O Memórum de Olga Nivïttiz: ano desconhecido, página 298
Intensidade, Sabedoria e... desolação...
MidjourneyAI
Intensidade, Sabedoria e... desolação...
Compreendo que a dúvida cega o instinto primevo que me faz ser uma escolhida de Vehrvorus. Posso ouvir essa verdade em meu âmago como um sussurro que já não me cabe distinguir se é, de fato, a minha voz no obscuro psíquico ou se é o Ente Vehrvorus em sua magnânima revelação etérea. Respiro fundo sob o exalar noturno da noite mais escura do que a própria escuridão e, enquanto escrevo, recordo-me dos estranhos sentimentos erguidos desde meu despertar nesta manhã. O dia oferecera às minhas entranhas uma absoluta sensação de incômodo, porventura eu previsse, em certo grau inconsciente, o insólito agouro; pressentimento possível somente pelo que jurei encobrir a todo o custo: o medo. Guiada pelo temor, tenho despertado em todas as auroras debaixo de um manto de enraizada aflição, especialmente nesta, mesmo sob a égide do Ente que me revelara há certo tempo — o qual não posso mensurar com exatidão — que minha incumbência era guiar os Iguais e os Magistas pela ordem deste receptáculo — destino que me mantêm sempre lúcida em meu próprio equilíbrio. Mas, bem, tive sinais que reforçaram a intuitiva e perdurante amargura, um deles foi pouco antes de iniciar o registro duzentos e noventa e oito.
Devo afirmar que sei que a hora é esta e que reconheço a força de meu encargo. Eu sinto o quão vestal é o espargir sublime do poderoso Ente, bem como seu fascinante existir. Eu não poderia redigir palavras de hórrida negação sobre as grades atemporais de tal sombrio alcácer, pois, ao menos para mim, não estou em um martírio. Eu compreendo as oscilações emocionais, contudo, estou cravejada ao meu desígnio; minhas retinas estão fixas em meu fado. Sim, eu também tenho com clareza os seus ardores, símeis ao O Fortuna, nunc obdurat et tunc curat ludo mentis aciem (ora oprime, ora cura, brinca com a mente). E, se posso me prolongar, confesso a minha atração mórbida ao medo e à tristura, mesmo quando me assombram — decerto que esta é uma das razões pelas quais estou aqui. Apesar de tais impulsivas e voláteis vicissitudes, quando não estou preparada, obrigo-me à preparação, obumbrata et velata (sombria e velada) e, se preciso, dorsum nudum fero tui sceleris (o dorso nu entrego à tua perversidade) — a perversidade do efêmero sentir. Eu ainda sou humana, o ínfimo tormento pode ser o bastante para me absorver.
Ó… querido Memórum, explico-me como uma criança em busca de consolo… eu sei que algo maior virá, é isso que me embarga a serenidade. Um sopro abrupto de aragem regélida abrira os vitrais deste aposento e arrepiara minha rosácea tez agora pouco. Olhei para o abismo lá fora, os pinheiros e as tão negras montanhas. Desta torre alta, o vislumbre de uma natureza singular e sombria traz uma sensação insólita — Eu não temo este lugar... — murmurei a mim mesma e fechei, apressada, os vitrais. Porém, no exato momento em que me lembrei que os convivas chegariam em breve ao receptáculo, fui penetrada por um escuso presságio que trouxe aquele rosto em minhas lembranças. Vívido rosto... ó... que augúrio. Uma singela e, se não fosse sob tal contexto, ingênua reminiscência. Feroz como um fulgor, desvelou-se e velou-se ágil, deixando seu rastro de desolação. Esse foi o primeiro sinal.
— Daemor... — Sei que sussurrei o nome dele n’um impulso irracional.
Disparei, em seguida, ao salão principal no esvoaçar do damanoute negror que cobria meu corpo e, às mãos, como sempre, meu grimório. Sequer apreciei as refeições fascinantes feitas por Drácula. Aliás, Drácula têm sido minha única companhia há tempos insondáveis; embora seja tão somente um simulacro, possui uma veracidade que me assombra. Nota importante: Lembrá-lo de colher as Viinmdras para o ritual que não pode ser obliterado, elas devem florear na próxima lua nova; com elas será possível realizar o encantamento que desvelará a existência de Magistas entre os convivas.
— Oödo ess ellahr, nonm loduus së qeom eciehllum — Proferi ao centro do símbolo de Vehrvorus. Uma névoa rubra espargiu de meus olhos, os espelhos certificavam. A minha íris anil tornou-se apenas esclera, no entanto, eu enxergava. Com a mão esquerda distendida e a direita apoiando o aberto grimório, intensifiquei a névoa cetrina a partir d’um símbolo mudhrà feito com os dedos. — Escielisih ohrnonm ohrnomus esselis. — Sigilos abissais para vislumbrar cada um dos que receberam o chamado, até o momento, por meio do portal cuja aldrava é o encanto do espectro sombrio. Estão alguns em seus devidos caminhos, percebo, estão próximos do Castelo. Percorri os claustros apressada, porque aquele sinal incitou a possibilidade de... do espectro ser assimilado por... de alguma forma... por causa da atemporalidade da invocação…
Quero dizer, o conjuro dos convivas ao Castelo Drácula é a única forma que tenho para propagar a palavra do Ente e os ensinamentos da Magia de Sangue Arcana. Os que respondem ao chamado, chegarão. No entanto, para que seja efetivo, é preciso uma abertura desvelada, límpida. E ele... ele facilmente assimilaria uma convocação de tão grandiosa significância, sobretudo por, decerto, estar, também, em busca de sanguíneos receptáculos para sua sangrenta busca por poder. Indago-me em que tempo ele está... Daemor... Temo redigir o seu nome, amarga-me tê-lo recebido em minha memória n’um súbito deslize, dói-me como a morte doeria menos do que ter sussurrado seu nome por impulso. No entanto, não o encontrei na aura do espectro, isso aponta para certas premissas, a primeira delas é que ele pode estar morto... ou ele pode residir na atemporalidade, tal como eu. Essas irresoluções perduraram à míngua, resisti a cada uma, estava certa de que eram tolices, entretanto, o segundo sinal aflorou, após longas e exaustivas horas, e dissuadiu todas as minhas certezas.
Eu sonhei com Daemor... Os sonhos podem ser índices leais que percorrem a consciência dos Magistas para orientá-los de fissuras do espaço-tempo. Eu os levo sempre em consideração. As fissuras, como se fossem um lume vívido atravessando estreitas rachaduras n’uma parede, revelam, pela intuição, conhecimentos de inestimável valor. Tomar desta sabedoria impede que, na realidade do presente em que se encontra, o Magista sofra algum malefício em razão de mudanças temporais. O maior dos malefícios seria deixar de existir, quero dizer, nunca ter existido. Ter a linha do tempo rasurada a este ponto não é algo vulgar de ocorrer e eu não prestei honras a esta rara chance, pois, o sonho com... Daemor... foi de outro tipo... e é imprescindível redigi-lo aqui enquanto ainda me lembro. Os sonhos… como são efêmeros...
Em sua fisionomia prepotente repousava uma seriedade pontiaguda — e eu não sei o que isso significa, contudo, esta é a melhor forma de descrevê-lo. Estávamos em uma estalagem símil ao do lugarejo em Múrmura onde o vi pela primeira vez. Vestia-se de cores sombrias, com singelos adornos em dourado envelhecido. Estávamos a sós e não demorou para Daemor aproximar-se de mim. Austero. Olhos de felino. Todavia, tomou-me em seus braços com violência e, segurando-me no rosto, forçou-me a olhar para o espelho detrás da recepção destinada ao registro dos hóspedes. Eu vestia roupas de seda pura, um longo vestido igualmente adornado em dourado, era símil a um alvo damanoute. Daemor, enquanto ainda me continha os movimentos segurando firme em meu maxilar, com sua mão esquerda expôs-me sua adaga cuja lâmina brilhava aos meus olhos. Álgida... e rígida... em meu pescoço foi colocada. Comprimi minhas pálpebras enquanto o pavor germinava cruel em minhas vísceras.
À guisa de ímpeto deflorar, meus olhos abriram-se bruscos, senti verter dos poros de minha pele um licor espesso. Não estávamos mais no mesmo lugar, vi-me n’uma alcova sangrenta cujo dossel aspergia lentamente o sangue sobre mim e assemelhava-se estar constituído de vísceras. Às mãos de Daemor, cujas veias proeminentes afiguravam-se como canais de algum tipo de fluído caliginoso, carregavam um látego. O mesmo se dava aos seus olhos, estavam em completo breu e deles vertia o mesmo fluído das veias enquanto refletiam minha posição inerte sobre o leito. A correia brusca acertara minha pele e gritei à força de meus pulmões. Nenhuma voz difundiu-se. O flagelo sobre meu corpo denunciava a violência de Daemor... úmida violência. De minha arculva um enlevo pecador a cada flagelar. Ouvia os respingos galgarem ainda tórridos. Deseje, no mais profundo de mim, que Daemor se introduzisse ao bel prazer de meu corpo no exato instante em que tudo se apagou.
Minha lascívia não é comum. Nunca fora. Por esta razão amei Daemor e desejei ter sua violência sangrenta em minha pele, apetece-me a dor prostrada ao meu deleite. A tortura, carregada de lágrimas quentes e salinas, é meu frenesi. A sujeição progenitora do feto da tristura é, em sua profundez mais sórdida, o apogeu de meu êxtase. Há certas dores, distingo-as com perfeição; umas são a fonte d’esta avidez promíscua, outras não. No entanto, com a fronte oprimida n’uma deformidade palpável, um peso árduo em meu torso e o silêncio mórbido de um vazio em meu peito, ainda no plano onírico, vi-me n’um pântano desértico, feito de lodo, solo quase infértil e eivado, vegetações secas e escuras debaixo de um horizonte em eterno crepúsculo. Sim, Memórum, a calamidade de Ohropro. “Ohropo desperta ao entardecer e enquanto seus olhos se tumulam no precipício, um corvo de olhos pútridos crocita infeliz” — sussurei no sonho. Ao entoar o primeiro verso da lenda de Ohropro, senti a presença de Exício, no entanto, diferente de tudo o que emerge na imaginação a partir das lendas mais ancestrais, eu fui tomada por um esmorecimento ingente, maior do que toda a melancolia que um dia senti; maior que a flor do desalento infeliz que cultivo dentro do meu âmago.
Prostrei-me sufocada pela lhana mortificação e, ó… sim… que prazer! Um estado de espírito, alma, ser, existência e não-existência; uma condição que parecia compor um novo coração em meu imo. Então, lágrimas assomaram-se a ruir nas curvas de meu rosto, tipificadas em eterno afogo. Eu estava morta. Assim é a morte, então? É assim. Não sou capaz de preterir tal ilustre espetáculo. Todavia, que infortúnio, que santa e horrenda lástima... um fulgor símil ao sol trouxe-me à vida, extirpando minha edulcorada desolação. Vi, outra vez, o rosto amável e viril de Daemor e despontou-se a minha consciência de vez, aprisionando o simbolismo do sonho e me acordando. Minha respiração estava frenética A Necroumbrae é inconcessa, sim, ilícita e deveras hostil... arriscada...insegura... mas... experienciar a morte daquela forma tão inebriante... que minha condenada alma me perdoe... eu quero sentir outra vez, ainda que apenas no mórbido sonhar.
Não sei ao certo, mas, este segundo sinal... soa-me como... não sei... não pode ser... preciso de um tempo. Que hora inconveniente para tudo isso... devo meditar, cuidadosa, e talvez trazer minhas impressões no próximo anoitecer.
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Desígnio Sombrio
O sol é intenso na região de onde parto. Sair do meu país é quase deixar de me descaracterizar fisicamente. Não sei se estou…
MidjourneyAI
O sol é intenso na região de onde parto. Sair do meu país é quase deixar de me descaracterizar fisicamente. Não sei se estou pronta para o frio que me espera lá fora. Mas consigo fazer uma boa viagem, enquanto admiro o alto mar que, com suas ondas sobre as pedras firmes, banha as terras locais. Preparo-me para o desembarque e é agradável ouvir as correntes que conduzem a abertura da grande embarcação. As vozes de pessoas se encontrando, felizes, me faz saber que estava sendo direcionada para um bom lugar, embora frio e escuro. Estava pronta, decidida, preparada para enfrentar o que me esperaria dali para frente.
Depois de muito procurar me situar no local, avisto um grande espaço: “É aqui”, pensei. Um borboletar em meu estômago denunciava que eu temia um pouco a nova vida.
Pude avistar grandes casas com balaustradas ornamentadas e muito bem estruturadas. Quantos braços foram capazes de levantá-las deste jeito? Quanto suor fora vertido? E quanta beleza! Faz jus ao trabalho feito.
Todas as casas e castelos, bem como seus espaços semi-internos são formidáveis. Mas me aproximo de um Castelo em especial. Algo aqui parece conversar com meu interior, me convidar. Respiro fundo e admiro todo ornamento e altura do ambiente. Aposento um pouco a minha trouxa e tenho certeza de que não serei confundida como ameaça, devido a arcos e flechas instaurados pela minha vestimenta principal. Pois, aqui parece bélico. E o contraste da minha certeza se funde às penugens sobre a minha cabeça. É. Enquanto penso no próximo passo, espero ser acolhida. Ajeito meu roupão em estilo cardigan e me cubro bastante. Não sei se a cultura local estaria pronta para a vestimenta de indígenas natos brasileiros, e não quero arriscar, até então.
Admiro, mais uma vez, e sorrio, mesmo sentindo medo — parece que algo vai acontecer a qualquer momento. Se sim, estarei pronta para qualquer vislumbre de fantasmas.
A minha vida é apenas mudança de planos. Desde que nasci, o plano era ter os meus pais vivos, cuidando de mim. Mas tudo mudou quando há vinte e três anos eu fui deixada recém-nascida em uma outra aldeia xamânica para não morrer como eles. Os líderes me deram abrigo, sobrenome e um linda cultura que se assemelha à minha.
Já crescida, o meu plano, agora, seria desbravar castelos e não aldeias. Agora encontro o Castelo Drácula, que, com muita nobreza, cedeu seu recinto para que eu pudesse visitá-lo, enquanto sigo viagem de férias.
Alguns acontecimentos em minha vida não são bons. Não tenho mais os meus pais e no final da minha adolescência tive o pior desprazer da vida de uma indígena. Desprazer este que não merece tal recordação.
A penumbra deste lugar se aproxima do que eu sinto em mim, pela morte dos meus pais, pela morte da minha honra. Para que eu decidi vir para este lugar? Para quê?
Respiro fundo e desvio o meu caminho, avisto um enorme e escuro castelo, com ar gélido e alvacento. Uma bela visão eu tenho. É a única explicação. O castelo é muito bem localizado e com característica fortemente gótica.
Logo olho para as minhas vestes. Vestes de gente que vive nos campos e nas matas. Com certeza os próximos fantasmas vão caçoar de mim, eu imagino, ainda mais que não sou totalmente aberta a pessoas estranhas, a relações. Preciso, ao menos, fingir que não tenho medo das pessoas. Talvez, no fundo, eu seja afetuosa. Talvez, seja só uma capa para camuflar os meus medos e incertezas.
Meus medos me fazem encolher-me em uma bolha somente minha. E espero que eu possa utilizar bem a minha sabedoria por aqui para interagir com as almas vivas ou mortas, sem assustá-las, pois, ando com meus arcos e flechas carregados sobre meu corpo como se fosse uma selvagem, e, também com essas roupas e tecidos me cobrindo da cabeça aos pés, eu sei. Mas este lugar parece pedir que eu mude totalmente esta roupa que me cobre. Pode ser que um outro clima e temperatura do ambiente me façam mudar de vez em quando. Contudo, não quero perder a minha essência. Talvez fosse receio dos meus líderes, eu mostrar em demasia a minha pele. Meu corpo se acostumou com proteções em todos os sentidos possíveis.
Posso sentir a energia de muitos espíritos passando por perto de mim, atravessando as portas deste grandioso castelo sem fazerem esforço e posso, também, ouvir sussurros sombrios ao longe, com ecos ensurdecedores.
Olho para todos os lados de maneira ainda redil. O novo me assombra, mas os meus líderes xamânicos estão sempre aqui comigo, dentro de mim. E me ensinaram que eu não devo ter medo de nada.
Talvez eu seja a mais estranha? Talvez. Mas uma coisa eu tenho em comum com todos os seres: uma etnia e um desígnio na vida, não importa o quão sombrio seja.
É. Eu acredito que estou pronta. Paro de pensar demais e adentro, enfim, o grande salão principal do castelo. Encantada, logo vejo que é muito mais do que pensei e terei muito o que relatar aos meus líderes sobre esta viagem. A conexão que eu sinto com este lugar é similar ao meu pertencimento com a terra. Preciso me instalar por aqui.
Para não parecer tão redil, caminho levemente, experimentando degustar com o meu cerne toda a atmosfera umbralina deste lugar, mesmo que haja ninguém. Do jeito incomum que eu estou vestida, alguém irá perceber-me e não posso ser confundida com as possíveis assombrações que irei encontrar aqui.
— Olá… — brinco assustadoramente com a minha voz, que viaja sozinha, repetitiva e decrescente por todas as paredes escuras e rugosas deste lugar.
Começa-se uma nova jornada para uma indígena brasileira que adentra os umbrais do primeiro castelo que irá estudar em toda a sua vida.
Meu coração é sombrio,
a minha mente, soturna,
o meu corpo é Tupiniquim,
a chama que vibra em minh’alma — noturna.
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Maria
Olha Maria, vou te passar mais um serviço e dessa vez exige muita confiança e esperteza. Estamos progredindo aqui…
MidjourneyAI
Carta não datada
Olha Maria, vou te passar mais um serviço e dessa vez exige muita confiança e esperteza. Estamos progredindo aqui nessa cidade, mas vou demorar mais que o combinado.
Te deixei um bilhete informando tudo que preciso na nossa estalagem das lavandas.
Entre as pedras tem um lugar que o Jason conhece bem, leve ele nessa sua nova jornada e não me faça ter arrependimentos de confiar algo especial. Não quero saber de nada desse serviço que estou lhe passando, confio em você e no Jason, está nas “presas” de vocês.
De sua Mestre Vampira
Thammy
Já ensinei ela a mexer no celular, mas é difícil se acostumar sendo uma vampira tão velha — que ela não me ouça chamando-a disso. Ainda bem que li a “carta” que está mais para um bilhete na estalagem, vim descansar depois da nossa maratona vampiresca de recrutar todas as mulheres de Fortaleza.
Agora nosso clã de vampiras nordestinas está completo, os homens ainda padecem de serem nossos súditos. A bendita jinra foi um grande feito para nossas incumbências em acelerar o processo de servidão.
Alguns minutos depois
Não é possível que ela acha que serei capaz de fazer alguma coisa no Castelo do Drácula. Vou precisar elaborar algum plano até chegar lá, afinal sou vampira há apenas dois anos e meio. Fui transformada pelo meu gato e apesar de ele ser minha melhor companhia, eu não posso deixar de ser grata pela Thammy que transformou não só todas as minhas amigas, como todas as mulheres da cidade. Quiçá terei meu segundo livro publicado na editora das vampiras escritoras com aquela ilustração muito engraçada do morcego de cabelo com sangue escorrendo nos lábios e delineador nos olhos do morcego.
— Vamos Jason, não te levarei na mochila dessa vez.
Viajar até o castelo será tranquilo, assim espero. Ser vampira não me fez ter tanta segurança de si como achei que fosse ter. Porém, Romênia lá vamos nós!
Alguns dias depois
#Bloco de Notas da Maria&Jason
Como se minha alma ainda existisse.
Se eu não estivesse morta, agora seria minha deixa…
Quem diria que algo da minha estirpe,
Estaria tão próxima de tal magnitude.
Adentrei nesse castelo profano
O ar pegajoso de mofo e cheiro ocre de sangue.
Estão me levando a um deleite nobre,
Uma sensualidade me conduz para um dos cômodos.
Jason foi a procura do anfitrião
Vou fazer breves anotações no bloco de notas para não me perder dos meus deveres. Vou abrir essa porta que está me levando a alguma vítima de outrora ou seria apenas minha imaginação que está me guiando com sensações jamais sentidas por mim.
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Onde estou?
Por que diabos entrei num lugar chamado Castelo Drácula? Eu já não ouvira falar sobre esse nome (um ser maligno, até onde sei…
MidjourneyAI
Por que diabos entrei num lugar chamado Castelo Drácula? Eu já não ouvira falar sobre esse nome (um ser maligno, até onde sei, cujo mal é morder as pessoas e desafiar sua sanidade)? Estaria falando então sobre o próprio diabo? É em sua casa, em seu castelo que me fui colocar? Por que diabos o diabo me iria convidar?
Se é sobre o mal que pesou minha escolha, pensando encontrar aqui um lugar para depositar esse mesmo mal que, talvez, habite em mim, certamente que é curioso imaginar… Onde habita a maldade em mim? Ora, não sou nenhum vampiro, nenhum assassino; pelo que sei, o máximo que cheguei de cogitar atentar contra alguma vida, fora a minha própria… Mas, até onde também sei, foram laivos da juventude, logo superados ou, pelo menos, contornados, tendo em vista a maturidade que teve de chegar…
Fosse por essas reflexões, eu não deveria estar aqui, muito menos me sentir atraído pelo lugar… Mas acontece que já estou. Sinto que, ao entrar nesse Castelo, acato um convite irresistível de recusar. Será o resultado de minha procura incessante pela beleza? essa beleza que procuro há muito e, de tanto cavoucar e nada enxergar, me fez dar essa volta e achar as paredes frias, mas sólidas do Castelo? Estaria tal venustidade entranhada nas formas lúgubres, mas sensíveis, dessas muralhas? O anfitrião ou anfitriã desse Alcácer… possuiriam a chave dessa minha procura?
Ditas todas essas considerações, adiciono aqui o seguinte: desde que vim fazer presença no Castelo, seu anfitrião — ou anfitriã, ainda não sei dizer ao certo — me solicita apenas, como um tipo de passe, que redija alguns textos de acordo com a atmosfera do lugar. Sendo assim, venho escrevendo (e com estranho gosto, não posso negar) poemas nos quais utilizo a antiga técnica do soneto (ontem mesmo finalizei mais um!).
Vejam bem: antes de entrar aqui, eu já escrevia, e fazia bastante uso dos sentimentos amargos que achei de acordo a serem explorados na feitura desses textos solicitados por ela… ou por ele. O que me faz pensar: será que não achei, no fim das contas, um necessário caminho para dar nas vistas de quem, de fato, procura por essas expressões… artísticas? Será o Castelo Drácula um endereço ao qual cheguei por obra das mesmas forças que me impingem a escrever e que, agora, encontram seu lugar sob essa “sombra mecênica” que ainda não sei definir?
Continuarei a explorar…
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1. Castelo Vampírico
21 de outubro — Envolvida na análise de vários artigos científicos sobre os processos biológicos da morte e sua…
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Diário de Rute Fasano
21 de outubro — Envolvida na análise de vários artigos científicos sobre os processos biológicos da morte e sua relação com a natureza, busquei compreender os mitos e tabus que cercam a morte. Essa atenção afasta minha mente da melancolia da sobrevivência, proporcionando-me um breve descanso mental. Ao me distrair nas redes sociais, fui abordada por um chamado para fazer parte do Castelo Drácula. Ao investigar, percebi que seria necessário provar minha aptidão, o que me fez hesitar. Optei por deixar de lado e preparar um café forte para estimular meu cérebro cansado, retomando a leitura dos artigos. Porém, a ideia persistente de que talvez aquilo fosse para mim, continuava a me inquietar. Deixando de lado os estudos por um momento, busquei antigos escritos pessoais que, em outros momentos, me proporcionaram paz de espírito. Será que integrar o Castelo seria o problema que minha alma necessita para essa melancolia que me encontro?
Insatisfeita com todos os escritos, reescrevi aquele que se aproximava mais da paz que buscava, o enviei e agora espero ansiosamente por uma resposta. E agora estou incapaz de me concentrar nos estudos aos quais estava focada anteriormente.
Sair um pouco da minha reclusão e me conectar com outros indivíduos semelhantes parece ser a escolha lógica a ser feita?
30 de novembro — Recebi a notícia da minha aceitação no Castelo e, junto com ela, “A carta” que estabelecia minha ligação ao pacto de sangue da linhagem Drácula. Embora tenha ficado ansiosa por essa confirmação, uma sensação de temor apertou meu peito, embrulhou meu estômago e despertou minha síndrome da impostora. Por que, meu caro cérebro, você insiste em me sabotar?
3 de dezembro — Prevendo que talvez a jornada até o castelo seria longa e desgastante, vesti roupas e botas pretas confortáveis. Preparada com o essencial na mochila — livro, diário, folhas de rascunho, caneta e uma garrafa de água — não tinha ideia de para aonde ir, mas senti que ao começar a andar encontraria o caminho. Uma sensação intensa de paz e familiaridade tomou conta do meu ser, aguçando meus sentidos. Era como se eu estivesse retornando a um lugar que nunca visitei, mas conhecia o caminho.
Passando por um belo cemitério no percurso, não pude deixar de observar toda a fauna e flora local. Era surreal ver plantas fora de época coexistindo, várias flores, todas em tons escuros, entrelaçando aromas. Árvores, também diversas, que faziam parte da paisagem, atraindo uma variedade de animais, dos que eu pude observar, morcegos, mariposas, aranhas, lagartos, sapos, que, por sua vez, atraíam gatos, cachorros, corujas, urubus e corvos. Havia variedades de cogumelos, outros animais, plantas, rios e lagos, tudo formava um ecossistema fascinante e estranho, mas que naquele momento eu não poderia pausar para dedicar um tempo e observar todos os detalhes.
Essa diversidade incomum de vida selvagem e vegetação peculiar me cativava, guiando-me em direção ao caminho do castelo, em meio a esse cenário de fantasia sombria ou uma versão às avessas de folhetos de uma certa denominação cristã. Diversas espécies compartilhavam um espaço que não parecia ser o seu habitat natural. Não conhecia a exata localização do castelo, apenas sentia a necessidade de alcançá-lo. Se alguém me perguntasse sobre como chegar, não teria uma resposta precisa, mas estava certa de que havia chegado. Me questionava se toda essa diversidade não era algo criado pelo próprio castelo para me guiar até ele, como uma espécie de estrada de tijolos amarelos. Se assim fosse, significaria que o destino final prometia algo bom?
O castelo era sombrio, envolto por uma sutil névoa e algumas árvores de galhos retorcidos, exibia várias torres altas que se elevavam como espinhos negros afiados, prontos para romper o céu noturno estrelado. Sua arquitetura não seguia padrões, com torres irregulares que pareciam capazes de brotar a qualquer momento para acomodar novos aposentos. Janelas obscuras, grandes como os olhos de sentinelas, decoravam a estrutura. Ao chegar à imponente porta de madeira maciça, bati três vezes, ela se abriu com um leve rangido, fui prontamente recebida por uma figura misteriosa vestida de preto da cabeça aos pés. Com um sorriso discreto, fez sinal para que eu pudesse entrar, e pronunciou com calma e cortesia:
— Seja bem-vinda ao castelo! Entre por sua livre e espontânea vontade. Vá com segurança e deixe um pouco da felicidade que você traz!
A menção ao livro Drácula arrancou de mim um sorriso breve. Fui guiada pelos corredores labirínticos, cheguei a uma sala iluminada por velas em majestosos lustres e castiçais. A decoração, repleta de quadros e esculturas, revelava um intrigante anacronismo, onde elementos clássicos e contemporâneos convivem em harmonia, não apenas na decoração, mas também nas pessoas presentes.
Na longa mesa central desta sala, indivíduos de aparência misteriosa aguardavam, ansiosos assim como eu, pela chegada de outros membros. Todos sedentos pelo conhecimento sombrio que nos aguardava. A entrada da anfitriã chamou a atenção de todos. Com olhos profundos e uma presença tranquila, nos cumprimentou com serenidade, pronunciando as seguintes palavras:
— Bem-vindos, sombrios visitantes, ao majestoso Castelo Drácula. Este recinto suntuoso serve de abrigo para aqueles destemidos que ousaram adentrar os domínios das sombras, desbravando os abismos do profundo e desvelando os mistérios do oculto. O castelo, qual entidade viva, nutre-se vorazmente de toda expressão artística mergulhada na obscuridade, transcendendo as fronteiras do tempo e do espaço.
Então era das narrativas, da poesia, da música e de todas as formas de arte que o castelo absorvia para se nutrir? Fiquei fascinada com a ideia de o castelo ser uma entidade viva. As artes eram como o fluido vital escarlate que alimentava o castelo, lhe dando vida, grandiosidade e uma aura acolhedora. Eu pude sentir a relação simbiótica entre o castelo e seus membros, estabelecida a partir do momento em que o pacto foi selado. Quanto mais fosse oferecido a ele nossos dons artísticos, mais seríamos beneficiados com uma inspiração sombria. Fiquei bastante curiosa para entender os mistérios do castelo e, também, ser beneficiada com essa experiência. Acredito que meu tempo no castelo será bastante proveitoso e mal posso esperar pelo que o futuro reserva.
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Querido diário, mais de dois meses se passaram e eu continuo confinada neste terrível castelo….
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25 de maio de 1880
Querido diário, mais de dois meses se passaram e eu continuo confinada neste terrível castelo. Acredito que ficaria louca caso não o recebesse em minhas mãos. Deves saber que és um presente do querido advogado do Lorde Drácula, este gentil senhor salvou minha vida diante deste terrível destino que decaiu sobre mim.
Papai jamais esteve de acordo com minha instrução de conhecimento, todavia jamais acreditei ser capaz de concordar com tal sandice como mandar-me para o castelo de um de seus clientes localizado no centro da Romênia. De qualquer forma, registrarei toda minha história neste belíssimo encadernado de couro vermelho, para que caso minha vida seja extinguida, saberem a verdade.
O começo de minha história é dado com uma falsa acusação sobre mim em um colégio. O colégio interno público para jovens moças dirigido pela Igreja católica fornece aos alunos uma educação passiva, apesar da rigidez dos documentos burocráticos, redigido por nossos bem feitores, que deixavam claro suas opiniões contrárias à construção de uma educação áspera e de caráter hierático.
Após a eminente falência de minha família, fui transferida de meu querido colégio na França a esse menos privilegiado, mas muito conhecido por dar ênfase ao ensino da agricultura, onde nós éramos diferenciadas entre nossas condições sociais, jurídicas e étnicas, separadas em filhas legítimas e ilegítimas de aristocratas falidos, ou incapazes de se submeterem a uma relação monogâmica em seus casamentos arranjados, misturando assim a pureza de seu sangue. Estávamos no meio de uma revolução contra o governo imperial, mas uma revolução ainda maior estaria prestes a se instalar dentro do meu peito.
‘’Desmanche essa cara de suplício, Astrid. Levante-se e vá se aprontar como as outras moças.’’
Dizia sempre irmã Filipa.
Eu a obedecia, mas o meu suplício tão evidente existia somente devido a dor de haver perdido tudo que eu julgava mais importante no mundo, e quando digo tudo, expresso a totalidade dos bens os quais acreditava serem puramente meus por direito, como nosso precioso Château em Val de Loire, onde eu costumava descansar em meus recessos de finais de ano, com minha mãe e nossas criadas. Saudade dos meus belíssimos vestidos de algodão e lindos chapéus repletos de flores e fitas, nada comparados a simples vestimenta de peça única, que obrigatoriamente trajávamos no colégio, em razão do caimento nos proporcionar a praticidade esperada em nossas tarefas no campo. Mais para frente eu descobriria que há coisas mais preciosas do que bens materiais e memórias distantes, construídas em cima de segundos de total cegueira ao afeiçoamento alheio.
Perdida em meus pensamentos eu observava minhas colegas, apesar das condições simples em que vivíamos, eram felizes, rodopiavam, deixando irmã Felipa aborrecida, pois, eu era solitária, a garota desprezada, chamavam-me de ‘’A burguesa’’, eu apenas aceitava enquanto lutava para não chorar. Oh quantas vezes eu estive em prantos, rezando a Deus para me ceder um pouco de paciência, que minha angústia cessasse, no mínimo por mais um ano, ou eu cairia nas graças da morte pelas minhas próprias mãos. Eu entendo, os meus motivos eram superficiais, mas nada do que me diziam aliviava a dor de ainda estar viva.
‘’Termine suas lamentações e vá conversar com a irmã Celeste, ela está a sua espera na ala leste.’’
Ordenou outra irmã, consenti com a cabeça, repassando os diálogos, não havia muito o que dizer à Irmã Celeste que continuasse a prolongar minha imagem passiva, distanciando de seus pensamentos a falsa acusação contra mim, caso não ocorresse agradava-me muito a ideia do meu provável suicídio.
Tenho certeza de que minha expulsão fora arquitetada por Blanca, uma das internas, a fantasmagórica figura de cabelos curtos encrespados e tez pálida, Blanca sempre me causou medo ao transitar na madrugada entre os leitos, tocando os lençóis com as pontas dos dedos alongados.
Desde minha chegada ao castelo pouco vi o conde, conversamos brevemente em seu escritório em uma apresentação formal. Agradou-me muitíssimo sua aparência pálida, esguia, lábios pequenos e nariz aquilino, tal como seus modos aristocráticos e bonitos trajes antiquados. Nossa pequena interação durou alguns minutos, porém fora o suficiente para que eu tencionasse vê-lo novamente, sei que somente ele poderá convencer papai de minha volta para casa, da mesma forma interromper os terríveis sons que se ralham durante a madrugada.
Em breve registrarei mais de minhas impressões sobre minha nova residência funesta. Devo recolher-me por agora. Boa noite, único amigo.
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…