Tornar-se espectro
Toda fotografia é uma imagem que carrega o espectral: a morte. O instante fotografado jamais será vivido novamente; assim jaz um tempo que passou…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
“Imaginariamente, a Fotografia (aquela de que tenho a intenção) representa esse momento muito sutil em que, para dizer a verdade, não sou nem um sujeito nem um objeto, mas antes um sujeito que se sente tornar-se objeto: vivo então uma microexperiência da morte (do parêntese): torno-me verdadeiramente espectro.”
Roland Barthes, em Câmara Clara, página 27.
Toda fotografia é uma imagem que carrega o espectral: a morte. O instante fotografado jamais será vivido novamente; assim jaz um tempo que passou, um tempo qualquer. Como o verde do capim, o tempo exato do fim do solstício de tal ano, o passeio com as antigas crianças, etc.
Nesse momento único — o foco —, o fotógrafo, representando o seu olhar delirante de coveiro, enquadra e aprisiona o flagrante: o erro da pose, o silvo do vento no vestido comprido da senhora, a alegria de êxtase do casal e o retrato pálido pendurado na lápide. No caixão, a perfeita sincronia da candura de um corpo frio em profundo sono; eterno, deita-se em pose de mãos cruzadas em agradecimento, pois quer sua última fase serena.
Assim como em Roland Barthes, a imagem fotografada é carregada de sentidos; o material revelado se desgasta, o papel corrói, mancha, se perde. A contribuição do tempo é feroz e dizima as esperanças de saudades dos familiares e dos personagens, que envelhecem como o papel, mas de maneira diferente: a carne apodrece e morre, a fotografia é a própria morte — ficando banguela, rasurada, rasgada, acariciada e pingada de lágrimas. Seus dias estão contados desde o momento inicial do clique. A fotografia já é o espectro.
Na câmara escura de outrora, buscava-se a beleza no breu. Na Câmara Clara, Roland Barthes encontrou a essência, o cheiro da reprodução analógica que se perpetua na era digital: o jazigo dos vivos, o enclausuramento da finitude. A procriação do sepulcro. O mantenedor da reprodução do padecimento.
Sendo assim carcomida, como o corpo do morto no meio do álbum que a mãe balança no colo — aquele cemitério de gentes e paisagens que já se foram — toda fotografia é um fato post-mortem.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa dedicada a leitura desde a infância, influenciado por…
Leia mais em “Desafio Sombrio 2024”
Ando pelo único caminho que se atravessa na neblina cinza. Preciso chegar; devo estar atrasado. Inóspito. Inseguro. Lanço dúzias de preces e continuo…
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Na minha maldição de viver muitas vidas, ainda tenho a vã esperança de encontrar, além dela, todas as minhas almas amigas…
Sou acumulador destas saudades | que fazem coleção dentro de mim… | Eu guardo todas co’a maior vontade, | e ao peso que elas dão não dou um fim…
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Tudo começou com uma reminiscência. Caminhando pela rua, por alguma calçada que serviu de gatilho, voltei vinte anos atrás…
De bruços | amortalhado | escondo o rosto e | não rezo | há dias que me rendi | às horas | à persecução | desse uniforme humano…
De soslaio | en passant | caminho retrátil da vida | a vida | sensorialmente | num piscar de olhos |desembarque brusco | ato que rende e assalta…
— Alertei para ele não ir até lá... — disse Marcos, equilibrando seu corpo inebriado na banqueta, os cotovelos apoiados na bancada de madeira…
— Cara, acho que não está dando certo — falou Fabrício, observando o copo imóvel no centro da tábua. — Pois é. Não se mexe. Talvez devêssemos…
Tenho que acordar todos os dias às 7h da manhã. Mas levantar cedo nunca foi meu forte. Para que eu consiga, de fato, despertar até o horário…
Trabalhar era meu refúgio. | Eu via pessoas e conversava. | Me distraia, | Sorria... | Mas o mundo parou, | Silenciou | E diante de tanto horror, | Se trancou…
A grama arde | O ar sufoca | O canto dos pássaros foi silenciado. | As árvores, | Antes, imponentes e frutíferas,…
Pálida e fria como porcelana | Sentia-me como uma boneca. | Os olhos, antes cerrados, | Agora conseguiam observar tudo ao redor…
No canto ali do quarto| No escuro | Sentada e descalça, no chão frio | Observo as sombras que ninguém mais vê…
Quando o lockdown começou, muitos falavam sobre o fim dos tempos; como negar isso? Eu via apenas o nada lá fora, apenas fragmentos de uma…
Observo da janela o vazio lá fora; tudo está abandonado, assim como eu aqui dentro. O silêncio é preenchido apenas pelo sussurro do vento…
Na cidade pulsante de Nova Arcadia, onde o neon iluminava…
No coração de um lixão vasto e sombrio, onde o sol raramente penetrava a nuvem de lixo e decadência, vivia uma criança chamada Leo. Seu pai, um homem…
Ramalho era um homem praticamente invisível, não no sentido literal da palavra, mas na forma como ele caminhava pelo mundo sem chamar…
Samuel sempre foi um entusiasta da tecnologia. Desde pequeno, ele tinha um fascínio por tudo que conectava humanos…
Tia-avó Antônia era considerada "a tia legal”; adorava crianças, animais, coisas estranhas. Morou por muito tempo com a tia Vitória, irmã mais velha…
Boneca de Ossos
Pálida e fria como porcelana | Sentia-me como uma boneca. | Os olhos, antes cerrados, | Agora conseguiam observar tudo ao redor…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Pálida e fria como porcelana
Sentia-me como uma boneca.
Os olhos, antes cerrados,
Agora conseguiam observar tudo ao redor.
Vestes aprumadas
E um perfume que não disfarçava
Meu pútrido odor
Mas eu estava linda.
Meus amigos não sorriam
Mas minha alma se deleitava
Agora disposta,
Tal qual minhas bonecas na prateleira.
Me sentia leve,
O corpo já não pesava
Me divertia com as expressões amedrontadas
Ah, se eu pudesse...
A fotografia foi tirada
Uma última recordação
Antes que eu vire alimento para os vermes
A despedida vem chegando...
Começo sentir o vazio a me preencher
O calor de quem amo fica cada vez mais longe
Se minhas lágrimas ainda rolassem
Se minha boca ainda falasse..
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Ana Kelly, natural de São Paulo (SP), é poeta, escritora, contista e artesã, sócia-proprietária da loja de acessórios e artigos alternativos, Ivory Fairy. Tem poemas e contos publicados como co-autora em diferentes antologias. No ano de 2009 recebeu o prêmio de 1º lugar, em um concurso de poesias do tema “Natureza”, do Projeto Chance, no Centro de Educação Unificado ( CEU ) em Paraisópolis. Organizadora da segunda Semana Literária Digital de 2023…
Leia mais em “Poesias”:
Uma última fotografia
Tia-avó Antônia era considerada "a tia legal”; adorava crianças, animais, coisas estranhas. Morou por muito tempo com a tia Vitória, irmã mais velha…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Tia-avó Antônia era considerada "a tia legal”; adorava crianças, animais, coisas estranhas. Morou por muito tempo com a tia Vitória, irmã mais velha do meu pai, que decidiu, ainda jovem, pela solteirice, fazendo companhia à tia-avó Antônia. Moravam em um casarão antigo, cheio de gatos, cães, pássaros e plantas: a típica casa de senhorinha. Passei parte da minha infância visitando-a e à tia Vitória, e o hobby delas, além de viagens, tricô e fofocas sobre a vida alheia, era colecionar. Eu diria que as duas eram acumuladoras, mas odiavam essa palavra; se nomearam colecionadoras de lembranças, um título romântico para o que eu via como uma obsessão por possuir coisas. Elas também colecionavam artigos peculiares, e, depois que tiveram acesso à Internet, aquele casarão vivia recebendo entregas de tudo o que é lugar.
Quando tia Vitória ficou doente, em seus 89 anos, dizia que chegaria aos noventa, pois não gostava de número ímpar, e depois iria para o além. Uma noite, ela se foi, exatamente no dia em que completou 90 anos de idade, e antes de ser enterrada, seu pedido estranho de tirar uma foto post-mortem foi realizado. Eu, naquela época, tinha apenas 15 anos, e, mesmo sabendo dos gostos peculiares das minhas tias, fiquei um pouco temerosa com aquilo. Então, tia-avó Antônia e tia Vitória foram postas sentadas no jardim com todos os seus animais bem treinados, todos a postos para serem fotografados. Nesse dia, eu estava lá, cedendo à minha curiosidade mórbida, que sempre foi evidente para minhas tias, e lembro do rosto de tia Vitória sem vida, sentada com um gato em seu colo, um cachorro aos seus pés e uma calopsita em seu ombro — todos os animais que tanto amava. Estava sentada como se estivesse viva: olhos paralisados com as pupilas bem dilatadas, sorriso estático e uma rigidez assustadora. Ao lado dela, deixando o semblante triste de lado, estava a tia-avó Antônia, com uma expressão paralisada no rosto, como se quisesse espelhar a face de tia Vitória.
Lembro-me de ficar noites sem dormir depois daquilo, e o rosto de ambas parecia ter ficado gravado na parte interna de minhas pálpebras, me acompanhando por várias noites. Dias depois, tia-avó Antônia começou a solicitar minha companhia, pois se sentia solitária sem tia Vitória. Eu, como sempre adorei passar um tempo com as duas, aceitei e passei a visitá-la duas vezes na semana, depois quatro, e, quando vi, estava indo lá todos os dias depois da escola e aos fins de semana. Minha presença era tão constante que ela acabou me convidando para morar com ela quando fiz dezoito. Como sempre adorei sua companhia, aceitei o convite para morar com ela. A casa era antiga, cheia de gatos, cães e pássaros, um refúgio de todos os animais abandonados, que se tornou um refúgio para mim, mesmo com todo aquele passado excêntrico acumulado naquele lugar.
Minha relação com tia-avó Antônia sempre foi incomum. Eu me sentia fascinada por ela, adorava suas histórias e, ao mesmo tempo, possuía um certo temor, como todos na família. Ela era uma mulher impressionante: espirituosa, inteligente, estranha e, claro, rica. Estava sempre disposta a ajudar qualquer um que, segundo ela, “não tentasse aproveitar-se de sua generosidade”. Tínhamos até uma piada entre os familiares — às vezes, comparávamos a ela ao Don Corleone, só que numa versão mais doce e bruxesca, é claro! Todos riam disso, mas havia uma ponta de verdade, já que todos buscavam seu conselho para qualquer coisa que achassem importante. Mesmo na velhice, tia-avó Antônia mantinha a mente afiada como uma navalha.
Quando a tia-avó Antônia morreu, eu tinha 23 anos. Ela me deixou o casarão, a responsabilidade de cuidar do jardim e dos animais, e também uma carta, que demorei três meses para abrir, pois estava profundamente triste para saber o que ela tinha para me dizer. Tia-avó Antônia e tia Vitória sempre deixaram clara sua predileção por mim, então não foi surpresa para ninguém da família quando a casa foi deixada para mim. Passados três meses de sua morte, tomei coragem e abri a carta, encontrando uma simples mensagem:
“Querida Lara,
Deixo tudo em suas mãos até o dia em que eu voltar.
Atenciosamente, tia-avó Antônia.”
Eu ri na hora, lembrando a crença de minhas tias em fantasmas e coisas sobrenaturais. Apesar de ambas serem católicas, elas tinham fascínio por histórias de fantasmas e rituais antigos, então passei as noites a me perguntar se tia-avó Antônia não estaria mais certa do que eu gostaria de admitir, com aquela sua mensagem de “Fui ali e volto logo!”
Foi quando a lembrança da foto post-mortem de tia Vitória voltou à minha mente. Seu último pedido era ser eternizada naquela foto e, aparentemente, o de tia-avó Antônia, além de ser enterrada em seu próprio jardim, era assombrar o casarão. Era assustador pensar nisso vivendo sozinha naquela casa, mas, ao mesmo tempo, era engraçado pensar em como aquelas duas doces senhoras podiam ser tão incomuns. Em uma tarde cinzenta, tudo mudou; resolvi reorganizar as coisas, tentando dar um toque um pouco mais pessoal àquele casarão que passei a amar. Encontrei uma caixa de madeira linda, decorada com entalhes intrincados. Dentro dela, havia uma coleção de fotografias, não como as fotografias comuns delas em viagens que eu já havia visto, mas fotografias post-mortem. Todas as fotos eram de mulheres idosas, cada uma delas com seus olhos vidrados e perdidos, talvez, no além; todas as fotografias com setenta ou oitenta anos de diferença, e a mais recente era a de tia Vitória. O mais perturbador não era o fato de serem fotos de pessoas mortas, mas a companhia das mulheres nessas fotos, que eram todas similares. Então percebi que, em cada foto, as mulheres estavam acompanhadas da tia-avó Antônia, com um sorriso congelado no rosto calmo.
Foi quando me lembrei de algo que a tia-avó disse uma vez, enquanto tomávamos chá no jardim. Ela falou casualmente, como se contasse algo engraçado: “O tempo, Lara, é uma coisa caprichosa; para algumas pessoas, ele não passa da mesma forma. Alguns de nós, minha querida, só aprendemos a esperar o tempo certo.” Lembro-me da sua risada ao dizer isso e minha confusão em não entender nada do que ela dizia. Agora, com as fotos diante de mim, comecei a entender um pouco do que ela quis dizer; minha tia-avó não tinha apenas uma obsessão pelo passado — ela era parte dele. E a mensagem na carta que ela deixou, aquela promessa de que voltaria, não era uma piada ou uma metáfora.
Desde que encontrei aquelas fotos, a atmosfera no casarão parece mais densa, como se estivesse apreensivo pela volta dela. À noite, quando estou prestes a adormecer, ouço sons pelos corredores, sons de uma casa antiga que sempre estiveram lá, mas que só agora fiquei alerta para ouvi-los. Eu sei que ela ainda não está aqui, mas, assim como a casa, estou ansiosa pela sua presença e sei que o tempo dela está chegando. E o que me agonia agora, mais que tudo, é que não sei se ela vai voltar para me agradecer por cuidar de sua casa ou para me convidar a ser a próxima a sentar ao seu lado para uma última fotografia.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), cursa Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao ingressar na faculdade. No entanto, durante a pandemia, retomou a escrita como meio de…
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Último Sono
Era por volta das onze horas da noite. Eu estava me preparando para dormir; já havia feito meus rituais noturnos, como ir ao banheiro, escovar…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Era por volta das onze horas da noite. Eu estava me preparando para dormir; já havia feito meus rituais noturnos, como ir ao banheiro, escovar os dentes, trancar as portas, lavar algumas louças pendentes do jantar, encher minha moringa de barro e colocá-la ao lado direito da minha cama, sobre a mesinha de canto feita de carvalho, onde fica um antigo exemplar de capa dura da minha obra favorita, Morro dos Ventos Uivantes, uma das doces lembranças que tento preservar nesta casa repleta de fantasmas silenciosos.
Deveria ter me acostumado com a solidão; afinal, faz tantos anos que convivo com ela, mas seu prazer é torturar-me dia e noite. As paredes desta casa estão fartas de ouvir minhas lamúrias. A noite ia ser longa, meu travesseiro é meu confidente, assim como você foi um dia. O lado em que você dormia permanece intacto, como se algum dia você pudesse voltar. Eu sei, é bobagem alimentar tal devaneio; preciso aceitar o fato de que nunca mais verei teu sorriso acolhedor, teu caloroso abraço e teu plácido olhar quando dizia que me amava. De nada adianta lamentar-se; não há como reparar o mal que tanto lhe causei. Se existir alguma divindade neste infinito cosmo, ela me fará dormir eternamente.
A incômoda e brilhante luz do sol rastejou pelas frestas da persiana, sempre que a brisa matinal soprava, atingindo meus sonolentos olhos. Não sei o que é mais doloroso: não poder ouvir teu amável "boa noite" ou teu caloroso "bom dia". Observo, com melancolia nos olhos, o doce tear das aranhas armadeiras; elas tecem cada fio sem preocupação. Bocejo e, em seguida, me levanto.
Enquanto tomo meu café, meu celular toca; era um número que não conheço. Penso ser uma daquelas ligações indesejáveis de telemarketing que recebemos durante o dia, mas decido atender. A princípio, o silêncio permanece, até que escuto um melancólico "alô". Era uma voz feminina, que soou um tanto trêmula. Ela me contou o motivo da ligação e disse que conseguiu meu número por indicação de um amigo. (De fato, já havia feito alguns trabalhos como fotógrafo — casamentos, batizados e alguns ensaios —, mas nada se comparava a isso.) O trabalho em questão era um registro post-mortem.
Foi algo tão inesperado que fiquei desconcertado, mas prossegui com a conversa e disse, com pesar, que sentia muito por sua perda, mas, infelizmente, não seria capaz de realizar o trabalho. Ouvi a dor em sua respiração. Ela entendeu e, aos prantos, desligou. Encontrei-me extasiado, contemplando a fumaça do café evaporando no ar. Aquela conversa me fez lembrar de um seminário que participei há alguns anos, onde foi abordado um tema que, na época, me soou um tanto mórbido. O seminário em questão foi sobre os diferentes campos da fotografia. Eu ainda estava engatinhando nesse maravilhoso mundo e sentei nas cadeiras do meio, empolgado, pois, entre os temas, havia um em especial que causava uma estranha curiosidade.
A voz rouca do palestrante anunciou o tema, e lembro dos avisos de que seria um tema sensível. Ele apagou as luzes, ligou o retroprojetor e exibiu uma obscura galeria. Explicou que esse tipo de fotografia trata-se de retratos post-mortem, um registro fotográfico de um ente querido após o falecimento. Ele mencionou que esse tipo de fotografia foi bastante difundido na era vitoriana, mas também na Europa e na África, e era dividida em categorias, como “O Último Sono” (como o próprio nome diz, a fotografia era tirada com o cadáver numa cama, algumas decoradas, outras não); outra categoria era “A Última Presença Social” (a fotografia era realizada com os amigos mais próximos e familiares, que ficavam em volta do cadáver, como o último evento em honra ao morto); e havia também a categoria chamada “Mãe e Filha” (em sua maioria, as filhas ou filhos eram natimortos, e geralmente as fotos eram das respectivas mães abraçadas com suas crianças).
Ele bebeu água, enxugou a testa e prosseguiu, dizendo que, diferente da pintura, o daguerreótipo tornou mais acessível ter esse registro fotográfico de um familiar querido. Para nossa surpresa, os organizadores do seminário trouxeram dois exemplares reais, cedidos gentilmente para serem exibidos a nós. A fotografia estava envolta por um sólido compartimento de acrílico; nos deram luvas para manuseá-la, e posso te dizer com franqueza: assim que a toquei, senti uma terrível angústia. Eu não conseguia encarar a fotografia. A foto em questão era o “Sono Eterno”. Era desconfortante encarar aquele semblante calmo, com traços angelicais e, ao mesmo tempo, um tanto sombrio, o que me causou arrepios. Olhei rapidamente e a devolvi, pois não conseguia ver aquela imagem por muito tempo. Mas a verdade é que aquela fotografia permanece viva em minha memória; aqueles olhos fechados me assombram até hoje.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual, com formação em Fotografia, o autor…
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De bruços | amortalhado | escondo o rosto e | não rezo | há dias que me rendi | às horas | à persecução | desse uniforme humano…
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A Imagem de Clair
Era um daqueles dias em que o ar do interior pesava como chumbo. Eu, Tomás, um jovem de vinte e cinco anos, havia aceitado o convite para…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Era um daqueles dias em que o ar do interior pesava como chumbo. Eu, Tomás, um jovem de vinte e cinco anos, havia aceitado o convite para fotografar uma família de fazendeiros abastados em uma cidadezinha esquecida no interior do Rio de Janeiro. O ano era 1840, e a fotografia ainda era uma raridade, algo entre a magia e a ciência. As pessoas olhavam com curiosidade e desconfiança para o meu equipamento, mas a paga era boa, e eu não recusaria trabalho, já que estava apenas iniciando na carreira.
Cheguei à fazenda ao cair da tarde. Visualizei um casarão imponente, erguido em estilo colonial, que jazia no meio de uma vasta planície. As janelas eram enormes e, de dentro, eu podia sentir os olhos da família Oliveira me observando. Quando a porta finalmente se abriu, uma senhora de aparência severa me cumprimentou.
— Boa tarde, senhor Tomás. Espero que tenha feito boa viagem.
A voz daquela senhora era educada, mas algo no tom que ela emitiu me deixou inquieto. Havia um clima estranho naquele lugar, algo que fazia o ar parecer mais denso, como se uma presença invisível apertasse meu peito.
— Sim, senhora, tudo tranquilo. A família está pronta para a fotografia? — perguntei, tentando manter a voz firme.
Ela assentiu com um leve movimento de cabeça e me conduziu até uma sala grande, iluminada pela luz dourada do fim da tarde. Ali, sentados de forma solene, estavam o marido, dois filhos mais jovens e uma filha — jovem, de aparência bela, mas pálida e rígida — no centro da composição.
Preparei o equipamento enquanto eles se ajeitavam. Havia algo estranho na filha, uma jovem que aparentava ter uns vinte anos. Ela estava imóvel, como uma boneca de porcelana, com os olhos fixos em um ponto distante, como se sofresse de alguma loucura ou demência, e um odor desagradável começou a se espalhar pelo ambiente, uma mistura de terra e algo apodrecido. Tentei ignorar.
— Diga-me, senhora. — Arrisquei. — Sua filha está bem? Ela parece um pouco... debilitada.
A mulher, que até então parecia contida, se voltou para mim com um olhar penetrante, e seus olhos brilharam com um misto de raiva e medo.
— Clair está perfeita, senhor Tomás! Perfeita para a fotografia. Apenas faça o seu trabalho, por gentileza!
Clair. Esse era o nome dela. Hesitei por um momento, mas o clima de tensão na sala me fez seguir adiante para terminar logo aquilo. Fotografei a família mais de uma vez, de propósito, para poder estudar um pouco mais profundamente a imagem da pálida e doce Clair.
O som do disparo do obturador ecoou na sala silenciosa. Depois da fotografia feita, não pude evitar me aproximar da jovem. Eu precisava confirmar o que meu instinto gritava. Sem que os pais percebessem, enquanto estavam entretidos, discutindo sobre o futuro resultado da imagem, aproximei-me devagar. A pele de Clair estava fria, marmórea. Toquei seu braço de leve, discretamente, e o calor da minha mão firme encontrou a gelidez daquela pele nívea e bela. Foi quando o odor profícuo e forte se intensificou. Uma certeza horrível se firmou em mim: aquela moça estava morta.
— Há quanto tempo... ela está assim, senhores? — sussurrei, tímido, sem me virar.
— Você é muito esperto, senhor fotógrafo. Aliás, és um fotógrafo ou um médico? Eu vi como a tocou! — A voz da senhora soou firme e dura às minhas costas.
— Não quis importuná-los, senhores. Apenas notei que ela estava... estranha. Sou fotógrafo, e estou acostumado com situações inusitadas.
— Bem, sendo assim, confesso. Nós a enterramos hoje pela manhã. Mas você pode ver que uma família é sempre uma família, e nós quisemos incluí-la em sua última fotografia conosco.
Dei um passo para trás, impactado pela frieza daquela senhora, pela omissão covarde do líder da família e pela aceitação dos outros filhos. Meu coração disparou enquanto os olhos da senhora se cravavam em mim, ameaçadores.
— O senhor fez o seu trabalho, agora deve nos deixar em paz. — Ela continuou, com o tom mais baixo, mas ainda assim carregado de uma ameaça velada. — Se alguém souber o que viu aqui... bem, nosso sobrenome tem influência nesta região, e temos formas de garantir o silêncio.
Engoli em seco, e minhas mãos tremiam enquanto desmontava o equipamento. Saí da casa sem olhar para trás. O odor daquela jovem ainda impregnava minhas narinas, e os olhares da família queimavam minhas costas. Ainda olhei para trás e visualizei a jovem Clair intacta, à distância.
Ao revelar a imagem, passei minutos eternos estudando aquela senhorita morta, como se a admirasse. Demorei para dormir, tocando a fotografia e deslizando meu dedo indicador em cada contorno do corpo da doce defunta. Eu estava louco, eu sei. Mas precisava me aproximar da sua história e descobrir mais informações sobre ela quando ainda estava em vida.
Dias depois, fui chamado novamente para fotografá-los, dessa vez após o enterro, de fato, da jovem. Relutei, mas a curiosidade mórbida e a sensação de dívida me levaram de volta àquela casa maldita. Agora, eram apenas a mãe, o pai e os dois filhos mais jovens.
Preparei a câmera novamente. O ambiente estava diferente, mais frio, embora fosse verão. Algo invisível parecia pairar no ar, trazendo uma sensação sufocante que fazia de cada respiração um esforço.
— Bem, agora estão todos aqui. — Murmurei, quase irônico, tentando não transparecer o nervosismo que me corroía por dentro.
A mãe de Clair me lançou um olhar enigmático e um sorriso cruel.
— Sim, agora estamos todos juntos. Vamos imaginar Clair aqui, família.
A fotografia foi tirada, e eu também imaginei a jovem Clair ali. No momento do disparo, senti uma corrente de ar frio atravessar a sala, como se alguém passasse por mim. Naquele instante, tive a sensação de que algo terrível iria acontecer.
Revelei a fotografia naquela mesma noite, trancado em meu quarto, sentindo meu coração ainda acelerado. Quando a imagem finalmente tomou forma no papel, minha garganta secou. A filha, morta, estava ali, no centro da fotografia, de pé, exatamente onde eu a havia visto da primeira vez. O mesmo olhar vazio, a mesma imobilidade apavorante. Clair estava ali. Mesmo sem estar. Eu não deveria ter aceitado fotografá-los novamente.
Abandonei a cidade no dia seguinte, e não sei dizer se o que vi foi real ou se minha mente, atormentada pela tensão daquela família, me pregou uma peça cruel. Mas de uma coisa eu sei: a imagem daquela moça morta, eternamente presente na fotografia, assombrará meus dias para sempre. No entanto, jamais serei capaz de me desfazer da fotografia que guardo com afinco em minha gaveta. E todos os dias, embora atormentado, contemplo a imagem de Clair.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Você está lendo um texto de um Autor Visitante do Castelo Drácula. Algumas edições do projeto podem permitir que autores visitantes escrevam e participem sem que seja preciso que tenham contrato assinado com o Castelo Drácula. Autores visitante não têm perfis fixos. Ao abrirmos nossos terríficos umbrais para visitantes, esperamos que eles possam vivenciar um pouco do trabalho editorial e da profunda dedicação da equipe do Castelo Drácula.
Leia mais em “Desafio Sombrio 2024”
Toda fotografia é uma imagem que carrega o espectral: a morte. O instante fotografado jamais será vivido novamente; assim jaz um tempo que passou…
Ando pelo único caminho que se atravessa na neblina cinza. Preciso chegar; devo estar atrasado. Inóspito. Inseguro. Lanço dúzias de preces e continuo…
A cama estava sem o lençol. O espelho estava quebrado. Na cômoda havia poucos pertences: apenas um hábito limpo, algumas roupas íntimas…
Mmoggun era um artesão que vivia em um vilarejo isolado, onde sua arte de esculpir máscaras era vista como uma habilidade quase mística…
Certa vez, na quinta série, adaptamos a brincadeira do copo para uma folha de papel. Nessa folha, escrevíamos o alfabeto no topo e as palavras…
Falos. Colecionava-os, de todos os tipos e tamanhos. Os primeiros, comprara em sex shops. Depois que se tornara médica legista, ficou mais…
O relógio batia nove horas, e José, diferente dos jovens de sua idade, preferia estar em seu quarto, testando algum software novo, descobrindo…
Na minha maldição de viver muitas vidas, ainda tenho a vã esperança de encontrar, além dela, todas as minhas almas amigas…
Sou acumulador destas saudades | que fazem coleção dentro de mim… | Eu guardo todas co’a maior vontade, | e ao peso que elas dão não dou um fim…
Entrevistador: Qual era sua relação com a vítima? | Amigo da vítima: Nos criamos juntos. Amigos de rua, de infância…
Buscando os lisos universitários | um passatempo que não muito exija, | retiram lá de cima do armário | um roto e velho tabuleiro ouija…
Essa massa purulenta | cuja dor e sofrimento | o meu peito, enquanto aguenta, | faz por ela um juramento, | tem por força de promessa…
Tudo começou com uma reminiscência. Caminhando pela rua, por alguma calçada que serviu de gatilho, voltei vinte anos atrás…
De bruços | amortalhado | escondo o rosto e | não rezo | há dias que me rendi | às horas | à persecução | desse uniforme humano…
De soslaio | en passant | caminho retrátil da vida | a vida | sensorialmente | num piscar de olhos |desembarque brusco | ato que rende e assalta…
— Alertei para ele não ir até lá... — disse Marcos, equilibrando seu corpo inebriado na banqueta, os cotovelos apoiados na bancada de madeira…
— Cara, acho que não está dando certo — falou Fabrício, observando o copo imóvel no centro da tábua. — Pois é. Não se mexe. Talvez devêssemos…
Tenho que acordar todos os dias às 7h da manhã. Mas levantar cedo nunca foi meu forte. Para que eu consiga, de fato, despertar até o horário…
Trabalhar era meu refúgio. | Eu via pessoas e conversava. | Me distraia, | Sorria... | Mas o mundo parou, | Silenciou | E diante de tanto horror, | Se trancou…
A grama arde | O ar sufoca | O canto dos pássaros foi silenciado. | As árvores, | Antes, imponentes e frutíferas,…
Pálida e fria como porcelana | Sentia-me como uma boneca. | Os olhos, antes cerrados, | Agora conseguiam observar tudo ao redor…
No canto ali do quarto| No escuro | Sentada e descalça, no chão frio | Observo as sombras que ninguém mais vê…
Quando o lockdown começou, muitos falavam sobre o fim dos tempos; como negar isso? Eu via apenas o nada lá fora, apenas fragmentos de uma…
Observo da janela o vazio lá fora; tudo está abandonado, assim como eu aqui dentro. O silêncio é preenchido apenas pelo sussurro do vento…
Na cidade pulsante de Nova Arcadia, onde o neon iluminava…
No coração de um lixão vasto e sombrio, onde o sol raramente penetrava a nuvem de lixo e decadência, vivia uma criança chamada Leo. Seu pai, um homem…
Ramalho era um homem praticamente invisível, não no sentido literal da palavra, mas na forma como ele caminhava pelo mundo sem chamar…
Samuel sempre foi um entusiasta da tecnologia. Desde pequeno, ele tinha um fascínio por tudo que conectava humanos…
Tia-avó Antônia era considerada "a tia legal”; adorava crianças, animais, coisas estranhas. Morou por muito tempo com a tia Vitória, irmã mais velha…
Manual prático da vida
luz e sombra | vívida postura | olhar fixo | — não na ave de curvo bico —…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
luz e sombra
vívida postura
olhar fixo
— não na ave de curvo bico —
nas asas de quem busca ver a história.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Fotografia em Preto e Branco
Ó, bela dama de York, radiante visão, | Pele de alabastro, no contraste do carvão, | Teu semblante, de etérea perfeição, | Agora repousa em paz, no véu da escuridão…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Ó, bela dama de York, radiante visão,
Pele de alabastro, no contraste do carvão,
Teu semblante, de etérea perfeição,
Agora repousa em paz, no véu da escuridão.
No teu vestido de noiva, alva esperança,
A morte te tomou, sem dar-te lembranças,
Prometida ao Visconde, teu coração fiel,
Agora dormes, como uma assombração cruel.
Na fotografia, um ato de dor sublime,
Teu noivo, em luto, na eternidade imprime,
As bodas que o tempo ousou interromper,
Eternizado no retrato, o que não pode ser.
Tuas mãos, frias, entrelaçadas às dele,
O amor preso em laços que a morte repele,
Mas na imagem, o júbilo de um sonho ausente,
O Visconde e sua dama, ali presentes.
Ó musa em preto e branco, flor desvanecida,
Que outrora seria a esposa, a companheira querida,
Agora és um eco de beleza e dor,
Um retrato de saudade, um eterno amor.
No escuro véu que o tempo tece,
Ainda brilha a luz que nunca perece,
Pois nas tumbas de York, ali estará,
A noiva cadáver que não voltará.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Thais Gomes é apaixonada pelo universo Gótico da Literatura, sua formação é em Letras Português/Espanhol e sua obra mais recente, ainda está sendo produzida, é Contos Vampirescos, uma releitura de muitos personagens do Drácula de Bram Stoker. Inspirada em clássicos como Edgar Allan Poe, Lord Byron, Álvares de Azevedo, e contemporâneos como André Vianco e Eduardo Spör; a autora explora o universo da literatura gótica com…
Leia mais em “Desafio Sombrio 2024”
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Trabalhar era meu refúgio. | Eu via pessoas e conversava. | Me distraia, | Sorria... | Mas o mundo parou, | Silenciou | E diante de tanto horror, | Se trancou…
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Quando o lockdown começou, muitos falavam sobre o fim dos tempos; como negar isso? Eu via apenas o nada lá fora, apenas fragmentos de uma…
Observo da janela o vazio lá fora; tudo está abandonado, assim como eu aqui dentro. O silêncio é preenchido apenas pelo sussurro do vento…
Na cidade pulsante de Nova Arcadia, onde o neon iluminava…
No coração de um lixão vasto e sombrio, onde o sol raramente penetrava a nuvem de lixo e decadência, vivia uma criança chamada Leo. Seu pai, um homem…
Ramalho era um homem praticamente invisível, não no sentido literal da palavra, mas na forma como ele caminhava pelo mundo sem chamar…
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Os gêmeos: retrato post-mortem
Pequenas almas, cujos olhos fechados | Eternizam-se no silêncio da imagem. | Dormem serenas, enquanto os lábios, | Com leves sorrisos…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Pequenas almas, cujos olhos fechados
Eternizam-se no silêncio da imagem.
Dormem serenas, enquanto os lábios,
Com leves sorrisos, congelam-se no tempo.
As cútis alvacentas, sem marcas de dor,
Refletem o indiferente flash da câmera,
Revelam as cicatrizes indeléveis
Do luto que coroa seus pais.
Que deus tirano também fechou os olhos?
Permitindo que as moscas vivam e os rodeiem,
Enquanto as flores ao redor, em silêncio,
Fenecem lentamente, resistindo à passagem?
Bebês, que cedo partem, são estrelas cadentes,
Enquanto a vida nas pétalas definha, devagar.
Suas lembranças, tão alegres e fugazes,
Já não existem mais, para o lamento de seus pais.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?…
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Toda fotografia é uma imagem que carrega o espectral: a morte. O instante fotografado jamais será vivido novamente; assim jaz um tempo que passou…
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Quando o lockdown começou, muitos falavam sobre o fim dos tempos; como negar isso? Eu via apenas o nada lá fora, apenas fragmentos de uma…
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Retrato Final
No salão de velhas sombras, onde o tempo não mais há, | Sentam-se os que vivos ficam, a tristeza a ocultar. | E ali, no centro imóvel, repousa a…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
No salão de velhas sombras, onde o tempo não mais há,
Sentam-se os que vivos ficam, a tristeza a ocultar.
E ali, no centro imóvel, repousa a jovem que partiu,
Com seus olhos castanhos claros, de brilho já fugiu.
Seus longos cabelos, ondulantes, caem como véu de marfim,
Sua pele fria e pálida, tão serena, sem um fim.
Seu corpo magro descansa, tal figura singular,
De uma mente outrora ímpar, que cedo deixou de pulsar.
A câmera, cúmplice antiga, se demora a capturar,
Os vivos que a ladeiam, sem coragem de chorar.
A bela moça, inabalável, é a única que não treme,
Seu retrato se faz claro, como se a morte a não teme.
Que segredos seus olhos guardam, que jamais irão dizer?
Que pensamentos brilhantes, a morte foi apagar?
Será que, em seu semblante, há um sussurro a se ouvir,
De alguém que tanto sabia, e tão cedo viu partir?
O tempo se esvai em sombras, a imagem é imortal,
Mas a moça que repousa, guarda um mistério fatal.
Quem ousaria hoje, tal retrato eternizar,
E na fotografia da morte, a beleza congelar?
Pois, na caixa envelhecida, onde a foto repousar,
Os olhos castanhos claros ainda podem te fitar.
E ao encarar a jovem morta, tão serena em seu lugar,
Talvez ouças no silêncio o que ela nunca pôde falar.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras…
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Toda fotografia é uma imagem que carrega o espectral: a morte. O instante fotografado jamais será vivido novamente; assim jaz um tempo que passou…
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A cama estava sem o lençol. O espelho estava quebrado. Na cômoda havia poucos pertences: apenas um hábito limpo, algumas roupas íntimas…
Mmoggun era um artesão que vivia em um vilarejo isolado, onde sua arte de esculpir máscaras era vista como uma habilidade quase mística…
Certa vez, na quinta série, adaptamos a brincadeira do copo para uma folha de papel. Nessa folha, escrevíamos o alfabeto no topo e as palavras…
Falos. Colecionava-os, de todos os tipos e tamanhos. Os primeiros, comprara em sex shops. Depois que se tornara médica legista, ficou mais…
O relógio batia nove horas, e José, diferente dos jovens de sua idade, preferia estar em seu quarto, testando algum software novo, descobrindo…
Na minha maldição de viver muitas vidas, ainda tenho a vã esperança de encontrar, além dela, todas as minhas almas amigas…
Sou acumulador destas saudades | que fazem coleção dentro de mim… | Eu guardo todas co’a maior vontade, | e ao peso que elas dão não dou um fim…
Entrevistador: Qual era sua relação com a vítima? | Amigo da vítima: Nos criamos juntos. Amigos de rua, de infância…
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Tudo começou com uma reminiscência. Caminhando pela rua, por alguma calçada que serviu de gatilho, voltei vinte anos atrás…
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Post-Mortem
Um corpo imóvel, uma última fotografia, | Uma lembrança sombria, um adeus eternizado. | Os olhos sem nenhum brilho perdidos no além, | Sem mais ter alguém, um vazio nas trevas ornado…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Um corpo imóvel, uma última fotografia,
Uma lembrança sombria, um adeus eternizado.
Os olhos sem nenhum brilho perdidos no além,
Sem mais ter alguém, um vazio nas trevas ornado.
Mãos que descansam sem nenhum calor,
Já não sentem a dor que outrora existia.
Uma pose forjada em um teatro aterrador,
Registrando o horror que em sua vida inexistia.
Na imagem, o tempo que parecia eterno, chegou ao final,
Um adeus registrado de forma fatal, um belo e mudo lamento.
Um quadro tão cheio de sentimento, algo que talvez seja divinal,
Mas ao fitarmos, afinal, notamos que a morte chegou ao seu momento.
A vida se esvaiu, mas a fotografia ainda persiste,
Uma cena triste, um adeus perpetuado na quietude.
Um momento sombrio, uma ilusão que ainda resiste,
O tempo que não mais existe, uma eterna solitude.
Aquela imagem está marcada pelo eterno pesar
Daqueles que souberam amar e que agora perderam.
Uma vida que fora realidade, uma existência a se apagar,
A falta que está a atordoar, almas que se arrependeram.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura. Escreve escutando metal,…
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