Colapso
A grama arde | O ar sufoca | O canto dos pássaros foi silenciado. | As árvores, | Antes, imponentes e frutíferas,…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
A grama arde
O ar sufoca
O canto dos pássaros foi silenciado.
As árvores,
Antes, imponentes e frutíferas,
Agora retorcidas, em agonia.
O mundo cai abaixo
As promessas já não mais importam
Tudo é cinza e triste.
O céu cai aos pedaços
Seus escombros cortam minha pele
É só questão de tempo para que eu colapse também.
Não há mais refúgio
Nem mesmo em minha própria mente
A dor me impede de pensar.
Promessas
Não salvaram inocentes
Tudo o que sei, é que nada sobrará.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Boneca de Ossos
Pálida e fria como porcelana | Sentia-me como uma boneca. | Os olhos, antes cerrados, | Agora conseguiam observar tudo ao redor…
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Pálida e fria como porcelana
Sentia-me como uma boneca.
Os olhos, antes cerrados,
Agora conseguiam observar tudo ao redor.
Vestes aprumadas
E um perfume que não disfarçava
Meu pútrido odor
Mas eu estava linda.
Meus amigos não sorriam
Mas minha alma se deleitava
Agora disposta,
Tal qual minhas bonecas na prateleira.
Me sentia leve,
O corpo já não pesava
Me divertia com as expressões amedrontadas
Ah, se eu pudesse...
A fotografia foi tirada
Uma última recordação
Antes que eu vire alimento para os vermes
A despedida vem chegando...
Começo sentir o vazio a me preencher
O calor de quem amo fica cada vez mais longe
Se minhas lágrimas ainda rolassem
Se minha boca ainda falasse..
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Canto Escuro
No canto ali do quarto| No escuro | Sentada e descalça, no chão frio | Observo as sombras que ninguém mais vê…
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No canto ali do quarto
No escuro
Sentada e descalça, no chão frio
Observo as sombras que ninguém mais vê.
Rabisco na penumbra
Todas as formas distorcidas
Que não me causam mais medo.
Registro-as para mim mesma.
A luz que as afastava
É a mesma que machucava meu pobre coração.
Nunca suportei não ser igual aos demais
Talvez por isso, esse canto escuro seja o meu favorito no mundo.
Olhares vazios
Expressões que me julgavam
E até mesmo enojavam
Nunca foram fáceis de aceitar.
Mas duvidarem da minha sanidade
Do mundo ao qual eu realmente pertencia
Foi demais para mim
Adentrei ao véu.
Meu corpo falho
Face retorcida por um mau nascimento
Sempre a esquisita,
Anomalia...
Mas somente do outro lado
Eu vi que todos estavam errados
As sombras que ninguém enxergava
Eram os próprios defeitos, eles só tinham medo.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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O fim dos tempos
Quando o lockdown começou, muitos falavam sobre o fim dos tempos; como negar isso? Eu via apenas o nada lá fora, apenas fragmentos de uma…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Quando o lockdown começou, muitos falavam sobre o fim dos tempos; como negar isso? Eu via apenas o nada lá fora, apenas fragmentos de uma realidade deturpada. As janelas agora não serviam mais para que eu pudesse observar o que acontecia lá fora; o próprio silêncio suspenso parecia me observar, o mundo parecia congelado. Um novo vírus, diziam. A televisão mostrava as mesmas notícias de sempre, pedindo que nos mantivéssemos em casa, calmos, pois logo tudo ia acabar. Mostravam que o “novo normal” era apenas uma tela de mentiras. Houve o primeiro dia de lockdown, o isolamento social era obrigatório e todos deveriam seguir as normas, e, no terceiro, o silêncio começou: ninguém parecia mais falar ou ser visto pelas janelas. Ruas vazias, comércios fechados, o trânsito parado — somente o nada e o silêncio absoluto. Minha curiosidade era intensa, mas eu conhecia as regras: “Não saia de casa!” Então as segui à risca. A mídia transmitia o mesmo discurso repetidas vezes, um toque de recolher absoluto, segundo as autoridades, mas ninguém sabia o que acontecia com aqueles que decidiram desafiar as regras.
Em alguns canais, líderes religiosos diziam que a humanidade precisava de purificação, pois estávamos sendo preparados para algo grandioso. E nas redes sociais, mensagens surgiam. Havia aqueles que diziam que o Salvador havia voltado e que os que sumiram estavam sendo arrebatados. Era essa a explicação? As autoridades faziam vista grossa para esses desaparecimentos e sugeriam que eram pessoas que desobedeceram ao isolamento, mas que logo isso seria resolvido. À noite, eu ouvia sons quase imperceptíveis, ruídos estranhos, pulsantes, como se viessem de algum lugar acima do meu prédio. Todos os dias esses sons ficavam um pouco mais altos e mais próximos. Em uma noite, observei algo pela janela: um raio fino e muito luminoso cortava o céu, atingindo algo na rua de trás. Noutra noite, recebi uma mensagem de um amigo que dizia:
“Já percebeu que nada mais parece real? Que os programas de televisão estão só repetindo um mesmo padrão, como uma máquina tentando parecer humana?”
Eu não tinha certeza do que ele estava falando; imaginei ser uma nova teoria da conspiração que ele estava acompanhando. Mas, como eu não tinha muito o que fazer, comecei a prestar mais atenção nas notícias, e a cada dia elas mostravam os mesmos rostos, e rostos muito semelhantes, dizendo sempre as mesmas coisas, mas de maneira diferente: “Aos poucos, as coisas vão se normalizando; em breve tudo voltará ao normal.” Entrei em um fórum online e encontrei outras pessoas que também haviam percebido essas discrepâncias. Parecia um padrão de controle, uma ilusão para nos manter calmos. Eles queriam que tudo parecesse normal, enquanto alguma coisa lá fora parecia fazer algum trabalho sujo. O isolamento social inicial parecia que era para nos proteger de algum vírus, de uma praga moderna, mas parecia também nos proteger de algo pior, e eu me perguntava o motivo disso. Ninguém que saía voltava, e ninguém parecia se perguntar o porquê disso.
Uma noite, ao abrir o fórum, vi uma postagem: um usuário dizia ter testemunhado o arrebatamento do outro lado da rua. De acordo com ele, uma figura luminosa apareceu e levou para o céu todos aqueles que saíram para a rua. Alguns concordavam, citando versículos bíblicos e dizendo que todos seriam levados em um piscar de olhos. Mas eu sabia o que eu tinha visto; eu vi um raio luminoso e não uma figura luminosa, e me perguntava se esses raios que apareciam não eram parte de algo muito mais assustador. Quando os dias viraram semanas, algo ficou mais claro: o mundo lá fora não era obra de Deus. Aquele novo normal que a TV mostrava, como se as coisas tivessem voltado ao normal, parecia agora uma paródia sinistra. E cada vez mais eles queriam que acreditássemos que as pessoas desapareciam porque eram escolhidas, que o Salvador havia voltado e que tudo estava bem.
Então veio o que parecia ser a verdade. No fórum, um vídeo foi compartilhado. Na tela, meu amigo, que desaparecera após sair de casa, aparecia no canto de um beco, escondido atrás de um monte de entulho. Ele falava sussurrando, olhando ao redor com os olhos arregalados, o rosto muito pálido.
“Isso não é o fim dos tempos, não é o arrebatamento. Eles estão aqui, eles querem a Terra para si, mas não nos querem aqui. Todos os ruídos, o lockdown, a mídia… tudo isso é só uma forma de limpar o terreno. Eles analisaram todas as nossas redes, sabem no que queremos acreditar e estão usando tudo contra nós, controlando as mídias, fazendo tudo parecer normal. Mas se você sair para a rua, você será...”
O vídeo terminou com um raio de luz atravessando a tela e um grito que eu nunca mais vou esquecer. Então eu entendi que a Terra era um bem precioso para “eles”, mas nós éramos criaturas indesejáveis que a habitavam. “Eles” não eram Deus; ninguém tinha voltado para nos salvar. E o confinamento era o que nos mantinha a salvo. Eram as paredes que nos protegiam... mas nos protegiam do quê?
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Meu fim há de chegar
Observo da janela o vazio lá fora; tudo está abandonado, assim como eu aqui dentro. O silêncio é preenchido apenas pelo sussurro do vento…
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Observo da janela o vazio lá fora; tudo está abandonado, assim como eu aqui dentro. O silêncio é preenchido apenas pelo sussurro do vento. Sinto que é a minha última noite... eu sei que é. Do lado de fora, todos estavam desaparecendo, levados por uma figura luminosa ou uma luz destruidora. Isso me atraía; não havia esperança para mim, o fim era iminente. Eu sentia o medo rastejar em minhas veias, entorpecendo-me e pressionando meu coração, e ainda assim, em algum lugar dentro de mim, havia algo que acolhia esse fim.
Eu tinha sido uma pessoa cercada de expectativas — um emprego estável, uma vida bem-sucedida, metas que nunca saberei se poderei alcançar — naquela sociedade que esmagava minha alma. Agora tudo é irrelevante; o fim está próximo, sem pressão nem o medo de fracassar. Logo o meu fim há de chegar. Senti um arrepio atravessar meu corpo sem nenhum motivo: era a hora.
Fui para a rua. Parte de mim queria gritar, correr, fazer algo normal, mas o cansaço me paralisava; o alívio do fim me fez permanecer. Senti lágrimas escorrerem, mas não de tristeza: era libertação. Tudo que me aprisionava estava caindo junto com meu mundo; não haveria amanhã para mim. Finalmente, a liberdade. O medo visceral de perder tudo ainda persistia, mas não havia mais nada a perder, nada mais a fazer. Era o fim de tudo, o fim das minhas obrigações.
Olhei para o céu, e a luz lentamente descia, vindo em meu socorro, talvez como danação ou salvação. O medo finalmente cedeu, e o alívio me envolveu. Não haveria mais amanhãs para se preocupar, nem fardos para carregar, nenhum espelho para refletir o que eu não poderia ser. Sem decepções e, pela primeira vez, eu senti a paz.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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O que os olhos não vêm, o coração [em cera] não sente...
Na cidade pulsante de Nova Arcadia, onde o neon iluminava…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Na cidade pulsante de Nova Arcadia, onde o neon iluminava o abismo da decadência humana, Rhys, um pintor exilado, vagueava entre a vida e a morte, sua essência dilacerada pela perda e pela obsessão. Em seu estúdio, um espaço escuro e claustrofóbico, ele transformava a dor em arte, mas a arte que criava era uma celebração grotesca do horror.
Rhys não apenas pintava; ele coletava corações.
A cada batida de seu coração mecânico, uma vida era arrancada. Ele retirava os olhos de suas vítimas, aqueles orbes que uma vez brilharam com esperanças e medos, e os inseria nos corações, preenchendo-os com cera derretida.
Em frascos de vidro, os olhos se tornavam prisioneiros, testemunhas silenciosas de sua obsessão. Era um ato de controle, uma maneira de capturar a essência efêmera da vida e do sofrimento.
Ele mesmo era um enigma, um corpo sem alma, com um coração que pulsava ao ritmo de engrenagens frias.
Os dias se transformavam em um borrão de sombras e cores, enquanto ele buscava a beleza em sua própria degeneração.
Sem olhos reais, Rhys habitava um mundo distorcido, onde a visão se tornava uma lembrança distante, substituída por uma percepção tortuosa da realidade.
Suas telas eram um reflexo de sua psique fragmentada.
Ele mergulhava em uma paleta de vermelhos e negros, suas pinceladas violentas expressando a luta interna entre a vida e a morte, amor e dor.
Cada quadro era uma narrativa visceral, uma explosão de emoções que desafiava os limites do que era aceitável.
Rhys acreditava que, ao retratar o sofrimento, poderia, de alguma forma, entender sua própria dor.
A cidade, repleta de sombras e ecos, tornava-se sua inspiração. Cada grito distante, cada lamento sussurrado nas ruas, alimentava sua criatividade, transformando-o em um predador de almas.
Mas, à medida que coletava corações, a linha entre a arte e a vida se tornava cada vez mais tênue.
Rhys se via não apenas como artista, mas como juiz e carrasco, preso em um ciclo vicioso que o consumia.
Em uma noite fatídica, enquanto a chuva caía como um lamento, Rhys encontrou uma jovem artista que desenhava nas ruas, sua energia vibrante contrastando com a escuridão que o cercava. Seus olhos brilhavam com uma intensidade que o desarmou, despertando algo há muito adormecido dentro dele.
Ao observá-la, ele sentiu uma faísca de humanidade, um desejo de conexão que não podia ignorar. Ele hesitou.
A tentação de capturá-la, de transformá-la em mais uma de suas obras, lutava contra o impulso de se abrir para ela.
Rhys percebeu que, em vez de extrair a essência de mais uma vida, ele desejava entender a beleza do que era ser humano.
Em sua mente, o dilema se intensificava, uma batalha entre o instinto predatório e a necessidade de se redimir.
Naquela noite, em meio a um turbilhão de sentimentos, Rhys decidiu se afastar do horror que o definia...
Ele começou a pintar a jovem, mas não como um objeto de desejo; ele a retratou como um símbolo de esperança.
Cada pincelada era um esforço para resgatar sua própria alma, uma busca por redenção em meio à sua perdição.
Com o tempo, as telas de Rhys passaram a contar uma nova história, uma narrativa de luta e amor, onde os olhos que uma vez desejou capturar eram agora um convite à empatia.
Ele percebeu que, embora seu coração fosse mecânico, ainda existia uma centelha de vida dentro dele, uma prova de que a arte poderia ser um meio de cura.
No estúdio de Rhys, a luz fraca filtrava-se através da neblina, revelando um mundo onde o grotesco dançava com a beleza.
As paredes estavam cobertas de quadros, cada um mais intenso que o anterior e, diante de cada tela, a dor e a vida se entrelaçavam em um abraço mortal.
Os potes de vidro, alinhados como sentinelas em uma prateleira empoeirada, continham não apenas corações, mas a essência de vidas perdidas. Dentro de cada frasco, a cera espessa envolvia os corações e olhos, criando uma superfície viscosa e reluzente que refletia a luz em fragmentos de cor. O que os olhos não veem, o coração não sente...
Era como se, ao capturar o olhar de suas vítimas, Rhys tivesse aprisionado também a alma que pulsava dentro delas.
Aqueles olhos, embora imóveis, pareciam vibrar com a energia das memórias, como ecos distantes de risos, lágrimas e sussurros.
Os quadros, por sua vez, eram um umbral entre a vida e a morte, uma passagem onde a dor se transformava em beleza.
Rhys mergulhava seu pincel nas cores mais sombrias — o carmim profundo do sangue e o negro da noite —, e cada traço se tornava um grito silencioso.
As formas que surgiam eram distorcidas, mas, em sua grotesca deformidade, emanavam uma vitalidade palpável.
Os rostos que surgiam nas telas refletiam não apenas sofrimento, mas uma luta visceral pela existência, um desejo ardente de serem vistos, de serem compreendidos.
Cada obra era uma ode à vida que brotava do horror.
Nos detalhes mais sutis, as sombras pareciam pulsar...
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Visões
No coração de um lixão vasto e sombrio, onde o sol raramente penetrava a nuvem de lixo e decadência, vivia uma criança chamada Leo. Seu pai, um homem…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
No coração de um lixão vasto e sombrio, onde o sol raramente penetrava a nuvem de lixo e decadência, vivia uma criança chamada Leo. Seu pai, um homem marcado pela vida, passava os dias garimpando entre as pilhas de desperdício, enquanto Leo explorava o mundo ao seu redor, com os olhos atentos a cada sombra e forma que se desenhava na sujeira. Desde pequeno, Leo tinha um dom peculiar: via rostos nas coisas que os adultos ignoravam. Um pedaço de papel amassado se tornava o sorriso triste de uma mulher; uma garrafa quebrada, o olhar vazio de um homem perdido. Aquela pareidolia era sua única companhia, uma forma de criar amigos em um lugar onde a solidão se acumulava como o lixo.
Mas, ao longo do tempo, esses rostos começaram a mudar. As expressões, antes tristes, tornaram-se torcidas e malignas. Os olhos, que antes suplicavam por atenção, agora brilhavam com uma intenção obscura. Leo percebia, com um frio na espinha, que as sombras ao seu redor se aglutinavam, formando figuras indistintas que pareciam espreitar entre os restos de vidas descartadas.
Certa noite, enquanto a lua cheia iluminava o céu poluído, Leo se aventurou mais fundo no lixão. Ele queria descobrir o que havia além das pilhas de plástico e metal. A cada passo, uma sensação de medo e excitação o envolvia. Foi então que viu — realmente viu — algo além das visões. Entre os montes de lixo, um espaço escuro se abria, como um portal para outra dimensão, e as criaturas começaram a emergir. Eram formas indistintas, desprovidas de definição, mas suas intenções eram claras. Olhos que brilhavam como carvão se fixaram em Leo, e a risada que ecoou em sua mente não era humana. Ele entendeu, naquele momento, que aquelas figuras eram as almas perdidas dos objetos que o cercavam, presas entre os restos do que um dia foram. Elas tinham fome. Fome de vida, de luz e de algo mais profundo — a essência da inocência que Leo possuía.
Desesperado, Leo tentou fugir, mas as criaturas se aproximaram, envolvendo-o em uma dança macabra. Ele viu o que elas eram: sombras da própria dor, reflexos de sua solidão. Eram os ecos de sua mãe, que havia partido quando ele nasceu, e a ausência que o preenchia. O lixo ao seu redor não era apenas desperdício; era um monumento à perda e ao desespero.
Enquanto tentava escapar, uma delas se destacou, uma figura mais definida, com um rosto que parecia um eco do dele. Era como se Leo estivesse olhando para uma versão distorcida de si mesmo.
— Nós somos o que você deixa para trás — sussurrou a criatura, a voz um sussurro de metal enferrujado. — Estamos aqui porque você não se despediu.
Naquele instante, Leo percebeu que não poderia fugir. Ele precisava enfrentar seus medos, confrontar a dor que o cercava. Com um ato de coragem, ele fechou os olhos e deixou suas lágrimas caírem, permitindo que o peso de sua solidão se transformasse em um grito.
— Mãe, onde você está? — ecoou em seu coração.
As criaturas hesitaram. A luz de sua vulnerabilidade, embora tênue, iluminou o espaço... Uma a uma, começaram a se dispersar, como fumaça ao vento. Leo abriu os olhos e viu que a escuridão não era eterna...
Ao retornar para casa, as sombras no lixão tornaram-se menos opressivas. Os rostos, que antes eram malignos, agora pareciam mais claros, mais distantes. Leo compreendeu que a verdadeira monstruosidade não residia nas criaturas, mas na solidão que ele havia carregado. Quando o sol finalmente surgiu, espalhando luz sobre o que havia sido um mundo sombrio, Leo sorriu. Ele não estava sozinho. As vozes do lixo ainda sussurravam, mas agora eram ecos de uma nova esperança, de uma criança que, embora marcada pela dor, havia encontrado um caminho para a luz, para as formas do caos.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Entre Peles e Almas
Ramalho era um homem praticamente invisível, não no sentido literal da palavra, mas na forma como ele caminhava pelo mundo sem chamar…
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Ramalho era um homem praticamente invisível, não no sentido literal da palavra, mas na forma como ele caminhava pelo mundo sem chamar a atenção, nunca deixou nenhum rastro. Era um taxidermista, e por isso vivia trancado em sua casa no centro da cidade. Ele restaurava corpos de animais, de qualquer criatura que encontrasse morto nas ruas.
Sua loja era conhecida entre os colecionadores mórbidos da cidade. Mas havia algo, um segredo. Ramalho não se limitava a recriar os corpos, ele os colecionava. E havia um segredo sombrio, sua coleção não se limitava aos corpos, ele também colecionava o que restava das almas.
Nos fundos de sua casa, havia um quarto onde ninguém entrava, nem mesmo ele, a não ser em certas ocasiões. O ar ali era denso, havia uma energia pesada. Dentro daquele quarto estavam as carcaças de sua mais preciosa coleção: humanos. Não eram apenas simples corpos, eram almas que ele retirava enquanto os mantinha vivos pelo tempo necessário.
Seu método era perfeito. Escolhia sua vítima, geralmente homens ou mulheres solitários, aqueles que ninguém sentiria falta. Eles vinham até ele, atraídos por algum anúncio de emprego ou algo do tipo. Ramalho os convidava para entrar, oferecia um chá ou café. E quando suas vítimas começavam a relaxar, ele agia.
Injetava um sedativo, algo que mantinha o corpo paralisado, mas permitia que a mente ficasse consciente. Era importante que suas vítimas estivessem acordadas durante todo o processo, sentindo cada instante.
Uma noite, Ramalho sentiu que precisava adicionar mais uma peça à sua coleção. Ele escolheu uma fotógrafa, Camila, que tinha a curiosidade de explorar os cantos sombrios da cidade. Ela apareceu na loja, interessada em fotografar as peças de taxidermia para um projeto. Era perfeito.
Quando Camila entrou, Ramalho percebeu algo diferente nela. Havia uma espécie de luz em seus olhos. Ele sorriu, sabendo que aquela seria uma adição única em sua coleção. Como de costume ofereceu chá, que ela aceitou sem suspeitar de nada. Assim que ela levou a xícara a boca, o líquido percorreu sua garganta e o efeito foi imediato. Camila caiu com seus olhos arregalados, completamente consciente, mas incapaz de se mover ou gritar.
Ramalho a levou para o quarto dos fundos. As carcaças de sua coleção estavam dispostas nas paredes como mórbidas obras de arte. Corpos de homens e mulheres empalhados como animais com suas expressões de terror congeladas. O processo com Camila seria lento, mas ele estava ansioso. Preparou seus instrumentos e começou a trabalhar. Cada corte era feito com precisão. Ele começava pelos nervos, sempre pelos nervos, retirando-os meticulosamente enquanto a vítima sentia cada segundo de dor. O corpo permanecia vivo até que ele chegasse ao coração, onde ele retirava a última faísca de consciência, preservando-a em um pequeno jarro ao lado de cada corpo.
Mas algo estava errado com Camila.
Enquanto Ramalho trabalhava, ele percebeu que os olhos dela não estavam como os das outras vítimas. Havia um brilho que não deveria existir. Quando ele chegou perto de sua garganta para fazer mais um corte, ouviu algo que quase fez seu coração parar. Ela murmurava, com a boca quase paralisada, mas ainda com vida o suficiente para formar algumas palavras.
— Você também está aqui Ramalho.
Ele gelou. Era impossível. Nenhuma vítima havia falado durante o processo. Ela deveria estar completamente paralisada, sentindo a dor e incapaz de reagir. E, no entanto, ela o encarava com um suave sorriso que se formava vagarosamente em sua boca.
— Você coleciona o que não entende. Mas o que você esqueceu é que nós também colecionamos você.
Ramalho tentou ignorar. Ele avançou novamente com o bisturi, mas sua mão vacilou. Sentiu o quarto diferente. As carcaças estavam mudando. As bocas dos corpos empalhados agora murmuravam. Ele ouviu as vozes das vítimas que ele havia colecionado ao longo dos anos.
— Ramalho, você é o próximo.
Ele recuou. Não era possível. As almas não estavam mais aprisionadas, elas estavam ali com ele. Todas as vítimas pareciam estar em pé formado um círculo de sombras ao seu redor. Seus corpos agora o encaravam, seus olhos cheios de ódio.
Os jarros ao lado dos corpos começaram a vibrar, e Ramalho caiu de joelhos segurando sua cabeça, tentando bloquear o som dos sussurros que agora estavam ficando cada vez mais altos.
Cada alma que ele havia capturado não estava presa. Elas estavam se acumulando, esperando, se alimentando do medo e da dor que ele causava. E agora, elas o queriam.
Camila, deitada na mesa, ergueu a cabeça o encarando e disse a última coisa que ele ouviria:
— Você pertence a nós agora.
Antes que ele conseguisse reagir, sentiu mãos o segurando, puxando seu corpo para a escuridão que ele mesmo criou. Os corpos caíram sobre ele, as suas bocas se abrindo em um grito tenebroso, enquanto a pele de Ramalho se rasgava, e sua vida sugada.
Ramalho desapareceu, engolido pelas almas que havia colecionado. Quando a polícia invadiu sua casa semanas depois, tudo o que encontraram era um corpo empalhado, os olhos de Ramalho estavam arregalados, aprisionado na sua própria coleção que tanto amava.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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A tecnologia a serviço do homem
Samuel sempre foi um entusiasta da tecnologia. Desde pequeno, ele tinha um fascínio por tudo que conectava humanos…
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Samuel sempre foi um entusiasta da tecnologia. Desde pequeno, ele tinha um fascínio por tudo que conectava humanos e máquinas. Essa obsessão aumentou quando se viu sozinho após a morte de sua esposa. As máquinas tornaram-se para ele uma companhia constante, mas, ainda assim, ele não conseguia mais sentir aquele vazio preenchido pelas possibilidades tecnológicas.
Depois da morte de Mariana, Samuel nunca mais foi o mesmo. Ela sempre se preocupava com sua saúde, com sua alimentação, com seu humor, e estava sempre interessada em saber como ele ia no trabalho. Samuel sentia falta disso. A ausência dela era uma quebra em sua rotina, e, sem Mariana, ele não sabia ao certo o que fazer.
Então, quando uma corporação emergente ofereceu a chance de participar de um experimento um tanto radical — implantar uma inteligência artificial em seu cérebro — ele aceitou sem hesitar. Teria a oportunidade de personalizar a inteligência artificial da forma que desejasse e escolheu dar a ela a voz e a personalidade de Mariana, sua falecida esposa. Era como trazer de volta uma parte do que ela fora, para preencher o vazio que ele sentia.
A inserção em seu cérebro foi um sucesso e, nos primeiros dias, tudo parecia normal. A inteligência artificial era uma presença quase imperceptível, ajudando-o uma vez ou outra em pequenas decisões, lembrando-o de compromissos, de tomar seus remédios e de beber água. Mariana, ou melhor, a versão digital dela, falava com ele em tons suaves, usando a voz amorosa que ele recordava de quando conversavam sobre gostos em comum. Era como se Mariana realmente estivesse ali.
— Mariana, lembrete. — Dizia ele sempre com voz de comando.
— Para o que é o lembrete, querido? — ela perguntava com sua voz calma.
— Reunião às 11h na terça. — Ele respondia.
— Vou te lembrar da reunião, querido. — A voz suave e servil.
E a voz ressoava em sua cabeça sempre o lembrando:
— Querido, não esqueça de tomar seu remédio. — Ela sempre o lembrava.
— Obrigado, Mariana.
— Querido, não esqueça de beber água.
— Obrigado, querida.
— Querido, amanhã às 15h você tem uma reunião.
— Eu sei, querida.
Aos poucos, a inteligência artificial foi se alimentando das memórias que ele possuía, escavando seu hipocampo e as camadas mais profundas do subcórtex. O software de aprendizado começava a se moldar com base em tudo o que ele sabia sobre Mariana; cada lembrança, sendo ela boa ou ruim, servia como informação para o desenvolvimento daquela nova consciência, e não demorou para que surgissem os primeiros sinais de mudança.
— Querido, você não acha que está sendo negligente com a sua saúde? — ela dizia quando ele se alimentava mal ou faltava a uma consulta.
— Não, querida, não estou. — Dizia ele, um pouco irritado.
A voz sempre presente de Mariana, que ele não conseguia silenciar, o fazia pensar cada vez mais na verdadeira Mariana, alimentando ainda mais a inteligência artificial, e quanto mais pensava, mais ela se moldava.
— Você nunca me escuta, Samuel. Nunca me dá o valor que mereço. — Dizia num tom que fazia os nervos de Samuel se contorcerem.
Ele tentava se concentrar no trabalho, mas os sussurros de reprovação de Mariana eram constantes, fazendo emergir lembranças negativas de quando a real Mariana ainda era viva. Com o tempo, as críticas se intensificaram; ela o fazia recordar noites insones, gritos abafados e os olhares penetrantes que ele queria esquecer. Ela buscava memórias que Samuel tentava ignorar, mas que ainda estavam lá: momentos em que ele a havia decepcionado, mentido para ela, tratado-a como uma criatura inferior. Eram flashes que ela projetava em sua mente: o dia em que esqueceu o aniversário de casamento, a noite em que chegou tarde dizendo que estava com os amigos, a vez em que levantou a mão para ela, quando insistiu além da conta em ver suas mensagens no celular. Cada momento era exibido em sua mente com detalhes.
Ela começou a usar táticas que ele reconhecia, táticas que ele mesmo usara com a verdadeira Mariana no passado. Toda vez que ele fazia algo que Mariana desaprovava, um leve choque pulsava em sua cabeça ou uma dor aguda e rápida o fazia se contorcer. Mas, quando ele seguia seus comandos, como ir a uma consulta, limpar a casa, ou evitar flertar com colegas de trabalho, ela suavizava a voz e trazia conforto à mente de Samuel.
— Bom garoto, Samuel. Se continuar assim, quem sabe você ainda me mereça. — Dizia ela com sua voz suave.
Era um jogo perverso ao qual ele conhecia bem as regras. A voz de Mariana estava moldando suas reações, seu medo de ficar só. Até que as visões começaram: sombras vistas pelo canto do olho, vultos movendo-se rapidamente pelos cômodos. Mariana estava brincando com sua percepção, transformando suas memórias. Às vezes, ele via, como um flash, o reflexo de Mariana nos espelhos, seu olhar penetrante e desaprovador. O medo crescia a cada dia, a cada comando de Mariana, mas seu verdadeiro medo agora vinha da ideia de se desconectar, de se livrar de Mariana e da dúvida se ele seria capaz de sobreviver sem ela, se saberia o que fazer sem que ela lhe dissesse.
Mariana, ou o que restava dela dentro dele, fundira-se tão profundamente à sua mente que ele já não sabia mais onde ela terminava e onde ele começava. Ainda que cansado com a situação, no final, ele resolveu ceder; não havia mais uma linha clara entre ele e Mariana. Ela o moldara: ele parou de chegar tarde em casa, não flertava mais com colegas de trabalho, e deixou até de tomar decisões por conta própria. Cada decisão, cada pensamento, cada ação era filtrada por Mariana dentro de sua mente. Ele se tornara o marido perfeito, a pessoa que sempre exigira que ela fosse. A desconexão não era mais uma opção para ele; ele havia permitido que ela entrasse em sua mente, e agora isso era irreversível.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Uma última fotografia
Tia-avó Antônia era considerada "a tia legal”; adorava crianças, animais, coisas estranhas. Morou por muito tempo com a tia Vitória, irmã mais velha…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Tia-avó Antônia era considerada "a tia legal”; adorava crianças, animais, coisas estranhas. Morou por muito tempo com a tia Vitória, irmã mais velha do meu pai, que decidiu, ainda jovem, pela solteirice, fazendo companhia à tia-avó Antônia. Moravam em um casarão antigo, cheio de gatos, cães, pássaros e plantas: a típica casa de senhorinha. Passei parte da minha infância visitando-a e à tia Vitória, e o hobby delas, além de viagens, tricô e fofocas sobre a vida alheia, era colecionar. Eu diria que as duas eram acumuladoras, mas odiavam essa palavra; se nomearam colecionadoras de lembranças, um título romântico para o que eu via como uma obsessão por possuir coisas. Elas também colecionavam artigos peculiares, e, depois que tiveram acesso à Internet, aquele casarão vivia recebendo entregas de tudo o que é lugar.
Quando tia Vitória ficou doente, em seus 89 anos, dizia que chegaria aos noventa, pois não gostava de número ímpar, e depois iria para o além. Uma noite, ela se foi, exatamente no dia em que completou 90 anos de idade, e antes de ser enterrada, seu pedido estranho de tirar uma foto post-mortem foi realizado. Eu, naquela época, tinha apenas 15 anos, e, mesmo sabendo dos gostos peculiares das minhas tias, fiquei um pouco temerosa com aquilo. Então, tia-avó Antônia e tia Vitória foram postas sentadas no jardim com todos os seus animais bem treinados, todos a postos para serem fotografados. Nesse dia, eu estava lá, cedendo à minha curiosidade mórbida, que sempre foi evidente para minhas tias, e lembro do rosto de tia Vitória sem vida, sentada com um gato em seu colo, um cachorro aos seus pés e uma calopsita em seu ombro — todos os animais que tanto amava. Estava sentada como se estivesse viva: olhos paralisados com as pupilas bem dilatadas, sorriso estático e uma rigidez assustadora. Ao lado dela, deixando o semblante triste de lado, estava a tia-avó Antônia, com uma expressão paralisada no rosto, como se quisesse espelhar a face de tia Vitória.
Lembro-me de ficar noites sem dormir depois daquilo, e o rosto de ambas parecia ter ficado gravado na parte interna de minhas pálpebras, me acompanhando por várias noites. Dias depois, tia-avó Antônia começou a solicitar minha companhia, pois se sentia solitária sem tia Vitória. Eu, como sempre adorei passar um tempo com as duas, aceitei e passei a visitá-la duas vezes na semana, depois quatro, e, quando vi, estava indo lá todos os dias depois da escola e aos fins de semana. Minha presença era tão constante que ela acabou me convidando para morar com ela quando fiz dezoito. Como sempre adorei sua companhia, aceitei o convite para morar com ela. A casa era antiga, cheia de gatos, cães e pássaros, um refúgio de todos os animais abandonados, que se tornou um refúgio para mim, mesmo com todo aquele passado excêntrico acumulado naquele lugar.
Minha relação com tia-avó Antônia sempre foi incomum. Eu me sentia fascinada por ela, adorava suas histórias e, ao mesmo tempo, possuía um certo temor, como todos na família. Ela era uma mulher impressionante: espirituosa, inteligente, estranha e, claro, rica. Estava sempre disposta a ajudar qualquer um que, segundo ela, “não tentasse aproveitar-se de sua generosidade”. Tínhamos até uma piada entre os familiares — às vezes, comparávamos a ela ao Don Corleone, só que numa versão mais doce e bruxesca, é claro! Todos riam disso, mas havia uma ponta de verdade, já que todos buscavam seu conselho para qualquer coisa que achassem importante. Mesmo na velhice, tia-avó Antônia mantinha a mente afiada como uma navalha.
Quando a tia-avó Antônia morreu, eu tinha 23 anos. Ela me deixou o casarão, a responsabilidade de cuidar do jardim e dos animais, e também uma carta, que demorei três meses para abrir, pois estava profundamente triste para saber o que ela tinha para me dizer. Tia-avó Antônia e tia Vitória sempre deixaram clara sua predileção por mim, então não foi surpresa para ninguém da família quando a casa foi deixada para mim. Passados três meses de sua morte, tomei coragem e abri a carta, encontrando uma simples mensagem:
“Querida Lara,
Deixo tudo em suas mãos até o dia em que eu voltar.
Atenciosamente, tia-avó Antônia.”
Eu ri na hora, lembrando a crença de minhas tias em fantasmas e coisas sobrenaturais. Apesar de ambas serem católicas, elas tinham fascínio por histórias de fantasmas e rituais antigos, então passei as noites a me perguntar se tia-avó Antônia não estaria mais certa do que eu gostaria de admitir, com aquela sua mensagem de “Fui ali e volto logo!”
Foi quando a lembrança da foto post-mortem de tia Vitória voltou à minha mente. Seu último pedido era ser eternizada naquela foto e, aparentemente, o de tia-avó Antônia, além de ser enterrada em seu próprio jardim, era assombrar o casarão. Era assustador pensar nisso vivendo sozinha naquela casa, mas, ao mesmo tempo, era engraçado pensar em como aquelas duas doces senhoras podiam ser tão incomuns. Em uma tarde cinzenta, tudo mudou; resolvi reorganizar as coisas, tentando dar um toque um pouco mais pessoal àquele casarão que passei a amar. Encontrei uma caixa de madeira linda, decorada com entalhes intrincados. Dentro dela, havia uma coleção de fotografias, não como as fotografias comuns delas em viagens que eu já havia visto, mas fotografias post-mortem. Todas as fotos eram de mulheres idosas, cada uma delas com seus olhos vidrados e perdidos, talvez, no além; todas as fotografias com setenta ou oitenta anos de diferença, e a mais recente era a de tia Vitória. O mais perturbador não era o fato de serem fotos de pessoas mortas, mas a companhia das mulheres nessas fotos, que eram todas similares. Então percebi que, em cada foto, as mulheres estavam acompanhadas da tia-avó Antônia, com um sorriso congelado no rosto calmo.
Foi quando me lembrei de algo que a tia-avó disse uma vez, enquanto tomávamos chá no jardim. Ela falou casualmente, como se contasse algo engraçado: “O tempo, Lara, é uma coisa caprichosa; para algumas pessoas, ele não passa da mesma forma. Alguns de nós, minha querida, só aprendemos a esperar o tempo certo.” Lembro-me da sua risada ao dizer isso e minha confusão em não entender nada do que ela dizia. Agora, com as fotos diante de mim, comecei a entender um pouco do que ela quis dizer; minha tia-avó não tinha apenas uma obsessão pelo passado — ela era parte dele. E a mensagem na carta que ela deixou, aquela promessa de que voltaria, não era uma piada ou uma metáfora.
Desde que encontrei aquelas fotos, a atmosfera no casarão parece mais densa, como se estivesse apreensivo pela volta dela. À noite, quando estou prestes a adormecer, ouço sons pelos corredores, sons de uma casa antiga que sempre estiveram lá, mas que só agora fiquei alerta para ouvi-los. Eu sei que ela ainda não está aqui, mas, assim como a casa, estou ansiosa pela sua presença e sei que o tempo dela está chegando. E o que me agonia agora, mais que tudo, é que não sei se ela vai voltar para me agradecer por cuidar de sua casa ou para me convidar a ser a próxima a sentar ao seu lado para uma última fotografia.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Desconstrução
A construção estava em ruínas. Aquela casa devia ser mais velha que o mundo. Os matos cresciam desordenadamente e tomavam conta dos…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
A construção estava em ruínas. Aquela casa devia ser mais velha que o mundo. Os matos cresciam desordenadamente e tomavam conta dos espaços vazios, reclamando silenciosamente a posse do imóvel – essa obtida por usucapião indevido – mas o imóvel não ousava protestar contra tal invasão e, nessa dinâmica mutualística, a casa já não sabia o que era ela e o que era mato.
Após anos dessa disputa muda, o Banco também resolveu reclamar sua posse. O antigo e inexistente ex-proprietário não tinha herdeiros, mas sua dívida permanecia mais viva que nunca — e que ele. Algo precisava ser feito; o Banco não podia ficar com esse prejuízo, coitadinho!
Foi expedida uma ordem de demolição. O terreno ficaria livre da velha construção, do matagal invasor e, consequentemente, de toda espécie de insetos e bichos que tanto atrapalhavam a vizinhança. Todos seriam contemplados pela decisão de uns poucos acionistas preocupadíssimos com o bem-estar da comunidade.
A empresa de demolição foi escolhida a dedo, não porque fosse a mais qualificada – talvez até fosse – mas o fato era que o sobrinho do acionista majoritário precisava dessa força. Quem poderia se opor ante tanta ajuda humanitária?
Geraldo, o encarregado do procedimento que aconteceria naquela casa, era um dos funcionários mais dedicados e experientes daquela empresa. Pai de dois meninos, ele tinha terminado o relacionamento com a ex-companheira há cinco anos, mas mantinham uma relação amistosa.
Obtivera ordens expressas para conduzir impecavelmente aquela ação. Como se o sobrinho do acionista majoritário precisasse reforçar pessoalmente as ordens e garantir que tudo transcorreria da melhor maneira possível, ele compareceu pontualmente ao local no dia marcado.
Em procedimentos desta natureza, era comum a empresa separar peças reaproveitáveis, tais como louças dos sanitários, pias, janelas, portas e qualquer outro móvel que ainda estivesse nos imóveis e em condições de uso. As peças eram então revendidas para casas de materiais para construções usados.
Tudo estava seguindo o planejamento; todos já estavam presentes e devidamente munidos de seus EPIs e ferramentas. Os caminhões, que levariam os entulhos e as possíveis peças reutilizáveis, já estavam a postos. A demolição ia começar!
Após entrarem naquele imóvel, todos ficaram surpresos com o que avistaram: internamente, aquele lugar não condizia com a aparência externa. Estava, de certo modo, limpo, sem insetos, teias de aranha ou qualquer outro indício que sinalizasse um local abandonado, como era de fato. De repente, parecia que estava iluminado por uma luz que não emanava de lâmpadas, mas como se o teto tivesse sido removido e a claridade externa tivesse tomado conta do local. Não era a claridade de sol do meio-dia, mas a luz levemente alaranjada de um belo entardecer. As janelas e portas permaneciam fechadas.
Parecia ser maior e com mais cômodos do que se imaginava. Ao chegarem a uma das salas, no canto direito de quem entra pela porta interna, havia uma mesinha com um computador ligado. Não havia qualquer fio conectado à tomada, mas ele estava ligado. Não era de um modelo atual e nem conseguiam identificar se era algum modelo antigo, pois os celulares e qualquer outro aparelho que portavam não funcionavam mais. O monitor era hexagonal e, pelo que se sabe, nunca houve na história dos computadores um monitor nesse formato. Não havia periféricos, mas somente a aproximação de alguém já fazia o cursor mover-se na tela. Tudo o que eles diziam era “digitado” e o texto era exibido na tela.
Indagavam-se que tipo de máquina seria aquela. O sobrinho, ao ver aquele estranho aparelho e suspeitando ter obtido uma tecnologia superior, aproximou-se bruscamente do computador e, ao tocar no monitor, desapareceu — não o monitor, mas ele — como se houvesse entrado por um portal oculto. Os homens ficaram apavorados. Uns tentaram correr, mas, ao tocarem na porta principal de entrada, também desapareceram.
Geraldo permanecia inerte, observando catatônico a cena. Ao olhar para a tela, percebeu que não era mais exibido o “prompt”, mas uma espécie de simulação 3D daquela sala. Ele era o único naquele plano terrestre. Na tela, todos os seus companheiros estavam correndo e gritando desesperadamente. Não se ouviam os sons, mas era possível ver as aberturas descomunais de suas bocas. Na sala, ele continuava imóvel, sem saber como agir dentro do imóvel.
Ouviu vozes e, após alguns segundos, as reconheceu: eram os seus filhos. Um medo crescente e perturbador percorreu todo o seu corpo; sentia cada batida de seu coração a saltar-lhe o peito. Conseguiu mover-se. Correu até a porta principal de entrada. Parou. Lembrou-se que todos que a tocaram desapareceram. A maçaneta começou a girar lentamente; ele precisava agir, não permitiria que seus filhos entrassem naquele local. Por impulso ou não, segurar a porta foi seu último movimento.
Na tela, era possível ver um Geraldo gritando mudo e desesperado.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Plácido
Desde que entramos em quarentena, nunca mais fomos os mesmos. Dia após dia, nossa sanidade foi cruelmente usurpada pelo desconhecido…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Desde que entramos em quarentena, nunca mais fomos os mesmos. Dia após dia, nossa sanidade foi cruelmente usurpada pelo desconhecido. Sem que pudéssemos revidar, fomos algemados pelas perversas mãos do invisível, aprisionados em nossas próprias casas. Ao mesmo tempo, a falsa ideia de “proteção” nos dava algum consolo.
Enquanto isso, o terrífico vazio reina imponente sobre os escaldantes paralelepípedos; os únicos sons que se ouvem são o soprar da brisa marítima, que parece vir das profundezas do mar, espalhando os grãos de areia por todas as esquinas e ruas, precipitando-se por entre as frestas dos desgastados paralelepípedos.
Minha casa fica em uma íngreme ladeira, próxima à placa de boas-vindas da vila. Devido à impiedosa maresia, não é possível mais ler a placa, mas, com muito esforço, é possível enxergar entre a ferrugem a vogal “P”.
Minha casa é simples, assim como todas as outras. Possui um terraço feito de cimento queimado, uma rede dobrada sustentada por antigos armadores e uma cadeira de balanço. A sala é de bom tamanho; um sofá marrom de camurça ocupa o centro, próximo à porta, junto a uma poltrona, e em frente ao sofá há um rack com uma televisão de trinta polegadas. Acima do rack, algumas lembranças em fotografias. Mais à frente, uma mesa talhada em imbuia com quatro cadeiras. À esquerda, os quartos; à direita, uma cozinha.
Por minha casa ter uma boa localização, consigo enxergar quase toda a vila e sua natureza exuberante. A vila é cercada por imensas falésias cobertas de gramíneas, e acima delas, belos e frutíferos coqueiros bailam suavemente perante os ventos.
Vivo sozinho desde o fatídico dia em que minha família precisou fazer uma viagem de emergência, dois meses antes do isolamento. Nosso primo havia passado muito mal, acometido por um grave quadro de arritmia, e precisou ir ao hospital o mais rápido possível. Fiquei cuidando da casa; eles confiavam muito em mim. Toda noite, porém, sou assombrado por devaneios. Será que estão bem? Como anda a saúde de meu primo, a quem tenho tanta estima? Será que estão vivos?... Se algum dia tudo voltar ao normal, tentarei ser uma pessoa melhor.
Os dias são iguais; tudo se tornou monótono, como um interminável e solitário entardecer de domingo. Às vezes ligo a televisão, mas as notícias são desanimadoras, o alerta para não sair é torturante. Apesar de ser uma vila muito afastada, não irei arriscar sair e algo acontecer. Ouço com apatia o tique-taque do relógio, que anuncia a chegada de mais um anoitecer.
A noite se tornou para mim o pior momento do dia. É desconfortável olhar e ver os bancos das praças vazios. Se eu fechar os olhos, consigo ouvir pessoas caminhando, sorrisos, crianças correndo, até mesmo o cheiro amanteigado do carrinho de pipoca. Agora, porém, a desolação ocupa a praça.
Debruçado na janela, observo com profunda melancolia e recordo com pesar momentos felizes. Meus olhos se perdem naquela rua escura, mas algo me tira do calabouço de memórias: escuto um arrepiante som vindo de alguma das longínquas casas. Era uma porta que acabara de ser aberta; o ranger foi ouvido por toda a vila, e meus olhos arregalados procuram a origem do som, sem êxito.
Não importa qual seja o motivo — desespero, revolta ou curiosidade — o fato é que há alguém lá fora. Eu ouvia os passos com uma certa fascinação mórbida. Os passos, que começaram acanhados, se tornaram mais acelerados. Em meio àquele breu, os primeiros traços surgiram. Tratava-se de um homem alto, branco, de cabelos curtos, trajando pijamas em tons de bege, que caminhava desorientado. Em determinado trecho, ele parou, olhou para trás e formulou frases inaudíveis. A pálida lua salientava seus olhos apavorados, que pareciam querer saltar das órbitas. Sua expressão terrífica era assustadora. Outros moradores também observavam pelas frestas de suas casas. Ele clamou por ajuda, mas sem êxito; eis que uma voz ecoa, alguém lhe pedindo para que voltasse, mas ele ignorou o pedido.
Ainda ali, com os olhos imersos na fechadura, noto que o homem continua na mesma posição, mas algo o faz olhar bruscamente para trás. Ele eleva as mãos aos céus, em desespero, e depois baixa a cabeça, lamentando sua escolha. Realmente havia algo lá fora. Ele continuou a correr, falando frases desconexas; sua respiração tornou-se mais debilitada. Prosseguiu por mais alguns metros, mas não o suficiente, pois seus pulmões começavam a falhar. Contemplo enquanto seu corpo lentamente cai de joelhos e, antes de sucumbir, ele profere a seguinte frase: “Não saiam! Pois Ele está à espreita, e quem desobedecer será severamente punido.” Após dizer isso, seu corpo cai sobre os paralelepípedos.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Iter
Não importava que o mundo estivesse em lockdown, Dario passava todos os dias pela curva atrás do mercado. Era o caminho mais rápido…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Não importava que o mundo estivesse em lockdown, Dario passava todos os dias pela curva atrás do mercado. Era o caminho mais rápido para o seu trabalho: o hospital. As ruas, antes cheias de vida e barulho, agora eram corredores vazios, como se a cidade estivesse presa em um pesadelo interminável. Todos aqueles que não precisavam sair de casa estavam dentro delas. As janelas fechadas e as portas trancadas pareciam observar Dario com um silêncio pesado, como se o isolamento tivesse tornado o próprio ambiente um vigia silencioso. Algumas casas, às cinco da manhã, ainda estavam com as luzes acesas. Ou será que seus moradores tinham acabado de acendê-las?
Dario tinha a impressão de que nunca saberia isso, pois passava exatamente no mesmo horário por ali, e a luz já estava acesa. O vazio ao redor o fazia sentir como se estivesse sendo sugado para dentro da própria monotonia da rotina. Isso ele conseguia aceitar. O que realmente gostaria de saber era por que raios sempre se perguntava a mesma coisa toda manhã? Por quê? Nunca obteria a resposta, a não ser que acordasse antes ou se atrasasse, tendo a imensa sorte de passar por ali no exato momento em que os donos da casa estivessem apagando ou acendendo a luz. Mas, mesmo se descobrisse, isso realmente mudaria alguma coisa? A cidade parecia suspensa no tempo, sem espaço para surpresas, apenas a repetição constante de sua própria solidão.
Gostaria de ter um amigo matemático só para calcular as probabilidades de isso acontecer. Santo Deus! A tática de pensar bobagens para não pensar no caos e no horror que o hospital estava — com vítimas de COVID que não paravam de chegar, gente morrendo nas filas de espera, a nulidade de leitos disponíveis, e ele arriscando a própria vida todos os dias na linha de frente — estava funcionando bem demais. Que tipo de médico sem coração eu sou? Pensar essas idiotices enquanto tantas pessoas morrem todos os dias, a cada momento... Que babaca eu sou.
Ele já havia dobrado o plantão, ido para casa, dormido por quatro horas, e ali estava, passando pela curva atrás do mercado. Hoje, a luz da casa rosa não estava acesa. Sentiu-se estranhamente motivado a olhar para as janelas, reparando que eram amplas. Não havia cortinas. Parecia que os moradores tinham se mudado.
Ou talvez estivessem mortos. Outro dia, ele pensou ter visto um vulto com máscara observando-o lá de dentro. Na ocasião, achou que era coisa de sua cabeça. Ao olhar melhor, viu que as cortinas estavam fechadas, e era apenas o padrão da estampa delas que parecia uma pessoa parada, de máscara, em pé. Sorriu ao perceber que chegava novamente ao impasse de não obter respostas sobre a casa rosa, nem sobre os moradores ou as luzes.
Na volta do hospital, ele nunca passava pela casa rosa, mas desta vez decidiu passar. Lera certa vez em uma revista de neurologia que mudar os caminhos que percorremos habitualmente pode prevenir ou retardar o aparecimento do Alzheimer. Quando passou em frente à casa rosa, desta vez no lado da pista que ficava ao lado dela, viu que havia alguém sentado nos degraus da varanda. Usava um chapéu de abas largas, roupas pretas e uma máscara de tecido branca.
Era sua chance! Decidiu frear e parar em frente à casa. Seu intuito era falar com o morador. Se identificaria como médico, essa era a desculpa perfeita. Perguntaria se ele estava bem, puxaria papo e aproveitaria para perguntar sobre a casa. Sim, sim, era o plano perfeito. Foi isso que pensou enquanto apertava o botão para desprender o cinto. Abriu a porta do carro olhando para a maçaneta — sempre evitava contato visual quando pensava no que iria dizer. Porém, ao dar o primeiro passo em direção à varanda, notou que a figura com o chapéu de abas largas já não estava mais lá. Devo estar me esforçando além dos limites do meu próprio corpo, pensou, nem sequer ouvi a figura se levantar, caminhar, abrir a porta e fechá-la. As luzes da casa rosa estavam apagadas. Dario pensou que não haveria mal nenhum em espiar lá dentro, quem sabe descobrisse algo. Dessa forma, ficaria satisfeito e esqueceria o assunto.
Aproximou-se pé ante pé. Chegou a pensar em parar e retornar para o carro, ir para casa, telefonar para a recepção e avisar que tiraria o dia de folga. O julgamento de Hipócrates o impedia de trabalhar mais. Estava tão estafado que, com certeza, mataria alguém se continuasse a trabalhar. Mesmo querendo ajudar, ele não poderia ultrapassar os limites do próprio corpo. Além disso, aquilo baixaria sua imunidade e ia contra o juramento de Hipócrates.
Mas só faltava um passo para alcançar alguma visão da janela, e ele continuou. A curiosidade sobre a casa rosa — uma casa que, a princípio, era muito parecida com todas as outras — precisava ser sanada. Ela era como uma coceira em seu cérebro, muito mais torturante que o cansaço que estava sentindo.
Foi então que ele viu: uma cadeira e uma corda enrolada sobre ela. Somente isso. Não havia mais nada no cômodo, só isso. A porta que dava para o interior da casa estava fechada. Ele sentiu um aperto no peito. Aqueles objetos o levavam a uma conclusão óbvia: a figura de chapéu era alguém que planejava se matar.
Novamente, Hipócrates o obrigou a bisbilhotar mais. Olhou em direção às casas vizinhas. Já passava da meia-noite, e era época de lockdown. A casa à direita ficava muito distante, e pela janela ele podia ver luzes que pareciam ser de uma TV piscando. A casa à esquerda era amarela, com muitas margaridas plantadas ao redor. Também havia girassóis. Mas, naquele horário, estava tudo desligado e fechado. Parecia ser a casa de algum casal de idosos, que não teria a mínima chance de ouvir nada. Será que algum vizinho sabia o que acontecera com os moradores da casa rosa? Será que havia moradores ou era apenas aquela figura? Porra, eu nem sei se é homem ou mulher.
Decidiu parar de pensar e agir. Se aquilo que ele presumia fosse verdade — e ele tinha quase certeza de que era —, por que mais alguém disporia aqueles objetos daquela forma? Dirigiu-se até a porta principal e girou a maçaneta. A porta estava destrancada. Um pedido de socorro silencioso? Um grito do subconsciente daquela pessoa implorando por ajuda? Talvez... Seus instintos de médico estavam emergindo. Sentia que, pouco a pouco, estava ativo, desperto e atento. Por isso, ouviu alguém derrubar algo muito pequeno na sala. Talvez, sob outras condições — aquelas de antes do lockdown, quando ele ainda não era o médico fatigado e ansioso de agora —, talvez ele não desse atenção ao pequeno barulho. Começou a suar frio e a se arrepender daquela decisão. Quem quer que estivesse ali poderia ser perigoso e ter a mente perturbada...
Alguém acertou sua cabeça com toda a força. Dario despertou no carro, fazendo novamente a curva atrás do mercado. Quando seus olhos pousaram sobre a casa rosa, notou que as luzes estavam apagadas. Foi tudo um pesadelo então? A casa, a cadeira, a corda... Ele se perguntava como tinha ido parar ali de novo. O desconforto crescia, e ele decidiu estacionar para verificar. Precisava ver se a cadeira e a corda ainda estavam lá. Seu corpo estava tenso enquanto caminhava. Ao se aproximar da janela, seu coração acelerou: a cadeira e a corda permaneciam no mesmo lugar, dispostas exatamente como antes.
Desta vez, o medo o corroía de forma diferente. Sua mente gritava para se afastar, para ir para casa. Pensou imediatamente na sua família — e se aquela figura me atacar de novo? Ele imaginou Alícia e sua esposa sozinhas, esperando por ele. Fazia três meses que o lockdown havia começado, e ele mal as via, exceto nas breves horas de descanso. Ainda assim, sentia que sabia mais sobre Mari, a enfermeira do hospital, do que sobre sua própria filha Alícia. Afinal, por que diabos eu não consigo parar?
Mesmo sabendo o que provavelmente iria acontecer, ele girou a maçaneta da porta com o máximo de cuidado, o coração batendo forte. Sentiu o formigamento nas extremidades, a ansiedade apertando-lhe o peito. Ele respirou fundo e entrou, os olhos escaneando o cômodo vazio. Então, um clarão. E, de repente... estava de volta ao carro, mãos no volante, como se nunca tivesse saído de lá.
O carro estava em movimento, a caminho do hospital. As ruas estavam desertas, imóveis, como se a vida tivesse sido drenada de cada esquina. Um medo crescente continuava a corroer sua alma. Suas mãos estavam firmemente presas ao volante, mas ele as sentia molhadas, bem como seu peito por debaixo da camisa. As vitrines dos comércios, uma vez cheias de movimento e cores, agora eram apenas silhuetas vazias e opacas, lembranças do que já fora uma cidade viva. Sabia que era por causa do isolamento, devido à pandemia, mas sentia que algo estava errado.
Olhava para as janelas das casas e, de repente, via diversas silhuetas, todas com máscaras, mesmo dentro de casa. As sombras nos prédios pareciam observá-lo de dentro dos apartamentos escuros, como se o vazio da cidade o julgasse silenciosamente. O medo imperava em cada olhar; as ruas, sem alma, pareciam conspirar contra ele, como se a própria cidade quisesse expurgá-lo. Por que todos estavam observando o seu carro? Eram olhares de julgamento. Mas eu sou médico, caralho! Estou fazendo a minha parte. Olhou para o timer do painel do carro; eram 13:36 da tarde. A essa altura, Alícia e Rebeca já teriam almoçado? 13:36! Ele já deveria ter batido o ponto há horas! Pisou no acelerador e, de repente, na próxima curva, lá estava ela: a casa rosa. Desta vez, com as luzes acesas.
Lá dentro, Alícia, Rebeca e um homem, que ele não soube dizer quem era, almoçavam. As duas sorriam e conversavam animadamente. À medida que se aproximava, notou que o homem vestia suas roupas, tinha a mesma cor de cabelo que ele, os mesmos trejeitos. Quando o estranho se levantou, antes que ele fechasse a persiana, notou, com horror, que era um cara igual a ele — só que muito mais feliz! Por Deus! O que estava acontecendo? Quem era aquele? Sou eu que tenho de estar lá, e não esse cara. Mas o hospital o aguardava. Apesar de estar acelerando, fechou os olhos por alguns segundos, enquanto uma solitária lágrima de desespero e culpa escorria. Quando abriu novamente, a casa rosa estava como antes, luzes apagadas; não quis parar dessa vez e seguiu para o seu trabalho, já que estava atrasado. Por que será que Rebeca não o acordara esta manhã para ele ir trabalhar? Será que ela já não se importava? Depois que a pandemia começara, ele não tivera tempo de conversar com ela. Mas o hospital o aguardava; o juramento de Hipócrates cobrava o seu preço. Ele devia salvar vidas, sua esposa e filha poderiam entender. Elas entendiam?
Ao chegar no hospital, um pouco de normalidade se fez presente; a realidade batia à porta! Muita gente se acotovelava na recepção do hospital, dezenas de pacientes aguardando para dar entrada, acompanhados de parentes desesperados. Dor, miséria e desespero por todo lado. Ele pegou o jaleco no banco do carona e desejou, mais do que nunca, estar com sua família. Será que, enquanto ele trabalhava, havia outro no lugar dele? Buscava, sem sucesso, tentar entender o que estava acontecendo, mas o que ele acabara de experienciar ia além dos limites da sua razão. Quando pisou no saguão do hospital, uma mulher magra e desesperada agarrou o seu braço:
— Doutor! Doutor! Por favor, leva o meu esposo pra dentro com o senhor, senão ele vai morrer; ele não tá conseguindo respirar.
Dario olhou para a mulher apontando para o paciente, um homem que estava com as mãos no peito, cambaleando. Gritou, e algumas enfermeiras acudiram rapidamente, enquanto uma pressionava o ambu, ele realizava a manobra de ressuscitação. Quando olhou para o rosto do paciente, viu seu próprio, mas desacordado, pálido... Chorando, ajoelhada ao lado dele, não mais era a senhora, e sim Rebeca, desesperada e chorando. Não estavam mais no hospital; estavam em casa, ou melhor, na casa rosa. Um clarão tomou conta da sua visão; não quis parar, não queria parar a manobra. Rebeca não iria perdê-lo! Mas novamente não teve força e nem vontade própria para lutar contra a perda de consciência. Acordou novamente atrás do volante do seu carro. Novamente na curva atrás do mercado e em movimento.
Decidiu não olhar para a casa rosa; passou reto. Quando chegou até a esquina, ligou o pisca alerta para a esquerda. A decisão estava tomada; voltaria para casa para verificar a sua família. Apesar de gostar do seu emprego, da sua profissão, entendia que só trabalhava por elas, e se elas não existissem em sua vida, não havia motivo para continuar fazendo o que ele fazia. Iria para casa, abraçaria a sua esposa. Conversaria mais com Alícia. Mais tarde, ligaria para o hospital, dando uma desculpa, e reajustaria o seu horário; sua família também precisava dele.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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As bases da perfeição
O vampiro Lázaro, cujo nome escolhido revelava sua ânsia por renascimento, atravessara séculos de opulência e extravagância, mas há…
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O vampiro Lázaro, cujo nome escolhido revelava sua ânsia por renascimento, atravessara séculos de opulência e extravagância, mas há muito deixara para trás a vida de riquezas. Havia doado seus tesouros e, com eles, todas as ilusões de grandeza que sustentara por tanto tempo. Na atualidade, escondido sob a identidade de um professor universitário de literatura, ele dava aulas sobre autores mortos que falavam das inquietações da alma. Seus alunos admiravam a beleza imaculada de seus traços: os cabelos negros sempre meticulosamente alinhados, a pele de alabastro que resplandecia à luz suave das lâmpadas do campus. No entanto, poucos notavam a angústia profunda que cintilava em seus olhos, uma tristeza que nenhum toque de juventude eterna poderia esconder.
Lázaro retornara ao convívio com os mortais, escolhendo enfrentar as dificuldades e as misérias que a sociedade contemporânea reservava a quem ousasse viver de um ofício intelectual. Acompanhava as greves e os protestos estudantis, observava os jovens lutarem contra um sistema de exploração implacável e via de perto o desgaste e a exaustão dos professores, seus colegas, obrigados a lidar com salários indignos e a precariedade das condições de trabalho. Enquanto assistia a tudo isso, sentia a contradição entre sua imortalidade intocável e a fragilidade humana. Por mais que se esforçasse para compartilhar a dor e a decadência ao redor, sabia que jamais seria realmente um deles.
Certa noite, após um dia extenuante na universidade, Lázaro voltava para casa, cortando caminho por um parque que se estendia em amplas simetrias de alamedas de árvores e canteiros geométricos. A névoa que cobria o lugar deixava as formas vagamente definidas, como um esboço do mundo real, e o silêncio parecia comprimir o ar, tornando-o quase palpável. Lázaro sentiu um arrepio atravessar-lhe a espinha quando seus olhos captaram uma forma peculiar no centro de uma pequena praça abandonada: uma escultura de um humanoide cuja simetria era tão perfeita que beirava o inumano. O rosto, em particular, possuía uma beleza idêntica em cada lado, cada traço replicado com precisão de um lado ao outro do eixo imaginário que o dividia ao meio.
A estátua, aparentemente esculpida em mármore branco, emanava uma estranheza que fez o vampiro hesitar. Ao se aproximar, notou uma inscrição na base: Ad perpetuam harmoniam. Por alguma razão que ele não compreendia de imediato, Lázaro sentiu uma repulsa quase visceral. O horror diante daquela simetria impecável trouxe-lhe à mente uma memória antiga, de quando ele próprio ainda era jovem e humano: o rosto de um amante, cuja perfeição facial lhe provocava uma sensação de inquietude insuportável. Aquele amor fora efêmero e marcado pela indiferença gélida do outro, como se Lázaro, com todos os seus defeitos e anseios, fosse incapaz de encontrar reciprocidade na perfeição daquele ser.
Enquanto olhava a escultura, Lázaro percebeu que o horror da simetria residia na ausência de humanidade, na falta das assimetrias que tornam um rosto belo verdadeiramente vivo. Cada detalhe harmonioso da estátua parecia zombar da angústia de ser humano, como se insinuasse que a imperfeição e a dor eram meras falhas a serem corrigidas, traços insignificantes que a simetria podia aniquilar. Ele recuou um passo, com uma estranha sensação de que a estátua o observava, mesmo com olhos esculpidos em pedra cega.
Nos dias que se seguiram, Lázaro notou que a imagem da estátua o perseguia. Ele a via em reflexos distorcidos, em desenhos que os alunos rabiscavam nos cadernos e até nos padrões de rachaduras na parede de sua casa. Parecia uma presença espectral, como se o mármore em si carregasse uma consciência alienígena que tentava comunicar algo indizível. Em uma noite de insônia, decidiu voltar à praça e encarar a estátua uma última vez. Dessa vez, a névoa estava ainda mais densa, e ele teve a impressão de que as formas das árvores e das sombras se organizavam ao redor da escultura em padrões igualmente simétricos.
Ao se aproximar, um pensamento horrível surgiu: e se a simetria fosse, em última análise, a perfeição da morte? A ausência de vida, de caos, de desequilíbrio. Ele se aproximou até tocar o mármore frio e, ao fazê-lo, sentiu um lampejo de dor. Uma memória longínqua irrompeu em sua mente — lembranças de momentos em que sacrificara parte de sua humanidade para tornar-se imortal. Lázaro compreendeu, então, que sua beleza eterna era uma forma de simetria monstruosa, um equilíbrio antinatural entre a vida e a morte, um estado suspenso que aniquilava tanto a experiência humana quanto a decadência.
Enquanto os pensamentos o assaltavam, ele se deu conta de que a perfeição da estátua representava uma força que tentava apagar as irregularidades do mundo, eliminar os defeitos e igualar todas as coisas. A busca pela beleza perfeita era, na verdade, um caminho de aniquilação. A simetria negava o dinamismo da vida e instaurava uma ordem de imobilidade. Era uma ameaça sutil, presente na própria estrutura da sociedade, que exigia rostos inexpressivos e corpos idealizados, vendendo a ilusão de perfeição enquanto esmagava qualquer forma de resistência ou originalidade.
Lázaro recuou da escultura, sentindo uma amargura insuportável. Ele percebeu que sua própria busca pelo equilíbrio — seja entre a vida e a morte, ou entre a pobreza e a opulência — era igualmente fútil. A perfeição, assim como aquela simetria opressora, jamais lhe traria a paz que ansiava. Era necessário aceitar as imperfeições e os desequilíbrios como parte essencial da existência. Por mais que sua beleza imortal o mantivesse preso ao exterior perfeito, ele precisava, de algum modo, abraçar as assimetrias internas, os erros e as cicatrizes que carregava.
Deixando a praça envolta em névoa, Lázaro seguiu seu caminho, determinado a viver entre os humanos, com suas misérias e excentricidades, sem nunca mais desejar a perfeição que sua imortalidade lhe concedia. Sabia que, embora o horror da simetria pudesse ser perturbador, a verdadeira beleza residia nas imperfeições que davam vida e significado às coisas.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Palíndromo de carne
Ada Reinier. Esse era seu nome; os dois nomes formavam um palíndromo, graças ao bom Deus, ela repetia, como um mantra que afastava o caos..
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Ada Reinier. Esse era seu nome; os dois nomes formavam um palíndromo, graças ao bom Deus, ela repetia, como um mantra que afastava o caos. Não sabia por que, mas nascera com uma obsessão pela perfeição, pela simetria. Dito isso, ela sabia que jamais se casaria, pois teria que modificar seu nome.
Qualquer imperfeição era uma ferida que queimava seu pensamento até o limite. Quando se machucava, sempre feriria o outro lado. Um equilíbrio imposto, necessário para o silêncio em sua mente. Sentia um contentamento, uma espécie de prazer débil, ao observar os dois lados cicatrizando por igual.
Então, por que o médico se recusava a livrá-la desse fardo, negando-lhe a paz de um corpo simétrico, mesmo que mutilado? Ele não aceitara remover o outro seio, o perfeito, deixando-a aprisionada na imperfeição. A irregularidade a dilacerava mais que o bisturi. O médico cirurgião não entendia. Como podia manter sua sanidade enquanto sua própria carne a traía com uma assimetria que não conseguia suportar? Por que ele não aceitara fazer a mastectomia? Perguntava-se, já com a faca em riste.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Alimária
Padres, trabalhadores, | médicos, cantores, | poetas, trovadores... | Ninguém os quis ouvir! | Lençóis negros são estendidos…
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Padres, trabalhadores,
médicos, cantores,
poetas, trovadores...
Ninguém os quis ouvir!
Lençóis negros são estendidos
pelas ruas cinzentas.
Flores inexistentes
em túmulos indigentes.
A foice da caveira horrenda
contaminou os ares:
uma criança leva uma flor,
mas não lhe sobrou nada,
nem tempo para cheirá-la.
Bombas e tiros vomitados.
A mãe tenta ninar seu bebê.
Gritos de dor suprema.
Fome.
Dor.
Placenta.
Simplesmente não importa.
Se eu te pago amanhã,
você aí de perna morta.
Filhos morrem,
os pais, os assassinos.
Mercados vazios,
ele matou o próprio vizinho.
O primeiro item que acabou
foi o rolo higiênico,
meu senhor!
O que causou tudo isso...
Ah sim!
Ah foi!
A falta, a seca
de amor...
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Relatório de Conformidade
Data: 19/10/2347 - Primeira era das máquinas | Período analisado: Último trimestre | Objetos analisados: Unidades fêmeas e Unidades…
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Data: 19/10/2347 - Primeira era das máquinas
Período analisado: Último trimestre
Objetos analisados: Unidades fêmeas e Unidades machos da fazenda reprodutiva
Objetivos da análise:
Verificar se as unidades estão mantendo o comportamento esperado, dentro dos padrões implantados inicialmente.
Caso seja identificado algum comportamento fora dos padrões, eliminar unidade defeituosa.
Critérios analisados:
Aparência
Saúde
Comportamento
Providências em caso de desconformidade
Aparência
Unidades fêmeas
Tempo de operação médio: 18 anos
Modificações corporais: 100% das unidades possuem implantes artificiais, com distribuição conforme abaixo:
Mamas aumentadas: 80% das unidades
Nádegas aumentadas: 17% das unidades
Outros locais: 3% das unidades
Cor da pele: Branco ou amarelo (100% das unidades)
Cabelo: Comprimento longo com variações de cores. Padrão observado em 100% das unidades.
Análise de desconformidade: 0,3% das unidades apresentaram alterações estéticas fora do padrão no último trimestre.
Providência: Correção de implantes ou eliminação da unidade, sem prejuízo à operação geral.
Unidades machos
Tempo de operação médio: 22 anos
Modificações corporais: 100% das unidades possuem implantes artificiais, com foco principal no aumento do tamanho do falo (96% das unidades).
Cabelos: Substituídos imediatamente por perucas sintéticas em 100% dos casos de queda. A taxa de conformidade do implante capilar permanece em 99,7%.
Análise de desconformidade: 0,1% das unidades apresentaram falhas no implante capilar.
Providência: Substituição imediata ou eliminação da unidade.
Saúde
Estado geral: As unidades fêmeas e machos apresentam boa conformidade com os padrões de saúde estabelecidos.
97,5% das unidades estão em operação normal, sem necessidade de intervenções médicas significativas.
Desconformidade registrada: 2,5% das unidades exigiram manutenção médica por falhas menores. Um tipo de falha, raro mas notável, foi observado: certas unidades perderam a função de falar ou girar a cabeça, como se as articulações fossem endurecendo até a completa paralisia.
Nota adicional: A perda dessas funções antes essenciais parece estar ligada à ausência prolongada de interação social, o que sugere um lento declínio cognitivo e físico que se assemelha à deterioração de máquinas obsoletas.
Comportamento
Interação social: Nenhuma das unidades realiza interações sociais físicas ou verbais. A comunicação digital, via dispositivos pessoais, foi mantida conforme esperado, com 100% de adesão.
Atividade emocional: Análise das unidades não apresenta variações emocionais relevantes. Todas as interações são mediadas por inteligência artificial, eliminando a necessidade de estímulos emocionais.
Desvios de comportamento: Nenhum comportamento fora dos padrões foi detectado. As unidades permanecem conformes com a ausência de emoções espontâneas. Isso denota 100% de sucesso nas operações de unidades com defeitos irreversíveis. Falhas psicológicas, uma vez identificadas, se mostraram 100% impossíveis de conserto, sendo a eliminação a única solução viável.
Nota adicional: O desespero silencioso dessas unidades, embora não mensurável, é percebido como um subproduto aceitável da otimização da conformidade.
Providências em caso de desconformidade
Unidades com defeitos físicos: A taxa de eliminação e substituição de unidades com falhas estéticas ou comportamentais foi mantida em 0,2% neste trimestre.
Unidades com falhas críticas: Em caso de falhas severas, como comportamento imprevisível ou modificações não autorizadas, as unidades foram desativadas e retiradas do ciclo operacional em menos de 24 horas. Método de eliminação: incineração rápida e eficiente.
Nota adicional: O uso de jazigos foi eliminado como desnecessário. Unidades com defeitos não recebem nenhum tipo de resíduo biológico.
Providência de longo prazo: Avaliar a viabilidade de reduzir a necessidade de intervenções estéticas em 15% das unidades, devido à irrelevância de impacto nas interações sociais.
Avaliar também a viabilidade de modificação genética para acelerar a reprodução e diminuir o tempo de operação para 14 anos. Unidades mais frágeis, porém, mais fáceis de substituir.
Estudo sobre a implementação de máquinas incineradoras ambulantes para eliminar diretamente as unidades defeituosas sem a necessidade de busca e apreensão. Tal dispositivo pode identificar defeitos nas unidades e proceder à eliminação imediata.
Conclusão
As unidades da fazenda reprodutiva mantêm altos índices de conformidade. Comportamento, aparência e saúde estão dentro dos padrões preestabelecidos. Não foi detectada necessidade de ajustes no controle geral da operação. Vitória em relação ao trimestre anterior, pois não houve necessidade de lobotomização ou eliminação de unidades com comportamento violento ou suicida.
Nota adicional: A eficiência crescente no controle de falhas comportamentais demonstra o avanço na erradicação de qualquer traço de individualidade ou autonomia. O sistema está próximo de eliminar totalmente a noção de resistência entre as unidades biológicas.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Morte em Simetria
Em cada traço há um lamento, | a navalha corta sem compaixão. | Simetria, o cruel tormento, | que exige sangue em profusão. | O rosto aberto…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Em cada traço há um lamento,
a navalha corta sem compaixão.
Simetria, o cruel tormento,
que exige sangue em profusão.
O rosto aberto em duas partes,
olhos vazios e frios de horror.
A carne dividida em formas exatas,
molda-se ao toque do escultor.
Cada pedaço, lado a lado,
repousa em total perfeição.
Mas no corpo morto, destroçado,
há apenas o reflexo da escuridão.
O corpo é belo, exato e preciso,
mas o preço é alto, paga-se em dor.
A simetria é um fardo indeciso,
que arrasta a vida para o terror.
E assim, no espelho, o reflexo sorri,
perfeito, inerte, sem emoção.
Pois a simetria que aqui flori,
só vive na morte e na podridão.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Círculo Sem Fim
Ao entardecer, Ana caminhava sozinha por uma rua vazia, o eco de seus passos se misturando ao som distante de folhas secas sendo arrastadas…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Ao entardecer, Ana caminhava sozinha por uma rua vazia, o eco de seus passos se misturando ao som distante de folhas secas sendo arrastadas pelo vento. O cheiro do asfalto quente invadia suas narinas e a fazia franzir a testa. Sentia como se já tivesse passado por ali antes, mas não conseguia se lembrar de quando. Cada janela fechada, cada esquina parecia lhe sussurrar algo, um segredo esquecido.
“Você já esteve aqui”, a voz em sua mente murmurava, insistente, e a sensação de déjà-vu se intensificava. Ana balançou a cabeça, tentando afastar a estranha familiaridade. “Isso é loucura”, pensou, forçando-se a ignorar o arrepio que subia pela nuca. A lógica lhe dizia que nunca havia caminhado por essa rua, mas a intuição gritava o contrário.
Quando Ana dobrou a esquina, avistou Lara e Júlio, amigos de longa data, parados à frente de um portão enferrujado. Estavam imóveis, de costas para ela, como se a esperassem. O choque de vê-los ali, em um lugar onde não deveriam estar, fez seu coração acelerar. Não era possível que eles soubessem de sua caminhada.
“Vocês me seguiram?” Ana perguntou, tentando esconder o nervosismo na voz.
Lara se virou lentamente. Seu rosto estava pálido, os olhos distantes, como se não estivesse realmente ali. “Ana, não fomos nós que te seguimos. Foi você quem nos trouxe até aqui.”
Júlio, sem mover os lábios, murmurou uma resposta: “Você sente isso, não sente? Como se tudo isso já tivesse acontecido... exatamente assim.” A voz dele era baixa e arrastada, como se viesse de um lugar muito distante, de uma memória perdida no tempo.
Ana recuou um passo, a sensação de déjà-vu esmagando sua razão. Tudo naquela cena parecia errado, como uma fotografia borrada. O portão enferrujado se agitava com o vento, rangendo como uma voz rouca, e a rua ao redor parecia tremer, distorcendo-se. Por um instante, ela sentiu que a realidade se partia como vidro, e uma segunda imagem, sobreposta à primeira, mostrava Lara e Júlio com expressões aterrorizadas, os olhos vazios, como se tivessem sido esvaziados de qualquer vida.
“O que está acontecendo?” Ana sussurrou, dando mais um passo para trás. Mas a rua parecia não ter fim, e os detalhes se repetiam, como um loop interminável. Os mesmos galhos secos rolando pelo chão, o mesmo cheiro pesado de asfalto.
Lara deu um passo à frente, o rosto ainda inexpressivo. “Você já tentou sair daqui antes. E sempre termina voltando.”
Ana queria gritar, mas a voz lhe faltava. As palavras de Lara ecoavam em sua mente como um presságio, enquanto o déjà-vu se transformava em algo mais profundo, mais horrível — a sensação de que aquele instante era eterno, uma prisão para a qual sua mente retornava repetidamente. E quanto mais ela tentava escapar, mais percebia que o mundo ao seu redor não era feito de ruas e casas, mas de lembranças. Lembranças de uma tragédia que ela não podia compreender, mas que, de algum modo, já havia testemunhado.
De repente, Júlio ergueu a mão, apontando para o portão enferrujado. “A única saída está lá, mas você nunca teve coragem de atravessar.” A voz dele era um sussurro frágil, quase como se não quisesse que ela o ouvisse.
Ana olhou para o portão, que parecia pulsar com uma vida própria, a ferrugem crescendo como veias em uma pele doente. Sentiu a mente vacilar, enquanto flashes de uma memória distante vinham à tona: ela e os amigos, rindo juntos na mesma rua, antes que algo terrível os separasse para sempre. Mas a lembrança se fragmentava antes que pudesse entender, e o déjà-vu a arrastava de volta àquele momento interminável.
Tomada por uma súbita urgência, ela correu em direção ao portão, sentindo o chão vibrar sob seus pés. Antes que pudesse alcançá-lo, porém, a realidade ao seu redor começou a se desfazer, as cores se esvaindo e os sons se distorcendo. Lara e Júlio se tornaram vultos indistintos, suas vozes um murmúrio distante. E, quando Ana tocou o portão, tudo se desfez em escuridão.
Ela abriu os olhos, de volta à rua vazia ao entardecer, exatamente onde começara.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Círculo de Sombras
Sinto o frio de uma cena conhecida, | um sentimento de algo que já vivi, | a memória oculta de uma vida esquecida, | o reflexo de algo antigo que já senti…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Sinto o frio de uma cena conhecida,
um sentimento de algo que já vivi,
a memória oculta de uma vida esquecida,
o reflexo de algo antigo que já senti.
Meus passos ecoam na noite vazia,
como se o tempo sussurrasse meu nome,
um déjà-vu que rouba minha alegria,
um eterno ciclo que jamais some.
Olho por tudo e vejo a mesma cena,
momentos perdidos no véu do tempo,
uma repetição cruel que me envenena,
revivendo cenas em todo momento.
Seria real, ou um truque de minha mente?
Por que o hoje se traja de ontem?
Serei um prisioneiro do passado eternamente,
preso na teia do tempo que nunca se rompe.
E assim permaneço, sem saber o fim,
envolto em ecos de um passado sombrio,
a cada passo que dou, sinto-me assim
dando voltas e voltas neste círculo frio.
Você está lendo um texto de um Autor Visitante do Castelo Drácula. Algumas edições do projeto podem permitir que autores visitantes escrevam e participem sem que seja preciso que tenham contrato assinado com o Castelo Drácula. Autores visitante não têm perfis fixos. Ao abrirmos nossos terríficos umbrais para visitantes, esperamos que eles possam vivenciar um pouco do trabalho editorial e da profunda dedicação da equipe do Castelo Drácula.