Velian: O Banquete da Noite
Velian retornara a Fortaleza com a languidez de quem atravessara mares e memórias. Ainda havia no seu corpo o traço da viagem ao Rio, onde Cassandra…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Velian retornara a Fortaleza com a languidez de quem atravessara mares e memórias. Ainda havia no seu corpo o traço da viagem ao Rio, onde Cassandra fora reencontrada — mas agora não havia nostalgia nem peso: o que ardia em sua alma era sede, não de simples sangue, mas de corpos, de jogos, de poder e vertigem. É que o vampiro intuía agora que de nada ou de pouca coisa valia seus esforços por encontrar sentido último na vida. Por meio de seus encontros atrozes com a deusa Nix, Velian entendia que, por mais magia que estudasse, não iria descobrir uma verdade última sobre a vida, que era imensa e se desdobrava demais até para ele. Com isso, o vampiro não pretendia deixar de lado seus estudos, pois percebera que sempre haveria mais coisas para entender, e, no processo, ficar ainda mais forte e poderoso.
Da varanda alta de um edifício antigo, o vampiro contemplava a cidade. Fortaleza estendia-se como uma tapeçaria noturna de luzes, fumaça e mar distante. E apesar de o vampiro admirar a cidade de vez em quando, ele não buscava beleza contemplativa; buscava movimento, carne, pulsares. Com um sorriso enviesado, lançou o chamado: não súplica, mas desafio. Convocou Cassandra por meios telepáticos. Não a queria como lembrança, mas como chama. Queria testá-la, tê-la ao lado, enfrentá-la no terreno mais fértil da luxúria, onde Cassandra era muito boa, melhor que ele na maioria das vezes, ele reconhecia. Só que, desta vez, o vampiro não se importava com quem fosse ganhar, se todos, no final, fossem ter prazer. O vampiro também se sentia recarregado em seu interior e sentia que estava preparado para Cassandra.
Ela veio. Surgiu como sombra lasciva em meio à escuridão e o breu do prédio em que Velian estava, o vestido colado à pele como promessa. Entre os dois, não havia saudade, apenas provocação. Ele a olhou como quem devora; ela riu como quem jamais se deixa conter. "Dessa vez foi rápido." — pensou o vampiro. Velian ainda não conhecia muito bem o poder da teletransportação, o vampiro precisava voar e percorrer longos caminhos, ainda que rápido, para chegar aos seus destinos.
— Ainda és capaz de me surpreender, Velian? — ela sussurrou, deixando o hálito frio roçar-lhe o pescoço.
— Não preciso surpreender, Cassandra. Preciso apenas… consumir.
A cidade se abriu para eles como palco obsceno. Primeiro, a boate pop, onde corpos reluzentes dançavam sob luzes de néon: ali sugaram a vitalidade de um casal, jovens que tremiam entre o medo e o êxtase. Depois, o subterrâneo rochoso do rock, onde o suor misturava-se ao sangue — um beijo rasgado em meio aos gritos das guitarras. Mais adiante, o caos punk, onde corpos se chocavam, e Velian se embebedou do gosto amargo de um rebelde, rindo ao ver Cassandra deixar marcas profundas nos ombros de uma mulher andrógina que se oferecia como oferenda. Por fim, o delírio ciberpunk: máquinas e carne, implantes cintilantes, olhos de néon. Ali, eles foram de todos e de ninguém — sorvendo, possuindo, misturando-se até que a madrugada não tivesse mais fronteira.
E então veio o chamado. Não humano, não terreno. Um som grave, como se as paredes vibrassem com a respiração de algo antigo. O ar magenta se adensou, dissolvendo a boate ciberpunk em ruínas úmidas. Diante deles erguia-se o Castelo Drácula, vivo, pulsante, enraizado em sombras.
Velian e Cassandra trocaram um olhar de puro gozo: a noite apenas começava.
Entraram. No salão principal, criaturas os aguardavam. Vampiros menores reverenciavam ou invejavam sua presença. Fantasmas serpenteavam, oferecendo toques frios como beijos eternos. Lobisomens os observavam com uma fúria erótica, como se o desejo fosse tão grande quanto a raiva. E, entre colunas que se erguiam como membros retorcidos, pairavam entidades mais antigas — quase divinas, encarnações da noite e do prazer.
Tudo respirava sob o signo do magenta profundo: cor entre o rosa mórbido e o vermelho do sangue, ardendo como febre nos vitrais e nas peles. Cassandra gargalhou, e sua risada ecoou como chicote. Velian apenas abriu os braços, como se o castelo inteiro lhe pertencesse.
Ali, não havia mais mortais, não havia mais limites. Apenas a noite, o desejo e o abismo. E Nix, Senhora da Noite, invisível, mas presente, erguia-se como símbolo absoluto, assistindo ao jogo de poder e luxúria entre seus filhos imortais.
A Noite Magenta reinava.
O salão respirava como uma garganta viva. Cada sombra parecia observar, cada sopro de vento trazia perfumes de sangue e de incenso queimado. Cassandra caminhava como se fosse a própria sacerdotisa da luxúria. O vestido desfazia-se em transparências, e dela emanava a volúpia de uma rainha indomada. Velian a seguia com olhos cerrados de desejo e ironia, consciente de que a provocação dela só o inflamava mais.
Dizes que me consomes, Velian… — Cassandra deixou escapar num murmúrio rouco. — Mas e se fores tu o devorado?
— Que me devorem então — respondeu, mordendo-lhe o pulso delicado.
O sangue escorreu quente, vermelho e febril, e ambos sorriram como predadores cúmplices. Ao redor, os convidados da noite se aproximavam. Uma vampira jovem, de olhos cinzentos, ajoelhou-se diante de Cassandra, oferecendo-lhe o pescoço. Cassandra aceitou com a delicadeza cruel de quem colhe uma flor para logo esmagá-la. Velian, observando, riu baixo.
— Sempre a rainha de súditos desesperados.
— E tu, sempre o cavaleiro que finge desdém, mas não resiste a entrar no jogo.
Um lobisomem se ergueu da sombra. O corpo musculoso, marcado de cicatrizes, observava-os com fúria erótica. Velian estendeu-lhe a mão e, num gesto inesperado, arrastou-o para perto. Beijou-lhe a boca com violência, arrancando-lhe um uivo de prazer e dor. Cassandra gargalhou, e o eco da risada fez os fantasmas estremecerem.
Velas altas ardiam em magenta, tingindo as paredes de febre. Entre colunas retorcidas, ninfas espectrais surgiam — seres de pura energia que tocavam com mãos etéreas, provocando tremores de êxtase. Uma delas deslizou por entre Cassandra e Velian, sussurrando um canto sem palavras. Velian fechou os olhos: o toque frio era como mergulhar em abismos de desejo sem fundo.
No centro do salão, uma mesa de pedra negra cobria-se de taças com sangue aromatizado por flores espinhosas. Ali, Cassandra puxou Velian pelo colarinho e o empurrou contra a superfície dura. O beijo deles foi brutal, quase uma batalha.
— És meu inimigo e meu deleite — ela sussurrou.
— E tu, Cassandra, és minha perdição favorita.
A sala inteira parecia vibrar em torno deles. Os outros seres — vampiros menores, fantasmas, lobisomens — não apenas assistiam, mas participavam, entregando-se a toques, beijos, mordidas, formando uma espiral orgiástica de desejo e violência. A noite pulsava como um coração colossal.
E, acima de tudo, Nix, Senhora da Noite, pairava invisível, mas inegável. Velian sentiu sua presença como sopro no pescoço, como mão invisível sobre o peito. Era mais que luxúria: era o eterno chamado da escuridão, o ventre cósmico de onde nascia o desejo.
Por um instante, Velian fechou os olhos. O tempo não existia — apenas ciclos de prazer, sangue e silêncio. A melancolia se dissolveu no delírio magenta, e até o vazio se transformou em alimento.
Era ali, entre o amor e o abismo, que agora ele se sentia mais vivo.
Ninfas dançavam entre pilares de pedra, seus corpos translúcidos refletindo tons rubros, que se misturavam à penumbra do castelo. Velian sentiu o chamado: não havia necessidade de força, apenas de entrega ao êxtase que o rodeava. As criaturas o cercavam, e cada toque era como eletricidade: não física, mas metafísica, percorrendo a sua forma vampírica em ondas de calor e frisson. O desejo era profundo, não vulgar — um trago da própria eternidade.
— Velian — murmurou uma voz etérea, deslizando pelo corredor como fumaça de incenso. Era uma das ninfas, seu corpo esculpido em curvas impossíveis, os olhos refletindo auroras de cores também impossíveis — Você sente? Não é fome, não é sede. É vontade de tudo possuir, e ainda assim nada deter. É o prazer do infinito que nos rodeia.
— Sinto — respondeu Velian, a voz baixa e rouca, reverberando nas paredes úmidas — Sinto o vazio e o desejo, tudo ao mesmo tempo. Sinto o poder de existir, mesmo sem precisar do desespero.
— E ainda assim há ironia em ti — disse outra presença, um fantasma andrógino que se aproximava por entre as colunas, roçando sua essência contra a aura de Velian — Tens força para moldar mundos, e escolhes caminhar por entre sombras, provando prazer do etéreo. É humano demais, ou vampiro demais?
O Castelo Drácula os envolveu com seus corredores labirínticos, onde o tempo se curvava e cada sombra parecia palpitar com vida própria. Velian, pulsando com uma energia voraz e confiante, sentiu a presença das criaturas — fantasmas translúcidos, ninfas que ondulavam entre a penumbra, e seres andróginos cujos olhos brilhavam com segredos antigos. A respiração de todos se mesclava ao ar denso, impregnado de aromas doces e metálicos, uma fragrância que falava de desejo e eternidade.
— Aqui, até o silêncio tem gosto de sangue — murmurou Cassandra, deslizando ao lado de Velian, sua voz quente como veludo, provocando arrepios nos seres que os observavam. — Cada respiração, cada toque, cada olhar é uma dança de poder.
Velian sorriu, mordendo o lábio com malícia. Ele não buscava humanos agora — apenas o calor vivo e intenso dessas entidades que respiravam o mesmo abismo e compartilhavam da mesma sede. Ele tocou uma das ninfas, sentiu sua pele etérea vibrar entre seus dedos, e percebeu como o prazer e o medo se entrelaçavam, como se cada suspiro fosse um cântico antigo, uma oração esquecida.
Entre risos e murmúrios, seres com corpos andróginos aproximaram-se, oferecendo olhares que queimavam e mãos que provocavam pequenas faíscas de eletricidade na pele. Velian aceitou o jogo com destreza, sua presença um magnetismo de desejo que atraía e incendiava cada ser à sua volta. Cassandra, sempre altiva, seguia seus passos, brincando de dominadora e cúmplice, deslizando sobre os corpos que se curvavam e arqueavam sob a tensão do prazer.
— Não é só sobre matar ou seduzir — disse Velian, a voz grave, o olhar em chamas, enquanto uma sombra de fantasma cruzava seu corpo — é sobre sentir a eternidade no toque, no êxtase, na fusão do desejo e da vida que pulsa por trás da escuridão.
— E ainda assim — replicou Cassandra, arqueando a sobrancelha, os lábios tingidos de rubor de vinho — há sempre algo mais. Sempre há. O poder, o prazer, a fome… nada disso se compara ao que se encontra quando aceitas a profundidade da noite, e daquilo que somos. Tu queres sentir tudo, não é? E eu estou aqui para que sintas.
O toque, os olhares, o jogo de aproximação e afastamento criavam uma coreografia de luxúria e poder, onde o prazer era apenas o início da compreensão de algo maior — da eternidade, da solidão compartilhada e da beleza perversa de existir. Fantasmas e ninfas entrelaçavam-se, vozes sussurrantes cantavam cânticos indecifráveis, e a arquitetura do Castelo parecia responder, pulsando, expandindo-se, como se respirasse com cada desejo consumado.
Velian e Cassandra, lado a lado, abraçavam a escuridão, percebendo que cada toque, cada carícia, cada arrepio era uma reafirmação de sua própria condição: eternos, sedentos, livres, mas ainda assim ansiosos por sentidos, laços e descobertas. O Castelo os envolvia, a noite os consumia, e a sensação de pertença àquilo que era maior que a própria vida os incendiava por dentro.
— Aqui, no fim, — murmurou Velian, sentindo a vibração de Nix, senhora da noite, pairando sobre todos — só o desejo e o vazio coexistem, e são eles que nos tornam mais vivos que qualquer mortal.
Cassandra sorriu, e juntos, absorvendo cada ser, cada suspiro, cada presença, permaneceram na dança eterna do Castelo, entregues ao prazer, ao poder e à própria eternidade, até que o vento metálico do limiar sugeriu que novas descobertas os aguardavam, e que a noite jamais terminaria.
O Castelo Drácula tremia. As paredes antigas estalavam como se quisessem expelir séculos de segredos, e as torres pareciam ceder ao peso da própria eternidade. Velian sentiu o chão vibrar sob seus pés, o ar metálico da noite se tornando denso demais, quase líquido, como se o próprio limiar se desfizesse. Fantasmas, ninfas e seres andróginos evaporaram em brumas ondulantes, deixando apenas o eco de suspiros e risadas antigas. O desejo, intenso e febril, continuava a arder dentro dele, mas o Castelo parecia avisá-lo: era hora de retornar.
Em um instante que durou simultaneamente uma eternidade e um sopro, Velian sentiu o mundo girar, e tudo desmoronar ao redor. A última visão do abismo do Castelo se desfez, e ele despertou.
O amanhecer já tocava Fortaleza. Raios de sol pálido atravessavam a cortina do quarto, dourando o ar ainda impregnado do calor da noite. Cassandra dormia ao seu lado, seus cabelos negros espalhados como sombras luxuosas sobre o travesseiro. O perfume dela misturava-se com o aroma do café da manhã não feito e o leve toque do sol nascente. Cada curva de seu corpo era uma promessa silenciosa, cada respiração, uma melodia antiga que atravessava os séculos.
Velian a observou, os olhos absorvendo cada detalhe: a delicadeza da pele, o arrepio dos fios de cabelo, o ritmo perfeito da respiração. Um sorriso lento curvou-lhe os lábios, a ironia e a certeza de si próprios entrelaçadas.
Revisado por Sahra Melihssa
As Crônicas de Velian: Divagações da Imortalidade
Velian, sob a maldição ou bênção da imortalidade vampírica, percorre as ruas de Fortaleza, mergulhado em reflexões sobre sua existência eterna. Em meio a angústias e silêncios, ele confronta os dilemas do tempo, da vida e da morte, questionando o sentido e os limites da razão. Ouvindo um chamado visceral do Castelo Drácula, Velian mergulha em divagações introspectivas, onde a busca por respostas é ainda mais complexa e a solidão, ao lado da melancolia, levam-no a vivências atormentadoras. » Leia todos os capítulos.
Weslley Cunha
Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Velian: Sob o Chamado de Nix
Voltava do Rio de Janeiro, onde estivera com Cassandra — e, embora não quisesse nomear a saudade, ela se insinuava, discreta, como aquele…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Voltava do Rio de Janeiro, onde estivera com Cassandra — e, embora não quisesse nomear a saudade, ela se insinuava, discreta, como aquele odor residual que permanece na pele mesmo depois de muitos banhos. O que fora dito, o que fora silenciado, tudo seguia reverberando dentro dele, como as ondas mansas do mar que vira na partida, batendo sem pressa na memória.
Agora, Fortaleza o recebia novamente, com suas ruas quentes mesmo à noite, onde o suor se misturava ao sal do ar, e os prédios se erguiam como colossos cansados, com as fachadas descascadas pela maresia e pelo tempo. A cidade vibrava em outra frequência, mais bruta, mais nua, mais próxima da pele.
Velian caminhava pelas calçadas irregulares da Aldeota, depois cruzou lentamente o Centro, onde vitrines fechadas refletiam sua figura alongada, espectral, entre restos de lixo e placas enferrujadas. Não tinha pressa.
Procurava sangue, sim — como sempre — mas não apenas para se alimentar ou tentar saciar-se, e sim como quem deseja, ainda que secretamente, sentir-se parte de alguma coisa: um olhar, uma troca de palavras, um encontro improvável no meio da noite suada de uma cidade que parecia tão alheia quanto qualquer outra.
A cada passo, sentia a carne mais densa e o espírito mais leve, como quem se desloca gradualmente entre dois mundos. O Rio ainda latejava nele, com o cheiro doce das manhãs à beira-mar e as conversas enigmáticas com Cassandra, aquela que sempre o fazia sentir-se ao mesmo tempo mais forte e mais vulnerável. Ela ficara — e ele voltava a vagar, como sempre.
Havia ironia nisso, claro: uma criatura tão antiga, tão cheia de histórias, e, ainda assim, eternamente condenada a buscar um sentido nas ruas de cidades modernas, iluminadas por néons decadentes e com o asfalto rachado expondo raízes velhas que insistiam em romper a ordem dos homens.
Mas, naquela noite, algo o atravessou.
Não foi uma voz, nem um clarão súbito. Foi uma espécie de tração invisível, como um músculo antigo que, mesmo atrofiado, ainda sabe se mover.
O Castelo Drácula o chamava.
Velian reconheceu o chamado não com surpresa, mas com aquela espécie de resignação cúmplice, como quem sabe que não poderia ser de outro modo. Sempre que retornava a Fortaleza, era assim: primeiro vagava, depois era puxado — nunca sabia ao certo quando ia acontecer, mas sempre acontecia. A cidade nunca o retinha por completo.
...vazios e, ao sair dali, sentiu que o ar se rarefezia, como se os elementos conhecidos do espaço urbano começassem a se dissolver.
Em poucos passos, já não estava mais na cidade.
O limiar era tênue, quase imperceptível: o concreto quebrado do calçamento cedia lugar ao solo úmido, coberto de folhas mortas, e o som abafado do trânsito se extinguia, substituído pelo sussurro grave das árvores e o canto noturno de pássaros invisíveis.
A floresta sagrada que envolvia o Castelo Drácula o recebia como sempre — sem alarde, sem cerimônia, mas com a gravidade de quem reconhece um de seus.
As ruínas esquecidas surgiam entre as folhagens como espectros de um passado ainda mais antigo que o seu: colunas tombadas, altares carcomidos, fragmentos de deuses anônimos soterrados pelo musgo e pelas raízes. Velian passava a mão sobre uma dessas pedras frias, como quem saúda um irmão adormecido.
E ali, sem necessidade de invocação, a presença se fazia sentir: Nix.
Desta vez, a senhora da noite não apareceu personificada, como figura, nem como entidade delimitada, mas como princípio. A Senhora da Noite. A vastidão que acolhe e engole tudo, a mãe e o túmulo, o véu e o abismo, Mas, Velian sabia que ela estava lá.
Velian ergueu os olhos. O céu, opaco, parecia mais uma pele translúcida do que uma cúpula infinita. Entre os galhos entrelaçados, as estrelas apenas sugeriam sua existência, veladas pelo manto de Nix.
“Salve, Senhora”, disse, quase como quem saúda uma velha amiga — com respeito, mas também com uma ponta de ironia que não conseguia extirpar nem mesmo diante do mistério absoluto.
Continuou caminhando entre as ruínas, sentindo a umidade das folhas sob os pés, o aroma profundo da madeira apodrecida e da terra revirada. Aquelas eram as relíquias que verdadeiramente o comoviam — não os objetos das cidades, não os monumentos de concreto, mas esses sinais silenciosos de uma eternidade que se consome lentamente, mas nunca desaparece por completo.
O Castelo Drácula ergueu-se, enfim, diante dele, imponente e mutilado, com suas torres fendidas e os vitrais quebrados deixando entrar feixes aleatórios de luar que se desfaziam como fumaça.
Velian parou um instante antes de cruzar o limiar. Respirou fundo, não por necessidade — a respiração, há muito, perdera o sentido biológico — mas, como quem deseja ainda sentir o ar, como quem quer lembrar que ainda é corpo, mesmo sendo, sobretudo, espírito.
Sentia-se vazio e cheio ao mesmo tempo.
Carregava a melancolia inevitável de quem já vira demais, perdera demais, desejara demais. Mas também uma esperança tênue — um traço de luz sob as cinzas do tempo, um resíduo de fé na possibilidade de que, ainda assim, pudesse encontrar um outro, ou um outro sentido, ou apenas o próximo capítulo de sua própria errância.
Sorriu sozinho, ali, diante do portão entreaberto, como quem reconhece o paradoxo: a busca infinita, a travessia interminável, mas, ainda assim, o desejo de continuar.
Adentrou o castelo, as paredes úmidas absorvendo sua figura como um líquido escuro.
E ali, naquele breve intervalo entre o fora e o dentro, o antes e o depois, percebeu mais uma vez a estranha maleabilidade do tempo.
Para os homens, o tempo é linha, é flecha, é cronologia. Para ele, o tempo era mais: um tecido espesso e ondulante, ora nó, ora fenda, ora espiral.
As noites de Fortaleza e do Rio de Janeiro sobrepunham-se agora como véus transparentes: o mar ao longe, o cheiro das frutas na calçada, o calor da pele de Cassandra, a textura úmida das ruínas, o hálito frio de Nix. Tudo coexistia, simultâneo e indistinto.
Não havia passado que se encerrasse, nem futuro que prometesse redenção. Apenas camadas, justapostas, ressoando umas nas outras, como ecos infinitos numa caverna sem fundo.
E, contudo, havia ali, naquele excesso, uma espécie de melancolia mansa: a constatação de que nenhum instante se perde, mas, também, de que nenhum pode ser plenamente revivido.
Velian sabia que continuaria a atravessar cidades, florestas, corpos e séculos, sempre tocando o tempo com a ponta dos dedos, mas, sem jamais poder retê-lo entre as mãos.
Essa percepção, contudo, não o paralisava. Ao contrário: alimentava aquela esperança sutil que, como uma lâmina fina, cortava a densidade da noite.
Ainda que tudo fosse transitório, ainda que tudo fosse simultâneo e indomável, ele continuava.
E esse continuar não era desespero, mas, uma escolha — ou talvez, mais honestamente, uma necessidade inscrita em sua própria natureza.
Sorriu sozinho, ali, diante do portão entreaberto, como quem reconhece o paradoxo: a busca infinita, a travessia interminável, mas, ainda assim, o desejo — sempre o desejo — de seguir adiante.
Adentrou o castelo, as paredes úmidas absorvendo sua figura como um líquido escuro.
E ali, sob o olhar invisível de Nix, senhora do mistério e do silêncio, Velian seguiu.
Como sempre.
Como nunca deixaria de ser.
As Crônicas de Velian: Divagações da Imortalidade
Velian, sob a maldição ou bênção da imortalidade vampírica, percorre as ruas de Fortaleza, mergulhado em reflexões sobre sua existência eterna. Em meio a angústias e silêncios, ele confronta os dilemas do tempo, da vida e da morte, questionando o sentido e os limites da razão. Ouvindo um chamado visceral do Castelo Drácula, Velian mergulha em divagações introspectivas, onde a busca por respostas é ainda mais complexa e a solidão, ao lado da melancolia, levam-no a vivências atormentadoras. » Leia todos os capítulos.
Weslley Cunha
Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Sob o Véu da Noite: Velian e o Abismo
O vento cortante do Rio de Janeiro soprava com hálito de tempestade, uivando entre as rachaduras dos prédios…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O vento cortante do Rio de Janeiro soprava com hálito de tempestade, uivando entre as rachaduras dos prédios antigos como se os deuses da noite trovejassem advertências em línguas esquecidas. Em Copacabana, onde o mar se confundia com o céu de chumbo, Velian caminhava como um espectro pelas vielas iluminadas apenas por postes trêmulos. Seu corpo parecia não pertencer àquele tempo. Seus olhos — sombreados por dúvidas e ecos de existências anteriores — buscavam algo que não se nomeava: talvez consolo, talvez uma resposta, talvez apenas um instante de silêncio.
Ao chegar à cobertura de Cassandra, um dos últimos refúgios onde o luxo e a decadência coexistiam como amantes cansados, foi recebido com o cheiro inebriante de rosas escuras e sangue fresco. O perfume era tão antigo quanto as paredes decoradas com tapeçarias negras e espelhos entalhados em molduras de ossos e marfim. A luz vermelha banhava o aposento como se a própria luxúria tivesse se tornado luminária.
Cassandra estava ali — de pé diante da sacada, alta, imponente, cabelos longos e ondulados escorrendo pelos ombros como serpentes de ébano. Os lábios, tingidos por batom e sangue, exibiam o vermelho da fome e do sarcasmo. Sua presença, mesmo silenciosa, falava mais do que muitos discursos mortais. Quando se virou, os olhos brilharam com aquele tom perigoso de quem conhece a verdade, mas prefere rir dela a se curvar.
— Ainda vives com teus dilemas existenciais, Velian? — disse ela, cruzando os braços nus e perfumados. — Sempre essa tua sede insaciável por sentido. É tão… humano.
— Tu sabes que não é simples — respondeu ele, pousando a capa encharcada sobre a cadeira. — A eternidade exige mais que apenas sobreviver. Ela exige… compreender.
Cassandra soltou uma risada baixa, melódica, quase cruel.
— Compreender? Olhe pela janela, querido. Veja essa cidade. É sangue, sexo, vício e ganância. Não muito diferente de nós. A diferença? Eles morrem. Nós… não temos esse luxo.
Ela caminhou lentamente até ele, e suas palavras ressoavam como encantamentos cortantes:
— Queres saber o sentido da vida? É poder. É gozar do que o tempo não pode apagar. É dominar. Se não dominas, és dominado. E tu, Velian, estás sempre vacilante entre querer destruir e querer entender. Isso te enfraquece.
Velian cerrou os punhos. A tensão entre eles era elétrica. Não havia medo, mas respeito — o tipo perigoso, como o que se sente diante de uma fera indomável que por capricho ainda não devorou.
— Cassandra… o Castelo Drácula… eu estive lá. Em suas múltiplas dimensões. Há algo ali… ancestral, devorador. É como se o próprio vazio tivesse se assentado naquele trono de trevas.
Os olhos de Cassandra brilharam, desta vez com algo próximo da admiração.
— Ah, então enfim provaste do ventre de Soramithia. A ponte entre o fascínio e o terror… Eu conheço suas entranhas, Velian. Sei onde a escuridão deixa de ser símbolo e se torna carne. Vem comigo. Levar-te-ei a uma das câmaras esquecidas do castelo, onde a treva é mais densa que o tempo. Talvez ali encontres o que tanto procuras.
No Coração do Abismo: ou quando até os monstros sentem falta de si mesmos
O portal se abriu como uma ferida antiga na pele do mundo.
O ar da dimensão de Soramithia tinha gosto de ferro e orvalho podre. Era como respirar através do pulmão de um cadáver encantado. Velian entrou primeiro, não por coragem, mas porque preferia cair antes de hesitar.
— Bem-vindo ao útero da tua alma — disse Cassandra, com aquele sorriso que misturava erotismo e ameaça. A capa dela ondulava como fumaça viva. Seus pés não pareciam tocar o solo. Talvez nunca tivessem tocado.
O castelo se erguia na paisagem de uma realidade que já não reconhecia o tempo. Era feito de ossos negros, torres retorcidas e espelhos partidos, onde o reflexo recusava obediência. A cada passo, Velian sentia algo pressionar seu peito — como se o próprio lugar estivesse curioso sobre quem ele era.
— Soramithia… — ele sussurrou, testando a palavra na língua. — O nome soa como um gemido de flor morrendo. Poesia para os mortos.
— Ou um feitiço para os vivos que ainda não sabem que morreram — retrucou Cassandra, com a voz baixa, quase carinhosa.
Ela observava Velian com o cuidado de quem segura uma taça de vinho muito caro: sabendo que pode se partir, mas desejando sentir seu gosto até o fim.
Velian riu, um riso breve e sem humor.
— Este lugar fede a memória. A nossa, a deles, a de todos os que tentaram se salvar mergulhando. Sabe, Cassandra, às vezes penso que toda eternidade é só um eco mal interpretado.
Cassandra não respondeu. Seus olhos, negros como tinta fresca, pousaram sobre ele com uma intensidade silenciosa. Ela sabia que Velian falava mais por defesa do que por clareza. Ele cuspia sabedoria como uma lâmina afiada, mas por dentro ainda carregava o menino que sangrava pelas dúvidas que ninguém nunca respondeu.
Ao atravessarem a antessala do Trono das Raízes — uma estrutura viva de cipós petrificados que sussurravam em idiomas mortos —, Cassandra se voltou e o encarou.
— Aqui tu não és senhor de nada, Velian. Nem do teu próprio sangue. Soramithia exige entrega. Aqui, até tua ironia será comida pelas sombras. E só restará o que tu sempre foste.
Velian fechou os olhos por um instante. Queria responder com sarcasmo. Algo como: “Então me diga, minha adorável sacerdotisa da morte, o que eu sou, além de um vampiro entediado com uma libido filosófica?”
Mas não disse. Porque ele sentia. O castelo pulsava como um coração sombrio e antigo, e cada batida parecia esvaziá-lo um pouco mais.
Ali, ele se lembrava.
Da cela. Do frio.
Da fome.
Do som do próprio corpo sendo esquecido por si mesmo.
As memórias voltavam como fantasmas carinhosos e cruéis.
— Lembro do som da água escorrendo… — murmurou. — Tinha cheiro de ferrugem e abandono. Cada gota parecia zombar da minha sede. E sabe o mais curioso, Cassandra? Eu ria. Ria como quem sabe que o pior já aconteceu, e o resto é só detalhe.
Ela se aproximou lentamente. Tocou-lhe o rosto.
Mas não com piedade — com uma espécie de reverência sombria.
— Tu sobreviveste à prisão dos ancestrais sem enlouquecer. Pelo menos, não completamente. E ainda és belo. Ainda desejas. Ainda dúvidas. Isso… é o que mais me assusta em ti.
Velian ergueu uma sobrancelha, divertido.
— Está admitindo que sente medo de mim?
— Não. — Ela hesitou. — Estou admitindo que admiro tua fome. Essa sede por algo que nem sabes nomear. Como um cavaleiro medieval, perdido entre cruzadas sem cruz, buscando o Santo Graal de uma identidade impossível.
Silêncio.
Profundo.
Sagrado.
Eles se sentaram sobre o chão pulsante da câmara central. Abaixo deles, diziam, estava a raiz do mundo. A primeira gota de sangue. O primeiro erro.
Cassandra falou, olhando o vazio:
— O que tu és, Velian, não pode ser definido. Teu gênero dança entre o toque e o abismo. Tua fome mistura gozo e medo. Teu corpo recusa destino. Por isso tu sobrevives. E por isso me perturbas.
Velian sorriu, cansado. A voz saiu baixa:
— Eu sou a pergunta que nunca quer a resposta. Talvez isso seja o pior tipo de monstro. Ou o mais sincero.
Epílogo: Os Lábios da Noite
Mais tarde, deitados sob os véus de névoa da câmara íntima de Cassandra, os dois corpos se enroscavam como raízes em busca de luz. As paredes pulsavam um brilho orgânico, como se a própria estrutura do castelo respirasse junto com eles. O chão sob a pele lembrava carne morna, viva, e os sussurros das almas seladas nos pilares continuavam, mas agora pareciam cânticos distantes — respeitando aquele instante como se fosse um ritual.
Cassandra o observava como quem contempla um eclipse: com medo e êxtase. Seus dedos traçavam linhas invisíveis no peito de Velian, como se lesse nele um livro de sombras escritas em linguagem esquecida. Ele, por sua vez, fingia sono, mas sentia tudo: o cheiro de incenso e sangue ressecado; a textura da pele dela, queimada pelo tempo e ainda assim macia; o peso do mundo antigo repousando sobre o silêncio.
Ela se aproximou, colando os lábios no ombro dele, e murmurou com um fiapo de voz:
— Amanhã te odeio de novo.
O tom era quase maternal, mas carregado de ironia triste.
Um riso cruzou o canto da boca de Velian.
— Só amanhã? Que generosidade repentina… — provocou, abrindo os olhos, revelando um brilho âmbar que os séculos não apagaram.
— Esta noite eu te pertenço um pouco — completou ela, como se ignorasse o sarcasmo, mas sem deixar de notar o calor que aquilo gerava entre os dois.
Velian a fitou por um momento longo demais. A penumbra tremulava com as brasas de velas verdes e negras, e por um instante, ela viu nele não o vampiro desafiador, mas o homem anterior a todas as máscaras. A criatura ainda em busca. A alma inquieta que jamais aceitou o conforto da resposta fácil.
— Um pouco é tudo o que se pode ter de alguém como eu — respondeu ele, sério agora, sem teatro. Havia cansaço no olhar. Mas também havia desejo. Desejo de existir. De ser tocado para além da carne.
Fizeram amor como se cada toque fosse uma última chance. Como se seus corpos guardassem segredos que só o atrito revelaria. A língua dele desenhou runas em sua barriga. As unhas dela se cravaram em suas costas como tatuagens rituais. A cada gemido, a estrutura de Soramithia tremia levemente, como se o castelo reconhecesse que dois de seus filhos mais antigos estavam — por um breve instante — vivos de verdade.
Ela gemeu seu nome como quem invoca um deus. Ele sussurrou o dela como quem confessa um pecado.
E então vieram as mordidas. Lentamente. No pulso. No pescoço. Na virilha. Ambos sangraram. Ambos beberam. Os fluidos se misturaram. A eternidade estremeceu.
Quando o silêncio caiu de novo, espesso como névoa de pântano, Cassandra repousou a cabeça sobre o peito dele. Tocou-lhe o esterno, sentindo algo bater lá dentro. Um resto de batida. Uma ilusão? Talvez. Mas não menos real.
— Ainda tens alma, Velian… — ela disse, com a voz embargada. — E isso é o que mais me desespera. Porque tua alma é selvagem. Tu podes destruí-la a qualquer instante. Ou usá-la pra nos destruir a todos.
Ele passou os dedos pelo cabelo dela, enredando os fios longos e escuros entre os próprios. Não respondeu de imediato. Apenas olhou o teto da câmara, onde formas estranhas se moviam, como se fossem lembranças encarnadas em sombra líquida.
Depois, falou com a voz mais grave, baixa e firme:
— Eu sou o que resta quando a fé morre e o desejo sobrevive. Sou o cavaleiro que nunca encontra a relíquia. Que se apaixona pelo caminho, mas odeia cada estrada. Eu sou a fome que pensa.
Ela ficou em silêncio. Não por falta de palavras — Cassandra nunca as perdeu —, mas porque ali, deitada com ele, sabia: aquele era o momento mais íntimo que já viveram. E talvez o mais frágil. E talvez o último.
Mesmo partida, ela o admirava.
Admirava o fato de ele duvidar. De ele sangrar. De ele se recusar a tornar-se máquina, lenda ou servidão. Havia nele uma nobreza antiga, torta, quase extinta — como um livro que sobreviveu a todas as fogueiras.
“Mesmo partido," pensou, "tu és mais perigoso que todos os reis que beijei. Porque tu duvidas. E um monstro que duvida… é capaz de fazer o impossível.”
Ela fechou os olhos.
E por um instante, talvez um único,
o castelo adormeceu com eles.
As Crônicas de Velian: Divagações da Imortalidade
Velian, sob a maldição ou bênção da imortalidade vampírica, percorre as ruas de Fortaleza, mergulhado em reflexões sobre sua existência eterna. Em meio a angústias e silêncios, ele confronta os dilemas do tempo, da vida e da morte, questionando o sentido e os limites da razão. Ouvindo um chamado visceral do Castelo Drácula, Velian mergulha em divagações introspectivas, onde a busca por respostas é ainda mais complexa e a solidão, ao lado da melancolia, levam-no a vivências atormentadoras. » Leia todos os capítulos.
Weslley Cunha
Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Velian – O Som das Engrenagens na Eternidade
Velian caminhava entre as sombras de Fortaleza, sentindo o cheiro de maresia misturado ao ferro enferrujado dos portos e ao suor adocicado…
Criatura núrida, tu estás prestes a ler um dos capítulos da história de Velian, um vampiro cuja profundez existencial é capaz de tocar em nossos modos-de-ser, nos imergindo em reflexões existenciais de inestimável valor. O autor tem uma técnica fascinante para que a leitura, ainda que densa em existencialidade, nos desperte um inenarrável prazer, dada a sua qualidade literária. Aprecie e boa leitura!Com sombrio apreço, a Anfitriã Sahra Melihssa
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Velian caminhava entre as sombras de Fortaleza, sentindo o cheiro de maresia misturado ao ferro enferrujado dos portos e ao suor adocicado das ruas noturnas. Pensava o vampiro que em outros tempos as ruas das grandes cidades que conhecera, como Londres, Amsterdã, Paris, entre tantas outras, eram ruins em épocas diferentes, por motivos diferentes, como pestes, pobreza e muito mais, Porém agora tudo era ruim porque parecia muito mecânico, mesmo com o suor das danças noturnas, com a sobrecarga de trabalho dos humanos e todo o sofrimento, parecia para Velian, que havia uma sombra pairando a humanidade, principalmente nas grandes zonas urbanas, em que tudo era muito, muito mecânico, pensava Velian sobre a vida nesses últimos meses, em suas idas e vindas pelo Castelo Drácula. Velian tinha certeza de que o Castelo Drácula era uma manifestação de outras dimensões, seu conhecimento espiritual e de ser sobrenatural lhe davam essa certeza.
Porém o Vampiro sabia também que o Castelo lhe mostrava muito de seu mundo interno e ele às vezes ficava confuso e se perguntava se realmente era digno de entrar no Castelo por não entender muitas vezes as simbologias, mensagens e significados das várias dimensões do Castelo Drácula. Por vezes Velian desejava encontrar o próprio Drácula, mas sempre era submetido a entrar em outras camadas do Castelo e conhecer diferentes seres. Velian não estava tão confortável em apreciar apenas vagamente esses seres que às vezes lhe provocavam medo e o vampiro tinha que lutar e se dispor de todos os seus poderes para encarar tais seres grandiosos, mas que ia e vinham brevemente. Voltando a pensar sobre sua vida em Fortaleza e a observar como vivia, percebeu: as luzes dos postes piscavam sobre as calçadas rachadas, refletindo o mundo moderno que parecia ao mesmo tempo imutável, decadente e repetitivo. Fazia meses que sua fome se tornara diferente — não era apenas por sangue, mas por algo que ele ainda não sabia nomear.
Matara mais do que o habitual. Seduziu mulheres e homens com beijos e promessas vazias, apenas para desaparecer de suas vidas e os deixar no desespero do abandono. Gostava da ilusão de controle, de ver os corações partidos como espelhos estilhaçados refletindo fragmentos de sua própria alma quebrada. Mas nada disso o preenchia. Nem a caça, nem o desejo, nem o caos que espalhava ao redor. Ele se perguntava se algum dia voltaria a realmente sentira prazer nesses jogos ou se tudo não passava de um reflexo pálido do tédio e da insatisfação.
Ele olhou para o céu. Cinzento. Impessoal. Como se o universo estivesse indiferente à sua presença.
E então o chamado veio. Velian entendia que precisava de mais tempo para outro sobressalto do Castelo e uma outra dimensão que apenas iria novamente, mas ainda assim o chamado veio.
O Castelo Drácula sempre o convocava quando sua alma estava prestes a afundar demais na monotonia do mundo. Sentiu o puxão em seu peito, como se algo arrancasse sua consciência da cidade e a atirasse para um outro lugar. O vento mudou. O cheiro de ferrugem e vapor substituiu a maresia. O calor úmido do Ceará deu lugar a um frio metálico. Quando abriu os olhos, não estava mais em Fortaleza.
Estava diante do Castelo. Mas ele não era o mesmo (como sempre).
O Som das Engrenagens
As engrenagens giravam nos cantos mais improváveis. Tubulações surgiam dos muros, exalando vapor denso. Os corredores pareciam agora parte de uma máquina viva, movendo-se lentamente, respirando em estalos metálicos. O céu era tomado por uma poeira dourada que obscurecia as estrelas, e no horizonte dois sois ardentes se erguiam, lançando uma luz acobreada sobre tudo.
Velian caminhou pelo pátio, sentindo o chão de metal frio sob seus pés. Uma sensação de inevitabilidade o tomou. Era como se estivesse dentro de um mecanismo muito maior do que sua compreensão. Tudo era efêmero, tudo seguia uma programação invisível. Ele, um vampiro há séculos no mundo, poderia ser imortal, mas diante da engrenagem do destino, até mesmo ele parecia insignificante.
Foi então que a viu.
No centro do pátio, entre as engrenagens e o vapor, uma mulher de manto negro que o vampiro identificou como a mesma mulher da última visita. Tudo ao seu redor era diferente, mas a mulher, sua presença e sua poderosa energia eram a mesma, Velian ficou até feliz de ver o mesmo ser, mesmo em outra dimensão, ela caminhava lentamente, guiando um pequeno rebanho de cabras negras, como da última vez. Seu cajado de carvalho era encimado por uma pedra negra, pulsante como um coração. Havia algo de bruxa nela. Algo de vampira. Algo de deusa ancestral que existia antes mesmo que os mundos tivessem forma. Velian se preparava para ter com esse ser e não podia ser coincidência que ela ali estivesse novamente.
Ela o olhou, e sua voz cortou o silêncio com um tom que não pertencia a este tempo.
— Tu andas perdido, como sempre.
Velian cruzou os braços, sentindo o incômodo de ser lido tão facilmente.
— E há outro caminho a seguir? A não ser a dúvida? A não ser a angústia?
Ela sorriu de forma enigmática.
— A engrenagem gira, e essa dimensão representa apenas isso – as faces das eras não param, apesar da monotonia de alguns instantes, mas não és tu quem a move. Tens vivido como se buscasses o sentido nas ruínas do desejo, nas cinzas das paixões destruídas. Mas até quando?
Ele desviou o olhar para os dois sois difusos.
— E qual seria a alternativa? Seguir um destino rígido? Aceitar um papel pré-escrito? Como essas engrenagens malditas dessa dimensão, seja lá qual for ela? Se tudo está conectado por engrenagens invisíveis, há como quebrar esse ciclo?
Ela se aproximou, e o cheiro de terra antiga, ferrugem e sangue fresco emanou dela.
— A dúvida te corrói, mas também te mantém vivo. No dia em que parares de perguntar, serás apenas mais uma peça nessa máquina infinita. Há tempos olhas para a eternidade e te perguntas o que fazer com ela. Mas eu te digo… o que fazes com um único instante?
Velian a fitou. Sua presença era hipnótica. Ele sentia que, de algum modo, tinha aprendido algo, ou entendido algo, mas ainda não sabia o quê.
O vapor sibilou ao redor deles, e, por um breve momento, tudo pareceu congelar. A mulher sorriu novamente antes de desaparecer na névoa dourada.
Mas Velian não gostava daquilo. Um mundo de engrenagens para ele, um ser romântico nos termos de um poeta louco, seu sentir demais, não gostava daquele mundo que agora pairava sobre ele, desejou ainda dialogar mais que esse ser ancestral que ia e vinha das várias dimensões e desejou sair daquela dimensão em que estava, pois não gostava de engrenagens e do conceito de destino e de tudo ser meramente funcional, como as engrenagens naquela dimensão pareciam mostrar.
Entre a Máquina e o Sangue
Ele detestava a visão do Castelo transformado em uma prisão de engrenagens. A ideia de um destino rígido, de um ciclo que girava por si só, o enojava. O que era um ser imortal senão um errante sem caminho definido? Ele não queria ser parte de uma máquina sem alma, programado para existir sem sentir.
Foi nesse momento que compreendeu algo muito importante.
Não era o caos, a destruição ou o vazio que o movia. Não era a sedução para o abandono, o prazer na angústia alheia, nem o desejo de quebrar corações apenas para ver os estilhaços. Nada disso o preenchia. O que verdadeiramente o sustentava era a conexão, ainda que efêmera.
A troca de olhares no meio da noite. O calor de um corpo desconhecido em sua cama. O sussurro de um segredo que nunca seria repetido.
Não importava que os momentos fossem passageiros. Não importava que, no fim, tudo se dissolvesse no esquecimento. Enquanto duravam, eles eram reais. Com esse pensamento, ele decidiu que era hora de voltar.
Mudaria de identidade mais uma vez, deixando para trás o vampiro que devorava e destruía por tédio. Não se livraria de suas dúvidas, mas aprendera que elas eram parte dele. Não era assim também com a humanidade? A incerteza, o medo, a busca por sentido no vazio?
Talvez ele fosse, afinal, a personificação da humanidade.
Sempre teria questionamentos. Sempre sentiria o vazio corroer sua alma. Mas agora entendia que, no meio da escuridão, existiam fagulhas de conexão que tornavam a eternidade suportável. Em meia a devaneios e reflexões, olhou novamente para o mundo mecânico, mas tudo o que viu foi o topo do prédio em que estava após sua última cassada, estava de volta à velha capital cearense e estava feliz pela primeira vez de não estar em alguma dimensão perdida, principalmente aquela feita de engrenagens.
E talvez fosse a hora de visitar Cassandra.
Não para buscar respostas, o vampiro ponderou que respostas e conhecimento eram coisas diferentes, então decidiu partir em busca de Cassandra e de conhecimentos que nem ele conhecia bem, mas que a vampira ancestral, por mais debochada e irônica que fosse, dominava muito bem.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
Velian: No Limite do Vazio
Nos últimos meses, Velian entregou-se a um jogo silencioso de morte e desejo nos becos e esquinas da Fortaleza. Sua fome de sangue, antes um ritual…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Nos últimos meses, Velian entregou-se a um jogo silencioso de morte e desejo nos becos e esquinas da Fortaleza. Sua fome de sangue, antes um ritual de prazer e sobrevivência, tornara-se algo mais sombrio e impulsivo. Ele matava mais que o necessário, mas nunca de forma descuidada. Como um predador meticuloso, seduzia homens e mulheres com sua presença magnética, arrastando-os para noites de prazer e promessa, apenas para desaparecer sem deixar vestígios. Para alguns, deixava apenas um vácuo insuportável de paixão não correspondida; para outros, um destino mais definitivo, corpos drenados em quartos de motéis baratos, em vielas abafadas ou em apartamentos frios onde apenas o cheiro do sangue indicava que algo terrível havia acontecido.
Ele queria se sentir vivo, queria encontrar sentido em sua fome, em seu jogo de sedução e destruição, mas tudo o que encontrava era mais vazio. A paixão ardente dos amantes logo se tornava uma poeira esquecida, o terror dos moribundos se dissipava na banalidade da rotina da cidade. O caos que ele causava não lhe trazia nenhuma epifania, apenas uma sensação crescente de que estava fugindo de algo que nem mesmo compreendia.
Numa noite particularmente abafada, Velian se viu em seu quarto, um refúgio de sombras e silêncio, onde apenas a cidade distante, viva e indiferente, pulsava lá fora. Sentia-se cansado, exausto de sua própria existência. Estava farto das promessas de prazer e do gosto do sangue quente. Farto da imortalidade que não lhe trazia respostas, apenas mais perguntas sem solução. Ele se deitou dentro de seu caixão, não para descansar, mas para escapar.
Então, o chamado veio.
Ele sentiu o ar mudar, a realidade tremer. A grande cidade de Fortaleza ficou para trás, e, quando abriu os olhos novamente, estava no Castelo Drácula, envolto em névoa e frio. Os ventos obscuros rugiam contra as muralhas ancestrais, e flocos de neve dançavam no ar gélido, trazendo uma sensação de deslocamento impossível. O tempo havia se partido. O mundo, por um instante, parecia outra coisa, algo entre o real e o inexistente.
Ele caminhou lentamente pelos corredores da fortaleza até os portões exteriores, onde encontrou um mundo que não deveria estar ali. Casas estendiam-se ao horizonte, como se um lapso do tempo e do espaço tivesse arrastado toda uma civilização para dentro do limiar do Castelo. E foi ali, no meio desse cenário de distorção e silêncio, que a viu.
Uma mulher de manto negro, segurando um cajado de carvalho com uma pedra negra incrustada na voluta, guiava um pequeno rebanho de cabras negras. Seus olhos refletiam algo ancestral, algo que Velian não sabia nomear. Ela não parecia pertencer a esse mundo, mas tampouco destoava dele. Algo em seus olhos lhe diziam que ela conhecia a natureza vampírica, mas também não era um deles, parecia ser também uma magista poderosa e Velian já tinha conhecido bruxas e magistas grandiosas, mas era algo que não só dominava, mas que parecia possuir toda a magia conhecida e desconhecida do universo. Ela era como uma sombra que sempre estivera ali, pairando, apenas esperando que ele a notasse.
Ele se aproximou, sentindo um misto de irritação e fascínio.
— Quem é você? — Sua voz era baixa, arrastada, como se cada palavra fosse um peso que carregava há séculos.
A mulher ergueu os olhos para ele e sorriu levemente, um sorriso que era tão antigo quanto a noite.
— Sou a pergunta que nunca terá resposta, Velian.
Ele sentiu um arrepio percorrer seu corpo, não de medo, mas de algo mais profundo, um reconhecimento involuntário. Por meio de suas várias leituras ao longo dos anos sobre mitologias, deusas e deuses antigos, parecia que o vampiro estava diante da deusa da própria noite, conhecida pelos gregos pelo nome de Nix, uma deusa que até o própria Zeus temia. Mas Velian desejou continuar o diálogo com esse ser tão desconhecido, primordial e poderoso e em seu tom desafiador, crítico e sarcástico de vampiro secular respondeu:
— Eu já tive todas as respostas — murmurou, desviando como o olhar. — Mas nenhuma delas valeu de nada.
— Porque você fez as perguntas erradas.
O vampiro soltou uma risada irônica e amarga.
— Então me diga, qual é a pergunta certa?
A mulher tocou o cajado no chão, e a realidade ao redor deles pareceu oscilar, como se estivessem flutuando entre mundos.
— Por que você continua?
Velian ficou em silêncio.
— Você bebe sangue para sobreviver, mas não sente mais prazer nisso. Seduz humanos, mas não se importa com eles. Provoca paixões e abandona-as, mas isso não preenche nada. Mata, mas a morte se tornou banal. Então, por que você continua?
Ele sentiu a irritação crescer dentro de si.
— Porque não há outra opção. Eu existo, e essa existência tem um preço.
— Mas quem lhe disse que você precisa pagar esse preço assim?
O silêncio caiu entre eles. A mulher parecia esperá-lo chegar a uma conclusão por si mesmo.
Velian respirou fundo, um hábito humano que ele nunca abandonara.
— Eu sinto... como se estivesse abandonado pelo próprio universo. Como se nada importasse. Mas eu não quero desaparecer.
A mulher assentiu.
— É essa a verdade. Você não quer desaparecer. Você tem medo do vazio, mas também tem medo da existência. Então fica preso na dúvida, na monotonia, na repetição. Mas as dúvidas são sua única salvação.
Ele olhou para ela com um misto de desconfiança e curiosidade.
— Por que você diz isso?
— Porque são as dúvidas que o fazem continuar. O desejo morre, o prazer desaparece, as paixões são efêmeras. Mas a dúvida... essa nunca o abandona. É ela que o mantém de pé, mesmo quando você acredita que não há mais sentido. É ela que o faz buscar algo, mesmo sem saber o quê.
Velian sentiu um frio estranho percorrer seu corpo. Havia algo certo nas palavras dela. Algo incômodo, mas verdadeiro.
— Eu achei que espalhar caos e destruição me fizesse sentir vivo — admitiu, quase para si mesmo.
— Mas só o deixou mais vazio.
— Sim.
A mulher se aproximou, sua voz tornando-se um sussurro antigo, um eco de algo perdido no tempo.
— Então, pare de buscar sentido em fins e comece a buscar sentido no próprio caminho.
Velian sentiu um peso deixar seu peito, mas não sabia o que isso significava. Ele olhou para a mulher, mas ela já estava se afastando, desaparecendo na névoa.
— Espere. Quem é você, de verdade?
Ela virou-se uma última vez, e seus olhos brilharam como estrelas distantes.
— Eu sou o que você sempre soube, mas nunca quis aceitar.
E então, ela sumiu.
O Castelo Drácula retornou ao seu estado habitual, e Velian sentiu-se sozinho novamente. Mas, desta vez, a solidão parecia diferente. Ele não sabia explicar o que havia aprendido, mas sabia que algo dentro dele havia mudado.
Velian voltou para seu quarto, na cidade de Fortaleza, nordeste do Brasil e lembrou por que decidiu habitar ali, os costumes nordestinos e cearenses eram hilários, engraçados e as pessoas eram mais simpáticas e possuíam um animo para a vida diária que o fascinava, diferente da frieza europeia, e isso o despertou por um tempo, mas o vampiro também percebeu a pouca força, consciência e vontade de organização social para enfrentar problemas coletivos que a raça humana enfrentava ali naquela região e isso junto de todas as mazelas que já existiam também na antiga Europa e em outras partes do mundo.
Assim, mais uma vez, o vampiro entendeu seu tédio, sua chateação e medo do vasto mundo que parecia não parar de crescer de forma caótica sem uma finalidade e um sentido e Velian percebeu o quando ainda se apegava a essa ideia mortal de sentido e de coerência no vasto mundo e decidiu dormir um sono longo. Não porque estivesse cansado, mas porque precisava de introspecção. Apenas o Castelo poderia acalentá-lo, e ele esperaria até que fosse chamado novamente.
E, enquanto o vento soprava lá fora, trazendo consigo os sussurros da noite, Velian fechou os olhos, mergulhando na escuridão não apenas de seu quarto e seu caixão, mas também de seus próprios pensamentos.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
O Abismo da Vigília
Velian caminhava pelas ruas de Fortaleza, sob um calor que parecia abraçar a cidade com uma intensidade sufocante. O sol havia se posto há horas…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Velian caminhava pelas ruas de Fortaleza, sob um calor que parecia abraçar a cidade com uma intensidade sufocante. O sol havia se posto há horas, mas o asfalto ainda exalava o calor acumulado durante o dia. A cidade parecia viva, mas em um estado de convulsão, uma humanidade febril dividida por seus próprios abismos. Ele vagava entre os humanos como um espectador cínico, observando a banalidade e a tragédia de suas vidas.
Nos últimos dias, havia explorado os shoppings abarrotados, os corredores estéreis do aeroporto, os shows de rock onde os corpos se agitavam ao ritmo ensurdecedor da música. Cada lugar era um espelho fragmentado da humanidade: extremos de pobreza e riqueza coexistindo, separados por muros invisíveis, mas palpáveis. Velian percebia o desdém nos olhos dos privilegiados e a desesperança naqueles que lutavam para sobreviver. Humanos tinham nojo de outros humanos, e isso o fascinava e o enojava ao mesmo tempo.
Ele se sentia saturado. A degradação social, a superficialidade dos desejos e a hipocrisia das normas o exauriam. “Como pode eles se apegarem a algo tão vazio e, ainda assim, temerem o vazio verdadeiro?”, pensava. O que antes o atraía nos humanos — sua criatividade, seus impulsos, sua capacidade de amar e destruir com igual fervor — agora parecia reduzido a ecos de uma glória perdida. Velian ansiava por algo além da vigília, algo mais profundo do que essa realidade sufocante. Ele precisava escapar.
O Retorno ao Castelo
Naquela noite, recolheu-se à sua mansão à beira da Praia de Iracema. A casa era um refúgio de silêncio e sombra, isolada do barulho constante da cidade. Em seu quarto, onde a escuridão era absoluta, Velian sentou-se em uma poltrona forrada de veludo, fechou os olhos e começou a meditar. Ele não sabia ao certo o que buscava, mas seu desejo o guiava.
“Castelo Drácula” murmurou, como se invocasse um antigo pacto. “Leve-me de volta.”
E então, como se sua vontade fosse uma chave, sentiu o mundo mudar ao seu redor.
As Trevas Falam
O castelo o recebeu com o mesmo mistério de antes: vastos corredores de mármore negro, candelabros flutuando, o som distante de um piano. Mas desta vez, havia algo mais. Uma presença. As Trevas o envolveram como um véu pulsante, um manto vivo que parecia sussurrar diretamente em sua mente.
“Você voltou ao Castelo Drácula” disseram as Trevas, suas palavras ecoando como se viessem de todas as direções. “O que busca desta vez, Velian?”
Ele suspirou, mas sua resposta foi carregada de sarcasmo. “Talvez eu só queira me esconder da humanidade. Eles são tão... patéticos. Ou talvez eu queira me esconder de mim mesmo.”
As Trevas riram, um som profundo e reverberante. “Você não pode se esconder de nós. Somos as perguntas que você teme fazer, os desejos que não ousa admitir. Diga-me, Velian, o que você realmente quer?”
Ele hesitou, mas então respondeu: “Quero respostas. Sobre o que sou. Sobre o que é real. Sobre o que significa viver quando se está morto.”
“Ah, mas viver,” disseram as Trevas, “não é simplesmente desejar? O desejo, Velian, é a centelha que impulsiona o viver. Você deseja sangue, corpos, experiências. Deseja entender e ao mesmo tempo permanecer envolto em mistério. E ainda assim, teme seus próprios desejos, teme suas próprias dúvidas.”
Velian franziu o cenho. “E o que há para temer no desejo? Ele é tão natural quanto respirar.”
“Natural? Talvez,” responderam as Trevas. “Mas o que você diz do desejo que desafia todas as normas? Seu desejo pelo indefinido, pelo que transcende gênero, forma e limite? Você é atraído tanto pela carne quanto pela essência, tanto pelo masculino quanto pelo feminino — ou pelo que está entre, ou além. Isso o liberta, mas também o prende, não é?”
Ele sentiu as palavras como um golpe. “Eu não sou prisioneiro. Se há algo que sou, é livre.”
Livre?” questionaram as Trevas. “Livre para desejar, mas incapaz de compreender o que realmente deseja? Livre para existir em um corpo que transcende os limites humanos, mas ainda assim preso à dúvida sobre o que significa ser? E a liberdade, Velian, é realmente liberdade se está sempre acompanhada pelo medo do vazio?”
Reflexões Profundas
Velian ficou em silêncio, as palavras das Trevas ecoando em sua mente. Ele sempre se considerara livre — fluido em seus desejos, indefinível em sua identidade. Mas as Trevas estavam certas: essa liberdade vinha com um preço. Ele sentia a tensão entre a atração e a repulsa, o prazer e a culpa, o desejo de se fundir com algo maior e o medo de perder a si mesmo.
“Diga-me,” ele finalmente perguntou, “se viver é desejar, o que significa desejar algo que nunca pode ser alcançado?”
As Trevas pareceram sorrir, mesmo sem forma ou rosto. “Significa que você está vivo, Velian. Pois o desejo é a busca incessante, e a dúvida é o combustível dessa busca. Você busca a verdade, mas teme encontrá-la. Busca amor, mas teme a entrega. Busca a eternidade, mas se pergunta se ela não é apenas outro tipo de prisão.”
Ele fechou os olhos, tentando processar o turbilhão de pensamentos. “E a magia? – Não que Velian não soubesse dos grandes poderes da magia e conseguia executar até mesmo algumas grandes magias ancestrais em seus 700 anos de vida vampiresca, mas perguntava sobre a essência da magia – E os sonhos? Eles são reais ou apenas um reflexo do que queremos que seja real?”
“E se forem ambos?” disseram as Trevas. “O real e o irreal, o tangível e o etéreo. Como você, Velian, que é ao mesmo tempo carne e espírito, gênero e ausência, desejo e dúvida. Você não é um reflexo de sua própria magia?”
Velian sentiu uma onda de exaustão, mas também uma centelha de compreensão. As Trevas não davam respostas; elas apenas ampliavam as perguntas. E talvez fosse isso o que ele precisava.
De Volta à Vigília
Quando despertou, estava de volta ao seu quarto. O silêncio e a escuridão eram os mesmos, mas algo dentro dele havia mudado. As palavras das Trevas ainda ecoavam em sua mente, suas dúvidas e desejos pulsando como uma melodia interminável.
Levantou-se, caminhando até a janela que dava para o mar. A cidade estava viva, mas parecia tão distante quanto as estrelas apagadas no céu. Ele sabia que retornaria ao castelo, mas por agora, precisava se perder mais uma vez entre os humanos, entre suas luzes e sombras, entre seus próprios desejos e dúvidas.
“As Trevas estavam certas,” murmurou para si mesmo. “Viver é desejar, e talvez isso seja o bastante, por enquanto.”
E assim, Velian saiu para a noite, carregando consigo as perguntas sem respostas, as incertezas que o definiam, e o desejo incontrolável de continuar vivendo — e duvidando.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
Velian – Sombras de Somníria
Após sua primeira visita ao Castelo Drácula, Velian, um vampiro há muito acostumado com as sombras e as verdades escondidas da…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Após sua primeira visita ao Castelo Drácula, Velian, um vampiro há muito acostumado com as sombras e as verdades escondidas da humanidade, encontrou-se em Fortaleza, no calor abrasador do nordeste brasileiro. A cidade lhe parecia irônica: seus habitantes pulsavam com uma vitalidade quase insultuosa, como se a própria existência fosse uma celebração ininterrupta. Mas Velian, sarcástico e introspectivo, via naquela energia um desgaste constante, como se todos ao seu redor consumissem suas próprias almas sem perceber.
Ele vagara pelos ambientes underground da cidade, observando os humanos em suas ilusórias liberdades noturnas, buscando esquecer sua própria natureza em prazeres fugazes. A superfície de Fortaleza o distraiu por um tempo, mas em cada olhar ou gesto de despreocupação ele percebia um teatro de máscaras. Por mais que se esforçassem, aquelas pessoas, em suas próprias misérias e êxtases, pareciam tão aprisionadas quanto ele. Ao retornar, sua mente ainda ocupada por aquelas imagens, Velian deitou-se em seu caixão luxuoso, cravejado com detalhes prateados, e, finalmente, entregou-se ao repouso.
Enquanto seus pensamentos desvaneciam, Velian foi atraído por uma névoa densa e misteriosa que o levou de volta ao Castelo Drácula, ou assim ele pensou. Porém, este não era o castelo de pedra e penumbra que visitara anteriormente; era um lugar entre dimensões, onde o concreto dissolvia-se no efêmero. Ele flutuava em Somníria, uma extensão onírica do Castelo Drácula, e ali, o mundo parecia existir entre o real e o irreal, como se cada fragmento do ambiente fosse uma pintura inacabada, uma sombra do que poderia ser. Havia ali uma estranha familiaridade; um eco do castelo, mas em tons mais suaves e etéreos, como se Somníria fosse apenas uma das tantas faces ocultas do Castelo Drácula, uma dimensão onde realidades coexistiam de forma tênue.
Foi ali que ele encontrou Nívian. A figura exalava uma presença distinta, uma autoridade calma e distante. Suas palavras eram medidas, mas carregadas de uma sabedoria inabalável. Seu rosto, belo e firme, contrastava com uma seriedade quase trágica.
— Sou Nívian, Arqelua em Somníria — disse ela com uma voz doce, mas imersa em um toque de austeridade. — Isso significa… entre outras verdades… que jamais me desvencilharei do mundo dos sonhos.
Velian a observou com interesse, um sorriso cético e irônico se formando em seu rosto:
— E o que isso significa para alguém como eu? Estaria preso também a este… reino, como você? — Ele fez uma pausa, gesticulando com a graça de um predador calculista. — Um castelo dentro de outro castelo, dimensões sobrepostas… isso tudo parece a piada final para um ser como eu, que já viu a profundidade e a vaidade das máscaras humanas.
Nívian sorriu de leve, seus olhos refletindo um misto de entendimento e desafio.
— Talvez você esteja preso a muito mais do que imagina, Velian. Aqui, em Somníria, os conceitos rígidos que o mundo desperto exige se dissipam. A realidade e o sonho coexistem sem fronteiras. E, diferente de nós, os humanos, ao menos em seus sonhos, podem vivenciar uma liberdade que a vigília nunca lhes permite.
Ele riu, uma risada leve e amarga.
— Então, você sugere que até mesmo nós vampiros, que devoramos os mortais e ultrapassamos suas limitações, ainda assim estamos acorrentados a seus conceitos? Diga-me, Nívian, onde fica a nossa liberdade, então? Se até neste castelo que nos promete abismos e mistérios, ainda estamos sujeitos aos mesmos… parâmetros humanos?
— Nos sonhos, e apenas neles, reside a verdadeira liberdade — respondeu Nívian. — Quando sonham, os mortais podem transcender suas próprias barreiras, as limitações impostas por sociedades e seus julgamentos. Podem ser qualquer coisa que desejam, mesmo que na vigília essas mesmas vontades precisem ser enterradas em segredo.
Velian considerou as palavras, sentindo-se vagamente atingido por elas. Ele, um ser que se orgulhava de sua liberdade, de escapar das leis e costumes humanos, percebia-se agora confrontado. A liberdade que ele pensava possuir era, talvez, apenas mais uma forma de prisão.
— Então você afirma que o que vivenciamos agora é tão real quanto a própria vigília? E que este mundo onírico, tal como o que deixamos ao adormecer, é só mais uma camada? — Ele fez a pergunta como um desafio, mas havia nela uma admissão relutante.
Nívian respondeu, seu olhar assumindo uma intensidade que Velian não esperava.
— A realidade é como as camadas de um sonho, Velian. E os sonhos são reflexos da nossa verdade mais íntima, daquilo que o mundo desperto reprime. Nas vigílias, homens e mulheres reprimem seus desejos, se aprisionam em normas, se anulam em papéis. Você, mesmo entre nós, ainda carrega máscaras, acredita no seu próprio personagem… mas aqui, nos sonhos, o que somos é puro e destituído dessas molduras.
O vampiro sentiu um arrepio ao perceber a profundidade daquilo que Nívian lhe mostrava. Ali, no etéreo, ele se sentia menos restrito, menos… coagido a um papel. Ele reconhecia em si algo que sempre temera reconhecer plenamente: uma fluidez que jamais admitira aos outros nem a si mesmo.
— Então, diz-me, Nívian — disse ele, os olhos brilhando com um misto de sarcasmo e genuíno interesse —, o que se é, afinal? Um monstro? Um ser humano? Ou nada? Essas camadas, esses papéis… têm algum sentido real? Ou são apenas ecos de uma sociedade que insiste em moldar todos, até mesmo os monstros, ao seu jeito?
Ela observou Velian por um longo momento, como se medisse sua resposta.
— Somos aquilo que nos permitimos ser, Velian. Mas o mundo desperto aprisiona, nos obriga a seguir as regras de uma humanidade que insiste em formatar e restringir. A fluidez da identidade, tão natural aqui, é temida na vigília. E essa fluidez, mesmo para você, não deve ser algo a esconder. Você é, afinal, tanto o que os outros esperam quanto o que você ainda não ousou reconhecer.
Ele soltou um riso seco, mas algo em seu olhar havia mudado, uma sombra de compreensão em meio à sua usual descrença. Como um vampiro, já possuía uma vida fora das normas, um ser que deveria transitar entre o mundano e o imortal sem limitações. Contudo, ali em Somníria, entendia que ainda estava preso a noções que jamais haviam sido completamente dele.
— E onde tudo isso termina, então? Em mais sonhos e em mais realidades sobrepostas, até que tudo o que sou se torne apenas… vazio?
Nívian balançou a cabeça, seus olhos refletindo uma sabedoria que o deixava inquieto.
— Termina onde você se permite que termine. Talvez no entendimento de que a realidade é uma ilusão; talvez na aceitação de que tanto o sonho quanto a vigília são partes do todo. Um ciclo constante entre o que você é e o que poderia ser.
Velian se sentiu como se houvesse tocado a superfície de algo vasto e incompreensível. Quando percebeu, Somníria já começava a se dissolver ao seu redor. Despertou com a última visão de Nívian em sua mente, seu rosto austero e a voz firme dizendo: "Você tem a eternidade, Velian. Use-a para ser livre."
Ao abrir os olhos, de volta ao mundo desperto, ele ponderou sobre tudo aquilo. A fluidez da identidade, a liberdade que sempre julgara ter. Talvez a própria existência fosse uma camada indefinida, onde os sonhos e a vigília se entrelaçavam. Sentiu um desejo repentino de caminhar pela Fortaleza de seu tempo, observar os humanos e refletir sobre o que realmente significava ser livre. A noite o aguardava, e o Castelo Drácula, ele sabia, o chamaria de volta.
Mas, por ora, Velian desejava apenas misturar-se entre aqueles que, com toda a sua humanidade, ainda tinham tanto a lhe ensinar.
Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa
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Velian: Incertezas nas Sombras
A noite pairava densa sobre Fortaleza, as luzes artificiais competindo com o brilho distante das estrelas. Velian, em sua forma mais recente, caminhava pelas…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
A noite pairava densa sobre Fortaleza, as luzes artificiais competindo com o brilho distante das estrelas. Velian, em sua forma mais recente, caminhava pelas ruas do centro da cidade, envolto em um manto de mistério. A brisa morna trazia o cheiro salgado do oceano, e as vozes vibrantes da cidade o cercavam como ecos distantes. Ele talvez ainda apreciasse o contraste que Fortaleza oferecia, uma cidade viva, que pulsava com o calor e o caos da vida humana, quando não estava em seus momentos mais tristes.
A noite em Fortaleza parecia eterna, como se o tempo estivesse suspenso naquele instante. Velian, com seus olhos penetrantes, observava a vastidão do mar à sua frente. A vida moderna ao redor pulsava, mas ele, um ser de 700 anos, sentia-se desconectado da realidade que o cercava. Tudo era efêmero, passageiro. O mundo humano mudava constantemente, mas ele, imortal, permanecia preso ao mesmo ciclo de busca, prazer e tédio. Aquele sentimento de desconexão o acompanhava há séculos, e agora, mais do que nunca, pesava em seus ombros.
Há séculos, ele conhecera o esplendor da Europa, o frio das catedrais góticas e o peso da história que as cidades do Velho Mundo carregavam. Agora, Velian encontrava refúgio nas metrópoles brasileiras, especialmente no Nordeste, onde as tradições locais e as lendas populares coabitavam com a modernidade. Fortaleza, em particular, lhe chamava a atenção; a cidade vibrava com uma energia que ele não encontrava mais na Europa, um fervor quase primordial.
Em sua identidade fluida, Velian havia adotado o codinome Serpente, uma figura andrógina que desliza entre as sombras, observando e manipulando aqueles ao seu redor. Naquela noite, no entanto, algo diferente estava no ar. Havia uma tensão que ele não conseguia ignorar — um chamado silencioso que se infiltrava em seus pensamentos.
Velian parou na orla da Praia de Iracema, sentindo a maresia misturada com um estranho frio que não condizia com o clima tropical. Era como se o tempo estivesse se dobrando sobre si mesmo, e o ar ao seu redor começava a mudar. Sua mente, sempre afiada, começou a perder o foco. Ele piscou, e a cidade ao seu redor parecia desvanecer, como se estivesse sendo puxado para outro lugar, outra dimensão. Antes que pudesse reagir, o mundo se fragmentou.
Quando abriu os olhos novamente, Fortaleza havia desaparecido. Velian se encontrava agora em um lugar que não reconhecia — um vasto salão de pedra escura e fria. O silêncio era opressor, e as paredes ao seu redor exalavam uma energia ancestral. Ele não precisava de explicações. Estava no Castelo Drácula, um lugar que há muito tempo era apenas uma lenda entre os seres imortais e que Velian não tinha certeza que existia, mas naquele momento pode ver sua certeza se concretizar.
Seus olhos, ajustando-se à escuridão densa, observavam o ambiente ao seu redor. O castelo era imenso, atemporal. As paredes não pareciam seguir as leis naturais do espaço ou do tempo; ele percebia a arquitetura mudar à medida que avançava, como se o lugar estivesse vivo, se moldando à presença dele.
Velian não sabia como havia chegado ali. Não era comum que seres como ele fossem convocados para aquele tipo de lugar sem uma razão. O castelo era mais do que pedra e sombras — ele vibrava com um poder incomensurável. Sentiu em seu peito um peso desconhecido, como se uma força oculta o estivesse observando, medindo suas intenções e sua essência.
Enquanto explorava o salão principal, começou a sentir as presenças ao seu redor. O castelo não estava vazio. Havia outros seres, entidades poderosas que ocupavam aquele lugar. Velian, sempre acostumado a ser o predador, agora se via em um território onde não sabia quem era o caçador e quem era a presa.
Então, duas presenças se destacaram, emergindo do fundo do castelo, como correntes de energia antigas e primordiais. A primeira, uma força esmagadora, era forte, rígida, carregando a essência do que se convencionara chamar de masculino — uma energia que dominava, que destruía e conquistava. A segunda, uma presença fluida e envolvente, exalava o que os humanos nomearam de feminino — algo mais complexo, que atraía e moldava o que tocava, adaptando-se às circunstâncias, mas igualmente devastador em sua força.
Velian, com sua identidade fluida, sentia ambas as energias em si, como reflexos de sua própria natureza. Ele oscilava entre essas forças, reconhecendo em cada uma delas um aspecto de si mesmo. Não era nem puramente um nem o outro, e o castelo parecia amplificar essa ambiguidade, deixando-o mais consciente de sua própria dualidade.
Mas o mistério maior permanecia: Por que estava ali? Qual era o propósito dessa jornada? Ele não tinha respostas, apenas mais perguntas. O castelo o havia atraído para algum fim, mas qual?
Enquanto se movia pelos corredores sombrios, sua mente tentava compreender o que o castelo representava. Era um teste? Uma advertência? Ou algo mais? Talvez as forças que residiam ali estivessem tentando lhe dizer algo sobre sua própria imortalidade, sobre o peso de existir por séculos, sem nunca encontrar uma verdadeira direção.
Mas, assim como chegara, o momento passou. Num piscar de olhos, o castelo começou a desvanecer, e Velian, sem aviso, foi puxado de volta para o mundo real. Ele estava novamente em Fortaleza, de pé na mesma praia onde tudo começara, o som das ondas voltando aos seus ouvidos.
Agora, porém, ele sabia que algo profundo havia mudado. O Castelo Drácula o havia tocado, e as forças que ele sentiu lá ainda reverberavam em sua mente. Ele se perguntava quais poderes o haviam levado até lá e o que isso significava para o futuro. Algo estava por vir, e o castelo, com seus mistérios e presenças antigas, continuava a assombrar seus pensamentos.
De volta à Fortaleza, Velian abriu os olhos de repente, respirando o ar quente e úmido da noite tropical. O som das ondas quebrando contra a praia distante parecia distante, como se estivesse acontecendo em outra realidade. A cidade ainda se movia lentamente sob as luzes urbanas, mas algo dentro dele havia mudado. O contraste entre a vivacidade da vida humana ao seu redor e a atmosfera gótica e densa do Castelo Drácula era quase insuportável.
Ele se sentou, ainda processando o que havia acabado de acontecer. O tempo no castelo fora nebuloso, quase como um sonho, mas cada detalhe permanecia vívido em sua mente. As paredes vivas, os corredores que se moviam, as presenças poderosas que ele sentiu, tudo se misturava, formando um quebra-cabeça que ele não conseguia montar. Por que ele tinha sido levado até lá? O que o castelo queria dele?
Velian sabia que o Castelo Drácula não era um lugar comum. Muito mais do que uma construção, era uma entidade — ou talvez uma manifestação das energias que existiam entre o tempo e o espaço. Ele podia sentir como o local o testava, o observava, desafiando sua compreensão e sua própria identidade. Mas qual era o propósito de tudo aquilo?
Ele recordava as duas forças predominantes que haviam permeado o castelo: a força brutal, impetuosa, que evocava tudo o que os humanos chamavam de masculino, e a força sedutora, envolvente, associada ao feminino. Em seu estado fluido, Velian sempre dançara entre essas energias, absorvendo ambas, rejeitando rótulos e limites. Mas ali, no castelo, parecia que essas forças o cercavam e pressionavam, como se tentassem a desestabilizá-lo das harmonias dessas duas forças que estavam harmônicas a muito em seu interior.
O peso dessa experiência começou a se insinuar profundamente em sua mente. Seriam essas forças personificações de algo maior? O castelo era um espelho das dicotomias que ele sempre evitara? Velian, que passara séculos se moldando de acordo com suas próprias regras, sem se submeter a convenções de gênero, de identidade ou mesmo de poder, agora se via questionando tudo o que acreditava. O castelo havia despertado nele algo que ele não sabia que existia: uma dúvida persistente.
E se o castelo fosse uma forma de confrontá-lo com escolhas que ele sempre evitara?
A fluidez que ele sempre abraçara agora parecia ameaçada por essas forças antigas e poderosas. Talvez aquele lugar fosse um campo de batalha onde essas energias opostas se encontravam, e ele, por algum motivo, fora arrastado para o meio disso.
De volta à sua realidade tropical, Velian olhava para a vastidão do mar de Fortaleza, mas sua mente permanecia presa no castelo. Como ele havia chegado até lá? E por que havia sido trazido de volta? Ele sentia que aquilo não era o fim, apenas o início de algo maior que estava por vir.
Ele sabia que precisaria retornar ao castelo um dia, que as perguntas deixadas sem resposta o perseguiriam até que ele entendesse o verdadeiro significado daquele encontro. O castelo, com seus corredores mutáveis e suas presenças antigas, não era apenas um lugar — era um desafio, uma provocação.
Velian suspirou, sentindo o peso da imortalidade mais uma vez. Seria o castelo uma metáfora para sua própria existência? Um espaço que desafiava definições, que se moldava ao tempo e ao poder, mas que, no fundo, sempre permaneceria vazio e sombrio, esperando por algo ou alguém para preencher seus salões e desvendar seus mistérios?
Enquanto a brisa quente da noite envolvia seu corpo, ele sorriu levemente. Talvez o castelo não fosse uma ameaça, mas sim uma oportunidade. Uma chance de descobrir algo que ele ainda não conhecia sobre si mesmo — e sobre o mundo sombrio ao qual ele pertencia.
Velian olhou para o horizonte de Fortaleza, a mente ainda presa no Castelo Drácula, questionando as forças que o haviam arrastado para aquele lugar. A vastidão do mar parecia oferecer algum consolo, mas não trazia respostas. Ele, que por séculos havia se embebido em conhecimentos diversos — desde tratados naturalistas e científicos de diversas áreas do conhecimento, passando pela astrofísica, filosofia cética até compêndios místicos e ocultistas —, ainda não possuía clareza sobre muitos mistérios da sua própria existência.
Ao longo dos séculos, ele havia encontrado respostas vagas sobre sua condição de ser vampiresco, sobre as energias que moldavam o mundo físico e espiritual, mas, no fundo, o mistério da origem dos vampiros permanecia envolto em sombras. Velian não sabia de onde eles vinham, nem o porquê de existirem. E, por mais que tivesse presenciado almas desencarnadas, fantasmas vagando entre os vivos, ele nunca compreendeu plenamente o que acontecia com as almas dos humanos após a morte. Existiria uma finalidade para a vida e a morte? Ou tudo era apenas caos, sem ordem, sem destino?
Essas perguntas rondavam sua mente, mas ele hesitava em buscar respostas externas. Ainda que tivesse recursos para investigar, sua natureza, marcada por um ego afiado e orgulhoso, impedia-o de se submeter a uma consulta. Principalmente a ela. Seria agora o momento de recorrer a Cassandra? — pensou Velian, irritado com a possibilidade. Cassandra, a vampira antiga e poderosa, conhecida por sua visão única do mundo, uma mestra em manipular informações e arrancar verdades escondidas das mentes dos seres mais antigos e das sombras mais densas. Ela era, no mínimo, imprevisível. A forma sarcástica e distante com que lidava com o desconhecido tornava suas interações tão exasperantes quanto reveladoras.
Consultá-la, entretanto, significava admitir que ele, Velian, que havia acumulado conhecimento ao longo de séculos, não sabia tudo. E isso o incomodava profundamente. Ele sempre manteve uma postura de domínio, de autossuficiência, e se dobrar a Cassandra, mesmo que apenas por curiosidade, seria reconhecer que algo o havia desafiado — algo que ele não conseguia decifrar.
Ele relembrou as poucas vezes em que cruzara o caminho dela. Cassandra sempre se destacava pela sua sagacidade afiada, capaz de desarmar qualquer discussão com uma combinação de sarcasmo e uma verdade incômoda. Sua ambiguidade fluida, tanto em gênero quanto em poder, sempre intrigava Velian. Embora ambos compartilhassem uma identidade fluida, Cassandra parecia levar isso a um patamar ainda mais intenso, envolvendo-se em jogos de poder que Velian, por vezes, preferia evitar. Ela possuía um magnetismo tão insuportável quanto fascinante.
Ele sabia que ela possuía respostas — ou pelo menos pistas — sobre o que ele havia experimentado no castelo. Cassandra era uma das poucas vampiras que tinha o poder de acessar reinos ocultos e segredos velados dos tempos antigos. Ela talvez soubesse mais sobre as forças que moldavam o Castelo de Drácula do que qualquer outro. Mas buscar sua ajuda significaria entrar em uma arena de manipulação, jogos mentais e provocações que exigiriam de Velian paciência e, acima de tudo, disposição para aceitar que ele não era onisciente.
Porém, será que ele estava pronto para se submeter a isso? Ele nunca fora alguém que gostasse de expor suas fraquezas — e pedir ajuda seria, em seu íntimo, uma confissão de que havia algo além de seu controle.
Velian balançou a cabeça, afastando o pensamento por ora. Ele tinha tempo. Afinal, a eternidade era sua companheira, e as respostas viriam eventualmente, de um jeito ou de outro. Talvez ele não precisasse recorrer a Cassandra. Ou talvez sim. Mas, naquele momento, não estava pronto para enfrentá-la. Não ainda.
Ele suspirou, sentindo o peso de sua própria existência. A imortalidade, com todo o seu fascínio, trazia consigo uma carga de dúvidas incessantes. A busca pelo sentido, pelo entendimento do que era ser vampiro — e, mais ainda, de onde surgiam as almas dos mortos — continuava sendo uma sombra constante em sua mente. Ele havia visto fantasmas, seres do outro lado, mas jamais dominara o poder de interagir plenamente com eles. Era algo que permanecia fora de seu alcance ou de sua vontade já que nunca tivera interesse para desenvolver tais habilidades, deixando suas indagações e inquietações sempre ocultas até de si mesmo.
Por enquanto, Velian continuaria vagando entre suas dúvidas e as realidades sombrias que o cercavam. O Castelo Drácula e tudo o que ele representava ficaria guardado em sua memória — um enigma que talvez apenas Cassandra pudesse decifrar.
Mas ele não estava pronto para se render ao sarcasmo afiado daquela vampira. Não ainda.
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…