Sepulcral
Profundo silêncio entre os vestígios de vida sob o manto da madrugada. Se somente vozes fossem ouvidas, o que elas diriam? Com quem se confessariam?…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Profundo silêncio entre os vestígios de vida sob o manto da madrugada. Se somente vozes fossem ouvidas, o que elas diriam? Com quem se confessariam? Pecados apagados como arte herege dos templos de um deus-demônio de alguma religião morta, como de fato são todas as religiões.
Não sinto o chamado do fogo, nem o canto do vento, mas escuto o ressoar de asas e risos quase infantis emergindo das sombras. Queria poder viver em seus olhos de novo. Percorrer com meus tentáculos sua pele de novo. Mas o tempo, tão morto como morto é o desejo na rotina, é imparável.
Quebram os sinos da antiga catedral com seus bancos empoeirados, e sua congregação de fantasmas cantando em coro o hino das lamentações. O que dizer a uma mãe cujo filho está em pedaços em seus braços? O que dizer a um anjo irado na iminência de fazer arder uma cidade?
O fim de todas as coisas é inevitável, por vezes até desejado, entre mentiras banais e verdades inconvenientes temos somente a certeza da passagem.
Eu te amo, eu te odeio, você atravessa minha janela fechada e arrasta as velhas cadeiras me acordando à noite. Sinto o cheiro da sua pele e seu hálito frio no meu rosto. Dançando sobre os retalhos de meus sonhos, velhos sonhos, misturados com vestígio de uma vida que não tive, de uma existência inventada
Leia mais desta autoria:
As pessoas seguem suas vidas como se caminhassem sob o sol tranquilamente, enquanto eu afundo lentamente. Nadar contra a maré da escuridão é uma…
A primeira vez que a vi foi numa noite sem lua, tão escura quanto a alma dos homens corrompidos pela luxúria. Mal sabia eu que contemplava minha própria ruína…
Quando a noite sepulta o horizonte sem luz, | E o zênite em luto ao abismo conduz, | Ante o pálido horror deste céu cinzento, | Eu me rendo ao…
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…
Foram várias consultas e aqueles malditos médicos não descobriram o que eu tinha. Uns ousaram dizer que eram sintomas psicossomáticas…
I | É um erro crer | que o sono abriga algum refúgio. | Deitar-se na escuridão | é depor as insígnias da vontade, | é entregar a alma, | desarmada, trêmula…
Quando a tarde morre sangrando no horizonte distante, | e o crepúsculo veste o céu de luto agonizante, | eu caminho entre os túmulos da memória esquecida,…
Vim para essa instituição ainda adolescente; a construção era sólida e grandiosa — mesmo sendo um prédio relativamente novo, ele trazia elementos da…
Velian retornara do Rio de Janeiro há algumas semanas. O apartamento em Fortaleza permanecia exatamente como o deixara. O caixão oculto no…
No pélago purpúreo, o riso dos insensatos fenece, | Bête e ignorant, sob o teto de um gesso que chora; | A névoa de violeta opaco, que o tempo devora,…
Senti uma dor no peito. Infelizmente, não é infarto. Não é dor de amor, nem tristeza. É peso, uma sina. Sabe, os dias em que não se sente raiva, compaixão…
Apaga-te, archote! Pois a tua luz pequenina | É mera ofensa à vastidão augusta que nos cerca. | Esta carne, este lodo moldado em orgulho e sopro,…
Ao cruzarem o limiar da floresta, o mundo transformou-se em uma pintura. A luz do luar agonizante cortava a copa das árvores em feixes geométricos…
Canta, ó Primeira Sombra, nos jardins sem aurora, | Onde a carne estrangula as estátuas da memória; | Onde o mármore ferve em rubro e profundo,…
Numa existência plena de concisas leis universais onde o sol nasce para todos, ainda assim há aqueles que são cobertos pelas sombras do infortúnio…
O motor industrial range no peito da noite, um zumbido constante, | L'existence précède l'essence... | ou seria o fungo na parede que sonha?…
Menel continuava a procurar, sem nem mesmo saber ou entender aquele mundo. Onde estava? O que era aquilo? Por que ela veio para cá?…
26 de maio de 2097. Tudo começou na década de 20.O capitalismo conduziu a humanidade, lentamente, para um apocalipse silencioso. Um fim…
O rangido do ferro não cessa. É talvez a caixa torácica daquela mulher que ainda fitava o teto vitoriano com os olhos vazios, brancos, lavados pelo arsênio…
Eu viajei por muitos lugares desde que me transformei nisso. Desde que me tornei uma criatura sanguinária que vive do medo à noite. Não sinto falta de…
Retomo as lembranças daquele desgraçado dia na universidade! Dia em que minhas tragédias tomaram forma em pesadelos em vida e…
Já amei. | E talvez seja esta a maldição mais antiga | de todas as criaturas que atravessam os séculos: | não a morte, | não a solidão, | não a lenta erosão…
Quando eu era criança, ainda na longínqua década de 1980, o temor que eu tinha da noite era algo tão terrível que quando o entardecer se aproximava…
Ouço a voz do teu próprio hexagrama | Sussurrar a mensagem profanada; | Gemidos soltos de quem muito ama | Nos meus olhos fizeram sua morada…
— Você… sabe onde estão minhas memórias? — perguntei. Ela juntou as mãos e esfregou o polegar. Hesitante, respondeu: — Sei. — Então me leve até lá!…
Neste lugar que é a escritura, perco a identidade do meu próprio corpo. | Sou todas as mulheres e o amor que geraram | Bêbado da cachaça…
Este pesadelo que baila e tortura minha mente — reflexo de uma vitória amarga contra minhas próprias convicções — escancara em minha fronte uma…
Eu sou um reles | não mereço nem desprezo | O desespero foi minh'única companhia | Me deixando ímpar no enfado deste inóspito…
Acordava todas as manhãs e, na maioria delas, se perguntava o porquê ainda estava viva e respirava esse ar demasiado inóspito. Não que estivesse…
Rainha
Que tipo de presa seria, oh nobre e cruel rainha, se me entregasse por completo aos teus lascivos caprichos? Que tipo de serva seria se buscasse tua boca…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Que tipo de presa seria, oh nobre e cruel rainha, se me entregasse por completo aos teus lascivos caprichos? Que tipo de serva seria se buscasse tua boca, perigosa, cruel, ácida e ávida, ao invés de buscar proteção? Sou vítima, sim, de seus feitiços e encantos, mas uma vítima desejosa em satisfazê-la.
Gostaria de me deitar sobre tua pele, branca como a morte, fria como gelo, e deleitar-me com tua doçura mortífera e devastadora. Que sou para ti? Uma filha, escrava ou amante? Não vim ao mundo pelo teu ventre, que há muito não cultiva mais vida, mas sinto em meu cerne que derivo de vossa vontade.
Como, questiono repetidamente, exala tamanho vigor e luxúria, enquanto veste o manto da incompreensão e da impenetrabilidade? Sinto um medo visceral, íntimo, quase vivo, que desafia meus mais preciosos instintos de preservação.
Me busca com sua língua macia, como se soubesse decifrar meu dialeto, me lendo por inteira com seus dedos úmidos e impiedosos.
A noite é nossa casa, a escuridão nosso lar, e da mesma forma que o dia nasce, nosso amor também findará um dia.
Leonardo Garbossa nasceu em São Paulo, em 1995. Desde jovem é um leitor apaixonado e grande fã das obras romancistas. Sentimentalista por natureza, iniciou sua vida acadêmica na área das ciências exatas, migrando em seguida para psicologia, que estuda atualmente. Teve a infância conturbada após perder o pai para o suicídio, tema que se tornou seu foco nos estudos acadêmicos. Foi criado pela avó, que fez o máximo possível para ensinar…
No pélago da noite púrpura, à deriva, os ignorantes gargalham uns dos outros. Enquanto divertem-se, a escuridão silente esparge frígida, tornando-se…