-Poesias Castelo Drácula -Poesias Castelo Drácula

Cosendo o Passado

O passado lhe serve | Caso o conserve no sepulcro da memória | Experimente, embora já não lhe caiba. | Experimentei o meu, vestiu bem, compreende?…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

O passado lhe serve
Caso o conserve no sepulcro da memória
Experimente, embora já não lhe caiba.

Experimentei o meu, vestiu bem, compreende?
porém carecia de ajustes,
 e motivada o adaptei.

Transpassei a linha da memória e cosi a minha forma,
duas vezes, para não retornar.
Cosendo a ponta a qual ligava-me ao primeiro impulso 
de contestar meu feito.

Atualmente adaptei-me ao passado.
Embora as linhas da memória transpareçam no tecido
amarrotado do fardo da vida.

Eu o combino ao presente, e o transporto como herança,
Para além do descanso eterno,
onde nada existirá após o findar
Do plano terreno.

Texto publicado na 5ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de maio de 2024. → Ler edição completa
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5. Castelo Vampírico: Agora conheço em parte, mas, um dia, conhecerei plenamente

Estou há dez dias sem sair do quarto, são muitas as sensações…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Diário de Rute Fasano

23 de dezembro - Estou há dez dias sem sair do quarto, são muitas as sensações, a ansiedade, o medo, a raiva, tristeza, todas elas presas e misturadas na minha mente, borbulhando, e correndo pelas minhas sinapses e causando um estrago no meu psicológico. As únicas coisas que tenho feito esses dias já se tornaram tão rotineiras que nem me dei ao trabalho de escrevê-las diariamente, pois se resumem apenas a acordar, tomar banho, meditar, esperar pacientemente com o ouvido atrás da porta para a boa alma que ainda não conheço e sempre vem deixar o café da manhã, o almoço e o jantar na mesa ao lado da porta do quarto. Nunca vejo essa pessoa, mas ela sempre bate três vezes na porta e sai caminhando a passos lentos e arrastados. Eu só a ouço, porém sempre agradeço com um bilhete escrito à mão. Depois do café da manhã eu escrevo ouvindo música, tem um toca-discos aqui que foi deixado provavelmente por essa pessoa depois do meu primeiro encontro com Drácula.

O som muito específico da agulha passando pelo vinil me faz relaxar, então escrevo até o almoço e depois fico à porta ouvindo, me alimento e coloco o prato e o copo na mesa do lado de fora. Escovo os dentes, releio um pouco do único livro que trouxe. Preciso encontrar uma biblioteca nesse castelo. Volto a escrever até o jantar, volto à porta e escuto, me alimento, faço minhas outras necessidades fisiológicas específicas e tomo banho, escovo os dentes e me preparo para dormir. Me deito e leio até ficar com sono e durmo. Essa rotina é parecida com a que eu tinha fora do castelo, tirando a parte da escrita e adicionando um trabalho repetitivo, fascinante, porém estressante. 

Tenho estado tanto tempo presa no quarto que memorizei todo o ambiente, tanto que consigo perceber quando algo diferente aparece no quarto. A grande cama com dossel, com lençóis de linho na cor verde escura, travesseiros com fronhas bordadas à mão, papéis de parede verdes com arabescos numa tonalidade que parece bronze, há uma escrivaninha de castanho-avermelhado bem escuro perto de uma janela, parece algo de muito boa qualidade, diferente dos móveis de madeira suspeita que tenho em casa. Há uma cadeira da mesma cor onde me sento para escrever, um armário com espelho grande ao lado, uma poltrona em frente a uma lareira que nunca precisei usar, pois aqui parece que o clima nunca muda. Um grande tapete persa com detalhes verdes escuros, diferentes tons de marrons e vinho, a textura macia que me faz andar descalça por ele por horas quando estou bloqueada criativamente ou cheias de questões não resolvidas na minha cabeça, gosto da textura dele em meus pés, me acalma.

Uma vez ou outra eu penso em fugir do castelo e voltar para minha vida, mas me vejo obcecada por algo novo, e só quero saber disso, ouvir e falar sobre isso. E Drácula, o castelo e seus hóspedes são minha nova obsessão, eu quero entendê-los, estudá-los, me aprofundar neles, analisá-los minuciosamente até que eu me sinta saciada por esse conhecimento tão fora do comum, tão fora do meu comum lógico e pragmático. Porém, tenho medo, pois sinto que de alguma maneira, aos poucos, Drácula tem tentado ter controle sobre mim, me controlar como uma marionete, será? Eu não consigo pensar sobre o motivo disso, já que estou aqui por vontade própria. Se ele quer que eu escreva para alimentar ele e o castelo, por mim tudo bem, desde que se mantenha longe das minhas veias e artérias.

Fui despertada das minhas viagens dentro da minha mente pelas batidas na porta fora dos horários habituais, fui até a porta e pude ouvir os passos se distanciaram, era a mesma pessoa de sempre, já conheço seus passos. Abri e tinha uma grande caixa baixa, porém larga com um envelope vermelho e preto adornado de arabescos dourados, abri o envelope e aqui escrito com uma bela caligrafia, escrito dessa forma:

“Prezada Rute,

É com imensa honra e profundo fascínio que lhe envio esta carta, convidando-a para o anual Baile de Máscaras do Castelo Drácula. Este é um evento de requinte e mistério, onde o traje formal é obrigatório, e uma máscara é imprescindível.

À meia-noite, será servido um banquete memorável, seguido pelo brinde com nosso especial liquor-carmesim, servido em taças de diamante vestal, para celebrarmos o ápice da Lua Cheia. A música encantadora nos acompanhará até às três da manhã, momento em que solicito gentilmente que nossos estimados hóspedes retornem aos seus aposentos.

Sua presença, sem atrasos, é solicitada para as dezenove horas de amanhã. Esperamos ser agraciados com sua presença sublime neste deslumbrante evento.

Com respeito, Conde Drácula"


Dentro da caixa havia um belo vestido preto, com pequenos bordados dourados no busto parecendo estrelas num céu negro, godê longo, acinturado, gola alta, mangas longas bufantes, o tipo de vestido que eu usaria se eu tivesse o hábito de usar vestido. Junto a ele também havia uma máscara grega trágica negra com uma lágrima dourada do lado direito. Um baile mesmo que pareça um evento social assustador que já me causa certa comichão, é também uma oportunidade de saber mais e ainda, quem sabe, poder me encontrar com outros hóspedes. Tenho que preparar meu psicológico para isso e aproveitar essa oportunidade. 

24 de dezembro - Chegou o dia do baile, e eu estaria mentindo se dissesse que estou preparada para ele. Uma vez li que quando você tem medo de uma situação e a faz mesmo assim, isso é coragem, então tenho que ir e acreditar que sou corajosa, pois de que outra forma eu conseguiria saciar essa minha curiosidade, se não fosse enfrentando meus medos?

Me vesti, prendi meus cabelos atrás, deixando algumas tranças soltas, estava ansiosa demais para planejar um penteado mais elaborado. Coloquei minhas botas confortáveis, mesmo que junto à caixa estivessem saltos adequados para a festa, eu não conseguiria usá-los. O vestido longo escondia um pouco dos meus sapatos, além deles serem mais úteis caso eu precisasse correr. Me olhei no espelho e o que vi me agradou. Coloquei a máscara que me obrigou a deixar os óculos de lado, pois não dava para usar os dois. Respirei fundo e saí do quarto, e como sempre eu não sabia o caminho, mas sabia como chegar lá.

No salão de baile, com lustres e candelabros majestosos, todos bem-vestidos, com uma diversidade de máscaras bem decoradas, músicos tocando uma música num volume agradável, pessoas conversando, outras rindo, a maioria dançando, olhei ao redor tentando ver se reconhecia alguém mesmo com máscaras, mas não fui bem-sucedida, fiquei um longo tempo no canto apenas observando. A única pessoa que reconheci pelo jeito de se movimentar foi Drácula. Vestido com requinte, todo de preto, com a camisa de seda de um vermelho vivo brilhante, uma sobrecasaca preta com bordados dourados e o forro escarlate. Ficou um tempo conversando com os convidados e dançou com alguns deles. Olhou em minha direção e era como se soubesse que eu os estava observando, veio andando e eu podia sentir cada passo seu. Respirei fundo e me preparei.

— Permita que eu conduza? — Ele disse estendendo a mão para mim, olhei para ele e concordei com a cabeça sem pensar demais. Dançamos em silêncio por algum tempo, até ele quebrar o silêncio:

— Ah, sim, os bailes de máscaras... uma festa para os vivos, onde escondem suas verdadeiras faces por trás de máscaras elaboradas. Interessante observar como revelam mais de si mesmos do que jamais admitiriam em suas formas mundanas.

Silencio entre nós novamente:

— Entendo suas hesitações, minha cara, seu desejo de às vezes escapar deste lugar que pode parecer uma prisão. Mas saiba que posso oferecer a você e a todos os que aqui estão algo muito mais profundo do que simples entretenimento. Posso saciar a sede insaciável de vocês por inspiração e conhecimento, através de meios que alguns considerariam sombrios. E eu sei que você compreende o preço que deve ser pago por tal conhecimento?

Nada do que ele estava dizendo era mentira, desde que entrei no castelo as ideias fervilham da minha mente, mesmo que às vezes eu não consiga colocá-las no papel, elas estão lá se debatendo para serem criadas e escritas. Essa situação não era nem um pouco agradável para mim, como no nosso último encontro, sua presença tentava impor tranquilidade, mas ele estava tão perto de mim, mais perto do que permito a maioria estar, era desagradável, pois meu corpo lutava contra essa imposição. Não conseguia responder nada a ele, a proximidade me deixava sem palavras, só olhava através dele e percebia seu sorriso pelo canto do olho.

— Ah, minha querida, não se preocupe. Estou aqui apenas para facilitar sua adaptação neste ambiente. Jamais a forçaria em algo que não desejasse. Afinal, você veio ao baile por sua própria vontade. Como um verdadeiro cavalheiro, sempre solicito permissão, mesmo para os atos mais... sombrios, por assim dizer. Embora possam não ser explicitamente revelados. — Ele sorriu ao dizer isso. — Veja, não há necessidade de se sentir obrigada a me acompanhar nesta conversa, se assim não desejar. Simplesmente desfrute da dança, entregue-se ao ritmo e deixe-se levar pela atmosfera deste lugar.

Mesmo que aquele sorriso fosse uma tentativa de me acalmar, seus caninos brancos e protuberantes me causaram arrepios. Quando estou muito ansiosa com um alto nível de adrenalina, não consigo pronunciar nem uma palavra sequer e, então, a única coisa que me foi possível foi concordar com a cabeça. Dançamos, ele me conduzia, e para mim era difícil me deixar conduzir quando eu sempre conduzia na dança, sempre seguia os mesmos passos básicos, não importava a dança. Ele me conduziu de maneira tão suave que era como se eu sempre tivesse dançado nos passos dele. 

— Não vá tão precipitadamente, minha cara. Lembre-se de sua inata curiosidade científica. Se partir agora, perderá a oportunidade de compreender tudo isso. Permita-se um momento para acalmar os ânimos. Talvez uma breve caminhada para espairecer, uma conversa amistosa com os demais presentes, desfrutar da comida e da bebida, tentar se integrar socialmente... ou, se preferir, a opção da fuga sempre está disponível. Faça o que julgar melhor para si. — A música havia terminado. — Porém, antes que siga seu caminho, permita-me um gesto de cortesia. — Ele segurou minha mão e depositou um leve beijo sobre ela, fazendo uma reverência. — Devo agora dispensar-lhe minha atenção, pois há outros hóspedes e convidados a quem devo dedicar minha presença. Afinal, há mais danças não solicitadas a serem atendidas. — Com um sorriso sutil, ele se virou e se afastou, entre os demais convidados.

Vi-o andar resoluto por entre os convidados e soltei o ar, era como se eu tivesse prendido minha respiração sem perceber todo o tempo em que estava com ele. Fui aproveitar um pouco do baile antes de fugir para meu quarto, me sentei e comecei a olhar todos em volta, reparando em suas belas máscaras e vestimentas, tudo tão elegante. Os passos ecoados pelo chão de mármore, a música suave que agora tocava enquanto todos dançavam e se divertiam, a decoração e o grande banquete era de encher os olhos, eu estava deslumbrada. Peguei uma taça cristalina com um líquido escarlate que me foi oferecida, aparentemente já era meia-noite e brindaríamos o ápice da lua cheia. Torci para que não fosse sangue ou vinho, eu nunca bebo vinho. Levantei um pouco a máscara para tentar sentir o cheiro que exalava e não parecia nenhum dos dois, virei a taça nos lábios para experimentar e o sabor que sentia de um amargor adocicado, eu podia sentir uma textura aveludada que envolvia minha língua. Tomei coragem e tomei logo um gole, me deleitei com aquela sensação, e aquele gole foi o bastante para me conduzir a outro mundo, tão rápido como um piscar de olhos.   

Esse mundo era uma cópia sombria do castelo com cheiro sutil ferroso de sangue fresco com um fundo de rosas. E, para meu pavor, todos os presentes emanavam uma aura pesada e, de alguma forma que não sei explicar, eu sabia que eu era a única humana ali. Eu estava aterrorizada naquele lugar suntuoso, mas tinha que passar a impressão que fazia parte daquilo, tudo era como no castelo original, só que mais sombrio, mais pesado e frio. Andei entre eles e encontrei todos os hóspedes do castelo que eu já conhecia de vista e, junto a eles, outros que eu ainda não havia visto. 

De alguma forma, dentro de mim, eu sabia que todos eram vampiros ou qualquer outra criatura sobrenatural que eu não conseguia identificar, todos com máscaras que cobriam apenas os olhos, todos bem-vestidos, conversando e entre si. Então eu vi uma mulher de olhos amarelos como de um gato, cabelos negros longos e volumosos, pele lisa de um marrom translúcido brilhoso e sobrenatural que permitia que eu visse suas veias esverdeadas em todo seu rosto, busto e braços, com um vestido vermelho decotado, a saia com camadas pretas e vermelhas com rendas douradas em suas bordas e uma fenda que deixava exposto sua coxa esquerda, um corpete preto justo, joias douradas em profusão, envolta em um ar de mistério e sensualidade, tão bela e assustadora como eu jamais seria. 

Conversava tranquilamente e se expressando com as mãos e o rosto, parou e olhou para mim, sorrindo com os incisivos e caninos brancos à mostra, lábios grossos com vermelho carmesim, fiquei chocada a ponto de rir daquela situação surreal ao qual eu estava presente, não havia bebido tanto assim para me transportar para o universo espelho tal qual como em jornada nas estrelas, onde eu encontraria minha “gêmea do mal”. Coloquei as mãos no rosto só para me certificar que eu ainda estava de máscara, imagine a minha surpresa quando ela veio em minha direção:

— Já estou tão acostumada com o funcionamento do castelo que encontrar minha doppelgänger não me surpreende. É difícil se esconder de você mesmo por trás de uma máscara, quando se conhece tão bem. Não preciso me preocupar em ser apunhalada ou ter que te apunhalar, espero?

Era como olhar um espelho onde eu via uma versão inverossímil, porém atraente de mim mesma, tão assustadoramente imponente, terrivelmente bela que me despertou uma vontade incontrolável de interrogá-la para saber mais sobre ela. Eu tinha tantas perguntas, e também com quem mais eu poderia encontrar as respostas que eu precisava senão comigo mesma? 

Texto publicado na 5ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de maio de 2024. → Ler edição completa

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Escrito por Alex Miranda, -Contos Alex Miranda Escrito por Alex Miranda, -Contos Alex Miranda

Capítulo 1: Desventuras (Parte 2) — Darquinha

O verdadeiro nome de Pai Thomas, ninguém sabia ao certo, muito menos qual era sua origem verdadeira…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

O verdadeiro nome de Pai Thomas, ninguém sabia ao certo, muito menos qual era sua origem verdadeira. Talvez nem mesmo sua própria filha soubesse verdadeiramente de onde ele viera ou que tipo de pessoa seu pai realmente fosse. Sua história anterior ao dia em que chegou por aquelas bandas era, na verdade, um completo mistério para todos, até mesmo para seus vizinhos mais próximos. Entretanto, mesmo que uma espessa sombra recaísse sobre sua verdadeira origem, desde que, há muitos anos, se estabelecera naquela erma e pacata região, num primeiro momento como o simples e descontraído chapeleiro Thomas, acompanhado de sua simpática esposa — a jovem e bela Darquinha — e sua velha e sombria tia — a taciturna cigana Madame Staell — e posteriormente, após a trágica morte da esposa, tornando-se o afamado e temido curandeiro Pai Thomas, mesmo que de forma involuntária, na maioria das vezes conseguira cultivar diversos sentimentos dissonantes sobre si mesmo. Se, por um lado, alguns logo se simpatizavam muito com ele, por simples adulação ou mesmo por gratidão devido a alguma benesse recebida, seja ela uma simples bênção ou até mesmo a cura de algum mal dado como irremediável, outros, no entanto, sentiam até mesmo certa repugnância por sua simples presença, que se demonstrava por demais sinistra e até mesmo ameaçadora de certo ponto de vista, se assim ele o desejasse. Em todo caso, o que era consenso era o quanto ele era respeitado por todos sem exceção, fosse por medo ou mera admiração por sua peculiar personalidade.

A simples menção ao seu nome trazia em si certo desconforto e até mesmo um velado temor. Esse sentimento não era de todo vazio e muito menos exagerado. Todos que o conheciam, mesmo que apenas por nome, e que conheciam as histórias contadas sobre ele e seus extraordinários dons de cura, mas principalmente de sua sombria sabedoria, sabiam que sua fama precedia, e muito, sua presença. Na maioria das vezes, quando em profundo desespero e sem nenhuma alternativa, sempre que alguém o procurava para uma simples prece, talvez um conselho, ou até mesmo para algo um pouco mais sério, de alguma forma um tanto quanto sinistra e bastante misteriosa, ele já sabia do que se tratava, bem antes de qualquer coisa ser proferida sobre o assunto em questão, mesmo que fosse algo da mais profunda intimidade, que somente o solicitante soubesse. Não era apenas esse tipo de comportamento que atemorizava a todos; sua estranha aparência, de certa forma, era inquietante e muito assustadora para os padrões normais.

Pai Thomas era um homem de estatura física um tanto quanto fora do comum para os padrões normais. De certo modo, às vezes era até mesmo inconveniente, pois chegava ao ponto de fazer com que mesmo os homens mais altos da região, ao estarem em sua presença e precisarem olhar em seus olhos para lhe dirigir a palavra de forma mais direta, tivessem que olhar para cima, estando ambos de pé. Quando tal fato se tornava indispensavelmente necessário, isso era bastante inquietante. Além do fato de haver a crença de que Pai Thomas conseguia desvendar todas as intimidades e segredos através dos olhos de quem ele olhasse, a visão de seus próprios olhos era aterradora, pois a cor que outrora, possivelmente foram negros e brilhantes, nos últimos tempos havia se tornado opaca e acinzentada como uma fria manhã de inverno. O certo é que o cinza em seus olhos era a ação do tempo sobre si. Contudo, vez por outra, aparecia alguém que seria capaz de jurar pelo sangue do cordeiro que, qualquer um que olhasse em seus olhos por muito tempo, conseguiria observar que mudavam de cor em determinadas circunstâncias, principalmente quando ele estava fazendo uma prece. Dependendo da prece, a cor de seus olhos transitava de cinza para um azul, passando por violeta e, por fim, chegando a um vermelho intenso, retornando ao cinza sem brilho ao final da prece.

Era ele um homem negro e bastante robusto, mesmo que seus cabelos e barba, já completamente brancos como algodão, demonstrassem uma idade bastante avançada. Havia rumores de que, depois da morte de sua esposa, ele envelhecera muito rapidamente devido à dor da perda. Em questão de meses — alguns dizem que foi em poucos dias — seus cabelos e barba, que eram negros e cheios de vida, ficaram brancos e sem vida como num passe de mágica. Sendo um homem bastante alto, todo o seu corpo era proporcional à sua altura; assim, seus membros também tinham um tamanho incomum. Suas mãos eram assustadoramente enormes, com dedos longos e esbranquiçados. Devido ao contraste com sua pele extremamente negra, as palmas de suas mãos eram brancas como leite fresco. Se seus olhos por si só já denotavam pavor a quem quer que os encarasse, suas mãos não eram diferentes, pois era justamente com essas monstruosas mãos que ele executava suas preces e benzimentos — ou, no dizer da raia miúda: “fazia suas mandingas”. Quando ele levantava aqueles enormes membros sobre a fronte de alguém para conceder uma bênção, suas mãos causavam uma espécie de sombra no rosto dessa pessoa, provocando momentaneamente uma inquietante sensação de mal-estar. Alguns — obviamente longe de sua presença — até mesmo ousavam relatar que, no exato momento em que estavam recebendo a prece, havia uma estranha e inexplicável sensação de se encontrarem em algum outro local bem distante dali, um lugar sombrio e horripilante, carregado de certa melancolia e completamente dominado pelas trevas. Era notoriamente evidente que aquele que estava sendo abençoado só poderia imaginar tal coisa ao dizer que via uma inquietante escuridão, pois para receber uma bênção de Pai Thomás, a pessoa deveria fechar os olhos e abrir sua mente e seu coração naquele momento. Condição essa na qual o velho mago era bastante taxativo. Dizia ele: “Feche bem os seus olhos e abra completamente o seu coração para receber de graça essa bênção requerida, sem nada dar em troca em seguida...”.

Pai Thomás, além de poderoso e respeitado benzedor, era um sábio conselheiro e também bastante versado no preparo de emplastos, beberagens e eficientes garrafadas, capazes de curar qualquer tipo de moléstia, fosse essa física — doenças em geral comuns a todo ser vivente, — ou até mesmo espiritual — adquirida de forma involuntária ou encomendada. Muitas mulheres — protegidas pelo infalível nevoeiro do sigilo corroborado pela inabalável descrição de Pai Thomás — sendo elas moças de família ou meras meretrizes se encontrando em terríveis apuros maternais, constantemente o procuravam a fim de se evitar uma gestação indesejada que pudesse vira a causar uma desonra familiar ou empecilho a sua atividade profissional. Seus famosos chás contraceptivos eram infalivelmente eficazes. Havia um ditado, — falando em surdina obviamente que dizia — que dizia: “Se o desespero bateu, o chá de Pai Thomás é bebeu-desceu...”.

Para inúmeras pessoas que tinham sido agraciadas com algum tipo de benesse — fosse uma beberagem, bênção ou até mesmo um simples conselho — Pai Thomás era visto e respeitado como um ser ungido por Deus, sendo usado como instrumento em sua Divina obra. Contudo, para alguns outros, ingratos e despeitados, ele era apenas um mandingueiro trapaceiro — poderoso e temível, é verdade, mas apenas um feiticeiro a serviço das trevas, que vez por outra fazia algo extraordinário ou adivinhava uma coisa ou outra. Dentre essa mesma raia miúda, que carregavam certa repugnância ou até mesmo uma velada inveja dos inexplicáveis feitos de Pai Thomás, havia aqueles mais ousados na palavra, que defendiam a ideia de que ele tivesse um pacto com o próprio diabo, e que era por esse motivo que possuía fantásticos poderes de cura e uma vasta sabedoria, tendo conhecimento inclusive daquilo que estava abissalmente oculto, pois o príncipe das trevas sempre atendia suas preces. A verdade era que, entre tantas informações sobre sua pessoa — algumas verdadeiras, outras nem tanto — o que era de fato comprovado era que bastava um único olhar seu sobre uma plantação bem verde e viçosa para que essa se perdesse por completo, sem nada poder ser colhido, ou apenas algumas poucas palavras rumorejadas por ele, com alguns brotos de uma erva qualquer, para que uma criação à beira da morte se restabelecesse por completo e vivesse por bastante tempo, gozando de plena saúde. Havia também as histórias sobre as serpentes — e somente quem presenciou poderia acreditar — se havia uma infestação de cobras numa plantação, ou até mesmo num quintal qualquer, logo ele era chamado, e sem mais delongas, com poucas palavras e simples gestos ele resolvia a questão sem nenhuma serpente precisar ser sacrificada. Mesmo parecendo ser apenas mais um charlatão como tantos existentes por aí, em nada Pai Thomás se comparava a outros benzedores comuns, pois de forma alguma aceitava qualquer tipo de pagamento por seus feitos e, se porventura houvesse qualquer tipo de insistência, ele logo se zangava e demonstrava estar bastante ofendido. Certa vez, após tirar uma criança do leito de morte, onde todos já davam por certo uma morte iminente, o pai da criança, muito satisfeito por tal feito, quisera lhe recompensar financeiramente, o que obrigou Pai Thomás a lhe dizer de forma dura e até mesmo grosseira: “Quanto vale a vida de seu filho? De forma alguma tente avaliar aquilo que não tem preço. Eu jamais poderia cobrar qualquer valor por aquilo que é dado de graça e saiba que, se lhe fosse cobrado, certamente o seu dinheiro e suas riquezas não poderiam pagar...”.

Se por um lado sua origem verdadeira era uma tanto quanto obscura, por outro sua idade certa, também era um grande mistério. Afinal, a tendência biológica é que pessoas de pele genuinamente negra não apresentem sinais da passagem do tempo com tanta facilidade. Há até mesmo um ditado popular que diz: “O negro só pinta, depois dos cento e trinta”. Sendo verdade ou não o tal ditado, o certo era que, mesmo sendo ainda muito robusto e bastante ágil, mesmo assim, Pai Thomás já era bastante velho, fato esse corroborado, dentre outros fatores, pela cor de seus cabelos e da barba branca que trazia sempre muito bem aparados, mas principalmente pela quantidade de cicatrizes que havia em suas costas largas. Marcas essas, possivelmente causadas por chicotadas recebidas ainda no tronco, quando ele era ainda cativo, bem antes da Abolição dos escravos. Há um burburinho que Pai Thomás recebera sua carta de alforria bem antes da assinatura da Lei que libertou os cativos. 

Sua liberdade fora adquirida das mãos de seu último dono, um velho e solitário professor que não tinha nenhum parente e nem mesmo muitos amigos, devido aos seus ideais e comportamento um tanto quanto diferente daquilo que se poderia considerar politicamente correto para uma sociedade conservadoramente cristã e zelosa dos dogmas que a igreja determinava. Professor Ozório, durante quase toda sua vida, lecionara os mistérios que envolvem o universo dos números; ele era um matemático muito respeitado e bastante reconhecido tanto por seus ex-alunos quanto pelos ex-colegas. Contudo, sua grande paixão era a filosofia, ciência essa que o tornara um determinado admirador das ciências ocultas e todos os mistérios que envolvem a origem da vida e as consequências que levam à morte e um possível além-túmulo. Professor Ozório, que era um eremita por opção desde a morte de sua esposa, ocorrida pouco depois de se casarem há mais de cinquenta anos, já avançado em anos e com os efeitos inevitáveis da senilidade, decidira arranjar uma companhia que lhe auxiliasse tanto nos afazeres domésticos quanto em seus estudos. Optou por comprar um cativo e imediatamente dar-lhe a carta de alforria com a promessa de que esse agora ex-escravo lhe acompanhasse até o fim de seus dias.

Thomás deixou então a combalida fazenda onde nascera e fora cativo desde sempre para se tornar mordomo e secretário particular numa bela casa da capital. Além da liberdade tão sonhada, Thomás fora muito beneficiado por seu ex-dono, que, por estar ficando com as vistas cansadas, o ensinou a ler, escrever e os conceitos básicos da matemática. Professor Ozório era um excelente mestre e Thomás demonstrou ser um aluno muito dedicado — nada neste mundo apraz mais um professor do que um aluno interessado —, buscando aprender bem mais do que o simples bê-á-bá. Por muitas vezes, Thomás virava noites, madrugada afora, lendo os livros que havia na respeitada biblioteca particular do sábio mestre, que vez por outra flagrou seu agora também aprendiz estudando livros de ocultismo — escritos que poderiam ser considerados subversivos e até mesmo perigosos para uma mente fechada. Sabendo da proximidade do fim de seus dias, como não tinha nenhum herdeiro e por temer que seu fiel companheiro pudesse ficar desamparado após sua morte, buscou por meios legais redigir um testamento onde constava o negro Thomás como seu único herdeiro, com direito total a todos os seus bens. Esse testamento nunca seria aberto. Assim que o Professor Ozório ajuntou as mãos sobre o peito para dormir o sono sem sonhos, Thomás se viu obrigado a dar um novo rumo à sua vida, pois parte da herança de seu protetor — que não era tão grande — ficou com seu advogado para saldar supostas dívidas antigas, outra parte foi doada ao clero como oferta em missas que seriam rezadas em encomenda a sua alma, que certamente estava no purgatório devido ao incauto falecido ter vivido seus dias longe da proteção da Santa Igreja, e o restante foi usado para custear um simples e rápido funeral que contou com a presença de um ou outro curioso e dos fiéis papa-defuntos, não mais do que meia dúzia de presentes. Thomás foi o último a sair do cemitério, honrando até o fim a memória de seu benfeitor. Com a morte de seu mestre, restou a Thomás a liberdade, algum dinheiro que o professor lhe havia dado ainda em vida — que ele sabiamente havia guardado — e alguns livros que o advogado permitira que ele os levasse consigo; não eram muitos, mas eram bastante valiosos para que soubesse do que se tratavam. Thomás jamais se afastaria dessas preciosidades literárias.

De posse de sua liberdade, com algum dinheiro e sabendo ler e escrever – numa sociedade onde a maioria era analfabeta –, Thomás decidiu se lançar em busca de uma vida melhor. Conheceu muitas cidades e trabalhou em muitos lugares, utilizando-se sempre de sua força física e de seus conhecimentos. Contudo, a vida não era muito fácil para um ex-cativo, mesmo sendo alforriado e versado nas letras e nos números. Para alguém que havia rodado pelo mundo quando ainda era jovem, agora, na sua velhice, nos últimos anos antes de sua morte, Pai Thomás vivia na companhia de sua filha Gardênia, a quem ele tinha muito apreço, e de seu neto Luís Miguel, que já estava sendo encaminhado no ofício da chapelaria, ofício esse que, mesmo com a idade já avançada, ele ainda praticava com maestria. Desde que sua amada esposa fora tomada de seus braços, quando Gardênia era ainda uma criança de colo, vivia ele de modo taciturno e muito sombrio, fechado em um mundo à parte, que ele mesmo criara para si, distante de tudo e de todos. A alegria desaparecera por completo de seu semblante. Sua face, antes sempre muito alegre e simpática, tornara-se muito obscura e, para alguns, até mesmo um tanto quanto sinistra, com leves traços de maldade, escondidos sorrateiramente nas rugas de sofrimento que surgiram com o tempo. Quem o conhecia de outrora, sabia parte de sua história recente e qual era o verdadeiro motivo que o transformara naquele infeliz ser, de semblante frio e olhar distante. Seu olhar, que um dia fora firme e brilhante, após sua trágica perda, tornara-se lúgubre, fitando o vazio – muitas vezes olhando para lugares sombrios onde reinava as trevas –, sempre buscando ao longe algo que certamente não estaria lá. Algo que, pela curiosa fisionomia de sua face, talvez nem pertencesse a este mundo.

A dolorosa e precoce morte da mãe de Gardênia levou consigo para o túmulo, não somente o corpo definhado pela doença e agora já inerte de sua esposa, mas também sua alegria de viver, deixando-lhe tão somente muita dor e sofrimento. Sentimentos esses que se refletiam em um constante e perturbador silêncio, que ele mesmo lhe impusera. Esse mutismo, que somente muito raramente era quebrado, ocorria quando uma palavra sua se fazia extremamente indispensável. Nos primeiros dias, logo após a morte de Darquinha, quando ele, sem acreditar no que havia acontecido e sentindo o gosto amargo de uma perda recente, demonstrava um comportamento nada convencional, houve até mesmo — por parte dos desocupados profissionais da região — certos comentários sobre sua sanidade mental estar seriamente abalada e que, por isso, estaria talvez incapacitado de cuidar de sua filha Gardênia. De certo modo, sua lucidez realmente ficou um pouco abalada, e seu comportamento não denotava muita confiança. Ainda durante o velório, mesmo com toda a dor e desespero pela perda de sua esposa, ele não se comportava como uma pessoa lúcida. Dizia coisas sem nenhum nexo com a realidade e parecia estar assustado, demonstrando um terrível arrependimento, como se tivesse cometido um ato imperdoável. Havia traços de um dorido remorso até mesmo em seus profundos suspiros, que eram frequentes, como se fosse ele o responsável pela morte de sua amada esposa, que todos sabiam que há tempos travava uma árdua luta contra um tumor na cabeça. Para muitos que acompanharam de perto toda a agonia e o longo sofrimento da simpática Dona Darquinha, a morte fora para ela, na verdade, um merecido descanso.

O sepultamento de Darquinha ocorreu já no finalzinho de uma tarde de vento frio e pôr do sol tristonho e arroxeado. Naquela noite, como o cemitério ficava distante de sua casa, Thomás e a pequena Gardênia passaram a noite na casa de Seu Juraci, que era amigo da família de longa data, desde os tempos em que eles ali chegaram. E, para essas horas mórbidas, não havia conselheiro melhor. Talvez tenham sido as sábias palavras de Seu Jura que contribuíram para que Thomás entendesse que ele agora era o único responsável pela pequena Gardênia. Essa pobre e indefesa criança que havia acabado de perder a mãe não poderia perder também o pai. Mesmo trazendo consigo um sentimento bastante egoísta, ao se ver agora como único progenitor de uma inocente criança com menos de cinco anos, Thomás, deitado muito desconfortável num catre bem menor que ele, olhando ao longe o brilho das estrelas que entrava pela janela aberta naquele momento, pensou consigo mesmo: “Darquinha não escolheu morrer, e muito menos optara por deixar uma criança órfã, pois não há mãe, por pior que seja, que não ame um filho, e quando essa mãe tem a inocência e bondade de um anjo, maior ainda se torna esse amor...”.

Milhares de pensamentos turbilhonavam na cabeça de Thomás naquele momento: medo, arrependimento, ansiedade; era complicado escolher qual tipo de sentimento mais o atormentava. Contudo, o que mais o atormentava era a lembrança de que, durante todo o tempo em que viveu ao lado de Darquinha, desde quando a conhecera, ela jamais tinha pronunciado uma única palavra sequer. Mas em seus últimos dias de vida, enquanto ele estava sempre ao seu lado naquele triste leito, sempre que a olhava nos olhos era capaz de ler claramente o que ela dizia no triste silêncio daquele lacrimejante olhar. Para os dois, que sempre se comunicaram com gestos, sorrisos e olhares, ficara claro para ele a súplica de uma mãe que sabia que a morte a estava rondando e que seus dias nesta terra estavam findando. Havia um pedido de socorro naquele olhar, que implorava a ele que cuidasse e protegesse o fruto do amor que um dia houvera entre eles e que, naquela doce e inocente criança, esse sentimento jamais teria fim. Desde o dia em que se conheceram, a maior parte da comunicação entre ambos era feita através da troca de olhares que, de algum modo muito estranho, era imediatamente mutuamente compreendido, e naquele momento não foi diferente. Sabendo que aquilo a deixaria mais confortável, apertando suas mãos entre as suas, ele lhe respondeu com um sincero sorriso no olhar, mesmo sabendo que ela não poderia ouvir suas palavras, mas algo dentro de si dizia que ela, de algum modo, o compreendia: "que enquanto ele estivesse vivo, Gardênia estaria segura, longe de qualquer maldade desse mundo, e ele poderia estar certo de que não mediria esforços e moveria o mundo para protegê-la...".

Foi através dos conselhos e palavras de alento de Seu Jura e relembrando dessa promessa feita no leito de morte de sua amada, que seu comportamento voltou à normalidade, decidindo assumir completamente suas responsabilidades de pai e agora também de mãe. Sabendo que, para que isso acontecesse deveria ser senhor absoluto de suas faculdades mentais. Contudo, ele jamais seria o mesmo homem que fora um dia, pois a morte de Darquinha colocara um fim trágico numa verdadeira história de amor. História essa que parecia impossível, entre o ex-cativo e já não tão jovem Thomás e a equilibrista Joana D’arc, uma artista europeia ainda na flor da idade e dotada de uma beleza angelical. Quem, porventura, teve o privilégio de conhecê-la em seus dias de esplendor, antes que a doença a transformasse numa entidade cadavérica, afiançaria com veemência que realmente era ela, uma criatura de beleza ímpar.

Darquinha era o carinhoso apelido pelo qual sua esposa era conhecida desde sua mais remota infância. Quando ainda criança, sendo ela bem franzina, demonstrava certa fragilidade doentia, típica de um ser que não suportaria nem até o fim do primeiro inverno. Mesmo com um ar de fragilidade cristalina, era dotada de uma peculiar beleza infantil, dando-lhe os traços de uma boneca de porcelana, que, mesmo sendo muito bela, ainda assim era bastante frágil e poderia se quebrar a qualquer momento. Desde sempre, vivera no circo, primeiro na companhia de seus pais, que sempre foram artistas circenses. Seu pai era o famoso mágico Norman Winslow Benetti ou simplesmente o Grande Benetti – o mago –, sempre muito aplaudido por onde o circo passava. Sua mãe era a bela Elizabeth Zurmin, assistente de seu pai. Os dois faziam o número mais esperado do espetáculo, deixando o público sempre muito apreensivo e cada dia mais boquiaberto com mágicas cada vez mais ousadas e misteriosas. Durante os treze primeiros anos de sua vida, tivera a companhia e proteção de seus pais. Nesse período, teve também a oportunidade de demonstrar seus talentosos dons artísticos – algo que parecia estar no sangue dos Benetti – tornando-se, devido à sua compleição física, uma exímia equilibrista, que sempre deixava toda a plateia tensa e preocupada a cada número, que vinha se tornando cada vez mais ousado. Com a trágica e misteriosa morte de seus pais, num violento incêndio que quase consumira o circo por completo, ficara ela, momentaneamente sob a tutela e proteção de seu único parente restante, o irmão gêmeo de seu pai, o tio Nicolas Benetti, o anão do circo, mais conhecido como Nico Besta Fera, apelido esse devido à sua monstruosa e grotesca aparência.

Havia pouco mais de dois anos que Darquinha perdera seus pais quando conheceu Thomás, que por sua vez só soube seu verdadeiro nome quando se casaram. O verdadeiro nome de Darquinha era uma singela homenagem a Joana D’Arc, a santa heroína da cidade em que ela nascera, quando o circo estava de passagem por lá. Essa cidade era a pitoresca Orléans, às margens do rio Loire. Quando sua mãe estava prestes a dar à luz, o circo fazia uma turnê pelo então chamado Vale do Loire. Justamente quando Darquinha nasceu, estava acontecendo um festival em homenagem à famosa "Virgem de Orléans", considerada mártir. Joana D’Arc passou para a história como a personagem mais importante da cidade por ter salvado a cidade de um terrível cerco inglês no ano de 1429. Desde então, essa corajosa jovem havia se tornado heroína local. Na verdade, Darquinha nunca teve a oportunidade de conhecer de fato sua cidade natal, pois como todo e qualquer circo, aquele ao qual fazia parte era também itinerante — sempre transitando de um lugar para outro em busca de um público mais curioso e interessado no lúdico universo do circo e, consequentemente, mais liberal economicamente — e nem sempre retornavam à mesma cidade, principalmente se por ventura o espetáculo se demonstrasse ruidoso e desinteressante ao público, sem lucratividade alguma naquele local. Evidentemente, sempre acompanhando seus pais, tal qual o próprio circo — do qual faziam parte — eles também nunca se estabeleceram por muito tempo no mesmo lugar, transitando sempre de cidade em cidade em busca de dias melhores, tentando a cada dia sobreviver de sua arte.

O circo, desde sua origem mais remota, sempre fora um entretenimento nômade, buscando sobreviver onde houvesse um público curioso ao ponto de se dispor a gastar algumas moedas para assistir a um belo espetáculo ou, ao menos, poder ver com seus próprios olhos fatos curiosos, pessoas extraordinárias e até mesmo bizarrices da natureza. Depois de rodar por grande parte da Europa — principalmente pelos interiores mais ermos — sem nunca mais voltar à França, após anos de crise e até mesmo cogitar por várias vezes desistir dos espetáculos circenses e pôr fim ao circo, que pertencia à sua família por incontáveis gerações, o dono do circo, o polonês Eloy Zachary Chittway, decidiu atravessar o grande Oceano Atlântico e tentar a sorte na América. Mas não na América propriamente dita — aquela dos peregrinos —, mas sim em outra parte do grande continente descoberto por Colombo, que também era América, só que no Sul. A convite de um poderoso homem do governo brasileiro — talvez fosse ele um ministro de Estado — que assistira a um espetáculo do circo, que naquela época já estava mais do que agonizante, mas ainda se apresentava na cidade de Évora, em Portugal, numa espécie de turnê pelas terras ibéricas. O dono do circo, como um tiro de misericórdia para não encerrar de vez os espetáculos do Grande Circo Chittway — não apenas findando uma companhia secular, mas também deixando sem emprego dezenas de artistas e afins — decidiu vir com toda a sua trupe e montar seu picadeiro em terras brasileiras, para quem sabe assim tentar a sorte com um público diferente e ainda desprovido das inovações tecnológicas — fotografia, telefone, cinema etc. — que fizeram grande parte do público europeu perder o interesse no fantástico e secular mundo do circo.

As apresentações circenses – até onde se tem notícia – são muito antigas. Os números em si, como malabarismos, contorcionismos, mágicos etc., estão presentes junto às civilizações desde sua aurora. Desde a origem da humanidade, sempre houve um indivíduo ou outro que ousou entreter com o intuito de ocupar o tempo ocioso e, se possível, ganhar algo em troca, caso alguém apreciasse o que estava assistindo. Desde as civilizações mais antigas, sempre existiu alguém bastante diferente fisicamente ou com algum talento extraordinário capaz de ganhar a vida divertindo os outros, seja por admiração, espanto ou simples curiosidade. Mesmo nas cortes dos reis mais sisudos e até mesmo violentos, sempre houve pantomineiros, ventríloquos ou mesmo um simples bobo.

Contudo, o circo como o conhecemos atualmente remonta ao período medieval, em tempos de obscurantismo religioso, onde quase tudo era proibido e nenhum senhor ousava manter um artista em seus domínios. As apresentações circenses eram uma forma de entretenimento para as pessoas menos favorecidas da Europa, principalmente aquelas que se aglomeravam em pequenos vilarejos. Se, por um lado, mesmo que de forma clandestina, divertiam a gente pobre das sujas e pestilentas cidadelas, fazendo com que, momentaneamente, através do riso e do espanto, se esquecessem de sua miserável condição de quase sobrevivência, por outro lado, eram uma eficaz forma de sustento para quem tivesse algum talento ou dom para a arte e nenhuma outra ocupação ou fonte de renda. Desde sempre o circo foi um espetáculo sazonal, pois, por mais atrativo que pudesse parecer quando ainda fosse uma novidade – as novidades têm o incrível poder de sedução momentânea – logo se tornava obsoleto e até mesmo supérfluo para uma população que vivia sempre em crise e quase todo o tempo faminta. Já dizia o velho provérbio: “Entre comer e a diversão, é sábio o homem que, antes de rir, quer pão, pois o riso alegra o coração em fé, mas um saco vazio, mesmo que alegre e contente, jamais fica de pé.”

É notório que o universo do circo nunca promoveu ninguém à riqueza, talvez alguma fama um ou outro até que poderia adquirir facilmente, mas tornar-se abastado apenas com a arte, jamais. Contudo, pelo menos era uma forma de se ganhar o pão honestamente. Quando surgiram os primeiros circos — ou aquilo que poderia ser considerado como tal — não havia picadeiros ainda, com suas enormes barracas de lonas coloridas como há atualmente. Os espetáculos, quando aconteciam, eram em pequenos palcos improvisados sobre carroças, que também eram utilizadas como meio de transporte e fuga — se fosse necessário — para esses artistas ambulantes, que estavam sempre transitando de uma cidade para outra, na maioria das vezes fugindo da justiça dos inquisidores, que de forma violenta, perseguiam esse tipo de apresentação considerada profana e, por isso, sumariamente proibida pela Igreja. A perseguição não se dava apenas pelo simples fato de a Igreja considerar o riso como uma afronta às coisas sagradas e ao sofrimento de Cristo, mas também pelo tipo de pessoas que se associavam a essas trupes artísticas. Na maioria das vezes, esses grupos eram formados por ciganos; comerciantes e usurários; e pessoas com aparência ou comportamentos diferentes, tais como anões, indivíduos com algum tipo de deficiência ou anomalia e, por fim, por mulheres alegres e libertinas, que praticavam todo tipo de magia ou feitos extraordinários. Além, é claro, dos bastardos que, de certo modo, eram vistos como uma vergonha dentro do conceito do sagrado matrimônio. Pessoas de aparência grotesca eram um divertimento à parte para os curiosos, mas para a Igreja, era uma afronta expor tais pessoas, que haviam nascido diferentes da imagem e semelhança de Deus por expiação de algum castigo de seus pais. Em resumo, os integrantes de um circo eram considerados pela Igreja como sendo subversivos à sociedade por terem sido desfavorecidos por Deus. O universo lúdico do circo, tão agradável a todos, mas principalmente fantasioso às crianças, surge como uma arte perseguida e errante, condenada ao nomadismo quase constante e infinito.

Quando em seus princípios – ainda na Idade Média – como surge em um período estranho e bastante tenebroso, onde as transações comerciais utilizando-se de moedas era algo praticamente inexistente, uma vez que havia algum tipo de apresentação artística, sendo grande o espetáculo com vários artistas ou apenas um simples número qualquer executado por uma artista solo, se fosse bem apreciado pelo público – que nem sempre era muito grande – a forma de pagamento ou apenas um singelo agrado era feito em espécie, que poderia ser desde uma simples flor – sempre agradável aos olhos, mas inútil para saciar a fome – ou até mesmo frutas e legumes, que eram jogadas no palco. Se o número fosse realmente muito bom, às vezes o pagamento poderia ser em pequenos viveres tais como: peixes e aves. Essas prendas logo eram recolhidas para o preparo de alguma refeição, que depois de pronta era dividida de forma igual a todos do grupo. Pagamento em dinheiro era algo extremamente raro, até mesmo porque, para a grande maioria da população, toda e qualquer forma de transação comercial era feita a base de trocas. Se por um lado, o circo sobrevivia das benesses do público, recebendo calorosos aplausos e parcas oferendas. Por outro lado menos agradável é também dessa época o costume de jogar algo podre no palco e principalmente nos artistas, quando o publico, por ventura, se demonstrasse muito exigente e por algum motivo qualquer, não apreciasse a apresentação. Era como nesses casos em particular, todo o palco bem como até mesmo os artistas ficarem empesteados de ovos e tomates podres. Quando isso acontecia, logo o acampamento era rapidamente desramado e logo todo o grupo seguia para outra localidade distante. 

Séculos após o surgimento do circo, a situação em nada se aliviou, pois nos últimos tempos era constante esse tipo de descontentamento por parte do público europeu, cada vez mais esfomeado. Aqueles poucos privilegiados que não eram assolados pela crise, para ocupar o tempo ocioso, optavam por lotar os teatros que pululavam pelas cidades e, para tornar a situação um pouco mais desesperadora ainda, surge o cinema — considerado por muitos como uma mágica da era moderna. Para uma efervescente sociedade que já se acostumara com as extraordinárias invenções que surgiam quase todos os dias, o circo era algo ultrapassado e bastante repetitivo, e já não conseguia seduzir mais ninguém.

A efêmera Belle Époque, evidenciada pelo Impressionismo do final do século XIX, cedia lugar à obscura realidade das telas expressionistas do início do século XX e à galopante crise socioeconômica que se agravava cada vez mais. Era fácil perceber que os bons ventos da mudança já não mais sopravam pelas terras do velho mundo. Quem porventura quisesse continuar tentando sobreviver de qualquer tipo de arte — inclusive e principalmente de estilos obsoletos como o circo — deveria procurar outras terras onde a economia fosse um pouco menos frágil e o tipo de arte apresentada fosse quase ou totalmente desconhecida, ou pelo menos ainda apreciada em lugares onde as novidades tecnológicas da Europa fossem apenas uma distante e inverossímil promessa.

A América — a então denominada terra da oportunidade, independente de qual América fosse — parecia ser um lugar muito sedutor, segundo viajantes que tiveram a oportunidade de conhecê-la de perto. Descreviam-na como uma terra de belas mulheres e de homens fortes, onde o sol brilhava durante todo o ano e as riquezas estavam disponíveis a qualquer um que ousasse derramar o suor do rosto e em pouco tempo se tornasse abastado. Contudo, também era um sonho quase impossível para muitos, devido à distância entre esses dois mundos tão diferentes. Se o custo de uma viagem para a América já era bastante oneroso para um simples viajante, em se tratando de um circo inteiro, com todos os integrantes do grupo e seus pertences, além dos apetrechos necessários para um simples espetáculo, o valor era algo quase inimaginável, a menos que a providência divina abençoasse um mecenas disposto a custear a travessia de um circo inteiro sobre o Atlântico.

O sonho, que à primeira vista parecia praticamente inalcançável para aquele agonizante circo e seus miseráveis artistas, enfim se realizou. Depois de uma longa e angustiante viagem sobre aquele imenso oceano, finalmente desembarcaram nas exóticas e abafadas terras brasileiras. O navio que trouxera aquela sonhadora trupe para o Brasil partiu de Portugal em pleno inverno europeu e, ao chegar ao Hemisfério Sul, se deparou com o escaldante verão do Rio de Janeiro, que naquele momento ainda enfrentava uma terrível onda de calor. O dono do circo contava com uma calorosa e festiva recepção por parte do homem que, sob os encantos de Madame Staell, havia generosamente bancado todos os custos da viagem. Esta tinha sido a promessa feita ainda quando a vinda do circo para o Brasil tinha sido acertada. O então poderoso homem do governo — soube-se depois que era um senador bastante influente —, além de pagar antecipadamente todas as despesas da viagem, incluindo passagens, transporte de bens e objetos, além das refeições, também havia prometido um patrocínio em dinheiro por parte do governo brasileiro durante um ano. Essa verba seria mais do que suficiente para todo o circo e seus integrantes se manterem com certa dignidade, até que o circo ficasse conhecido pelos brasileiros e conseguisse se manter por conta própria. Contudo, o esperançoso Sr. Zacky e seus sonhadores companheiros não esperavam por uma traiçoeira intervenção do destino. Durante os dois longos meses que durou a viagem sobre o Atlântico, uma terrível febre infecciosa levou ao silêncio seu patrocinador e futuro anfitrião aqui em terras brasileiras.

Madame Staell foi a pessoa que tornou aquele sonho possível, conseguindo através de seus encantos e carícias convencer o senador Antônio Eugênio de Abreu — um sexagenário curioso e aventureiro — a custear todo o valor necessário a transferência do circo da Europa para as terras brasileiras. Essa encantadora mulher toda esperançosa e cheia sonhos imaginava que, uma vez em terras desconhecidas sobre a proteção de um poderoso pistolão do governo de uma jovem nação, poderia finalmente abandonar o circo de uma vez por todas. De alguma forma um tanto obscura, ela sentia — ou pressentia através de sua hipersensibilidade de cigana — que seus dias de reles vidente em troca de migalhas estavam terminando. Contudo, enquanto os artistas ainda sobre aquela imensidão de água sonhavam com dias melhores em terras distantes e desconhecidas por todos eles, as traiçoeiras Moiras tramavam em suas sinistras teias o destino de cada um deles. Enquanto uns ainda devaneavam com o paraíso, o corpo do então Senador, por sua vez era conduzido para a cidade onde todos se tornam iguais.

Quando chegaram, por fim, ao porto, a única recepção que tiveram foi de uma torrencial chuva que castigava o litoral há quase uma semana. — No Brasil uma terra tropical, as chuvas duram por dias e noites ininterruptas, como se as comportas do céu estivessem com algum defeito e não se fechassem por completo — Se por um lado a situação na Europa era quase insustentável, agora numa terra estranha e desconhecida, ficara pior ainda. Praticamente sem dinheiro algum, sem comida e nem ao menos onde pudessem ficar. Além da chuva que o céu derramava sem cessar, havia também a questão da língua falada por aqui — uma mistura de português com todo tipo de som que se pudesse imaginar — estranha para a maioria deles, exceto ao faquir do circo que era de origem portuguesa. Contudo, Vladmir — esse era o nome do faquir do circo — não era o tipo de pessoa que transmitia muita confiança, tal qual a imensa quantidade de velhacos que transitavam o tempo todo pelo cais e suas cercanias — talvez por essa insignificante peculiaridade, a comunicação entre Vladimir e os transeuntes do porto não foi tão difícil — e desde que surgiu a ideia de mudança de todo o circo para uma terra tão distante, Vladimir sempre se mostrou relutante em acompanhá-los em tão desvairada aventura. Alguns diziam que foi sua maculada imagem de trambiqueiro que o deixara sem credibilidade por todos os lugares em que havia passado ou talvez o amor platônico que ele nutria por Elizabeth, a belíssima assistente do mágico Norman, que o havia convencido. Mas sempre que alguém fazia alguma alusão a esse sentimento — evidente até para um cego — ele, logo insistia em negá-lo com veemência, dizendo que: “... as pessoas são sempre levianas por conveniência e quando querem cultivar na discórdia, confundem uma inocente admiração por algum outro sentimento qualquer...”. Por uma razão outra, fosse ela qual fosse, decidiu-se por fim, a acompanhar o Sr. Zacky e seu agonizante circo em mudança para as terras de além-mar. Sendo assim, ele mesmo também se lançara numa aventura em terras distantes que por fim selaria seu destino.

Vladimir Alvarez era o único faquir do circo e ocupava essa perigosa função há mais de cinco anos. Mesmo com todo esse tempo integrado ao grupo, ainda assim não havia conseguido conquistar a simpatia e a confiança da maioria dos artistas. Darquinha — o xodó de todos —, em particular, tinha pavor dele. Realmente, ele era um homem singular, de caráter espinhoso, seco de corpo e de espírito. Tinha as feições estranhas e, na altura de seus trinta e poucos anos, parecia ser muito mais velho devido à sua aparência cadavérica. Seu rosto era estranhamente afinado e sempre sedosamente escanhoado como a pele de um recém-nascido; tinha um fino e bem cuidado bigode preto bastante alongado, que contrastava com seus olhos claros e penetrantes. Suas mãos eram brancas e de uma agilidade assustadora; seu cabelo, negro como o mais escuro breu, era ondulado e caía sobre o pescoço fino, dando-lhe uma aparência bastante sinistra. Mesmo assim, sendo de confiança ou não, com toda aquela aparência maquiavélica, foi esse integrante da trupe que, com muita dificuldade e uma das joias de Madame Staell — certamente um dos presentes do Senador —, conseguiu alugar um terreno — soube-se depois que era público — próximo ao cais, onde mesmo debaixo de forte temporal, conseguiram armar um improvisado acampamento para se abrigarem daquele terrível aguaceiro durante aquela primeira noite em terras tupiniquins. Vladimir — ninguém sabe como — conseguiu também algumas verduras, alguns legumes, um pedaço de carne salgada e um pouco de farinha de mandioca. Além de uma garrafa de aguardente de cana, chamada por aqui de cachaça — bebida essa estranha a todos eles, mas que, devido à angustiante decepção pelo abandono em que se encontravam e ao frio que estavam sentindo, foi logo muito apreciada por todos que ousaram experimentá-la, apesar de que alguns disseram que queimava como o fogo do próprio Tártaro. As verduras e legumes, somadas à carne salgada, logo se transformaram numa bela sopa que foi engrossada com a farinha, tornando-se num apetitoso guisado. Improvisadamente protegidos da chuva e do relento, saciados pela sopa quente e alguns também acalentados pela cachaça, logo foram descansar como puderam, pois, além de estarem bastante decepcionados com toda aquela desesperadora situação, estavam também exaustos da viagem.

Assim que o dia amanheceu, o Sr. Zacky, acompanhado do mágico Norman, do faquir Vladimir – intérprete honorário – e da cigana Madame Staell – ávida por encontrar-se logo com o Senador –, foram em busca da sede do governo brasileiro para tentar encontrar seu benfeitor e saber o motivo pelo qual não foram recepcionados no cais. Para surpresa e decepção de todos, logo foram informados de que não poderiam ter uma entrevista com o Senador Antônio Eugênio de Abreu, pois esse tão liberal senhor havia falecido há mais de quarenta dias e que até mesmo sua viúva e filhos – ainda pequenos – tinham voltado à sua terra de origem, no longínquo estado de Goiás, no centro do Brasil, distante mais de duzentas léguas da capital. O desespero foi completo ao saber que nem o circo nem nenhum deles teriam mais nenhum patrocinador que pudesse lhes valer em particular ou pelo menos auxiliar o circo aqui no Brasil. Madame Staell era a mais desolada de todos, como se tivesse perdido um ente querido. Logo Vladimir entendeu, por uma conversa ou outra – ouvida em surdina pelo saguão onde estavam – enquanto aguardavam para serem atendidos por outra pessoa de posição, que o governo brasileiro era uma verdadeira balbúrdia. O salão, apinhado de toda espécie de gente, era malcheiroso e abafado ao extremo, com a pintura das paredes – que ainda resistia ao tempo – de um tom verde claro, melancólico e preguiçoso. Sobre uma imensa prateleira entupida de livros e toda sorte de papéis cobertos de poeira e teias de aranha, havia um relógio que condizia com a eficiência do que era executado ali naquele recinto. Esse relógio parecia não funcionar há muitos anos, fazendo jus à devassidão e inaptidão do lugar. A informação era que o presidente anterior havia morrido de gripe espanhola e o atual que assumira o governo tinha sérios problemas mentais. Mesmo sem entender o que a maioria dizia, o Sr. Zacky pôde compreender que ali na sede do governo, todos mandavam ao mesmo tempo, mas ninguém decidia nada. E por fim, quando ele decidiu tentar angariar algum tipo de benesse para o circo, nenhuma outra pessoa importante lhes deu muita atenção. Ficou logo subentendido que não haveria ajuda por parte do governo, e somente o que conseguiram com muita dificuldade e insistência foi uma licença para praticarem seu ofício em território brasileiro, desde que pagassem uma onerosa taxa ao erário, que – como sempre – estava com os cofres vazios naquele momento e não poderia liberar tal licença de forma gratuita.

O Brasil era uma república jovem, enfrentando uma crise institucional e econômica interminável, e por isso estava sem dinheiro em caixa. Havia descontentamento da população que gerava revoltas aqui e acolá, corrupção por todos os lados e uma tacanha política de "toma lá, dá cá". Se alguém porventura não tivesse nada a oferecer, era inútil buscar algum favor perante algum político. Sempre que alguém se fazia anunciar em qualquer gabinete em particular ou até mesmo numa repartição pública, a pergunta era sempre a mesma: "Está vindo da parte de quem? Ou quem o enviou?". Enfim, quem não tinha nada, também com nada continuaria, e assim seria para sempre.

Quando Vladimir tentou questionar o valor da licença, foi-lhe explicado de forma bastante grosseira e bastante convincente, que para exercer qualquer tipo de atividade no país, uma pequena e irrisória taxa deveria ser paga ao Estado, para custear os enormes e complexos gastos públicos. O Sr. Zacky se sentiu bastante frustrado ao saber que na República do Brasil, o indivíduo começava a pagar impostos bem antes de nascer e que continuaria pagando-os bem depois de sua morte. Realmente, a América era uma terra de oportunidades: um terreno fértil para velhacos e oportunistas. Quem era rico, ficava cada vez mais rico ainda e quem era pobre, tinha a oportunidade de ficar mais pobre a cada dia.

O dono do circo, acompanhado de seus fiéis companheiros, retornou cabisbaixo ao improvisado acampamento com uma licença numa mão e uma triste realidade na outra. Estavam sós, numa terra distante de tudo e desconhecida por todos. Voltar para a Europa naquele momento era impossível. Só havia uma única alternativa: fazer aquilo que sabiam fazer de melhor. Apresentar-se para quem quisesse pagar para ver e fugir da justiça assim que necessário. Todos concordaram que não havia outra coisa a ser feita, mesmo bastante decepcionados com sua má sorte, se lançaram a tentar montar o circo mesmo debaixo de chuva e com todo tipo de improviso. A mais acabrunhada dentre todos eles era Madame Staell, que viu seu horizonte pleno e claro ser obscurecido por negras e tenebrosas nuvens de uma tempestade que sua sensibilidade lhe prenunciava. Mesmo assim, desfez-se de mais uma de suas joias e alguns trocados de suas economias para poderem comprar alimentos, pregos, velas e aquilo que se fazia necessário para que o espetáculo pudesse acontecer. Sr. Zacky prometeu lhe restituir tudo aquilo que ela estava gastando, assim que o circo começasse a render algum trocado. Baseados numa inabalável fé, muito esforço e constante perseverança, dois dias depois da decepção com o governo brasileiro, após muito suor derramado misturado com a chuva que caía constantemente, assim que o céu decidiu dar uma trégua em todo aquele aguaceiro, aconteceu o primeiro espetáculo do Grande Circo Chittway no Brasil. O certo era que aquele improvisado circo, nem de longe poderia ser comparado ao que fora um dia em seus dias de glória, quando Sr. Zacky ainda era um garoto nas efervescentes cidades da Europa. Contudo, os artistas eram muito talentosos, os números bastante atrativos em si e a necessidade de sobrevivência era extrema. O resultado desse primeiro dia de espetáculo não foi muito lucrativo, mas suficiente para reaver uma das joias de Madame Staell — que lhe fora devolvida mediante o dobro do pagamento do valor penhorado — e uma apetitosa e farta refeição acompanhada com uma ou outra dose de cachaça. O animado espetáculo se repetiu por mais três vezes apenas naquele local — cada dia mais movimentado e rendoso — pois logo foi interrompido pela polícia, que muito rapidamente, assim que chegou ao local — certamente avisada por uma denúncia anônima — já foram de imediato exigindo a documentação que autorizava a prática daquele tipo de atividade ali na cidade. Esse documento, por sua vez, até que já existia de fato, apenas não havia sido pago ainda — e certamente não o seria nunca. Sr. Zacky, o proprietário do circo, um estrangeiro no país — bem como todos os outros integrantes daquela animada trupe — não tinha documentação alguma, nem mesmo para estarem residindo no país, muito menos para exercer qualquer tipo de atividade. Para obter esse tipo de alvará de funcionamento era necessário pagar as requeridas taxas, em seguida dar entrada na papelada necessária num cartório de tabelionato de notas — novidade republicana, que tornava qualquer trâmite simples em algo oneroso e demoradamente burocrático — e por fim homologar toda a documentação num destacamento policial. Nenhuma dessas etapas havia sido feita, e talvez jamais o fosse, pois, desde sempre era já o costume daquele circo — como tantos outros mundo afora — funcionar de forma clandestina.

Uma vez que, quando a polícia chegou ao local, era já quase noite, com o tempo fechado e escurecendo rapidamente, prenunciando que uma tempestade pudesse desabar a qualquer momento, o chefe daquele eficiente destacamento ordenou que toda e qualquer atividade fosse encerrada de imediato e que eles retornariam no dia seguinte logo pela manhã, a fim de resolver todos os trâmites legais necessários para que aquela atividade artística pudesse continuar acontecendo ali naquele local de forma correta. Contudo, antes de deixarem o acampamento, um dos policiais daquela muito competente companhia — talvez por mera curiosidade, ou quem sabe por pilhéria apenas, ou até mesmo por volúpia — desde que chegou ao acampamento, não tirava os olhos do convidativo decote do vestido da bela cigana, e logo desejou saber o que o destino lhe reservava, solicitando então que Madame Staell lhe tirasse a sorte lendo sua mão. O resultado desse ato se mostrou muito desastroso para ambos. Como o atirado patrulheiro não gostou do que ouviu e pelo olhar de desdém que a bela cigana lhe direcionava enquanto lia sua mão, talvez também por não entender direito o que a cigana havia lhe dito — Madame Sarah Staell era uma bela espanhola de pele clara e olhos negros questionadores, mas sensualmente discretos. Tinha longos cabelos negros caindo em cascata pelas suas esbeltas costas em belos cachos tão escuros como uma noite sem luar. Seu corpo, mesmo para uma idade já madura, mantinha ainda assim a firmeza de uma frondosa árvore florida com o frescor suave de suas flores em recente desabrochar. Por ser de uma região de Granada no sul da Espanha, falava um tipo de dialeto que às vezes misturava o castelhano com várias outras línguas do mundo árabe — pelo lado de seu pai que era egípcio — e o romani — pelo lado de sua mãe que era de Bukovina. Sua fala, às vezes, era tão inaudível que até mesmo seus companheiros mais antigos não conseguiam compreender corretamente. Quando foi solicitado que o faquir Vladimir traduzisse o que fora dito pela cigana, as coisas se complicaram um pouco mais. Vladimir — por ciúmes ou por trazer consigo um leve despeito pela cigana, que volta e meia, até mesmo de forma humilhante, repudiava suas investidas sobre ela — substituiu alguns termos e adicionou outros, que ela nem mesmo havia pronunciado.

Logo ficou entendido que algumas verdades jamais poderiam ser ditas de forma explícita a qualquer um, e que em alguns momentos específicos, algumas mentiras se faziam necessárias. O frustrado guarda, além de se recusar a pagar a mísera moeda exigida pelo místico serviço, presenteou Vladimir com um sopapo no peito e um doloroso pontapé nos fundilhos. E quando a cigana sorriu, mostrando os dentes cravejados de ouro, recebeu — por parte do agora ofendido patrulheiro — uma violenta estocada de sua carabina. Essa pancada no belo rosto de Madame Staell resultou em um negro hematoma que durou vários dias para desinchar e que logo evoluiu para uma inflamação em seu olho esquerdo, que tempos depois causaria a perda parcial de sua visão. Esse mesmo policial, inocente de seus abjetos atos — pois estava acostumado, desde sempre, a esse tipo de violência gratuita —, morreria três dias depois, em um sinistro acidente, vítima de sua própria arma, num tiro acidental que ele mesmo causara, quando, em companhia de dois outros soldados, estavam limpando e lubrificando suas carabinas. Sua arma, por alguma razão desconhecida, ainda estava carregada.

Na mesma noite desse último espetáculo, naquela cidade, após os ânimos terem se acalmado e a polícia ter deixado o improvisado acampamento com a promessa de um breve regresso, já conhecedores da truculência da polícia brasileira, decidiram por unanimidade que ali já não era um lugar seguro para exercerem seu ofício. Sob o auxílio e escolta de um dos espectadores, que muito se simpatizara tanto com os artistas em geral, mas principalmente com a contorcionista Cecile — uma polonesa que quase se virava do avesso e que, segundo quem pudesse afiançar com segurança, ou seja, já tivesse experimentado suas carícias, fazia diabruras no leito, deixando qualquer homem de cama por vários dias —, rapidamente desmontaram tudo em plena calada da noite e logo seguiram viagem para outra cidade não muito distante.

Na manhã seguinte, como havia amanhecido chovendo muito forte, a polícia que, além de distribuir gratuitamente — para quem merecesse ou não — tapas e pontapés, não era muito afeita ao trabalho duro, principalmente debaixo de chuva. Além disso, como também não contavam com a perspicácia daquele intrépido grupo e seu secular costume de "anoitecer e não amanhecer", somente retornaria ao acampamento logo bem depois do almoço, isso se o tempo estivesse melhor; caso contrário, só retornariam no dia seguinte. Aquele dia em questão era uma quinta-feira, e no dia seguinte, sexta-feira, era feriado. Como no Brasil, em dias de feriado prolongado, nada funciona — ou pelo menos quase nada —, só retornaram aonde o circo estava montado na segunda-feira, após o enterro do jovem policial que havia acidentalmente falecido na manhã do dia anterior. Contudo, quando lá chegaram, foram surpreendidos com o terreno completamente vazio, encontrando apenas a terra batida e breves resquícios de uma ocupação recente. Não havia nenhum sinal de circo funcionando sem autorização e muito menos de estrangeiros ilegais no local. Pesarosos pela perda de um companheiro, mas orgulhosos com o sentimento de dever cumprido, após buscarem por informações sobre o possível paradeiro do circo e seus integrantes em um botequim em frente ao terreno e sem conseguirem nenhuma pista segura, partiram em busca de outros fora da lei para combaterem. O dono do botequim, que havia alugado o terreno — que era público —, além de perder seus animados inquilinos, ficou também com o prejuízo de alguns tragos de cachaça e vários petiscos consumidos pelos policiais que decidiram fazer um brinde por mais um serviço prestado à população e pela memória de um fiel companheiro — obviamente que nem as bebidas e muito menos os petiscos foram pagos, segundo a polícia, era um grande privilégio a qualquer cidadão poder, de alguma forma, contribuir com a lei e a justiça.

O simpático e seduzido espectador, que os havia auxiliado a fugirem da polícia, custeando de seu próprio bolso o frete necessário para a mudança de todos os apetrechos e badulaques do circo, era filho único de um promissor e abastado fazendeiro do interior do estado, que sempre atendia a todos os caprichos de seu único herdeiro, uma vez que esse opulento e amoroso pai era um solitário viúvo. A pedido desse mesmo filho, ele conseguiu junto à Câmara Municipal uma licença de um ano para que o circo pudesse funcionar livremente na cidade, sem precisar pagar nenhum tipo de taxa, tributo, e nem mesmo o aluguel do terreno onde o circo seria montado. É certo que, apenas três meses depois, o circo já estava se mudando novamente, pois tudo aquilo que é novo pode ser bastante sedutor, mas com o tempo, logo se desgasta e fica velho. Assim, a novidade lúdica do circo, que no início encantou a todos, logo também ficou obsoleta e ninguém mais se interessou em pagar para ver os espetáculos. Até mesmo as contorcidas carícias da polonesa Cecile logo perderam o encanto, pois muito rapidamente se soube que a bela polonesa era do tipo de criatura insaciável. Tal como fazia com seu corpo no palco durante o espetáculo, para a alegria e espanto de todos, no leito não era diferente, contorcendo-se para todos os lados e para qualquer um que lhe causasse algum tipo de interesse. Sendo o apetite dessa polonesa bastante voraz, há quem diga que até mesmo o velho viúvo, pai de seu benfeitor, foi agraciado com um espetáculo particular, que deixou o pobre coitado de cama por vários dias.

Foi assim que, mesmo em terras brasileiras — considerada por grande parte dos habitantes do velho mundo como a terra da oportunidade — longe dos grandes teatros e das atrativas salas de cinema da Europa, o Grande Circo Chittway manteve seu status de eterno e incansável nômade. Perambulando agora pelas diversas e nada promissoras cidades do interior do Brasil, tentando sempre se manter distante das capitais e das perseguições da justiça, sempre a serviço do governo com sua insaciável sede de taxas e tributos.

A situação do circo e de seus integrantes aqui no Brasil não estava muito diferente daquela enfrentada na Europa nos últimos tempos. Certamente, o velho mundo estava sendo castigado com uma grande guerra no Norte, levando a economia europeia, que já enfrentava uma crise há tempos, a ficar ainda pior. No Brasil, mesmo com todas as dificuldades, havia uma vantagem satisfatória de não haver invernos rigorosos com violentas nevascas e o intenso frio que assolava a Europa todos os anos. No clima tropical, as apresentações do circo poderiam acontecer quase o tempo todo. Na maioria das cidades do interior, uma novidade como o circo tornava-se bastante atrativa, uma vez que nessas pequenas localidades ainda não havia chegado o cinema e nem ao menos contava com um simples teatro para o entretenimento de seus habitantes. Num país de grande extensão territorial como o Brasil, majoritariamente católico com sua rigorosa cultura coercitivamente religiosa, havia sempre festas e quermesses quase o ano todo em diversas e diferentes cidades pelo ermo sertão brasileiro. Nessas festas, que movimentavam toda a população da cidade e de suas cercanias, um espetáculo como o circo era sempre uma atração à parte.

Texto publicado na 5ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de maio de 2024. → Ler edição completa

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Escrito por Alex Miranda, -Contos Alex Miranda Escrito por Alex Miranda, -Contos Alex Miranda

Brinquedo Macabro

Há quem diga que aqueles que atentam contra a própria vida nem sempre buscam pela morte, mas tão somente tentam acabar com a dor que os…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

“Então, o Senhor disse a Satanás: De onde vens? E respondeu Satanás ao Senhor e disse: De rodear a terra e passear por ela...”. — Jó 2:2

Há quem diga que aqueles que atentam contra a própria vida nem sempre buscam pela morte, mas tão somente tentam acabar com a dor que os atormenta e, em muitos casos, nem mesmo há uma dor, mas apenas um terrível desespero. Era alta madrugada quando um grande alvoroço se fez na rua, com o ensurdecedor som de sirenes e o inquietante matraquear dos vizinhos ávidos de curiosidades em saber sobre a desgraça alheia. Em menos de dez minutos todo o quarteirão estava tomado por carros de polícia, ambulâncias e até mesmo um caminhão do corpo de bombeiros. Além, é claro, de dezenas de desocupados bisbilhotando o que se passava.

Um homem no peitoril da janela de seu apartamento demonstrava estar vivendo momentos do mais completo pavor. O prédio, atrás de si, estava em chamas e o indivíduo, parecendo estar sem maiores opções, ameaçava pular a qualquer momento. Alguém dentre os bombeiros gesticulava para que ele mantivesse a calma, mas o homem sequer lhe dava atenção. Não havia escadas de incêndio no edifício. De alguma forma o homem não tivera outra opção a não ser se refugiar na janela de sua casa. Algo ou alguma coisa o impedira de acessar a escada de emergência do prédio, como os demais moradores assim o fizeram, parece que somente ele se encontrava naquela lastimável situação, até porque não havia muitos moradores naquela velha construção. 

Pelo alastrar das chamas, tudo levava a crer que o incêndio se iniciara em seu próprio apartamento. Seus vizinhos se questionavam onde estariam seus familiares, uma vez que ele vivia com sua esposa e as gêmeas — suas duas filhas de nove anos. Devido a muitos veículos estarem estacionados na rua em frente ao edifício, o acesso do caminhão dos bombeiros com a escada que pudesse chegar até o homem era quase impossível. Os bombeiros improvisaram uma espécie de cama elástica para que o homem pudesse pular mesmo que a altura em que ele se encontrava — quase doze metros — fosse bastante perigosa para aquele tipo de resgate, não havia outra opção.

Depois de um resgate emocionante, aquela estranha figura fora salva sem maiores ferimentos, apenas alguns arranhões e uma leva intoxicação pelo excesso de fumaça inalada por ele. No entanto, seu psicológico estava completamente abalado e ficou pior ainda quando uma vizinha sua o questionou sobre o paradeiro de sua esposa e de suas filhas. Nesse momento ele entrou num violento frenesi ao ponto de ser necessário cinco policiais para contê-lo. Naquele momento parte do mistério se esclarecia. Aquele homem assassinara sua família, colocara fogo em seu próprio apartamento, mas não tivera coragem de atentar contra sua própria vida. 

A balbúrdia que parecia estar se amainando teve uma forte reviravolta, e houve grande peleja por parte da força policial e dos bombeiros para conter a turba enfurecida que se lançava sobre aquele homem para que a justiça fosse feita ali mesmo de forma rápida e impiedosa. Com muita dificuldade o homem fora levado escoltado para a delegacia para prestar esclarecimentos. As chamas foram controladas, mas com grande prejuízo para a construção que, num primeiro momento, fora interditada pelos bombeiros e, muito possivelmente, seria condenado pela defesa civil, pois sua estrutura fora visivelmente abalada pelas chamas. Houve forte comoção popular quando os bombeiros retiraram do meio dos escombros um corpo adulto e dois pequenos corpos menores completamente carbonizados. Pelo estado em que os corpos se encontravam, a perícia teria grande trabalho para apontar a verdadeira causa das mortes daquelas infelizes vítimas. 

Era por volta das cinco horas da manhã quando aquele homem fora fichado na delegacia como, até então, o único suspeito de triplo assassinato, incêndio doloso e tentativa de suicídio. A delegacia que naquele momento deveria estar bastante tranquila, começou a ficar apinhada de jornalistas e curiosos em busca de informações sobre aquele terrível acontecido. Certamente a polícia teria muito trabalho para tentar desvendar aquele crime hediondo. Isso se tornou mais evidente quando o acusado negou veementemente sua culpabilidade para todos os crimes que lhe era imputado. No entanto, sua participação direta ou indireta nos crimes era inquestionável, uma vez que fora preso em delito flagrante. O acusado dispensou a presença de um advogado, mas exigia que um padre viesse a ter com ele e, somente depois de se confessar com uma autoridade eclesiástica, ele daria seu depoimento à polícia.

Por volta das sete horas da manhã, Padre Ozório, um paroquiano local que vez por outra prestava serviços de alento espiritual a um ou outro detento em crise espiritual, chegou à delegacia e foi até o acusado que dava claras demonstrações de um terrível pavor, mas nenhum tipo de arrependimento e nem o menor toque de remorso. O padre entrou na sala de interrogatório e, sabendo que o acusado, estando algemado à mesa de aço, e que de forma alguma traria algum tipo de ameaça à sua integridade física, e que tudo seria devidamente gravado tanto em áudio quanto em vídeo, solicitou aos agentes que lhe dessem um momento de privacidade com o acusado, para que ele pudesse, assim, sem nenhum tipo de coação, abrir seu coração e que sem receio algum lhe pudesse relatar a verdade dos fatos. 

O acusado que esteve de cabeça baixa quase o tempo todo, desde que chegara à delegacia, quando o padre adentrou a sala de interrogatório, levantou sua face ao clérigo e lhe cumprimentou com certo alívio, como se a presença de uma autoridade religiosa lhe trouxesse algum conforto. Pediu a benção ao padre e assim que este se sentou, solicitou-lhe que fosse paciente com ele e que ouvisse toda sua estória do início ao fim antes de declarar algum tipo de juízo. E assim, o acusado principiou...

Antes de qualquer coisa, quero que saiba, padre, que até a noite passada eu mesmo não acreditava em muitas coisas que não pudessem ser devidamente explicadas... Meu nome é Silas de Azevedo sou corretor de seguros — ou ao menos era até ontem à tarde — sou casado e tenho duas filhas...

Nesse momento ele se deu conta de tudo que havia ocorrido e começou a chorar copiosamente. Pela primeira vez o desespero pela morte de sua família lhe veio à superfície e ele teve outra crise emocional que demorou alguns minutos a ser controlada. Padre Ozório o observava em absoluto silêncio, deixando que ele mesmo retornasse a narrativa assim que conseguisse se controlar. Fato que o acusado fez de forma voluntária...

Eu era casado e, até ontem à noite, tinha duas filhas maravilhosas, mas o mal que eu mesmo trouxera para dentro de casa me tirou tudo aquilo que eu mais amava na vida. Não espero que o senhor possa acreditar no que vou contar padre. No entanto, preciso confessar o que realmente aconteceu para que eu possa dar um refrigério para minha alma. Minha filha mais jovem colecionava bonecas e nenhum presente lhe era mais agradável do que uma boneca nova para sua coleção, mesmo que o brinquedo não fosse novo de fábrica. Para falar a verdade ela tinha um apreço especial por brinquedos que já haviam pertencido a outras crianças. Melissa sempre dizia que tais bonecas vinham acompanhadas com as estórias de suas antigas donas. Por um lado, ela não estava de toda errada. Acontece que nem todas as estórias são de contos de fadas e ontem pude comprovar isso da pior maneira possível.

Em uma de minhas viagens, entrei numa loja de antiguidades e adquiri, por uma ninharia, uma bela boneca de fabricação artesanal. O brinquedo era comum como outro qualquer: corpo, cabelo, vestido e um sapatinho simples. No entanto, desde o momento que paguei o preço exigido pela boneca e a tive em minhas mãos, senti algo sombrio próximo a mim. Quando cheguei em casa com a nova boneca, Melissa ficou eufórica num primeiro momento, depois senti certa melancolia em seu semblante. Pensei ser apenas frustração devido ao brinquedo não estar tão conservado quantas as outras que eu sempre trazia. 

Durante o jantar tudo correu normalmente, sem nenhuma novidade, mas assim que a noite avançava, senti que havia algo de muito sinistro no ar, que parecia pesado e sombrio. Era por volta de onze da noite, quando as meninas já estavam recolhidas, que ouvi passos na cozinha e barulhos na gaveta dos talheres como se alguém bastante apressado estivesse escolhendo algo. No momento não me preocupei tanto, pois era comum minha esposa Cecília, vez por outra, preparar um bolo para o café da manhã. Por um momento o silêncio na cozinha se fez presente, mas logo dera lugar por sons imprecisos no quarto das meninas, foi quando me levantei para verificar o que poderia estar acontecendo. 

Para minha tristeza, minha amada Cecília acabara de assassinar nossas duas filhas, que dormiam inocentemente o sono dos justos. Quando caminhei em sua direção percebi que sua face havia mudado, pois, trazia a mesma aparência do rosto da boneca que eu havia comprado naquela mesma tarde. Parei no meio do quarto e chamei pelo seu nome, mas antes que eu pudesse tomar qualquer atitude, ela que naquele momento voltava a ter suas feições normais, deu um grito estridente ao ver o que tinha acabado de fazer. Olhou primeiro para as meninas, com um sentimento de profundo remorso e, depois, para a boneca que estava sobre uma cadeira. Após olhar para a boneca novamente, vi com meus próprios olhos suas feições mudarem novamente e, após ela dar uma estridente gargalhada, cortou sua própria garganta.

Percebi naquele momento que havia algo errado com a boneca, pois ao olhar em sua direção percebi que uma enorme sombra estava atrás da poltrona em que ela estava. Essa mesma sombra me olhava de forma debochada como se zombasse de mim. Tentei me aproximar de minhas filhas e também de minha esposa, mas percebi que não poderia fazer nada mais por nenhuma delas, decidi que daria um fim naquele maldito brinquedo. Contudo, ao me aproximar da boneca fui fortemente golpeado pela sombra, que naquele momento estava tomando feições de um ser dotado de um corpo físico. A visão daquele ser era tão terrível que não consigo descrevê-lo de uma forma fidedigna. Apenas sei que, nem mesmo em alguns livros ou em qualquer filme de terror que eu tenha assistido, eu jamais vira coisa tão horrenda quanto aquela.

Naquele momento decidi que tentaria destruir tanto a boneca, quanto aquela coisa, — que de alguma forma eu sabia que fazia parte daquele macabro brinquedo — colocando fogo em tudo. O resto da história o senhor já deve saber...

Terminando sua estória, ele levantou seu rosto para o padre e o que viu o deixou aterrorizado. Padre Ozório segurava a boneca em suas mãos e o fitava com olhos vermelhos como duas chamas vivas. A face do padre havia mudado e o que antes era o rosto de um homem de uns sessenta anos agora estava liso como a pele de uma foca e parecia ser emborrachado...

Texto publicado na 5ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de maio de 2024. → Ler edição completa

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O Poeta das Mil Noites

Me chamo Mateo Castilho e acho estranho que eu conheça meu próprio sobrenome. Nasci num ducado do reino de Castela…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Me chamo Mateo Castilho e acho estranho que eu conheça meu próprio sobrenome. Nasci num ducado do reino de Castela, minha mãe era filha de um cavaleiro nobre que morreu na cruzada de reconquista. Estas poucas noções é tudo que sei da minha origem. Meu pai não sei quem foi, mas tenho feições mouriscas, por isso já levantei muitas suspeitas sobre quem sou, algumas um pouco assombrosas, talvez.

Quase não tenho lembranças de minha mãe e de onde eu nasci, também não sei descrever o lugar, fui levado de lá muito cedo, ainda criança e por isso tenho dificuldades com a língua castelhana. Fui tirado dos braços de minha mãe pelos invasores em uma noite sangrenta, raptado e levado para Córdoba, vendido como escravo para uma família de mercadores aristocratas do califado. Aprendi outros costumes e outras línguas, maneiras as quais eu não era familiarizado, mas hoje é como se tivesse sempre vivido entre os maometanos.

Quando cresci e comecei aprender as línguas estrangeiras, tive facilidade com o modo de falar dos mercadores que chegavam de toda parte do mundo. Talvez por isso me deram uma ótima educação, apesar da minha condição de prisioneiro, era de grande valor o servo que pudesse facilitar as comunicações com os negociantes, até boas vestes me foram concedidas.

Tive aulas com os melhores mestres andaluzes, com o tempo notaram minha vocação para o letramento, me ensinaram gramática, religião, história e também as artes do canto. Nesta arte encontrei minha primeira e mais duradoura paixão, junto dela também aprendi a correr os dedos pelo alaúde, aprendi a tocar muito bem este instrumento, dominei as cordas e os dedilhados melhor do que qualquer um dos menestréis de Córdoba. Permitiam-me algum tempo para praticar estes dons que eu descobri ainda jovem e sempre pediam que eu alegrasse o salão durante o jantar ou as visitas durante as conversas de negócios do meu senhor.

Mas um outro amor que eu encontrei junto com meu dom teve uma passagem mais breve e mais trágica na minha vida. A bela filha de meu senhor, Ester gostava de me ouvir cantar. Fiz bonitas canções para ela e foi exatamente esse o início da ruína deste grande amor. Nos descobriram enquanto eu cantava à noite nos terraços para que ela ouvisse, nunca estive junto dela, mas isso já era algo suspeito demais para manter minhas poucas liberdades. Fui aprisionado, privado de água e comida, e depois de alguns meses vendido para um traficante que me levou para Argel numa tortuosa viagem no porão de um zambuco. Quando cheguei naquele lugar fiquei aliviado de pôr os pés na areia, depois vi tanta areia naquela noite e mal sabia quanta areia ainda veria em toda minha vida.

Tantos anos se passaram em Argel, os anos mais difíceis. Deixei de ser jovem naquele lugar. Não sei quantos anos eu tenho agora, mas talvez tivesse chegado lá com quinze ou por volta disso. Servi o palácio como criado particular de uma das concubinas do Sultão. Uma mulher esguia que tramava inúmeras conspirações e intrigas no palácio. Notei como ela influenciava com língua de cobra as políticas do sultão e daquela corte. Também descobri um de seus muitos segredos, ela escondia nos seus aposentos livros de magia proibidos, dos antigos Dins, também conversava com estes espíritos no deserto. Na madrugada fria da imensidão de areia, saía de noite por uma passagem secreta e voltava manchada de sangue. Certa vez ela me trouxe um alaúde, disse que os Dins mandaram que ela comprasse um bom instrumento no bazar e desse para um de seus escravos. Por coincidência ela me escolheu, mesmo não sabendo que eu dominava aquele instrumento. Talvez este meu segredo tenha sido contado pelos espíritos do deserto que tinham algum tipo de propósito no meu destino. Peguei a concha de madeira bem trabalhada em minhas mãos, era o mais belo alaúde que eu pudera colocar os olhos, uma peça de carpintaria finíssima, não sei de quem ela obteve, não era do tipo que vendem os mercadores.

Temi não me lembrar de nenhuma canção, mas assim que o tomei nos braços e empunhei a escala e as cordas, foi como rever um velho amigo que não mudou nada com o passar dos anos, toquei com destreza e exímia habilidade. A feiticeira ficou muito impressionada e me exigiu que eu tocasse para todo seu séquito. Assim fiz durante algumas noites sem saber que, na verdade, aquela mulher tinha me amaldiçoado. Enquanto eu dormia, entrou pela janela um espírito muito antigo e me revelou nos meus sonhos que, quando eu aceitei o presente da minha senhora, firmou-se um contrato com os Dins. Eu empunharia o instrumento como ninguém jamais fez, cantaria tão lindamente como ninguém jamais pôde e criaria as mais belas canções que já foram criadas, no entanto a fama não alcançaria o meu nome, eu teria que provar a cada trova que eu era o grande bardo das noites argelinas, esta porém não era a condição mais cruel, eu só poderia exercer minha arte por mil noites e quando se esgotasse esta conta, nunca mais poderia cantar, pois ficaria mudo e cego até o fim da vida, condenado a vagar sozinho pelo deserto.

Incrível como foram as noites depois deste sonho assombroso, embora tivesse acordado assustado na manhã seguinte, eu não acreditei que aquilo era verdade, mas meu talento ficou muito mais aguçado e foi se desenvolvendo cada vez mais, de um modo que quase atingia a perfeição. Tocava pelas noites de Argel, no palácio e nas casas mais nobres, sempre cercado de boa comida, bajulações e mulheres jovens e bonitas. Tornei-me o maior amante dos prazeres, vivi empenhado em esbaldar das benesses que este dom me proporcionou, me embriaguei nas maiores abundâncias da riquíssima cidade de Argel, quase me esqueci que eu era um escravo.

Então que um novo sonho aconteceu, depois de uma noite das mais festivas e agitadas, um novo espírito entrou pela janela dos meus aposentos e me mostrou uma ampulheta que era o contador das noites que eu usufruí e das que ainda me faltavam. Não sei dizer ao certo o número que ainda restava, mas a areia já tinha escorrido a maior parte para o bulbo do vidro de baixo. Acordei desesperado ainda na madrugada, entrava um vento frio pela janela por onde eu via as estrelas e as dunas do deserto. Tive uma nova epifania acordado, pensei em toda a minha vida, na minha mãe e em Ester. Onde poderiam estar? Chorei pela primeira vez desde que eu era criança, pedi que algum espírito ou qualquer força maior me escutasse, pedi que quando minha maldição se concretizasse, eu vagando cego e mudo pelo deserto ainda pudesse ver com clareza as figuras de minha mãe e de Ester.

Decidi fugir daquela cidade, decidi ir embora de Argel. Arrumei algumas poucas coisas, água e tâmaras, embrulhei meu alaúde e segui pela passagem secreta que levava fora dos muros da cidade entre o mar e o deserto. Cheguei na praia e continuei para o leste sem saber o que esperar ou o que eu poderia encontrar, andando entre as quatro maiores imensidões que existem, a imensidão arenosa do deserto à minha direita, a imensidão salgada do mar à minha esquerda, a imensidão brilhante das estrelas no céu e, por último, a imensidão da alma dentro de mim.

Andei por tanto tempo, não sei estimar, mas algo estranho acontecia, aquela noite parecia eterna, como se passasse muito mais de doze horas e o dia não dava sequer sinais de alvorecer. Andei pela areia até Argel sumir à distância atrás de mim. Eu estava só caminhando sem ter um rumo ao certo, consumi todas as tâmaras e toda a água, tive certeza de que caminhei por muitos dias embora a noite jamais deixasse o céu.

Quando já estava exausto, sentindo a falta de água e de comida, minha mente turva sem saber se minha atitude foi sensata, avistei uma luz ao longe. Caminhei até me aproximar, quando chegava perto reconheci a forma de uma ampulheta espectral, uma névoa brilhante pendente no ar, parecia ser feita de estrelas. Tive vontade de tocá-la, estendi a mão e quando o fiz, um raio de luz me ofuscou num instante e percebi que estava em um lugar diferente. Eu pisava sobre um gramado, rodeado de jardins verdejantes e diante de mim havia um suntuoso castelo europeu. No ambiente pairava um murmúrio alegre e notei que chegavam convidados para uma festa, todos trajados com muita elegância e usavam máscaras cravejadas de brilhante, entendi que haveria um baile e me animei em participar.

Um cavalheiro vinha em minha direção, não o percebi chegar, tinha cabelos na altura do pescoço, bigode fino e cavanhaque pontudo, conversou comigo durante alguns minutos, tinha gestos delicados e uma postura muito gentil. Acho que ele é o dono deste lugar, um conde talvez. Por certo é muito rico e me passa ares de ser muito culto. Ele notou meu estado decadente e mandou que trouxessem um copo de água para matar minha sede. Aquela água estava deliciosa, parecia um elixir revigorante. No instante seguinte já pensava eu: “Que mal tem um pequeno grãozinho de areia a menos na parte de cima da minha ampulheta?”.

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O Baile Sombrio

Bailes são sempre bailes. Misteriosos, longos, satisfatórios e saudosos. Ser convidada para um baile é sentir o primor de ser considerada uma…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Bailes são sempre bailes. Misteriosos, longos, satisfatórios e saudosos. Ser convidada para um baile é sentir o primor de ser considerada uma verdadeira dama — importante para a sociedade, embora eu não tenha cavalheiro algum para acompanhar-me. 

Olho-me no espelho e estou impecável para um baile. Meu vestido em tom violáceo representa a minha candura. Me falta apenas a máscara, a tão importante máscara. Mas dirijo-me tão logo ao Castelo Drácula, recinto do grandioso evento, onde avisto pessoas chegando e se aproximando. Há um homem esguio e comprido, como se fosse uma figura misteriosa. Paro os meus passos para contemplar a sua face, escondida em uma máscara levemente sombria, que cobre todo o seu rosto. Não se sabe se ele sorri ou se chora dentro daquele molde. Ainda assim, me aproximo e percebo que ele comercializa lindas máscaras acompanhadas de joias preciosas. Isso toma a minha curiosidade de tamanha forma que eu faço a minha escolha.

Uma das máscaras chama a minha atenção de maneira impressionante. Nela há um brilho especial ao redor da parte dos olhos. O brilho é lilás, quase da cor das vestes que me cobrem. O homem das máscaras impulsiona a pô-la em meu rosto. As suas mãos aproximando quase insistentemente a máscara da minha face me faz colocá-la em mim. Mais um pouco e seriam as suas enormes mãos a fazerem isso. A máscara vem acompanhada de uma joia, mas a deixo na bancada do seu quiosque, os meus dedos já estavam fartos de brilho.

Ao colocar a máscara, começo a me sentir estranha, com uma sensação de vertigem e desconforto. Não vejo outras pessoas se sentirem assim, apenas eu. Então, decido tirá-la, mas não consigo fazer isso, a máscara não sai dos meus olhos. Apenas os meus lábios podem ser vistos. Desisto de lutar contra e resolvo permanecer com ela sem pedir ajuda ao homem. Ele me olha como se soubesse o motivo daquela faixa brilhosa com dois orifícios grudarem em minha pele da face. Ele também sorri, sinuoso, sarcástico. Ignoro tal ato e entro no castelo; não poderia perder um minuto de baile por causa de loucos mascates.

Entrando no recinto, percebo que está tudo muito lindo, ornamentado em um trio de cores espetacular: preto, vermelho e dourado. A música é melodiosa, valsante, e as bebidas têm uma coloração intrigante em tons sempre escuros. Sento-me à uma mesa num canto discreto. Estou sozinha e não gostaria de ser notada tão facilmente, mas, ainda assim, sinto o aproximar de uma figura masculina, gentil, máscula e imponente. Respiro fundo, parecia admirável. Essa figura me estende a mão, nada me diz. E eu sei que é para uma dança, eu sei. Penso por uns instantes, ele está mascarado, é óbvio, a sua luva alvacenta e muito limpa me convence de que devo aceitar a sua dança. 

Levanto-me, educadamente, e a minha face se curva ao cavalheiro. Mas o salão está levemente escuro, luzes baixas, e a música alcança uma frequência soturna demais para mim. De repente, os meus ouvidos captam um som doído e tento me afastar, mas o cavalheiro não permite. Não bastara a máscara que não sai da face minha, agora sou obrigada a ficar de mãos dadas e corpo colado a um homem que eu nem consigo ver a face, pois tal se cobre com um molde esdrúxulo e que parece também ter grudado em sua face, a qual não existe. Onde eu estava com a cabeça para aceitar dançar com ele? Era impossível ver o que havia de estranho com tanta delicadeza desse senhor cavalheiro. Mas me arrependo. Estou presa a esta dança como quem sente tortura até a hora da morte.

Depois de ficar presa ao corpo dançante do jovem homem, decido que quero abandonar a dança, mas ele me dá a condição de que se isso eu fizer, é certo eu aguardar algo negativo acontecer. Não me importo, e ao me afastar do seu corpo, ele desaparece, quase imediatamente. Se ele não tem face, como saberei onde ele vai?

Me perco nos pensamentos e já me sinto tonta, quando algum maitre parece perceber a minha fraqueza e me oferece um néctar rubro. Não penso, aceito e no mesmo instante parece que todo o baile se acaba, cessa e não estou mais lá no castelo. Deparo-me com outro ambiente similar, como se fosse um espelho de todo o baile. A tal máscara ainda está em meu rosto, o sabor do líquido rubro ainda desce garganta abaixo e não há nem mesmo o tal cavalheiro valsante sem face para me ajudar. As mesmas pessoas do baile estão presentes, mas todas sem cor, nem graça, nem rosto... como eu voltarei? Como? 

Lembro-me de que não poderia parar de dançar. Se eu valsasse até o fim do baile talvez eu ainda estivesse lá e não viria para este recinto fúnebre, obscuro, demoníaco. As pessoas me olham e sorriem irônicas, sarcásticas e o som das suas risadas são como surras em meus ouvidos. Logo, as risadas transformam-se em gargalhadas colossais e, para completar o meu reflexo parece se fundir a um espelho negro e sorri para mim, desfigurado. Outrora chora e faz caretas perturbadoras e chacoteia de mim. 

A minha lágrima desce, dolorida, dolorosa, e os seres fingem dó e compaixão, ironicamente, de maneira sarcástica. Me distraio com a face baixa, encarando o piso reluzente do salão, embora ele esteja coberto por um carpete em tons rubros e dourados. Nesse momento, ao levantar a minha face, não há mais ninguém e noto que estou de volta ao salão anterior, no castelo Drácula, sobretudo, vazio, escuro e já se aproxima das três horas da manhã. 

Sozinha, mascarada, sem luz. Lembro-me da placa que li ao adentrar o castelo, que dizia que o baile seria encerrado às três da madrugada e todos deveriam se retirar e voltar para os seus lares ou aposentos. O que me resta é sair do recinto e tentar retornar para casa. Mas o silêncio é gritante e o som dos ponteiros de um relógio arcaico são ensurdecedores. Não obedeço. Fico ali olhando fixamente para o relógio do grande salão até passar da hora exata, como afronta. Não importa o que me aconteça. Continuo, e agora, três horas e um minuto, sinto a necessidade de seguir a luz da lua fúlvida que lumia a saída do salão.

Os meus olhos se deparam com aquele homem das máscaras caído ao chão e a face ensanguentada. A cena é terrível. O homem sem face também aparece e o toca no rosto coberto pelas líquidas hemácias. Eu não me sinto pronta para ver isso e quando penso em ir embora e sair daquele jardim afora, o mesmo maitre que me serviu a bebida rubra parece cercar o meu caminho para que eu não passasse, mas o venço e me retiro dali, junto à máscara, que arranco da face sem pensar mais. Respiro fundo, ofegante e aquele castelo parece ser engolido pela terra, restando apenas eu na estrada de volta para a minha casa.

Não contarei a ninguém. Não ousaria. Ninguém acreditará. Mas foi o baile mais assombroso cujo qual participei. Se eu voltaria ali? Contarei as horas para o próximo evento, que acontece de sete em sete anos.

Sete anos depois, sorrio sinistra para o terreno baldio, onde um dia aconteceu o grande evento e coloco uma placa cravada naquela terra, escrito “Preparem-se para o grande baile do Castelo Drácula”.

Texto publicado na 5ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de maio de 2024. → Ler edição completa
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Baile das Sombras

Não duvido de mais nada… Deixei de duvidar há bastante tempo, e minha estadia neste Castelo, desde os primeiros momentos em que pisei com os pés aqui…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Não duvido de mais nada… Deixei de duvidar há bastante tempo, e minha estadia neste Castelo, desde os primeiros momentos em que pisei com os pés aqui, me comprova ser totalmente compreensível uma abertura dessas para o mundo-outro, o outro-mundo… whatever

Jamais sabemos o que pode estar nos esperando ao dobrarmos num corredor, ao abrir uma porta… De uma hora para outra, podemos cair num buraco do qual nem tivéramos notícias antes, ou então sermos puxados para algum recanto que também mal imaginávamos poder existir… Isso tudo tenho dado como possível de acontecer desde os últimos acontecimentos…

Finalizei minhas mais recentes anotações ao me deparar com batidas na minha porta… No quarto em que estava (concentrando-me em colocar no papel minhas impressões advindas dos fenômenos ocorridos nesse lugar), só podia pensar ser algum coabitante, outra presença, talvez, decidida a estabelecer contato e, quem sabe, me convidando para alguma conversa — coisa dificilmente vista no ambiente, devo ressaltar, longe de parecer desejada pelos presentes, ainda arredios pela recente chegada…

Aconteceu que não havia ninguém… vivalma alguma, no limiar de meu quarto, para me dizer o que quer fosse. O que eu entrevi ao olhar para os dois lados do corredor foi somente uma carta, quase sob os meus pés, mas chamativa o suficiente para me fazer pensar no porquê da pessoa que a deixara ali não ficar para me entregar em mãos… Situação no mínimo enigmática.

E qual não foi minha reação ao ver o remetente da carta: Drácula! Sim, o próprio, era quem aparentemente assinava... Ao menos, era o que eu não podia duvidar, tendo passado por todas aquelas situações vivenciadas até então, com fumaça nos corredores, presenças semifantasmagóricas no local…

Era um convite, me convocando para um baile no salão principal do Castelo; havia até a indicação de roupa formal para o “evento”, a qual eu encontraria, já à disposição, no armário do meu quarto. Ou seja: pensei estar passando por algo planejado antes mesmo de minha chegada! (em algum filme eu devo ter visto isso: convidados chegando inesperadamente, encontrando-se com outros desconhecidos, todos eles sendo, de uma hora para outra, chamados para igual confraternização… O jeito como isso acabava que não lembro de ser sempre boa coisa).

Enfim… me vesti, da maneira que achava mais confortável (pois, de fato, não sendo muito chegado a festejos, gosto no mínimo de me arrumar de modo que me sinta satisfeito dentro de alguma roupa de ocasião), e dei outra olhada naquele cartão deixado no sopé da porta. Li mais uma vez a parte em que dizia estar programado o fim do baile pontualmente às 3h da manhã… Ora! mais essa! Chegando às sete da noite, o desfecho seria nesse horário da madrugada, que, pelo que eu saiba, tem simbologias fortes e dizem ser o momento de maior ocorrência de fenômenos paranormais… Juro que estava empolgado, mas lá, no fundo, temendo algo do desconhecido

Tudo no mesmo dia, tudo ocorrendo como se eu fizesse parte de algum jogo, fora do meu controle… Minha apreensão era do tamanho da minha curiosidade; ainda que não fossem muito claras as intenções para aquele convite, eu não tinha como não sentir certa “honra”, certa disposição positiva para fazer presença nesse baile que, a meu ver, tinha tudo para ser como eu imaginava: um salão suntuoso, repleto de mesas, lustres enormes, cristais… Mas entre todas essas divagações acerca do que haveria ou não no evento, o que mais me inquietava era saber sobre os outros convidados… Quem estaria lá? Será que outros membros do Castelo? Gente de fora?... Por conta disso, finalizei o trato do meu traje e parti, rumo ao salão principal.

Minha chegada ao salão foi do jeito mais peculiar que podia imaginar. Aproximando-me da majestosa entrada, ela parecia abrir de maneira voluntária, sem força aparente que a manipulasse… E qual não foi minha surpresa ao ver o que acontecia lá dentro: uma centena, quiçá milhares de pessoas (o que se via era uma nuvem de cabeças, de vestimentas e máscaras, impossibilitando meu olhar de enxergar a parede oposta de onde eu estava), a maioria trajada em vestes escuras, de rosto coberto, encarando umas às outras, de maneira que adivinhei casais confabulando entre si, amizades sendo feitas… Em razão do uso solicitado de máscaras, senti-me aliviado, pois, de outro modo, alguém teria certamente visto meu semblante impressionado e, também, assustado diante de toda a pompa…

Enquanto ensaiava uns tímidos passos em direção à mesa mais próxima, onde percebia um recoberto prato de refeições, fui interrompido… Uma mulher, um pouco maior que eu, completamente envolta em sua luxuosa indumentária (tão escura que fazia eu perder a perspectiva de seu corpo, perto de mim), estendia-me uma das mãos… Minha presença ali, que já parecia involuntária, agora estava totalmente ao dispor dos estímulos exteriores; sendo assim, sem demora, tudo o que lembro foi estender meu braço e me deixar guiar por aquela dama — sem saber seu nome, seu rosto, sem um pingo de consciência sobre quem me arrastava agora para o meio do salão…

Vou escrevendo na medida em que me recordo dos últimos acontecimentos no baile; pois, estranhamente, depois de me ver guiado por essa mulher, as imagens que me vêm à memória são de uma completa estranheza (pelo menos, da maneira com que me lembro).

Abrindo espaço entre as pessoas que nos rodeavam — todas de máscara, com taças na mão, misteriosamente encarando-nos dos pés à cabeça, sem esboçar outra reação —, fui percebendo que estava começando a soar uma música, sutilmente chegando de algum canto do salão e ambientando o lugar. Escondendo meu rosto por trás daquela máscara, mas ainda assim receoso de levantar o olhar e me deparar com algo além das minhas capacidades humanas, minha companheira desconhecida subitamente estacou o passo. Arranjando-me uma das minhas mãos ao redor de suas costas, com a outra eu maquinalmente suspendendo uma das mãos dela (recordo neste instante o contato com seus dedos, graciosos e gélidos dedos), nós iniciamos a dança…

Não tendo ideia alguma de onde eu poderia ter aprendido aquilo, simplesmente lembro de conseguir acompanhar minha parceira da noite. Seus leves movimentos de quadril e pernas, no ritmo da música que tocava, eram seguidos dos meus, nada estabanados, todos dando um prosseguimento digno e, diria, primoroso ao ritmo da dança. 

A todo momento, quando nossos olhares pareciam se alinhar, eu tentava observar em meio àquela máscara dourada os olhos de minha enigmática companheira. Rapidamente, sempre que isso eu ansiava, ela baixava o olhar, e logo em seguida me envolvia em sua espiralada dança. Também a música, nesses momentos, parecia conspirar contra a minha vontade de adivinhar a identidade de quem me acompanhava, e sucessivos foram os períodos em que uma agitação tomava conta do salão, impossibilitando de vez qualquer iniciativa de estabelecer contato visual ou vocabular com ela…

A noite foi passada assim, literalmente assim… dançando, girando, contemplando os pares que surgiam ao redor de nós e se abraçavam, repetindo os movimentos de nossa dupla… ninguém, absolutamente ninguém eu pude perceber fazer outra coisa que não fosse dançar, rodopiar naquele salão e contribuir com o brilho de sua máscara dourada para o reflexo quase entorpecedor de luzes e mais luzes…

Tenho a absoluta certeza de que, desde o primeiro minuto em que coloquei os pés dentro daquele baile, nada mais fiz a não ser me ver dominado pela decisão daquela estranha e atraente mulher de me guiar para a dança. Levado como fui por suas mãos — aquele toque que ainda agora sinto roçar em meus braços, preenchendo meu corpo com frígida sensação —, somente lembro de ficarmos juntos, perdidos nas horas em que acontecia o evento e sem nos preocuparmos com mais nada. Nem mesmo a comida, que quase eu descobrira ao adentrar no salão, eu pude saber qual era… Cardápio nenhum passou por meus olhos e boca… Absolutamente nada foi o que eu fiz e descobri — além de me ver capaz de empreender alguns passos de dança, bailando junto de alguém cujo nome não tenho ciência, e me deparar sobre a minha cama, nesse meu quarto do Castelo Drácula (que leva o ilustre nome de quem assinava o convite, mas de quem não tenho lembranças de ter avistado durante a noite), após o que parecia soar como um aviso de que havíamos chegado, talvez, às 3 horas da manhã, horário final da festa…

Texto publicado na 5ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de maio de 2024. → Ler edição completa
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Sepulcral

Profundo silêncio entre os vestígios de vida sob o manto da madrugada. Se somente vozes fossem ouvidas, o que elas diriam? Com quem se confessariam?…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Profundo silêncio entre os vestígios de vida sob o manto da madrugada. Se somente vozes fossem ouvidas, o que elas diriam? Com quem se confessariam? Pecados apagados como arte herege dos templos de um deus-demônio de alguma religião morta, como de fato são todas as religiões.

Não sinto o chamado do fogo, nem o canto do vento, mas escuto o ressoar de asas e risos quase infantis emergindo das sombras. Queria poder viver em seus olhos de novo. Percorrer com meus tentáculos sua pele de novo. Mas o tempo, tão morto como morto é o desejo na rotina, é imparável.

Quebram os sinos da antiga catedral com seus bancos empoeirados, e sua congregação de fantasmas cantando em coro o hino das lamentações. O que dizer a uma mãe cujo filho está em pedaços em seus braços? O que dizer a um anjo irado na iminência de fazer arder uma cidade? 

O fim de todas as coisas é inevitável, por vezes até desejado, entre mentiras banais e verdades inconvenientes temos somente a certeza da passagem.

Eu te amo, eu te odeio, você atravessa minha janela fechada e arrasta as velhas cadeiras me acordando à noite. Sinto o cheiro da sua pele e seu hálito frio no meu rosto. Dançando sobre os retalhos de meus sonhos, velhos sonhos, misturados com vestígio de uma vida que não tive, de uma existência inventada

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Sob a luz do lustre dourado

Estimado amigo, hoje escrevo-te pela manhã. Após meu encontro com Maria, obtive certas respostas, creio que ainda permaneço abalada devido as recentes…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Estimado amigo, hoje escrevo-te pela manhã.

Após meu encontro com Maria, obtive certas respostas, creio que ainda permaneço abalada devido as recentes descobertas. Estou sozinha, estimado amigo, nada tenho, mesmo a mais vergonhosa mácula impregnada em meu passado fora extinguida com o disparar das horas e dos anos. Devo contentar-me com esta recém-adquirida nova vida, e transformá-la em uma oportunidade valiosa de encarregar-me de reconstruir minha imagem, afinal não fora isto que desejei toda a vida?  Por anos, em momentos de descarrego emocional clamei em desespero por uma forma de aproximar-me da realidade, dos demais ao redor, como parte de um todo, a peça mais valiosa e não mais o borrão disforme vergonhosamente manchando o bonito cenário transcrito no livro da vida.

 Lamento minha perda, não compreenda meu anseio pela nova vida como inércia.

Pois bem, após Maria e eu deixarmos o leito em vão em busca do relógio de ametista, unidas deslocamos nossos passos pelo interior do castelo, porém nada encontramos, como se a lembrança do artefato, e do caminho feito por mim ao vosso encontro, fora apenas fruto de minha mente criativa e exaurida.

Um minuto, caro amigo, fora empurrado algo por debaixo de minha porta e não posso ignorar esta ocorrência. 

Escrevo-lhe horas após a ocorrido.

Paciente amigo, volto imensamente intrigada com minhas novas circunstâncias; algo fora deixado para mim, um convite de nosso misterioso anfitrião, vou transcrever suas palavras para que o registro deste evento jamais se perca. 

Diz a missiva:

Inestimável conviva.

Com honra, e profundo fascínio, venho por meio desta carta convidar-te para o anual Baile de Máscaras do Castelo Drácula. O trajo deve ser formal, como deves presumir, e tua máscara deve lhe cobrir o rosto ou parte dele. Serviremos um banquete memorável à meia-noite e as extraordinárias taças de diamante vestal receberão nosso liquor-carmesim, o especial da casa, para que brindemos ao ápice da Lua Cheia. A música findará às três da manhã e os estimados hóspedes deverão regressar aos seus leitos neste momento. Solicitamos a presença, sem atrasos, às dezenove horas de amanhã. Que sejamos agraciados com a tua presença sublime neste deslumbrante evento.

Respeitosamente, Conde Drácula.

Interrompo meu relato por agora, pois o tempo é curto, e preciso do auxílio de Maria com os arranjos do baile, até breve.

Benquisto amigo, escrevo-te pela madrugada.

A noite iniciou de forma formidável, Maria e eu permanecemos obstinadas a encontrar uma resposta para o desaparecimento do artefato e a sala onde deveríamos encontrá-lo. Durante nossa reflexão, cuidamos de nos aprontarmos para o baile. Maria pediu-me que cortasse vossos cachos ruivos de mechas esverdeadas, fazendo deles uma nuvem volumosa de bonitos contornos espiralados, disse ela, que o novo corte lhe traria modernidade, uma vez que o ambiente em que nos encontramos era abarrotado o suficiente pelo passado, como um eco seco dos anos passados aprisionados nestas paredes medonhas envelhecidas. 

Embora a valentia e a ferocidade façam parte da personalidade de minha nova amiga, a ternura trasborda de vossos olhos, eu a vi no momento em que o sorriso contido tornou-se alongado á medida que os olhos deslizaram por meus trajes, os poucos que ainda me restaram, porém ainda datados. Descobri que Maria é uma exímia colecionadora de artefatos antigos, trajes históricos estão em sua lista de preciosidades. Com tamanha felicidade apresentou-me o traje escolhido para a noite do baile; um belíssimo vestido francês verde-oliva repleto de pompa, com aplicações negras por todo o tecido, aberto e alinhado à cintura, acompanhando de peitilho, mangas e gola, ambos bufantes e rendados, por detrás da sobreposição formava-se uma cauda repleta de excepcionais pregas negras.

Maria explicou-me didaticamente os cuidados que tomava com as peças, e o traje, o qual fora adquirido de segunda mão, era uma raridade histórica de alto valor, e não poderia jamais ser manuseado com descuido. Ao apresentar-me vosso baú de preciosidades mal pude crer em meus olhos, pois junto aos tesouros de minha amiga estava meu vestido de baile, o vestido o qual jamais ostentei, pois logo após sua aquisição fui obrigada a deixar meus pertences para trás. Creio que o destino juntou-me a Maria, esta criatura nobre, querida e obstinada. 

Ao sentir o vestido, que ainda permanecia belo e branco quanto me lembrava, e a delicadeza do cetim e da seda, transbordei em lágrimas. O belíssimo vestido de noite decotado, de corpete baixo, manga rendada, saia drapeada e cauda, que presa a cintura, na parte posterior, alongava minha silhueta, sempre fora o meu favorito. Após estarmos satisfeitas com as vestimentas, nos comprometemos a investigar o espaço, e nos encontrarmos no salão de baile.

Embora dolorosamente enfraquecida, cobri-me com minha capa e desci as escadas devagar, cuidadosamente para não encontrar-me com os demais moradores do castelo. Ao aproximar-me do salão ouvi a movimentação e a música que preenchia todo o ambiente. Em frente a porta, duas figuras mascaradas recepcionaram-me com cortesia, eu os cumprimentei receosa e entreguei minha capa, porém o simples movimentar de suas mãos, ao tocarem no tecido e logo após girarem sincronizadamente as maçanetas da grande porta dupla do salão, trouxesse um vento frio e cortante, arrastado através da movimentação das deslumbrantes figuras, também mascaradas, transitando com uma delicadeza mórbida pelo baile, feito marionetes.

Minutos após a minuciosa inspeção, não reencontrei minha amiga, ou qualquer outro rosto familiar, porém, afastado da multidão de bailarinos ardorosos ao som da sinfonia número cinco de Vivaldi, uma figura masculina de bonitos cachos loiros dourados, pele alva, bigodes finos, e olhos de um azul profundo, como os das campânulas soterradas pela neve encontradas por mim certa vez próxima ao poço, se aproximou sorrateiro como uma raposa e estendeu os dedos alongados e espaçados vagarosamente para mim em um convite para uma dança. Com o decorrer da movimentação teatral e exaustiva de nossos corpos projetou-se em minha mente um rosto masculino do passado, um erro o qual por dias venho procurado esquecer. 

–  Trindade? – Exprimi receosa, correndo os olhos por suas vestes brancas, como as dos oficiais da cavalaria. Contendo o impulso de tocar-lhe a face em busca de reconhecimento, afastei-me abraçada ao meu próprio corpo.

Ao ápice da lua cheia, o homem de meu passado estendeu a mim uma taça de diamante vestal repleta de um liquor-carmesim, exatamente como descrito na missiva de nosso anfitrião.

Contemplando os olhos, que outrora brilhavam em um azul celeste místico, distingui um ponto carmesim crescente o qual tomou a pupila rapidamente, distanciando a figura masculina da familiaridade anterior, deixando a imagem do homem de meu passado para trás, honestamente deixara de se igualar a qualquer ser humano comum. 

A lembrança de Trindade, mesmo que por alguns instantes, lembrou-me da dor de retornar a memórias regressas, ultrapassando meu ambicioso desejo de permanecer altiva, e não desejava mais transformar-me, mas sim permanecer autêntica, afinal, minhas memórias e falhas fariam de mim a sobrevivente a qual deveria não mais representar e sim tornar-me.

A figura, agora estranha para mim, novamente estendeu-me a taça, porém, não me atrevi a tocá-la, pois ao recorrer ao instinto de tocá-la ouvi dela um grito agonizante á medida que o liquor ocupava minha atenção. 

Sob a luz do lustre dourado e tortuoso de sinuosas curvas semelhantes a garras, permaneci solitária, mesmo meu acompanhante, desapareceu obediente a regra de recolhimento, e desacompanhada segui o clarão da luz pela madrugada, porém, o que testemunhei ao procurar pelo corpo celeste cintilante foi o retorno das memórias de um passado sangrento e lascivo, e pela primeira vez em minha curta vida, senti-me corajosa, nada amedrontada, preparada para enfrentar meus demônios e buscar uma forma de estabelecer minhas forças.

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Fluxo do Óbice

Desde que meu celular descarregou totalmente, me perdi um pouco com a minha escrita, deixei a desejar algumas coisas…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Diário Não datado – Encontrei uma humana

Desde que meu celular descarregou totalmente, me perdi um pouco com a minha escrita, deixei a desejar algumas coisas. Me encontro numa maré de dúvidas cercada de coisas que me atormentam de algum modo avassalador que me consomem e até a minha fome está em escassez. 

Quando Jason e eu fomos destinados a visitar este castelo, não nos foi dito nada além do que nossa vinda e agora que já nos encontramos aqui, sinto que sei ainda menos. Conheci a jovem bela e solitária Astrid, que além de ter vivido em uma outra época, é uma humana que se encontra ainda em vida. O tempo não é mais equivalente desde que me tornei imortal, mas esse encontro com Astrid me deixou em conflito com minhas expectativas pessoais.

Nosso diálogo foi muito curto, mas senti uma conexão com tal, que me fez querer entender um pouco mais o propósito deste castelo. As vozes que antes foram escutadas de muito longe, agora são reais e existem pessoas nesse lugar além do anfitrião. O bálsamo que me atormentara outrora agora sumiu de vez e me sinto sem um sentido a que buscar além de verdades absolutas. Se é que existe alguma.

Vim para este lugar como subordinada com um propósito não específico e o que me restara além de divagações e disparates aleatórios é o Jason e um salão cheio de indivíduos que buscam algum sentido neste percurso. 

— Jason, precisamos aprender a nos comunicar por telepatia, vamos nos unir mais do que já somos e vou precisar que haja com mais cautela, estamos entendidos?

— Miau! — Jason confirma com a cabeça.


Dia __

Um outro dia se passou e me recordei do encontro com Astrid, quando fomos à procura do relógio e que não encontramos nada além de mais uma sala vazia neste imenso castelo. Quão arraigada este sórdido acontecimento me aproxima a um pútrido estado de estagnação e frigidez inconsolável. 

Caminhei neste quarto sem pensar em palavras que me aproximassem da minha escrita diária. Que me trouxessem alguma inspiração efêmera e me tirar desse abismo em que me encontro. Lembro-me que Astrid tem uma escrita solitária e sinto culpa por vaguear em suas palavras intimamente sem decoro. 

Tenho o Jason como um companheiro para toda uma vida. 

Somos gélidos, somos siameses em alma, nossas mentes se cruzaram em um destino mortificado de imortalidade, temos o mesmo desejo e na frígida presença em que me encontro, ele tem sido o meu maior consolo. 

— Miau! 

Jason me trouxe uma mensagem telepática enquanto caminhava do corredor até o nosso leito, na distância eu já percebera que algo novo estava surgindo e ao deparar-me com a missiva em sua boca felina:

Inestimável conviva, com honra, e profundo fascínio, venho por meio desta carta convidar-te para o anual Baile de Máscaras do Castelo Drácula. O trajo deve ser formal, como deves presumir, e tua máscara deve lhe cobrir o rosto ou parte dele. Serviremos um banquete memorável à meia-noite e as extraordinárias taças de diamante vestal receberão nosso liquor-carmesim, o especial da casa, para que brindemos ao ápice da Lua Cheia. A música findará às três da manhã e os estimados hóspedes deverão regressar aos seus leitos neste momento. Solicitamos a presença, sem atrasos, às dezenove horas de amanhã. Que sejamos agraciados com a tua presença sublime neste deslumbrante evento. 

Com respeito, Conde Drácula.

Após a leitura, sinto uma fraqueza pela “falta” que me acomete, e com esta carta sei que respostas serão esclarecidas. 

— Jason, precisamos encontrar Astrid, nossa nova companheira e amiga. Temos um baile à nossa espera.


Diário Não datado – Amizade

Sou completamente movida pelos meus sentimentos e Astrid me trouxe algo que já não sentia algum tempo... saudades da minha terra acalorada e onde moram todas as minhas amigas. 

Desde que este cadáver ambulante não sente mais as gotas escorrendo pelo rosto de suor, tenho a impressão de que me afasto cada vez mais do que já fui um dia e mesmo inconsolavelmente angustiada, sinto que algumas coisas estão por vir.

Meu encontro com Astrid dessa vez foi mais íntimo e com uma confiança mútua pela minha nova amiga, compartilhei minha coleção preciosa de roupas e artefatos que passei alguns dos meus anos de vida de escritora independente garimpando em sites e brechós. Minha coleção vai além de indumentarias e, ao ver um vestido específico no meu baú, vi os olhos da minha amiga solitária brilharem pela primeira vez. 

Aquele rosto jovial e sensível estava radiante, Jason brincava com Astrid enquanto ela cortava meu cabelo, um penteado novo para fazer jus à minha nova personalidade que luto diariamente para aceitar. Nos olhamos no espelho juntas, com nossos trajes, Jason estava usando um fraque vitoriano verde oliva, combinando com meu vestido, e um colar elizabetano preto, combinando com os detalhes do meu vestido, seus olhos me direcionavam amorosos e ele ronronava de felicidade. 

Minha amiga Astrid estava belíssima naquele traje que fora feito especificamente para ela, uma jovem mulher com sentimentos tão profundos e que agora poderia compartilhar um pouco de suas dores comigo. Nos olhamos no espelho de maquiagem feita, cabelos no alto e combinamos de nos encontrar no baile. 


Baile

— Jason, estamos devidamente trajados para a ocasião, não acha? Sinto que nos falta algo...
— Miau! — Jason confirma e telepaticamente esboça uma máscara em minha mente. 

Desde que eu soubera da presença de outras pessoas neste castelo, o eflúvio que discorre neste ambiente tem me deixado deveras questionadora. Enquanto andamos até uma cabana de um homem esguio, os tons da cabana me chamaram atenção, parei para apreciar enquanto Jason procurava uma máscara. Como imaginar que estaríamos em um lugar como este e um evento como tal, podendo enfim usar meus trajes que estavam guardados, que utilizei apenas para algumas fotos com meus livros. 

— Miau! — Jason me chama telepaticamente mostrando uma máscara de meio rosto que combina com os tons do meu vestido. Deixando apenas a minha boca a mostra e a dele da mesma forma.

Saímos da cabana do homem estapafúrdio, e decidimos procurar nossa amiga Astrid. 

Nesta noite de lua cheia onde os lobos uivavam ao longe, e os sentimentos intensificados nos acendendo uma chama que há muito balança pesadamente no nosso corpo leve, Jason compartilha comigo de sua forma, mas sentimos do mesmo pesar e agora caminhando até o salão onde será servido o liquor-carmesim à meia noite. 

Dancei um pouco com meu gato amado, relembrando os nossos momentos rodopiando ao som de The Cure em nosso quarto. Pedi para que ele cumprimentasse os membros que estavam no salão. A interação dela facilitaria ouvir algo que pudesse ser útil para entender nossa presença neste inestimável evento do Anfitrião. 

Enquanto ele fazia amizades, eu pude olhar em volta e a ambientação com a decoração que só vemos em filmes e séries prestigiados, me irradiaram em algum momento. Me perdi nos tons de vermelho e dourado, as rosas vermelhas recheadas em diamantes exibidos nas mesas bem ornamentadas. O corredor que cercava alguns encontros de cômodos do castelo, estavam todos com quadros específicos para o baile e neles estavam todos com membros mascarados, alguns poderiam ser criaturas assim como eu e Jason, ou quiçá algo que não faço a menor ideia.

Sou levada pelas luzes dos candelabros e relembro de uma fascinante ópera que presenciei em minha cidade. Na nostalgia que me devaneava em sentimentos conflitantes. Fui tocada por alguém. E com a mão esquerda me convidando para uma dança.

Me senti receosa, pois a aparência de tal me deixava um pouco assustada. Devo ser a vampira mais frustrada existente... Criei coragem no meu âmago e aceitei a instância. 

O ser a minha frente estava caracterizado com as cores que já citei anteriormente, combinando completamente com o castelo, como se fosse um membro importante. Enquanto em passos sendo bem guiados pelo salão, uma melodia começara e me lembrava o toque de Elfen Lied. 

Não consigo discernir o que qualifica este companheiro, que com maestria me leva pelo salão de forma flutuante, eu não consigo ter totalmente o controle dos meus pés e por mais que eu precise encontrar Astrid, meus sapatos não param de se mexer, acompanhando, rodopiando, curvando e quase rasgando os fios delicados do meu vestido raro. Tento chamar Jason telepaticamente, mas não consigo tirar meus olhos dessa máscara que cobre o rosto por inteiro, consigo apenas enxergar que agora os olhos estão vermelhos e fascinantemente eu consigo desprender uma das mãos. 

Ao tentar me desvencilhar por completo, acabei colidindo com um homem, de fraque preto, com detalhes amarelos e não dourados, a máscara cobrindo apenas metade do rosto como a minha. Ao tombar com este homem, meu vestido é fracionado e os tecidos tão delicados, agora estão no chão de mármore do salão. 

Minhas veias inflamam no meu rosto, meus pulsos começam a acelerar juntamente com meu coração, meus olhos mudam de cor e agora não tenho mais controle, minhas presas foram direto no pescoço deste infeliz, que agora com a cabeça em uma das mesas com o jarro quebrando ao chão, me alimento firme, minha frigidez indo embora bruscamente, e num salto Jason pula no pulso dele. Alimentamo-nos juntos naquela carcaça que conseguira colocar para fora toda a raiva guardada dentro de mim. 

Não consigo enxergar as pessoas à minha volta, só consigo pensar que Astrid não tenha medo de mim, pois não me alimento de mulheres assim como meu clã. E há muito não colocava para fora esse meu lado vampiresco. Só consigo pensar que perder algo importante para mim agora, meu vestido, uma amiga, minhas dúvidas jamais serão sanadas.

Ao terminar minha refeição juntamente com Jason, procuro à minha volta o ser que dançara comigo e não consigo mais avistar. Minha mente lateja junto com o toque relógio para a hora do liquor-carmesim e eu corro em direção ao meu quarto. 

Estou cheia.

Texto publicado na 5ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de maio de 2024. → Ler edição completa
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O Que Importa

A vida é curta, disse-lhe a ciência. | Curta demais para dizer um não... | Tão curta que só de pensar na ausência | sente Isabel pesar o coração…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Em homenagem a Isabel Veloso.

A vida é curta, disse-lhe a ciência.
Curta demais para dizer um não...
Tão curta que só de pensar na ausência
sente Isabel pesar o coração.

Porém, percebe que o Amor lhe traz
nesta fatalidade algum alento:
em todo abraço goza de uma paz
que não achou no seu medicamento.

Que importa se o pesar da alma lhe agita,
se qualquer primavera que lhe fita
a dor quer transformar em duro inverno...

Que mais importa? Importa-lhe viver
o milagre de amar e de fazer
que cada curto dia seja eterno.

Texto publicado na 5ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de maio de 2024. → Ler edição completa

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Um rosto trágico III

Dobrado, na sarjeta cinza e úmida | Jazia o corpo: inerte, a sós… De ação | Em volta, apenas olhos, viaturas; | No ar, a curiosa exclamação:…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Dobrado, na sarjeta cinza e úmida
Jazia o corpo: inerte, a sós… De ação
Em volta, apenas olhos, viaturas;
No ar, a curiosa exclamação:

“Coragem pra saltar daquela altura!”
Diziam, como se a motivação 
Daquela agora morta “criatura”
Passasse por igual preocupação…

Quem visse em vida o homem — já extinto,
Vagando qual anônimo indigente —,
Incerto é que previsse aquele estado…

Ainda mais depois de ver sorrindo
A face no retrato adolescente
(Achado no seu bolso), acompanhado…

Texto publicado na 5ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de maio de 2024. → Ler edição completa
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Convite

Um estridente ranger é ouvido por toda biblioteca; a porta fora aberta, mas permaneço encarando o temível livro. Quando um forte caminhar rasga o…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Um estridente ranger é ouvido por toda biblioteca; a porta fora aberta, mas permaneço encarando o temível livro. Quando um forte caminhar rasga o silêncio daquele lugar, causando sutis arrepios, em determinada hora, os passos cessam, pela minha visão periférica enxergo debilmente uma figura, ela traz consigo um castiçal contendo uma vela a qual projeta, sob o piso de pedra, dançantes sombras; ao virar, me deparo com uma figura trajando um manto sombrio e, após um comprimento formal, a figura estende uma das mãos, revelando um envelope rubro, se esvaindo na escuridão, deixando-me sozinha novamente.

Abro o envelope com cautela, meus olhos quase saltam da órbita. Escrito em letras douradas, no papel de mesmo tom rubro, um convite para um exuberante baile de máscaras; tal ideia me encanta, pois, sonho com este momento desde criança, leio com atenção as instruções, assim como a localização dos meus aposentos, bem como meus trajes. 

Eufórica, imaginei-me rodopiando com algum deslumbrante vestido, animada, guardei o convite na jaqueta, respiro profundamente, e ele ainda está lá, o livro clama por mim, creio que terei tempo de vê-lo, mesmo que rapidamente. Volto-me para o livro, deslizo suavemente meus dedos sob a repugnante superfície daquele puído e grandioso exemplar, deixando resíduos debaixo das minhas unhas. Havia um símbolo em sua capa, vejam bem, apesar de nova, sou bastante curiosa em relação ao oculto, consumi alguns livros sobre o assunto, mas esse símbolo me causa certa estranheza, nunca vi nada igual, e se encontra severamente devorado pelo infindável tempo.

Ao abri-ló me deparo com uma série de funestos símbolos e fragmentos de textos, escritos em uma língua desconhecida, tão antiga quanto a existência. O odor ferruginoso salta no ar, fazendo-me salivar, meu colo pulsa fortemente, deixo escapar de meus lábios uma leve excitação, “preciso me controlar” digo a mim mesma, fecho o livro, e vou em direção aos meus aposentos, pois tenho um baile a ir. 

Conforme eu caminhava, ouvia conversas e sussurros, alguém caminhava com graça sob saltos altos, escuto um ansioso respirar, notei algumas fragrâncias como sândalo, outras mais cítricas, cheguei até meu quarto e abri a porta. Meu coração, então, disparou, acima dos lençóis perfeitamente arrumados, encontrava-se meus trajes. Sem dúvida o anfitrião me conhecia, era um estupendo vestido longo renascentista, todo trabalhado no cetim roxo, adornos em rendas pretas abrilhantaram ainda mais a peça, por fim, uma encantadora máscara, feita inteiramente com rendas douradas e roxas.

Devidamente vestida, me dirigi com rapidez para o salão principal, meu colo batia descompassado, segui com mãos gélidas. Após atravessar um extenso corredor, me deparo com o salão principal, repleto de rostos desconhecidos, homens e mulheres trajando a mais pura elegância, todos exuberantes, tudo era maravilhoso, as máscaras deixavam tudo ainda mais misterioso. 

Um quarteto de cordas tocava alegremente as quatro estações de Vivaldi, os acordes tocados eram um convite para bailar, meus olhos ainda contemplavam aquele belíssimo baile. Pouco a pouco os outros hospedes ocupam o enorme salão, meus olhos encontram uma estranha figura, ela se aproxima com leveza, muito cordial me oferece uma bebida em tom carmim, retribuo a gentileza, aceitando a taça dourada. Após erguê-la, sorvo de forma voraz, em seguida ele me conduz para o meio do salão, estende a mão direita e gentilmente me convida a dançar, ele trajava vestes negras, sua máscara do mesmo tom das vestes; seus olhos azuis me remetiam à horrenda noite em que experimentei o gosto amargo do sangue.

Após longos rodopios, encontrava-me em outro lugar onde a decadência reinava imponente, assemelhando a um sonho, o castelo estava em ruínas, todos os convidados assemelhavam a horrendas sombras bailando em celebração à depravação, a alegre canção que outrora preenchia o castelo fora substituída por notas fúnebres da sinfonia de Giuseppe Tartini, intitulada Devil’s Trill; a dança se tornou lascívia, com movimentos rápidos, meu estranhamento foi notado pelas criaturas, era possível ouvir sussurros maldosos através das sombrias máscaras. Soltei a mão do meu acompanhante e questionei o que estava acontecendo, mas ele gargalhou, senti o escárnio vindo dele.

Aproximou-se de mim e disse: “Você não pode fugir disto, é o seu destino! Entregue-se à escuridão”. Amedrontada, empurrei-o e tentei respirar, em vão, por mais medonho que fosse, ele tinha razão, pertenço à escuridão.

Texto publicado na 5ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de maio de 2024. → Ler edição completa

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Diário de Anto Stefan Miahi

15 de junho de 1871 - Volto uma vez mais a este caderno velho e surrado. Talvez já tenha se tornado um hábito, colocar nestes diários minhas angústias e…

Imagem criada pelo autor, com CanvaIA

Diário de Anto Stefan Miahi

(Notas em meu caderno) 

15 de junho de 1871 - Volto uma vez mais a este caderno velho e surrado. Talvez já tenha se tornado um hábito, colocar nestes diários minhas angústias e pensamentos, e eventuais alegrias nessas páginas. Já não sei quantos escrevi, em meu escritório devo ter uns quantos armazenados na velha estante no lado esquerdo da mesa de trabalho, junto com meus livros queridos.

Já faz algum tempo que me correspondo com uma personalidade do meio leste da Europa, devo ter em minha maleta neste momento umas três cartas e pelo menos dez telegramas. Segundo as correspondências temos afinidades intelectuais. Algo poderoso em cada uma delas me compelia a responder, uma sensação indescritível, mas aqui tentarei traduzi-las. Devo dizer que o que senti era provocante, uma emoção que me deixa ainda agora agitado, ansioso, como se ali houvesse um feitiço e a cada palavra… Não! A cada onda das letras, elas estavam me atraindo, conduzindo minha existência, e por fim, a guiar minhas mãos para responder tão rápido quanto me fosse possível. Senti como um apaixonado respondendo a amante, numa carta secreta, contando segredos obscuros. Por vezes como uma inocente criança confessando à mãe seus feitos do dia com total inocência e despretensão.

Inegável que ao terminar, o ar que saía dos meus pulmões era como se estivesse libertando minha alma de dentro de um cativeiro do qual naqueles momentos não tinha como sair, e que a chave para tal era colocar o ponto final naquela folha, branca e inocente.

Após alguns minutos. -  Após uns quantos chacoalhões da carroça e algumas tantas maldições proferidas, assim como insultos ao cocheiro e seu amigo, pude retomar os pensamentos aqui nessas páginas.

Para uma pessoa como eu; que sou dado às letras, ao pensamento, aos livros; me ver às voltas com uma baioneta em mãos, preparando o mosquete, e ouvindo o estrondoso som das explosões e o zunido dos projéteis voando por sobre a cabeça, realmente foi inesperado para assombroso. Uma completa mudança de ares.

Isto já se converteu em rotina realmente, estar com o lápis em uma mão e um caderno na outra, ainda mais após meu regresso daquele infame conflito entre os poderosos, Bonaparte e Frederico. 

O cheiro da pólvora, das cinzas e do sangue ainda atormentam meu nariz e, os gritos, a minha memória. Campos verdes agora desfigurados, marcados e banhados com sangue de homens valentes e covardes, astutos e ignorantes, de amigos quanto de inimigos.

Faz um pouco mais de 3 dias que me encontro dentro desta repugnante carroça, e ainda me faltam um dia e umas quantas horas para chegar ao meu destino.

Escutando o condutor, um homem velho e rechonchudo, com uma barba malfeita, com uma semicalvície que ele oculta com um chapéu velho e sujo. O que lhe falta de altura compensa com o falatório. Enquanto seu amigo, que vai sentado ao seu lado direito, é alto, esguio, tão quieto que parece morto. Seus olhos cansados, e a cara de quem não quer nada com nada, não fazem jus a sua força física jovial, lançou as malas que eu levava com apenas uma mão para o alto da carruagem, e para o cúmulo repetiu a façanha com as de uma jovem senhorita com seu irmão e cuidadora que me acompanharia nessa viagem.

Pelo que pude notar a conversa de ambos não passava de, - “Adrian” - esse parecia ser o nome do homem alto e silencioso e do cocheiro pelo que percebia era Loui. - “Clarice não me deixou quieto, só por causa que me encontrei com os rapazes da estalagem para beber…” após isso me dei conta do quão desinteressante eles eram.

16 de junho de 1871 - Ontem à noite comecei a escrever e, ao relatar os fatos, terminei por cair em devaneios sobre o cocheiro e seu amigo, mas devo dar alguns pontos importantes a estes meus relatos. Acho que o cansaço e a monotonia da paisagem me levaram aos braços de Morpheus. 

Retomo então para as minhas ideias originais. 

Há um pouco mais, ou menos, não tenho certeza, de um mês, recebi minha última carta dele, dando as indicações e detalhes para minha viagem até sua terra. Com tantos preparativos para essa jornada, ainda mais depois de regressar da guerra, e mal ter pisado em Paris, já me aventurar novamente, tira o fôlego de qualquer um. Acabei não fazendo um registro justo e detalhado deste fato crucial nos dias anteriores.

Seu remetente era de uma parte de um país esquecido pelas divindades. Romênia. Um lugar cheio de uma mística, de umas quantas lendas, verdadeiro centro de contos. A história da região contada pelos ciganos é realmente impressionante se fosse crer em tudo o que dizem.

Devo acrescentar que é um texto elegante aquele que encontrei naquelas duas páginas, além de uma caligrafia impecável, da parte de um tal Conde Drácula. Suponho ser uma pessoa realmente culta, douta, pois em sua carta não notei um erro de sintaxe ou de modismo populares, pois sendo romeno, escreveu com exímia clareza, em um francês belíssimo. Isso me encantou, mesmo que minha área de entendimento fosse a História, os fatos, os heróis, aquelas palavras me cativaram de uma forma que apenas meus escritores favoritos poderiam.

Um convite para uma visita para explorar a história local, e acessar livros, ter contato com documentos exclusivos, e segundo o que dizia na carta, ter contato com um outro estudioso da história e da sociedade. 

Paris estava um caos, e eu, só queria uma boa desculpa para pegar minhas coisas e sair daquela cidade infernal. Essa é uma oportunidade que não posso me negar. Corri para organizar minha partida. 

18 de junho de 1871 - Cheguei hoje no meio da tarde, por volta das 15h, à região de Bram e há coisas que devo realmente relatar do dia de hoje nestas páginas. 

A vista era montanhosa, com pequenas cidades sombrias e tristes, nos tons de cinza, marrom e branco, óbvio que aqui faz um frio de doer os ossos. O clima frio e severo do lugar não é convidativo, mesmo nosso cocheiro falante rendeu-se ao silêncio no trecho final da corrida. Todos tentavam manter a cabeça calma, e o corpo quente, por sorte a companhia de dentro da carruagem não era de todo ruim. A jovem, com sua dama e o acompanhante tinham consigo um pouco de vinho de Lyon.

Um breve comentário sobre os que estavam dentro da carruagem, a jovem, com olhos azuis, tinha cabelos negros bem amarrados numa trança perfeitamente trançada, o rosto denunciava sua pouca idade, passava muito tempo observando o exterior; enquanto aos que a acompanhavam: era uma senhora magra com rosto severo, loira, com cabelo abaixo dos ombros, de olhos verdes, tinha um crucifixo grande de madeira em seu pescoço, onde ela por várias vezes o buscou, como quem deseja receber conforto; enquanto ao cavalheiro, um tanto jovial, mas já passava dos trinta anos, suas roupas bastante elegantes, bem cuidadas, pele branca, com um bigode bem tratado adornado por bochechas rosadas, obviamente pelo frio e pelo vinho, o que deixa ele com aspecto ainda mais bonachão.

Nos primeiros dias pude conversar melhor com o cavalheiro, apesar de suas roupas, era uma pessoa simples e sociável, já a sua companheira por outro lado beirava o fanatismo quase igual aos jacobinos, por vezes intragável. Quanto a jovem, bem, tratava das coisas de seu tempo.

Eu, o sargento Anto Stefan Miahi, um historiador e militar, agora estou no meio das montanhas da Romênia, na intenção de mudar meu próprio rumo de vida. Longe de casa e outra vez com a promessa de ser reconhecido. Devo ter inalado muita fumaça de canhão.

Assim que cheguei a Bram, tive a infeliz surpresa de que teria que trocar de carruagem. Acabei numa conversa assombrosa com os condutores.

— Mas senhores, segundo minhas fontes, estamos a menos de duas horas de alcançar nosso objetivo. — Supliquei aos dois cavalheiros sentados no coche quase se abraçando para manter os corpos quentes, seus rostos estavam quase vitrificados de tanto frio.

— Senhor, sinto dizer que nem Jesus nos fará subir o caminho proposto. — Falou Adrian com uma voz trêmula, parecia um baritono, abraçando a si mesmo, com as mãos dentro do casaco negro que vestia.

— Sinto dizer que nem por minha mãe vou por este caminho, o senhor não viu enquanto vínhamos para esta cidade perdida de Deus? — A pergunta de Loui com uma voz rouca de quem bebia e fumava sem qualquer controle, mas me fez lembrar de algumas coisas. Todos com que cruzamos na estrada fazia o comumente sinal da cruz. Em seus rostos havia apenas uma expressão de angústia e desdém.

A conversa não avançou além deste ponto, e assim terminei no meio de um povoado estranho, que me olhava à distância como se eu tivesse alguma praga, ou estivesse acompanhado do próprio demônio.

Não demorou para que um velho senhor viesse pela estrada, arrastando seu corpo cansado, com um rosto de poucos amigos.

— O senhor vai para o castelo? — Perguntou avançando lentamente, sem olhar para qualquer lado. Ele para a minha frente, ele apenas move os olhos na minha direção, sinto que aquele olhar vai além de me ver.

— Sim, sim, eu vou! — Tentei simular meu melhor sorriso, mas algo no meu interior dizia que seria um esforço inútil.

Ele voltou a olhar para frente, baixou a cabeça, cuspiu no chão em frente aos meus pés, o que me fez dar um passo e meio para trás, mas antes mesmo que eu pudesse dizer ou fazer em resposta aquilo, o senhor se virou para mim, e logo estendeu os braços e agarrou minha mão direita. Naquele ato ele me entregou um colar de tira de couro com uma cruz de madeira rústica. Ele recolhe os braços para junto do corpo, rapidamente com sua mão esquerda ele tira seu gorro azul, e faz o mesmo sinal que vi na estrada quilômetros atrás.

De Anto Stefan, 18 de junho de 1871 

Boa noite, meu estimado amigo, Maurice!
Como tem passado?
Já faz alguns dias que parti e espero que tudo esteja na mais perfeita ordem na nossa amada Université de Paris.

Agora são 22h, deste mesmo dia, após me estabelecer melhor pude retornar a este meu diário, pois ainda me sinto incomodado com os eventos até o presente momento.

Após aquela cena rara com aquele senhor na vila, ouvi o som do relincho dos cavalos, além do estalar de um chicote, não muito longe, descendo a estrada que eu deveria tomar. 

O senhor deu meia volta nos calcanhares sem que eu notasse e tomou um caminho contrário, quando me dei por mim, apenas vi suas costas ao longe desaparecendo no meio do povoado.

Não demorou muito para que uma carruagem surgisse ao longe. Ela tinha uma pintura preta, e quanto mais perto chegava melhor eu podia ver os detalhes de suas estruturas, como cortinas vermelhas iguais a brasa viva, janelas adornadas com bordas de prata, e quatro cavalos negros maiores dos que eu havia visto na guerra. Pararam ao lado de onde eu estava. O cocheiro tinha seu rosto coberto por um cachecol vermelho escuro que deixava sua respiração passar e condensar o ar, suas roupas eram de couro tingido de preto, e um chapéu de abas largas e um trio de penas adornando. Os olhos dele eram soturnos, frios, parecia que para onde ele fosse olhar poderia congelar.

— O senhor se chama Anto Stefan Miahi? — Uma voz grossa que era abafada pelo cachecol deu para ser ouvida.

Ele nem esperou minha resposta e saltou da carruagem. Um homem alto, o pouco de pele que se podia ver, era branca, tal qual mármore, magro, de braços longos, e um cabelo comprido, de um castanho claro. Agora que ele estava mais perto, deu para ver a cor dos olhos dele, num tom verde e amarelo.

— Sim, sou eu. — Respondi o mais prontamente que me foi possível — Você é o cocheiro que vai me levar até o Castelo, do Conde? — Mesmo para um homem como eu experimentado na guerra, que viu coisas horríveis, aquela presença era intimidante.

Ele apenas assentiu com a cabeça de maneira positiva, e logo foi pegando as duas malas que estavam no chão ao meu lado. Num piscar de olhos ele as colocou no teto e já abria a porta para que eu subisse, sua agilidade fugia claramente do normal.

A viagem foi no mais profundo e mórbido silêncio, a monotonia reinou plena nas horas que se seguiram.

Um tempo depois, ouvi duas pancadas ocas no teto do carro. Abri a janela da porta e coloquei a cabeça um pouco para fora, o suficiente para poder ouvir e ver.

— Mais à frente já podemos ver o castelo, senhor Miahi. — Pude escutar a voz gutural do cocheiro que com sua mão esquerda aponta para frente uma série de pontos brilhantes, ainda distantes, dentro de uma sombra imensa, que tão pronto começou a parecer com uma estrutura, e não demorou muito para delinear a construção em si.

Alguns minutos mais tarde eu estava cruzando um portão de ferro, um portal de pedra, com uma muralha que terminava no que parecia um despenhadeiro gelado. Uma curta passagem que levava à porta principal, num grande pátio, e no seu centro uma velha fonte que agora estava cheia de neve. Mais ao fundo uma outra passagem que levava para o estábulo.

Os cavalos reclamaram quando o cocheiro puxou as rédeas forçando sua parada, ele fez algum som que os animais reconheceram e fizeram silêncio. Aquele homem alto saltou, e quando me dei por mim, ele já havia aberto a porta. Sai tentando absorver todo aquele cenário que beirava o aterrador, sombrio, e belo, com algo de clássico. A arquitetura do lugar era impressionante, mesmo já quase estando todo o ambiente submerso na escuridão.

Quando olhei o horizonte e vi na linha das montanhas o sol lentamente desaparecer, foi que eu ouvi o som das malas tocando o chão e a porta de madeira maciça ranger loucamente, como se gritasse. Nisso uma sombra se projetou dela. No alto de uma escadaria espaçada que conduzia para uma porta de umbrais de madeira grossa, com entalhes que já não podia ver bem, em tom natural, e em cada folha o que pareciam desenhos em baixo relevo.

A porta ficou completamente aberta, a luz dentro era amarela e forte, deixando apenas ali a silhueta de uma pessoa alta, coberta por algo que parecia ser uma capa, e uma voz se projetou. Algo nela me fazia recordar as mesmas sensações que eu sentia ao ler as cartas e telegramas do Conde Drácula. 

— Já é noite meu jovem. As noites nessas paragens podem te matar numa única mordida. — Houve uma risada baixa ao final da frase.

— Certo… Claro! — Me apressei em subir as escadas, me esquecendo das maletas perto… bem… não sei em que momento ele havia subido na carruagem, porque quando me dei conta apenas ouvi o relincho dos cavalos, o som do ranger da madeira e um estalo agudo. — Deixe-me pegar as maletas, senhor, e logo vou apertar sua mão.

Por mais atrapalhado que pareça, tentei manter a pose diante de quem quer que fosse que estivesse ali observando no alto da escada com aquela postura imponente e sombria.

Assim que recolhi minhas coisas, já não havia mais luz do sol, neste momento olhei para o céu instintivamente, quando me deparei com aquele mar de estrelas, por um breve momento senti que o chão em meus pés estava desaparecendo e eu caia, foi então que senti em minhas costas um toque suave, gentil, e um rosto estava para se revelar a mim, quando apenas senti que caía num sono prazeroso, um abraço bem-vindo.

Maurice, há algo raro e estranho neste lugar, dentro deste quarto tão suntuoso, mas ao mesmo tempo tão frio, o carmesim das cortinas da janela, o roxo dos cobertores e travesseiros, a pedra cinzenta das paredes e a madeira dos móveis, parecem não vir deste mundo. Mais estranho é que senti essa emoção inquietante desde o momento que passei os portais do muro desde a construção belíssima de tão sombria. Existe um ar que me absorve e me acorrenta aqui.

Bem, já não vou mais importuná-lo nesta carta com estes detalhes anormais, aguarde minhas próximas cartas ou telegramas.

Desde já desejo a você, meu amigo e mentor das artes da história, toda a boa sorte.

De seu velho amigo, Anton.

PS.Sempre, “Hic et ubique terrarum” (“Aqui e em qualquer lugar do mundo”) carregando o lema de nossa amada instituição no coração e na mente.

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Perfeitos Estranhos

Parece que nunca amanhece aqui. Onde estão os raios de […] | Descrença e desconfiança. Foram esses os princípios que me trouxeram aqui […]

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Parece que nunca amanhece aqui. Onde estão os raios de sol, para que eu me dirija para as matas lidar com os animais perigosos? Não... eu não estou em meu país — preciso lembrar.

Lentamente, ainda no escuro, levanto-me da maciez dos lençóis de cetim e sinto os meus olhos ainda sonolentos, se ajustando à baixa luz da alcova onde me encontro. 

Ao me aproximar da janela deste quarto no antigo castelo, os meus olhos se fixam nos majestosos montes que se erguem ao longe. Lá, entre os mistérios da madrugada, surge uma silhueta, e mais do que isso, uma figura solitária, destacando-se contra o horizonte sereno. Um homem, cujos contornos se misturam com a imponência das montanhas distantes.

Minha feição muda para um possível receio, enquanto observo aquele estranho visitante. Uma sensação indescritível me envolveu, um misto de curiosidade e medo, como se o universo tivesse conspirado para que eu visse alguém a uma hora dessas.

Me afasto do grande vidro, rogando a Tupã que aquilo não tenha me enxergado assim como eu o enxerguei e vou correndo até a porta do quarto conferir se está mesmo trancada. Eu poderia buscar à Olga Nivïttiz, mas preciso me controlar e dominar os meus medos. É só um andarilho, vizinho, talvez. Ou será mais um residente do Castelo? Não, não sou capaz de ver nenhuma figura masculina em minha frente. Bastam todas aquelas pessoas estranhas que vi na grande embarcação cuja qual me trouxe até aqui. 

Preciso registrar tudo, tudo, para mostrar aos meus líderes, à minha família. Busco meus papiros e sento-me na escrivaninha que me é possível, próxima ao dossel onde estou descansando, e escrevo, relato, amedrontada, mas o faço. 

Meus lábios se entreabriram, tentando questionar tudo isso comigo mesma, mas nenhuma palavra escapa deles. Eu permaneço aqui, imóvel, como se temesse que qualquer movimento pudesse dissipar a visão diante de seus olhos. 

O vento que escapa de uma fresta discreta brinca suavemente com as cortinas de renda, criando uma dança etérea ao redor dela, enquanto meus pensamentos se perdem na figura misteriosa lá fora que eu acabo de vislumbrar.

Eu posso sentir a pulsação do meu próprio coração, cada batida ecoando no silêncio da madrugada. O desconhecido nos montes parecia tão próximo e, ao mesmo tempo, tão distante. Uma inexplicável sensação de conexão se estabeleceu, como se “aquilo” pudesse compreender-me ou, até mesmo, ter vivido uma história similar à minha. Muitas vezes, histórias se cruzam e eu preciso parar de temer as pessoas, preciso parar de pensar que todos os seres masculinos são diabólicos e monstros. Talvez até eu ganhe um amigo-irmão um dia. É o que vibra em meu coração, como se houvesse um fio invisível de verdade. Para isso eu preciso parar de acertar homens com a minha flecha. Não farei mais isso. Não aqui. Com ninguém. Prometo para mim mesma. 

Com um suspiro involuntário, me aproximo novamente da janela e não mais o vejo. Será alucinação? Alucinose? Ele desaparece dos meus olhos, mas a imagem do homem nos montes permanece gravada em minha mente. E se ele se aproximou do castelo e conseguiu entrar? Fecho os olhos, como se assim eu sentisse mais veracidade e sensibilidade no ambiente e percebo que ele pode ter adentrado no castelo. Ele está presente neste lugar, sei que está. Olho novamente para a porta e me acalmo. Por mais presente que aquela criatura Indecifrável esteja, ela não será capaz de adentrar às portas das alcovas particulares deste grande recinto. 

O mistério daquele quase encontro noturno paira no ar, deixando-me ansiando pelo desenrolar dos acontecimentos que o destino reserva para mim neste castelo. 

...

Descrença e desconfiança. Foram esses os princípios que me trouxeram aqui. Abracei o incerto, o irreal, abandonando minha vida anterior atrás de algo que, à princípio, me parecia um mero devaneio, mas agora é angustiantemente verdadeiro.

Juntei todas as economias que pude, me desfazendo de todos os bens que me cabiam, para poder partir com todos os recursos possíveis. Após dias e mais dias de uma jornada cruel e longa, cheguei a um pequeno povoado. Muitos idosos, poucos adultos e nenhuma criança. Este último fato me causou um desconforto visceral e inesperado.

Eu deveria esperar pela carruagem que me levaria pelo último trecho do meu caminho.

Os moradores mal se dirigiam a mim, e quando eu os forçava, por meio de minhas diversas e invasivas perguntas, eles condensavam suas respostas ao mínimo possível, apenas me indicando onde esperar pelo cocheiro.

O povoado era pequeno, bem pequeno para os meus padrões. Úmido, escuro, quase pútrido. Não esbarrei com uma dúzia de pessoas, o que me causou uma estranheza exponencial.

Conforme o esperado, a noite chegou, e o cocheiro também. Eu seria seu único cliente, se é que posso me identificar desta forma. O sujeito vestia um manto escuro, denso, velho e maltratado. Era pouco mais baixo do que as outras pessoas que observei, embora sua estatura reduzida não condissesse com sua força sobrenatural, a qual demonstrou ao erguer minha única mala, desprezando totalmente o peso exagerado.

A viagem seguiu sem maiores intercursos. Não trocamos palavras, nem olhares, nem coisa alguma. Seguimos floresta adentro, por uma trilha que mal era visível. Me questionei quantas vezes ele teria realizado aquele caminho… Inúmeras, talvez.

Após uma subida íngreme e desleal, ele parou. Senti uma estranha angústia descer pela garganta e tomar conta do meu estômago. Não o vi descer do banco frontal, tão pouco ouvi retirar minha mala de trás da diligência. Abriu a porta lateral e fez menção para que eu saísse. Senti que, se ousasse desafiar sua sugestão, seria estripado e largado à própria sorte.  Estava acuado, como uma presa indefesa, mas segui a ordem.

Não pude localizar o povoado, nem me esforçando para tal. A floresta era densa e escura, iluminada por poucos pontos de luz, espaçados, que indicavam a presença de lamparinas. No segundo seguinte, tanto a diligência quanto o cocheiro haviam desaparecido, sem deixar rastro ou som algum. Nada ali fazia sentido, tão pouco o que eu presenciei em seguida.

O Castelo erguia-se imponente, tal como uma entidade sobrenatural, atemporal e titânica. A morte reinava em cada torre, cada quarto, cada porta e janela. Tudo me causara terror, mas não o terror que eu já conhecia, e que escrevia em minhas obras, mas sim um terror feroz, cruel, brutal, rígido e ávido por sangue.

A ânsia e o desespero congelaram cada músculo do meu corpo, de forma que levei alguns segundos, ou horas, para me recompor. Minha cognição estava prejudicada, talvez pela longa viagem, talvez pelo espanto, talvez pela falta de tabaco.

Balancei a cabeça, tentando me ater ao último fio de sanidade que me restara. Foi quando meus olhos me pregaram uma peça cruel.

Pude ver, dentro do Castelo, uma figura feminina. Sim, claramente uma mulher. Soube, dentro do meu ser, que ela também havia me visto, apesar da generosa distância entre nós.

Havia vida dentro daquelas paredes, restando-me descobrir que tipo de vida era aquela. Poderia, também, ser uma penosa e bem delineada armadilha. Eu poderia estar sendo guiado para um abatedouro, destinado ao fim mais mórbido que meu lado pessimista pudesse imaginar.

Antes que eu pudesse conceber qualquer pensamento concreto, a figura desapareceu, fechando as cortinas da janela. Ela era real. Real e viva, tão viva quanto eu. Fora este o momento oportuno para que eu pudesse recobrar o controle sobre minhas pernas e caminhar em direção à porta do Castelo.

Faço uma pequena e rápida prece aos deuses e bato à porta.

Ela se abre sozinha.

Texto publicado na 5ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de maio de 2024. → Ler edição completa

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Valsa dos desesperados

Em vermelho sangue | Com letras douradas e brilhantes. | O envelope revela | Meu nome. | Um fascinante convite. | Daquele por quem | Secretamente…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Em vermelho sangue
Com letras douradas e brilhantes.
O envelope revela
Meu nome.

Um fascinante convite.
Daquele por quem
Secretamente cultuo
Sentimentos obscuros.

Na hora exata
Trajada e mascarada 
Sou recebida 
No grande evento

No vai e vem de passos precisos
A alma saboreia, 
enquanto desliso
Por entre corpos rendidos.

Nessa valsa dos desesperados
Sou rainha no abate
Rompendo as cordas da vida
Veias essas, tão fininhas.

No ápice da Lua Cheia 
À meia-noite nos juntamos.
Em um grande banquete, brindamos
Liquor-carmesim.
Mas quando a música se finda
E o último acorde se desfaz.
Às três da manhã, em fim.
Para meu leito, devo seguir.

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Fio Invisível

Caminhar sobre um fio invisível | Como se disso, | Dependesse minha vida | É o mesmo que engolir mil facas | E não querer sangrar…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Caminhar sobre um fio invisível
Como se disso,
Dependesse minha vida
É o mesmo que engolir mil facas
E não querer sangrar.

Não me diga para ir deitar
O repouso não é privilégio por aqui
Quem descansa,
Padece.

Costurar feridas não é opção.
Os cortes são profundos demais 
Para que uma simples linha
Possa-o estancar...

Não chore,
A carne já morreu
Não deixe que morram também as lembranças.

Texto publicado na 5ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de maio de 2024. → Ler edição completa

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Vivendo nas sombras

Vivendo nas sombras | Rastejando pela escuridão | Sinto pedaços de mim | Se desprenderem pelo caminho. | Sentimentos petrificados…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Vivendo nas sombras
Rastejando pela escuridão
Sinto pedaços de mim
Se desprenderem pelo caminho.

Sentimentos petrificados
Alma atormentada
Se contorcendo em agonia,
Sufocada...

Não suporta a luz
A dor te envolve e encurrala,
Mas, com muita sorte,
Hoje encontra a morte.

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Sonata Sombria

Sonata sombria ressoa | nociva suas notas violentas — | seus ecos se espalham e vibram torcendo | arpejos funéreos que vêm e que vão…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Sonata sombria ressoa
nociva suas notas violentas —
seus ecos se espalham e vibram torcendo
arpejos funéreos que vêm e que vão. 

As teclas sangrentas tremulam
acordes sinistros, sonoros
tal grasno de corvo que voa à meia-noite
sedento por covas abertas no chão. 

Não há quem duvide das Sombras:
é a Morte imparável tocando!
São ruídos horrendos, visões de amargura
que hão de ganhar vida, ó sonata-caixão! 

Mas subitamente é mudada…
é um calmo compasso de valsa:
p’ra um lado
pro outro
os passos
atroam
nos crânios
dançantes
do negro
salão.

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Um rosto trágico II

De viés, sutil, no canto da avenida, | Entre os gritos e a pressa dos passantes, | Vê-se a figura triste, e num instante | Ela desaparece, na surdina…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

De viés, sutil, no canto da avenida,
Entre os gritos e a pressa dos passantes,
Vê-se a figura triste, e num instante
Ela desaparece, na surdina.

Corre junto à calçada, sempre avante;
Qual fuga de um ladrão, vai rua acima;
Detém-se então cansado; numa esquina
Tem agitado o peito, angustiante.

Resulta ali a dor de tantos dias,
A decisão que teve agora, enfim,
Depois de resistir por tantas vezes...

Não quis nem optar por outras vias:
Subiu no prédio… acaba tudo assim,
Com trinta e poucos anos e alguns meses.

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