A Cisne Pálida
Pintura: Jules Pascin - Lady Wearing a Turban (1907)
Dançava a Cisne Pálida, “coisa abominável e repugnante” — é o que diziam. Sauter, sauter, tourner, glisser; beleza e fascínio, como flor e como rio. Os homens do Théâtre Étoile Noire lhe tinham grande fetiche, tanto pelos valores exorbitantes das vendas de ingressos para o grã-show de Cisne Pálida, quanto por seu corpo animalesco. As mulheres lhe invejavam pelos movimentos graciosos e lhe riram em razão de seu pescoço e suas asas.
Dançava a Cisne Pálida, ainda que sob tomates pobres — lançavam-lhe quando emergia no palco, entre sombras e tristuras. Ela, contudo, não se desequilibrava: sauter, sauter, tourner, glisser — cinesia perfeita ao som de Tchaikovsky. Lúgubre piano, melancólico violino — que não se sabe d’onde vinham, música fantasma de mórbida ópera.
Certa vez, no palco embalsamado de vinho, a Cisne Pálida beijara, d’um caule, vinte espinhos — e proferira quinze versos n’um idioma arcano.
Dançara, a Cisne Pálida, sangrando os lábios-bico — era mulher, mais do que viam, um ser de dois corações. Sauter, sauter, tourner, glisser; e as penas enegreciam. Sauter, sauter, tourner, glisser; e suas lágrimas vertiam. Em dor aguda, élancer! O Gran Finale. Todos na plateia se horrorizaram, seus olhos brilharam com as chamas enquanto seguravam ovos podres e grunhiam. O fogo esplendoroso erguera-se de súbito. Élancer! Como pôde acontecer? A Cisne Pálida queimara junto às cortinas.
Morrera, a Cisne Pálida — um alívio, um alívio! Em sua pele límpida não havia resquícios de queimaduras; mas seus corações pararam para sempre. Debaixo da meia-ponta: um papel com uma Sonura — poema de quinze versos, tesouro antigo. E todos os que ali seguravam bananas pútridas em riste, carbonizaram — sofriam, gritavam! Um som horrível! Desesperados! E os homens foram pisoteados no caos e as mulheres arrancaram seus próprios cabelos em loucura!
Morrera, a Cisne Pálida, bela e única — rareza pertencente aos céus e nunca, nunca, nunca merecera a vida amarga. Se voltara ao paraíso, não sei; mas decerto descansa nos braços da justiça — e que vença a justiça! Pelos de bom coração cuja alma na lembrança perdura. Se não for assim, que esta fábula se queime ao fim da leitura.
Sahra Melihssa
Escritora e Poetisa, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sou Anfitriã do projeto Castelo Drácula e minha literatura é rara, excêntrica e inigualável. Meu vocábulo é lapidado, minha literatura é lânguida e mágica, dedico-me à escrita há mais de 20 anos e denomino-a “Morlírica”. Na alcova de meu erotismo, exploro o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo meus leitores em um imersivo deleite — apaixonada pelo tema, criei Lasciven para publicar autores que compartilham dessa paixão. No túmulo de meus escritos, desvelo um terror, horror e mistério ímpares, cheios de profundidade psicológica e de poética absurda — é como uma valsa com a morte. Ler-me é uma experiência, uma vivência para além da leitura em si mesma; e eu te convido a se permitir fascinar. » saiba mais...
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
“Pelo menos esta torre é alta o suficiente para a queda acabar com essa loucura. Ao menos isso a névoa ainda não transforma”, murmurou Viktor Vatra para a noite…