Le Papillon et la Fleur
Retomo as lembranças daquele desgraçado dia na universidade! Dia em que minhas tragédias tomaram forma em pesadelos em vida e…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Dr. Christopher V. Walker II
(Anotações em seu caderno)
25 de agosto de 1871 — París.
Retomo as lembranças daquele desgraçado dia na universidade! Dia em que minhas tragédias tomaram forma em pesadelos em vida e se arrastaram pelos dias até o presente momento.
Torno a escrever minhas próprias memórias — sobre o dia 22.
Todos os eventos daqueles dias até agora ficaram terríveis na minha mente. Memórias que somente nessas folhas e com este lápis atrevo-me a confessar.
Minha jornada começou no distrito XIII, Gobelin, passando por Reuilly — XII distrito. As casas aqui foram algumas queimadas, atravessadas por projéteis dos canhões de campanha de 4 e 8 libras — sabíamos o tamanho dos projéteis pelas histórias dos que retornavam da guerra com a Prússia. Agora testemunhei com meus olhos e outros sentidos os efeitos dessas armas de destruição pelas ruas e casas de Paris.
— Ouvi tantos relatos durante a guerra contra a Prússia, que agora eu sou o que vai criar o relato. — Sussurrei para mim mesmo.
Foram tantos desvios de regiões tomadas por comunas e suas barricadas. Cadeiras, mesas, candelabros, paralelepípedos e até os postes, além dos sacos de terra para as barricadas. Tudo para impedir a mobilização dos soldados de Adolphe Thiers.
— Ainda creio estar entre os mortais? — Essas dúvidas persistem! Assim como as dores que ganhei tanto no corpo quanto na alma.
A luta tem sido tanta. A dor, a angústia e a penúria têm sido demasiadas.
— Os dias calmos agora parecem tão distantes, na linha do horizonte…
Tentava…
Me esforcei para evitar os conflitos!
Mas uma ou outra vez pelo caminho me vi diante do confronto direto.
A troca de golpes com soldados de sua majestade ou com os infelizes rebeldes da comuna. Na última vez que me vi num conflito, um jovem com uma baioneta, desferiu um golpe que achei haver evitado. Lutei como um cão faminto quando consegue carne e precisa defender a vida e seu bem precioso.
Corri, me escondi e me arrastei por entre destroços, corpos inchados, sangue com terra.
—Afirmo… Não nego que isso já é uma loucura. — Minha angustiante situação me fez tomar decisões estranhas.
“Piorado por sons estranhos, animalescos, inumanos que ouvi durante as noites.”, — Pensei, ao adentrar uma casa ao final da tarde. Se me lembro bem, sim, foi naquela noite dias atrás que rumores sobre eles começaram a correr pelas ruas.
Consegui um breve momento de paz. Havia um silêncio no ambiente que me soava estranho. Sinto o corpo esfriando, então… Uma agulhada cortando meu interior, do cotovelo ao ombro e depois aos dedos, correndo pelo meu braço… Dor!
Aquela sensação subiu intensamente como se fossem as ondas de disparo dos canhões da sua majestade. Encostei na porta e comecei a descer lentamente apoiado nela, senti sua madeira desgastada e áspera.
— Ah, droga. — Levo a mão do braço bom até o braço ferido. — Como…? Como não notei? — Rugi aquelas palavras entre os dentes.
Olhei para o braço. A manga rasgada estava escura, grudenta. Puxei o tecido com os dentes para ver melhor. Corte!
— Limpo… Sim… Pelo menos isso. — Tomo uns momentos para controlar a respiração. — Atingiu o bíceps... braquial, sim, essa é a palavra. Sorte que não pegou a artéria.
— Médico, lembra? — Um sorriso em meio à dor invade meu rosto. — Você é médico. Sabe o que fazer.
Foi como confessar segredos para comigo mesmo porque falar com as paredes era me soaria naquele momento delatar minha própria loucura.
Rasguei a barra da camisa. Amarrei-a firmemente acima do ferimento. Apertei até sentir o nó cravar na pele.
— Pressão. Aaaargh — Uma dor correu como um raio até a ponta dos meus dedos. — Primeiro… Oh, Deus… Pressão!
O sangue parou de escorrer como uma nascente. Respirei aliviado, mesmo com as ondas de dor percorrendo meu corpo.
Depois, limpar. Com quê?
— Água…? Onde nessa maldita casa terá água. — Me ergui com dificuldade, me escorando na porta, forçando ainda mais minhas pernas doloridas.
Passei a vasculhar aquela casa. O piso de madeira maltratado, desbotado e empenado. Móveis atirados ao chão. Cacos de vidro das janelas e das louças sobre grande parte do ambiente.
O som do ranger das tábuas a cada passo que dei, arranhou meus ouvidos, fazendo correr calafrios na espinha. Era como um monstro mórbido buscando amedrontar minha alma castigada.
Não havia água limpa…
Olhei dentro dos armários, correndo com os olhos. Quando no que estava num canto, na esquina, abri, dentro de uma garrafa suja, empoeirada. Dentro de um líquido verde fantasmagórico, não mais que meia garrafa, sim, absinto.
— Um doce remédio para um homem ferido e quebrado. — A voz saiu rouca e baixa. Meu rosto está esboçando o cansaço e o estresse. Mãos trêmulas, coluna doendo.
Antes de segurar a garrafa, caminhei até onde ainda havia uma cadeira intacta atirada ao chão. Coloquei-a de pé, encostada na parede ao lado do armário. Me sentei lentamente. Sentindo cada fibra muscular dura. Peguei a garrafa com a cor esmeralda.
— A primeira vai para o médico! — Abri a garrafa, o cheiro herbal e doce convidativo inundou meu nariz, tirei o pó do gargalo e logo levei a boca tomando um gole longo. — Aaaargh… Queima como o inferno! — Saiu quase como um rugido, o sabor doce e intenso tendo um contraste queimante na garganta, rasgando minhas entranhas.
Um gole de coragem e outro para o meu ferimento.
— Recomendação médica! — Sussurrei para mim mesmo.
Ardeu… Ah, sim, ardeu! Queimou, mas queimou tanto, que chamei todos os anjos do cânone.
— Isso vai doer por um longo tempo! — Eu me contorcia na cadeira suportando a ardência como podia. — Será que… Anton e o Marcel fizeram isso alguma vez enquanto estavam na frente de combate?
Busquei acalmar meu espírito.
— Quer parar de reclamar, doutor? — Gritei para mim mesmo naquela cozinha abjeta e escura.
Ri, num crescente, até gargalhar sozinho… Terminei num riso curto, amargo.
Pensei naquele momento: —“Médico ferido é pior que paciente.” Dei de ombros. O silêncio ambiente parecia uma redoma ao que ocorria em Paris. O cansaço deixou minha cabeça pesada, me fazendo apoiar na parede, de olhos fechados. Um novo pensamento me invadiu, “— Porque sabe exatamente o que pode dar errado.”
— Uma vez médico… Sempre médico!
Sentado naquela cozinha, as lembranças vinham em ondas. Não tive tempo para refletir com clareza sobre o que eu havia presenciado horas atrás.
Tomei outro gole da minha única bebida à disposição.
— Foi tão desolador… Ver os olhos perdidos daquela criança. — Me coloquei a analisar a cena. — A guerra arranca a alma de qualquer um, mas ver aquela monstruosidade foi além para aquela pobre criatura.
Seria aquele o pai dela?
Será que aquele dorso que foi queimado era alguém importante para ela?
A criança não… Ela não falou nada.
Ela ficou nos meus braços… Silêncio… Vazio!
Estamos do lado errado do céu?
— É possível…? Em algum nível?
Estamos tão condenáveis e reprováveis que as hostes infernais venham nos capturar?
Será que com suas mãos demoníacas de chamas condenatórias já estejam nos levando um por um?
— Oh, Deus… o que fizemos…? — Tomei um novo gole do líquido verde.
Lentamente sinto meu corpo relaxar, o coração se acalmou e a dor diminuiu. Os pensamentos ficaram tão distantes. Ao longe escuto o som de uma melodia tão suave e… Sim! Popular.
Estão… Alguém está cantando? Qual era…? Qual era a música? Ah, sim, “Le Papillon et la Fleur”.
— “Mas não, você voa longe demais! Entre incontáveis flores você voa, enquanto eu permaneço sozinha, observando minha sombra circular ao redor dos meus pés. ” — A bela melodia transbordou de minha alma até sair pelos meus lábios e me embalou o coração a um sono tão suave com lágrimas escorrendo em minha face.
Madrugada do dia 23 — Lembrar, revisitar essas imagens em minha mente é como tocar com bisturi uma ferida estranha que não encontra cura, apenas segue aberta e cheirando a queijo podre e rançoso, uma gangrena não tratada.
Eu caí num sono profundo, mesmo com todo aquele caos acontecendo, meu corpo apenas desmoronou naquela cadeira. Um sono sem sonhos. Sem perturbações. As poucas horas que mergulhei nos braços de Morfeu deram novo fôlego.
De sobressalto desperté. Um estado de alerta que não me era natural, se apossou de mim, como um espírito maldito e frio.
A garrafa estava ao chão, com seu interior parcialmente derramado. O ar tinha cheiro de “fada verde”, madeira molhada e um pouco de fumaça.
Primeiro, ouvi como se algo tivesse sido arrancado da casa. Depois, gradualmente soavam como se algo estivesse apertando a madeira da casa intensamente até ela estalar. Então, como se algo tivesse caído no piso superior, a poeira se soltou do teto com um som oco e pesado.
— Que diabos foi isso? — Sussurrei.
Comecei a buscar algo para usar como arma, observando as rotas de saída da casa.
Corri meus olhos no breu, até que a pouca luz das fogueiras na rua fez meus olhos notarem que havia algo perto da lareira. Me aproximei lentamente, tomando todo bom cuidado para assegurar minha posição. Aquilo parecia um atiçador! Sim, era. Feito de ferro fundido com duas boas pontas.
— Não sei o que está lá em cima, mas com isso tenho mais chances. — Uma certa calma tomou posse das minhas feições tanto quanto a segurança do meu espírito.
Caminhei em direção à porta pisando como um gato que busca um passarinho na janela aberta. Tomando todo bom cuidado para não provocar ruídos desnecessários e atrair o que quer que fosse que estava andando no piso superior.
Por Deus, meu coração galopava loucamente dentro do meu peito, apertando meus pulmões contra as minhas costelas.
Será que era mais uma estranha criatura que queima ao sol?
Olhei pela janela e o céu estava escuro demais até para ver as estrelas. Os astros estavam se escondendo dos olhos mortais naquela noite.
O que estava no andar de cima foi em direção às escadas que terminavam de frente com onde eu estava. Recordo de pensar, —“ Como eu não notei essas escadas?”. Olhei para a parte de trás da casa e dava para uma pequena janela que estava aberta. Olhei para a porta que estava fechada. Ela não estava trancada. Também nem poderia, o trinco está parcialmente quebrado, apenas uma ponta do ferrolho sobrou, qualquer batida externa arrebentaria aquilo.
Ao longe escutei o som do disparo de canhões, na sequência, as explosões, o barulho do disparo dos mosquetes. Gritos.
Meu cenário naquele lugar estava apenas ficando pior. A rua era quase uma reta, e no início da noite eu não lembro de ter visto barricadas nela.
O barulho externo parecia aumentar, o que já me deixava sem fôlego, novamente sendo pego no meio do conflito.
Olhei para o meu braço com o corte.
— Droga, minhas chances estão diminuindo rápido demais. — Rosnei a minha fala em voz baixa.
Então um rosnado na escada. Passos pesados.
— Meu amigo do andar de cima deve ser grande. — Sussurrei para mim mesmo e às paredes mudas e surdas ao meu redor.
Segurei o atiçador como se fosse um florete, só que mais pesado e rígido. — “Vou agradecer a meus amigos ingleses por terem me permitido umas partidas de esgrima no clube dos lordes.” — Acho que pensei isso na hora. Me faltou o gole de coragem para impulsionar meu valor.
Antes que minha decisão se formasse, na esquina da escada de canto, na parte superior de sua esquina, vejo surgir uma mão que parece humana. A respiração da coisa é pesada, há um grunhido animalesco soando.
Quando surge a coisa pela metade na parte superior da escada, seu aspecto é cadavérico, aquilo fica um tempo de perfil, quando decide seguir, ela vira seu rosto revelando olhos fundos com um estranho brilho esverdeado não natural.
Ela desce lentamente como se não tivesse pressa para fazer qualquer coisa. Observando… a mim! Quando ela chega ao fim da escada, pude ver melhor suas feições grotescas.
Além dos olhos, sua pele parecia branca demais, além de se assemelhar a um couro curtido e esticado. Sua boca esboçava um sorriso obscuro e malicioso. Ela emana uma presença aterradora.
— Por Deus, suas mãos…. — Minha voz falhou ou foi impedida de falar qualquer coisa.
A coisa tinha garras e o que pareciam presas. Das mãos a boca e o queixo gotejavam um líquido vermelho e negro.
Me correu um frio na espinha, um calafrio desceu da minha nuca até a ponta dos meus dedos. Me senti um felino diante de uma ameaça desconhecida eriçando os pelos.
Não sei sua origem, mas afirmo: não veio do céu muito menos deste mundo carnal.
Ele me olhava como se eu nada fosse, mesmo estando com atiçador numa das mãos. Não sei dizer se estava pronto para morrer, mas certamente eu queria muito viver.
A criatura seguiu seu próprio tempo brincando com a comida? Era essa a áspera sensação: eu era a próxima refeição dela!
Com um grito estridente que me fez doer os ouvidos até alcançar o cérebro, ela levantou seus braços na altura dos ombros com as mãos abertas e o peito descoberto. Ela não parecia temer minha arma e menos ainda a mim.
Avançando lentamente em minha direção, eu me preparei para o ataque. O atiçador pesava na minha mão. Sou médico, me dediquei uma vida para salvar outras. Nunca matei ninguém, aprendi a suturar feridas. Naquele preciso instante aquilo parecia ter uma diferença ínfima.
Num movimento a criatura avançou, abrindo a boca com quatro dentes longos e pontudos se projetando. Seu braço esquerdo fez um arco rasgando o ar, tal qual fosse uma foice. O defendi como era possível. O som metálico do encontro do atiçador com o corpo daquele monstro soava no ambiente.
Tentei dar um passo para trás… uma triste revelação… senti nas minhas costas a parede fria.
A criatura atacava de forma tão aleatória e estranha, que era perceptível sentir a maldade naqueles movimentos. Meu braço ferido começou a arder e doer com o suor do esforço, o sangue voltou a brotar da ferida.
— Argh! Criatura maldita. — Meus gritos eram para motivar meu espírito a seguir no combate.
A criatura no último movimento agarrou meu pescoço. A sensação daquela mão era de um frio polar, sua pele com textura tão ressecada, adornada com o odor fétido de sangue e gordura. Apertou lentamente meu pescoço. Olhei para ela, e com o atiçador ainda em minha mão, tive por intenção um golpe desesperado, que foi frustrado sem esforço pela criatura que agarrou meu braço, me fazendo derrubar minha única arma.
— Arrg….! Cri…aaa… turaaa….— Ele apertava minha traqueia como se eu fosse um boneco de palitos.
O ar começou a faltar. Minha memória daquele momento é aterradora, eu estava morrendo. Lembro dela se aproximando, ficando a poucos centímetros de mim. Como quem observa seu novo brinquedo sendo quebrado deliberadamente.
“Fraqueza. Pesar nos extremos. Visão ficando turva”. Comecei a listar os efeitos da privação do ar. Então quando estava sentindo que a esperança havia acabado.
Um som explosivo e estrondoso.
Um mosquete?
O vazio.
Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
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⚜ Vantanúrida: Parte 1
Águas termais acolhiam-me pelo sutil aquecer. Minha cabeça estava apoiada em lanuvenis e aos meus ouvidos vinha o longínquo som de qued’orvalho. Meus olhos…
Águas termais acolhiam-me pelo sutil aquecer. Minha cabeça estava apoiada em lanuvenis e aos meus ouvidos vinha o longínquo som de qued’orvalho. Meus olhos se abriram vagarosos e demorei a me acostumar com a luz que, esplendorosa, irradiava na clareira. A cálida lagoa que se abençoava da linha pálida-solar, refletia em suas águas a cintilância iridescente dos céus de Opallihan e das flores de mesmo matiz. Quando distingui as cores e feixes, de imediato avistei, fora da clareira, certo tipo de eletricidade rasgando o espaço. Iniciara de um ponto absoluto em vazio, pairando no ar e expandindo-se célere para todos os lados. A princípio: fascínio! Era de beleza extraordinária como os fúlmens nuvieanos, porém, atraía-me sem temor. Pouco depois, as faíscas deram espaço ao que eu compreendi como “outro lado”, mostrando-me frondosa e azúlea floresta cingida por soturno mistério. Eu sequer podia piscar, pois estonteante era a experiência.
Levantei-me atenta, jamais vi algo tão extravagante. A eletricidade espargia sonidos, estalos e faíscas lívidas que se contorciam n’uma distorção atemporal. Andando envolta de tal “rasgo” — e somente d’esta maneira eu poderia apreendê-lo — nada havia além de sua existência possuída de duas únicas dimensões; símil a uma porta sem espessura. O turvo arvoredo azulescido estava dentro da fissura — embora fosse incabível haver intradimensão. Ousei aproximar-me, pois, ponderei tratar-se de algo deífico ou tão somente sonho de expressão lúcida causado pelo tempo de exposição ao perfume de lanuvenis. “No universo onírico, todo o horror é miragem e todo o enlevo é recordação.” — diz um antigo ditado.
Estendi minhas mãos; certa densidade opressiva as arrastara ao interior do fenômeno e a eletricidade nívea-faiscante alargou-se violenta. Assustei-me no rompante, clamei socorro. Um zumbido pujante e súbito ensurdeceu-me e, por mais insistente que eu fosse em apartar-me daquilo, minha força era ínfima perante o tragar da manifestação. Vi Saphihria aproximar-se, decerto ouvira meu chamar condoído, entretanto, a luz iridescente rarefez-se até pratear-se e... findar... antes que eu pudesse pronunciar quaisquer sílabas de alívio por encontrar minha irmã. A linha pálida-solar alterou-se ao breu amedrontador; descargas contínuas de energia contorceram-me o corpo, causaram-me dores exorbitantes nas veias e artérias — assim assimilei, nítido e legítimo, mesmo sendo tão breve e repentino.
Fui tragada para o cerne do fenômeno, caí d’outro lado — um outro lado de inominável conceber. Envolvi-me em terror que me trouxera hediondo abalo existencial e físico. Por átimos esperei despertar do pesadelo, mas quando senti exalar fragrâncias amarescentes... tão coercitivas... e respirei um ar de algidez inenarrável, ali compreendi que não se tratava de inócua ilusão.
Jamais cogitei sentir pavor — emoção residente tão só em lôbregas histórias sobre a lua noctígera —, entretanto, o sentimento expressou-se em meu espírito com ferocidade suficiente para fragmentar-me o equilíbrio; e apossou-se de mim, pois não havia retorno. E não havia retorno, pois o que vi... a eletricidade de beleza insondável que desejei demasiado tratar-se do contato de Deusas Iridescentes... infelizmente era uma grave, e lídima, armadilha. Desfez-se em sua centelha, a energia em lampejo, e tudo o que restou era azul-escuro e penumbra, e o arvoredo sombrífero, e os estranhos sons de naturezas hostis e... aquele céu vantanegro...
Eu estava ali, sem direções. Prensei minhas pálpebras. “Acorde, Írides!” — sussurrei ininterrupta por infindável duração e, somente quando toda a adrenalina se dissolveu em lágrimas, ousei abrir meus olhos. A primeva imagem — embaçada por gotículas salinas — fora de minha pele que, sob a escuridão intolerável, perdera seu tom castanho-profundo e tornara-se parte indissociável do breu azúleo — entretanto, de alguma estranha forma, produzia ou cintilava pontos douradiços. Senti-me instigada a fitar a floresta, por questões íntimas à sobrevivência e ao conhecimento de um devir indistinto, porém, havia aquele céu amedrontador... receei pela possibilidade de erguer minhas retinas a ele ao me deslumbrar, ou me estarrecer, com o que habitava sob ele.
Era preciso coragem e eu a desenterrei do jazigo de meu horror.
Ao derredor, tons de bronze-áureo esplendoravam em plantas, flores e insetos alados; por causa disso, minha tez lumiava naquele matiz como pelo reflexo desta fauna e flora, além do anil difuso que parecia penetrar os poros e invadir o ser. Levantei-me aturdida e notei que me encolhia sobre relva mediana e frígida — gélida como nunca senti. Respirei fundo. Em silêncio busquei em mim a paz iridescente das pérolas lunares e observei tudo, menos o céu vantanegro — e confesso que sua presença me oprimia. A imensurável pupila celeste era o terror mais insuportável já idealizado — antes fábula... e, de repente, concreta sobre mim...
A linha pálida-solar fenecera; o portal elétrico fechara-se. Nenhum orvalho bendizia a floresta e a única fonte de iridescência vinha de minha memória, protegida no meu coração. A pulsante vida lucífera de Opallihan — agora reminiscência — era guia dos meus sentidos diante do anseio de reencontrá-la, por isso restitui a fé; meus passos se iniciaram contidos, e andei mesmo sem Norte ou Sul. “Não... não estou só... elas me resgatarão... Deusas criadoras do cosmo plenicores... clamo a vós... que esta azulínea natureza insólita tenha senciência... e me devolva ao meu lar... Restitua, eu rogo, o pleniluzir dos céus... amanhã e para sempre... afasta-me d’horror d’esta pupila e do agouro que a precede...” — rezei, murmurante.
— Afasssta-me... d’horror d’essssta... pupila.... — ouvi sussurrarem...
Terrifiquei-me, tão próxima ao estupor catatônico. Um altar de árvores frondosas, nada além disso vinha ao encontro de minha visão.
— Agouro... agouro que precede... — espargira outro sussurro, agudo e distorcido.
— Q-quem me replica? Mostra-se! Mostra-se de uma vez! — bradei como pude, a voz ainda embargada pelo pânico ensandecido.
— Mossstra-se... mosssstra-se... — Horrifiquei-me ao ouvir e, apressada em abrigar-me de tamanha perturbação, fui desbravando a selva azulescida em trevas, gritando aos prantos lacrimais: “Vá embora! Afasta-te de mim!” — Até a fadiga obrigar-me à pausa, e a respiração ofegante calar-me.
Sozinha... exausta... afogada...
E então, um rosto longínquo... vários deles... todos calcificados... eu vi... dentre arbustos frondejantes... eles observavam-me em expressão de espanto e de seus orifícios oculares ocos e das bocas ovais vertia sangue vívido em tom escarlate intenso. Todos eles... inclinados... iníquos... sussurravam minhas palavras em uníssono. Meu cérebro pulsou em opressão irrefletida; era símil a dores pontiagudas, entretanto, carregava densidade agônica vinda da inconcebível constituição que possuía tais plantíferas criaturas.
Só podia ser pesadelo... inaceitável que o terrífico pudesse existir com grandiosa perfeição tangível... soterrando-me em suas vísceras bestiais... era inadmissível...
N’um surto de suplício atormentador, fitei a imensidão acima em sua pupila eterna, o vantanegro dos horrores mais martirizantes. Caí de joelhos na relva, sem afastar minhas retinas do betume celeste. “Por favor...” — roguei em lamúrias, contudo, os sussurros impediam-me de ouvir minha própria voz e meu pedido direcionava-se ao meu maior temor, pois, seu poder era o único capaz — e eu intuía essa verdade — de me amparar; ainda que fenecer em seu pélago infindável fosse a única saída.
E ele era... terrificamente belo...
A escuridão... a pupila dilatada no infinito...
Meu medo perturbador tornou-se atônito êxtase e, de repente... a quietude circundou-me. O breu desmesurado, insondável... como um manto parecera descer sobre mim. Eu o senti... e todo o arvoredo tornou-se silhueta... todo o anil atrovioleara... os fulvos lumes dealvaram... e o céu obsidiano — insigne... magnânimo... — olhou-me de volta, alcançando a profundez de minha alma irisada...
· · • • •✤• • • · ·
Glossário da autora:
Atroviolear: Tornar roxo-escuro.
Azulíneo, Azulescer, Azúleo, Azulear: De cor azul. Tornar azul. Azular.
Douradiço: Que possui cor dourada.
Esplendorar: Fazer brilhar. Resplandecer.
Intradimensão: Espaço tridimensional no interior de alguma coisa bidimensional.
Plantífero: Relativo a plantas. Corpo vegetal. Que possui características de plantas.
Plenicor: Iridescente. Todas as cores. Furta-cor.
Pleniluzir: Luz intensa espargida. Esplendor. Plena luz.
Vantanegro: Uma adaptação de “vantablack”. Vantablack é uma substância feita de nanotubos de carbono. É a substância mais preta conhecida, absorvendo até 99,965% de radiação.
Vantanúrida
A ínfima compreensão impossibilita-me de descrever o escuro perpétuo; esta matéria enegrecida envolvendo os céus que outrora foram puro esplendor iridescente. Nunca vi tal opressivo e misterioso poder... é como pupila de insondável dimensão que observa, perfurante, minh'alma através de meu absorto olhar. Chamam-na de Noite..., e eu a sinto vantanúrida em meu ser... » Leia todos os capítulos.
Sahra Melihssa
Escritora e Poetisa, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sou Anfitriã do projeto Castelo Drácula e minha literatura é rara, excêntrica e inigualável. Meu vocábulo é lapidado, minha literatura é lânguida e mágica, dedico-me à escrita há mais de 20 anos e denomino-a “Morlírica”. Na alcova de meu erotismo, exploro o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo meus leitores em um imersivo deleite — apaixonada pelo tema, criei Lasciven para publicar autores que compartilham dessa paixão. No túmulo de meus escritos, desvelo um terror, horror e mistério ímpares, cheios de profundidade psicológica e de poética absurda — é como uma valsa com a morte. Ler-me é uma experiência, uma vivência para além da leitura em si mesma; e eu te convido a se permitir fascinar. » saiba mais...
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Menel Lomë I - O Herói Que Ninguém Pediu
Era noite de uma quinta-feira qualquer. O café de Menel esfriava ao lado da folha amassada, das várias folhas amassadas e rabiscadas que se espalhavam pela…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
As pessoas que inventamos
Não existem fora de nossa cabeça
Por isso, inventar personalidades
De quem mal conhecemos
Pode ser nossa ruína
Era noite de uma quinta-feira qualquer. O café de Menel esfriava ao lado da folha amassada, das várias folhas amassadas e rabiscadas que se espalhavam pela escrivaninha. A tinta de sua caneta ainda pingava, e o papel ainda estava úmido. Com o retrato ainda secando.
Era o retrato de uma jovem: pele morena, cabelos enrolados, olhos profundos e vivos. Não se parecia com ninguém, pois era feito com memórias.
O resto do ateliê estava bagunçado; textos e cadernos jogados por toda parte, todos eles contando sobre a mesma mulher, sob a mesma perspectiva. Menel Lomë escrevia para tornar sua amada real, pois jamais teve coragem de dizer o que sentia quando ainda era tempo.
Mas então ela desapareceu. E isso levou Menel à loucura, guiado por um romantismo idealizado e irreal.
Ele a havia visto três vezes.
Na primeira, em uma viagem. Ela estava com um casal de amigos, posando para uma foto que se perderia no tempo, mas ele... ele a guardava na memória.
Ela sorria. O casal atrás, de mãos dadas, posava para a foto. A garota tirou a foto e correu para mostrar aos amigos, e todos pareciam felizes. Mas Menel viu solidão onde havia apenas um momento feliz de uma viagem.
Na segunda vez, foi mais perto. Perto de casa. Perto demais. Ela estava tomando café, lendo o livro preferido dele. Ele se apaixonou ali. Pensou em perguntar sobre o livro, pensou em fazer uma piada, pensou em comentar algo sobre o que ela estava lendo.
Pensou demais.
Ela fechou o livro, levantou-se e foi embora.
A terceira vez foi ontem. Ela caminhava à noite na rua, e ele a viu pela janela do ônibus. Criou coragem, correu para a porta e, quando o ônibus parou, desceu. Correu até ela. Mas ela já não estava mais lá. Ela havia sumido e, onde ela deveria estar, havia um portal mágico e sinistro fechando-se.
Menel, dessa vez, não pensou. Não hesitou. Apenas correu.
Jogou-se para o desconhecido, esperando ser o herói que ela não pediu para resgatá-la.
E então ele sumiu, tudo sumiu.
Menel apareceu caído em outro mundo; o rosto sujo, as mãos raladas, a pele sangrando.
Levantou-se e viu um homem de sorriso largo e pontiagudo que surgia com um manto negro bordado em ouro-bronze. Ele estava ao lado de um menino, a quem segurava pelas mãos; a criança tinha olhos pálidos e roupas singelas.
Menel se levantou e disse:
— Onde ela está?
O homem, em silêncio, apenas sorriu.
— Ela já se foi.
Aquele sorriso fez com que diversos pensamentos — um pior que o outro — passassem pela cabeça de Menel. E o homem voltou a dizer:
— Ela não morreu. Ainda não. Mas as coisas aqui vão mudar em pouco tempo. Cinco atos, cinco tempos. E o sofrimento-carmim vai acontecer.
— Não demore a encontrá-la — continuou o homem. — As coisas vão ficar bem complicadas se você demorar.
Então ele puxou uma joia, um anel muito bem adornado, com uma única pedra carmim reluzindo no centro…
— Aqui. Pegue. Vai te ajudar.
E no momento em que Menel tocou a joia, uma névoa cobriu sua visão, e o gosto de sangue tingiu sua boca. Menel sentiu náuseas, e o cheiro de sangue surgiu em suas narinas.
Um segundo depois, sua visão retornou.
E o homem e a criança já haviam desaparecido
Quando ele voltou à consciência, estava parado no mesmo lugar, mas, agora, sem a figura do homem, conseguia perceber onde realmente estava:
Na areia.
Seus pés, agora descalços, tocavam a areia fina e gelada. Sua mão ainda segurava a joia. Seu olhar se perdeu no horizonte do mar.
Estava perdido.
Mas sabia exatamente o que queria. Quem queria encontrar.
Só não sabia por onde começar.
Então ele caminhou pela praia, procurando-a. Procurando qualquer rastro que ela tivesse deixado.
Mas não encontrou nada.
E então começou a pensar nas consequências de ser inconsequente. Talvez ser o herói de sua alma gêmea fosse mais desafiador do que qualquer coisa que ele tivesse feito até agora.
Caellum Noctis
Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Diário de Dr. Christopher V. Walker
Paris, dia 24 de agosto de 1871. — Escrevo sobre a manhã do dia 22 de agosto, e seus eventos póstumos. Os tempos de paz me parecem tão distantes. Obliterado pela…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Dr. Christopher V. Walker
(Anotações em seu Caderno)
Paris, dia 24 de agosto de 1871. — Escrevo sobre a manhã do dia 22 de agosto, e seus eventos póstumos. Os tempos de paz me parecem tão distantes. Obliterado pela sombra das colunas de fumaça da madeira queimada, com um cheiro acre de pólvora, sangue e fezes.
Ao longe posso escutar os tambores dos militares e os gritos da comuna. Mal avançamos uma semana desde os fatos que fiz questão de relatar ao Anton, e já me vejo envolto em novo caos.
As comunas pareciam por algum tempo haver desistido… uma doce ilusão de um médico.
Imagens daquela noite nefasta ainda provocam tremores neste pobre corpo e se somam aos medos vindos das ruas de minha querida Paris.
Resolvi registrar os eventos nesta terra de Deus. Uma ferramenta a que recorro para manter a sanidade, o equilíbrio e a esperança de que passem esses ventos e dias melhores venham. Contudo ao que vejo, do que recebo de notícias, esse desejo me parece cada vez mais distante.
Anton meu amigo, torço, com todas as forças que ainda me restam, que onde estiver encontre mais paz do que aqui… já que os inocentes deste lugar... são atormentados pelo tiro de mosquetes, das explosões das bombas como pelo fogo atormentador.
Tornou-se impossível sair para fazer qualquer coisa.
Há alguns dias saí do meu quarto com mil olhos e ouvidos, para evitar zonas de conflito. Mas não importa por qual viela, rua ou praça que se caminhasse haveria soldados, ou comunas, ou comunas e soldados se enfrentando.
Caminhei por poucas quadras como se fossem mil léguas em marcha cautelosa, porque a fome ainda é um excelente motor para superar o medo do risco de ser alvejado.
Ao chegar no açougue, coloquei-me a selecionar o que mais me apetecia. Ainda assim, meus ouvidos chamam a minha atenção a qualquer som incomum.
Então escutei um soldado que estava na porta do açougue, junto a outros quatro homens fardados numa conversa, a princípio, descontraída.
— Ouviram que numa das ruas próximas de um mercado no Norte, uma patrulha foi atacada por esses malditos baderneiros da comuna… — Por um breve momento parecia que o homem alto de cabelos loiros e olhos aquilinos tinha receio de seguir o relato. — Disseram… santo Cristo… que um dos atacantes avançou desarmado… que em sua boca os dentes eram como de um animal, e suas mãos pareciam de um demônio…
Todos se entreolharam, até que outro dos soldados tomou a palavra.
— Ora… que isso David! Está ouvindo historinhas de crianças contadas pelo sargento Dubois. — Ele soltou uma gargalhada, que fez o clima tenso se dissipar. Depois pegou um naco de salsicha defumada e deu uma bela mordida. Os demais igual riram. — Quer dizer que, além da comuna nos infernizando, temos que nos preocupar com monstros ajudando os inimigos?
— Ah, Thomas, quem me contou foi um dos que sobreviveram da patrulha atacada. Se fosse o Dubois eu contaria como uma piada e não com essa seriedade. — O rapaz claramente ficou vermelho de raiva.
De todos, ele parecia ser o mais jovem. Batendo a caneca de ferro fundido que tinha nas mãos — cujo líquido, derramado dela, parecia cerveja por causa cor.
— Haha… — Outro dos soldados ria em voz alta com a boca cheia de pão e queijo semicomidos. Começou a falar de boca cheia. — David deixe o menino em paz. — Ele terminou de falar e engoliu como um bom glutão. — Olhe, Alexander, nesse momento, muitas histórias estranhas vão ser contadas. Em sua maioria mentiras.
A atenção de todos recaiu sobre aquele homem imenso de tão alto e rechonchudo. Sua expressão era serena, apesar da cicatriz na face indo da sobrancelha até os lábios.
— Tá… tá… está bem. Apenas queria distrair o novato inocente. — Falou o soldado David em tom de deboche e uma cara de fuinha louca.
Devo dizer que ouvir aquilo gelou a minha alma. Um homem que tinha dentes e mãos como de uma fera selvagem… sim… sim… poderia ser.
Saí do açougue com umas poucas compras até o meu quarto. A jornada foi imersa em pensamentos e reflexões sombrias.
— Aquele jovem chamado… David… sim. Disse que foi uma patrulha ao Norte. — O pensamento que começava a ganhar forma em minha mente já causava arrepios, até que as lembranças daqueles monstros na faculdade e dos seus gritos me fizeram parar por um par de minutos.
— Tenho que me recuperar. — falei para mim mesmo. Quase me senti um louco fazendo aquilo no meio da rua.
Eu não iria sozinho buscar um perigo daqueles.
Óbvio… muito óbvio…
Precisaria de ajuda, e não de qualquer ajuda.
Alguém… uma pessoa, sim! Que tenha visto e participado comigo e que não duvidaria de minhas intenções e pensamentos.
· · • • •✤• • • · ·
Dia 22 de agosto à tarde — Recorri à única pessoa que me era familiar para aquela situação. O oficial Joules. Este homem que compartilhou comigo… a maldita experiência… a mais nefasta de toda a minha vida.
— Meu amigo Anton, se um dia tiver acesso a este diário espero que não fique chocado com o que encontrar. Torço por sua compreensão quanto a estes fatos que narro aqui.
Tomei o rumo para a delegacia onde Joules trabalhava. Na esperança de que ele estivesse disponível e disposto a participar de uma empreitada que para poucos podemos dizer ser convidativa.
De minha casa até a delegacia, de carruagem, seria trinta minutos, no entanto, com toda a baderna dos conflitos dentro de Paris, encontrar esse transporte se converteu em algo impossível.
Então tive que me aventurar por vielas e ruas caóticas. Desviando de áreas que estivessem com conflito deflagrado.
Por umas quantas vezes… Nessa curta viagem pelas entranhas de uma Paris em banho de sangue. Pude presenciar a angústia e desesperança encarnadas em rostos infantis. Era como ver anjos deprimidos e perdidos, caídos em meio a pólvora, a pedra e o sangue.
Mulheres correndo com suas crias na intenção de protegê-las, homens guarnecendo suas janelas e portas na vã tentativa de evitar o confronto.
Corpos estirados nas vias, com seu cheiro peculiar de podridão e morte. Ratos correndo por sobre eles e dentro deles.
Pobres almas saqueando corpos mortos e moribundos. Um cenário angustiante e doloroso. Por algumas vezes fui pego no meio do conflito das facções e tendo que desviar dos projéteis de ambos os lados.
Num dado ponto da jornada fui forçado a invadir uma casa, que por infeliz surpresa havia uma jovem senhora com suas crianças.
— Ca… calma! — Minha voz estava entrecortada de tanta correria. O peito não conseguia se encher de ar, as narinas ardiam com o cheiro da fumaça; limpei a fuligem da roupa e o suor da minha face. — Não vou fazer mal a sua família.
Uma das crianças começou a chorar de medo. A mãe gritou alguma coisa que eu realmente não… não consigo recordar… ou não posso… sei que deveria!
Sei que o que fiz a colocou em perigo iminente e nem lembro da voz dela.
Logo atrás de mim, na casa da frente, uma explosão das bombas dos granadeiros nos fez cair ao chão com a onda de choque.
— Ahhhh… ahhh… — Por uns momentos… ali naquele chão de madeira empoeirado, sujo e desgastado, senti um zunido forte nos meus ouvidos, o coração acelerado somado à dificuldade de respirar.
Mal pude recuperar minha razão, percebi o ar denso, cheio de fumaça e fuligem.
— Ah… que dor em meu estômago… — Caí sobre algo. Senti cada músculo, até as fibras do meu cabelo doíam. Sentia a fadiga.
Me ergui como pude, tropeçando em meus pés, como se estivesse bêbado; corri para a porta para fechá-la da melhor maneira possível pensando em proteger aquela família.
Apenas escutei o choro desesperado das crianças, e a mãe entre tossir e chorar dizer algo que pudesse acalmar as crianças.
Me virei e olhei aquela cena, mas em minha mente havia um objetivo maior. Eu tinha que chegar até Joules.
— Vocês estão bem? — Sei que disse isso… ou gritei. Naquele momento ambas as coisas pareciam uma só.
Meus ouvidos começaram a ouvir novamente com clareza, sem o som irritante.
Me apoiei nos joelhos tentando recuperar o controle, enquanto do lado de fora se ouvia os disparos, os gritos de ordem.
Então um grito no andar superior da casa que me fez gelar. Era diferente do que estava acontecendo do lado de fora. Era… de terror.
Olhei para a mulher, que tinha uma expressão de não entender a razão do grito. Da escada apertada na lateral da sala da casa, se ouviu o som oco de algo rolando escada abaixo, até parar no térreo, atrás de uma pequena mesa com cadeiras caídas no chão.
Estava ali diante dos nossos olhos.
Levei uns momentos para entender o que era aquela massa diante de nós.
Ao me aproximar um pouco, pude perceber a parte superior de um tronco humano que parecia ter sido cortado ao meio por alguma lâmina.
— Mas… o que é isso? — Meus olhos se arregalaram, e minha mente tentava traduzir aquela imagem. — Isso… isso não… não pode ser!
Quando notei que o corpo gotejava um líquido mais escuro... preto! As memórias vieram. — Meu Deus… — Minha voz falhou neste momento, levei a mão à boca.
Minha cabeça seguia a escada, o que me fez olhar para o teto e um temor em meu coração cresceu.
Do andar de cima um grunhido feroz soou.
Não tive dúvidas, olhei ao redor e para o fundo da casa, foi quando notei que havia uma porta para um pátio traseiro, e que estava aberta.
— Co… corram. Corram para o fundo! — Foi um grito desesperado.
Não pensei muito, tão somente obedeci minhas pernas e meus instintos de sobrevivência. Avancei na direção da mulher e seus filhos. Todos se levantaram e correram para o fundo do ambiente. Tomei uma das crianças nos meus braços — que chorava e me abraçava, chamando por sua… sua… mãe. Oh, Deus! Como lembrar disso me atormenta, me angustia a alma.
A mãe tomou a outra criança até cruzarmos a porta.
Chegando ali, olhei para trás com aquele bebê em meus braços; observei aquele monte de carne no chão da casa da pobre mulher.
— Por favor, que eu esteja errado… Por favor, Deus… — Eu não consegui respirar direito, o peito doía, o ar com fumaça dificultava ainda mais. Os músculos tremiam de cansaço e dor. O corpo… aquele ser… humano?... Não, não sei afirmar… se ele era humano…
Ali no chão… Aquilo começou a vibrar fortemente, os braços se contorciam. Havia um cheiro forte de podridão no ar. Não sei dizer se vinha dele, ou do conflito… suponho que de ambos… Aquela cena não pertencia ao mundo de nosso Senhor.
— Aquilo poderia ser algo vindo do inferno para atormentar a humanidade? — Então… por um momento… um breve instante... aquele ser… parou.
Um silêncio mortal imperou.
Nem disparos, gritos ou mesmo explosões se ouviam. O mundo ficou num silêncio ensurdecedor. Os segundos pareciam levar décadas para avançar.
Logo, do andar superior, vindo pelas escadas, um som de passos pesados... descendo... quebrando aquela frágil redoma de ausência de som.
Naquele momento o desespero aumentou. Uma sensação de que algo abissal estava vindo, sim, algo que eu já havia possivelmente presenciado.
Por uma graça que só posso atribuir ao divino, a nuvem de fumaça negra que estava cobrindo o céu sobre a casa — e a região — passou a se dissipar gradualmente. Aos poucos, os raios amarelos surgiram dentro da casa, como uma luz gloriosa avançando divinamente. Cobrindo progressivamente; da cabeça até a parte faltante do corpo.
Aos poucos o corpo parecia incendiar-se, faíscas saíam de todas as partes, o ser abriu os olhos vermelhos e a boca com dentes pontudos. Começou a se debater empurrando a mesa para o outro lado da sala, e pude ver bem, chamas saindo de seu interior, sua pele se escurecendo como carvão... lento... e claramente fatal para a coisa.
Quando me dei conta, a mãe… ela… estava ao meu lado com o outro filho em seus braços, observando aquela mesma cena hedionda.
A pobre criança que estava comigo… oh, a pobre e inocente criatura estava estática em meus braços, com os olhos fixos no corpo no chão.
Parecia que algo havia sugado sua essência angelical.
Pus a criança no chão; a mãe sem dizer nada tomou sua mão e logo se colocou a andar em direção a um corredor que dava para uma via lateral e, então, à rua de trás.
Ver os olhos… sim… aqueles olhos da criança sem reação, mortos. Me rompeu… quebrou minha alma. Nenhum desses inocentes deveria ver algo tão terrífico como aquilo. Aquela imagem vai perturbar minha mente pelo resto de minha vida.
— Meu Senhor, o que foi isso? Que coisa nefasta é essa que corrompe a natureza? — A angústia tomava minha voz, consumia meu interior.
Aquele momento me fez derramar lágrimas. Derrubando muros que construí.
No andar superior se ouviu que algo foi rompido, como uma explosão. Claramente algo saiu correndo, já que se ouvia seu avanço de parede em parede.
Aqueles estrondos fizeram minhas lágrimas cessarem, parte da razão retornou à minha mente, ainda havia mais coisas ocultas.
Dentro da casa restou apenas um corpo carbonizado… um silêncio e um vazio… como se ali já não houvesse qualquer vestígio do divino.
Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Capítulo 5: Renascimento
O desassossego noturno retornou para açoitar-me. Inicio meu relato desculpando-me pelos prováveis lapsos de memórias e confusões textuais…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
5º relato
O desassossego noturno retornou para açoitar-me.
Inicio meu relato desculpando-me pelos prováveis lapsos de memórias e confusões textuais, pois esse texto reflete meu estado de espírito perturbado — o registro começou minutos após os eventos.
Eu, notívaga inata e teimosa em semelhante proporção, insistia em lutar contra a minha natureza. Contudo, compreendi que a noite não me trará descanso, mas poderá ser aliada nas minhas aventuras por lugares desconhecidos, internos ou externos a mim.
Contarei sobre um evento terrível e curioso, onde tive que enfrentar os limites da realidade. Novidade! Escavei coragem de um solo árido, até então, nunca regado por mim.
***
Algumas horas antes
Os sonhos arrastavam e sugavam-me para um oceano revolto por correntezas perfurantes. O despertar foi acompanhado de um grito. Gélido ar aspergia lâminas que perfuravam minha pele desnuda, mas as janelas estavam, hermeticamente, fechadas. De onde provinham?
Gritei por Lisa. Nada. Onde ela estava? Já prevendo outra incursão pelos recônditos do Castelo à procura da gata que tinha paixão por entrar em enrascadas, apoiei meu pé direito para levantar-me e o chão quase me paralisou, tamanha frieza com que me recebera.
Estranho. Não lembro de ter presenciado frio tão intenso desde que chegara aqui, mas imaginei ser normal. O chão estava coberto com uma textura peculiar. Ao passar suavemente o pé naquela superfície, ouvi um farfalhar, algo macio, gelado... Neve! O assoalho era um campo nevado!
Não confiei estritamente no tato, meus sentidos estavam diferentes. Não era? NÃO ERA?! Poderia confiar nos meus olhos? Acendi o abajur e a luz iluminava o tapete de gelo, entretanto, permanecia não acreditando no que estava vendo, sentindo.
Estabilizei meus pensamentos. Óbvio que eventos bizarros acontecem no Castelo, por que eu estou surpresa? Vesti um casaco longo de lã em tom de caramelo e uma calça preta justa em um tecido quente e escuro; para aquecer o pescoço, enrolei um lindo cachecol xadrez macio e completei o look calçando as botas de couro preto de cano alto. A quem pertencia aquelas roupas? Saí do quarto e embrenhei-me pelo corredor, cujo chão também estava revestido de neve límpida.
Enquanto percorria os imensos corredores do Castelo, recordava o último encontro com o Drácula: o momento que estava diante das três portas, que ele havia me ofertado, mas nas quais não adentrei. Será que ele havia ficado chateado com a minha rejeição? O que ele poderia fazer com Lisa? Vampiros podem alimentar-se do sangue de animais? Afastei o último pensamento, bobagem pensar que a criatura elegante poderia agir de forma tão vil.
Afligida pela dúvida, segui em direção àquele salão. Tudo estava diferente. Não era mais um salão de festas suntuoso, adornado de luxos e enfeites dourados. Diante da frustração de não encontrar a minha Lisa, nem as portas ou o Drácula, fechei os olhos e, ao abri-los, percebi estar na área externa do Castelo, no jardim!
Guiada pela maldita curiosidade, vasculhei ao redor. O luar iluminava a vegetação esverdeada, sem vestígios de que ali houvera caído neve. Passei pela estradinha com pedras âmbar, a mesma que havia utilizado quando cheguei aqui, mas agora descendo em direção ao portão principal. A temperatura estava amena e senti tanto calor que retirei o casaco e o cachecol.
A caminhada seguia perturbada por pensamentos terríveis, cuja racionalidade insistia em questionar o porquê daquelas alterações bruscas de temperatura e condições climáticas. Calei essa voz que gritava por explicações, pois este local não segue leis e princípios conhecidos.
Cheguei ao portal. Suas folhas eram como espelhos retangulares preenchidos por uma substância semelhante à névoa negra, pulsava e parecia ferver. Aproximei-me, sussurros incompreensíveis me instigaram a tocar na cascata nebulosa. Deveria? Óbvio que não! Mas eu me permiti ir além.
A névoa envolveu-me por completo, preencheu cada centímetro do meu rosto, cabelo, membros e tronco, e sentia-me levitar. Meu corpo, tomado por aquela força ficou em posição horizontal, flutuando. Primeiro foi a minha cabeça que passou por um dos retângulos-folha. Ao longe avistei uma criatura horrível, sem olhos, pele translúcida e com tantos dentes pequenos e afiados que mal podia contá-los.
Sustentada pelo medo-força atravessei, sem de fato mover nenhum músculo, o limiar que separava o Castelo do “Nenomium”, um lugar onde coisas ainda mais impossíveis poderiam acontecer. Amaldiçoei, novamente, a minha curiosidade!
Terminada a transição, percebi que a única coisa que me pertencia era o amálgama de sentimentos, mas agradeci por não ter largado o casaco e o cachecol, pois do outro lado estava deveras frio.
A criatura horrível permanecia inerte, mas sorria de forma a gerar um insensato desconforto, e em fração de segundos, devido sua agilidade excessiva, locomoveu-se e parou frente a mim. O fato de não conseguir sondar seus olhos inexistentes aumentou meu receio.
Agarrou-me pelo pescoço com tanta brutalidade que pensei ser o meu fim. Foi quando ela apareceu, alta, esguia e coberta com longo manto negro, que conferia-lhe um aspecto misterioso, imponente. Uma mulher, acompanhada de dezenas de cabras negras, surgida do além para livrar-me das garras da criatura sem olhos. Com voz firme ordenou para que ele me soltasse. E tal como um servo fiel e obediente abriu de imediato as mãos constituídas de dedos compridos e pele descamadas. Fui ao chão.
Havia sido por pouco. Ao contrário do que costumam dizer, talvez como forma de romantizar a partida, o desespero causado pela aproximação da morte não te faz recordar nada, eu lutava tanto pela minha vida que não tinha tempo hábil para pensar nas coisas passadas. Arrependimentos não foram companheiros.
Recobrei o ar e o pouco de dignidade que ainda me restava. Em todo momento a mulher permaneceu quieta, observando-me. Quando consegui reconstruir a minha eu interior, perguntei seu nome e recebi um silêncio constrangedor como resposta. Teci mais algumas perguntas, as quais nenhuma resposta recebia. Perguntei por Lisa, e ela apontou para o portal, entendi que ela estava no Castelo. Quase morri por uma missão inútil!
Agora, pensando com calma, pergunto-me se eu realmente iria morrer. Tudo aqui é fantástico, não seria a morte uma possibilidade de viver outras vidas, um renascimento carnal e espiritual? Por que eu ainda tenho medo?
Voltemos ao relato. Explicou-me o que era o “Nenomium”. Por fim, disse-me que eu tinha duas opções: ficar naquele local e descobrir verdades almejadas ou voltar para o Castelo e para Lisa. Eu estava realmente preparada para enfrentar situações adversas e desconhecidas? Não! Eu não estava pronta, e não ignorei os meus instintos de sobrevivência, aquela noite já havia me proporcionado emoções intensas e meu pescoço ainda doía. Levantei-me e segui com passos firmes em direção ao portal para retornar ao Castelo. No entanto, ao recordar-me de me despedir, virei-me, mas a mulher misteriosa já não estava lá. Um calafrio percorreu minha espinha e então corri. Não podia depender da sorte novamente: encontrar outra vez aquela criatura voraz não era algo que eu pretendia arriscar.
Do outro lado, de fato, encontrei Lisa. Jazia em frente à porta principal. Seu corpinho estava retorcido, aproximei-me e vi o fio vermelho da vida escorrendo de sua boca. Quem a machucou? Aquela maldita criatura?
Gritei por ajuda. Após muitos gritos e lamentos, Drácula veio ao meu encontro. O rosto impassível emoldurava um sorriso aterrador, imaginei que por culpa e o impedi de se aproximar. Ele ficou me olhando, sem mover um músculo, como que a contemplar meu sofrimento. Esperou eu ficar mais calma e então disse que meu sangue poderia curá-la. À princípio, hesitei, isso era absurdo! Depois refleti:
Que mal poderia fazer? O sangue poderia sim ser a corda com a qual eu a salvaria do abismo que sugara sua frágil vida...
Procurei por um material pontiagudo nos meus bolsos, e é claro que não encontrei nada. Aquelas roupas nem eram minhas! Drácula fitava-me com um olhar que agora entendi ser de compaixão. Na incerteza da sua culpa, cedi. Aceitei os dentes dele cravados em meu pulso, uma leve fisgada seguida de um frenesi instantâneo e indescritível. Não era prazer, orgasmo ou euforia, mas ao mesmo tempo era tudo isso.
Eu o deixaria sugar toda a minha energia, a sensação de não sentir dor, agonia ou tristeza mantinha-me em posição servil, silente. Mas ele cumpriu o combinado, parou o ritual a tempo. O braço perfurado liberou o líquido, o elixir salvador foi vertido na boca da indefesa Lisa. Ela, como quem desperta de um sonho profundo, abriu os olhinhos brilhantes como um céu estrelado. Aproximou-se de mim, delicada, esfregando-se em meu peito, como se pudesse sussurrar um agradecimento mudo pelo sacrifício. Eu chorava e sorria, um turbilhão de emoções dançava em meu ser, enquanto meus olhos buscavam os dele — Drácula!
O que ele fez comigo? Seus olhos, um enigma sombrio, carregavam segredos que eu não podia decifrar, mas havia algo diferente, algo que atravessava o silêncio entre nós. Um laço invisível, inquebrável, parecia nascer ali, conectando-nos de forma mais profunda do que jamais imaginei. Éramos agora partes de um mesmo destino, entrelaçados pela eternidade.
E Lisa, como um raio de sol após a tempestade, está linda e melhor do que nunca.
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…