da maternidade, ainda assim trazia em si um semblante e o talhe bastante juvenil.
Gardênia herdara para si mesma os fortes traços negros africanizados do pai, unidos à doce sensibilidade caucasiana da mãe, numa única pessoa. A verdadeira união do exótico com o clássico. Sua singular beleza era o resultado de uma metamorfose do vigor da cor do pai com a delicadeza dos traços de sua mãe. Essa bela criatura era uma mulher alta, de vastos e longos cabelos negros, cacheados com grande definição, caídos por toda extensão de suas costas, trazia-os sempre soltos, livres como ela mesma o era. Sua pele era clara e dava a impressão de ser macia e sedosa como a pétala de uma rosa. Havia puxado os olhos da mãe, que eram de um azul cintilante, da mesma cor de um céu de primavera. Por onde passava — muito raramente, pois pouco se ausentava de casa desde que seu filho nascera — era sempre motivo de comentários. Por parte das mulheres — até mesmo, sendo muito invejada por algumas — que sempre elogiavam sua moral e refinada educação e por parte dos homens — por muitas vezes, sendo com ardor desejada pela maioria — porque era, de forma genuína, um ser de incomparável beleza.
Mesmo trazendo em si o milagre da maternidade, ainda assim conseguiu manter seu corpo com traços quase virginais. Tinha o ventre liso e baixo, um belo par de seios firmes e rijos de tamanho médio, contornando um colo gracioso que quase sempre estava à mostra, e que atraia olhares de curiosidade e voluptuoso desejo. Seu corpo muito bem definido, pernas graciosas e bem torneadas que davam certa leveza em seus movimentos, tornando o seu caminhar como algo muito parecido a um requintado bailado. Por fim, sua boca era um irrecusável convite para o pecado. Lábios carnudos delineados de forma perfeita, com dentes tão claros como o mais puro marfim, seu sorriso — muito raro nos últimos tempos — era a mais pura demonstração de sensibilidade e simpatia. Essa graciosa criatura, havia sido — obviamente de forma involuntária — a causa trágica da mais completa ruína de dois audaciosos homens, até então.
O primeiro deles foi o Coronel Guilhermino, um homem muito rico e bastante poderoso. Temido e respeitado até mesmo na longínqua capital, onde tinha forte influência política e mantinha rendosos investimentos em diversificados tipos de negociatas. Era ele dessa espécie de indivíduo, acostumados a humilhar os mais pobres e ser sempre condescendente com os mais ricos. Um tipo de homem que nada temia, pois, devido a sua posição socioeconômica, se achava acima da Lei. Na verdade, em seus domínios, e até mesmo por quase toda região onde vivera, desde que nascera, ele se achava a própria Lei. Em sua narcisística opinião sobre si mesmo, se via acima de tudo e de todos, pois suas ordens e vontades jamais eram questionadas, por quem quer que fosse — pelo menos não em sua presença –. Coronel Guilhermino era um homem áspero e de comportamento arredio com a aparência de um velho flagelado pela vida, com uma imensa cabeça calva, sempre coberta por um belo chapéu em estilo panamá, tinha uma desgrenhada barba arruivada, como se estivesse em chamas. Tinha o rosto ossudo, olhos negros aguçados e uma fina boca com dentes afilados e enegrecidos e sem lábios, feita para estar sempre franzida e jamais esboçar um único sorriso.
Certo dia, estando ele, fazendo um passeio a cavalo, numa tarde quente e muito abafada, — típica dos tórridos dias de final de setembro — avistou ao longe, uma bela jovem de pouco mais de quinze anos, se refrescando no rio, logo abaixo de onde ele se encontrava. De imediato, ficou enfeitiçado pelas perfeitas curvas do corpo da inocente jovem, que por acreditar que se encontrava sozinha, longe de olhares maliciosos, estava completamente despida, — como um dia havia chegado a esse mundo — e se refrescava sem despreocupação nas límpidas e serenas águas daquele pitoresco riacho. Coronel Guilhermino, que para muitos, se demonstrava deveras desinteressado aos encantos das mulheres, — tanto que nunca se casara — rendendo até mesmo, maldosos comentários entre os desocupados, quando viu aquela perfeita beldade em trajes de Eva, ali sozinha e muito desprotegida e estando ele também desacompanhado — como era costume seu, por se achar um ser intocável preferia, sempre, a companhia de si mesmo — decidiu que, aquele tipo de oportunidade era única na vida, e que jamais deveria ser desperdiçada por um homem como ele, que se achava acima dos demais.
Após, com sob sutileza mórbida, amarrar seu cavalo numa árvore, deixando-o numa sombra fresca, aproximou-se, sorrateiro como uma astuta serpente, para a margem do riacho, e quando a jovem pôde, por fim, perceber sua presença, já era tarde demais, pois aquele asqueroso homem já a retinha nos braços, obrigando-a a se deitar na areia da pequena e estreita praia do rio. A inocente e desprevenida jovem, bem que tentou se defender e a todo custo se desvencilhar das garras daquele malfeitor, mas foi, sob hórrida violência, contida com fortes bofetões que levou por toda a face, que acabou por cortar seu lábio superior. Toda essa ignominiosa selvageria, fez com que ela temesse pela própria vida, pois sabia que se defender era impossível e gritar por ajuda era inútil. Sabia ela que, não havia ninguém por perto, além deles dois. Na verdade, até então, ela se imaginava estar sozinha ali naquele refrescante e pacato lugar, por isso, muito inocentemente se encontrava nua e desinibida daquela forma.
Coronel Guilhermino, até então visto como um homem de respeito e ilibada moral, contando com a vantajosa situação de pavor estampada nos olhos daquela inocente jovem e a constante subserviência que todos despendiam a ele, usando de força bruta, roubou-lhe sua pureza, deixando-a deflorada e sangrando tanto na boca, — pelos bofetões sofridos — bem como em suas partes, devido a sua violência e vilania na prática daquele ato sem consentimento, por parte dela. Satisfeita sua pueril ignomínia, esse asqueroso ser após se afastar das margens do rio, ajeitando suas vestes, montou mais uma vez em seu cavalo e seguiu seu passeio num trote lento, como se nada tivesse acontecido. Gardênia encontrava-se intimamente ultrajada e com quase todo o corpo dolorido, devido a violência sofrida. Sentindo uma estranha sensação de nojo de si mesma devido ao contato daquele truculento e malcheiroso homem, entrou uma vez mais naquele rio e após se lavar por completo, e vendo seu sangue sendo levado pelas águas como sua própria honra havia sido lhe tirada, logo se cobriu com suas humildes vestes e retornou para sua casa com a face banhada em lágrimas e o lábio com um pequeno inchaço, além dos hematomas de marcas de mãos e dedos em seus braços. Ao chegar em casa, num primeiro momento estava resoluta em se manter em silêncio sobre o acontecido, mas bastou apenas um único olhar de seu pai, e logo ela lhe relatou toda a história. Contudo, de algum modo, parece que seu pai já sabia do acontecido — ela nunca soube explicar ao certo como aquilo se dava, mas de alguma forma, seu pai sabia de tudo o que acontecia a ela, mesmo antes dela lhe contar. Se não soubesse, pressentia e se não pressentisse, decerto modo, algo ou alguém lhe contava. O bem da verdade era que nada ficava em oculto a seu pai por muito tempo.
Pai Thomaz — como era conhecido — deu um profundo suspiro e após abraçar ternamente a filha foi até os fundos do quintal da casa e logo lhe preparou uma beberagem com algumas ervas medicinais bastante amargas. Enquanto ela bebia aquela estranha panaceia, ele, para tentar tranquilizá-la, disse por fim, com uma voz serena e num tom bem ameno, mas um tanto quanto ameaçador.
— Minha filha! O mal paira pelos caminhos se escondendo pelas sombras em busca de se alimentar da pureza de pessoas inocentes. Infelizmente vivemos num mundo muito hostil, cheio de maldades praticadas por pessoas covardes. Esse tipo de homem se acha acima da Lei, que eles mesmos criam para serem aplicadas em outros abaixo deles. Contudo, se esquecem de que existem outras Leis que regem as engrenagens desse mundo conhecido por nós e de outro muito além de nosso entendimento. O Universo foi criado em plena perfeição e as Leis que assim o regem são exatas e nunca falham, durante nossa insignificante passagem por essa terra, o tempo todo estamos adquirindo créditos e dívidas, independente de quem somos ou com demasiada soberbia pensamos ser, mais dia menos dia teremos que acertar as contas com o Infinito. Com certeza, minha filha, você não foi a primeira mulher que sofreu esse tipo de atrocidade nas mãos dele, mas saiba você, que será a última. É uma promessa que lhe faço, esqueça tudo isso e fique despreocupada, pois, essa última dívida que ele contraiu, lhe será cobrada muito em breve.
Naquele instante, um estranho arrepio correu todo o corpo de Gardênia, ao ouvir seu pai pronunciar essas palavras com tanta convicção, sentiu um gosto amargo em sua boca — e não era pela bebida que acabara de ingerir — que por um breve momento quase se esqueceu da violência sofrida. Aquele calafrio que lhe deixou toda arrepiada era um maléfico presságio, pois em menos de um mês, após aquele ignominioso acontecido, soube-se que, o até então todo poderoso e respeitado Coronel Guilhermino, havia contraído um estranho edema em suas partes, que logo evoluiu para uma fétida ferida. Essa pestilência que em questão de dias tomou conta de todo o seu corpo, logo o levou a óbito, mas não antes de lhe causar dores terríveis e um humilhante sofrimento.
Alguns poucos, que testemunharam o trágico sofrimento do importante Coronel, dizem que: No princípio, aquela indisposição não parecia nada de mais, talvez uma leve indigestão ou apenas um simples resfriado, mas após dois dias sem conseguir se levantar da cama, logo se percebeu que era algo um pouco mais sério. O quarto em que ele estava acamado era o mesmo em que ele vivia desde sempre, tinha um peculiar cheiro de mofo pelos cantos — comum a ambientes sem muita assepsia — e um saturado e pegajoso cheiro de suor — o coronel não era muito adepto ao banho — que logo se misturou ao cheiro de todo tipo de emplastos e cataplasmas que era lhe ministrado, apenas mais um ambiente comum como qualquer local onde estivesse um moribundo em restabelecimento. Contudo, com o passar dos dias e o agravamento daquela estranha moléstia, que de início eram apenas ínguas localizadas na virilha, logo se tornaram em pustulosos tumores que exalavam um terrível mau cheiro atraindo inúmeras moscas sobre suas feridas. Logo os vermes já estavam o devorando, mesmo estando ele ainda vivo e bastante consciente. Em poucos dias seu corpo estava completamente tomado por aquelas estranhas chagas, e o mau cheiro exalado de suas feridas era insuportável, a presença de pessoas próximas a ele era quase impossível, até mesmo para lavar suas pustulentas feridas, ou ao menos tanger as moscas que infestavam aquela insalubre alcova e que o atormentava todo o tempo. O odor de morte no ar era tão nítido e definido quanto o de uma putrefata carcaça jogada a beira de uma estrada.
O homem que durante quase toda a sua vida, se achava acima de tudo e de todos, findou seus dias como a mais vil das criaturas. Sempre acostumado a dar ordens a seus inúmeros serviçais e logo ser, com rapidez, atendido — jamais, sobre hipótese alguma ser questionado em nada —, em seus últimos dias de vida sobre essa terra, mal conseguia emitir algum tipo de som, que não fossem os terríveis gemidos ou profundos e lamentosos suspiros. Entre um delírio e outro, com muita dificuldade, tentava formar as palavras: “Filha, Pai e Thomaz”, — alguns dos presentes, até mesmo se perguntaram entre si, se ele por ventura não estaria solicitando a presença do sábio feiticeiro, mas ninguém ousava tomar nenhuma decisão sem uma ordem expressa do Coronel, — pois se ele nunca fora um homem muito religioso, nem mesmo nos ritos oficiais da igreja, quem diria acreditar em certas crendices do populacho, a bem da verdade era até mesmo um pouco cético perante aquilo que ele não tinha controle, — por isso Pai Thomaz não fora chamado. A dificuldade em se expressar por vias verbais de forma inteligível estava em sua mandíbula que se encontrava quase que, por completo, cerrada, fato esse que o impedia, não só de falar, mas também de se alimentar, bem como ingerir qualquer tipo de líquido, até mesmo um gole d’água, fazendo-o padecer de uma sede terrível. Sede essa, acentuada ainda mais, pela febre constante que o açoitava de corpo e alma. Seus lábios estavam bastante ressecados com profundas rachaduras minando sangue entre um ponto e outro, tornado sua boca um apetitoso banquete para as moscas, que se demonstravam diabolicamente insaciáveis.
Em seus últimos instantes de vida, já com o corpo todo rijo, completamente tomado pelos vermes e sem conseguir mover um só músculo, com apenas os olhos se movimentando num enlouquecido frenesi, como se ao girar os olhos de um lado para o outro conseguisse pelo menos tentar afastar o mal que o atormentava. Decerto não havia apenas angústia naquele olhar, mas também um sentimento de remorso era a expressão de alguém que sabia que havia cometido um terrível erro, não que, durante sua vida não houvesse cometido outros erros — alguns, até bem piores –. Contudo, dentre o imenso catálogo de erros cometidos por ele, numa longa vida de impiedoso déspota, aquele erro em si, havia sido cometido contra a pessoa errada. De algum modo ele sabia disso. Pois, desde a noite em que ousara abusar da inocência da filha de Pai Thomaz, pela primeira vez em sua vida Coronel Guilhermino percebeu quão grande era sua pequenez perante a grandiosidade do Universo. Naqueles últimos momentos de sua vida, aquela putrefata criatura teve plena certeza que o mal que lhe acometia era uma punição pelo seu ignominioso ato de leviandade contra aquela inocente jovem.
Além de todo desconforto e agonia que era visível e olfativa. Parece que aquele destemido moribundo — até então considerado um homem que não temia nada e nem ninguém nesse mundo — estava sendo atormentado por terríveis visões que só ele mesmo parecia enxergar. Alguns diziam que seus delírios eram devido a constante febre que o açoitava noite e dia. Contudo, qualquer um que o observasse por algum tempo, poderia jurar que, quando ele mirava seu olhar aos cantos escuros do quarto, era como se estivesse tendo visões terríveis. Pelo terror expresso em seu olhar era fácil imaginar, que se ele realmente estivesse vendo algo ou alguma coisa escondida nas penumbras daquela alcova, era certo que não se ratava de algo que caminhasse pela terra em plena luz do dia. Todo aquele sofrimento durou quase duas semanas completas. Contudo, se não existe felicidade eterna, sem dúvida não haveria sofrimento que perdurasse para sempre.
Segundo a sabedoria popular, nos últimos momentos de vida, a pessoa moribunda faz um breve resumo de sua vida e até mesmo o até então poderoso coronel também fez o seu, lembrando-se que, após cometer aquela terrível vilania, uma angústia terrível começou a atormentá-lo, era uma espécie de sentimento inquietante que nunca experimentara em toda sua vida, e foi logo depois de seu passeio vespertino naquela trágica tarde onde tudo acontecera, que logo à noite, depois de ter findado todos os seus afazeres diurnos, ao se deitar em seu leito para mais uma tranquila noite de repouso, sentiu que algo não estava de todo normal com seu corpo, principalmente em suas partes que comichavam de forma muito perturbadora, pensou ser apenas um leve mal estar e que na manhã seguinte tudo estaria bem de novo. Contudo, daquele leito não se levantou mais, nem mesmo para suas necessidades mais extremas. Coronel Guilhermino sempre fora um homem forte e muito orgulhoso, qualquer um que visse no estado que ele estava reduzido, teria a plena certeza de que poderosas forças das trevas agiam sobre ele, até porque uma pestilência como aquela, de forma alguma poderia ser algo natural era tudo muito sombrio e maléfico. As poucas testemunhas que tiveram a infelicidade de presenciar aquela terrível moléstia ficaram a se questionar:
— “Que tipo de ofensa ou blasfêmia, teria o coronel feito ou proferido contra os céus para merecer um fim trágico como aquele?”.
Não foi possível, nem mesmo fazer um velório para as exéquias necessárias, pois além do mau cheiro o estado em que se encontrava o corpo do coronel, fez com que os que estavam ali presentes, decidissem por unanimidade que ele deveria ser enterrado o mais rápido possível, antes que os vermes o devorassem por completo. Coronel Guilhermino foi enterrado como um animal vadio, sem nenhum tipo de cerimônia. Nenhuma palavra fora dita nem ao menos uma simples oração fora proferida. Aqueles que assistiam o improvisado enterro, apenas balançavam a cabeça em negativa sem poder acreditar naquelas inverossímeis cenas que seus olhos presenciavam.
Depois desse trágico idílio entre o Coronel Guilhermino e a jovem inocente Gardênia, ela que já era uma pessoa um tanto quanto reclusa demais, se tornou assim, um pouco ainda mais. Certo é que, ninguém nunca soube verdadeiramente do acontecido entre eles, apenas um boato solto aqui e outro acolá, até mesmo porque, tudo que se referia a Pai Thomaz, não era coisa de se dizer por aí a esmo. Se por um lado o moribundo coronel, além das palavras soltas proferidas em delírio, não teve a oportunidade de mencionar o assunto com ninguém — nem mesmo para se confessar em busca de um possível perdão para um amargo arrependimento —, Gardênia tão pouco, exceto com seu próprio pai, fato esse, que fez com que ela se arrependesse com amargor, pois trazia consigo em seu íntimo, certo pesar, pela trágica e sofrível morte de seu algoz. Certeza plena ela não tinha — como tudo de obscuro que se relacionava a seu pai — mas, algo dentro de si lhe dizia que a morte do coronel era fruto de algum tipo de feitiço ou algo parecido feito por seu pai, que de forma alguma — como ele mesmo havia prometido a ela — não deixaria barato a ofensa por ela sofrida.
Os momentos de terror que ela, — uma inocente jovem, criada pelo pai sem a presença de uma figura feminina desde a mais tenra infância — sofrera nas mãos daquela asquerosa criatura, tornara-se um traumático sentimento de aversão para com todos os homens. Por muitos anos, fechou-se para qualquer tipo de afeição restando-lhe apenas um sentimento de completo desalento…
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A Escultura
Carlos sempre flertava com a ideia de viver uma vida simples, sem muitas preocupações, de preferência numa…
MidjourneyAI
Carlos sempre flertava com a ideia de viver uma vida simples, sem muitas preocupações, de preferência numa cidade pequena. Como de costume, ele acordou cedo para comprar jornal na banca próxima a sua casa e, ao folheá-lo, se deparou com um anúncio na parte dos classificados, era o convite que ele estava esperando. Tratava-se de um incrível chalé em frente à praia, numa pequena e charmosa vila pesqueira. Um singelo sorriso surgiu de seus lábios enquanto guardava o jornal.
Certo dia, ele resolveu conhecer o lugar, reservou o chalé por um final de semana e se apaixonou imediatamente, tudo era encantador, a sala ampla, um sofá aconchegante, uma cozinha bem planejada e bastante arejada, a poltrona de balaço feita de palha na varada, o quarto com uma janela linda de madeira, e abaixo da janela, uma confortável cama feita de madeira. Tivera uma estadia fantástica, deixou a vila com saudades.
Anos se passaram e Carlos desejara voltar à vila, mas, desta vez ele queria se mudar, todos diziam que era uma loucura, preocupados em como ele iria se sustentar. Mesmo assim, contra todos os conselhos, ele planejou tudo escondido, estava cansado daquela vida caótica da cidade. Programou-se, economizou e estava decidido a se mudar, não foi fácil, mas ele conseguiu, com muita paciência e dedicação ele finalmente foi morar na vila, foram tantos fins de tarde contemplando o belíssimo pôr do sol, ouvindo o som das calmas ondas beijarem os grãos quentes de areia, os siris buscando abrigo subterrâneo para proteger-se das ondas, porém nada se compara com a grandiosa e misteriosa falésia que, estendia-se por toda praia.
A principal fonte de renda da vila era a pesca, eram conhecidos por terem os mais belos exemplares de peixes, exportavam para todo o Brasil, ampliando, também, para mercado exterior. Foi justamente nesta peixeira que Carlos conseguiu um emprego, era um ambiente leve e tranquilo de se trabalhar. Não se importava com cheiro, ele estava feliz. Acordava animado, gastava por volta de dez minutos da sua casa ao trabalho. Às vezes ele acompanhava as embarcações que ancoravam no cais, trazendo a mercadoria, catalogava quantos peixes foram trazidos e quantos foram vendidos, as vezes ele fazia a limpeza dos peixes.
Por volta das 4 horas da tarde, ele retornava para sua casa, tomava banho acomodava-se em sua poltrona de palha, sempre na companhia de seu café, sentindo a brisa refrescante do mar tocar seu rosto, enquanto admirava o mar e sua imensidão. Estava gostando muito daquele lugar, o clima era agradável mesmo com o imponente sol, a noite era mais fresca e nos finais de semana, as crianças dominavam a pracinha e as ruas, podia-se ouvir as traquinagens e os chinelos batendo contra os paralelepípedos; milho assado, algodão doce e cachorro-quente eram vendidos ao lado da igreja, na praça.
Já nos dias da semana, era menos movimentado. Assim, Carlos vivera momentos felizes. Tinha um ótimo trabalho, ganhava bem e possuía o que ele mais buscava: qualidade de vida. Acordar, e dormir com aquele som das ondas quebrando à beira-mar, não tinha preço, mas aquela serena vila pesqueira escondia um segredo terrível.
Fora em uma noite, na taverna do local, que histórias horrendas atravessaram a mente de Carlos, levando a uma profunda impregnação em seu subconsciente. Aquela noite terrível naquela taverna fizera com que a visão poética que Carlos tinha sobre a vila, fosse fragmentada em micro pedacinhos, tal qual um cristal quebrado. Desde então, quando se encontrava apoiado com os cotovelos na moldura da janela, observando com olhar sereno a despedida das arrastadas noites, assistindo o firmamento receber gentis pinceladas em tons flamejantes e ouvindo ao longe o cantar dos pássaros que anunciam o início do dia, pois cruzam o céu de ponta a ponta, repousando seus corpos nas folhas dos inúmeros coqueiros dispostos por toda extensão da vila pesqueira, tudo não era mais como antes, mesmo com o mesmo cenário.
Sem demora, a inevitável luz matinal começara a surgir no horizonte trazendo o aprazível calor, ainda na janela, com aquele cenário. Carlos, então, bocejou. — “Essa insônia ainda vai acabar comigo!” — pensou enquanto esfregava seus olhos cansados, seguindo em direção ao banheiro. A passos vacilantes, desviou de algumas garrafas de bebidas, porém acabou tropeçando no lençol, o qual fora lançado ao chão. Finalmente chegou ao seu destino, viu-se no espelho, apático. Enxaguou seu rosto ornamentado pelas rugas, enquanto seus olhos castanhos desejavam deixar essa mísera existência. Penteou os poucos cabelos que lhe restavam, trocou de roupa, comeu metade de um pão adormecido, e foi trabalhar.
A silenciosa praia escutava os passos de Carlos, ele seguia caminhando em alerta, sob os grãos fumegantes de areia. A mão esquerda elevada à altura dos olhos, o protegiam debilmente do impiedoso sol. Ao chegar no trabalho, seus colegas se espantaram com sua fisionomia, seu rosto denunciava as noites de insônia. O vigor que outrora trazia, sumira do seu corpo, dando lugar a uma fadiga constante. Joaquim, preocupado com seu amigo, questionou o que estava acontecendo, Carlos explicou tudo o que sucedera, sobre as histórias assombrosas que ouvira na taverna, bem como os terríveis pesadelos constantes e, ao ouvir tudo aquilo, Joaquim paralisou por segundos e disse que era melhor que Carlos esquecesse tudo o que ouvira, pois, as histórias, por mais bizarras que fossem, tinham um fundo de verdade. E, de fato, por um tempo, e com esforço, Carlos conseguiu esquecê-las, no entanto, elas sempre rastejavam até a superfície, assombrando-o. Sua alma havia sido corrompida pelo desconhecido.
Novamente ele assistiu o doce amanhecer aquecer o dia e, mesmo exausto, foi trabalhar, pois, assim esquecia, por algumas horas, as lembranças. Ao chegar no trabalho, foi designado para receber uma grande carga e fazer as devidas anotações. O dia passara tão rápido que ele nem percebeu que a noite havia chegado, todos foram para suas casas, menos Carlos, pois o patrão confiava muito nele para aquele serviço. Ele, então, respirou fundo e pegou a caixa, foi recebido com uma baforada de odor pútrido, sentiu o gosto azedo do suco gástrico subir até a garganta, vislumbrou um peixe enorme, nunca visto antes, seus olhos esbugalhados eram vazios, exibiram um terror ancestral.
De suas escamas fluía uma secreção escorregadia ao toque e sua boca estava costurada com náilon, como se protegesse um terrível segredo. Era a exata cena das histórias que ouvira. Tonto, Carlos lutava para se manter de pé. As escamas brilhavam, estranhamente, em tons de azul fluorescente. Apesar de todo o horror, ele foi até o fim, queria descobrir a verdade. Após amolar sua faca, cortou o náilon, a criatura emitiu um gemido repugnante enquanto ele prosseguia, com as mãos tremulas, na incisão na criatura. O som da pele sendo dilacerada ecoava no silêncio. Carlos contemplou as escamas bailando no ar, com olhos perplexos ele finalizou o corte e fitou as vísceras espalhando-se sob a mesa.
Desta vez ele desmaiou. Quando pôde retomar a consciência, minutos depois, a cena grotesca permanecia ali. Ele apoiou suas mãos na mesa e notou algo nas entranhas da criatura, era uma estátua esverdeada, com mais ou menos 40 centímetros, ela era disforme, coberta por escama, ostentava inúmeras patas longas e arqueadas que ocupavam toda a extensão do corpo, por fim, múltiplos olhos complementam a escultura medonha. Carlos ergueu o nefasto objeto à altura dos olhos, os contornos pareciam ganhar vida, pensou ele ao admirar a escultura: — “Essa é justamente a representação da criatura que algumas pessoas desta vila maldita prestam culto”.
Antes de desmaiar pela segunda vez, ele a ergueu aos céus, suas mãos cobertas por vísceras, e suplicou por alguma intervenção divina, desabando em seguida naquele chão coberto por escamas e entranhas, desta vez, ele teve uma visão de eras remotas, onde o mundo era governado por seres multidimensionais, eles habitavam no espaço-tempo, e um desses seres era a temível escultura que acabara de ver, ela se locomovia com rapidez devido suas enormes patas, gerando gigantescos vórtices. Esse ser era de tamanho imensurável, seu corpo era repulsivo, gelatinoso e amorfo; seu brilho era assombroso. Aquela verdade era muito espetaculosa para a ínfima mente humana.
Carlos abriu seus olhos inertes após a súbita visão, seu corpo tremia compulsivamente e, enquanto ele balançava a cabeça em negação, gritou de forma gutural, chegando a ficar sem voz. Em seguida levantou-se ainda nauseante, enxergou a carnificina, viu, também, a maldita estátua e, tomado pela insanidade, ele ergueu a faca e extirpou seus olhos, ao mesmo tempo que gritos obscenos e risos histéricos eram ouvidos por toda vila. Seu corpo entrou em choque e despencou em meio às tripas.
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A Erva Maldita
Vou ter que passar um fim de semana na casa do José e, francamente, eu não gosto de ir para a casa dele…
MidjourneyAI
Vou ter que passar um fim de semana na casa do José e, francamente, eu não gosto de ir para a casa dele. A euforia dele não me cabe, era como se ele tivesse esquecido o nosso Halloween do ano passado.
Infelizmente o meu gás está com vazamento e o José é o único que ainda restou do nosso grupo… não tenho escolha a não ser ir para lá.
Eu moro na periferia e ele mora na cidade. Eu não estive a par das notícias, pois tenho trabalhado muito em meu novo livro. Ao chegar no terminal da cidade, as pessoas estavam evitando comentar sobre um tal de “jinra”.
Quase que passei no terminal que estava esse tal que não pode ser mencionado, para mim era um pouco distante de certa forma, e de problemas eu já estou cheia.
Cheguei a casa do meu amigo e ele ainda estava no trabalho, mas deixou tudo preparado para mim. Fui desfazer a minha mala. Aproveitei para dar uma volta em sua casa, que eu não me lembrava que era tão grande. A decoração estava completamente diferente da última vez que vim aqui.
11 meses atrás
Eu ganhei um desconto para viagem em grupo. O pacote foi agradável ao nosso bolso; assim comemoramos nosso Halloween naquele parque tão famoso. Entre meus amigos estavam José, Sara, Thays, Lorena e eu… bom, levei meu gatinho Jason. Aquelas mochilas de passeio de gato foram uma das melhores invenções que já fizeram. Assim, nunca me distancio do meu bichinho querido.
A viagem foi bem divertida no caminho, até mesmo quando chegamos ao parque que estava vazio, para minha surpresa — já que era muito conhecido. Nos Dias das Bruxas ele era bastante visitado. Mas isso não foi empecilho para a diversão e a adrenalina correrem soltas em nossa trupe.
A Sara foi a primeira a correr para a trilha. Ela foi a única das meninas que foi de calças; os galhos não machucaram as pernas dela. As outras meninas sofreram um pouco. Bom, eu também sofri um pouco, pois fui de vestido. E o Jason estava pesando um pouco nas costas.
Na trilha do parque tinham árvores com setas que determinavam um caminho. Foi fácil seguir, já que as setas eram gigantes. “Por que eles fazem isso tão grande????”
Chegamos ao destino e era o lugar mais lindo do parque. Tinha um campo de lavandas e borboletas de todas as cores. Tinha uma estalagem próxima em que a entrada tinha a aparência de uma caverna — bem insólita e sem grandes acabamentos. Era praticamente só a “pedra”, e ainda bem que levamos dois colchões de ar de casal.
Não levou muito tempo para que Sara se perdesse. Ela estava de calças, mas a mente dela não era tão ágil quanto aos perigos de se afastar do grupo. A Thays e a Lorena estavam atrás dela, enquanto o José e eu estávamos enchendo os colchões de ar.
Coloquei a casinha do Jason em um lugar com vista para as lavandas. Não poderia soltar meu bichano até encontrar uma maneira de fechar essa entrada. Não posso perder meu filhinho felino.
As meninas retornaram com Sara e ela voltou pálida. A mesma tinha se perdido no meio dos compartimentos da caverna que, aparentemente, era enorme por dentro. Não posso falar com afinco, já que não andei muito. Meu vestido estava com alguns carrapichos; tive que tirar de um por um para não me cortar, e, logo que terminei, me estirei no colchão.
Fizemos nossa janta especial e com o aplicativo de vela, tivemos um jantar à luz de velas modernizado.
Tiramos algumas fotos no campo de lavanda. O Jason saiu fofo em todas elas.
Fui me deitar um pouco mais cedo do que os meus amigos. Estava completamente exausta não tenho o costume de sair de casa. Trabalhar por conta própria tem as suas vantagens. Mas também criei o hábito de dormir cedo.
03:33
A hora exata em que eu acordei, a Sara havia sumido. José e Lorena estavam procurando por ela. A Thays era um pouco assustada e tímida, minha companheira de colchão que esperava um tempo de procura para me acordar. Olhei para a minha mochila de modelo espacial e meu gato não estava. Me levantei num susto e já fui logo abrindo minha vela do aplicativo para participar da busca.
Quando a Sara tinha falado sobre as muitas entradas cujas quais eu não tinha acreditado, a caverna era imensa por dentro. Eu pensei que era só um ponto de descanso depois da trilha. Mas agora entendo que ela era a única “hospedagem” para os visitantes do parque. Então, o espaço tinha que ser grande, meio que não ter lotado no nosso dia.
Me deparei com o José correndo com a Sara nos braços e ela estava em transe. O corpo dela estava paralisado e alguma coisa havia deixado ela em choque. A Lorena estava vindo atrás e como ela não tinha certeza de nada, percebi que meu gato não estava entre eles.
A Thays estava vigiando as nossas coisas; caso alguém voltasse ela estaria de prontidão. Não imaginava que algo assustador iria acontecer, então, não preparamos uma caixa de remédios ou algo do tipo. Mas eu entendia de ervas e remédio caseiro. Tinha uns machucados no braço da Sara, cegamente. Ela ainda sofreu um choque, mas aos poucos foi se recuperando.
— Sara o que aconteceu com você? — Thays disse calmamente.
Eu ainda pensei no Jason. Minha amiga estava ficando bem. Mas eu não consigo parar de pensar no meu gatinho.
— Eu fui dar uma volta com o gatinho, para ele sair um pouco da mochila dele. Só que ele se assustou com um barulho e saiu correndo, acabou me arranhando e fui correndo atrás dele sem ter noção para onde estava indo. Aqui é maior do que eu imaginava. Sinto muito, Maria, mas eu perdi o seu gatinho.
— Ele não passou por aqui. Estou vigiando não só as coisas, mas também essa única entrada que conhecemos. — Thays me ajudou a tranquilizar.
— Quando o José encontrou a Sara, eu ouvi um barulho baixo vindo de algum lugar da caverna; parecia um eco baixo, mas acredito que possa ser o miado do Jason. — Lorena falou
Isso me deu uma ponta de esperança e eu fui com a Thays em sua procura. Os demais estavam descansando. A Sara estava aparentemente bem e os riscos já estavam sarando, o que me deixou feliz. Talvez a erva tenha surtido efeito rápido.
A Thays era minha amiga virtual e a gente se viu poucas vezes. Essa era nossa primeira viagem juntas. Ela saia mais com os outros do grupo — eles tinham mais papéis juntos. Eu sou mais recatada e fico entre meus livros e meu gato.
— Vamos encontrá-lo!!
Eu dei um suspiro e abaixei os ombros tristemente.
Chegamos ao ponto em que encontramos José com a Sara e a Lorena. Seguimos o caminho e escutei um miado. Sacudi a vasilha com a ração para chamar o Jason. Ele adorava o barulho da ração mexendo no pote e sempre vinha correndo para ganhar sua recompensa por ser a coisa mais linda do mundo.
Fomos para a esquerda; eu já estava com um braço apoiado no braço de Thays. Com a outra mão eu sacudia a vasilha. E ela nos guiava pela vela do aplicativo. Descobri uma outra saída depois de andar em algum tempo, só que essa saída não dava para o parque. Ela dava para um caminho isolado de pedras e nada verde. Estava muito frio e eu não conseguia enxergar quase nada.
Eu senti um tremor vindo de Thays, não sei se era de frio ou de medo. Mas também nunca saberei…
— Por aqui, venham… — uma voz sedutora nos guiava.
Miauu
Sacudi a ração desesperada e chamei o Jason. Senti um eriçar na panturrilha e pensei que fosse meu gato me acariciando. Mas não era ele ainda; estava com muito frio e meus pelos estavam arrepiados.
— Thays??? Thays???
Eu me desencontrei dela. Estava preocupado em meus pensamentos e só pensando no Jason e na voz que ouvi.
— Maria??? Vem logo por aqui, segue a vela.
A Thays me encontrou e a bateria do celular estava fraca. Ela estava um pouco agitada e as mãos dela estavam muito geladas. Eu ouvi um estalo e depois um barulho ensurdecedor; ouvi um rosnado, e minha amiga também não estava mais aqui. O celular estava com ela e esse caminho de pedras não estava nos levando a nenhum lugar.
— Thayssss?????
Comecei a ficar mais nervosa e a ansiedade estava querendo atacar. Era Dia das Bruxas e eu estava apavorada. Talvez fosse alguma travessura do parque.
Fui seguindo caminho sem enxergar nada, só na base do tato e tentando colocar pensamentos positivos na mente.
— Maria??? — José me chamava de algum lugar distante.
Levei um baque muito grande quando meu gato pulou em mim. Ele saiu me arranhando todo. Fiquei feliz por encontrá-lo, mas ao mesmo tempo assustado com a raiva que ele me arranhou. Os olhos dele eram vermelhos, e eu enxerguei outros olhos vermelhos e não era de bicho, era de gente. E tinha mais ou menos a minha altura.
— Quem é você? O que fez com meu gato?
— Eu sou aquilo que você não acredita. — A mesma voz sedutora de antes.
— O que você quer com a gente? Tem alguma câmera escondida aqui? É uma pegadinha? Você já está me assustando.
— Não existe câmera, não tem pegadinha, e eu só quero o seu pescoço.
— Por que você quer o meu pescoço? Você vende muitos filmes de terror e quer bancar um vampiro? — Tirei onda para esconder meu nervosismo.
— Eu sou tudo aquilo que temem e não acredito. Já fiz de duas amigas suas, minhas súditas. Em breve a transformação será completa e dessa caverna vocês não sairão. Seu gato também já se tornou um de nós.
Eu comecei a ficar cada vez mais assustada, eu não estava acreditando muito nessa baboseira. Mas eu sou bruxa e acredito em tantas coisas, astrologia, energias, viagem no tempo, mas nunca tinha pensado em vampiros. Com medo mesmo eu comecei a correr.
— Onde você pensa que vai?
Grrrrrr grrrrrrr
O Jason não parava de rosnar. Derrubei a ração no chão, fui correndo para algum lugar. Acabei me esbarrando com o José que já tinha me chamado distante.
— Temos que sair daqui o mais rápido possível. A Sara nos contou o que de fato aconteceu e nos mostrou uma mordida com duas pontinhas finas. Ela estava assustada, estava muito pálida e começou a delirar depois de nos contar a verdade. Quem mordeu foi o Jason, ele estava com uma mulher de cabelos compridos loiros. Ela era muito pálida e estava com um vestido medieval.
Eu não queria acreditar em nada disso, não sei se era a mesma mulher de voz sedutora que falava comigo. Eu só consigo enxergar os olhos vermelhos.
— Onde está a Thays?
— Eu não sei. Tinha uma mulher onde eu estava, que disse que iria transformar minhas amigas em suas súditas. Onde está Lorena?
— Ela saiu assim que você foi procurar o Jason. Ela ficou muito assustada e disse que as energias do lugar eram intensas. Ela saiu sozinha e disse que nos encontraremos depois.
— Você não está assustado?
— E por que eu estaria? É Halloween, coisas acontecem nesse dia. — Falou com confiança.
Tentei ser complacente, mas não saia da minha mente a voz daquela mulher e meu gato que me machucou com seu pulo alvoroçado.
Chegamos ao nosso acampamento e Sara não estava; ela deixou um bilhete dizendo “Não retornem, fujam o quanto antes. Estou sentindo a transformação; não quero matar vocês”
Peguei minhas coisas e a mala espacial do meu gato… hum… eu não estou preparada para isso. Arrumamos nossas coisas e o José parecia estar ciente de tudo, achando que era apenas tudo uma pegadinha. Tentei levar na esportiva, mas minha intuição dizia que não estava certo. Que tinha algo macabro nessa caverna. E se de fato os vampiros existiam?
Já estava amanhecendo quando chamamos nosso carro de aplicativo para nos levar até a estação de ônibus de viagem. Meu coração não estava tranquilo, não conseguia relaxar nem um pouco. E para variar, o José estava muito tranquilo. Ele conseguiu dormir o caminho todo sem se preocupar com as meninas. Carreguei meu celular e tinha uma mensagem da Lorena dizendo que estava bem.
Como ela estava bem? Ela chegou a tempo em casa? Ainda era madrugada, acho que não tinha nem ônibus esse horário? Minha cabeça não parava de fazer questionamentos.
Chegamos em casa, cada qual na sua. Meu coração não parava de latejar com saudades do meu bichano. A casa era vazia sem ele, cada espaço era preenchido com a fofura dele e agora só resta eu e minha mente — que tem mais palavras que um calhamaço.
Passaram-se três dias do acontecido e meu coração ainda estava pesado.
Segui minha vida em frente, mas não quis adotar outro gato; eu ainda tinha esperanças de encontrar o Jason e ficar tudo bem.
Atualmente
— Oi Maria? Você está bem? Quer alguma coisa?
José havia chegado em casa e estava com os pés azuis.
— O que isso nos seus pés? E por que está descalço?
— Isso é só a Jinra. O ônibus deu prego, tive que andar a pé até o terminal que não é tão usado. Não sei se você está sabendo da notícia. Mas tem uma erva que começou a nascer perto desse terminal, e ela contamina a pessoa, fazendo-a delirar. É tipo uma água azul que depende do tom azul. Ela tem um efeito mais “profundo”. Eu entrei pela porta errada do terminal e acabei pisando, mas já lavei meus pés por lá, é só esperar sair a mancha e vai ficar tudo bem. Eu estou bem e feliz por você estar aqui. Já faz alguns meses que não nos vemos, né?
Eu queria ter essa confiança que ele tem sobre tudo. Fiquei divagando se ele não estava assustado com essa tal de jinra. E se ele ainda pensou nas meninas — que desde o Halloween se afastaram da gente. Na verdade, nunca mais nos vimos pessoalmente.
No próximo mês vai fazer um ano do acontecido e as memórias desse dia seguem intactas no meu diário e na minha mente.
— Estou bem! Me organizei, posso descansar? Não estou muito animada hoje.
Menti. Eu não queria conversar com ele. Achei tudo muito estranho e desconfortável. Queria minha casa triste e melancólica. Resolvi sobre um tal jinra que eu nem sequer sabia antes, fiquei totalmente desprovida de informações depois que me afastei das redes sociais. Essa erva, segundo alguns sites místicos, ela foi criada para deixar as pessoas loucas, isso tudo era carma da sociedade que não cuidava bem do nosso país. Em outros sites mais ocultos, sabiam que uma bruxa poderosa havia colocado uma praga somente nesse terminal, porque ela tinha morrido queimada na idade média. Alguns outros hereges da internet falam coisas bem absurdas. E cientificamente eram só vários compostos químicos que deram errado e acabaram ficando apenas nesse lugar da cidade.
Acabei dormindo com o celular na mão. Quando acordei estava tudo escuro. Cocei os olhos e tomei um susto. Eu estava na caverna novamente. Como eu vim parar aqui? O José que me trouxe? Por que ele faria isso?
— Oi, Maria, ainda bem que acordou. Vamos terminar o que começamos no ano passado. — A bendita voz sedutora
— Como você? Por quê?
Seu — amigo me fez um favor e trouxe você até aqui. Ele estava sob meu domínio desde que veio aqui. Eu esperava que ele trouxesse você somente no próximo mês para fechar o Dia das Bruxas com o ritual completo. Mas como ele está delirando e com os pés azuis, acredito que aconteceu algo. Mas isso não importa. Pois agora você vai se juntar as suas amigas.
Meu coração não parava de palpitar e quanto mais acelerado ele ficava, mais assustada eu fiquei; e estava beirando a crise do pânico.
— Não consegui me apresentar da última vez. Meu nome é Thammy. Agora teremos uma longa jornada para montar nosso coven de vampiros. Seremos tão fortes que todos irão nos temer. Não vejo a hora de sair dessa caverna e todos os homens caírem aos meus pés. Vamos transformar todas as mulheres e elas finalmente serão livres na escuridão profunda, enquanto nossos homens escravos irão trabalhar para nós durante o dia.
Eu só devo estar sonhando, não é possível. Olhei para o José e ele estava batendo os dedos na parede da caverna, como se estivesse tentando fazer um buraco na pedra só com os dedos.
— Seu amigo passou no meu teste. Ele ficou fiel a mim desde que vocês vieram aqui.
Grrrrr grrrr
Miaauuuu
— Jason?? Você ainda está vivo? Estou aqui, venha para a mamãe.
Meu gato pulou em mim com euforia e me deu uma mordida no pescoço. Meu sangue jorrou e senti muita dor. Meu coração estava acelerado, eu não sabia se estava morrendo. Mas de uma coisa eu tinha certeza: eles me trouxeram para o clã. E eu já não era mais a mesma. Fui transformada por um gato. Ao menos era um que eu amava.
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Os Órfãos
Há muito tempo, em terras distantes das cidades, longe de todas as comodidades de uma civilização, quando em noites…
MidjourneyAI
"Um sentimento que era um misto de horror e remorso; mas não passou de um sentimento superficial e equívoco, pois minha alma permaneceu impassível."
Há muito tempo, em terras distantes das cidades, longe de todas as comodidades de uma civilização, quando em noites de calor extremo, onde ficar dentro de casa era quase um suplício, o frescor da varanda demonstrava-se como uma dádiva. Na quietude da noite onde não havia música ou livros — e estes, se houvessem, seriam totalmente inúteis para uma maioria de sertanejos que não sabiam ler — a diversão e o entretenimento das pessoas, logo após a ceia e pouco antes de se recolherem, era se ajuntarem na varanda em dias de chuva, ou mesmo logo a frente da casa sob a luz do luar entre um gole ou outro de café quente — as vezes até algo um pouco mais forte. Era comum preencher o tempo ocioso com diálogos diversos e curiosas histórias, algumas até verdadeiras, outras nem tanto. Contudo, em alguns casos — ou causos — para corroborar essas estórias, havia até mesmo cicatrizes ou sérios traumas psicológicos que acompanhariam o indivíduo até o fim de seus dias.
Numa noite não muito diferente de qualquer outra, assim que o clarão do dia cedeu lugar à escuridão — apesar de que, aquela noite em questão estava clara como o dia, pois além da lua cheia, o céu estava completamente limpo sem nenhum rastro de nenhuma nuvem sequer — e como o calor do dia já havia cedido lugar ao frescor da noite que vinha a cada momento se tornando mais agradável devido a leve brisa que soprava vez por outra, todos se acomodaram no pátio em frente à casa, logo ao lado do curral e, sem mais delongas, entre um gole de café recém-coado e uma baforada ou outra de cigarros de palha, ou até mesmo cachimbos, iniciaram uma animada conversa. Os conteúdos eram variados: intrigas de família — daqueles que estavam ausentes — fofocas inéditas, o clima, o valor dos produtos e das mercadorias e muitas outras coisas sem sentido. Contudo, dentro de todos os assuntos, um que jamais passava batido nessas rodas de conversas era a morte recente de conhecidos. Se o falecido fosse alguém querido, muito se falava sobre seus feitos e suas qualidades, mas se fosse alguém detestável o assunto se encerrava com poucas palavras. A Falecida recente era Dona Amélia, e ninguém disse uma palavra sobre ela.
Naquela noite depois de muita conversa fiada jogada fora sem muito aproveito, alguém iniciou uma estória sobre uma velha ponte que passava sobre o Riacho da Prata, onde já, há bastante tempo, ninguém ousava cruzar após o sol se pôr. Fosse quem fosse a coragem logo abandonava o mais corajoso dos homens. Primeiro, porque a ponte se encontrava numa curva bastante fechada e debaixo de duas grandes árvores que a deixavam na mais completa penumbra mesmo em pleno dia de sol claro e durante a noite era completamente tomada pelas trevas. Segundo, devido aos dois suicídios que aconteceram em uma de suas travas, sucedidas um ao outro no período de menos de uma semana. Sendo os dois infelizes da mesma família. A primeira das mortes se deu à filha de 15 anos, — por se achar grávida de um homem casado — depois logo em seguida a própria mãe — por ser a esposa desse homem, padrasto da filha infeliz — casada com o suposto pai da criança que sua única filha levava no ventre. E por último, os diversos relatos de inúmeras pessoas de índole confiabilíssima que alegavam, com veemência, terem visto duas mulheres de pé sobre a ponte, sendo uma delas, uma bela jovem que segurava uma criança no colo.
A seguir, alguém contou uma estória sobre um negro cego que pedia esmolas à beira de uma velha porteira nas noites de sexta-feira. Se, porventura, alguém de coração bondoso, com coragem suficiente, lhe doasse algum trocado, esse mesmo negro lhe concedia um pedido, que logo lhe seria realizado. Todavia, se a esmola solicitada pelo negro fosse ignorada por alguém de alma dura e vazia, não demoraria muito para que uma tragédia se abatesse sobre aquela pessoa. Para evitar tanto uma coisa quanto outra, — sempre que possível — quem sabia das estórias sobre a encantada porteira fazia de tudo para evitar cruzar por esse caminho nas noites de sexta-feira, período no qual o velho negro era visto esmolando. Uma pessoa sábia de forma alguma gostaria de nenhum tipo de envolvimento com uma entidade do outro mundo. Um favor recebido por um ser mítico poderia se concretizar numa dívida difícil de ser saudada, pior ainda seria ter um dissabor com um ser do outro mundo.
Como a Lua estava clara e o tempo bastante agradável, as estórias foram se sucedendo umas às outras, até que alguém, dentre os presentes, logo propôs que todas aquelas estórias seriam puras bazófias para assustar crianças e mulheres medrosas. Ele, por sua vez, tinha quase meio século de vida, e mesmo andando por ermos caminhos em horas tardias da noite, nunca vira nem presenciara nada que pudesse ser considerada como sobrenatural. Um dos presentes, que acabara de acender seu cachimbo e iniciar um excesso de tosse, assim que conseguiu recuperar o fôlego respondeu com uma voz tranquila de uma pessoa já experimentada em anos.
— Tião — Sebastião Tavares era o nome do incrédulo que acabara de falar — Vosmecê deveria ter mais respeito com aquilo que não entende. Não é porque vosmecê nunca viu, que essas coisas não possam existir. Eu tenho idade para ser seu avô, porque Graças ao nosso bom Deus, já estou chegando aos cem anos e também devo confessar, tendo Nosso Senhor Jesus Cristo como testemunha, que até hoje meus olhos nunca viram nada do outro mundo. Nem presença nenhuma senti, muito menos barulho estranho meus ouvidos ouviram. Mas acredito que tem muita coisa sombria se escondendo pelas frestas escuras desse mundo.
Tião que era um homem que fora educado a sempre respeitar quando os mais velhos falassem, não quisera retrucar o que Nhô Quinca havia dito, e por um breve momento, em respeito ao ancião, o silêncio se fez presente, até que foi quebrado por um jovem um tanto quanto mais atrevido, que disse, — até mesmo em tom de galhofa –.
— O nosso companheiro Tião é um velhaco, falando essas coisas. Não passa de um medroso que teme até a própria sombra e fica querendo se amostrar dando pinta de homem corajoso. Eu, de minha parte, Nhô Quinca, tenho medo de andar por alguns lugares até mesmo durante o dia claro, agora imagine durante a noite, período que as criaturas das trevas vagueiam livres por todos os lados.
— Vosmecê é um menino sabido Jorge!
Respondeu Nhô Quinca com orgulho do jovem marido de sua neta. Sabendo que era ele um homem que fora ensinado a respeitar tudo aquilo que não podemos compreender.
Juscelino Peixoto era talvez, dentre todos ali presentes, o mais destemido. Celino, como era mais conhecido, era um homem na altura de seus 30 anos muito bem vividos. Amigo fiel do copo, um eterno apaixonado pelas cartas e de forma alguma dispensava um rabo de saia. Para ele, excetuando sua mãe e suas irmãs, o restante das mulheres — solteiras ou casadas — se fossem de seu agrado e tivesses dispostas, ele jamais recusava uma boa oportunidade. Não tinha a aparência de nenhum príncipe encantado, é certo dizer. Contudo, tinha os lábios de mel e era raro acontecer de uma mulher — mesmo que séria ao extremo — após uma conversa em particular não cedesse aos seus encantos. Para seus amigos era um companheiro fiel, sempre disposto a ajudar a quem quer que fosse não importava a hora nem o lugar.
Desde que saíra de casa, ainda com 17 anos, para seguir a vida de peão, vivia sempre sozinho em busca de trabalho numa fazenda e outra tentando se estabelecer em algum lugar que lhe fosse mais agradável. Longe do carinho da mãe e da proteção do pai, se encontrara obrigado a enfrentar o mundo sozinho, contando apenas com a proteção do Céu. Por essas e outras a coragem era sua única companheira. Celino era do tipo de individuo que abaixo de Deus, a nada temia nesse mundo. Contudo, para se solidarizar com Nhô Quinca — há quem ele muito respeitava — disse:
— Devo concordar com o senhor, Nhô Quinca, que há muita coisa que nós desconhecemos, mas, para falar a verdade, eu, quando ainda era garoto, tinha um medo terrível de Dona Amélia. Na noite que fiquei sabendo de sua morte, fiquei acordado até bem tarde rolando na cama de um lado para o outro impressionado com a lembrança que eu tinha da aparência dela, quando ainda era viva.
Naqueles dias próximos, havia falecido uma senhora que era bastante impopular entre a maioria dos que estavam ali presentes e certamente dos que também não estavam. Dona Amélia era uma criatura ímpar dessas que são únicas em todo o universo. Vivia só, desde que perdera seu único parente que se tinha notícias. Essa parenta era sua irmã Angelita que morrera há mais de quinze anos, supostamente afogada na própria saliva após uma crise convulsiva de epilepsia. O verdadeiro motivo de sua morte, ninguém sabia ao certo, essa suposição se deu pelo fato dela ter sido encontrada morta no caminho entre sua casa e o pequeno riacho onde uma vez por semana, ela lavava suas roupas e da própria irmã que a tratava como uma espécie de gata borralheira.
Amélia sempre fora fechada de humor, detentora de um comportamento taciturno e irascível, — a quem diga, que sua personalidade fora moldada dessa forma, após ter sido abandonada pelo noivo que desaparecera sem nunca mais dar notícias, deixando-a com dois filhos na barriga. Tal como o próprio noivo, dessas crianças ninguém nunca mais ouviu falar — o que se sabia ao certo era que marido nunca tivera. Sendo assim, tanto Amélia como Angelita eram beatas sem nenhum outro parente conhecido — se esses, porventura, existissem, não era do conhecimento de ninguém –. Muito raramente frequentavam a igreja e jamais foram vistas em visita a lares alheios. Em sua casa não recebiam ninguém, até mesmo o próprio padre Severino era despachado da varanda mesmo, sem nunca ter sido convidado a entrar. Nem mesmo no velório de Angelita houve visitas a sua casa, uma vez que todas as exéquias foram feitas na própria igreja.
Após o falecimento da irmã, Dona Amélia ficara tão reclusa que muitos até mesmo se esqueceram de sua existência. Era o tipo de pessoa que, de forma alguma, se interessava pela vida em sociedade, uma vez que produzia praticamente tudo que sua humilde existência necessitava, até mesmo a visita ao mercado local era uma raridade. Talvez a sua reclusão pudesse ter mil motivos, a solidão a que se acostumara, a vergonha por ter sido abandonada pelo noivo ainda quando era jovem, mas certamente a sua aparência era o mais preponderante deles. Dona Amélia era uma mulher de quase um metro e noventa de altura, de corpo magro com feições cadavéricas. Seu rosto era chupado e cheio de marcas deixadas pela varíola. Tinha fiapos de grossos pelos entre um lugar e outro na face, e um bigode que faria inveja há muitos rapazotes. Sempre de cara fechada, quando muito raramente sorria, esse era, por sua vez, com traços maquiavélicos, mostrando dentes amarelados que enfeitavam uma boca de lábios finos — quase ausentes — boca essa que não perdia uma oportunidade de praguejar quem cruzasse o seu caminho.
Se, por um lado, até os adultos já experimentados pelos anos a temiam, as crianças, por sua vez, tinham pavor à simples menção do seu nome. Os pequenos mais apocalípticos eram ameaçados com a visão noturna de Dona Amélia caso não se comportassem. Essa sinistra criatura se viva já era apavorante, quando morreu, transformou-se numa visão tão terrível que até mesmo o padre Severino benzeu-se todo ao vê-la estendida no chão da sala de sua própria casa onde ela fora encontrada morta. O preparo de seu corpo fora feito de forma negligente e sem muito capricho, até mesmo porque, ela fora encontrada morta já de alguns dias. Seu corpo estava ressequido, mas preservado dando a entender que nem mesmo os vermes tocariam suas carnes.
Seu corpo fora envolvido numa simples mortalha e colocado num caixão improvisado feito às pressas por Seu Juca — coveiro e agente funerário voluntário, que sempre auxiliava padre Severino nessas questões. O velório — que não teve — e o enterro ocorreram no mesmo dia, de forma rápida e sem muita cerimônia. Além dos quatro homens que foram solicitados por padre Severino para ajudarem a transportar o corpo até o cemitério — mas logo foram embora — estavam presentes o próprio padre Severino — quem fez as exéquias, Seu Juca — quem cavou a sepultura e se encarregaria do enterro do corpo — e Dona Alzira, uma alcoviteira local — que fazia as vezes de carpideira voluntária — que nunca perdera um enterro sequer em toda a sua inútil existência. Além dessas parcas testemunhas, ninguém mais estava presente ao último adeus a essa singular criatura, exceto um pássaro ou outro assentado nas árvores próximas que circundavam o cemitério.
Seu Juca que, além de cavar a sepultura de Dona Amélia, também fora o responsável de colocar o corpo dela no improvisado caixão — que ele mesmo o fizera — ao ouvir Celino dizer que ficou impressionado com a lembrança de sua aparência ainda em vida. Disse que certamente ele ficaria traumatizado se a tivesse visto morta no caixão.
— Gente! A criatura estava tão medonha que seria capaz da fazer homem barbado borrar as calças. Até mesmo o padre Severino ficou tão aterrorizado que pediu para que eu lacrasse logo o caixão. Nunca em toda minha vida presenciei um enterro tão rápido.
Nessa altura da conversa, Tião que havia ficado muito ofendido com as palavras de Jorge, que não apenas o chamara de covarde, mas também dissera que ele era apenas um velhaco atrevido, quisera mais uma vez chamar a atenção para si, propondo ao destemido Celino um desafio que sacramentaria de vez se este, por sua vez, era realmente um homem de coragem ou apenas mais um borra botas com pinta de valentão.
— Celino meu nobre amigo, uma vez que há certa unanimidade entre os aqui presente, que dentre todos nós, você é o mais corajoso, proponho a você um desafio simples, que de forma alguma possa representar nenhum perigo a sua integridade física, mas que a de vir a requerer muita coragem para executá-lo. Tenho em minhas mãos esse relógio de ouro que fora de meu falecido pai e, como bem sabes, vale muito dinheiro. Certamente o ordenado de pelo menos seis meses de trabalho. Além do valor monetário tenho por esse objeto um apreço pessoal, mas estou disposto a me desfazer dele, se você tiver a coragem suficiente para ir agora até o cemitério e nos trazer pelo menos uma das varas do banguê que transportou o corpo de Dona Amélia até sua última morada. Esse belo relógio será seu.
Essa fala fez com que muitos dos presentes se escandalizassem com tal abjeta proposta. Nhô Quinca dotado de uma severa postura de recriminação dissera:
— Vosmecê é um sujeito desrespeitoso ao extremo, Tião. Parece que não conhece limite algum. Nem de brincadeira, jamais devemos importunar os mortos em seu merecido descanso.
Houve muitas outras recriminações, principalmente por parte dos mais velhos. Devido a inconveniência da proposta, fez-se um breve silêncio, que fora rompido com a resposta de Celino, que por sua vez fora dada de forma mais desafiadora do que a proposta de Tião.
— Não devo deixar nosso companheiro Tião sem resposta. Afinal, um desafio como esse não poderia ficar no vazio. Devo confessar a todos aqui presentes, que não tenho toda essa coragem, até porque, como eu mesmo o disse, eu tinha pavor da simples imagem de Dona Amélia mesmo ela estando ainda viva, imagine agora que ela se foi então. Contudo, uma vez que você, Tião, brada aos quatro cantos que não acredita em estórias de fantasmas e sempre diz que os mortos não podem nos fazer nenhum mal, eu dobro sua aposta e faço esse mesmo desafio a você. Se agora mesmo, você for até o cemitério e trouxer o mesmo objeto que me pediu e mostrar a todos aqui presentes dou-lhe meu cavalo arreado como está e mais essa arma. Que também é para mim, um objeto de muito estima, pois me fora dado pelo meu pai. A diferença é que, pela Graça de Nosso Senhor, ainda está vivo, mas se cumprir essa tarefa tudo isso será seu.
Dizendo essas palavras, Celino retirou a arma do coldre e a entregou a Tião. Era uma bela pistola Beretta 380, objeto de desejo de muitos dos que estavam ali presentes, inclusive do próprio Tião, que por mais de uma vez havia lhe demonstrado interesse em comprá-la caso Celino quisesse, por algum motivo se desfazer dela.
Todos ficaram boquiabertos com a contraproposta de Celino. Até mesmo o próprio Tião, que não esperava por algo daquele tipo. Nhô Quinca reiterava sua posição quanto ao desrespeito por aqueles que já se foram. Todavia, a maioria — que sempre se ofendia com o ceticismo de Tião — aprovou a resposta de Celino perante aquela afrontosa proposta. Até mesmo aqueles que apenas ouviam a conversa em silêncio até então decidiram se manifestar em favor de Celino. Tião que pela primeira vez naquela noite, se vira sem argumentos necessários para uma resposta satisfatória, percebeu que acabara de cair numa armadilha. Para que não tivesse seu ceticismo colocado à prova, decidiu que aceitaria a aposta, dizendo logo em seguida:
— Aceito a proposta, mas para que tudo logo se resolva, uma vez que já era hora bastante avançada, e amanhã tenho compromisso bem cedo, peço que me permita ir em seu cavalo, pois assim em menos de meia hora estarei de volta. Também quero levar a pistola comigo, para o caso de me encontrar com Dona Amélia perambulando fora de sua sepultura.
Essa última frase fora dita em tom de galhofa, fato esse que também gerou desagrado a Nhô Quinca que apenas balançou a cabeça em gesto negativo. Contudo, nada mais dissera, sabendo que seria inútil gastar palavras perante tamanha teimosia e desrespeito. De posse da pistola, já na cintura. Tião montou no cavalo de Celino — um belo alazão todo ajaezado com todo tipo de parafernália que se tinha direito — e sem mais delongas, saiu num trote rápido pela estrada afora em sentido ao cemitério que distava menos de meia légua dali de onde estavam. Como a lua estava em todo seu esplendor no meio de um céu limpo e azulado a estrada estava banhada de luz, clara como o dia. Para os que ficaram aguardando o retorno do destemido e imprudente Tião, fora possível ainda vê-lo mesmo já bem longe na estrada, trotando despreocupadamente.
O cemitério ficava num outeiro limpo e descampado, onde o capim ao redor era baixo e bastante raspado pelo gado que muito apreciava a sombra das árvores que o circundavam — um enorme jatobazeiro, uma amoreira baixa e um frondoso cajueiro. Num trote rápido, em menos de vinte minutos, Tião estava em frente ao pequeno portão de entrada daquela mórbida cidadela onde o silêncio reinava em absoluto. Rapidamente, apeou do cavalo e, após amarrar as rédeas num dos galhos da amoreira, entrou sem nenhum tipo de receio e ali, de pé entre os mortos, pôde perceber ao clarão da lua como aquele lugar era simples. Nenhum mausoléu, nem mesmo uma pequena capela, apenas humildes sepulturas, — algumas de tão antigas nem mesmo a cruz que identificaria quem ali estaria repousando em seu descanso eterno, existia mais –. Um lugar onde o luxo e a prepotência não tinham espaço. Nivelando todos os seus residentes num único rebanho de condenados.
De certo modo, sentiu-se estranho estando ali sozinho no meio da noite, rodeado por todos os lados de tantas pessoas que já se foram. Como era um cemitério bem antigo, havia sepulturas com quase cem anos, pessoas que ninguém mais se lembrava, talvez nem mesmo seus próprios descendentes soubessem que um dia existiram. Involuntariamente deu um profundo suspiro e logo foi em busca do que viera buscar. Como era um cemitério pequeno, numa rápida olhadela, conseguiu logo identificar onde se encontrava a sepultura de Dona Amélia, pois era a mais recente e ainda de longe era possível perceber que a terra estava revolvida de novo. Um dos galhos do cajueiro lançava sua sombra justamente em cima daquela mais nova moradia. Ao lado da sepultura, encostado no pequeno muro que circundava toda aquela lúgubre cidadela, estavam as varas que formavam o banguê que trouxeram o caixão até ali.
Sem nenhum tipo de cerimônia ou demonstração de respeito, Tião empunhando uma das varas do banguê como se fosse um cavaleiro medieval preparado para uma justa, ficou de pé perante a sepultura de Dona Amélia olhando para a pequena cruz que identificava quem ali dormia o sono dos justos, pensou consigo mesmo: — Levarei também essa cruz, para que ninguém ouse duvidar que estive aqui. Sei do atrevimento de Jorge, em muitos espertinhos que podem muito bem, alegar que essa vara não seja parte do banguê que transportou a defunta até aqui.
Até aquele momento, nada de estranho havia acontecido naquela fresca e enluarada noite de aventuras, mas, quando ele, rompendo todos os limites da decência, arrancou a cruz da sepultura, uma enorme coruja, que a tudo aquilo observa em zeloso silêncio, assentada num dos galhos do cajueiro, deu um agourento piado e passou num voo rasante sobre sua cabeça e foi se assentar na amoreira próxima a seu cavalo, que deu um assustado relincho e vários pinotes, quase se soltando do galho da amoreira onde estava com as rédeas amarradas. Tião, temendo que pudesse ter que retornar a pé, caso o cavalo se soltasse e se debandasse em disparada de volta para seu antigo dono, logo que reuniu os objetos que viera buscar encaminhou-se para a saída e a após montar no arredio cavalo que a custo fora acalmado, rapidamente seguiu o caminho de volta para sacramentar sua vitória perante aquele audacioso desafio e tomar posse de suas preciosas prendas.
Assim que apontou com seu cavalo na cabeceira da estrada que dava para a casa de Nhô Quinca, logo percebeu que muitos dos presentes se levantaram para recepcioná-lo, ainda na porteira de entrada da casa. Até mesmo o próprio Celino, veio lhe dar os parabéns. Todos ficaram admirados com sua coragem e pela sapiência, em ter trazido também a cruz, para que ninguém duvidasse de seu destemido ato. Todos lhe deram os cumprimentos, exceto Nhô Quinca, que de muito mau humor, com uma voz em tom de advertência lhe dissera:
— É certo que vosmecê provou que tem mesmo coragem. Suas prendas foram conquistadas de forma merecida, mas será que tudo isso valerá a pena, perante a dívida que vosmecê adquiriu ao profanar o túmulo de alguém que nem mesmo quando ainda estava viva gostava de ser incomodada?
Perante aquelas palavras, um perturbador silêncio se estabeleceu entre todos. Até mesmo os mais exaltados se calaram. Celino, mais uma vez foi o responsável por romper o inquietante mutismo de todos, que em respeito as palavras do venerável ancião se mantinham calados.
— Quero que todos saibam, que eu nada tenho a ver com isso! Como todos aqui presenciaram, minha coragem foi experimentada e logo de imediato puderam perceber que eu me recusei veementemente. Pois, me faltara e ainda me falta a coragem necessária para tal ato. O que Tião fez agora na calada da noite, eu não o faria nem mesmo durante o dia com sol claro. Contudo, como eu mesmo propusera uma contraproposta perante o desafio que Tião me apresentara e ele por sua vez o aceitara, tendo ele honrosamente cumprido tal tarefa, tanto meu estimado cavalo, bem como minha preciosa pistola lhes pertence de agora em diante. Agora, quanto às dívidas que você, Tião, adquiriu ou deixou de adquirir, isso já não me diz respeito. Pagando o que te prometi eu lavo minhas mãos.
Todo cheio de si, como se fosse o dono de toda a verdade e da razão, Tião ainda quis dar uma amostra de humildade e após apertar a mão que Celino lhe estendia, devolveu-lhe as rédeas de seu cavalo, dizendo-lhe logo em seguida:
— Também lhe dou os parabéns por ser um homem honrado e cumpridor de suas promessas, mas esse cavalo lhe pertence, apesar de ser um belo alazão, e eu tê-lo ganho de forma honesta, dentro daquilo que você mesmo me propôs, não acho justo te desprover de sua única condução e também meio de trabalho, agora a pistola, essa eu faço questão de ficar com ela! Até mesmo para me precaver, caso Dona Amélia ou alguma outra entidade desocupada venha me cobrar alguma dívida.
— O recebo de volta, desde que você, Tião, aqui na presença de todos dê a sua palavra que a aposta foi devidamente paga! E que foi você mesmo, de livre e espontânea vontade, que não quisera recebê-la ao todo, mas tão somente a pistola que lhe fora oferecida.
Com mais um aperto de mão, assim fora feito. Como o semblante de Nhô Quinca — o anfitrião em questão — ficara bastante carrancudo, demonstrando uma desaprovação total perante aquela ultrajante situação e também como já era bem tarde, um por um, os presentes foram se despedindo e cada qual foram tomando o rumo de suas devidas casas. Por último, além dos residentes da casa, ficaram o próprio Celino e também Tião que não sabia — ou se fazia de ignorante — quando sua presença se tornava inconveniente em algum recinto. Celino, percebendo tal fato, após pedir sinceras desculpas ao dono da casa por todo aquele acontecido ter se passado em sua residência, despediu-se de todos e também logo seguiu seu caminho, convocando Tião que o seguisse, pois, o acompanharia parte da estrada até onde o caminho dos dois se separava. Algo muito constrangedor acontecera então, pois ao tentar se despedir do dono da casa, Nhô Quinca não quisera apertar sua mão. Tião ao estender a mão, recebera fora uma severa reprimenda quando o sábio ancião lhe dissera:
— Tião, esperei que todos saíssem para poder lhe dizer de forma que não lhe causasse nenhuma ofensa perante nossos companheiros, mas quero lhe dizer uma única vez. E quero que ouça bem minhas palavras. O que vosmecê acredita ou deixa de acreditar, não me diz respeito, até porque nós dois somos apenas amigos, e é em nome dessa amizade que vou lhe pedir que o que aconteceu aqui hoje, jamais volte a se repetir em minha humilde casa. Peço-lhe que tenha mais respeito, se algum dia vosmecê decidir voltar aqui outra vez. Minha casa está de portas abertas para qualquer pessoa que saiba se comportar de forma decente e respeitosa. Se nossa amizade tem algum valor para vosmecê, peço-lhe encarecidamente que pegue esses objetos e os devolva de onde você os retirou.
De forma bastante envergonhada, tanto Celino bem como o próprio Tião se desculparam de Nhô Quinca, que dera mostras de estar profundamente ofendido com a desventura de ambos. Tião, de posse dos fúnebres objetos, após dar sua palavra que os devolveria no mesmo lugar que os pegara, despedindo-se mais uma vez, seguira pela estrada afora, carregando tanto a cruz bem como a vara do banguê nas costas. De pé, tendo uma das mãos nas costas e a outra segurando o cachimbo que levara a boca para mais uma baforada, Nhô Quinca ao lado de sua esposa, olhando Tião se distanciando pela estrada, ainda iluminada pela luz da lua que brilhava soberana, disse:
— Tenho pena dessas pessoas ignorantes que se acham sabidas demais e acabam por se deixar guiar pela emoção e agem de forma estúpida e intempestiva, sem pensar nas consequências de seus atos. Tais indivíduos são como os peixes em sua grande maioria, acabam se perdendo pela boca.
Menos de um quilometro a frente, Celino seguindo por outro caminho o deixou só em seu retorno para casa, uma vez que seus caminhos se separavam. Caminhando agora mais devagar, e também porque estava a pé, demorou um pouco mais a chegar até o cemitério. Devido a claridade da lua, não havia necessidade de uma lanterna, pois a estrada estava clara como dia. De acordo que a hora avançava o tempo esfriava a cada momento, deixando a noite mais fresca e agradável, fria até, pois Tião vez por outra sentia um estranho arrepio correr por todo o seu corpo. Por mais de uma vez sentiu uma brisa um pouco mais forte lhe roçar a face. Ele, bastante orgulhoso de si mesmo, trazia na cintura o prêmio por sua coragem e perspicácia. Nos ombros trazia tanto a cruz bem como a vara do bendito banguê. Por mais de uma vez, pensou em abandonar pelo menos aquela comprida vara. Porém, uma vez que de qualquer forma teria que passar em frente ao cemitério, de forma alguma correria o risco de deixar algum vestígio que poderia gerar comentários que viessem a manchar sua reputação, dizendo que ele não passava de um vil profanador de túmulos. Além do mais, dera sua palavra a Nhô Quinca — que se ofendera bastante com sua conduta — que devolveria aqueles itens onde os havia encontrado.
Resoluto de que cumpriria com sua palavra, seguiu com passos firmes e ao terminar de subir uma pequena ladeira um pouco mais elevada na estrada, do alto já conseguia ver o pequeno cemitério que ficava menos de quinhentos metros à frente. Mesmo de longe pode perceber que havia algo de errado, pois o portão do cemitério ainda estava aberto. Parou por instante, primeiro para tomar um pouco de fôlego, pois a pequena subidinha o tinha tirado as forças, sentia que aquela vara junto com a cruz em suas costas começara a ficar bastante pesadas. Segundo porque, além do portão estar aberto, parece que havia duas figuras estranhas na porta do cemitério. Mesmo com a claridade da lua, devido à distância não era possível discernir do que se tratavam aquelas duas sombras ladeando o pequeno portão. Como até aquele momento, tudo correra dentro da mais cômoda normalidade, continuou caminhando sem titubear, até porque trazia uma arma na cintura.
A menos de cem metros do portão e com todos os pelos do corpo espontaneamente eriçados, teve um leve sobressalto e quase correu, quando a mesma coruja — pelo que pareceu — mais uma vez deu outro rasante sobre sua cabeça com um piado mais pavoroso do que o primeiro. Ainda dominado pelo seu ceticismo, concluiu que o portão fora ele mesmo quem o deixara aberto quando na pressa de logo retornar, não o fechara devidamente. A coruja certamente teria um ninho ali por perto e estava tentando o manter longe de seus filhotes. Contudo, quando já estava buscando uma explicação lógica para as duas sombras que circundavam o portão, pode perceber que as sombras eram duas crianças. Um casal de uns sete anos ou até um pouco menos, — se fossem irmãos certamente seriam gêmeos –. Estavam ambos muito bem-vestidos, como se estivessem vindos de uma festa.
Tião parou já quase em frente ao cemitério e por um momento ficou sem reação. Talvez devido ao susto de encontrar duas crianças daquela idade, sozinhas no meio da noite. Como sempre fora um homem de gentileza maior, mesmo com todo seu inconveniente ceticismo, quisera logo trazer algum conforto àqueles pequenos inocentes que ali se encontravam em tão abandonada situação. Talvez por sua incredulidade, quantas as coisas que não pertencem a esse mundo, ou por mera inocência de espírito se aproximou das crianças e foi logo dizendo:
— Boa noite, crianças! O que estavam fazendo aqui a essa hora da noite? Quem são seus pais? Onde eles estão?
A menina, uma criança de face meiga e sorriso inocente, lhe respondeu educadamente, mas com o olhar desolado, de quem padeceu uma grande tribulação.
— Boa noite, senhor Sebastião! Não sabemos quem são nossos pais! Somos órfãos!
Tião sentiu suas pernas perderem as forças quando a garotinha de cabelos cor de ouro disse seu nome de batismo, como se o conhecesse. Ficou mais pasmo ainda quando ela lhe dissera que eles eram órfãos, pois vivia ali naquela região desde que nascera e jamais ouvira falar de algum casal que tinha tido filhos gêmeos, muito menos que tinham ficado órfãos. Exceto a inverossímil estória que havia escutado ainda naquela mesma noite, sobre as duas crianças que Dona Amélia havia perdido — ou mesmo abortado — quando seu noivo a havia abandonado. Antes que pudesse chegar a uma racional conclusão, mesmo estando ainda pelo lado de fora do cemitério, pôde ver que a figura de uma enorme mulher caminhava em sua direção com as mãos levantadas em decidido movimento de agarrá-lo. Ao luar, a face da mulher que logo entendeu que só poderia ser a própria dona da cruz em pessoa, muito se assemelhava às monstruosas imagens que certo dia padre Severino mostrara numa missa, como sendo as criaturas que povoavam o reino das Trevas. Rapidamente jogou tanto a cruz, bem como a vara no chão e, num desesperado ímpeto de se defender, sacou a pistola e a apontou em direção àquela cadavérica e infernal figura que se aproximava numa rapidez que não era própria de um ser humano, pois aquela horripilante criatura planava por sobre as lápides. No silêncio daquela tranquila cidadela, onde o orgulho e arrogância não jazem, um único tiro foi dado.
Como o tempo estava limpo e a noite bastante silenciosa, o estampido daquele tiro fora ouvido há uma distância bastante considerável. Nhô Quinca, que ainda não havia se recolhido, e estava naquele momento sentado em sua varanda, numa confortável cadeira de balanço, fumando sossegadamente seu cachimbo, pensou consigo mesmo: — Parece que o nosso incrédulo Tião se encontrou com sua verdade tão almejada, tomara que aquela pistola tenha lhe servido de algum conforto nessa hora tão ingrata –…
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A mulher sábia constrói o seu lar. Provérbios 14:1
Em um casarão antigo, e um tanto conservado, morava um solitário cientista obcecado em criar a noiva perfeita, ele se embrenhava em cemitérios e necrotérios, onde outros homens davam a ele — por uma generosa quantia — acesso às partes que ele precisava para sua criação. Tudo era levado para seu frio e organizado laboratório, munido com seu conhecimento de anatomia, alquimia e tecnologia ele pode dissecar e meticulosamente selecionar os órgãos e membros que precisava, suturando membros, conectando vasos sanguíneos e nervos, e para finalizar muita eletricidade e, assim, a noiva estava terminada. Ela era um belo exemplar de partes costuradas, um quebra-cabeça de carne morta-viva — que se sentia mais morta do que viva — trazida à vida pela obsessão por perfeição do homem que a criou.
A noiva era perfeita — pelo menos na visão de seu criador — ela foi criada para ser a companheira carinhosa, sempre disposta a dizer sim, esposa, mãe, ouvinte, cozinheira e excelente dona do lar. De estatura mediana, esbelta e de traços delicados, lábios belos de uma tonalidade rosada, de tom de voz baixo e acanhado, olhos gateados da cor de âmbar, sempre submissos, pele muito alva e delicada, cabelos longos como um véu translúcido, de uma beleza feérica e melancólica metodicamente criada, com uma sutileza de vaidade. Partes suturadas com delicadeza, todas elas bem selecionadas e imaculadas. Sua mente — como inocentemente acreditava seu criador — era uma tabula rasa, sempre pronta a aprender aquilo que seu senhor desejasse.
Porém, ela refletia confusamente com tudo o que ele permitia que ela lesse, ele achava conveniente que ela tivesse — nem que fosse um pouco — conhecimento. E assim como selecionara suas partes, escolheu um a um aquilo que ela tinha permissão para ler. Astronomia, arqueologia, botânica, filosofia e aventuras fantásticas onde os protagonistas — sempre homens — viajavam, exploravam e — assim como ela que lia — se fascinavam com as belas paisagens. Ela ficava perturbada por desejar conhecer tudo aquilo, mas não queria ser o homem, apenas desejava ter a liberdade de experimentar — como eles — tudo o que lia nos livros. As vezes se esquecia dos seus afazeres domésticos, entretida com tantas palavras e imagens, perdidas entre as prateleiras daquela biblioteca desordenada.
O homem, estudioso de renome, sussurrava belas palavras ensaiadas no ouvido dela, discursava — de maneira sutilmente dominadora — sobre o seu vasto conhecimento e de como ela era abençoada por merecer o seu amor, pois ele não era como os outros, outros esses que ela não conhecia e nunca tinha ouvido falar. Quando ela declarava querer conhecer o mundo fora dali, ele dizia que ela tinha liberdade para ir aonde quisesse, desde que fosse nos limites da sua propriedade, pois o mundo lá fora poderia corrompê-la. Ele a considerava o ápice da perfeição até não ser mais. Às vezes ela sentia o peso da sua mão, por uma palavra ou ação errada, logo o peso cedia e a mesma mão que a havia ferido, a acariciava, assim ela voltava a ser a noiva idealizada. A noiva ficava confusa com os sentimentos conflitantes que tinha por ele. Ele sempre estava ocupado demais em seu laboratório — a única parte do casarão ainda intacta — para ouvir ou fazer as vontades da noiva e perceber o que nela aos poucos se alterava.
A noiva não tinha um nome ou uma identidade própria que pudesse chamar de sua, mesmo que seu criador a chamasse de Sofia, que significa sabedoria — para o “homem” o significado dele era admirável — não era um nome ao qual ela sentia ser o seu. Ela era apenas a companheira perfeita, planejada e idealizada para o solitário monstro que ela conhecia como o “homem”. Cada parte do seu corpo era um retalho, a união de muitas mulheres que tiveram suas vidas extintas. Ela era uma amálgama de sonhos quebrados e esperanças fragmentadas, e era assim que agora ela se sentia.
Em quase todas as noites em que a escuridão parecia abraçar aquele casarão decadente, onde a luz da lua mal conseguia penetrar as grossas cortinas poeirentas, a noiva repousava em seu leito de seda escura, seus olhos brilhavam com uma luz fantasmagórica e observavam as sombras que dançavam no teto e nas paredes úmidas, refletia sobre a sua existência, enquanto o “homem” nela mergulhava para satisfazer suas próprias vontades, ela mergulhava em si mesma. E ansiava por algo além de ser a criação e serva do outro. Seu coração, já havia noites, estava sendo, aos poucos, alimentado por uma centelha sobrenatural, pulsando pela necessidade de escolha e liberdade. Porém, suas memórias eram um mosaico de vozes que em vida foram silenciadas, um coro de almas desesperadas sepultadas em carne ressuscitada.
Ela olhava para suas mãos, seus braços, pernas e pés, partes que antes pertenceram à artistas, musicistas, dançarinas, donas de casa, universitárias, e tantas outras mulheres que poderiam ter sido importantes, que encontraram o fim antes do tempo. Cada parte carregava uma história não contada, uma narrativa trágica de vidas interrompidas. Os olhos, que agora observavam o mundo, já haviam testemunhado o auge e a decadência, mas suplicavam por mais. A noiva ansiava por se libertar daquele casarão decrépito, que ela sozinha não conseguia dar conta, se sentia pressionada e cansada demais de apenas servir e manter um lar. Ela queria ser mais que uma sombra no caminho do “homem” que a criou para servi-lo. Todas as suas partes desejavam a liberdade de escolher seu próprio destino, ser sua própria criadora, de escrever e viver sua própria história, assim como nos livros que ela lia.
E a cada dia, em secreto, ela sentia a comunhão com as suas partes mortas-vivas em um pacto silencioso feito dentro de si mesma. Cada pedaço seu desejava insistentemente — a ponto de ela não conseguir controlar — escapar das correntes da obediência e ser livre. O cérebro antes uma cacofonia de vozes em desespero, agora uma sinfonia de pensamentos e memórias desenterradas que clamavam por autonomia. Os membros — uma união de habilidades antigas e paixões — que desejavam por serem livres para explorar o mundo fora dos muros daquele casarão arruinado.
A noiva ergueu-se do seu leito conjugal — onde todas as noites aguardava por ele -, seus cabelos pálidos ao redor dela como um véu. Ela se olhou no espelho e analisou a sua imagem por um longo tempo e em concordância com todas as suas partes, decidiu que era hora de as correntes do “homem” serem quebradas. Desafiando o que foi imposto a ela, ainda carregada de ansiedade e insegurança, andou por aqueles corredores escuros, malcuidados, úmidos e rachados com determinação. A noiva saiu às escondidas daquela prisão e as almas que a tinham como morada sussurravam entre si agradecidas pela liberdade. Porém, mesmo rompendo os grilhões da obediência, deixando para trás o casarão em ruínas, elas sabiam que haveria outras que ocupariam o seu lugar na vida do “homem”.
No pélago da noite púrpura, à deriva, os ignorantes gargalham uns dos outros. Enquanto divertem-se, a escuridão silente esparge frígida, tornando-se…