Imagem criada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

No escritório, pedi para que Ehllenor deixasse-me a sós com Morgion, para que houvesse o sigilo correto que meu ofício exige. Ela titubeou, como imaginado, pois almejava passar por tudo ao lado de seu filho; tive de explicá-la a importância da confidência e do quanto Morgion poderia ficar com receio de contar seus sonhos e experiências na presença de sua mãe, pois sabia que ela se preocuparia. Insisti que Morgion, certamente, não almejava deixar Ehllenor ainda mais aflita e, por isso, poderia omitir detalhes profundos. Com alguma perseverança, consegui convencê-la e, então, iniciamos a sessão.

Morgion era um garoto bastante lúcido e sério, inclusive de forma deveras questionável para alguém de sua idade; ainda assim, dei-lhe giz e papéis para que pudesse desenhar enquanto conversávamos. Ele hesitou e, por vinte minutos, apenas segurou os gizes e os papéis. Esfregava os gizes entre si, pelas mãos que pareciam trêmulas; o singelo ato demonstrava seu nervosismo; tentei apaziguá-lo perguntando de coisas cotidianas, tais como os seus passatempos preferidos, suas atividades diárias. Soube que sua cor preferida era mesmo o preto e que sua atividade mais amada era jogos de tabuleiro, em especial o Iomô, um jogo de estratégia densa e simplicidade de regras. Descobri que colecionava folhas de tipos de árvores diferentes, encontradas na profundidade do balcedo de Amorttam. Incentivei-o que se sentasse sobre a tapeçaria, para que pudesse desenhar à vontade; contei-lhe que eu adorava desenhos e, por esta razão, adoraria poder guardar, na minha coleção, as suas obras — isso o convenceu a iniciar as ilustrações, acredito que tenha sido pelo fato de que ele era um colecionador de folhas e, eu, de desenhos. Senti que se identificara comigo.

Não demorou para que ele, por livre vontade, iniciasse a conversa a respeito de seus sonhos e, mais uma vez, eu tive importantes símbolos mentais dispostos à minha avaliação do caso. Morgion não tivera um pesadelo com a criatura, desta vez fora com os retratos do corredor principal que levava aos aposentos particulares. Da mesma forma que antes, mencionarei em itálico as partes que correspondem, na íntegra, às falas do petiz. Por instantes acreditei que, porventura, ele teria vivenciado em sonho a anomalia que presenciei, isto é, os rostos apagados e borrados dos porta-retratos; contudo, havia algo ainda mais mórbido em seu plano onírico, algo que eu não sabia até então.

Segundo Morgion, os retratos sempre o causaram medo; isso porque havia um hábito entre os Sttrattan... eles faziam pinturas e fotografias póstumas. Sempre que alguém da família falecia, preparavam o corpo em suportes de ferro para que houvesse sustento do peso; maquiavam a face, as mãos e o pescoço do finado, preparando-o para permanecer intacto por longas horas enquanto um pintor contratado registrava o último momento do morto. O que tornava a cena ainda mais tétrica, era o fato de que todos os familiares presentes na Mansão se juntavam à pintura, ao lado do defunto, para que fossem retratados juntos. Morgion explicara que o odor era pútrido e a face do morto era terrível. Lilith, embora fosse detentora de uma fortuna inominável, o que a permitiria contratar artistas mensalmente para eternizarem os membros da família, ainda assim, os quadros só eram feitos quando alguém se encontrava com o Sonurista da Morte. Ela acreditava, segundo Morgion, que a pintura póstuma mantinha a alma dos falecidos na Mansão e, desta forma, ela se sentia sob a companhia daqueles que amou e ama, tendo em vista que, enquanto vivos, a maioria a deixara no lar de obsidiana, partindo para Sihren. Compreendi que se trata de uma mágoa a respeito dos filhos e netos que saem da Mansão e não mais retornam.

Por possuir medo das pinturas e já estar vivenciando algumas complicações mentais, o pesadelo da sua última noite iniciara no corredor mencionado; ele observava as pinturas com ansiedade e temor, enquanto “uma névoa negra se espalhava ao redor, impossibilitando-me de ver as portas e qualquer outra coisa que não estivesse próxima”. Sentindo-se “preso e em uma agonia sufocante”, Morgion começou a andar devagar, observando os quadros, pois, não conseguia fechar os seus olhos e “a névoa negra ardia a córnea”, impossibilitando-o de enxergar a direção oposta. Então, o menino notou que os mortos não estavam nas imagens; no espaço que lhes cabia havia apenas um vazio, como se “propositalmente nunca tivessem sido pintados”. Por instantes, Morgion sentiu alívio por não ser “oprimido pelos olhos mortos”, mas, segundos depois, temeu por sua vida ao considerar que, “se os mortos não estão ali, então, onde estão?”.

As almas aprisionadas deixaram o cárcere que estavam, isto é, os quadros; e, quando deu por conta essa possibilidade, seu corpo começou a tremer de pavor e Morgion não pôde decidir se corria para alguma direção ou se abaixava-se e chorava. Contou-me que as cenas eram muito vívidas e reais e, sempre que desperta, tem dúvidas sobre qual é a sua verdadeira realidade. “Senti-me sufocado... era como se algo apertasse meu pescoço... ouvi respirações e passos ao redor que me fizeram cobrir os ouvidos e fechar os olhos, mas a escuridão era ainda pior; eu sabia que aqueles espíritos, presos sem que pudessem escolher, estavam dispostos a tirar o sangue de qualquer um que estivesse no caminho em que passassem”. Com técnica e cuidado, sondei sobre o sangue; quis saber se Morgion já vira bastante sangue em algum momento e tive, sem delongas, minha resposta, mas não na sessão com Morgion.

Certa vez, contou-me Ehllenor, quando a prática da pintura post-mortem foi iniciada por Lilith no falecimento de seu esposo, o morto colocado no suporte de ferro não tivera o sangue drenado — levando em conta que tudo foi feito e era feito pelo mordomo Ertthan e por Ahzaez, os quais não tinham tanto conhecimento de tanatopraxia naquela época. Poucos minutos em que o corpo do senhor Gutthen Sttrattan estava no suporte, o seu sangue começara a verter de todos os seus orifícios e Morgion ficou horrorizado com o que vira. Segundo Ehllenor, o menino de apenas cinco anos, chorou e soluçou de pavor, pois fora colocado no colo de seu avô e sofreu um banho mórbido de sangue.

Aquilo me respondia muitas dúvidas. Ehllenor soube por Ahzaez, tempos depois, que o fenômeno correspondia ao inchaço interno, rompendo as veias pelo acúmulo; todavia, em minhas pesquisas posteriores, tive dificuldade de achar se tal informação era real e se aquilo de fato poderia acontecer. Morgion não lembra do ocorrido ou, ao menos, não o citou para mim durante nossa primeira sessão. Por outro lado, seus desenhos denunciaram muito a respeito deste dia fatídico e outras coisas.

Voltando ao pesadelo daquela noite, Morgion explicara que a presença hostil dos mortos que deixaram as pinturas póstumas, gerou-o agudo pânico e o paralisou. “Na névoa negra, os vultos dos espíritos cercavam-me... tilintavam como se carregassem suas próprias correntes, iguais ao monstro de tendões, e somente um deles aparecera para mim, contudo, eu não me lembro de seu rosto completo, apenas do horror que me acometeu quando suas unhas afiadas e transparentes rasgaram meus braços; foi aí que me despertei e vi mamãe chorar” — então Morgion mostrou-me as feridas. “Acordei assim... doía muito...” — seus braços estavam cortados de diversos ângulos e formas, finos cortes sobre a tez. Assombrei-me com o que vi e tive de investigar com Ehllenor, pois, não me parecia ser possível que um pequeno garoto de dez anos de idade pudesse ferir-se daquela forma durante uma agoníria sonâmbula. Nota: pela segunda vez.

E, de fato, ele não pôde. Ehllenor estava em lânguido desalento quando me revelou que fora ela quem cortara o menino, tomada por um sonho hórrido, símil à realidade, que lhe causara igual sonambulismo. A partir daí, o que era estranho tornou-se raso e superficial se comparado ao que eu estava prestes a presenciar nos próximos vinte e nove dias de estadia. O sonho de Ehllenor iniciara no jardim morto da Mansão Negra e, nele, ela estava sendo obrigada a dissecar raposas com uma pequena adaga; quem a obrigava “era um homem alto e forte, junto com dezenas de outros indivíduos de olhos negros, sem esclera” — segundo suas próprias palavras. As raposas eram mortas à sangue frio em sua frente e postas, ensanguentadas, na mesa de arranjo de flores que está no jardim da Mansão. “O pavor que eu sentia”, explicara, “era não só do medo puro, pois, aqueles indivíduos emanavam uma aura de horror que eu não sei conceber ou descrever; mas, posso lhe garantir que o pavor advinha da ojeriza pelo sangue, pela carne daqueles animais e, principalmente, por causa dos pêlos, pele, órgãos vitais tão realistas, os quais fui coagida a retirar um a um e... depois... consumi-los".

Ehllenor tremia ao descrever as cenas e, por vezes, sentiu-se turva e teve de parar a sessão para se acalmar. Fiz o possível para amainá-la, porém, era evidente o seu desespero e a culpa que sentia por ferir o seu filho. Ainda assim, esforçou-se para prosseguir. “Ali, no jardim, compelida a tais atos terríficos e medonhos, fui ordenada a ajoelhar na relva que crescera de modo estranho e espinhosa; rasgando-me os joelhos. O homem mais forte viera até mim, abriu-me os lábios e fez-me tomar uma taça de... seu próprio sangue. Proferia palavras ininteligíveis durante o ato e eu sentia quente em minha garganta, profano e perverso... eu gostaria de esquecer...”, explicou. As suas descrições eram tão vivas e detalhadas que não vi razão para apenas descrevê-las com minhas palavras n’este registro; portanto redijo com exatidão o que ela dissera e como dissera, espero que nada me tenha escapado.

Assim, ela prosseguiu: “Então, chorei; minhas lágrimas e soluços eram o meu único alívio. Colocaram à minha frente uma criança... cujo rosto estava coberto por um manto carmesim. Enfincaram em seu abdômen uma espada e me ordenaram a dissecar o jovem, contudo, em prantos, eu apenas cortava seu braço, lentamente e com profundo horror, pois o garoto ainda estava vivo e gemia de dor à minha frente. Nesse momento o homem mais forte se abaixou, segurou-me os cabelos com força hedionda; olhou nos meus olhos... eu não via seu rosto, eu não sei como é sua face, mas eu sabia que seus olhos me fitavam com ódio. Ele proferira palavras de novo, e subitamente despertei... Morgion estava em transe, sonâmbulo, e seu pequeno braço sangrava, segurado pelas minhas mãos. A adaga estava no chão. Eu soube que foi eu que tinha cometido tal atrocidade”.

Ehllenor sentiu-se menos amargurada ao perceber que seu filho não soube que foi ela a ferir-lhe os braços. No entanto, a culpa que a cingia consumia-lhe como uma erva daninha em uma plantação já pouco cuidada. “Eu sentia conhecer o homem sórdido que me fizera cometer aqueles atos asquerosos... contudo, eu não pude reconhecê-lo... isso me envolve em um medo profundo, pois, e se de fato eu o conhecer? E se for alguém próximo?” — seus questionamentos eram pertinentes e, unindo as peças dessa loucura, o sonho que tive, o sonho de Morgion com os retratos póstumos e o horror onírico de Ehllenor, senti que o que era de mais valioso no momento era manter uma ama nos quartos, acordada pela madrugada, para ajudar em qualquer situação perigosa — e, além disso, era imprescindível ter uma primeira sessão com Ahzaez.

A Mansão Negra
Doutora Saeeri Heigger é convocada para investigar os sonhos aterradores de uma criança de nove anos. Entretanto, o menino pertence à família Sttrattan e reside na Mansão Negra. Convencida de que se trata de apenas mais um caso clínico, Saeeri aceita a proposta, mas, parece que o que dizem sobre os Sttrattan é pior do que ela imaginava e os horrores oníricos vão além da mente de seu pequeno paciente. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Sahra Melihssa

Escritora e Poetisa, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sou Anfitriã do projeto Castelo Drácula e minha literatura é rara, excêntrica e inigualável. Meu vocábulo é lapidado, minha literatura é lânguida e mágica, dedico-me à escrita há mais de 20 anos e denomino-a “Morlírica”. Na alcova de meu erotismo, exploro o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo meus leitores em um imersivo deleite — apaixonada pelo tema, criei Lasciven para publicar autores que compartilham dessa paixão. No túmulo de meus escritos, desvelo um terror, horror e mistério ímpares, cheios de profundidade psicológica e de poética absurda — é como uma valsa com a morte. Ler-me é uma experiência, uma vivência para além da leitura em si mesma; e eu te convido a se permitir fascinar. » saiba mais...
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Sahra Melihssa

Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica-Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. A sua arte é o seu pertencente recôndito e, nele, a autora se permite inebriar-se em sua própria, e única, literatura.

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