O Reflexo da Bruxa
Um manto de neve recobria um vilarejo de casebres simplórios, o aspecto da neve transformava as casas de madeira em pequenas silhuetas…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Um manto de neve recobria um vilarejo de casebres simplórios, o aspecto da neve transformava as casas de madeira em pequenas silhuetas fantasmagóricas sob a luz pálida do céu nublado que anunciava uma tempestade. As chaminés, ainda soltavam fios preguiçosos de fumaça, o som das lareiras crepitantes nos interiores, denunciava a existência da vida humana. Uma montanha se erguia imponente ao fundo, parecendo guardar segredos ancestrais, com seu cume envolto em nuvens densas e pela neve. Árvores esqueléticas ladeavam o vilarejo, seus galhos despidos de folhas estendendo-se como mãos ossudas contra o horizonte gelado. Cada passo dado ali afundaria suavemente no gelo, o vento sussurrava histórias esquecidas entre os becos estreitos e desolados.
No limite acinzentado do céu, um alinhamento raro e fascinante tomava forma: os planetas, como joias brilhantes, organizavam-se em uma configuração triangular quase que perfeita. Cada ponto luminoso parecia pulsar com uma energia única, conectando-se ao próximo por linhas imaginárias que formavam um triângulo celestial. O espetáculo transcendia a imensidão do cosmos. O alinhamento triangular era místico, como um símbolo oculto desenhado no firmamento, ecoando a harmonia secreta do universo.
Caminhando sozinha pela neve, ela ergueu os olhos em busca de contemplar aquela visão quase divina. Um arrepio percorreu seu corpo ao deparar-se com a cena, mas, mesmo assim, continuou sua jornada. Cada passo afundava no silêncio gélido, enquanto tentava distinguir o que era real e o que eram projeções de sua mente fatigada.
A longa jornada havia consumido suas forças, deixando-a vulnerável, como uma casca vazia de quem um dia já fora. Atrás dela, ficava uma vida inteira desfeita, fragmentos de memórias que dançavam como fantasmas: euforia, raiva e tristeza se misturavam em um turbilhão que a atormentava sem descanso. Ao inspirar profundamente, sentiu o ar cortante invadir seus pulmões, trazendo uma dor que a fazia se sentir viva, ainda que por um instante. Uma estranha sensação a impelia adiante, guiando seus passos entre as casas desoladas, cujas janelas revelavam visões perturbadoras – sombras imóveis e figuras mórbidas que a observavam, como se zombassem de sua presença ou aguardassem algo mais.
Minerva caminhou a passos lentos até atravessar uma encruzilhada encoberta pela neve, seu vestido estava aos trapos e seus caninos apareciam mostrando sua ansiedade. Os olhos dela buscavam um caminho enquanto ela cobria a cabeça com um lenço de cor púrpura muito escuro. Ao passar por uma árvore robusta, de grandes galhos sem folhas, avistou uma figura sinuosa vestida de negro, segurando um cajado. Aquela pessoa estava ali, recebendo o vento e a neve no rosto, como se já aguardasse sua chegada. Um olhar sombrio e perfurante foi lançado sob a jovem Minerva, olhos frios e brancos como a neve a encaram, mas ela não temeu.
Sem olhar para trás, Minerva continuou seu caminho, passando pelo ser que a observava. Mesmo em silêncio, a mensagem daqueles olhos perfurantes ecoava em sua mente como um sussurro sobrenatural: ela trilhava um caminho que ultrapassava as barreiras do tempo e do espaço, um percurso repleto de riscos. O aviso a envolveu como uma sombra persistente, mas não a deteve. Seus passos permaneciam lentos, e seu olhar voltava-se ao chão, enquanto ela mantinha o rosto parcialmente coberto pelo lenço, tentando escapar do toque cortante do vento.
Adiante, o cenário tornou-se ainda mais desolador. Toda a vegetação estava sepultada sob a neve, transformando o ambiente em um vazio branco e silencioso. Um rio congelado se estendia como uma cicatriz de gelo, guardando uma ponte de madeira antiga e desgastada que estalava com o peso do tempo. Além dela, não havia muito que fosse visível, apenas uma tempestade de neve densa que engolia o horizonte, tornando impossível saber o que a esperava do outro lado. Sem hesitar, Minerva avançou, determinada a atravessar. Cada estalo da ponte parecia um aviso, mas ela ignorava os temores. Com o coração pulsando como o único som vivo naquele mundo, avançou em direção ao desconhecido, encarando a tempestade que era a única forma de descobrir o que aguardava no outro lado, um novo destino ou o próprio fim.
Ao finalmente atravessar a ponte, o gelo ainda cobria tudo, e o céu acinzentado despejava flocos de neve pesados enquanto ela lutava para seguir, seus passos afundando no frio. A alguns metros à frente, a silhueta de um antigo castelo emergiu através da neblina. Exausta, ela imaginou que ali poderia encontrar abrigo e descanso. O castelo erguia-se contra o céu plúmbeo, suas torres recortando a paisagem como lanças de pedra negra. Os muros, envelhecidos pelo tempo, exibiam uma profusão de gárgulas e arcobotantes que se retorciam em formas grotescas. O vento sibilava entre os vitrais góticos, os fragmentos multicoloridos projetavam sombras irreais sobre os corredores vazios que ela percorreria.
Ela aproximou-se das portas colossais, que se abriram sem que precisasse tocá-las, movidas pela força de sua própria magia. Ao adentrar o castelo, o silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo som de seus passos. O ambiente estava escuro e frio, como se há muito tempo estivesse abandonado. Ela suspirou profundamente ao remover o lenço que cobria sua cabeça e ergueu o olhar para observar as hastes das lancetas de metal que adornavam o interior do castelo. Com a mão direita, conjurou uma esfera reluzente que iluminou o local, revelando detalhes ocultos nas sombras.
Nos salões mais profundos, a umidade impregnava o ar com um cheiro de terra antiga e cera derretida. As tapeçarias desgastadas se agarravam às paredes, escadarias em espiral serpenteavam para torres que se perdiam na neblina densa, e passagens secretas escondiam-se entre contrafortes e colunatas, como se a própria arquitetura conspirasse para ocultar mistérios.
Enquanto suas memórias ecoavam em sua mente ao observar o castelo, ela percebeu que havia fugido de um castelo apenas para encontrar refúgio em outro. Explorando os corredores envoltos em penumbra, deparou-se com uma sala oval que chamou sua atenção. Uma longa janela abobadada permitia que um feixe de luz suave iluminasse o ambiente. Estantes repletas de livros antigos e empoeirados alinhavam-se ao longo das paredes curvas enquanto, no centro da sala, uma mesa exibia pergaminhos enrolados.
Ela perambulava pela sala, os olhos analisando a disposição dos móveis e se detendo nos títulos dos livros alinhados nas estantes. Os títulos chamavam a sua atenção, Os Manuscritos Enóquicos e Os Três Livros da Filosofia Oculta estavam entre eles. Para enxergar melhor, conjurou uma esfera de luz branca que flutuou acima de sua cabeça, banhando o ambiente com um brilho frio e pálido.
Folheando outros livros da estante, ela encontrou um bestiário sem nome na capa e entre páginas amareladas, deparou-se com criaturas que nunca havia visto antes, seres distintos, oriundos de dimensões além da compreensão. Ao parar numa página em particular, um nome saltou aos seus olhos: Ttyphrssett. A descrição era de uma criatura inominável, com pele pálida e elástica, marcada por rugas profundas e atravessada por um emaranhado de veias pulsantes em tons de roxo intenso. Os olhos, desprovidos de íris e retina, eram abismos opacos, poços de vazio absoluto. Da protuberância que formava sua boca, despontavam dentes afiados como lâminas agudas, enquanto seu corpo, esguio e esquelético, sustentava uma cabeça longa e curvada, grotesca em sua forma.
Ela ficou imóvel por longos segundos, os olhos fixos na ilustração ao lado da descrição. Havia algo perturbadoramente fascinante naquele ser, mas o que mais prendeu a atenção de Minerva foi uma nota que leu abaixo da imagem. De acordo com o bestiário, aquela criatura manifestava-se apenas durante um raro alinhamento de quatro planetas: Vênus, Marte, Júpiter e Saturno.
Esse evento cósmico liberava uma energia ancestral, tão poderosa que era capaz de rasgar o tecido do cosmo, abrindo uma fenda para dimensões esquecidas. Dessa brecha insondável, banhada em sombras e ecos de magias primordiais, emergia o Ttyphrssett uma entidade que surgia dos reflexos, seu toque poderia devorar lentamente a alma de todos que tivessem a desventura de cruzar seu caminho.
Ao ler essas palavras, a memória do estranho fenômeno que havia presenciado no céu, lhe veio à mente como um presságio. Fechando o livro, devolveu-o à estante, como se pudesse, com esse gesto, trancar o conteúdo que lá estava. Decidida a afastar as imagens que invadiam sua mente, Minerva saiu da biblioteca. A pequena esfera de luz flutuante continuava a iluminá-la, projetando sombras alongadas pelas paredes do castelo enquanto ela caminhava. A escuridão ao redor parecia cada vez mais densa.
Ela subiu uma escada em espiral, por longos minutos, até se deparar com um corredor que se estendia como um túnel infindável, ladeado por portas altas e angulosas, todas idênticas em uma geometria opressiva. O silêncio ali não era natural e parecia carregado por um peso invisível, como se algo esquecido observasse das sombras. Minerva caminhava hesitante, sentindo a atmosfera ao seu redor, até que seus olhos pousaram em uma porta distinta das demais. Gravado em sua superfície desgastada, o símbolo do ouroboros que reluzia fracamente, aquilo evocou memórias fragmentadas do conhecimento de sua vida passada.
Com um gesto sutil, ela murmurou um encantamento e a fechadura cedeu sem resistência, como se a madeira e o ferro tivessem esperado por seu comando. A porta se abriu com um ranger estridente, e o espaço adentro revelou-se um quarto abandonado ao tempo. O ar ali dentro era denso, impregnado pelo cheiro de poeira. No centro do aposento, uma cama solitária jazia sob um manto de poeira. Sem se importar com a sujeira, Minerva se deitou sobre os lençóis ásperos e embolorados, e enquanto sua consciência esvaía-se no torpor do sono, sentiu, ou imaginou sentir, um murmúrio longínquo vibrando sob a estrutura do quarto.
Quando despertou, algumas horas depois, o silêncio era estático. Ainda deitada, seus olhos vagaram pelo aposento até pousarem sob um objeto à sua frente. Encostado contra a parede, diretamente oposto à cama, um grande espelho retangular erguia-se como um monólito. Suas bordas de prata, manchadas pelo tempo, contrastavam com o véu negro que ocultava o vidro concavo do reflexo. Minerva ergueu-se lentamente, seus passos ecoaram surdos no chão empoeirado enquanto se aproximava do espelho. Um frio espectral percorreu sua pele quando sua mão se estendeu para tocar o tecido denso e opaco.
Seus olhos tremeluziram quando, em um movimento rápido, ela removeu o tecido que cobria o espelho. Por alguns instantes, encarou o próprio reflexo como se o visse pela primeira vez. A superfície do espelho, embaçada pelo tempo, distorcia levemente sua imagem, mas ainda era possível discerni-la. A esfera luminosa se aproximou novamente, projetando uma penumbra entre ela e o vidro. Seu cabelo negro, desgrenhado e esvoaçante, estava preso apenas por duas mechas reunidas com um broche na parte de trás. A calça de linho escura mostrava sinais de desgaste, e as botas finas e rendadas já acumulavam sujeira e umidade da neve. O longo casaco Garrick Coat preto e acinturado, abarrotado e coberto por marcas de uso, exibia manchas acinzentadas. Ela fitou sua própria imagem e, por um instante, tudo o que viu foi a figura de um pedinte.
Após alguns instantes contemplando a própria visão, seu reflexo começou a tremeluzir em fios de luz roxa, distorcendo-se em ondas etéreas. Seus olhos, antes familiares, tornaram-se violetas, vibrando com uma luminescência antinatural. De súbito, ela deu um passo para trás, o coração disparado sem compreender o que estava acontecendo. O seu próprio reflexo tinha ganhado vida!
Então, a figura no espelho vociferou um zunido lancinante, alto como o lamento de uma banshee, rasgou o ar, obrigando-a a cobrir os ouvidos e se encurvar sob a dor. Sua imagem continuou a se contorcer, desfeita em sombras púrpuras e pulsantes, até dar lugar a algo grotesco.
Diante dela, uma figura corpulenta e esquelética emergia em distorção, seu crânio alongado desafiando qualquer lógica geométrica. Mandíbulas se abriam além dos limites normais, expondo fileiras de dentes finíssimos, como agulhas de marfim manchado, que reluziam à luz de uma fonte invisível. No lugar dos olhos, apenas poços esbranquiçados e vazios, devorando a realidade.
Os membros do ser, longos e desproporcionais, terminavam em garras multifacetadas que se dobravam e desdobravam com movimentos imprevisíveis, como se seguissem um ritmo ditado por forças além da compreensão humana. Aquilo começou a se posicionar para fora do espelho e seu deslocamento não era uma caminhada, tampouco um rastejar, mas um fluir espectral, um deslizamento silencioso negando as leis da gravidade. Minerva tentou fugir daquela visão anormal a passos rápidos em direção a porta do quarto, mas a criatura a perseguia. Ela estava desprovida de armas, tinha apenas a sua magia consigo e era com ela que contava.
Minerva corria a passos longos pelo corredor enquanto ouvia o remexer corpulento e estranho daquela criatura pelo ar, ela não estava apavorada em si, mas não queria precisar usar sua magia final como último recurso, por isso, tentou fugir da criatura para lutar contra ela à distância e, talvez, queimá-la com suas chamas ou eletrocutá-la com seus raios. As cenas de como abater aquilo passavam por sua mente enquanto ela buscava a saída do castelo. A criatura avançou rapidamente, movendo-se junto às paredes e saltando pelo corredor escuro. À frente estava um vitral e Minerva mirou os vidros desenhados com a pintura de um demônio alado cavalgando um corcel; ela iria jogar a criatura contra o vitral ou a si mesma.
Sua mente trabalhava febril, traçando possibilidades, pesando: fogo? Raios? Qual magia poderia desfazer aquela aberração que parecia tecida pela própria Hela?
A coisa se aproximava. O zunido de sua presença se confundia com os ventos uivantes que atravessavam os corredores do castelo. E então, com um estalo súbito, ela saltou, as garras se estendendo para capturá-la. Minerva girou sobre os calcanhares e lançou um raio crepitante de suas mãos, a centelha azul iluminando por um instante a abominação que avançava. O feixe a atingiu em cheio, mas a criatura apenas vacilou, a pele translúcida pulsando em padrões doentios, como se sua própria carne se contorcesse para se recompor.
O impacto do ataque empurrou Minerva alguns passos para trás, até que suas costas tocaram uma parede fria. Não havia mais para onde correr. À sua direita, uma janela alta se erguia, seus vitrais manchados por marcas acinzentadas. A criatura rugiu, e o som que emanou de sua garganta era vibrante e gutural.
Minerva não hesitou. Com um gesto rápido, ergueu as mãos e projetou uma explosão de chamas contra o chão. Então, antes que ele pudesse reagir, ela lançou-se contra a vidraça. O vidro explodiu ao seu redor, cada fragmento refletindo as chamas como facas suspensas sob o ar. E a criatura, movida pelo próprio ímpeto, seguiu-a na queda.
O frio atingiu Minerva antes mesmo de tocar o chão. O impacto foi violento, os flocos de neve cederam sob seu corpo, mas não o suficiente para amortecer sua queda. O mundo girou por um instante, levando com ele o céu escuro, as torres do castelo, a criatura retorcendo-se na queda. A bruxa cerrou os dentes, sentindo o gosto metálico do sangue. A luta ainda não havia terminado.
Ela abriu os olhos e as suas escleras pulsavam em vermelho vivo, ressaltando o azul brilhante, cor de safiras, aquele fenômeno indicava a sua irritação. Ela ergueu-se aos poucos da neve, estava coberta pelos flocos. Ao ficar de pé, olhou para o céu e viu os planetas ainda em perfeito alinhamento triangular, então, teve a certeza de que estava em confronto com o Ttyphrssett.
O silêncio se fez presente, mostrando que algo estava errado, onde estava ele? O ataque veio sem aviso. Algo cortou o ar ao seu lado, rápido como a lâmina de uma guilhotina, e ela mal teve tempo de esquivar-se antes que garras invisíveis rasgassem seu ombro. O vento trouxe um roçar fantasmagórico. O inimigo era o próprio véu de gelo que a cercava, ele se camuflara com a neve.
A criatura atacou novamente. Desta vez, ela estava à espera do golpe. Com um giro preciso, ela usou sua magia fazendo surgir de suas mãos as garras de loba que não encontraram resistência, rasgando o invisível. Um grasnar disforme soou, e por um breve instante, luzes arroxeadas brilharam, revelando a silhueta da aberração. Minerva viu seus dentes escancarados que logo se dissiparam invisíveis. Sem hesitar, ela ergueu as mãos já naturais e liberou uma torrente de chamas. O fogo crepitou, dourado e impiedoso, iluminando o vazio onde a coisa se camuflava e mais uma vez o golpe revelou o corpo disforme, contorcendo-se em brasas e luzes púrpuras, a criatura urrou, mas não cedeu.
Minerva ergueu um escudo esférico ao seu redor, protegendo-se do monstro, ela sentia os golpes frenéticos contra o escudo invisível. Ela precisava dar um fim àquilo; seus olhos vermelhos estavam frenéticos e atentos a cada movimento. Concentrada e decidida, ela já sabia o que fazer. Sussurrou palavras, baixinho, enquanto desenhava círculos, linhas e setas ao seu redor. Os sigilos cintilavam no ar enquanto ela pronunciava as palavras cuidadosamente.
Sua voz entrecortada pelo vento gelado que uivava ao seu redor, fez as palavras escaparem de seus lábios roucamente; eram sílabas distorcidas, fragmentos de uma língua oculta. A cada símbolo que traçava no ar, o tecido da realidade tremeluzia, como se uma força invisível hesitasse em ceder às vontades da bruxa.
A criatura sentiu o que ela estava articulando, então, o escudo esférico tremeu sob impactos cada vez mais violentos. A coisa não apenas atacava, mas berrava dissonante, uma reverberação além do espaço tangível. Minerva cerrou os dentes ao se concentrar e a criatura voltou a aparecer no meio da neve, ela quebrou o encanto da camuflagem.
Os sigilos, agora incandescentes como brasas azuladas, começaram a girar em torno de seu corpo. O chão sob os pés da criatura ruiu em um abismo e seres obscuros e monstruosos surgiram, presenças cujos olhos fitavam o Ttyphrssett.
A criatura golpeou, com um frenesi desesperado, o escudo. Fissuras finíssimas serpentearam pela superfície translúcida do escudo, como rachaduras em vidro prestes a se estilhaçar. O monstro sabia que estava sendo banido, que seu domínio sobre este mundo se desfazia como névoa ao sol nascente.
Minerva ergueu os braços, as mãos envoltas em uma luz ofuscante, e gritou a última palavra de suas preces: "Eligos". O ar ao redor explodiu em um clarão sinuoso, um relâmpago de luz e trevas entrelaçadas. A criatura emitiu um grunhido estranho e seu corpo esticou-se, distorceu-se, tornando-se um vórtice esbranquiçado com tons violetas que foi sugado para dentro do abismo onde os espectros sombrios o aguardavam. Por um instante, tudo ficou imóvel quando o abismo se fechou levando a criatura.
Ela deixou escapar um suspiro sôfrego, a neve tornava a cair lentamente, dissolvendo os últimos vestígios da batalha. Minerva permanecia de pé, a respiração entrecortada, os olhos ainda brilhando com o resquício de um poder que se dissipava. O que enfrentara não era apenas uma criatura, era um fragmento de algo muito pior. Algo que, do outro lado do abismo entre os mundos, agora conhecia seu nome.
Batendo a neve dos ombros, ela ergueu o olhar para o céu, onde o alinhamento dos astros lançava um ar espectral sobre a vastidão nevada. Um arrepio percorreu sua espinha; havia algo de inquietante naquela dança cósmica, como se a própria estrutura do universo estremecesse diante de forças sidéreas. Seus olhos vermelhos voltaram ao natural e, mais tranquila, pensou no que mais ela poderia encontrar naquele lugar tão distinto. Então, retomando sua avidez, ela virou-se e caminhou retornando em direção aos portais do castelo, no limiar das dimensões.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Amor do Pai
Ismael viveu toda a sua vida intimamente com o medo, que era seu melhor amigo, amante e confidente. Sentia-se perseguido a todo momento…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Ismael viveu toda a sua vida intimamente com o medo, que era seu melhor amigo, amante e confidente. Sentia-se perseguido a todo momento, e uma voz discreta no fundo de sua mente sempre o lembrava de olhar por cima do ombro ou dormir com a luz acesa no quarto.
Aos vinte e dois anos, atacou um idoso enquanto gritava que o andador dele eram tentáculos. Isso ocorreu à luz do dia, em um mercado famoso da cidade. O resultado foi uma internação compulsória até que a situação se estabilizasse.
Aos trinta anos tornou-se padre, encontrando paz de mente na santa casa, sob o zeloso e amoroso olhar do Pai. Mas, no fundo de sua consciência, ainda ouvia a voz que o lembrava de olhar para trás quando estava sozinho.
Em uma noite de chuva torrencial, no calor escaldante do janeiro campinense, Ismael estava ajoelhado sozinho em frente ao grande crucifixo da nave da igreja. Rezava fervorosamente, pois sabia que o horror da paranoia havia retornado. Solicitava, com angústia, ser guiado a um estado de espírito elevado que o fizesse esquecer a alucinação que tivera há poucos momentos.
A igreja estava sem energia já fazia horas. Ele escutava sons alienígenas e aterrorizantes vindos de um corredor escuro à direita, próximo de onde encontrara o corpo do jovem coroinha. Era um eco agudo que passava por cima de suas orações, não importando o quão alto rezasse.
Cravou as unhas na coxa; a dor trazia paz, silêncio e a bênção da santa casa. Funcionou.
O barulho que invadia sua mente e destruía seus pensamentos cessou. Continuou rezando e se machucando por mais alguns instantes para garantir. Chorou de alegria ao concluir que havia sido bem-sucedido. Encontrou na escuridão a paz e o amor que só o Pai e sua casa poderiam proporcionar. Agora, teria que encarar seu medo para provar a si mesmo que não havia corpo algum.
Entrou na sala mal iluminada pela lua. O corpo não se encontrava entre as mesas e cadeiras. Respirou fundo, aliviado. Sentia-se feliz agora que tinha O guia para conduzir sua mente atormentada.
Virou-se para se retirar aos seus aposentos e cuidar do ferimento na perna, mas se deparou com dois seres que o observavam estáticos.
Ambos eram de um azul estrelado, como se galáxias habitassem seus corpos. Seus crânios eram desproporcionais ao resto do corpo, como bolhas que correspondiam a metade de suas alturas totais. Os corpos humanoides eram pequenos e de aparência gelatinosa.
A garganta de Ismael fechou, e ele não conseguia respirar. Tremia e gritava, em silêncio, que estava alucinando.
Ergueu os olhos em direção ao horizonte, ignorando os pequenos seres, da forma como havia treinado a vida toda. Deu dois passos à frente e sentiu algo gelado pegar suavemente sua mão, de forma quase carinhosa. Outro ser envolveu sua coxa na região da ferida que ele havia feito há pouco.
Agora, produziam um som que parecia uma canção da igreja. Sentia o corpo frio e a visão escurecendo rapidamente. O pequeno ser que havia envolvido sua perna com o braço ficava cada vez mais vermelho, transformando-se lentamente em uma galáxia carmesim.
Ele acordou algumas horas depois, cercado pelos irmãos e irmãs da igreja. Conseguia ouvir os pensamentos de todos em sua cabeça. Moviam-se e cantavam alegremente, procurando mais pessoas para trazer à comunidade.
Agora ele ouvia ao Pai, ouvia a todos e todo ouviam ele.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Pergaminhos do caos sangrento
Na penumbra úmida do Castelo Drácula, Arale Fayax, a felina xamã viajante e hospedeira do alcácer noturno, debruçou-se sobre um diário poeirento, oculto…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Na penumbra úmida do Castelo Drácula, Arale Fayax, a felina xamã viajante e hospedeira do alcácer noturno, debruçou-se sobre um diário poeirento, oculto no subsolo de uma livraria decrépita.
As páginas sussurravam segredos selados, e ao folheá-las, sentiu um torpor gelado.
De súbito, o papel dissolveu-se em névoa, e ela foi tragada por um vórtice de palavras e símbolos arcanos.
Ao emergir, viu-se diante de uma ponte tecida de arco-íris manchado de rubi. O solo fremia, e trovões retumbavam em um firmamento tingido de azul-acinzentado. Adiante, numa sala selada, repousava uma ânfora de cristal, onde um líquido rosa e espesso pulsava, reminiscente do sangue corrompido de sua linhagem ancestral.
No exílio de eras, um presságio bradava:
A xamã eleita, em rosa consumida,
Foi pela treva impura convertida,
No sangue selado, em sombra escrava.
Os ancestrais de Arale buscavam pela criatura nefasta que possuíra sua oráculo predestinada, subvertendo-lhe a alma pura. Seu sangue, antes sagrado, tornara-se néctar maldito, e nele a entidade foi selada. Agora, ali diante da ânfora, Arale sentiu um murmúrio vibrar no éter.
As sombras se contorceram, e um espelho velado se ergueu ao fundo. O manto negro que o cobria deslizou por conta própria, revelando o horror do Ttyphrssett. A criatura exsudava a essência pútrida dos famintos, sua pele lacerada por incontáveis dentes que lhe rasgavam a boca por dentro. O fenômeno Nemonium se fazia presente—o tempo quebrava-se, realidades se chocavam.
Com seu machado e lâminas em punho, Arale avançou.
Sua máquina de escrever, ela a cravou no solo enquanto ela pulsava pergaminhos de sangue e registrava a criatura em seu bestiário cósmico e de ossos...
O monstro, ágil como um trovão em queda, deslizou pelo salão, buscando envolvê-la em seus longos membros. Suas veias púrpuras pulsavam com fome ancestral.
Em riste, Arale investiu.
A lâmina rasgou a carne do ser, mas a dor era combustível para sua fúria. Num assalto cruel, Ttyphrssett enlaçou-a, puxando-a para a superfície gélida do espelho. Arale sentiu sua carne arder, a barreira entre mundos prestes a consumi-la. Mas com um último fôlego, cravou sua adaga rubra no coração pútrido da besta.
Os rugidos da criatura eram a sinfonia da ruína. Seus membros se contorceram, estilhaçando o vidro do espelho em um turbilhão de trevas e ecos de gritos esquecidos. A ânfora ressoou, vibrando como se as próprias trevas tentassem eclodir.
De aço e chamas, dançou com a fera,
Cortando sombras, desafiando a espera,
O fim sangrento, escrito e previsto.
A lâmina rasgou a carne do ser, mas a dor era combustível para sua fúria.
Num assalto cruel, Ttyphrssett enlaçou-a, puxando-a para a superfície gélida do espelho.
Arale sentiu sua carne arder, a barreira entre mundos prestes a consumi-la. Mas com um último fôlego, cravou seu machado com sua lâmina rubra no coração pútrido da besta.
O espelho explodiu em fragmentos de sombras e ecos de gritos.
A ânfora ressoou, vibrando como se as próprias trevas tentassem eclodir.
Arale sabia que o lacre se enfraquecia, o ar estava pútrido e pesado, enguias, águas vivas de sangue e bolhas de veneno e dor e escuridão pulsavam com relâmpagos de sangue pulsantes...
Um tremor abissal eclodia, a terra gritava,
o ar sufocava, o céu derretia...
Fora do castelo, uma cidade impossível erguia-se.
Figuras pálidas caminhavam entre cabras de olhos sombrios.
O canto dos Doutrinadores ecoava de uma catedral sepulcral, oferecendo-lhe absolvição.
Mas Arale não buscava salvação....
Ela buscava a verdade.
Adiante, a Ponte Sem Fim surgia em meio à tempestade.
Se a cruzasse, enfrentaria seus maiores arrependimentos.
Mas era um preço que estava disposta a pagar.
Sob o céu fendido pelo Nemonium,
Arale seguiu,
sabedora de que o véu entre realidades
jamais se fechava para aqueles que ousavam conhecer seus segredos.
Na fenda do tempo, onde a sombra jaz,
O sangue selado em ânfora persiste,
O horror renasce, o ciclo insiste,
E só a lâmina audaz a ruína traz.
Na ponte insana, o vento entoa um pranto,
Lamento frio de almas esquecidas,
São vozes tristes, dores divididas,
Segredos mortos que retornam tanto.
Avança Arale, o olhar de ferro e encanto,
A sombra ao pé, as chagas não dormidas,
No peito, as mágoas são feridas
Que sangram a cada suspiro e canto.
Mas eis que surge um vulto espectral,
Da fenda antiga, um rosto conhecido,
Olhos vazios, do pranto infernal.
A xamã caída, outrora luz, perdida,
Ergue a mão em chamado desleal,
A ânfora pulsa, sedenta, esquecida...
Em tom soturno, o vento traz um nome,
Sussurra em brisa o fado e a perdição,
Arale treme, entre dor e visão,
Pois sente a ânfora chamá-la ao seu tome.
O líquido rosa escorre em puro dome,
Goteja lento, em mágica atração,
O tempo sangra, em cruel perdição,
A felina xamã sorri, selando a fome.
Recolhe do solo sua máquina de escrever de ossos
Mágica o tomo, o machado pulsa o elixir,
Mas se beber, cairá na ruína,
Se recusar, a ponte ruirá,
Ao coexistir, mortos cantarão sua sina.
Eis o dilema, entre luz e os pesares,
Os horrores, as cores, de um obscuro passado que alumia,
Nas sombras do éter, ela há de permanecer,
Criogenia dos pergaminhos do caos sangrento...
Há de eximir tal perigrinação?
Um coração que brada sepulcral,
A neve dança em véu de funeral,
Turva o olhar em névoa carmesim,
Na noite gélida, cântico abismal,
Ergue-se ao vento, soturno e sem fim.
Trepida o solo sob o passo vil,
A sombra ri em eco abissal,
Lâminas brilham em duelo febril,
A ruína espreita em jugo infernal.
Sangue na neve, um rubro espectral,
A xamã clama, a fúria a devora,
No abraço da morte, laço mortal.
Por entre as fendas, o tempo implora,
Arale ruge, em queda final,
O gelo a cobre, a treva a chora.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Infindável
Certa noite, enquanto as notas cítricas de um vinho chileno me aqueciam, recebi um e-mail de um velho amigo. Após lê-lo, fiquei feliz e respondi que…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Certa noite, enquanto as notas cítricas de um vinho chileno me aqueciam, recebi um e-mail de um velho amigo. Após lê-lo, fiquei feliz e respondi que iria imediatamente. Havia uns bons anos que não o via. Guardei o vinho na geladeira, troquei de roupa e, depois de dirigir alguns quilômetros, avistei sua casa.
Ele morava no alto de uma belíssima falésia. Sua casa era uma construção no estilo A-frame, toda de carvalho, com duas janelas altas. Estacionei o carro e, por alguns minutos, contemplei a vista, que eu quase havia esquecido o quanto era encantadora.
Permiti que meu olhar se perdesse naquela paisagem, que mais parecia uma pintura. Acima de mim, o céu, onde as poucas nuvens se moviam com certa rapidez. As estrelas ostentavam um brilho assustador. A lua estava minguante (fase que acho mais encantadora). À minha frente, a imensidão do mar e seu pacífico quebrar de ondas.
"Preciso entrar!"
Antes que eu pudesse concluir meu pensamento, minha atenção se voltou para a porta. Ouvi o trinco mover-se vagarosamente, assim como o ranger dos ferrolhos enferrujados. Então, ele surgiu no canto (um pouco abatido, é bem verdade). Trajava um conjunto de moletom preto e chinelos, mas continuava o mesmo. A barba grisalha escondia parte das rugas. Com um sorriso tímido, gesticulou para que eu entrasse. Eu estava feliz por vê-lo.
— Venha, entre, caro amigo.
Sua voz rouca, acompanhada de um pigarro, reverberou naquele lugar.
Ao entrar, olhei em volta e percebi que nada mudara. Era uma casa de tamanho considerável, dividida entre cozinha, sala e uma suíte. Ao lado da porta, ficava uma mesa redonda preta, com duas cadeiras. Na sala, o velho sofá de couro marrom. À sua frente, uma bela lareira e, acima dela, uma cornija esculpida em mármore, exibindo fotografias e algumas conquistas pessoais. Mais à frente, encontrava-se uma janela grande, por meio da qual era possível enquadrar a lua com toda sua graça sob o firmamento estrelado. Abaixo dela, uma confortável poltrona de couro marrom, que resistiu bravamente ao tempo. Notei também uma garrafa de whisky sobre uma mesa de canto, acompanhada de dois copos.
— Fique à vontade.
Apontou para o sofá e, em seguida, dirigiu-se à poltrona.
— Veja, Tomé, a noite está nos proporcionando um verdadeiro espetáculo. Tenho algo para você.
Ele abriu a garrafa, exalando notas de caramelo, maçã, laranja e baunilha. Após isso, encheu os copos até a metade. Em seguida, brindamos. Confesso que fazia tempo que não bebia whisky; logo senti o ardor em minha garganta, acompanhado de notas amadeiradas.
Sorriu e disse que era um whisky escocês muito raro. Em seguida, perguntou se eu queria ouvir uma música. Foi até o quarto e trouxe uma vitrola, que deixou próxima à lareira. Escolheu um vinil do qual tinha boas lembranças: tratava-se de uma coletânea de Robert Johnson. O som da agulha deslizando no vinil era quase fantasmagórico. Em seguida, vieram as notas agourentas de sua guitarra, acompanhadas de sua inconfundível voz.
— Ah, Tomé, como é bom revê-lo. Sabe, não tenho tido muitas visitas, e ver um rosto familiar sempre é animador.
A melancolia estava presente em cada palavra.
— Eu que peço desculpas por não ter mais aparecido, João. Minha vida está bastante confusa. Me separei, não estou conseguindo produzir como antigamente. Tudo que escrevo soa medíocre. Mas trabalho com revisão de textos e escrevo para uma coluna no jornal. E você, como está?
Ele sorveu a bebida por completo e, enquanto acrescentava mais, disse:
— Não tenho do que reclamar. Tive uma vida dura, mas incrível. O mar me fez conhecer lugares que jamais imaginei conhecer. Colecionei muitas histórias...
Passou as mãos na testa e nos poucos cabelos que lhe restam. Então, continuou:
— Porém, eu tenho vivido de lembranças. As aventuras que tive no mar são o que me mantém vivo. Velejei minha vida inteira, hoje em dia estou aposentado. Quanto ao dinheiro, tenho uma boa quantia no banco, devido aos longos anos de trabalho no mar.
— É verdade, João, você era um exímio capitão. Conhece o mar como ninguém, enfrentou a terrível imensidão inúmeras vezes. Sem dúvidas, vivenciou situações deveras difíceis. Brindamos a isso. Viva!
Em seguida, conversamos por mais algumas horas. A garrafa já passara da metade. Ele encheu mais uma vez os copos e, inebriado, disse:
— Tomé, de todas as histórias que você ouviu, existe uma que me assombra. Durante todos esses anos, guardei-a a sete chaves.
Sua fisionomia adquiriu tons graves; seus olhos inertes brilhavam sob aquele turgido luar. Ele continuou:
— Sabes que o mar, em sua grandiosidade, esconde segredos inimagináveis. Não tenho explicação para o que me ocorreu naquela horrenda noite.
Ele respirou fundo, bebeu mais um pouco e, ao som de "Hellhound on My Trail", iniciou sua narrativa.
O céu exibia um lindo entardecer, onde tons alaranjados se misturavam ao azul escuro. No horizonte, o sol, em sua beleza arrebatadora, brilhava. Notei também pinceladas de rosa e roxo. Uma obra-prima!
As condições eram perfeitas. Era verão, 15 de janeiro de 1998. Decidi comemorar minha aposentadoria com um passeio. Verifiquei todo o casco, chequei também a proa, assim como a popa. Convés e porão foram inspecionados, assim como as velas e cabos. Por último, o leme e a âncora. Era uma embarcação de porte médio. Meu anemômetro estava com defeito, porém, ao longo dos anos, aprendi a calcular o vento com base em observações e anotações.
Ergui as velas ao ar, pedi licença aos mares e iniciei meu passeio. Aparentemente, estava tudo tranquilo. A noite chegou rápida, usurpando a luz do dia e trazendo uma brisa fresca. Liguei o refletor e segui.
Te digo: não importa o quão experiente você seja, o vazio marítimo te causa calafrios. Mesmo com o luar e as estrelas, o breu se torna quase tangível.
Desliguei um pouco o motor e segui, até que, em determinado trecho, notei uma brusca mudança nos ventos. Se não me engano, eles estavam a trinta e quatro nós, fazendo as ondas se agitarem...
A uma certa distância, sob a luz do refletor, enxerguei algo semelhante a uma ponte. Definir seu começo e seu final era uma tarefa impossível. Parecia infindável.
Meus olhos arregalados não podiam acreditar naquela visão medonha. Você pode conhecer os mares como a palma de sua mão, mas nada te prepara para o desconhecido. Ela parecia flutuar sobre as águas. Era possível ver o topo das colunas que a sustentavam e, imaginar sua dimensão, causou-me verdadeiro terror. Tentei manter a embarcação trimada, mas as águas estavam revoltas.
É em situações como esta que percebemos o quão frágeis somos. Aquele monumento colossal era um lembrete de que não passamos de poeira cósmica habitando um planeta minúsculo.
Enquanto me perdia em meus devaneios, vi que estava mais próximo. Trovões intensos revelaram mais detalhes. Notei a presença de inúmeros postes, todos enferrujados. A estrutura estava coberta por uma viscosa camada de musgo ao longo de sua lateral.
Olhei para o céu, e o clarão dos relâmpagos rabiscava formas monstruosas sob as nuvens. Estava aterrorizado. Existia uma força cósmica naquele trecho, a qual nem ouso imaginar.
Por sorte, a distância em que me encontrava permitia voltar, mas seria um trabalho árduo. Mesmo com a curiosidade corroendo minhas entranhas para descobrir o que aquela construção nefasta escondia, permanecer ali seria assinar meu atestado de óbito.
Liguei o motor e girei o leme até o limite. Porém, senti a embarcação sofrer uma desestabilização, deixando-a à deriva. Algo me impedia de ir embora.
Após quase naufragar, consegui, aos poucos, retomar o controle da embarcação. Enquanto minhas trêmulas mãos seguravam o leme com afinco, de costas para a ponte, praguejei-a.
Tentei ignorar, mas não consegui. Mesmo temeroso, olhei por cima dos ombros pela última vez. Então, ouvi nitidamente os ventos soprarem meu nome, como se fossem um funesto coral formado por inúmeras vozes vindas do abismo. Elas ocuparam toda a vastidão do mar.
Implorei ao universo forças para sair dali.
Após longas horas, consegui fugir. Já não via mais a construção.
Gritei até não poder mais. Até que enxerguei a beira da praia. Parecia até uma miragem.
Joguei a âncora e desembarquei. Cheguei em terra firme. O dia começava a surgir timidamente. Foi maravilhoso ver luz.
Ele terminou aquele relato medonho com um olhar vazio e assustador. Eu estava apavorado. Sem dúvidas, foi uma experiência impressionante. Perguntei se estava bem. Ele disse que sim. Contar sua vivência foi libertador, pois ninguém sabia o que ele havia passado.
Permanecemos em silêncio enquanto "Crossroad Blues" preenchia o vazio.
— João... — Minha voz quase não saiu — Meu caro, eu sinto muito pelo que você passou. Mas saiba que estou aqui. Sabes que sempre podes contar comigo. E não se preocupe, levarei seu relato até o dia da minha morte.
Ele agradeceu minha companhia por ter ouvido seu relato.
Ao se despedir, disse:
— Lembre-se: "Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia."
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Vale verdejante
Aquele inverno estava rigoroso. O ar gélido açoitava, sem escrúpulos, a face dos transeuntes e endurecia os seus corações, já embrutecidos…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Aquele inverno estava rigoroso. O ar gélido açoitava, sem escrúpulos, a face dos transeuntes e endurecia os seus corações, já embrutecidos, pelas dificuldades de uma rotina enclausurante. As vegetações quase jaziam, sem viço, e exibiam uma fina camada esbranquiçada, causada pelas constantes nevascas, nada comuns para aquela região.
Os animais também eram prejudicados e sofriam as consequências da escassez de alimentos. Doenças. Mortes. As carcaças dos pobres animais eram amontoadas em uma pira, não por ritual, mas por necessidade, e o cheiro dos pelos e carnes, enquanto eram incinerados, – com o intuito de conter as mazelas que emanavam de seus cadáveres, – causavam ânsias e amarguras. Ledo engano. As doenças logo reclamariam para si o direito – autoimposto – aos corpos dos moradores daquele local, primeiro das crianças e idosos, depois das mulheres e homens adultos.
A comunidade, outrora festiva e alegre, agora não tinha motivos para comemoração. O ânimo foi-se esvaindo, assim como a vida dos campos verdejantes, que emolduravam aquele belo lugar em tempos passados.
O vilarejo, batizado gentilmente de “Vale verdejante”, em referência clara às belezas naturais que possuía, agora era tomado por uma pesada aura inodora e insípida, reflexo do que agora aqueles pobres coitados traziam dentro de si. O verde pulsante das folhas de outrora tornou-se incolor, sem vida.
E, como eram supersticiosos, ponderaram sobre os motivos de tais agressões, que segredos os deuses e entidades haviam descoberto que justificassem castigos tais? Como crentes em maldições e contra maldições, agarraram-se ainda mais à fé, e direcionavam suas rezas e sacrifícios para todos os deuses que estivessem dispostos a ouvi-los.
E ouviram.
Numa noite fria, que reafirmava que nada mudaria, e confabulavam se iriam falecer de inanição ou hipotermia, uma esfera luminosa atravessou os céus e cravou-se violentamente nas colinas ao redor, iluminando a noite tenebrosa como um farol esmeralda de esperança, há tempos perdida. Sim, a cor que caíra do céu era indescritível, mas na obrigação de classificar os eventos, a cor era semelhante ao verde. O verde, que tanto almejavam, vinha trazer-lhes o terror? Os reflexos de luzes verdes e suas variadas nuances, criavam um caleidoscópico hipnotizante, tragando-os para dentro do mosaico enigmático, penetrante. O impacto da esfera causou um leve tremor de terra e uma cratera recheada com os destroços do que quer que fosse aquele elemento. No centro da esfera, uma mancha verde brilhante pulsava, como se estivesse viva.
Apavorados. Inertes. Não desviam o olhar da cratera, esfera. Ela tinha um poder invisível sobre eles, tornando-os marionetes sem controle dos próprios corpos e ações. Contudo, do mesmo modo misterioso com que foram dominados, sentiram-se libertados de repente e conseguiram, enfim, discutir sobre o ocorrido.
– O que será isso?
– Será que é perigoso?!
– Mas de onde veio isso???
– Céus, o que é isso?
Questionam-se, obviamente, não obtendo uma resposta plausível. Após algum tempo de indagações retóricas, por fim, ouviram uma voz ecoando em suas mentes:
“Venho do nada. Do vazio. Antes da existência das galáxias, dos mundos e da vida. O nada, esse lugar incompreensível para você, é minha morada, meu abrigo. Eras e eras, bilhões e bilhões de anos separam meu existir e o surgimento de sua frágil raça. Mas você me invocou. Clamou por ajuda e eu vim para ser a sua única saída. Não temas.”
Sentiram uma paz preencher cada parte de seus corpos. Ninguém ousava dizer mais nada, mas sabiam, o socorro viera e eles seriam salvos. E foram. Nos dias seguintes o mau tempo deu trégua, o sol voltava a iluminar os olhos e corações, derretendo a geleira surgida dos escombros das dores e mortes. Os animais, que haviam conseguido subsistir, ficaram mais fortes, suas doenças foram extirpadas, como se arrancadas com a mão. O mesmo ocorreu com os enfermos que resistiram ao doce chamado da morte, – e ela, havia sido expulsa daquele lugar por tempo indeterminado. Mas a melhora mais nítida era com a vegetação: tornara-se verde brilhante e viva, mas de um tom tão intenso, quase fosforescente. E em certas noites afirmavam que as folhas irradiavam uma luz verde intensa, mas não ousavam questionar os milagres recebidos.
E permaneceram firmes naquele acordo mudo. Sem questionamentos.
As verduras, que cresceram após aquele evento, eram deliciosas, cada mordida emitia um som suave, como um sussurro apaixonado aos ouvidos. Logo as árvores também deram frutos, suculentos e inebriantes, nunca haviam provado nada igual. E no meio de tantas dádivas insistiam em não enxergar os efeitos colaterais daquele milagre: suas peles estavam ganhando tons de verde água, bem sutil, mas perceptível. Mas não ousavam reclamar.
Os pelos dos animais também estavam tornando-se verdes. E quando abatidos para consumo, suas carnes e sangue tinham uma coloração esverdeada. Mas não se podia negar que isso tornava a carne ainda mais saborosa. E consumiam as carnes, verduras, frutos – tudo o que provinha da terra – com tanto afinco, obsessão. Sem questionamentos.
A terra já não era mais marrom, mas verde oliva. E banhavam-se nas terras, conectando-se a ela. E estavam. Primeiro foram os membros, os dedos já são tinham a forma humana, mas era semelhante a cipós. Sem questionamentos.
Os braços e pernas foram metamorfoseados em troncos esverdeados. O sangue transmutara-se em uma seiva verde limão, os órgãos internos adaptaram-se perfeitamente ao novo homem-vegetal. A locomoção era cada vez mais restrita, arrastavam-se por cima da manta verde – outrora terra – e ficavam horas parados ao ar livre, em um ritual de fotossíntese macabra.
E novamente a voz submergira nas mentes, solicitando a presença de todos na cratera. E foram. Quando suas mãos-cipó tocaram a esfera, sentiram algo se mover dentro dela. Um vulto surgiu na superfície e sorriu. Era o próprio ser-verde, aprendendo, copiando, invadindo. O verde havia consumido tudo e todos. E continuaria crescendo, para sempre.
A comunidade desapareceu em um silêncio vegetal. Onde antes havia casas e pessoas, agora havia apenas um vasto vale verdejante, coberto de flores e árvores que brilhavam levemente à noite. Quem olhasse de longe veria algo belíssimo, mas quem se aproximasse demais ouviria os sussurros nos galhos, risadas engasgadas e palavras esquecidas ao vento, e jamais seria visto em forma humana novamente.
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…