H. P. Lovecraft – O Arquiteto do Indizível
Howard Phillips Lovecraft nasceu em 20 de agosto de 1890, na cidade de Providence, Rhode Island, onde também morreria, solitário e quase…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o tipo mais antigo e mais forte de medo é o medo do desconhecido.”
— H. P. Lovecraft, “O Horror Sobrenatural na Literatura”
Howard Phillips Lovecraft nasceu em 20 de agosto de 1890, na cidade de Providence, Rhode Island, onde também morreria, solitário e quase desconhecido, em 15 de março de 1937. Viveu à margem do mundo — pobre, doente, recluso — mas sua mente fervilhava como um poço de éter, e seus pesadelos tornaram-se mitologias modernas. Seu universo não é deste mundo, nem do inferno. É anterior, abissal, cósmico.
Criado por sua mãe e avô após a internação e morte de seu pai, Lovecraft encontrou nos livros, nas ruínas vitorianas da Nova Inglaterra e nas vozes do passado (Poe, Dunsany, Chambers) os pilares de sua torre gótica. Desde muito jovem, encantou-se pela ciência, pela astronomia e pelo arcabouço invisível da realidade — ainda que sempre pairasse sobre ele a sombra da instabilidade mental.
Os Tentáculos do Horror Cósmico
Lovecraft não escrevia apenas histórias — ele invocava atmosferas. Não há em sua literatura o vilão clássico, nem o terror fácil do sangue: o que aterroriza é o limite da sanidade, a vastidão impiedosa do cosmos, a presença de seres tão antigos que a própria linguagem é inútil para descrevê-los. Ele chamava isso de “horror cósmico”.
Seus contos mais célebres — como O Chamado de Cthulhu, Nas Montanhas da Loucura, A Cor que Caiu do Espaço, O Caso de Charles Dexter Ward e O Sussurro nas Trevas — compõem o que hoje conhecemos como Mitologia de Cthulhu, um panteão de entidades insondáveis: Azathoth, Yog-Sothoth, Nyarlathotep, Shub-Niggurath... nomes que não pedem compreensão, mas silêncio reverente.
Estes deuses não são malignos — são indiferentes. E essa indiferença é o terror maior: o homem não é o centro do universo, mas um ponto irrisório num caos sem propósito.
O Estilo: Arcaísmo e Atmosfera
Lovecraft escrevia como um antiquário da linguagem, com frases longas, palavras rebuscadas, e uma preferência por termos como eldritch, gibbous, cyclopean e tenebrous. Muitos o acusaram de excessivo, mas há beleza no excesso — especialmente quando o objetivo é evocar o indizível.
Ele evitava diálogos extensos, preferia narrações em primeira pessoa, e muitas vezes o horror se dava fora de cena — algo pressentido, mas jamais completamente visto. É um terror mais filosófico que visceral. Sua escrita evoca a vertigem daquilo que jamais seremos capazes de compreender.
Racismo e Sombras Biográficas
Não se pode falar de Lovecraft sem encarar o espelho sombrio de sua alma: ele era profundamente racista. Seus textos e cartas trazem visões xenófobas, elitistas e excludentes, fruto de seu tempo, sim, mas também de suas convicções pessoais. Ele temia o “outro” tanto quanto temia o universo. É doloroso, mas necessário, reconhecer isso — para que possamos ler sua obra com lucidez e senso crítico, sem encobrirmos suas falhas humanas. Aqueles que não lêem Lovecraft por esta razão, não sabem o quão importante é entrarmos em contato com as verdades obscuras do passado, para não as repetirmos os mesmos erros no futuro. Além disso, o quanto devemos separar a obra de seu autor? Esta é uma pergunta viva que devemos colocar sempre em questão; para mim, no caso específico do Lovecraft, quando suas características racistas aparecem nos textos, é profundamente desconfortável; talvez aí esteja o principal horror de suas obras.
Legado Imortal
Lovecraft morreu pobre, com poucos leitores. Mas o tempo, esse devorador de almas, fez justiça póstuma: hoje, ele é reconhecido como o pai do horror moderno. Influenciou Stephen King, Neil Gaiman, Clive Barker, Alan Moore, e ressoa em filmes (O Enigma de Outro Mundo, Alien), jogos, HQs, RPGs e até canções.
A cidade imaginária de Arkham, o livro proibido Necronomicon, os cultos sussurrantes, as criaturas informes — tudo isso se tornou parte do imaginário ocidental, como um evangelho profano.
Epílogo: Diante da Escuridão Insondável
A obra de Lovecraft nos devolve o olhar de uma criatura insignificante diante da eternidade, lembrando-nos de que o universo não foi feito para nós, e talvez jamais nos note.
Penso que, mesmo sabendo que somos poeira, ainda escrevemos, ainda sonhamos, ainda trememos sob as estrelas. Isso é inestimável e, talvez, nos conecte com toda a poderosa forma cósmica que não somos capazes de compreender.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Percy Bysshe Shelley: Vida, Obra e Pensamento Crítico
Percy Bysshe Shelley: Vida, Obra e Pensamento Crítico
Imagem da Web editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
“Aproxima-se rapidamente o tempo — espero que o senhor, milorde, possa viver para contemplar sua chegada — em que o maometano, o judeu, o cristão, o deísta e o ateu viverão juntos numa única comunidade, compartilhando igualmente os benefícios que provêm de sua associação e reunidos pelos vínculos da caridade e do amor fraterno.”
— Percy Bysshe Shelley
Nascido em 1792, na Inglaterra, Shelley foi um dos mais intensos e visionários poetas do Romantismo inglês. De alma livre e convicções inflamadas, rebelou-se desde cedo contra as amarras da sociedade vitoriana, da religião instituída e das convenções morais. Era o primogênito de uma família aristocrática, mas rejeitou o destino de nobre — preferia o exílio, o pensamento radical e a linguagem da poesia como forma de revolução.
Expulso de Oxford aos 18 anos por escrever um panfleto em defesa do ateísmo, Shelley já demonstrava o espírito incendiário que marcaria toda a sua vida e obra. Casou-se jovem, viveu intensamente e, após a morte trágica de sua primeira esposa, uniu-se à escritora Mary Shelley, autora de Frankenstein. Juntos, formaram uma constelação literária, orbitando também Lord Byron, outro titã das letras e da inquietação.
Coincidentemente, nosso autor Wallace Azambuja trouxe à edição Dívanno uma tradução do poema Ozymandias — o que me levou a um mergulho mais profundo na vida e na obra de Shelley, sobretudo em suas críticas à religiosidade. Sempre que um dos autores da revista traz à tona pensadores e poetas — seja por meio de uma tradução, como neste caso, seja por artigos ou ensaios — , busco ampliar o conteúdo com notas sobre a trajetória e o pensamento do autor mencionado, quando necessário. Essa escolha editorial enriquece a experiência leitora e desenha caminhos mais profundos rumo ao conhecimento.
Ozymandias traz à luz, ainda que de modo poético — e, por isso mesmo, ainda mais penetrante — a transitoriedade do poder; tema que se vincula irrevogavelmente às indagações sobre religião e divindade já abordadas por Shelley em The Necessity of Atheism e na Carta ao Lorde Ellenborough. Mais que isso: o poema nos reconduz à natureza como a única força maior — e decerto inegável — capaz de se sobrepor a tudo aquilo que é construído pelo humano, inclusive suas crenças efêmeras e dogmas desprovidos de razão. Tal como nos versos:
“Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Vejam meus feitos, poderosos, temam!”
Nada resta ao redor: circunda o escombro.
— Tradução de Wallace Azambuja
É fascinante como Shelley tensiona religiosidade, justiça e política em seus ensaios, e como transcende esses mesmos temas, na poesia, para uma dimensão mais elevada e sensível. Sua aparição na edição Dívanno é de suma importância, pois nela nos colocamos sob as asas das divindades etéreas a partir de prismas exploratórios da constituição humana. Eu mesma, sempre inclinada à razão, aproximo-me da fé pelos sentidos, através da poética — e sou capaz de experimentar a ideia de Deus sem a embriaguez religiosa, mantendo-me firme em minha racionalidade. Isso talvez comprove — e, de certo modo, realiza — os conceitos shelleyanos sobre as três fontes da convicção.
Obra — Entre o Ideal e o Abismo
Shelley escrevia como se quisesse incendiar o mundo com seus versos. Sua poesia é marcada por um lirismo elevado, por ideais políticos libertários, e por uma estética que combina o sublime com o etéreo. Era um alquimista da linguagem, fundindo mito, filosofia, natureza e revolução.
Obras essenciais:
“Ozymandias” — Um soneto famoso que reflete sobre o orgulho humano e a inevitável ruína do tempo, como já mencionei. A estátua do rei caído, perdida no deserto, é um símbolo arrebatador da efemeridade do poder.
“Prometheus Unbound” (Prometeu Desacorrentado) — Uma obra dramática e lírica que reimagina o mito grego de Prometeu, o rebelde que desafiou os deuses. Aqui, Shelley faz dele um símbolo da humanidade insurgente. E mais uma vez, a ruína divina.
“Adonais” — Uma elegia devastadora à morte de Keats, outro grande romântico. Nesse poema, a perda torna-se um portal para reflexões sobre a imortalidade da arte e da alma.
“To a Skylark” (A uma Cotovia) — Uma das mais belas canções à natureza, onde o pássaro torna-se arquétipo da inspiração pura e inatingível.
“Mont Blanc” — Um poema filosófico sobre a vastidão da natureza e a mente humana, que dialoga com as paisagens sublimes dos Alpes.
Uma Vida Breve e Trágica
Shelley viveu como se soubesse que não duraria. Exilado na Itália, longe da pátria que o rejeitou, escreveu alguns de seus mais belos poemas em meio à dor, à beleza e à contemplação. Morreu tragicamente aos 29 anos, em 1822, quando seu barco naufragou no mar Tirreno. Quando seu corpo foi encontrado, diz-se que trazia consigo um exemplar de Keats no bolso. Seu coração, retirado das chamas da cremação por Mary, foi envolto em seda e guardado por ela até a morte. Um símbolo perfeito: o coração de Shelley — eterno, irredutível, inflamado.
Legado
Shelley é hoje reconhecido como um dos poetas mais líricos e visionários da história da literatura. Sua obra inspira tanto pela beleza da linguagem quanto pelo poder de seu pensamento libertador. Foi precursor de ideias anarquistas, defensor da igualdade, do amor livre e da imaginação como força de transfiguração do mundo.
Ele acreditava que a poesia era uma arma espiritual, uma forma de revelar o invisível e libertar a humanidade da ignorância e da opressão. Seu espírito vive nos que ainda se recusam a aceitar as verdades impostas e, ao invés disso, sonham, incendeiam e escrevem.
Referências
DA COSTA, M. (2016). Percy Bysshe Shelley — Introdução. Cadernos De Tradução, (36).
SHELLEY, Percy Bysshe. The Necessity of Atheism. Worthing: C. & W. Phillips, 1811.
SCANDOLARA, Adriano. Shelley — duas cenas do ato 3 de Prometheus Unbound. Escamandro, 5 ago. 2013. Disponível em: https://escamandro.wordpress.com/2013/08/05/shelley-duas-cenas-do-ato-3-de-prometheus-unbound/. Acesso em: 31 maio 2025.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
O Olho e a Consciência: Uma Leitura Fenomenológica de O Coração Delator, de Edgar Allan Poe
Edgar Allan Poe não foi apenas o Mestre da Literatura Gótica…
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Edgar Allan Poe não foi apenas o Mestre da Literatura Gótica; foi também, talvez sem intenção filosófica explícita, um desbravador abissal da alma humana. Em suas obras, nas entrelinhas e no subsolo de suas narrativas, pulsa um olhar que vasculha a consciência — como quem, com uma vela trêmula, desce às criptas do próprio ser. Poe não apenas construiu atmosferas de terror, ele investigou — com rara acuidade — os labirintos da percepção, os jogos da culpa e os delírios da introspecção. Sua escrita é, muitas vezes, o palco de uma fenomenologia instintiva: uma maneira de compreender o mundo não como ele é em si, mas como ele se dá à consciência angustiada, deformada, apaixonada ou adoecida. O horror em Poe não provém do exterior, mas emerge do íntimo: é o próprio sujeito, em sua experiência radical, que dá forma aos monstros. A realidade física apenas serve de espelho para os abismos internos — e é nesse ponto que sua literatura se cruza com os fundamentos da Fenomenologia e do Existencialismo.
Em “O Coração Delator”, publicado pela primeira vez em 1843, acompanhamos o relato em primeira pessoa de um narrador que insiste em provar sua sanidade enquanto descreve, com precisão crescente, os eventos que o levaram a cometer um assassinato. O velho com quem convive — e que não lhe fizera mal algum — desperta nele um ódio obsessivo motivado não por ações, mas por um aspecto físico: seu olho, que ele descreve como um “olho de abutre”, pálido, vítreo, insuportável. Incapaz de suportar esse olhar — ou o que acredita estar por trás dele — o narrador assassina o velho e esconde seu corpo sob o assoalho da casa. No entanto, ao ser interrogado pela polícia, começa a ouvir, ou crer que ouve, o som do coração da vítima ainda batendo sob o chão. A culpa o invade como uma tormenta interior e, em um clímax de agonia, ele confessa o crime, incapaz de suportar o peso de sua própria consciência.
Para Husserl, compreender o mundo não é tomá-lo como dado absoluto, mas como fenômeno: algo que aparece à consciência em sua intencionalidade. Ao propor a epoché — a suspensão do juízo natural — o filósofo convida a deixar de lado as certezas objetivas para investigar como as coisas são vividas. Em “O Coração Delator”, esse princípio se realiza literariamente: o narrador não vive em um mundo compartilhado, mas em um universo fenomenológico próprio, onde o olhar do velho é uma presença insuportável que ultrapassa a aparência física. O olho — vítreo, opaco, silencioso — não é apenas um órgão: é um fenômeno. Ele se impõe à consciência do narrador como uma entidade viva, quase metafísica. Sob a ótica husserliana, o conto de Poe é a narrativa de uma consciência em ruptura com o real, tomada por uma percepção deformada que se impõe como verdade absoluta. Não importa o que o velho é, mas o que aparece para aquele que o observa. O olho não vê: ele é o próprio ser do narrador sendo visto, dilacerado e condenado em sua interioridade.
Enquanto o narrador de O Coração Delator insiste que sua perturbação advém do olho do velho — acreditando que o horror reside no objeto exterior —, a fenomenologia de Husserl desestabiliza essa aparente separação. Husserl nos convida a perceber que não existe, em essência, uma cisão definitiva entre sujeito e objeto; o que há é a relação intencional — a consciência é sempre consciência de algo. O objeto não existe, portanto, isoladamente: ele é aquilo que se dá à consciência como fenômeno. O olho do velho, nesse sentido, não é simplesmente um órgão visual: ele é o sentido que emerge do encontro entre a percepção e a vivência do narrador. Ele se torna intolerável não por si, mas pelo modo como é intencionado, significando algo abissal à consciência que o observa.
Husserl afirma que o fenômeno nunca se mostra sem sentido. E aqui reside o horror: o objeto, ao se apresentar à consciência, o faz sempre por meio de uma síntese de aspectos, e o narrador não é capaz de apreender essa totalidade. Ele fixa-se obsessivamente em uma parte — o olho —, incapaz de integrá-lo à plenitude do ser do velho, que permanece, para ele, um enigma angustiante. O olhar fragmentado gera uma verdade parcial, que se absolutiza e se impõe como delírio. O crime, então, não é resultado da realidade objetiva, mas da verdade fenomenológica que emerge da relação entre um sujeito transtornado e o fenômeno que ele recusa compreender em sua totalidade.
Podemos concluir que Poe, com sua pena encharcada de angústia e lucidez, esgarça as entranhas da existência humana ao nos confrontar com a dificuldade — ou talvez a impossibilidade — de uma verdadeira redução fenomenológica. Incapazes de suspender plenamente o mundo e suas significações, somos, em certo ponto, vítimas de uma relação consciencial intencional que se dá em síntese. Nessa síntese, ultrapassamos os dados imediatos e preenchemos os espaços do objeto — aquilo que nos é oculto — com nossas percepções, memórias, afetos e medos. Formamos, assim, uma unidade múltipla e mutável, que chamamos de identidade do objeto.
No caso do narrador de O Coração Delator, essa identidade não é construída sobre a totalidade do velho, mas sobre uma parte — o olho — elevado à condição de essência. Essa distorção não apenas revela a falência da percepção integral, mas a tragédia existencial de quem recusa o outro em sua plenitude. A consciência, ao significar o olho com horror, já não lida com o fenômeno em sua verdade, mas com o reflexo distorcido de si mesma. O mundo torna-se então insuportável não porque o é em si, mas porque se apresenta assim à consciência em colapso.
O desfecho do conto, em que o narrador ouve o som do coração ainda batendo sob o assoalho, não precisa ser lido como uma manifestação sobrenatural ou delírio puro, mas como a culminância fenomenológica de sua experiência de culpa. O que Husserl chama de visado — aquilo que é intencionado pela consciência — manifesta-se aqui como um som intolerável que não pertence ao mundo físico, mas ao campo da significação interna. O coração torna-se símbolo daquilo que não pode ser reduzido ou negado: o crime, o assassinato, o peso do ato. Pela associação intencional, a consciência organiza e sintetiza o ocorrido, fazendo com que o som seja não apenas lembrança, mas presença viva, concreta, irrefutável. A culpa, então, não é um sentimento abstrato: ela é ouvida, quase tocada, pois a consciência não consegue mais sustentar o abismo entre o que fez e o que significa. Confessar o crime, nesse sentido, é quase um gesto fenomenológico: a necessidade de alinhar o mundo vivido com a verdade do fenômeno. O coração que bate é a verdade que retorna, visada pela consciência como aquilo que não pode ser negado.
E, talvez, aqui esteja o ponto mais inquietante: seria esse afastamento da essência uma falha humana... ou a própria condição do fenômeno? Não seria a própria relação intencional — com todos os seus enganos, excessos e projeções — a expressão mais pura de nossa maneira de existir no mundo? Poe não responde. Mas nos obriga a questionar — e isso basta.
REFERÊNCIAS
SILVA, Maria de Lourdes. A intencionalidade da consciência em Husserl. Revista de Filosofia Argumentos, Ano 1, N°.1, 2009.
GALEFFI, Dante Augusto. O que é isto — a fenomenologia de Husserl? Ideação, Feira de Santana, n. 5, p. 13-36, jan./jun. 2000.
PERNA, Cristina; LAITANO, Paloma. O clássico Edgar Allan Poe. Letras de hoje, v. 44, n. 2, 2009.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
As 10 Mais Terríveis Lendas Urbanas do Mundo
Lendas urbanas são narrativas misteriosas, por vezes macabras, que circulam entre as pessoas…
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O que são lendas urbanas?
Lendas urbanas são narrativas misteriosas, por vezes macabras, que circulam entre as pessoas, contadas de boca em boca, adaptando-se ao tempo, ao lugar e aos medos de cada geração. Diferente dos mitos ancestrais, essas histórias têm um pé no cotidiano, como se pudessem acontecer com qualquer um — com você, com alguém da sua rua, com uma prima da sua vizinha. São, muitas vezes, ambientadas em cidades, escolas, hospitais, estradas ou casas comuns. Elas carregam o poder do “quase-verdadeiro”, provocando aquela sensação inquietante de que poderia ter acontecido e que talvez tenha mesmo acontecido
Embora muitas dessas histórias pareçam fictícias, é difícil dizer que são mesmo pura fantasia; elas revelam verdades emocionais e sociais profundas, funcionando como espelhos obscuros das ansiedades humanas: medo da morte, da solidão, da violência, do desconhecido. A beleza sombria das lendas urbanas está no modo como elas grudam na memória, como uma sombra atrás da porta entreaberta. Mas a verdade é que, sendo ou não reais, elas são capazes de tirar o nosso sono à noite.
Veja abaixo a lista das mais terríveis lendas urbanas do mundo.
1. A Mulher de Branco (diversas versões pelo mundo)
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Ela caminha à beira das estradas como quem busca o que nunca será devolvido: um filho perdido, um amor que se partiu, um destino violado pelo peso do mundo. Presente em inúmeras culturas, a Mulher de Branco é uma assombração universal, como se o luto feminino tivesse escolhido um único vestido para atravessar séculos e continentes. Dizem que aparece nas noites em que a neblina roça o chão como véu de noiva esquecido. Chora, murmura nomes, estende o braço em busca de carona — e se você a olhar duas vezes, será tarde demais. Em 1995, no interior de Ohio, uma mulher chamada Charlotte relatou ao jornal local que o marido parou o carro para uma jovem vestida de branco. Desde aquela noite, ele não é mais o mesmo. Sonha com gritos afogados, acorda suando em pleno inverno, e diz — quando tem coragem — que ela ainda está sentada no banco de trás. O mais estranho? O carro nunca mais fechou direito aquela porta.
2. O Homem do Saco (Brasil)
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Poucas figuras do imaginário popular brasileiro são tão temidas quanto o Homem do Saco. Embora muitos o considerem parte do folclore infantil — uma invenção para disciplinar crianças traquinas — há um lado mais escuro dessa história que paira como uma névoa pesada sobre bairros antigos, principalmente nas periferias urbanas. Dizem que ele perambula pelas ruas com um saco imenso nas costas, recolhendo crianças desobedientes, desaparecendo com elas sem deixar rastros. Mas há relatos que transcendem o didatismo e mergulham no terror puro. Na Zona Leste de São Paulo, quando eu ainda era pequena, algo aconteceu que nunca mais saiu da minha memória. O Lucas, filho da vizinha, contou que viu “um homem estranho com um saco” passando pela frente da nossa rua. Avisou a mãe, assustado. E ela, ao olhar pela janela, enxergou um velho de andar irregular, carregando o tal saco. Mas o que realmente a fez chamar a polícia não foi a aparência dele — foi o movimento dentro do saco. Algo se contorcia lá dentro. Algo pequeno, algo... vivo. Segundo ela, parecia o tamanho de uma criança. A polícia veio, mas o homem já havia sumido. Naquela semana, não brinquei no quintal. Nem na próxima. E até hoje, ao ouvir passos arrastados pela calçada, eu ainda me arrepio, como se aquele Homem do Saco pudesse voltar, mesmo eu não sendo mais criança.
3. Bloody Mary (Estados Unidos)
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Diante do espelho, à meia-noite, quando a casa adormece e o mundo parece conter a respiração, basta repetir seu nome três vezes: Bloody Mary… Bloody Mary… Bloody Mary. A tradição é conhecida — e temida. Mais do que uma brincadeira de escola, a lenda evoca o espírito de uma mulher injustiçada, enlouquecida pela dor ou pela fúria, que emerge do outro lado do vidro para ceifar o que lhe resta de justiça. Suas origens se entrelaçam com histórias antigas de bruxas queimadas, rainhas enlouquecidas pelo sangue e crimes silenciados à força. Em um antigo fórum do 4chan, há um relato que fez os olhos digitais da comunidade tremerem: um adolescente afirma que, ao realizar o ritual com dois amigos, algo real aconteceu. O espelho escureceu por dentro. Uma figura ensanguentada se formou; os cabelos pingavam como se tivessem sido lavados em carne crua — e então ela atravessou. Dois dos participantes, segundo ele, jamais acordaram. E desde então, ele não consegue mais encarar um espelho. Pois, quando o faz, seu reflexo carrega não apenas o peso do horror que viveu… mas uma companhia. Sempre ali, atrás dele, com os longos cabelos loiros molhados, como se nunca tivesse partido.
4. O Fantasma que Grita de Yokocho (Japão)
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Dizem que em certos becos de Tóquio, aqueles tão estreitos que o céu parece um corte fino acima da cabeça, há um espírito que não quer ser esquecido. Ele aparece apenas quando alguém caminha sozinho — o som dos próprios passos sendo a única companhia até que… se ouve o grito. Um grito tão humano, tão rasgado, tão repentino, que o instinto é fugir, mas o corpo simplesmente trava. A lenda — obscura até mesmo dentro do Japão — conta que o fantasma é de um homem brutalmente assassinado ali, no silêncio abafado da noite, e que ninguém ouviu seus últimos gritos. Por isso, agora, ele grita por todos os que não puderam. Grita até ensurdecer. Grita até enlouquecer. Um dos poucos relatos conhecidos envolve uma senhora que teria perdido completamente a audição após cruzar um Yokocho ao entardecer. Mas o estranho é que esse relato jamais se espalhou, como tantas outras lendas urbanas. Algumas pessoas afirmam que há esforços para silenciar a história, pois os becos atraem turistas e há interesses em manter as rotas “seguras”. Outros dizem que o fantasma não quer ser lembrado… ele quer ser ouvido. E quando grita, o que ecoa não é apenas o som de sua morte, mas o peso do mundo que não ouviu ninguém.
5. O Bebê Chorando no Beiral (México e América Latina)
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Poucas coisas são tão perturbadoras quanto ouvir um bebê chorar onde não deveria haver nenhum. E é exatamente isso que acontece em algumas noites abafadas nas cidades do México e da América Latina: um lamento frágil e insistente escorre dos beirais, dos telhados, das frestas entre o telhado e o céu. Quem ouve — principalmente mulheres — sente o coração apertar. O som parece vir de cima, de muito perto, como se um recém-nascido estivesse sozinho e em perigo. Mas o que espera no alto não é um bebê… é uma entidade. Algo que sabe imitar o desespero com perfeição. Dizem que quem segue o choro pode ser atacado por algo que não tem rosto, apenas mãos longas e uma fome antiga. Um dos relatos mais inquietantes circula de forma anônima sobre uma noite movimentada na famosa rua Álvaro Obregón, no México. Entre turistas e luzes, apenas uma mulher escutava o choro. O som era real para ela. Seus amigos a seguraram quando ela tentou escalar uma escada de serviço, convencida de que havia uma criança em apuros. E foi só quando ela desistiu… que ouviu. Uma risada gutural, densa como fumaça, seguida de uma voz grave que sussurrou ao seu ouvido: “Volta, mamãe.” Desde então, ela diz que o som do choro ainda a encontra, mesmo nas noites mais silenciosas, mesmo quando não há telhado acima.
6. O Boneco Robert (Estados Unidos)
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À primeira vista, é apenas um brinquedo: um boneco antigo de feições desbotadas, olhos vítreos e sorriso ausente. Mas por trás do pano costurado e do uniforme marinho, mora uma presença — algo que observa, reage e se ofende. O boneco Robert, atualmente preservado em um museu na Flórida, é conhecido por amaldiçoar aqueles que o desrespeitam. Visitantes afirmam que ele muda de posição quando ninguém está olhando, que seus olhos acompanham cada passo e, nas madrugadas mais silenciosas, pode-se ouvir um leve som: algo entre uma risada infantil e o ranger de juntas de pano seco. Embora sua origem seja americana, a lenda dos bonecos amaldiçoados atravessa fronteiras, como se existisse uma verdade universal no medo que sentimos diante de olhos inertes que parecem… vivos. Quase todo o país tem sua versão: um brinquedo que não aceita o esquecimento. E, às vezes, o horror não é lenda. Quando eu era criança — e isso ainda me pesa na memória — havia uma boneca da Eliana, do meu tamanho, que piscava para mim à noite. Diziam que era imaginação… até o dia em que ela mudou de lugar sozinha e, então, foi levada para o lixo. A infância, desde então, nunca mais foi exatamente segura.
7. O Zelador do Prédio abandonado (São Paulo)
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
No ABC Paulista, em 1987, um prédio abandonado se erguia como uma sombra viva em frente a uma escola estadual. Seus andares vazios, janelas estilhaçadas e paredes cobertas de musgo atraíam os estudantes como um ímã sombrio — fosse pela adrenalina de uma invasão noturna, fosse pelo desejo de escapar da rotina escolar em festinhas proibidas. Mas logo os relatos começaram. Silenciosos no início, como cochichos entre colegas; depois, estampados no jornal interno da escola. Muitos afirmavam ter visto a mesma figura: um homem velho, magro, de semblante vazio e olhar opaco, carregando um molho de chaves que tilintavam como sinos de advertência. Ele surgia do nada e caminhava rápido, como se já soubesse onde os invasores estavam. Perseguia, correndo. E ninguém jamais quis descobrir o que acontecia se ele os alcançasse. Um rumor, persistente e cruel, dizia que o zelador assassinara uma aluna ali dentro, nos últimos anos de funcionamento do prédio — mas a história nunca foi comprovada. Ainda assim, o medo permaneceu. Muitos evitavam até olhar para o edifício ao atravessar a rua. E quem ousava invadir jurava ouvir as chaves tilintando no escuro, mesmo quando não havia mais ninguém ali. Eu, por mim, já vivi coisas estranhas demais em casas e prédios abandonados para duvidar. E você… já ouviu um som estranho ou viu algo terrífico em um lugar abandonado?
8. O Homem Rastejante (Rússia)
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Ninguém sabe ao certo quando a primeira história surgiu. Alguns dizem que foi em Vladivostok, nas madrugadas nevadas que abafam os sons do mundo. Outros juram tê-lo visto em Moscou, nas vielas onde o concreto apodrece lentamente sob o peso da memória soviética. Mas o que se repete em todos os relatos é a mesma figura grotesca, arrastando-se pelas sombras como se o chão fosse sua morada e não o castigo. Seu corpo é alongado, torto. A pele, quando visível, parece gretada, ressecada. Dizem que ele veste restos de roupas — trapos colados ao corpo, úmidos, exalando um odor que lembra umidade e carne esquecida. Mas o que realmente petrifica quem o avista é o som. Um estalo seco. Como galhos partidos ou vértebras rangendo em protesto. O Homem Rastejante não corre. Não grita. Não fala. Ele apenas se aproxima, como uma culpa antiga ou uma doença que se instala em silêncio.
E há ainda os mais perturbadores relatos: aqueles que dizem que, se você olhar nos olhos dele, ele para. Por um segundo. O suficiente para que você sinta algo rastejando dentro de você. Há até quem diga que ele não machuca. Que ele apenas observa. Mas que, com o tempo, sua presença leva à loucura.
9. Smile Dog (Lenda da Deep Web)
Imagem da web
Reza a lenda que existe uma imagem amaldiçoada, perdida nas profundezas da internet, conhecida simplesmente como Smile.jpg. À primeira vista, parece apenas uma fotografia digital toscamente manipulada — o retrato de um cachorro da raça husky siberiano, com olhos vidrados e dentes expostos num sorriso grotesco, quase humano, quase… consciente. Ao fundo da imagem, uma sala mal iluminada, como se tivesse sido montada num limiar entre o pesadelo e a realidade. Mas há algo mais. Algo que não se vê, mas se sente — um desconforto visceral, como se aquela foto olhasse de volta. Aqueles que têm a infelicidade de visualizar o arquivo alegam sentir-se imediatamente mal. Pesadelos vívidos começam naquela mesma noite, com o cão aparecendo à beira da cama, sussurrando — sim, sussurrando — palavras desconexas que apenas mais tarde revelam-se comandos. As vítimas relatam um declínio mental rápido: ansiedade insuportável, ruídos caninos na madrugada, um desejo incontrolável de compartilhar a imagem com outros. Como se o próprio Smile Dog implorasse — ou ameaçasse — ser espalhado, como um vírus faminto por atenção.
Reza a lenda que quem se recusa a passar a imagem adiante enlouquece aos poucos, até sucumbir em silêncio. A foto em si é raramente encontrada. Alguns afirmam que ela muda de forma, outros que é deletada pelos próprios mecanismos da internet, como se a rede tentasse se proteger do que contém. Mas há quem diga que ela sempre retorna — enviada como anexo, ressurgindo em fóruns abandonados, em e-mails esquecidos… ou em sonhos. Porque, afinal, o Smile Dog não quer te matar. Não de imediato. Ele quer que você sorria com ele. Um sorriso largo demais. Um sorriso que não acaba nunca.
10. Slender Man
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Alto como uma árvore esquelética, esguio como um presságio, o Slender Man é uma entidade que encarna o silêncio absoluto do terror. Ele veste um terno escuro e antigo, como se estivesse perpetuamente pronto para um funeral que nunca acaba — talvez o seu. Seu rosto, ou melhor, a ausência dele, é uma superfície lisa e pálida, como um véu de porcelana esticado onde um semblante deveria existir. A ausência de olhos é o que mais perturba, porque ainda assim sentimos ser observados — não com pupilas, mas com algo mais profundo: com intenção. Ele é descrito frequentemente em pé entre as árvores, ao fundo de fotografias antigas, à beira de escolas, parques ou florestas. A princípio, um vulto. Depois, uma presença. Por fim, uma obsessão. As crianças são especialmente sensíveis a ele — e são, segundo as histórias, suas preferidas.
Ele as convida em silêncio, aparece em sonhos, convence sem palavras. E desaparece com elas como se nunca tivessem existido. O mais apavorante não é o que ele faz, mas o que ele representa: o medo de ser observado quando se está só, a sensação de estar sendo caçado por algo que não precisa correr, porque já está à sua frente. Ele não sangra. Ele não grita. Ele não persegue da forma usual. Ele espera, pacientemente, até que você o note. E então… é tarde demais. Criado em 2009 em um fórum da internet, Slender Man ultrapassou as fronteiras do imaginário virtual e passou a ser visto, citado, temido — e até culpado. Casos reais de violência atribuídos a ele demonstram o quão tênue é a linha entre o mito e a mente. Pois o Slender Man não se alimenta de carne — ele se alimenta de crença. Quanto mais o temem, mais real ele se torna.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Além do Ser
"Torna-te aquilo que és" abrange o aceitar sua condição única, mas, no mesmo nível, traz a significação do eterno tornar-se, pois nunca, de fato, poderemos dizer que somos…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
"Torna-te aquilo que és" abrange o aceitar sua condição única, mas, no mesmo nível, traz a significação do eterno tornar-se, pois nunca, de fato, poderemos dizer que somos. Tornar-se o que se é não é possível, pois não somos. "Ser" refere-se a uma condição substancial, e o que "somos" é, tão somente, um vir-a-ser perpétuo. Sob o véu da morte lúgubre, findamos sem nunca termos sido. E, se "eterno vir-a-ser" é ser, então somos e não somos ao mesmo tempo.
A razão pela qual esta reflexão está sendo redigida não é apenas o deleite de pôr o "ser" em questão – como nos velhos tempos da filosofia. Estou certa de que a condição de ruína da humanidade reside na incapacidade de aceitar sua condição nadificante e, portanto, volto-me à questão do ser. Mas esta não é a única questão, pois "ser" é uma criação humana.
O que nos torna ainda mais dispostos ao vazio pertencente é o fato de que nada na natureza "é". O "ser-algo" é essencialmente uma questão humana. Nada que respira, exceto a humanidade, está "sendo", uma vez que quem criou o conceito de "ser" nem sempre existiu. As coisas que respiram estavam aqui, existindo. E nós, incapazes de tão somente existir, criamos o conceito de "ser".
"Ser" é, para nós, profundamente mais valioso do que "existir" – embora seja justamente no primeiro caso que a condição nadificante nos perturba. Enquanto você apenas existe, o "nada" não é uma questão. Mas, a partir do momento em que se "é" (do verbo "ser"), o nada torna-se o fantasma que se oculta nas sombras de seus próprios corpos. A dádiva de "ser" é a maldição de carregar o seu peso nadificante. "Ser" deveria significar uma condição superior ao "existir", mas tornamo-nos aquilo que somos apenas para desvelarmos que somos nada, tal como tudo o que existe.
"Tornar-se" implica que há algo a advir, entretanto, se o Nada é a única verdade, não há um "advir" a desvelar. Portanto, redundante, a frase se manifesta assim: "Nada há a advir para aquilo que nada se é". Se o Nada é o invólucro da vida, por que viver? Vivemos, justamente, em função do Nada; sem ele, não haveria vida tal como a conhecemos. Aceita-te como o Nada que és – talvez esta seja a frase correta.
Em um tempo de idolatria ao "sou", a revelação do Nada é, decerto, perturbadora. O Nada é dificilmente aceito pela lógica da racionalidade, o que é um fato curioso, já que viemos dele e voltaremos a ele. Alguns se questionam sobre o que "é" o Nada; alguns o chamam de Deus. Outros dizem que não pode haver um "nada", pois o "nada" é o insignificante ou o ausente. Mas o Nada não é insignificante, tampouco ausente – por isso é tão difícil para a mente humana aceitá-lo. O Nada é nada.
"Somos" o Nada, vivemos o Nada, estamos no Nada. O Nada é o único Deus. Somente no Nada é possível um Algo – ele é o ambiente propício, a condição basilar. Então, antes de tornar-te aquilo que és, reconhece-te como parte de uma totalidade nadificante. Pois não importa o que tu és, pois não "és"; o que importa é o que chamo de "Antesser": tudo o que se faz, pensa, expressa, sabe, sente e aprende no processo do caminhar consciente sobre o Nada. Isso é antesser.
"Antesser" é um conceito humano para significar a existência em suas mutabilidades e características psíquicas, considerando a constituição nadificante própria da vida. Não apenas considerando-a, mas principalmente valorizando-a. Antes de "sermos" – se é que é possível "ser" – precisamos antesser.
Eis aqui mais uma bela razão para viver: a condição da vida, florescida no solo nadificante, é a única que pode nos permitir o Antesser. Se digo que “sou”, é porque a condição de "ser" já se significou ou como um estado a ser alcançado, como um destino final, uma verdade imutável e perpétua. Enquanto isso, antesser é essencialmente provisório, instável, efêmero. Como um livro, ele faz-se de capítulos que contam uma história completa. Se antessou, é porque sei que tudo o que fiz e farei, tudo o que já pensei e hei de pensar; tudo o que aprendi, conheci, me arrependi ou mudei – absolutamente tudo, no passado, presente e futuro – faz-me na profundidade que me significa. E isso não é linear ou preditivo. Não é algo a ser alcançado ou algo a se tornar. É plural e total, contínuo e dinâmico, assentado sobre o Nada.
Antesser não é o mesmo que Estar. O Antesser considera toda a sua historicidade, mutações, conquistas, compreensões, conhecimentos e sabedorias. E, principalmente, sua condição de Nada – antes disso tudo e depois disso tudo. Eu antessou porque o que sou é Nada: o Nada antes e o Nada depois. Entre ambos, antessou o que antessou. E não há como não antesser enquanto houver vida. E mesmo que eu antesseja na certeza de "ser" algo, isto é, pois, antesser.
Sim, ser e antesser são criações humanas. Mas "ser" foi criado para identificar as coisas que existem e, depois, para significá-las: aquilo "é" um peixe, eu "sou" uma pessoa, eu "sou" especial e você não "é" especial. Em antesser, tudo isso é válido, mas sob outra ótica: não posso ser especial a todo momento, nem para todas as pessoas. É ridículo considerar que "sou" bonita ou feia, pois sou ambos – depende do dia, de quem olha, de minhas condições físicas. Se estou mais arrumada, se dormi mal. Apegados ao "ser", limitamos nossa compreensão da condição humana.
"Tornar-te aquilo que és"? Isso implica que "és" algo e que não se pode tornar-se o que não se é. Mas "somos" humanos tal como um peixe "é" um peixe? Tal como um peixe não pode "ser" um macaco? Pois um peixe não só não pode ser um macaco, como também não pode agir ou parecer um macaco. Nós, humanos, vamos além do "ser". Ainda assim, dizemos "eu sou", tal como um peixe "é".
Antesser afasta a ideia de que o que "sou" é o que "sou" e que não posso ser outra coisa além do que estou fadado a ser. Antesser é sobre todas as possibilidades da existência humana – possibilidades que nos diferem de um simples peixe. Antessomos humanos porque, mesmo que não sejamos um peixe, podemos aprender a nadar. Antessomos humanos porque, mesmo que não sejamos um peixe, criamos maquinários que nos permitem mergulhar nas profundezas do oceano.
Antesser é "ante" porque indica anterioridade – não no sentido cronológico, mas no sentido de estar sempre antes do ser: antes que eu possa ser algo, eu mudo; antes que o imutável me alcance, eu me desvio; antes que eu me defina como caminhante, aprendo a nadar. Portanto, não sou apenas caminhante. Sou caminhante e nadador. E um peixe é apenas um nadador. E mesmo que sua espécie evolua para além disso, ele nunca terá o mesmo grau de possibilidades de um humano. Eis a razão do antesser.
"Torna-te aquilo que ante-és" – é o que, por fim, faz verdadeiro sentido. Pois aceitar o antesser é aceitar sua condição dinâmica e sua capacidade de tornar-se qualquer coisa.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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O que é um Anfêmero?
Ao Anfêmero pertencerá a sua vida em todas as instâncias emocionais e psíquicas. O Anfêmero é um livro e posso…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Ao Anfêmero pertencerá a sua vida em todas as instâncias emocionais e psíquicas. O Anfêmero é um livro e posso compará-lo ao Diário, visto que ambos são guardiões dos aspectos quotidianos da vida humana singular. Todavia, o Anfêmero, para além d’esta tarefa, possui muitas outras e, para que estas muitas outras sejam cumpridas, é requerido que seu autor tenha um vínculo com seu Anfêmero, é imprescindível que seu autor tenha uma intenção verdadeira de encontrar, através da escrita, o autoconhecimento. Boa leitura, núridos queridos, imerjam-se na profundez do Anfêmero.
Cada um deve ser autor de seu próprio Anfêmero. O autor deve se vincular profundamente e emocionalmente ao seu Anfêmero para que sinta ser substancial escrevê-lo. A intenção, a qual supracitei, nada mais é do que a verdadeira vontade de fazer algo. Por vezes temos anseios quais, por mais que sejam anseios, não são febris o suficiente para que utilizemos nosso tempo e energia em nome deles. O anseio de escrever em seu Anfêmero deve ser, para o autor, um anseio resoluto. Isso, pois, das outras muitas tarefas destinadas ao Anfêmero, está o hábito de descrever o seu dia com minuciosos detalhes, em especial a respeito de seus pensamentos, sentimentos e emoções.
Em um Diário, naturalmente escrevemos o que sentimos ou pensamos, porém, no Anfêmero, é preciso uma dedicação para que esses detalhes sejam mais aprofundados, uma vez que são eles que trarão compreensão para nós e consciência para o nosso quotidiano. Isso acontece porque, ao nos dedicarmos à lembrança de cada pensamento e emoção, além dos acontecimentos do dia, trabalharemos a memória e a atenção a cada dia com mais avidez; imersos no verdadeiro desejo pelo autoconhecimento e vinculados, sem hesitar, ao Anfêmero; quereremos investir nossa atenção nos dias corriqueiros tão somente porque queremos ter o que redigir ao anoitecer. Esse ciclo de escrever para se lembrar e investir na atenção para se lembrar mais ao escrever, é o ciclo virtuoso do Anfêmero.
A memória é a razão pela qual somos capazes de compreender novos conhecimentos; exercê-la e praticá-la não apenas leva ao autoconhecimento, mas também nos permite transformar a nossa existência com a expansão da nossa capacidade de assimilação do mundo. O Anfêmero é a ferramenta do ciclo virtuoso da memória, pois a expande naturalmente. Além disso, com o exercício da Escrita, ampliamos nossa capacidade cognitiva e desenvolvemos, assim, maior habilidade de processamento de informação, além de autocontrole nas respostas reativas do nosso comportamento. Não é atoa que sempre, desde os primórdios da humanidade, buscamos formas de escrita que, mesmo rudimentar, vinham da nossa intuição primitiva de evolução mental.
Compreende-se que, portanto, enquanto ferramenta da consciência, o Anfêmero como hábito produz:
1) Exercício e expansão da Memória;
2) Reforço da atenção diária;
3) Ampliação da capacidade cognitiva no processamento e assimilação das informações do eu-mundo;
4) Melhoria na habilidade de lógica;
5) Construção de autoconhecimento na análise facilitada por todo o movimento dinâmico da mente descrito nos quatro itens anteriores — essa construção acontece porque, necessariamente, somos colocamos como observadores dos nossos pensamentos, sentimentos, emoções e, principalmente, das situações cotidianas, isto é, do mundo que estamos inseridos; ao escrever o Anfêmero, somos colocados como narradores da nossa história e, enquanto tais, podemos definir o futuro do protagonista que somos; isso acontece gradativamente, a cada nova folha redigida no Anfêmero, a cada novo esforço intencional para manter o hábito e dedicação para se lembrar de tudo o que passara por sua mente e coração ao longo do dia. Autoconhecimento é algo a se buscar do início ao fim da vida.
O Anfêmero, enquanto ferramenta, pode não trazer benefícios se utilizado de forma errônea; portanto eu reforço, é preciso um profundo e incorruptível querer-escrever-um-Anfêmero, para que a ferramenta seja aproveitada em todo o seu potencial.
1) Queira, de verdade, escrever um Anfêmero;
2) Dedique-se ao seu Anfêmero;
3) Divirta-se lembrando do seu dia, sentimentos, pensamentos e emoções, para que a “tarefa” de escrever lhe seja agradável;
4) Trate seu Anfêmero como um amigo, ou como seu Psicólogo, queira revelar para ele tudo o que se passa em seu ser;
5) Entenda seu Anfêmero como uma criatura que só vive se for alimentada por suas palavras, logo, não a deixe falecer no esquecimento.
Se não houver disposição para estas cinco coisas, desconsidere a escrita de um Anfêmero e prefira o Diário que é, em si mesmo, um hábito de escrita mais suave e fácil. Ambos têm suas qualidades, no entanto, não esqueça que escrever um Anfêmero é dedicar-se ao método mais poderoso para o autoconhecimento e independência racional e emocional através da Escrita.
Boa leitura, núridos queridos, imerjam-se na profundez do Anfêmero.