Sepulcral
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Profundo silêncio entre os vestígios de vida sob o manto da madrugada. Se somente vozes fossem ouvidas, o que elas diriam? Com quem se confessariam? Pecados apagados como arte herege dos templos de um deus-demônio de alguma religião morta, como de fato são todas as religiões.
Não sinto o chamado do fogo, nem o canto do vento, mas escuto o ressoar de asas e risos quase infantis emergindo das sombras. Queria poder viver em seus olhos de novo. Percorrer com meus tentáculos sua pele de novo. Mas o tempo, tão morto como morto é o desejo na rotina, é imparável.
Quebram os sinos da antiga catedral com seus bancos empoeirados, e sua congregação de fantasmas cantando em coro o hino das lamentações. O que dizer a uma mãe cujo filho está em pedaços em seus braços? O que dizer a um anjo irado na iminência de fazer arder uma cidade?
O fim de todas as coisas é inevitável, por vezes até desejado, entre mentiras banais e verdades inconvenientes temos somente a certeza da passagem.
Eu te amo, eu te odeio, você atravessa minha janela fechada e arrasta as velhas cadeiras me acordando à noite. Sinto o cheiro da sua pele e seu hálito frio no meu rosto. Dançando sobre os retalhos de meus sonhos, velhos sonhos, misturados com vestígio de uma vida que não tive, de uma existência inventada
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