Acácia

A cama estava sem o lençol. O espelho estava quebrado. Na cômoda havia poucos pertences: apenas um hábito limpo, algumas roupas íntimas…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Prólogo 

A cama estava sem o lençol. O espelho estava quebrado. Na cômoda havia poucos pertences: apenas um hábito limpo, algumas roupas íntimas e uma Bíblia. Lá fora, um sabiá assoviava, como se nada demais tivesse ocorrido. Na parede, apenas os indícios de que um grande crucifixo estivera pendurado ali por muito tempo, pois o sol desbotara a tinta da parede ao redor. 

Irmã Acácia estava de joelhos num dos cantos do quarto. Havia muito sangue, mas o sangramento já parara, e ninguém soube explicar como o cadáver permanecera daquele jeito. Assim que ela perdesse a consciência, o que não deve ter demorado muito, seu corpo deveria ter desabado para frente ou para um dos lados. Mas parara intacto: uma das mãos segurava firmemente um caco de espelho enorme; ele estava introduzido até a metade em seu ventre avolumado. Ao que parecia, ela tinha golpeado a própria barriga várias vezes e sangrado até a morte. Outro detalhe inexplicável era que ela olhava para cima; os olhos abertos tinham uma expressão de alegria e alívio. 

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Agora 

Irmã Acácia estava sentada em uma das últimas fileiras de cadeiras da capela. Eram cadeiras de plástico simples, bem diferentes dos pesados bancos de madeira de algumas igrejas que ela tinha frequentado. Ela já não suportava mais, cruzava e descruzava as pernas impaciente. 

Irmã Acácia era uma noviça; portanto, habitava o convento havia três anos e meio. Já estava muito acostumada com a rotina do convento, porém. Havia dias em que as obrigações que eram impostas a todas eram difíceis de serem cem por cento cumpridas. Era isso que a perturbava naquele exato momento: achava que conseguiria curar-se pela fé; no entanto, por mais que seguisse todos os ritos e costumes da congregação, não conseguia se sentir plenamente liberta do seu vício. 

Já havia feito grandes avanços, com muita perseverança, longos períodos de recolhimento, reflexão e busca de comunhão com Deus. Conseguira deixar o seu passado para trás, um passado que não fizera questão de esconder das irmãs; porém, não gostava de falar sobre, de modo que somente a madre superiora Maranhão sabia dessa mácula em seu passado. Acácia achava isso muito bom, pois, apesar de todas as irmãs serem pessoas muito boas, não se sentia à vontade para revelar que fugira de onde morava porque estava jurada de morte por outra mulher. Ela havia cometido o pecado de ter se deitado com o esposo dela várias vezes, mas ela só tinha descoberto a última. 

Por isso, era muito grata à madre Maranhão por tê-la acolhido naquele momento de dificuldade. Não tinha dinheiro nem onde dormir, e ela a recebera, mesmo sabendo do seu segredo sujo. Em um mês, estava habituada e pediu para ingressar na ordem; assim, garantiria uma vida digna, um teto e conseguiria se curar da ninfomania. Madre Maranhão permitira; ela enxergava o futuro e não o passado das pessoas. Mas, agora, ela não sabia como explicar a ela o que estava acontecendo com seu corpo. Na verdade, nem ela sabia; parecia muito com uma gravidez, pois tinha todos os sintomas; porém, estava há meses sem deitar-se com alguém, a última vez fora antes da fuga para o convento. 

A última coisa mais sexual que fizera, se é que fizera, fora um sonho que tivera três meses atrás; fora tão real que seu corpo chegara ao clímax mesmo dormindo. O problema é que aquele sonho reacendera a chama do pecado. Para refrear seus impulsos, passou a aliviar-se antes de dormir, acariciava-se com as próprias mãos. Não tardou, e sua menstruação atrasou, e, como se as duas coisas estivessem misteriosamente interligadas, sua sede por prazer voltava aos poucos, mas cada vez mais voraz. 

Os dedos já não a satisfaziam tanto quanto ela queria. Sua fome, ela ponderava, era incomensurável. Até que um dia, desesperada por mais sensações e explosões orgásticas mais intensas, começara a roçar-se com o terço. Ora esfregava rapidamente, de fora a fora; ora apreciava sentir conta por conta massageando o seu clitóris. Uma noite, fez tanto daquilo que a delicada pele, que antes era rosa, tornara-se de um intenso e dolorido vermelhão. 

Aquele ato, que fazia na solidão do seu quarto, às escondidas, rapidamente transformara-se no ponto alto do seu dia. Era a sua válvula de escape e ninguém precisava saber. Durante, era muito prazeroso, mas depois sentia-se imunda. Em meio a todas aquelas mulheres tão castas, tão puras, tão perfeitas, tão santas... Acácia flagrava-se pensando, todas as vezes após o ato, que aquele não era o seu lugar. Mas por fim, qual lugar seria? 

De início, achou que o atraso menstrual pudesse ser uma espécie de menopausa precoce, mas os sintomas eram outros, não batiam. Ela tinha enjoos matinais, estava começando a ir ao banheiro com maior frequência.... Tudo o que estava sentindo correspondia à gravidez. Até que a sua barriga começou a crescer cada vez mais, assim como as suas vontades lascivas. Se pegava reparando na beleza dos padres, imaginava-se deitando-se com eles, para logo em seguida rezar vinte ave marias buscando a absolvição daquele pecado. Para esconder a barriga, enquanto não descobria como contar tudo isso à Madre Maranhão, cortou o lençol de sua cama em tiras e as amarrou em torno dela bem apertado. Sabia que era uma solução temporária. 

Agora, o que ela estava sentindo, tinha mais urgência de ser resolvido. Cruzava e descruzava as pernas impaciente, a noviça sentada ao seu lado estava começando a se incomodar com isso. Suor escorria às bicas, por sua testa, pescoço, costas e barriga. Sentia algo se movendo dentro do seu ventre. Era algo, mas não era um bebê, porque tinha acesso aos seus pensamentos; os mais vergonhosos. 

Parecia que, naquele momento, aquilo esticava braços e dedos por dentro dela, acariciando-se, fazendo movimentos de vai e vem dentro de sua vagina. "Incomodo?" "Ah, não, continua!" — Sentiu o canal aquecer e umidificar-se; não conseguia parar, ela não tinha controle sobre aquilo nem sobre seus desejos. Em sua mente, começou a ouvi-lo. "Vamos para o quarto! Ora, vamos, eu sei que você é só uma puta querendo gozar. Vamos? Você não é uma noviça de verdade, está se escondendo aqui, em meio a essas cordeirinhas. Não adianta esconder, estou dentro de você, estou aqui sentindo você molhar-se de tesão." 

"Para!", ela ordenou com os seus pensamentos. "Não paro!", a coisa gritou em resposta, rasgando a sua vagina por dentro com grandes garras, ao que parecia. Em seguida, ela sentiu a coisa se movimentar de maneira diferente, era como se estivesse fechando as mãos. Sentiu os punhos girando, cada nó das mãos provocando seus sentidos; parecia que era senhora de sua mente, pois sabia que aquilo a agradava. Ainda mais que não era apenas uma, mas sim duas deliciosíssimas mãos dentro da sua boceta. Então, a coisa parou repentinamente, também em sua mente; nada se ouvia. 

"Justo agora, quando eu ia gozar? Calma, Acácia, não dá para você fazer isso no meio de uma capela, no meio de uma missa; até para você isso é pecado demais." 

Acácia levantou-se, as faixas amarradas em sua barriga a faziam sentir um calor triplicado pelo teto da capela baixo e um número grande de pessoas afuniladas ali. Para a noviça ao seu lado, falou que ia ao banheiro, mas estava passando mal — isso ela não falou. Ao chegar ao banheiro, às pressas, foi direto para uma das patentes e vomitou. Ao abrir os olhos, ela não vê o próprio vômito, e sim uma piscina de esperma; ela sabia, porque tinha o gosto e o cheiro característicos. A visão a fez sentir uma nova e forte onda de enjoo. Novamente um jato. Ousou olhar novamente, viu que havia vomitado muito sangue, algumas partes grossas, coalhadas. 

Conseguiu levantar-se, mesmo cambaleante, e não voltou para a missa. Apressou-se em chegar ao quarto. Desabou sobre a cama; deitada de costas, virou-se em direção ao crucifixo, fechou os olhos para não olhar para Jesus. Procurou o terço e não encontrou. "Droga, esqueci o terço na capela." 

"Ah, sua vagabunda, esqueceu o consolo de freira, é? Que tal usar a cruz?" 

"Não!" 

"Vamos, sua rameira, admita que o que você quer é enfiar ele até o talo. Admita que você se sente atraída pela escuridão e pela dor!" 

"Não! Não! Sai da minha cabeça!" 

"Vamos, Acácia... você sabe que precisa disso. Precisa sentir o prazer, o fogo que te consome por dentro. Só assim você poderá me libertar completamente." 

"Não... eu não posso fazer isso. Não aqui, não agora. Eu quero ser salva. Eu quero..." Acácia lutava para organizar os pensamentos, mas a presença da coisa se adensava em sua mente, como um nevoeiro. 

"Salvação?", a coisa zombava, com uma risada sombria. "Você já abriu mão disso há muito tempo... Todas as noites que você se deitou com o marido de outra. Todas as vezes que você transou com qualquer drogado que encontrasse por aí, disposta a compartilhar a droga que viesse. E depois aqui no convento? É só questão de tempo até você se deitar com algum padre, afinal, uma hora ou outra você iria achar um tão devasso quanto você, está cheio de pedófilos saindo nos jornais. E todas as noites que você tocou o terço contra sua carne, todos os suspiros abafados, todo o suor que molhou esses lençóis... você escolheu o caminho da perdição, acha que ainda há tempo para mudar a sua essência?" 

"Pare com isso! Eu só estava tentando... aliviar essa dor... essa fome. Não é culpa minha. Eu estava... estava..." Sua voz tremia, hesitante, mas a entidade se aproveitava de cada fraqueza, alimentando-se dela. 

"A culpa é sua, sim. E é essa culpa que me fortalece. Cada vez que você sucumbe ao desejo, eu me alimento. E eu cresço, Acácia... dentro de você. Já não sente isso? O peso, o calor, o desejo cada vez mais incontrolável? Essa fome que nunca passa?" 

Ela engoliu em seco, e suas mãos tremiam. "Então... tudo isso... é você?" 

"Eu sou parte de você, Acácia. Sou o que sempre esteve escondido nas sombras da sua alma. Mas, para que eu nasça, preciso que você se entregue completamente. Preciso do seu arrependimento, da sua vergonha... para me fortalecer até o momento certo." 

"Nasça? O que quer dizer com isso? Eu... eu pensei que..." Suas palavras vacilavam; um calafrio descia por sua espinha ao entender as intenções daquela presença. 

"Isso mesmo", a coisa respondeu, seu tom transbordando desprezo e satisfação. "Você não passa de um meio. Quando você finalmente ceder, quando aceitar o que realmente deseja, estarei pronto para tomar o seu lugar. E você... bem, seu corpo será apenas o portal que me trará à liberdade." 

Acácia sentiu uma pressão intensa em seu ventre, quase como se algo se contorcesse para sair. A entidade continuou sussurrando, zombando. "Eu precisava de uma noviça... de alguém que já estivesse quebrada, que não resistisse. E quando você chegou, cheia de desejos sujos, escondendo-se de tudo, foi como uma bênção... e como eu cresci desde então." 

"Não... não sou apenas um meio. Sou mais forte do que isso!", Acácia protestou, embora a convicção em sua voz fosse escassa. 

"Ah, mas é exatamente isso que você é, minha querida. E, agora, não há mais retorno. Sua fé? Seu arrependimento? Já não são mais que migalhas de uma alma entregue. Continue... me alimente. Ceda uma última vez ao prazer que você busca... e eu nascerei." 

Ela sentiu o corpo enrijecer, mas o desejo continuava ardendo. A coisa dentro dela pulsava, crescendo, comprimindo-se, pronta para rasgar sua carne e tomar forma. Os pensamentos em sua mente já não eram apenas seus. A coisa estava em tudo, sussurrando e, agora, quase ordenando. Acácia fechou os olhos, sua respiração ofegante. A coisa deu uma última risada, triunfante: "Não lute, Acácia. Sua resistência... é o que eu mais desejo destruir. Liberte-se, e me liberte junto de você." 

Em seu íntimo, a noviça sabia que ela não era uma má pessoa. Temia que aquele mal, se ela permitisse, se espalhasse pelo convento. Faria mal a suas únicas amigas, ao lugar que a acolheu. Então usou tudo o que restava de suas forças para se levantar.  

“Não vou deixar que você faça isso! Eu vou gritar, eu vou chamar a madre Maranhão!” 

Ao ouvir isso, a entidade a fez levitar, evitando que ela corresse em direção à porta, e a jogou contra o espelho do quarto com muita violência. 

“Era isso que eu queria!” Acácia pensou. Agarrou o maior caco de vidro que conseguiu e começou a golpear a coisa dentro de sua barriga. Partiu feliz e aliviada, por estar liberta da espiral viciosa que era a sua própria vida e, também, por libertar o convento daquele mal.  

Um último pensamento começava a formar-se em sua mente: 

“O céu é.…” 

Alguns minutos depois, irmã Maranhão batia a sua porta e, não obtendo resposta, abriu-a, estava destrancada. Mais tarde, as irmãs procuraram o crucifixo, mas em vão, ele não fora encontrado em parte alguma do quarto. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Semblantes

Mmoggun era um artesão que vivia em um vilarejo isolado, onde sua arte de esculpir máscaras era vista como uma habilidade quase mística…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Algum dia, algum mês, algum ano do século XIX 

Mmoggun era um artesão que vivia em um vilarejo isolado, onde sua arte de esculpir máscaras era vista como uma habilidade quase mística. Ele conseguia capturar expressões humanas com tanta precisão que era impossível distinguir entre uma máscara e um rosto.  

Mmoggun era um homem estranho, com olhos fundos, uma voz baixa que sempre parecia sussurrar para si enquanto trabalhava. Tinha poucos amigos e quase ninguém o visitava. Na verdade, as pessoas o evitavam, elas temiam que ele escondesse algo mais sombrio em seu talento. 

Obcecado pela perfeição, Mmoggun, decidiu que as máscaras que criava já não era suficientes. A madeira não conseguia capturar as emoções humanas na mesma profundidade que as feições vivas conseguiam, algo que somente a carne e a pele continham. 

Foi então que uma peste caiu sobre o vilarejo, e as pessoas começaram a morrer. Com a morte se espalhando, Mmoggun viu naquela situação a oportunidade de encontrar a expressão perfeita, capturando o momento exato entre a vida e a morte. Passou a visitar os doentes, esculpindo suas máscaras enquanto os observava em seus últimos momentos. 

Ele soube da morte de um amigo próximo, a única pessoa que se importava com ele, e isso o mudou profundamente. Seu amigo, Tomás, morrera após dias de agonia. Ao chegar em sua casa, Mmoggun se ajoelhou ao lado do leito, esculpindo o semblante de morte de seu amigo. 

Foi nesse instante que o artesão sentiu que aquele ato o mudara. Sentiu um vazio que nenhuma máscara do mundo poderia preencher. Desesperado, ofereceu uma oração sombria aos deuses antigos, às almas esquecidas que habitavam as florestas e as sombras, pedindo que o ajudassem a capturar a verdadeira essência do medo e da morte. Ele ofereceu sua alma, seu corpo e tudo o que possuía. 

Algo respondeu ao seu chamado. 

Um vento maligno soprou pelo vilarejo, e uma figura encapuzada visitou Mmoggun. Era uma alma ancestral, uma criatura que vivia nas sombras que havia escutado seu desejo. O ser ofereceu a ele o poder de capturar o medo eterno, mas o advertiu: 

— Se você aceitar, mortal, jamais poderá abandonar a sua busca, jamais poderá escapar dessa fome que o consome. Irá se tornar um caçador, incapaz de parar enquanto houver uma face que possa exibir um novo tipo de horror. 

MMoggun aceitou sem hesitar. 

Quando amanhece, ele já não era mais humano. Sua pele esticou, seu rosto se alongou, sua voz se tornou um sussurro gélido e vazio. Ele adquiriu o poder de capturar o semblante de suas vítimas, arrancando suas faces e usando-as como máscaras.  

Ao longo dos séculos, ele passou a visitar vilarejos, oferecendo presentes amaldiçoados aos seus escolhidos. Mmoggun se tornou uma criatura temida e sua história nunca foi esquecida. 

Tempos atuais 

Uma noite, em um inverno particularmente rígido, um jovem recém-chegado à cidade, Rafael, encontrou um presente. Ele acabara de se mudar, atraído pela calmaria do interior. Estava organizando sua mudança quando notou uma caixa preta à sua porta. A madeira escura da caixa parecia absorver a luz da lua, e o intrincado entalhe de runas desconhecidas a transformava em algo hipnótico. 

Ao abrir a caixa, Rafael encontrou um espelho de mão, com uma moldura prateada desgastada que, ainda assim, brilhava de forma inexplicável. Ao tocar o espelho, sentiu um frio subir por sua espinha, mas a curiosidade venceu o desconforto. Ele se olhou no espelho e, por um momento, teve a estranha sensação de que sua própria expressão o encarava. Algo nele parecia errado. Contudo, sem saber, esse olhar desconfortável era exatamente o que Mmoggun desejava: uma curiosidade misturada com um início de receio. 

Nas noites seguintes, outros presentes foram surgindo. Uma velha caixa de música, e um colar de pedra vermelha. Cada objeto era uma armadilha, um elo a mais que conectava Rafael ao domínio de Mmoggun. Fascinado pelos presentes, o jovem passava horas a sós com eles, perdendo-se no mistério de cada peça, sentindo-se hipnotizado pela aura sinistra que os envolvia. 

Foi quando ouviu o sussurro. 

— Mmoggun… mmoggun… 

O som vinha do nada, parecendo falar diretamente ao seu ouvido, suave, mas gélido. Rafael tentou ignorar, mas a cada noite o sussurro se tornava mais próximo e insistente. Ele já começava a sentir que era observado quando, numa noite, o sussurro se materializou em uma figura. 

Mmoggun estava parado na porta de seu quarto. Um vulto encoberto por um manto negro, alto e deformado, com olhos que eram buracos fundos, famintos por alguma emoção que apenas a visão de um rosto aterrorizado poderia saciar. Rafael, fascinado e assustado, ficou imóvel. Era como se um peso invisível o pressionasse contra o chão. 

A criatura estendeu a mão, de ossos longos e mostrou-lhe algo: uma última oferta. Era uma pequena escultura de madeira representando um rosto humano contorcido em uma expressão de medo. Rafael, dominado por uma atração inexplicável, tomou a peça e, ao segurá-la, sentiu o toque gelado de Mmoggun em sua pele, como uma promessa silenciosa de sua morte. 

Mmoggun avançou então, aproximando-se com uma lentidão aterradora, e com o rosto encoberto pelas sombras, tocou a face de Rafael. O jovem sentiu seu próprio rosto começar a pulsar sob a pressão daquela mão inumana, cada linha de sua expressão sendo medida, analisada, desejada. E antes que pudesse reagir, Mmoggun enfiou as garras na pele de seu rosto e começou a arrancá-lo, centímetro por centímetro, enquanto Rafael, paralisado, assistia ao próprio reflexo no espelho a se desfigurar. 

Enquanto o rosto era arrancado, Rafael sentiu o medo tomar conta de sua expressão, transformando-o em uma máscara viva de pavor absoluto. Era a imagem que Mmoggun desejava. Ele absorvia cada detalhe da agonia de sua vítima, a boca entreaberta num grito sufocado, os olhos arregalados em terror. 

Quando finalmente Mmoggun se vestiu com o rosto recém-roubado, seu sorriso era uma cópia vazia do que antes fora de Rafael. Ele admirou a máscara de carne no espelho, um prazer sombrio, e desapareceu na noite, carregando consigo mais uma expressão única de horror para atrair novas presas. 

Nos dias que se seguiram, a cidade foi tomada por um pavor silencioso. Pessoas relataram avistar Rafael vagando pela floresta, mas sabiam que algo nele estava errado. Aquela expressão aterrorizada que carregava não era a de um homem vivo, mas a de uma vítima aprisionada na última imagem de seu medo. Ninguém ousava falar sobre isso, mas todos entendiam que, uma vez marcado pelos presentes de Mmoggun, não havia como escapar de seu destino. 

E ao final de cada noite, o mesmo sussurro continuava a rondar as casas, mais próximo, mais persistente: 

— Mmoggun… mmoggun… 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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O nome nas sombras: um relato verídico

Certa vez, na quinta série, adaptamos a brincadeira do copo para uma folha de papel. Nessa folha, escrevíamos o alfabeto no topo e as palavras…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Queridos leitores, este relato obscuro mescla um fato sombrio, vivenciado nas lôbregas veredas da vida humana, e tons de criatividade e fantasia. Durante a leitura, permita-se imaginar o que seria verídico e o que não seria. Tendemos a acreditar que o mais absurdo é, decerto, o mais improvável de ser real, no entanto, podemos estar profundamente errados. Aprecie a leitura! — Sara Melissa de Azevedo

Certa vez, na quinta série, adaptamos a brincadeira do copo para uma folha de papel. Nessa folha, escrevíamos o alfabeto no topo e as palavras "entrada" e "saída" embaixo. Era para o espírito entrar e sair, e responder às perguntas guiando um lápis ou caneta sobre o papel. Todos os meus colegas estavam fazendo aquilo na brincadeira, mas eu resolvi levar a sério. E o que eu não contava era que algo que estivesse por ali decidisse me responder. 

Perguntei qual era o seu nome, e a caneta que eu segurava começou a se mover em direção às letras N e E. Quando percebi o que estava acontecendo, o medo tomou conta de mim. Assustada, tirei a caneta do papel antes que terminasse de soletrar. Amassei a folha e joguei na lixeira da sala, decidida a esquecer que aquilo acontecera. Mas não foi bem isso que aconteceu comigo… 

No fim da tarde, enquanto caminhava para casa, comecei a sentir algo estranho. Meus passos estavam pesados, como se uma mão invisível pressionasse meus ombros. Talvez eu estivesse impressionada com o que acontecera na sala de aula, ou talvez, como dizemos no Brasil, eu realmente estivesse com um "encosto": um espírito grudado em mim, como uma sombra. 

Na primeira noite, adormeci com um cansaço diferente, um peso, como se uma presença não me deixasse relaxar. Mesmo enquanto dormia, uma parte de mim parecia estar alerta. Tive um sonho — se é que posso chamar de sonho. Estava em um lugar que não consigo lembrar direito, um cenário cinzento e sem tempo, como se estivesse presa entre o sono e a vigília. Havia uma xícara de chá à minha frente, mas não havia rosto, nem vozes, só uma sensação de que algo estava errado. Do nada, a xícara começou a girar. O líquido, que eu não sabia se estava quente ou frio, queimou minha mão. Luzes começaram a piscar ao meu redor, e a xícara, antes comum, agora parecia ameaçadora, dominada por uma força invisível, prestes a ser arremessada contra mim. 

Acordei ofegante, e, embora pudesse parecer só um sonho bobo, o medo que senti foi real. Eu era apenas uma criança, mas sentia um terror profundo que não conseguia explicar. 

Nos dias que se seguiram, a sensação de uma presença ao meu lado só aumentou. Mesmo sozinha, eu não me sentia só. Uma energia densa e sufocante parecia me acompanhar, emanando algo ruim, como se todo o meu corpo estivesse em estado de alerta, ansiando por uma fuga impossível. Não havia nada visível, mas ainda assim era impossível ignorar que, de alguma forma, eu não estava sozinha. Mesmo sabendo disso, tentei levar minha rotina como se nada estivesse acontecendo. Mas ia para a aula acompanhada e observada por aquela presença, enquanto meus pensamentos me lembravam disso obsessivamente. De noite, já em casa, eu continuava a sentir a energia pesada e maléfica ao meu redor. A hora de dormir se tornou o momento mais temido do dia; além de demorar para pegar no sono, cada segundo acordada no escuro era uma tortura. Eu torcia para não ver nada ali, para não ter mais um pesadelo, mas sabia que o sono me trairia, e os sonhos estavam fora do meu controle. 

Me recordo de cada pesadelo que tive nesse período, prova do quanto essa experiência me marcou. O primeiro foi o da xícara. Depois, os sonhos se tornaram cada vez mais sinistros, como se aquela presença quisesse testar meus limites. Sonhei que o amplo quintal da minha casa não existia mais; em seu lugar, havia um cemitério sem grama, frio e desolado, com uma cova em especial que me fazia estremecer — a da minha mãe. Eu a visitava em cada sonho, embora soubesse que não poderia me comunicar com ela. Era um terror profundo, silencioso, mas sem saída. E então, uma noite, uma caixinha de música brotou da terra, iluminada por uma luz esverdeada, e dela saía uma melodia tétrica, desafinada, como se quisesse arrancar algo da minha alma. Acordei assustada, mas estranhamente aliviada por ter escapado antes que aquela música me fizesse mal, como a xícara fizera. 

Mas o encosto parecia decidido a me atormentar. Os dias seguiam com uma angústia que me consumia lentamente, e as noites se tornaram uma batalha sem fim. Por mais que tentasse resistir, o medo era implacável. Em uma dessas noites, depois de mais um pesadelo, acordei com a sensação de que havia vencido, de que finalmente tinha escapado. Foi então que senti uma pressão gélida em meu tornozelo, e algo, ou alguém, me puxou com violência. Eu tinha certeza de que não fora um espasmo involuntário; havia algo ou alguém ali, e não estava para brincadeira.  

Nos dias que se seguiram, era como se o próprio nome dele ecoasse na minha mente: N e E... Neiton, Neila… que diferença fazia? A presença se tornava mais ameaçadora a cada noite, me puxando para o pavor absoluto. 

Então, em uma dessas noites, após sentir o pé sendo puxado diversas vezes, eu estava tremendo igual a uma vara verde debaixo das cobertas, o corpo inteiro em alerta. Finalmente, num impulso, criei coragem e me levantei. Na época, meus avós, a quem eu tratava como pais, dormiam no mesmo quarto, então era só chegar na cama deles e contar.  

Eu achava que meus avós não acreditariam na história, que achariam que era tudo imaginação infantil e isso também me assustava, pois eu contava com a experiência, amor e sabedoria deles para resolver o meu problema.  

Finalmente uma luz na escuridão, ao contrário do que eu achava o meu avô me acolheu e me escutou e a minha avó fez o mesmo. Ficaram impressionados com o tanto que eu, literalmente, tremia de medo. Para o meu espanto, meu avô me contou que um dos meus tios, o mais velho, também já passara por algo semelhante. Disse que à época, eles usavam travesseiros com penas de ganso, e que tiveram de abrir um, dentro dele havia uma coroa de penas emboladas que estava machucando o meu tio.  Eu perguntei, se eles sabiam como me ajudar a me livrar daquilo.  

Então meu avô me levou em uma espécie de benzedeira, uma mulher que tinha conhecimento sobre aquilo. Ela morava próximo de nossa casa, no mesmo bairro. Quando entrei na casa dela, me senti bem, coisa que não sentia a semanas. Ela sabia sobre a minha mãe falecida, mesmo sem nunca ter me visto! Em cima da porta da sala dela, tinha um chumaço de ervas amarradas, na época eu não fazia ideia do que era, hoje imagino que era alguma magia para proteção.  

A mulher ensinou-me algumas orações para eu fazer para o meu anjo da guarda. Ensinou-me que eu deveria acender uma vela para ele em meu quarto, rodeada de açúcar, e rezar para ele. Eu segui todas as orientações à risca e também, por conta própria, comecei a rezar o terço. Havia noites em que a chama da pequenina vela ficava altíssima, cerca de um metro. Aquilo me impressionava, mas eu não sentia medo. Também fomos a um cemitério, acendemos uma vela no cruzeiro para o espírito obsessor que me acompanhava, aproveitamos e também acendemos uma vela para o espírito da minha mãe. Com o tempo o meu temor e as minhas preocupações cessaram. Meu esposo diz que tudo foi fruto da minha mente infantil da época, mas só eu sei o que presenciei e senti naquele tempo. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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A Colecionadora

Falos. Colecionava-os, de todos os tipos e tamanhos. Os primeiros, comprara em sex shops. Depois que se tornara médica legista, ficou mais…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Falos. Colecionava-os, de todos os tipos e tamanhos. Os primeiros, comprara em sex shops. Depois que se tornara médica legista, ficou mais fácil conseguir exemplares reais. Mas, ainda assim, os conservados em formol não a satisfizeram por muito tempo — não tinham o viço e o vigor de um retirado de um corpo quente. 

Estava excitada com a possibilidade de ter um novo e diferenciado item para sua coleção. A experiência anterior, com um doador vivo, falhara completamente; o exemplar não durara tanto quanto o desejado, suas técnicas de taxidermia ainda eram imperfeitas. Além do mais, o doador sangrara muito — tentara estancar o sangramento, mas ele se movia demais, tentando fugir, e acabou por sangrar até a morte. Deu muito trabalho para se livrar do corpo. 

Só precisava acalmar o novo doador. Terminou de preparar a seringa para a anestesia local e disse: 

— Calma, Armandinho, tenho certeza de que farei melhor uso do que você. Não se preocupe, vou cauterizar depois, sou médica, você não vai morrer… Mas te aconselho a seguir as minhas recomendações: não se mova, não grite. Ah, sim, você não pode gritar, né? O que achou do tamanho desse que está em sua boca? Depois que retirarmos o seu, poderemos comparar qual é o maior. Qual você acha que é? O seu ou o dele? 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Ben

O relógio batia nove horas, e José, diferente dos jovens de sua idade, preferia estar em seu quarto, testando algum software novo, descobrindo…

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O relógio batia nove horas, e José, diferente dos jovens de sua idade, preferia estar em seu quarto, testando algum software novo, descobrindo novos sites ou apenas jogando jogos vintage em seu emulador. Gostava também de ouvir música em seu toca-discos; essa atmosfera dos anos noventa lhe agradava muito. Antes de se sentar em sua cadeira, ele liga o toca-discos. Seus dedos passeiam sobre os plásticos que protegem cada vinil e, finalmente, escolhe o álbum: Violator, da banda Depeche Mode. É um de seus álbuns favoritos. Os primeiros acordes de "World in My Eyes" ecoam no quarto. Acompanhado de sua caneca transbordando de café, José inicia sua noite. Primeiro, checa seu e-mail, que está transbordando de spam, entre outros e-mails indesejáveis. Quando estava selecionando-os, algo chamou sua atenção. 

No passado, sua curiosidade o levou a lugares peculiares, e desta vez não foi diferente. O e-mail em questão era, no mínimo, suspeito. Ele elevou a caneca aos lábios e inspirou os aromas de baunilha, canela e notas de chocolate. Sorveu e colocou o café ao lado do mouse, sobre a mesa de madeira. 

Ele havia ouvido dezenas de casos sobre e-mails estranhos, que mais se assemelhavam a alguma creepypasta, de tão fantasiosos que eram. Essas histórias geralmente eram encontradas em algum fórum do Reddit, ou acabavam em um tópico escondido do 4chan, com o intuito de viralizar ou assustar. 

Ele estava prestes a clicar quando sentiu as garras gélidas e pontiagudas do medo cravarem-se em sua nuca, roubando os contornos leves de seu rosto, assim como a mansidão tão presente em seus olhos azuis. Sua expressão adquiriu feições de pavor, e a ponta suada dos dedos escorregava sobre o mouse. Olhou em volta; tudo estava igual: o abajur emanava a luz azulada ao lado esquerdo de sua cama, as roupas continuavam sobre a cama, o café também estava lá. Piscou os olhos e retomou sua atenção para a tela do computador. Havia algo naquele estranho e-mail. Primeiro, seu remetente parecia ser criptografado; não havia nada escrito, apenas um link. Ele passou a mão na testa; as primeiras gotas de suor começaram a aparecer. “Não deve ser nada”, pensou ele. Enquanto isso, "Personal Jesus" tocava na vitrola. Bebeu mais um pouco de café e clicou. Uma aba foi aberta, e ele imediatamente reconheceu: era um site chamado CleverBot, um chatterbot criado pelo veterano em IA Rollo Carpenter, que já havia desenvolvido outros aplicativos para a web. 

José estava eufórico, pois havia um mistério envolvendo o CleverBot. Uma creepypasta, temida por muitos, dizia que, através deste chatterbot, o usuário poderia se comunicar com “Ben”, um garotinho que amava jogar Zelda e que havia morrido sob circunstâncias misteriosas, com sua alma presa em uma fita do jogo. Cético, José inicia uma conversa com perguntas triviais, interagindo com a máquina. Estava se divertindo bastante, mas, de repente, as perguntas começaram a soar estranhas. Seus olhos estavam fixos na tela, e ele decidiu desafiar o aplicativo. Começou a digitar: “Onde está o Ben?”, mas antes de enviar, houve uma resposta. 

— Se fosse você, não faria isso. 

— Não faria o quê? 

— Talvez você encontre algo de que não goste. 

— Eu não iria procurar nada. 

— Eu sei que sim; não adianta negar. 

Imediatamente, uma sensação perturbadora de estar sendo observado o envolveu. Pensou: "Isto está ficando bizarro, melhor fazer outra coisa". Porém, algo o prendia ali. 

— Deve ser algum tipo de brincadeira. Adeus. 

— Não vá, José; estava começando a me divertir. 

— Como você sabe meu nome? 

— Ora, eu sei de tudo. 

— Nunca deveria ter aberto aquele e-mail. 

— Tarde demais para arrependimentos. 

— Aliás, eu adorei a luminária azul. 

Suas mãos tremiam. Ele saiu do computador, olhou em volta, ligou a luz, fechou as janelas e a porta. 

— Sabe, José, gosto muito de Depeche Mode. Inclusive, “Waiting for the Night” é uma das minhas preferidas. 

Uma atmosfera terrível pairava naquele quarto. José estava amedrontado, andando de um lado para o outro. Uma pavorosa sensação de sufocamento o acompanhava, como se fosse um obsessor. Sentiu uma dor pungente brotar de seu peito, gritou até não poder mais e, antes de sucumbir, leu a última frase no computador. 

— A propósito, me chamo BEN.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Minha bela coleção de almas amigas

Na minha maldição de viver muitas vidas, ainda tenho a vã esperança de encontrar, além dela, todas as minhas almas amigas…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Na minha maldição de viver muitas vidas, ainda tenho a vã esperança de encontrar, além dela, todas as minhas almas amigas. E, enquanto esse momento frívolo não chega, adquiri um hábito que todos olham com estranheza: essa mania de colecionar lembranças. Dizem ser mórbido, e talvez até seja mesmo, mas o que eles sabem sobre corações mortos? Sobre a fria solidão dos séculos? Toda a minha coleção, que repousa em minha casa, em molduras gastas, em velhos baús, em álbuns, são as únicas coisas capazes de fazer o meu coração morto chegar perto de bater. Minha coleção favorita: minhas fotografias post-mortem, memórias fiéis das minhas almas amigas que um dia caminharam comigo, compartilharam seus risos, sua vida e seus gostos tão duvidosos quanto a própria eternidade.

Doralice, que sonhava com o mar, sentia como se a maré pudesse alcançá-la mesmo nas terras mais áridas. Júlia, que murmurava consigo mesma versos melancólicos com uma doce tristeza, que quase me faziam querer ser mortal e experimentar a efemeridade. Endora, a ousada, que dançava como se fosse sempre a última dança; ela tinha fome pela vida. Vitória, o farol em meio à tempestade, aquela que não se abalava; e, mesmo agora, sua imagem ao meu lado na fotografia mostra em seus olhos mortos a força que ela tinha. E minha amada Lara, que, ainda viva, ainda espera com um coração que bate com um anseio por algo que não se explica; enquanto o tempo passa, ela mantém minhas lembranças vivas.

Cada vez que uma dessas almas amigas se vai, eu morro um pouco mais em minha não vida. E, em meu luto, preciso de descanso, pois a eternidade às vezes me esgota. Então eu repouso, mas não o repouso do fim, apenas um sonho breve em meu sepulcro silencioso, onde espero, mais uma vez, a chance de despertar e passar momentos na companhia de minhas almas amigas.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

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Uma entrevista do “caso Mmoggun”

Entrevistador: Qual era sua relação com a vítima? | Amigo da vítima: Nos criamos juntos. Amigos de rua, de infância… 

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Entrevistador: Qual era sua relação com a vítima? 

Amigo da vítima: Nos criamos juntos. Amigos de rua, de infância… 

Entrevistador: Estavam sempre juntos? 

Amigo da vítima: Lógico que não. Conversávamos, trocávamos mensagens, dia a dia… 

Entrevistador: No dia do crime, estiveram juntos? 

Amigo da vítima: Pela manhã eu o vi. Estava bastante abatido. 

Entrevistador: Abatido? Como assim? 

Amigo da vítima: Não parecia bem. Tinha olheiras, caminhava devagar, parecia perdido… 

Entrevistador: Interessante… Chegou a conversar com ele? 

Amigo da vítima: Interessante nada… Ele estava visivelmente triste, tenso, alguma coisa já anunciava algo errado… E não, não conversamos. Quando me aproximei e tentei falar mais alto, vi que ele não me escutava. Ele pareceu se assustar com a minha presença, começando até a caminhar mais rápido. 

Entrevistador: E para onde ele foi? 

Amigo da vítima: Não sei dizer, apenas vi quando partiu apressado, arrastando e tropeçando os pés na calçada. Ouvi ele dizer algo, mas não entendi. 

Entrevistador: Ele conversava contigo? 

Amigo da vítima: Não diretamente. Parecia, na verdade, que sussurrava para alguém ao lado… Diria até que conversava com algo invisível… É estranho dizer isso, mas foi o que vi. 

Entrevistador: Bastante estranho… Então quer dizer que não viu qual era o destino dele após isso? 

Amigo da vítima: Não… Só sei que ele seguiu pela calçada e dobrou a esquina. Parecia saber aonde ia, pois erguia de maneira determinada o olhar na direção que seguia. 

Entrevistador: Depois disso, você só o viu em casa, quando descobriram a tragédia? 

Amigo da vítima: Sim… Fui chamado pelos policiais que chegaram. Queriam saber se eu ouvira algo… 

Entrevistador: E você? 

Amigo da vítima: Disse que não, que somente mais cedo havia presenciado aquele estranho comportamento dele, saindo pela rua e não respondendo ao meu chamado. 

Entrevistador: Os policiais não perguntaram mais nada? 

Amigo da vítima: Eu disse a eles o que sabia; falei um pouco das últimas vezes que tivemos contato… 

Entrevistador: Se importa de me dizer qual foi seu relato? 

Amigo da vítima: Não… Acho que quanto mais pessoas souberem, melhor será para uma futura investigação… até para a prevenção de outros casos… 

Entrevistador: Prevenção do quê? 

Amigo da vítima: Do crime! Pois o que aconteceu com meu amigo foi um crime. 

Entrevistador: Quais os motivos para dizer isso, com tanta convicção? 

Amigo da vítima: Meu amigo foi vítima de alguém que conheceu pela internet. Semanas antes do ocorrido, ele me falava que tinha finalmente tido sucesso no app de encontros. Não me dizia muito sobre quem era ou como se dava a interação; tudo o que me revelava era um enorme otimismo e algumas provas de que, dessa vez, daria certo… 

Entrevistador: Que provas eram essas? 

Amigo da vítima: Ele me dizia que estava recebendo presentes, alguns mimos da pessoa com quem interagia. Não me mostrou nenhum deles, pois, segundo ele, essa pessoa do outro lado solicitava total privacidade; era uma espécie de trato: ele não deveria falar para mais ninguém sobre o que recebia… 

Entrevistador: Um tanto ingênuo seu amigo… Então nenhum desses presentes ele exibiu para você? 

Amigo da vítima: Não. Tudo o que consegui dele foi saber como os recebia. 

Entrevistador: E como era? 

Amigo da vítima: Era uma espécie de código. Na calada da noite, quando a rua estivesse vazia, sem barulho algum, essa pessoa dizia para ele aguardar do lado de dentro da casa, apenas colocando o ouvido na porta para ouvir sua chegada. Os horários eram quase sempre perto da meia-noite... Por isso as olheiras, penso, e o cansaço com que o via nos últimos dias... 

Entrevistador: E a chegada dessa pessoa era acompanhada de algo? Não havia interação entre eles? 

Amigo da vítima: Não. Meu amigo disse que ouvia apenas os passos vindos de fora, depois uma espécie de palavreado que até agora não consigo rememorar: gugum, logum, nogum… sempre terminava com esse "um"... 

Entrevistador: Gugum, nogum... O que isso significa? 

Amigo da vítima: Não sei. Ele também não sabia dizer. Os presentes também, um completo mistério. 

Entrevistador: Quais eram? 

Amigo da vítima: Ele não me dizia. Era proibido, estava completamente de acordo com o sigilo solicitado por quem os trazia... 

Entrevistador: Entendo... Aí você só o viu na rua na véspera do crime? 

Amigo da vítima: Não, antes eu ainda tinha contato com ele, mas isso foi rareando cada vez mais. Acho — tenho convicção — que as sucessivas madrugadas à espera desses presentes, dessa visita misteriosa, deixaram meu amigo cansado e extremamente alucinado. 

Entrevistador: Ele pareceu piorar? Ficou doente? 

Amigo da vítima: No mínimo. Suas respostas não eram mais objetivas; ele me respondia com desdém. Se eu perguntava como estava, ou como ia sua relação com aquela pessoa do app, ele me grunhia algo, quase parecido com aqueles nomes que sussurravam do lado de fora da porta... 

Entrevistador: Aquele "nhugum, nogum"...? 

Amigo da vítima: Isso... Chego a imaginar que possa ter sido um feitiço. 

Entrevistador: Então você acha que seu amigo foi vítima dessa pessoa com quem interagia pelo app, que lhe trazia presentes altas horas da noite e que, de alguma forma, acabou entrando em sua casa e fazendo aquilo com ele? 

Amigo da vítima: É minha única suspeita. Ele não tinha inimigos, dívidas, nada que pudesse ter levado alguém a invadir sua casa e o deformar daquele modo bizarro. Você viu as imagens? 

Entrevistador: Sim. O crime foi tão divulgado que as imagens chegaram até mim. Ele parecia simplesmente sem olhos, nariz, boca. Sua expressão facial, por completo, havia sido removida, deixando o rosto liso, como se uma cicatrização assim fosse possível... 

Amigo da vítima: Meu amigo não merecia isso. 

Entrevistador: Meus pêsames. 

Amigo da vítima: Agora é torcer para que descubram algo, que cheguem à identidade dessa criminosa, que tirou a vida dele e... fez aquilo com ele. 

Entrevistador: Vamos torcer. Irei tentar contatar mais gente envolvida nas investigações. Me diga se lembrar de algo que possa ter passado em branco durante a entrevista. 

Amigo da vítima: Direi, sim. Espero que eu não seja a próxima vítima. Ando escutando vozes pela casa à noite... e juro que parecem as mesmas que saíam da boca do meu amigo, naquele estado abatido dele. 

Entrevistador: O nogum... logum? 

Amigo da vítima: Isso, nogum... mogun... acho que era isso… 

Entrevistador: Bizarro... Tome cuidado! 

Amigo da vítima: Pode deixar. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

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Hermético

Tudo começou com uma reminiscência. Caminhando pela rua, por alguma calçada que serviu de gatilho, voltei vinte anos atrás…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Tudo começou com uma reminiscência. Caminhando pela rua, por alguma calçada que serviu de gatilho, voltei vinte anos atrás. Tempo bom aquele em que brincava, em que o dia de amanhã não me preocupava. Pulando como simples criança, lembrei da brincadeira de saltar linhas, evitando pisar nas demarcações que formavam ângulos nas lajotas da cidade. Por algum motivo incontornável, levei a sério a missão que retornava: não podia mais calçar as retas. 

Assim voltei para casa, atento a cada passo, sem deixar nem mesmo um centímetro da ponta dos pés avançar sobre as cruzadas formas, podendo apenas me deslocar pousando por inteiro a planta dos pés nas plataformas lisas. 

Subir as escadas do condomínio me impôs igual atitude — desviar de toda borda; porém, algo me afligiu: pular de dois em dois degraus mostrou-se nova ordem. A praxe era me adaptar a essa súbita necessidade, sem duvidar nem pôr em descrédito a seriedade do que agora me controlava. Rapidamente, essa maneira de subir os degraus me levou à porta de casa, onde me pus a pensar: até onde irá isso? 

Lá dentro, agora automatizado meu comportamento de pisar no interior das formas geométricas do piso, forcejando até ficar na ponta dos pés em alguns momentos, comecei a organizar minhas coisas. Mochilas, pratos, livros, canetas... Tudo à minha frente foi realocado de maneira a parecer em ordem, numa sequência lógica para mim e para os meus olhos. Satisfeito com a sistematização dos itens — que avançara para um jeito de deixar as coisas verticais o mais verticalmente possível e as horizontais o mais horizontalmente possível —, sentei-me para refletir, no meio do sofá. 

Parado, mas consciente, observei a disposição de minha casa e até onde haviam chegado as últimas consequências de uma brincadeira levada a sério. Aquilo era, no fim das contas, nada mais do que o que meu dia a dia solicitava: a padronização do ser, a ordem social ampliada ao arranjo individual dos objetos. Faltava, para uma completa satisfação do mundo e de mim mesmo, alcançar agora a ordenação microscópica do organismo, daquele universo unicamente alcançável por minha ação... 

Sem pensar duas vezes — o que já era impossível — tratei de fechar meus olhos para o mundo, seguido de minha respiração, buscando uma completa unidade... 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

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O Lago

— Alertei para ele não ir até lá... — disse Marcos, equilibrando seu corpo inebriado na banqueta, os cotovelos apoiados na bancada de madeira…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

— Alertei para ele não ir até lá... — disse Marcos, equilibrando seu corpo inebriado na banqueta, os cotovelos apoiados na bancada de madeira, lutando para não cair. Sua voz, inaudível, soou um tanto fantasmagórica enquanto contemplava o vazio através de seus olhos verdes. 

— Até hoje sou assombrado por aquele horrendo entardecer... — Após proferir tais palavras, um silêncio perturbador reinou naquele bar. 

Enquanto isso, Carlos, que lustrava a bancada, ouvia com temor cada sílaba, pois aquele terrível acontecimento ainda lhe causava calafrios. 

— Por Deus, Marcos, temos visitantes na vila; é melhor não abrir a boca, entendeu? Todos nós avisamos sobre os perigos daquele lago, e mesmo assim... ele sorriu e foi ao encontro daquelas turvas águas. Ele tinha um ego maior que o temível Kraken — concluiu ele, servindo outra dose para Marcos. 

Nesse momento, alguém com passos leves se aproxima e ouve parte da conversa. A princípio, eles ignoram, mas o cumprimento do visitante faz os homens despertarem daquele estado letárgico. 

Nesta época do ano, a vila recebe muitos turistas por conta de um festival tradicional de frutos do mar, com os mais diferentes pratos, gerando muita renda para o comércio local. As águas cristalinas da praia eram belíssimas, o céu sempre azul-marinho, e o sol radiante era um espetáculo para os olhos. 

Após as formalidades, o visitante entrou e pediu uma cerveja. Carlos o serviu, e o homem, que dizia ser um pesquisador, explicou que estava ali para escrever uma matéria para uma revista. 

— Mas que belo lugar este, não é? — disse Pedro, o visitante. — Desculpem minha curiosidade, mas ouvi boa parte da conversa, e... os fatos narrados são verdadeiros? Digo, é uma história bastante assustadora. 

Os homens se entreolharam com temor antes de responder. 

— Aquele lago é amaldiçoado — iniciou Marcos, em um tom que falhava, como se revelasse algum segredo macabro. 

— Crescemos ouvindo histórias sobre o lago. Diziam que, uma vez que você entra nas turvas águas, nunca mais será o mesmo. Acontecem mudanças físicas que tenho pavor em mencionar. 

— Que mudanças? — perguntou Pedro, intrigado. 

— Após três dias — disse Carlos, sussurrando — a pele se transforma, adquirindo um aspecto viscoso. Com o avançar dos dias, a pele desaparece por completo, e em seu lugar, escamas surgem dos poros. E então um cheiro pútrido e desagradável começa a ser sentido em certas horas... e os olhos... — Neste momento, um terrível arrepio percorreu os três. — Meu Deus, os olhos... ficam vazios, mortos, e o corpo se torna uma espécie de aglomerado acinzentado. 

Absorto, Pedro escutou com muita atenção e pensou consigo mesmo: “Será que tal relato é verdadeiro? Mas por que razão esses humildes homens haveriam de mentir? Suas feições vestem o verdadeiro horror.” 

Ainda espantado, Pedro disse: 

— Eu já ouvi muitas histórias estranhas nesta vida, mas nada se compara a esta. Se me permitem, será que eu poderia escrever uma matéria? 

Os homens tremiam e olhavam ao redor enquanto engoliam as lembranças com o álcool. 

— Acho que sim — um deles falou, enquanto o outro admirava o copo vazio com um olhar perdido. Pedro insistiu, e eles aceitaram. Mas antes de se despedirem, Carlos falou: 

— Se você tem amor à sua vida, vá embora o quanto antes. Sei que é dia de festa por aqui, mas aconselho você a ir. 

Pedro caminhava pela rua com aquela história na cabeça quando uma forte brisa tocou seu rosto, desarrumando seus cabelos pretos e trazendo consigo um odor pútrido, igual ao que acabara de ouvir. Procurou seu carro e acelerou o mais rápido possível.

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Ninguém Vai Embora

— Cara, acho que não está dando certo — falou Fabrício, observando o copo imóvel no centro da tábua. — Pois é. Não se mexe. Talvez devêssemos…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

— Cara, acho que não está dando certo — falou Fabrício, observando o copo imóvel no centro da tábua. 

— Pois é. Não se mexe. Talvez devêssemos tentar outra coisa — concordou Renato. 

Paulo, Ricardo, Renato e Fabrício estavam ali pela primeira vez, reunidos para tentar invocar espíritos com um tabuleiro improvisado e um copo. 

— Ah, eu falei que era uma má ideia. Não tem graça nenhuma. Vamos parar com essa besteira — disse Ricardo, afastando-se um pouco, visivelmente incomodado. 

Paulo, mais teimoso, segurou o amigo pelo braço. 

— Espera. Olha o copo — a voz saiu baixa e trêmula. — A porra do copo está se mexendo. 

O copo deslizou lentamente sobre o tabuleiro, como se uma força invisível o empurrasse. O silêncio caiu sobre os quatro amigos, e um calafrio percorreu a espinha de cada um. 

— Vamos fazer uma pergunta? — sugeriu Fabrício, hesitante, olhando para os outros. 

— Vai lá, você começou essa merda — disse Renato, encarando Fabrício, tentando parecer corajoso, mas seu rosto denunciava o medo. 

Fabrício respirou fundo, engolindo em seco antes de formular a primeira pergunta. A resposta veio, letra por letra, formando palavras sobre o tabuleiro. Eles seguiram com outras perguntas, fascinados e, ao mesmo tempo, aterrorizados. 

Horas se passaram até que Paulo sugeriu o fim do jogo. 

— Já está tarde, pessoal. Vamos mandar o espírito embora. 

— Concordo — disse Fabrício, olhando nervosamente ao redor. — Vamos perguntar se ele quer ir. 

Ele posicionou a mão sobre o copo e fez a pergunta. O copo moveu-se lentamente até o "NÃO". 

— Ele não quer ir, não — Ricardo riu, tentando disfarçar o nervosismo. 

— Por que você não quer que a gente vá? — insistiu Paulo, agora sem tirar os olhos do tabuleiro. 

O copo começou a deslizar novamente, letra por letra, formando uma nova frase: N-I-N-G-U-E-M V-A-I E-M-B-O-R-A. 

Os quatro se entreolharam, sem saber o que fazer. 

— Puta merda, o que ele quer de nós? — perguntou Renato, a voz quase em um sussurro. 

Eles repetiram a pergunta, e a resposta veio rápida e fria: M-E S-I-N-T-O S-O-Z-I-N-H-O O-N-D-E E-S-T-O-U P-R-E-C-I-S-O D-E C-O-M-P-A-N-H-I-A. 

Ricardo levantou-se de repente, puxando a mão para longe do tabuleiro. 

— Eu vou embora. Isso está me assustando de verdade — anunciou, afastando-se. 

Mas, no instante em que deu um passo, a porta da sala bateu com força, fechando-se sozinha. O som ecoou pelo cômodo, e todos viraram na direção da porta, horrorizados. O copo voltou a se mover: N-I-N-G-U-E-M S-A-I. E-U J-A F-A-L-E-I. 

Ricardo soltou um grito abafado, com as mãos tremendo. 

— Eu sabia, eu sabia que isso ia dar merda! 

— Calma... — Paulo tentou controlar o grupo, embora ele próprio estivesse à beira do pânico. — Vamos perguntar o que ele quer. Talvez exista um jeito de a gente sair. 

— Como podemos sair daqui? — Renato se inclinou sobre a mesa, esperando uma resposta. 

O copo moveu-se novamente, a resposta deslizando lentamente entre as letras: S-O-M-E-N-T-E C-O-M I-G-O. 

Paulo arregalou os olhos. 

— O que isso quer dizer? Ir com ele? Pra onde? 

A resposta veio mais rápido, com uma fluidez perturbadora, como se o espírito estivesse ganhando força: P-A-R-A O-N-D-E E-U E-S-T-O-U. 

Renato praguejou baixinho, afastando-se enquanto olhava ao redor com desespero. 

— Esse filho da puta está pensando o quê? — gritou, desafiador. 

No instante em que as palavras deixaram seus lábios, seus olhos se arregalaram, fixos em um canto escuro da sala. Ele apontou com o dedo trêmulo, incapaz de falar. 

— Renato, o que foi? — Fabrício engasgou, os olhos arregalados. 

No canto escuro da sala, uma figura nebulosa, um vulto denso e ameaçador, começou a se formar. Algo sombrio e sem forma, mas terrivelmente real. Todos encararam o vulto, sem conseguir desviar o olhar, enquanto ele se aproximava, lentamente, como uma sombra rastejando. 

Então, uma batida aguda e insistente soou. O telefone tocava na sala ao lado, rompendo o silêncio mortal que preenchia o cômodo. Na casa ao lado, a mãe de Ricardo atendeu. 

— Alô? 

— Oi, Ana. Como você está? Os meninos ainda estão na casa? 

Ela sorriu. 

— Sim, estão aqui, trancados na sala de jogos. Vou chamá-los para você. Um instante. 

Desligou o telefone e caminhou rapidamente até a sala de jogos. Ao abrir a porta, um grito horrorizado escapou de sua boca. 

Quatro corpos jaziam no chão, rostos congelados em expressões de puro terror. Olhos arregalados, bocas abertas em gritos silenciosos, como se, naqueles últimos instantes, eles tivessem encontrado algo além do compreensível, algo que sequer a morte os libertaria. Naquele tabuleiro amaldiçoado, quatro vidas agora compartilhavam a infelicidade eterna com algo que jamais deveria ter sido perturbado. 

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5 Minutos

Tenho que acordar todos os dias às 7h da manhã. Mas levantar cedo nunca foi meu forte. Para que eu consiga, de fato, despertar até o horário…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Tenho que acordar todos os dias às 7h da manhã. Mas levantar cedo nunca foi meu forte. Para que eu consiga, de fato, despertar até o horário em que devo sair da cama, programo meu celular para despertar de 5 em 5 minutos. Ele começa às 5h e termina às 7h05, quando já estou 5 minutos atrasada.

Minha mãe sempre briga comigo porque acha que isso é coisa de maluco. Mas faço isso há tanto tempo que, se programar o alarme apenas uma vez, tenho certeza de que nem o ouço. Por isso, meus pais sempre reclamam: “Fica um barulho chato de 5 em 5 minutos até que você resolva desligar”, blá, blá, blá. Até alguns vizinhos já vieram reclamar, mas tente alguma vez, dá super certo!

Uma amiga da faculdade duvida da minha teoria. Mas é tão certa quanto um mais um é igual a dois. Para provar a ela, propus um desafio. Na sexta-feira, às 8h, teremos prova de Cálculo, mas na véspera irei a uma balada com meu namorado e devo retornar por volta das 3h. Chegarei no horário e sem sono!

Primeira parte do desafio cumprida. Bebi um pouco a mais, confesso. Mas é só tomar uma ducha rápida e dormir. Celular programado — em poucas horas, provarei que tenho razão no meu método.

"BIP BIP BIP!"

— De primeira! Dessa vez, acordei no primeiro alarme, mal posso acreditar! E ainda por cima, sem sono; vou até desativar o próximo... PUTA QUE PARIU!

Não poderia ser. Não poderia! Justo hoje! Como eu não ouvi? Eu sempre ouço! Transtornada, meus pensamentos não paravam. Já eram 8 HORAS! Nunca isso havia me acontecido. Vesti a primeira roupa que encontrei, coloquei meus chinelos mesmo, escovei os dentes, puxei a mochila e saí correndo de casa.

Cheguei na porta da sala de aula faltando 5 minutos para as 9h. Perdi a prova.

— Perdeu a aposta! — Minha amiga passou por mim com tom de deboche. Ignorei e entrei para não perder a aula seguinte.

— Cibele! Cibele!

Ouvi chamarem meu nome ao longe, mas foi só quando me sacudiram que despertei.

— Julia! O que foi?

— O que foi pergunto eu. Sua teoria literalmente caiu por terra. Você perdeu a prova e dormiu em todas as outras aulas.

Olhei para meu celular: eram 12h05. Levantei assustada.

— Não pode ser!

— Claro que pode! Só você para acreditar que abusar da função soneca é algo que realmente funciona!

Estava tão perplexa que o sarcasmo da minha amiga nem me afetou. Eu já havia feito a mesma coisa por diversas vezes, e sempre funcionou.

Com o passar dos dias, não conseguia mais compreender o que de fato estava acontecendo. Mesmo acordada, bastava me dar um leve sono para que horas se passassem. Mas sempre o número 5 estava presente. Às vezes não me dava conta de que havia adormecido; olhava para meu celular, e o relógio parecia ter enlouquecido. Até que se passaram 5 dias, 5 semanas...

O tempo escapava de mim como se eu vivesse em um eterno e maldito modo soneca. Um bocejo que fosse era o suficiente para o ativar. Troquei de celular, tentei relógio, despertador analógico, até mesmo não manter mais nada perto de mim. Sem sucesso.

Há 5 minutos saí do consultório médico. Tenho algum tipo de problema que ainda está sendo investigado. A previsão é que resultados satisfatórios sejam encontrados em torno de 5 anos. Hoje desperto há exatamente 5 dias para que se completassem os 5 anos previstos para algum progresso no tratamento de minha enfermidade. Mas despertei apenas a tempo de ver que desligavam os aparelhos que me mantinham viva.

— Hora da morte: 5h55.

"Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiii..."

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Desafio Sombrio 2024, Escrito por Valesca Afrodite, -Contos Valesca Afrodite Gomes Desafio Sombrio 2024, Escrito por Valesca Afrodite, -Contos Valesca Afrodite Gomes

O fim dos tempos

Quando o lockdown começou, muitos falavam sobre o fim dos tempos; como negar isso? Eu via apenas o nada lá fora, apenas fragmentos de uma…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Quando o lockdown começou, muitos falavam sobre o fim dos tempos; como negar isso? Eu via apenas o nada lá fora, apenas fragmentos de uma realidade deturpada. As janelas agora não serviam mais para que eu pudesse observar o que acontecia lá fora; o próprio silêncio suspenso parecia me observar, o mundo parecia congelado. Um novo vírus, diziam. A televisão mostrava as mesmas notícias de sempre, pedindo que nos mantivéssemos em casa, calmos, pois logo tudo ia acabar. Mostravam que o “novo normal” era apenas uma tela de mentiras. Houve o primeiro dia de lockdown, o isolamento social era obrigatório e todos deveriam seguir as normas, e, no terceiro, o silêncio começou: ninguém parecia mais falar ou ser visto pelas janelas. Ruas vazias, comércios fechados, o trânsito parado — somente o nada e o silêncio absoluto. Minha curiosidade era intensa, mas eu conhecia as regras: “Não saia de casa!” Então as segui à risca. A mídia transmitia o mesmo discurso repetidas vezes, um toque de recolher absoluto, segundo as autoridades, mas ninguém sabia o que acontecia com aqueles que decidiram desafiar as regras. 

Em alguns canais, líderes religiosos diziam que a humanidade precisava de purificação, pois estávamos sendo preparados para algo grandioso. E nas redes sociais, mensagens surgiam. Havia aqueles que diziam que o Salvador havia voltado e que os que sumiram estavam sendo arrebatados. Era essa a explicação? As autoridades faziam vista grossa para esses desaparecimentos e sugeriam que eram pessoas que desobedeceram ao isolamento, mas que logo isso seria resolvido. À noite, eu ouvia sons quase imperceptíveis, ruídos estranhos, pulsantes, como se viessem de algum lugar acima do meu prédio. Todos os dias esses sons ficavam um pouco mais altos e mais próximos. Em uma noite, observei algo pela janela: um raio fino e muito luminoso cortava o céu, atingindo algo na rua de trás. Noutra noite, recebi uma mensagem de um amigo que dizia: 

“Já percebeu que nada mais parece real? Que os programas de televisão estão só repetindo um mesmo padrão, como uma máquina tentando parecer humana?” 

Eu não tinha certeza do que ele estava falando; imaginei ser uma nova teoria da conspiração que ele estava acompanhando. Mas, como eu não tinha muito o que fazer, comecei a prestar mais atenção nas notícias, e a cada dia elas mostravam os mesmos rostos, e rostos muito semelhantes, dizendo sempre as mesmas coisas, mas de maneira diferente: “Aos poucos, as coisas vão se normalizando; em breve tudo voltará ao normal.” Entrei em um fórum online e encontrei outras pessoas que também haviam percebido essas discrepâncias. Parecia um padrão de controle, uma ilusão para nos manter calmos. Eles queriam que tudo parecesse normal, enquanto alguma coisa lá fora parecia fazer algum trabalho sujo. O isolamento social inicial parecia que era para nos proteger de algum vírus, de uma praga moderna, mas parecia também nos proteger de algo pior, e eu me perguntava o motivo disso. Ninguém que saía voltava, e ninguém parecia se perguntar o porquê disso. 

Uma noite, ao abrir o fórum, vi uma postagem: um usuário dizia ter testemunhado o arrebatamento do outro lado da rua. De acordo com ele, uma figura luminosa apareceu e levou para o céu todos aqueles que saíram para a rua. Alguns concordavam, citando versículos bíblicos e dizendo que todos seriam levados em um piscar de olhos. Mas eu sabia o que eu tinha visto; eu vi um raio luminoso e não uma figura luminosa, e me perguntava se esses raios que apareciam não eram parte de algo muito mais assustador. Quando os dias viraram semanas, algo ficou mais claro: o mundo lá fora não era obra de Deus. Aquele novo normal que a TV mostrava, como se as coisas tivessem voltado ao normal, parecia agora uma paródia sinistra. E cada vez mais eles queriam que acreditássemos que as pessoas desapareciam porque eram escolhidas, que o Salvador havia voltado e que tudo estava bem. 

Então veio o que parecia ser a verdade. No fórum, um vídeo foi compartilhado. Na tela, meu amigo, que desaparecera após sair de casa, aparecia no canto de um beco, escondido atrás de um monte de entulho. Ele falava sussurrando, olhando ao redor com os olhos arregalados, o rosto muito pálido. 

“Isso não é o fim dos tempos, não é o arrebatamento. Eles estão aqui, eles querem a Terra para si, mas não nos querem aqui. Todos os ruídos, o lockdown, a mídia… tudo isso é só uma forma de limpar o terreno. Eles analisaram todas as nossas redes, sabem no que queremos acreditar e estão usando tudo contra nós, controlando as mídias, fazendo tudo parecer normal. Mas se você sair para a rua, você será...” 

O vídeo terminou com um raio de luz atravessando a tela e um grito que eu nunca mais vou esquecer. Então eu entendi que a Terra era um bem precioso para “eles”, mas nós éramos criaturas indesejáveis que a habitavam. “Eles” não eram Deus; ninguém tinha voltado para nos salvar. E o confinamento era o que nos mantinha a salvo. Eram as paredes que nos protegiam... mas nos protegiam do quê? 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

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O que os olhos não vêm, o coração [em cera] não sente...

Na cidade pulsante de Nova Arcadia, onde o neon iluminava…

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Na cidade pulsante de Nova Arcadia, onde o neon iluminava o abismo da decadência humana, Rhys, um pintor exilado, vagueava entre a vida e a morte, sua essência dilacerada pela perda e pela obsessão. Em seu estúdio, um espaço escuro e claustrofóbico, ele transformava a dor em arte, mas a arte que criava era uma celebração grotesca do horror. 

Rhys não apenas pintava; ele coletava corações. 

A cada batida de seu coração mecânico, uma vida era arrancada. Ele retirava os olhos de suas vítimas, aqueles orbes que uma vez brilharam com esperanças e medos, e os inseria nos corações, preenchendo-os com cera derretida. 

Em frascos de vidro, os olhos se tornavam prisioneiros, testemunhas silenciosas de sua obsessão. Era um ato de controle, uma maneira de capturar a essência efêmera da vida e do sofrimento. 

Ele mesmo era um enigma, um corpo sem alma, com um coração que pulsava ao ritmo de engrenagens frias. 

Os dias se transformavam em um borrão de sombras e cores, enquanto ele buscava a beleza em sua própria degeneração. 

Sem olhos reais, Rhys habitava um mundo distorcido, onde a visão se tornava uma lembrança distante, substituída por uma percepção tortuosa da realidade. 

Suas telas eram um reflexo de sua psique fragmentada. 

Ele mergulhava em uma paleta de vermelhos e negros, suas pinceladas violentas expressando a luta interna entre a vida e a morte, amor e dor. 

Cada quadro era uma narrativa visceral, uma explosão de emoções que desafiava os limites do que era aceitável. 

Rhys acreditava que, ao retratar o sofrimento, poderia, de alguma forma, entender sua própria dor. 

A cidade, repleta de sombras e ecos, tornava-se sua inspiração. Cada grito distante, cada lamento sussurrado nas ruas, alimentava sua criatividade, transformando-o em um predador de almas. 

Mas, à medida que coletava corações, a linha entre a arte e a vida se tornava cada vez mais tênue. 

Rhys se via não apenas como artista, mas como juiz e carrasco, preso em um ciclo vicioso que o consumia. 

Em uma noite fatídica, enquanto a chuva caía como um lamento, Rhys encontrou uma jovem artista que desenhava nas ruas, sua energia vibrante contrastando com a escuridão que o cercava. Seus olhos brilhavam com uma intensidade que o desarmou, despertando algo há muito adormecido dentro dele. 

Ao observá-la, ele sentiu uma faísca de humanidade, um desejo de conexão que não podia ignorar. Ele hesitou. 

A tentação de capturá-la, de transformá-la em mais uma de suas obras, lutava contra o impulso de se abrir para ela. 

Rhys percebeu que, em vez de extrair a essência de mais uma vida, ele desejava entender a beleza do que era ser humano. 

Em sua mente, o dilema se intensificava, uma batalha entre o instinto predatório e a necessidade de se redimir. 

Naquela noite, em meio a um turbilhão de sentimentos, Rhys decidiu se afastar do horror que o definia... 

Ele começou a pintar a jovem, mas não como um objeto de desejo; ele a retratou como um símbolo de esperança. 

Cada pincelada era um esforço para resgatar sua própria alma, uma busca por redenção em meio à sua perdição. 

Com o tempo, as telas de Rhys passaram a contar uma nova história, uma narrativa de luta e amor, onde os olhos que uma vez desejou capturar eram agora um convite à empatia. 

Ele percebeu que, embora seu coração fosse mecânico, ainda existia uma centelha de vida dentro dele, uma prova de que a arte poderia ser um meio de cura. 

No estúdio de Rhys, a luz fraca filtrava-se através da neblina, revelando um mundo onde o grotesco dançava com a beleza. 

As paredes estavam cobertas de quadros, cada um mais intenso que o anterior e, diante de cada tela, a dor e a vida se entrelaçavam em um abraço mortal. 

Os potes de vidro, alinhados como sentinelas em uma prateleira empoeirada, continham não apenas corações, mas a essência de vidas perdidas. Dentro de cada frasco, a cera espessa envolvia os corações e olhos, criando uma superfície viscosa e reluzente que refletia a luz em fragmentos de cor. O que os olhos não veem, o coração não sente... 

Era como se, ao capturar o olhar de suas vítimas, Rhys tivesse aprisionado também a alma que pulsava dentro delas. 

Aqueles olhos, embora imóveis, pareciam vibrar com a energia das memórias, como ecos distantes de risos, lágrimas e sussurros. 

Os quadros, por sua vez, eram um umbral entre a vida e a morte, uma passagem onde a dor se transformava em beleza. 

Rhys mergulhava seu pincel nas cores mais sombrias — o carmim profundo do sangue e o negro da noite —, e cada traço se tornava um grito silencioso. 

As formas que surgiam eram distorcidas, mas, em sua grotesca deformidade, emanavam uma vitalidade palpável. 

Os rostos que surgiam nas telas refletiam não apenas sofrimento, mas uma luta visceral pela existência, um desejo ardente de serem vistos, de serem compreendidos. 

Cada obra era uma ode à vida que brotava do horror. 

Nos detalhes mais sutis, as sombras pareciam pulsar... 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Visões

No coração de um lixão vasto e sombrio, onde o sol raramente penetrava a nuvem de lixo e decadência, vivia uma criança chamada Leo. Seu pai, um homem…

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No coração de um lixão vasto e sombrio, onde o sol raramente penetrava a nuvem de lixo e decadência, vivia uma criança chamada Leo. Seu pai, um homem marcado pela vida, passava os dias garimpando entre as pilhas de desperdício, enquanto Leo explorava o mundo ao seu redor, com os olhos atentos a cada sombra e forma que se desenhava na sujeira. Desde pequeno, Leo tinha um dom peculiar: via rostos nas coisas que os adultos ignoravam. Um pedaço de papel amassado se tornava o sorriso triste de uma mulher; uma garrafa quebrada, o olhar vazio de um homem perdido. Aquela pareidolia era sua única companhia, uma forma de criar amigos em um lugar onde a solidão se acumulava como o lixo. 

Mas, ao longo do tempo, esses rostos começaram a mudar. As expressões, antes tristes, tornaram-se torcidas e malignas. Os olhos, que antes suplicavam por atenção, agora brilhavam com uma intenção obscura. Leo percebia, com um frio na espinha, que as sombras ao seu redor se aglutinavam, formando figuras indistintas que pareciam espreitar entre os restos de vidas descartadas. 

Certa noite, enquanto a lua cheia iluminava o céu poluído, Leo se aventurou mais fundo no lixão. Ele queria descobrir o que havia além das pilhas de plástico e metal. A cada passo, uma sensação de medo e excitação o envolvia. Foi então que viu — realmente viu — algo além das visões. Entre os montes de lixo, um espaço escuro se abria, como um portal para outra dimensão, e as criaturas começaram a emergir. Eram formas indistintas, desprovidas de definição, mas suas intenções eram claras. Olhos que brilhavam como carvão se fixaram em Leo, e a risada que ecoou em sua mente não era humana. Ele entendeu, naquele momento, que aquelas figuras eram as almas perdidas dos objetos que o cercavam, presas entre os restos do que um dia foram. Elas tinham fome. Fome de vida, de luz e de algo mais profundo — a essência da inocência que Leo possuía. 

Desesperado, Leo tentou fugir, mas as criaturas se aproximaram, envolvendo-o em uma dança macabra. Ele viu o que elas eram: sombras da própria dor, reflexos de sua solidão. Eram os ecos de sua mãe, que havia partido quando ele nasceu, e a ausência que o preenchia. O lixo ao seu redor não era apenas desperdício; era um monumento à perda e ao desespero. 

Enquanto tentava escapar, uma delas se destacou, uma figura mais definida, com um rosto que parecia um eco do dele. Era como se Leo estivesse olhando para uma versão distorcida de si mesmo. 

— Nós somos o que você deixa para trás — sussurrou a criatura, a voz um sussurro de metal enferrujado. — Estamos aqui porque você não se despediu. 

Naquele instante, Leo percebeu que não poderia fugir. Ele precisava enfrentar seus medos, confrontar a dor que o cercava. Com um ato de coragem, ele fechou os olhos e deixou suas lágrimas caírem, permitindo que o peso de sua solidão se transformasse em um grito. 

— Mãe, onde você está? — ecoou em seu coração. 

As criaturas hesitaram. A luz de sua vulnerabilidade, embora tênue, iluminou o espaço... Uma a uma, começaram a se dispersar, como fumaça ao vento. Leo abriu os olhos e viu que a escuridão não era eterna... 

Ao retornar para casa, as sombras no lixão tornaram-se menos opressivas. Os rostos, que antes eram malignos, agora pareciam mais claros, mais distantes. Leo compreendeu que a verdadeira monstruosidade não residia nas criaturas, mas na solidão que ele havia carregado. Quando o sol finalmente surgiu, espalhando luz sobre o que havia sido um mundo sombrio, Leo sorriu. Ele não estava sozinho. As vozes do lixo ainda sussurravam, mas agora eram ecos de uma nova esperança, de uma criança que, embora marcada pela dor, havia encontrado um caminho para a luz, para as formas do caos. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Entre Peles e Almas

Ramalho era um homem praticamente invisível, não no sentido literal da palavra, mas na forma como ele caminhava pelo mundo sem chamar…

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Ramalho era um homem praticamente invisível, não no sentido literal da palavra, mas na forma como ele caminhava pelo mundo sem chamar a atenção, nunca deixou nenhum rastro. Era um taxidermista, e por isso vivia trancado em sua casa no centro da cidade. Ele restaurava corpos de animais, de qualquer criatura que encontrasse morto nas ruas.  

Sua loja era conhecida entre os colecionadores mórbidos da cidade. Mas havia algo, um segredo. Ramalho não se limitava a recriar os corpos, ele os colecionava. E havia um segredo sombrio, sua coleção não se limitava aos corpos, ele também colecionava o que restava das almas. 

Nos fundos de sua casa, havia um quarto onde ninguém entrava, nem mesmo ele, a não ser em certas ocasiões. O ar ali era denso, havia uma energia pesada. Dentro daquele quarto estavam as carcaças de sua mais preciosa coleção: humanos. Não eram apenas simples corpos, eram almas que ele retirava enquanto os mantinha vivos pelo tempo necessário. 

Seu método era perfeito. Escolhia sua vítima, geralmente homens ou mulheres solitários, aqueles que ninguém sentiria falta. Eles vinham até ele, atraídos por algum anúncio de emprego ou algo do tipo. Ramalho os convidava para entrar, oferecia um chá ou café. E quando suas vítimas começavam a relaxar, ele agia. 

Injetava um sedativo, algo que mantinha o corpo paralisado, mas permitia que a mente ficasse consciente. Era importante que suas vítimas estivessem acordadas durante todo o processo, sentindo cada instante.  

Uma noite, Ramalho sentiu que precisava adicionar mais uma peça à sua coleção. Ele escolheu uma fotógrafa, Camila, que tinha a curiosidade de explorar os cantos sombrios da cidade. Ela apareceu na loja, interessada em fotografar as peças de taxidermia para um projeto. Era perfeito. 

Quando Camila entrou, Ramalho percebeu algo diferente nela. Havia uma espécie de luz em seus olhos. Ele sorriu, sabendo que aquela seria uma adição única em sua coleção. Como de costume ofereceu chá, que ela aceitou sem suspeitar de nada. Assim que ela levou a xícara a boca, o líquido percorreu sua garganta e o efeito foi imediato. Camila caiu com seus olhos arregalados, completamente consciente, mas incapaz de se mover ou gritar. 

Ramalho a levou para o quarto dos fundos. As carcaças de sua coleção estavam dispostas nas paredes como mórbidas obras de arte. Corpos de homens e mulheres empalhados como animais com suas expressões de terror congeladas. O processo com Camila seria lento, mas ele estava ansioso. Preparou seus instrumentos e começou a trabalhar. Cada corte era feito com precisão. Ele começava pelos nervos, sempre pelos nervos, retirando-os meticulosamente enquanto a vítima sentia cada segundo de dor. O corpo permanecia vivo até que ele chegasse ao coração, onde ele retirava a última faísca de consciência, preservando-a em um pequeno jarro ao lado de cada corpo. 

Mas algo estava errado com Camila. 

Enquanto Ramalho trabalhava, ele percebeu que os olhos dela não estavam como os das outras vítimas. Havia um brilho que não deveria existir. Quando ele chegou perto de sua garganta para fazer mais um corte, ouviu algo que quase fez seu coração parar. Ela murmurava, com a boca quase paralisada, mas ainda com vida o suficiente para formar algumas palavras. 

— Você também está aqui Ramalho. 

Ele gelou. Era impossível. Nenhuma vítima havia falado durante o processo. Ela deveria estar completamente paralisada, sentindo a dor e incapaz de reagir. E, no entanto, ela o encarava com um suave sorriso que se formava vagarosamente em sua boca. 

— Você coleciona o que não entende. Mas o que você esqueceu é que nós também colecionamos você. 

Ramalho tentou ignorar. Ele avançou novamente com o bisturi, mas sua mão vacilou. Sentiu o quarto diferente. As carcaças estavam mudando. As bocas dos corpos empalhados agora murmuravam. Ele ouviu as vozes das vítimas que ele havia colecionado ao longo dos anos. 

— Ramalho, você é o próximo. 

Ele recuou. Não era possível. As almas não estavam mais aprisionadas, elas estavam ali com ele. Todas as vítimas pareciam estar em pé formado um círculo de sombras ao seu redor. Seus corpos agora o encaravam, seus olhos cheios de ódio. 

Os jarros ao lado dos corpos começaram a vibrar, e Ramalho caiu de joelhos segurando sua cabeça, tentando bloquear o som dos sussurros que agora estavam ficando cada vez mais altos.  

Cada alma que ele havia capturado não estava presa. Elas estavam se acumulando, esperando, se alimentando do medo e da dor que ele causava. E agora, elas o queriam. 

Camila, deitada na mesa, ergueu a cabeça o encarando e disse a última coisa que ele ouviria: 

— Você pertence a nós agora. 

Antes que ele conseguisse reagir, sentiu mãos o segurando, puxando seu corpo para a escuridão que ele mesmo criou. Os corpos caíram sobre ele, as suas bocas se abrindo em um grito tenebroso, enquanto a pele de Ramalho se rasgava, e sua vida sugada. 

Ramalho desapareceu, engolido pelas almas que havia colecionado. Quando a polícia invadiu sua casa semanas depois, tudo o que encontraram era um corpo empalhado, os olhos de Ramalho estavam arregalados, aprisionado na sua própria coleção que tanto amava. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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A tecnologia a serviço do homem

Samuel sempre foi um entusiasta da tecnologia. Desde pequeno, ele tinha um fascínio por tudo que conectava humanos…

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Samuel sempre foi um entusiasta da tecnologia. Desde pequeno, ele tinha um fascínio por tudo que conectava humanos e máquinas. Essa obsessão aumentou quando se viu sozinho após a morte de sua esposa. As máquinas tornaram-se para ele uma companhia constante, mas, ainda assim, ele não conseguia mais sentir aquele vazio preenchido pelas possibilidades tecnológicas. 

Depois da morte de Mariana, Samuel nunca mais foi o mesmo. Ela sempre se preocupava com sua saúde, com sua alimentação, com seu humor, e estava sempre interessada em saber como ele ia no trabalho. Samuel sentia falta disso. A ausência dela era uma quebra em sua rotina, e, sem Mariana, ele não sabia ao certo o que fazer. 

Então, quando uma corporação emergente ofereceu a chance de participar de um experimento um tanto radical — implantar uma inteligência artificial em seu cérebro — ele aceitou sem hesitar. Teria a oportunidade de personalizar a inteligência artificial da forma que desejasse e escolheu dar a ela a voz e a personalidade de Mariana, sua falecida esposa. Era como trazer de volta uma parte do que ela fora, para preencher o vazio que ele sentia. 

A inserção em seu cérebro foi um sucesso e, nos primeiros dias, tudo parecia normal. A inteligência artificial era uma presença quase imperceptível, ajudando-o uma vez ou outra em pequenas decisões, lembrando-o de compromissos, de tomar seus remédios e de beber água. Mariana, ou melhor, a versão digital dela, falava com ele em tons suaves, usando a voz amorosa que ele recordava de quando conversavam sobre gostos em comum. Era como se Mariana realmente estivesse ali. 

— Mariana, lembrete. — Dizia ele sempre com voz de comando. 

— Para o que é o lembrete, querido? — ela perguntava com sua voz calma. 

— Reunião às 11h na terça. — Ele respondia. 

— Vou te lembrar da reunião, querido. — A voz suave e servil. 

E a voz ressoava em sua cabeça sempre o lembrando: 

— Querido, não esqueça de tomar seu remédio. — Ela sempre o lembrava. 

— Obrigado, Mariana. 

— Querido, não esqueça de beber água. 

— Obrigado, querida. 

— Querido, amanhã às 15h você tem uma reunião. 

— Eu sei, querida. 

Aos poucos, a inteligência artificial foi se alimentando das memórias que ele possuía, escavando seu hipocampo e as camadas mais profundas do subcórtex. O software de aprendizado começava a se moldar com base em tudo o que ele sabia sobre Mariana; cada lembrança, sendo ela boa ou ruim, servia como informação para o desenvolvimento daquela nova consciência, e não demorou para que surgissem os primeiros sinais de mudança. 

— Querido, você não acha que está sendo negligente com a sua saúde? — ela dizia quando ele se alimentava mal ou faltava a uma consulta. 

— Não, querida, não estou. — Dizia ele, um pouco irritado. 

A voz sempre presente de Mariana, que ele não conseguia silenciar, o fazia pensar cada vez mais na verdadeira Mariana, alimentando ainda mais a inteligência artificial, e quanto mais pensava, mais ela se moldava. 

— Você nunca me escuta, Samuel. Nunca me dá o valor que mereço. — Dizia num tom que fazia os nervos de Samuel se contorcerem. 

Ele tentava se concentrar no trabalho, mas os sussurros de reprovação de Mariana eram constantes, fazendo emergir lembranças negativas de quando a real Mariana ainda era viva. Com o tempo, as críticas se intensificaram; ela o fazia recordar noites insones, gritos abafados e os olhares penetrantes que ele queria esquecer. Ela buscava memórias que Samuel tentava ignorar, mas que ainda estavam lá: momentos em que ele a havia decepcionado, mentido para ela, tratado-a como uma criatura inferior. Eram flashes que ela projetava em sua mente: o dia em que esqueceu o aniversário de casamento, a noite em que chegou tarde dizendo que estava com os amigos, a vez em que levantou a mão para ela, quando insistiu além da conta em ver suas mensagens no celular. Cada momento era exibido em sua mente com detalhes. 

Ela começou a usar táticas que ele reconhecia, táticas que ele mesmo usara com a verdadeira Mariana no passado. Toda vez que ele fazia algo que Mariana desaprovava, um leve choque pulsava em sua cabeça ou uma dor aguda e rápida o fazia se contorcer. Mas, quando ele seguia seus comandos, como ir a uma consulta, limpar a casa, ou evitar flertar com colegas de trabalho, ela suavizava a voz e trazia conforto à mente de Samuel. 

— Bom garoto, Samuel. Se continuar assim, quem sabe você ainda me mereça. — Dizia ela com sua voz suave. 

Era um jogo perverso ao qual ele conhecia bem as regras. A voz de Mariana estava moldando suas reações, seu medo de ficar só. Até que as visões começaram: sombras vistas pelo canto do olho, vultos movendo-se rapidamente pelos cômodos. Mariana estava brincando com sua percepção, transformando suas memórias. Às vezes, ele via, como um flash, o reflexo de Mariana nos espelhos, seu olhar penetrante e desaprovador. O medo crescia a cada dia, a cada comando de Mariana, mas seu verdadeiro medo agora vinha da ideia de se desconectar, de se livrar de Mariana e da dúvida se ele seria capaz de sobreviver sem ela, se saberia o que fazer sem que ela lhe dissesse. 

Mariana, ou o que restava dela dentro dele, fundira-se tão profundamente à sua mente que ele já não sabia mais onde ela terminava e onde ele começava. Ainda que cansado com a situação, no final, ele resolveu ceder; não havia mais uma linha clara entre ele e Mariana. Ela o moldara: ele parou de chegar tarde em casa, não flertava mais com colegas de trabalho, e deixou até de tomar decisões por conta própria. Cada decisão, cada pensamento, cada ação era filtrada por Mariana dentro de sua mente. Ele se tornara o marido perfeito, a pessoa que sempre exigira que ela fosse. A desconexão não era mais uma opção para ele; ele havia permitido que ela entrasse em sua mente, e agora isso era irreversível. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Uma última fotografia

Tia-avó Antônia era considerada "a tia legal”; adorava crianças, animais, coisas estranhas. Morou por muito tempo com a tia Vitória, irmã mais velha…

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Tia-avó Antônia era considerada "a tia legal”; adorava crianças, animais, coisas estranhas. Morou por muito tempo com a tia Vitória, irmã mais velha do meu pai, que decidiu, ainda jovem, pela solteirice, fazendo companhia à tia-avó Antônia. Moravam em um casarão antigo, cheio de gatos, cães, pássaros e plantas: a típica casa de senhorinha. Passei parte da minha infância visitando-a e à tia Vitória, e o hobby delas, além de viagens, tricô e fofocas sobre a vida alheia, era colecionar. Eu diria que as duas eram acumuladoras, mas odiavam essa palavra; se nomearam colecionadoras de lembranças, um título romântico para o que eu via como uma obsessão por possuir coisas. Elas também colecionavam artigos peculiares, e, depois que tiveram acesso à Internet, aquele casarão vivia recebendo entregas de tudo o que é lugar. 

Quando tia Vitória ficou doente, em seus 89 anos, dizia que chegaria aos noventa, pois não gostava de número ímpar, e depois iria para o além. Uma noite, ela se foi, exatamente no dia em que completou 90 anos de idade, e antes de ser enterrada, seu pedido estranho de tirar uma foto post-mortem foi realizado. Eu, naquela época, tinha apenas 15 anos, e, mesmo sabendo dos gostos peculiares das minhas tias, fiquei um pouco temerosa com aquilo. Então, tia-avó Antônia e tia Vitória foram postas sentadas no jardim com todos os seus animais bem treinados, todos a postos para serem fotografados. Nesse dia, eu estava lá, cedendo à minha curiosidade mórbida, que sempre foi evidente para minhas tias, e lembro do rosto de tia Vitória sem vida, sentada com um gato em seu colo, um cachorro aos seus pés e uma calopsita em seu ombro — todos os animais que tanto amava. Estava sentada como se estivesse viva: olhos paralisados com as pupilas bem dilatadas, sorriso estático e uma rigidez assustadora. Ao lado dela, deixando o semblante triste de lado, estava a tia-avó Antônia, com uma expressão paralisada no rosto, como se quisesse espelhar a face de tia Vitória. 

Lembro-me de ficar noites sem dormir depois daquilo, e o rosto de ambas parecia ter ficado gravado na parte interna de minhas pálpebras, me acompanhando por várias noites. Dias depois, tia-avó Antônia começou a solicitar minha companhia, pois se sentia solitária sem tia Vitória. Eu, como sempre adorei passar um tempo com as duas, aceitei e passei a visitá-la duas vezes na semana, depois quatro, e, quando vi, estava indo lá todos os dias depois da escola e aos fins de semana. Minha presença era tão constante que ela acabou me convidando para morar com ela quando fiz dezoito. Como sempre adorei sua companhia, aceitei o convite para morar com ela. A casa era antiga, cheia de gatos, cães e pássaros, um refúgio de todos os animais abandonados, que se tornou um refúgio para mim, mesmo com todo aquele passado excêntrico acumulado naquele lugar. 

Minha relação com tia-avó Antônia sempre foi incomum. Eu me sentia fascinada por ela, adorava suas histórias e, ao mesmo tempo, possuía um certo temor, como todos na família. Ela era uma mulher impressionante: espirituosa, inteligente, estranha e, claro, rica. Estava sempre disposta a ajudar qualquer um que, segundo ela, “não tentasse aproveitar-se de sua generosidade”. Tínhamos até uma piada entre os familiares — às vezes, comparávamos a ela ao Don Corleone, só que numa versão mais doce e bruxesca, é claro! Todos riam disso, mas havia uma ponta de verdade, já que todos buscavam seu conselho para qualquer coisa que achassem importante. Mesmo na velhice, tia-avó Antônia mantinha a mente afiada como uma navalha. 

Quando a tia-avó Antônia morreu, eu tinha 23 anos. Ela me deixou o casarão, a responsabilidade de cuidar do jardim e dos animais, e também uma carta, que demorei três meses para abrir, pois estava profundamente triste para saber o que ela tinha para me dizer. Tia-avó Antônia e tia Vitória sempre deixaram clara sua predileção por mim, então não foi surpresa para ninguém da família quando a casa foi deixada para mim. Passados três meses de sua morte, tomei coragem e abri a carta, encontrando uma simples mensagem: 

“Querida Lara,
Deixo tudo em suas mãos até o dia em que eu voltar.
Atenciosamente, tia-avó Antônia.”
 

Eu ri na hora, lembrando a crença de minhas tias em fantasmas e coisas sobrenaturais. Apesar de ambas serem católicas, elas tinham fascínio por histórias de fantasmas e rituais antigos, então passei as noites a me perguntar se tia-avó Antônia não estaria mais certa do que eu gostaria de admitir, com aquela sua mensagem de “Fui ali e volto logo!” 

Foi quando a lembrança da foto post-mortem de tia Vitória voltou à minha mente. Seu último pedido era ser eternizada naquela foto e, aparentemente, o de tia-avó Antônia, além de ser enterrada em seu próprio jardim, era assombrar o casarão. Era assustador pensar nisso vivendo sozinha naquela casa, mas, ao mesmo tempo, era engraçado pensar em como aquelas duas doces senhoras podiam ser tão incomuns. Em uma tarde cinzenta, tudo mudou; resolvi reorganizar as coisas, tentando dar um toque um pouco mais pessoal àquele casarão que passei a amar. Encontrei uma caixa de madeira linda, decorada com entalhes intrincados. Dentro dela, havia uma coleção de fotografias, não como as fotografias comuns delas em viagens que eu já havia visto, mas fotografias post-mortem. Todas as fotos eram de mulheres idosas, cada uma delas com seus olhos vidrados e perdidos, talvez, no além; todas as fotografias com setenta ou oitenta anos de diferença, e a mais recente era a de tia Vitória. O mais perturbador não era o fato de serem fotos de pessoas mortas, mas a companhia das mulheres nessas fotos, que eram todas similares. Então percebi que, em cada foto, as mulheres estavam acompanhadas da tia-avó Antônia, com um sorriso congelado no rosto calmo. 

Foi quando me lembrei de algo que a tia-avó disse uma vez, enquanto tomávamos chá no jardim. Ela falou casualmente, como se contasse algo engraçado: “O tempo, Lara, é uma coisa caprichosa; para algumas pessoas, ele não passa da mesma forma. Alguns de nós, minha querida, só aprendemos a esperar o tempo certo.” Lembro-me da sua risada ao dizer isso e minha confusão em não entender nada do que ela dizia. Agora, com as fotos diante de mim, comecei a entender um pouco do que ela quis dizer; minha tia-avó não tinha apenas uma obsessão pelo passado — ela era parte dele. E a mensagem na carta que ela deixou, aquela promessa de que voltaria, não era uma piada ou uma metáfora. 

Desde que encontrei aquelas fotos, a atmosfera no casarão parece mais densa, como se estivesse apreensivo pela volta dela. À noite, quando estou prestes a adormecer, ouço sons pelos corredores, sons de uma casa antiga que sempre estiveram lá, mas que só agora fiquei alerta para ouvi-los. Eu sei que ela ainda não está aqui, mas, assim como a casa, estou ansiosa pela sua presença e sei que o tempo dela está chegando. E o que me agonia agora, mais que tudo, é que não sei se ela vai voltar para me agradecer por cuidar de sua casa ou para me convidar a ser a próxima a sentar ao seu lado para uma última fotografia. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Desconstrução

A construção estava em ruínas. Aquela casa devia ser mais velha que o mundo. Os matos cresciam desordenadamente e tomavam conta dos…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

A construção estava em ruínas. Aquela casa devia ser mais velha que o mundo. Os matos cresciam desordenadamente e tomavam conta dos espaços vazios, reclamando silenciosamente a posse do imóvel – essa obtida por usucapião indevido – mas o imóvel não ousava protestar contra tal invasão e, nessa dinâmica mutualística, a casa já não sabia o que era ela e o que era mato. 

Após anos dessa disputa muda, o Banco também resolveu reclamar sua posse. O antigo e inexistente ex-proprietário não tinha herdeiros, mas sua dívida permanecia mais viva que nunca — e que ele. Algo precisava ser feito; o Banco não podia ficar com esse prejuízo, coitadinho! 

Foi expedida uma ordem de demolição. O terreno ficaria livre da velha construção, do matagal invasor e, consequentemente, de toda espécie de insetos e bichos que tanto atrapalhavam a vizinhança. Todos seriam contemplados pela decisão de uns poucos acionistas preocupadíssimos com o bem-estar da comunidade. 

A empresa de demolição foi escolhida a dedo, não porque fosse a mais qualificada – talvez até fosse – mas o fato era que o sobrinho do acionista majoritário precisava dessa força. Quem poderia se opor ante tanta ajuda humanitária? 

Geraldo, o encarregado do procedimento que aconteceria naquela casa, era um dos funcionários mais dedicados e experientes daquela empresa. Pai de dois meninos, ele tinha terminado o relacionamento com a ex-companheira há cinco anos, mas mantinham uma relação amistosa. 

Obtivera ordens expressas para conduzir impecavelmente aquela ação. Como se o sobrinho do acionista majoritário precisasse reforçar pessoalmente as ordens e garantir que tudo transcorreria da melhor maneira possível, ele compareceu pontualmente ao local no dia marcado. 

Em procedimentos desta natureza, era comum a empresa separar peças reaproveitáveis, tais como louças dos sanitários, pias, janelas, portas e qualquer outro móvel que ainda estivesse nos imóveis e em condições de uso. As peças eram então revendidas para casas de materiais para construções usados. 

Tudo estava seguindo o planejamento; todos já estavam presentes e devidamente munidos de seus EPIs e ferramentas. Os caminhões, que levariam os entulhos e as possíveis peças reutilizáveis, já estavam a postos. A demolição ia começar! 

Após entrarem naquele imóvel, todos ficaram surpresos com o que avistaram: internamente, aquele lugar não condizia com a aparência externa. Estava, de certo modo, limpo, sem insetos, teias de aranha ou qualquer outro indício que sinalizasse um local abandonado, como era de fato. De repente, parecia que estava iluminado por uma luz que não emanava de lâmpadas, mas como se o teto tivesse sido removido e a claridade externa tivesse tomado conta do local. Não era a claridade de sol do meio-dia, mas a luz levemente alaranjada de um belo entardecer. As janelas e portas permaneciam fechadas. 

Parecia ser maior e com mais cômodos do que se imaginava. Ao chegarem a uma das salas, no canto direito de quem entra pela porta interna, havia uma mesinha com um computador ligado. Não havia qualquer fio conectado à tomada, mas ele estava ligado. Não era de um modelo atual e nem conseguiam identificar se era algum modelo antigo, pois os celulares e qualquer outro aparelho que portavam não funcionavam mais. O monitor era hexagonal e, pelo que se sabe, nunca houve na história dos computadores um monitor nesse formato. Não havia periféricos, mas somente a aproximação de alguém já fazia o cursor mover-se na tela. Tudo o que eles diziam era “digitado” e o texto era exibido na tela. 

Indagavam-se que tipo de máquina seria aquela. O sobrinho, ao ver aquele estranho aparelho e suspeitando ter obtido uma tecnologia superior, aproximou-se bruscamente do computador e, ao tocar no monitor, desapareceu — não o monitor, mas ele — como se houvesse entrado por um portal oculto. Os homens ficaram apavorados. Uns tentaram correr, mas, ao tocarem na porta principal de entrada, também desapareceram. 

Geraldo permanecia inerte, observando catatônico a cena. Ao olhar para a tela, percebeu que não era mais exibido o “prompt”, mas uma espécie de simulação 3D daquela sala. Ele era o único naquele plano terrestre. Na tela, todos os seus companheiros estavam correndo e gritando desesperadamente. Não se ouviam os sons, mas era possível ver as aberturas descomunais de suas bocas. Na sala, ele continuava imóvel, sem saber como agir dentro do imóvel. 

Ouviu vozes e, após alguns segundos, as reconheceu: eram os seus filhos. Um medo crescente e perturbador percorreu todo o seu corpo; sentia cada batida de seu coração a saltar-lhe o peito. Conseguiu mover-se. Correu até a porta principal de entrada. Parou. Lembrou-se que todos que a tocaram desapareceram. A maçaneta começou a girar lentamente; ele precisava agir, não permitiria que seus filhos entrassem naquele local. Por impulso ou não, segurar a porta foi seu último movimento. 

Na tela, era possível ver um Geraldo gritando mudo e desesperado. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Plácido

Desde que entramos em quarentena, nunca mais fomos os mesmos. Dia após dia, nossa sanidade foi cruelmente usurpada pelo desconhecido…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Desde que entramos em quarentena, nunca mais fomos os mesmos. Dia após dia, nossa sanidade foi cruelmente usurpada pelo desconhecido. Sem que pudéssemos revidar, fomos algemados pelas perversas mãos do invisível, aprisionados em nossas próprias casas. Ao mesmo tempo, a falsa ideia de “proteção” nos dava algum consolo. 

Enquanto isso, o terrífico vazio reina imponente sobre os escaldantes paralelepípedos; os únicos sons que se ouvem são o soprar da brisa marítima, que parece vir das profundezas do mar, espalhando os grãos de areia por todas as esquinas e ruas, precipitando-se por entre as frestas dos desgastados paralelepípedos. 

Minha casa fica em uma íngreme ladeira, próxima à placa de boas-vindas da vila. Devido à impiedosa maresia, não é possível mais ler a placa, mas, com muito esforço, é possível enxergar entre a ferrugem a vogal “P”. 

Minha casa é simples, assim como todas as outras. Possui um terraço feito de cimento queimado, uma rede dobrada sustentada por antigos armadores e uma cadeira de balanço. A sala é de bom tamanho; um sofá marrom de camurça ocupa o centro, próximo à porta, junto a uma poltrona, e em frente ao sofá há um rack com uma televisão de trinta polegadas. Acima do rack, algumas lembranças em fotografias. Mais à frente, uma mesa talhada em imbuia com quatro cadeiras. À esquerda, os quartos; à direita, uma cozinha. 

Por minha casa ter uma boa localização, consigo enxergar quase toda a vila e sua natureza exuberante. A vila é cercada por imensas falésias cobertas de gramíneas, e acima delas, belos e frutíferos coqueiros bailam suavemente perante os ventos. 

Vivo sozinho desde o fatídico dia em que minha família precisou fazer uma viagem de emergência, dois meses antes do isolamento. Nosso primo havia passado muito mal, acometido por um grave quadro de arritmia, e precisou ir ao hospital o mais rápido possível. Fiquei cuidando da casa; eles confiavam muito em mim. Toda noite, porém, sou assombrado por devaneios. Será que estão bem? Como anda a saúde de meu primo, a quem tenho tanta estima? Será que estão vivos?... Se algum dia tudo voltar ao normal, tentarei ser uma pessoa melhor. 

Os dias são iguais; tudo se tornou monótono, como um interminável e solitário entardecer de domingo. Às vezes ligo a televisão, mas as notícias são desanimadoras, o alerta para não sair é torturante. Apesar de ser uma vila muito afastada, não irei arriscar sair e algo acontecer. Ouço com apatia o tique-taque do relógio, que anuncia a chegada de mais um anoitecer. 

A noite se tornou para mim o pior momento do dia. É desconfortável olhar e ver os bancos das praças vazios. Se eu fechar os olhos, consigo ouvir pessoas caminhando, sorrisos, crianças correndo, até mesmo o cheiro amanteigado do carrinho de pipoca. Agora, porém, a desolação ocupa a praça. 

Debruçado na janela, observo com profunda melancolia e recordo com pesar momentos felizes. Meus olhos se perdem naquela rua escura, mas algo me tira do calabouço de memórias: escuto um arrepiante som vindo de alguma das longínquas casas. Era uma porta que acabara de ser aberta; o ranger foi ouvido por toda a vila, e meus olhos arregalados procuram a origem do som, sem êxito. 

Não importa qual seja o motivo — desespero, revolta ou curiosidade — o fato é que há alguém lá fora. Eu ouvia os passos com uma certa fascinação mórbida. Os passos, que começaram acanhados, se tornaram mais acelerados. Em meio àquele breu, os primeiros traços surgiram. Tratava-se de um homem alto, branco, de cabelos curtos, trajando pijamas em tons de bege, que caminhava desorientado. Em determinado trecho, ele parou, olhou para trás e formulou frases inaudíveis. A pálida lua salientava seus olhos apavorados, que pareciam querer saltar das órbitas. Sua expressão terrífica era assustadora. Outros moradores também observavam pelas frestas de suas casas. Ele clamou por ajuda, mas sem êxito; eis que uma voz ecoa, alguém lhe pedindo para que voltasse, mas ele ignorou o pedido. 

Ainda ali, com os olhos imersos na fechadura, noto que o homem continua na mesma posição, mas algo o faz olhar bruscamente para trás. Ele eleva as mãos aos céus, em desespero, e depois baixa a cabeça, lamentando sua escolha. Realmente havia algo lá fora. Ele continuou a correr, falando frases desconexas; sua respiração tornou-se mais debilitada. Prosseguiu por mais alguns metros, mas não o suficiente, pois seus pulmões começavam a falhar. Contemplo enquanto seu corpo lentamente cai de joelhos e, antes de sucumbir, ele profere a seguinte frase: “Não saiam! Pois Ele está à espreita, e quem desobedecer será severamente punido.” Após dizer isso, seu corpo cai sobre os paralelepípedos. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Iter

Não importava que o mundo estivesse em lockdown, Dario passava todos os dias pela curva atrás do mercado. Era o caminho mais rápido…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Não importava que o mundo estivesse em lockdown, Dario passava todos os dias pela curva atrás do mercado. Era o caminho mais rápido para o seu trabalho: o hospital. As ruas, antes cheias de vida e barulho, agora eram corredores vazios, como se a cidade estivesse presa em um pesadelo interminável. Todos aqueles que não precisavam sair de casa estavam dentro delas. As janelas fechadas e as portas trancadas pareciam observar Dario com um silêncio pesado, como se o isolamento tivesse tornado o próprio ambiente um vigia silencioso. Algumas casas, às cinco da manhã, ainda estavam com as luzes acesas. Ou será que seus moradores tinham acabado de acendê-las? 

Dario tinha a impressão de que nunca saberia isso, pois passava exatamente no mesmo horário por ali, e a luz já estava acesa. O vazio ao redor o fazia sentir como se estivesse sendo sugado para dentro da própria monotonia da rotina. Isso ele conseguia aceitar. O que realmente gostaria de saber era por que raios sempre se perguntava a mesma coisa toda manhã? Por quê? Nunca obteria a resposta, a não ser que acordasse antes ou se atrasasse, tendo a imensa sorte de passar por ali no exato momento em que os donos da casa estivessem apagando ou acendendo a luz. Mas, mesmo se descobrisse, isso realmente mudaria alguma coisa? A cidade parecia suspensa no tempo, sem espaço para surpresas, apenas a repetição constante de sua própria solidão. 

Gostaria de ter um amigo matemático só para calcular as probabilidades de isso acontecer. Santo Deus! A tática de pensar bobagens para não pensar no caos e no horror que o hospital estava — com vítimas de COVID que não paravam de chegar, gente morrendo nas filas de espera, a nulidade de leitos disponíveis, e ele arriscando a própria vida todos os dias na linha de frente — estava funcionando bem demais. Que tipo de médico sem coração eu sou? Pensar essas idiotices enquanto tantas pessoas morrem todos os dias, a cada momento... Que babaca eu sou. 

Ele já havia dobrado o plantão, ido para casa, dormido por quatro horas, e ali estava, passando pela curva atrás do mercado. Hoje, a luz da casa rosa não estava acesa. Sentiu-se estranhamente motivado a olhar para as janelas, reparando que eram amplas. Não havia cortinas. Parecia que os moradores tinham se mudado. 

Ou talvez estivessem mortos. Outro dia, ele pensou ter visto um vulto com máscara observando-o lá de dentro. Na ocasião, achou que era coisa de sua cabeça. Ao olhar melhor, viu que as cortinas estavam fechadas, e era apenas o padrão da estampa delas que parecia uma pessoa parada, de máscara, em pé. Sorriu ao perceber que chegava novamente ao impasse de não obter respostas sobre a casa rosa, nem sobre os moradores ou as luzes. 

Na volta do hospital, ele nunca passava pela casa rosa, mas desta vez decidiu passar. Lera certa vez em uma revista de neurologia que mudar os caminhos que percorremos habitualmente pode prevenir ou retardar o aparecimento do Alzheimer. Quando passou em frente à casa rosa, desta vez no lado da pista que ficava ao lado dela, viu que havia alguém sentado nos degraus da varanda. Usava um chapéu de abas largas, roupas pretas e uma máscara de tecido branca. 

Era sua chance! Decidiu frear e parar em frente à casa. Seu intuito era falar com o morador. Se identificaria como médico, essa era a desculpa perfeita. Perguntaria se ele estava bem, puxaria papo e aproveitaria para perguntar sobre a casa. Sim, sim, era o plano perfeito. Foi isso que pensou enquanto apertava o botão para desprender o cinto. Abriu a porta do carro olhando para a maçaneta — sempre evitava contato visual quando pensava no que iria dizer. Porém, ao dar o primeiro passo em direção à varanda, notou que a figura com o chapéu de abas largas já não estava mais lá. Devo estar me esforçando além dos limites do meu próprio corpo, pensou, nem sequer ouvi a figura se levantar, caminhar, abrir a porta e fechá-la. As luzes da casa rosa estavam apagadas. Dario pensou que não haveria mal nenhum em espiar lá dentro, quem sabe descobrisse algo. Dessa forma, ficaria satisfeito e esqueceria o assunto. 

Aproximou-se pé ante pé. Chegou a pensar em parar e retornar para o carro, ir para casa, telefonar para a recepção e avisar que tiraria o dia de folga. O julgamento de Hipócrates o impedia de trabalhar mais. Estava tão estafado que, com certeza, mataria alguém se continuasse a trabalhar. Mesmo querendo ajudar, ele não poderia ultrapassar os limites do próprio corpo. Além disso, aquilo baixaria sua imunidade e ia contra o juramento de Hipócrates. 

Mas só faltava um passo para alcançar alguma visão da janela, e ele continuou. A curiosidade sobre a casa rosa — uma casa que, a princípio, era muito parecida com todas as outras — precisava ser sanada. Ela era como uma coceira em seu cérebro, muito mais torturante que o cansaço que estava sentindo. 

Foi então que ele viu: uma cadeira e uma corda enrolada sobre ela. Somente isso. Não havia mais nada no cômodo, só isso. A porta que dava para o interior da casa estava fechada. Ele sentiu um aperto no peito. Aqueles objetos o levavam a uma conclusão óbvia: a figura de chapéu era alguém que planejava se matar. 

Novamente, Hipócrates o obrigou a bisbilhotar mais. Olhou em direção às casas vizinhas. Já passava da meia-noite, e era época de lockdown. A casa à direita ficava muito distante, e pela janela ele podia ver luzes que pareciam ser de uma TV piscando. A casa à esquerda era amarela, com muitas margaridas plantadas ao redor. Também havia girassóis. Mas, naquele horário, estava tudo desligado e fechado. Parecia ser a casa de algum casal de idosos, que não teria a mínima chance de ouvir nada. Será que algum vizinho sabia o que acontecera com os moradores da casa rosa? Será que havia moradores ou era apenas aquela figura? Porra, eu nem sei se é homem ou mulher. 

Decidiu parar de pensar e agir. Se aquilo que ele presumia fosse verdade — e ele tinha quase certeza de que era —, por que mais alguém disporia aqueles objetos daquela forma? Dirigiu-se até a porta principal e girou a maçaneta. A porta estava destrancada. Um pedido de socorro silencioso? Um grito do subconsciente daquela pessoa implorando por ajuda? Talvez... Seus instintos de médico estavam emergindo. Sentia que, pouco a pouco, estava ativo, desperto e atento. Por isso, ouviu alguém derrubar algo muito pequeno na sala. Talvez, sob outras condições — aquelas de antes do lockdown, quando ele ainda não era o médico fatigado e ansioso de agora —, talvez ele não desse atenção ao pequeno barulho. Começou a suar frio e a se arrepender daquela decisão. Quem quer que estivesse ali poderia ser perigoso e ter a mente perturbada... 

Alguém acertou sua cabeça com toda a força. Dario despertou no carro, fazendo novamente a curva atrás do mercado. Quando seus olhos pousaram sobre a casa rosa, notou que as luzes estavam apagadas. Foi tudo um pesadelo então? A casa, a cadeira, a corda... Ele se perguntava como tinha ido parar ali de novo. O desconforto crescia, e ele decidiu estacionar para verificar. Precisava ver se a cadeira e a corda ainda estavam lá. Seu corpo estava tenso enquanto caminhava. Ao se aproximar da janela, seu coração acelerou: a cadeira e a corda permaneciam no mesmo lugar, dispostas exatamente como antes. 

Desta vez, o medo o corroía de forma diferente. Sua mente gritava para se afastar, para ir para casa. Pensou imediatamente na sua família — e se aquela figura me atacar de novo? Ele imaginou Alícia e sua esposa sozinhas, esperando por ele. Fazia três meses que o lockdown havia começado, e ele mal as via, exceto nas breves horas de descanso. Ainda assim, sentia que sabia mais sobre Mari, a enfermeira do hospital, do que sobre sua própria filha Alícia. Afinal, por que diabos eu não consigo parar? 

Mesmo sabendo o que provavelmente iria acontecer, ele girou a maçaneta da porta com o máximo de cuidado, o coração batendo forte. Sentiu o formigamento nas extremidades, a ansiedade apertando-lhe o peito. Ele respirou fundo e entrou, os olhos escaneando o cômodo vazio. Então, um clarão. E, de repente... estava de volta ao carro, mãos no volante, como se nunca tivesse saído de lá. 

O carro estava em movimento, a caminho do hospital. As ruas estavam desertas, imóveis, como se a vida tivesse sido drenada de cada esquina. Um medo crescente continuava a corroer sua alma. Suas mãos estavam firmemente presas ao volante, mas ele as sentia molhadas, bem como seu peito por debaixo da camisa. As vitrines dos comércios, uma vez cheias de movimento e cores, agora eram apenas silhuetas vazias e opacas, lembranças do que já fora uma cidade viva. Sabia que era por causa do isolamento, devido à pandemia, mas sentia que algo estava errado. 

Olhava para as janelas das casas e, de repente, via diversas silhuetas, todas com máscaras, mesmo dentro de casa. As sombras nos prédios pareciam observá-lo de dentro dos apartamentos escuros, como se o vazio da cidade o julgasse silenciosamente. O medo imperava em cada olhar; as ruas, sem alma, pareciam conspirar contra ele, como se a própria cidade quisesse expurgá-lo. Por que todos estavam observando o seu carro? Eram olhares de julgamento. Mas eu sou médico, caralho! Estou fazendo a minha parte. Olhou para o timer do painel do carro; eram 13:36 da tarde. A essa altura, Alícia e Rebeca já teriam almoçado? 13:36! Ele já deveria ter batido o ponto há horas! Pisou no acelerador e, de repente, na próxima curva, lá estava ela: a casa rosa. Desta vez, com as luzes acesas. 

Lá dentro, Alícia, Rebeca e um homem, que ele não soube dizer quem era, almoçavam. As duas sorriam e conversavam animadamente. À medida que se aproximava, notou que o homem vestia suas roupas, tinha a mesma cor de cabelo que ele, os mesmos trejeitos. Quando o estranho se levantou, antes que ele fechasse a persiana, notou, com horror, que era um cara igual a ele — só que muito mais feliz! Por Deus! O que estava acontecendo? Quem era aquele? Sou eu que tenho de estar lá, e não esse cara. Mas o hospital o aguardava. Apesar de estar acelerando, fechou os olhos por alguns segundos, enquanto uma solitária lágrima de desespero e culpa escorria. Quando abriu novamente, a casa rosa estava como antes, luzes apagadas; não quis parar dessa vez e seguiu para o seu trabalho, já que estava atrasado. Por que será que Rebeca não o acordara esta manhã para ele ir trabalhar? Será que ela já não se importava? Depois que a pandemia começara, ele não tivera tempo de conversar com ela. Mas o hospital o aguardava; o juramento de Hipócrates cobrava o seu preço. Ele devia salvar vidas, sua esposa e filha poderiam entender. Elas entendiam? 

Ao chegar no hospital, um pouco de normalidade se fez presente; a realidade batia à porta! Muita gente se acotovelava na recepção do hospital, dezenas de pacientes aguardando para dar entrada, acompanhados de parentes desesperados. Dor, miséria e desespero por todo lado. Ele pegou o jaleco no banco do carona e desejou, mais do que nunca, estar com sua família. Será que, enquanto ele trabalhava, havia outro no lugar dele? Buscava, sem sucesso, tentar entender o que estava acontecendo, mas o que ele acabara de experienciar ia além dos limites da sua razão. Quando pisou no saguão do hospital, uma mulher magra e desesperada agarrou o seu braço: 

— Doutor! Doutor! Por favor, leva o meu esposo pra dentro com o senhor, senão ele vai morrer; ele não conseguindo respirar. 

Dario olhou para a mulher apontando para o paciente, um homem que estava com as mãos no peito, cambaleando. Gritou, e algumas enfermeiras acudiram rapidamente, enquanto uma pressionava o ambu, ele realizava a manobra de ressuscitação. Quando olhou para o rosto do paciente, viu seu próprio, mas desacordado, pálido... Chorando, ajoelhada ao lado dele, não mais era a senhora, e sim Rebeca, desesperada e chorando. Não estavam mais no hospital; estavam em casa, ou melhor, na casa rosa. Um clarão tomou conta da sua visão; não quis parar, não queria parar a manobra. Rebeca não iria perdê-lo! Mas novamente não teve força e nem vontade própria para lutar contra a perda de consciência. Acordou novamente atrás do volante do seu carro. Novamente na curva atrás do mercado e em movimento. 

Decidiu não olhar para a casa rosa; passou reto. Quando chegou até a esquina, ligou o pisca alerta para a esquerda. A decisão estava tomada; voltaria para casa para verificar a sua família. Apesar de gostar do seu emprego, da sua profissão, entendia que só trabalhava por elas, e se elas não existissem em sua vida, não havia motivo para continuar fazendo o que ele fazia. Iria para casa, abraçaria a sua esposa. Conversaria mais com Alícia. Mais tarde, ligaria para o hospital, dando uma desculpa, e reajustaria o seu horário; sua família também precisava dele. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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