Onírico
Vim para essa instituição ainda adolescente; a construção era sólida e grandiosa — mesmo sendo um prédio relativamente novo, ele trazia elementos da…
Arte de Henry Fuseli, edição de Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Vim para essa instituição ainda adolescente; a construção era sólida e grandiosa — mesmo sendo um prédio relativamente novo, ele trazia elementos da arquitetura vitoriana. Despedi-me de meus pais com o remorso corroendo meu peito, mas sabendo que eles tentaram de tudo, e no final acabei compreendendo a decisão deles. Fui recebido por uma equipe formada por dois médicos, três enfermeiros e um auxiliar; eles me levaram para conhecer as instalações (que, aliás, não eram lá essas coisas), mas isso não me importava, contanto que eu melhorasse dessa terrível condição. O prédio, por dentro, parecia ter parado no tempo; o forte odor de desinfetante com pano sujo pairava pelo ar, presente em cada cômodo.
Subimos um grande lance de escadas — não sei explicar, mas senti-me observado. No fim dos degraus, vi um grande portão de ferro com severas marcas de corrosão; após atravessá-lo, deparei-me com um colossal e alto corredor, mal iluminado por luzes amareladas oscilantes. O piso de ladrilhos azuis perdera a cor, assim como a meia parede de azulejos verdes. Conforme caminhava, vi outros pacientes em seus leitos; gritos e risadas se misturavam, causando calafrios — outras portas permaneciam fechadas — até que paramos. Vi então a maciça porta de madeira onde resquícios de tinta branca resistiam ao inexorável tempo; olhei mais acima e vi o número 106, em ferro, no centro dela. Uma minúscula janela de vidro, impregnada com décadas de sujeira — algumas manchas eram marrons escuras, semelhantes a sangue —, esse pensamento me assombrou.
A porta rangeu; meus olhos passearam pelo cômodo. À esquerda, próximo à porta, encontrava-se uma mesa com duas cadeiras, ambas brancas. À minha frente havia uma claustrofóbica janela gradeada e, abaixo dela, uma cama robusta de ferro decorada com faixas de contenção fixas na lateral. Caminhei até a janela, onde contemplei um belo jardim com árvores frutíferas, gramas podadas e alguns bancos dispostos. Desejei respirar o ar puro…
Por mais que aqui houvesse pessoas transitando o tempo todo, este lugar exalava desesperança — semelhante ao umbral onde incontáveis almas padecem em eterna agonia, esperando para serem salvas. Esse pensamento trouxe uma sensação perturbadora: será que um dia sairei daqui?
Uma leve vertigem apoderou-se de mim; do alto da minha testa surgiram tímidas gotículas que logo formariam uma nascente. Conseguia ouvir os batimentos em descompasso. Antes do inevitável desmaio, os enfermeiros me puseram na cama; devido à minha agitação, deram-me um calmante via oral e disseram que havia guardas lá fora para uma possível necessidade. Assim que eles saíram, acenei para os guardas — mas as amarras me causaram calafrios. Esperava adormecer o quanto antes; não demorou para o sono vir.
Em algum momento daquela noite, acordei agitado. Não vi ninguém lá fora; gritei por socorro, mas minha voz se perdia no vazio. Continuei tentando. Minha respiração falhava como se houvesse um peso em meu peito — como na pintura Pesadelo, de Henry Fuseli. Fechei os olhos e fiz o exercício de respiração; no passado, funcionava.
Respirei novamente e gritei do fundo das minhas entranhas. Para minha sorte, os guardas retornaram e, com agilidade, seguraram meu corpo que se debatia com violência; em poucos minutos, o restante da equipe havia chegado. Durante os primeiros socorros, presenciei algo medonho: uma sombra disforme surgia por trás da porta, espalhando uma horrífica luz arroxeada. Não poderia ser… seria a mesma figura que tanto me assombrara na infância? Neste momento, uma certa frase ecoou em minha mente: "Está tudo bem, Pedro — foi apenas um pesadelo. Vamos rezar para que tudo fique bem, certo, filho?"
Desta vez, o horror era verossímil demais para ser um pesadelo. O nefasto brilho ocupou todo o cômodo até que a figura adentrou o recinto: era esguia, corcovada, cinzenta, quase translúcida, mas também opaca. No rosto, dois enormes e enegrecidos olhos que pareciam devorar minha alma, e um sorriso medonho repleto de dentes afiados. O medo ancestral abraçou meu trêmulo corpo. Rapidamente os enfermeiros colocaram as amarras para conter os espasmos; os gritos tornaram-se guturais. Relatei o que estava vendo e eles se entreolharam, balançando a cabeça em negação. Lá fora, uma sirene tocava constantemente.
Percebi mãos em meu pescoço — havia a chance de alguma lesão. A cama gemia; os gritos se misturavam com frases desconexas; pupilas dilatadas em frenesi.
— Ele está perdendo a consciência — inicie a massagem cardíaca. Vamos, rápido, não podemos perdê-lo — um dos enfermeiros falou.
A massagem pareceu funcionar. Pela visão periférica, vi-a se aproximar e pousar os olhos nos meus; a agulha perfurou minha pálida pele — o líquido ardeu em minhas veias. Rapidamente o medicamento fez efeito; minhas pálpebras pesaram. Entretanto, a maldita figura permanecia ali, assim como aquela tenebrosa cor.
Pablo Henrique
Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Sibilino
O relato impressionante do inestimável amigo Capitão João ressoou no seu subconsciente como uma ancestral canção arcana, esquecida…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O relato impressionante do inestimável amigo Capitão João ressoou no seu subconsciente como uma ancestral canção arcana, esquecida em eras estranhas. O velocímetro marcava 70 km/h — o que era consideravelmente rápido, dadas as condições da pista —; apesar das mãos trêmulas, segurou com firmeza no volante, pois esse trecho possuía muitas curvas sinuosas. Pelo retrovisor, viu a casa do amigo sumindo lentamente; prometeu a si mesmo voltar mais vezes. Observou também a união mística de céu e mar, fazendo desaparecer a linha do horizonte, causando uma inexplicável sensação de medo. Tivera a impressão de que o céu, repleto de estrelas resplandecentes, estava mais próximo da terra. Pensar nesta ideia lhe apavorou.
Tomé mergulhou cada vez mais em seus pensamentos, enquanto a minguante e turgida lua iluminava seu caminho. Finalmente, a descida chegou ao fim. Era meia-noite, de acordo com os ponteiros. Ansiava estar em casa; porém, ainda havia alguns quilômetros, e uma longa estrada reta se estendia até o horizonte.
Enquanto dirigia, notou o despencar da temperatura, presenciando a cortante brisa gélida tocar-lhe o rosto terrivelmente. Notou mais algumas peculiaridades, como o ar que havia se tornado mais viscoso e, mesmo distante da praia, — o cheiro ainda permanecia ali, a assombrá-lo. Os ventos também trouxeram uma suave bruma, que surgiu tal qual uma aparição fantasmagórica, flutuando pela escuridão.
Com o vento soprando, Tomé assistiu, com olhos vestidos de horror, à bruma ganhar estranhos contornos. Os faróis amarelados deixavam tudo etéreo. Lembrou da nefasta imagem da ponte descomunal, assim como esta estrada.
Escutou nitidamente a melancólica voz de João, seu amigo, recitando Shakespeare, ecoando em sua mente. Esta lembrança o fez virar bruscamente, pois era como se alguém estivesse no banco de trás, sussurrando a citação — mas encontrou o vazio.
Seu peito batia em desassossego. Observou o céu novamente: as estrelas pareciam se aproximar ainda mais. Uma terrível sensação de estar sendo observado tomou conta dele. “Preciso manter a calma”, pensou. Novamente olhou para o retrovisor — a escuridão parecia devorar o que ficou para trás.
Precisava parar. Puxou devagar o freio. O carro derrapou em meio à neblina; o som dos pneus ressoou naquele lugar. Respirou fundo. Passou a mão na testa que gotejava medo. Saiu do carro, respirou fundo outra vez. Viu algo inexplicável — a impressão que tivera se concretizou. Aquela visão era inconcebível. Ficou na frente dos faróis e, em seguida, caiu de joelhos, as mãos na cabeça. Em sua frente: a imensidão.
Não havia nada que Tomé pudesse fazer, a não ser contemplar o irreal. Desejou ter uma câmera fotográfica para registrar aquele medonho espetáculo. Nenhum ser humano deveria presenciar aquilo. As brumas se tornaram mais densas, adquirindo formas grotescas; elas bailavam terrivelmente, alcançando alturas inimagináveis.
Passou a ouvir sons demasiadamente longínquos, porém não demorou muito até que se aproximassem com rapidez. Trêmulo, ouviu o que pareciam ser incontáveis vozes de diferentes tons, mas unidas. Eram semelhantes a um tenebroso trovão rasgando a imensidão do firmamento.
Tomé se perguntava se aquilo era fruto de um delírio causado pelas histórias impressionantes do amigo. Mas aquela visão era tão verossímil quanto o vento gélido e pútrido tocando seu rosto. Sua mente ínfima não iria suportar aquela visão. Seu corpo estava prestes a entrar em colapso, quando vislumbrou nuvens se aglomerando, formando imagens colossais, incompreensíveis. Gritos emanavam de suas entranhas.
Seu corpo não aguentou. Antes de entrar em colapso, viu dois olhos titânicos, flamejantes, clareando o céu — a mesma visão que seu amigo e exímio Capitão João tivera.
Pablo Henrique
Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Infindável
Certa noite, enquanto as notas cítricas de um vinho chileno me aqueciam, recebi um e-mail de um velho amigo. Após lê-lo, fiquei feliz e respondi que…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Certa noite, enquanto as notas cítricas de um vinho chileno me aqueciam, recebi um e-mail de um velho amigo. Após lê-lo, fiquei feliz e respondi que iria imediatamente. Havia uns bons anos que não o via. Guardei o vinho na geladeira, troquei de roupa e, depois de dirigir alguns quilômetros, avistei sua casa.
Ele morava no alto de uma belíssima falésia. Sua casa era uma construção no estilo A-frame, toda de carvalho, com duas janelas altas. Estacionei o carro e, por alguns minutos, contemplei a vista, que eu quase havia esquecido o quanto era encantadora.
Permiti que meu olhar se perdesse naquela paisagem, que mais parecia uma pintura. Acima de mim, o céu, onde as poucas nuvens se moviam com certa rapidez. As estrelas ostentavam um brilho assustador. A lua estava minguante (fase que acho mais encantadora). À minha frente, a imensidão do mar e seu pacífico quebrar de ondas.
"Preciso entrar!"
Antes que eu pudesse concluir meu pensamento, minha atenção se voltou para a porta. Ouvi o trinco mover-se vagarosamente, assim como o ranger dos ferrolhos enferrujados. Então, ele surgiu no canto (um pouco abatido, é bem verdade). Trajava um conjunto de moletom preto e chinelos, mas continuava o mesmo. A barba grisalha escondia parte das rugas. Com um sorriso tímido, gesticulou para que eu entrasse. Eu estava feliz por vê-lo.
— Venha, entre, caro amigo.
Sua voz rouca, acompanhada de um pigarro, reverberou naquele lugar.
Ao entrar, olhei em volta e percebi que nada mudara. Era uma casa de tamanho considerável, dividida entre cozinha, sala e uma suíte. Ao lado da porta, ficava uma mesa redonda preta, com duas cadeiras. Na sala, o velho sofá de couro marrom. À sua frente, uma bela lareira e, acima dela, uma cornija esculpida em mármore, exibindo fotografias e algumas conquistas pessoais. Mais à frente, encontrava-se uma janela grande, por meio da qual era possível enquadrar a lua com toda sua graça sob o firmamento estrelado. Abaixo dela, uma confortável poltrona de couro marrom, que resistiu bravamente ao tempo. Notei também uma garrafa de whisky sobre uma mesa de canto, acompanhada de dois copos.
— Fique à vontade.
Apontou para o sofá e, em seguida, dirigiu-se à poltrona.
— Veja, Tomé, a noite está nos proporcionando um verdadeiro espetáculo. Tenho algo para você.
Ele abriu a garrafa, exalando notas de caramelo, maçã, laranja e baunilha. Após isso, encheu os copos até a metade. Em seguida, brindamos. Confesso que fazia tempo que não bebia whisky; logo senti o ardor em minha garganta, acompanhado de notas amadeiradas.
Sorriu e disse que era um whisky escocês muito raro. Em seguida, perguntou se eu queria ouvir uma música. Foi até o quarto e trouxe uma vitrola, que deixou próxima à lareira. Escolheu um vinil do qual tinha boas lembranças: tratava-se de uma coletânea de Robert Johnson. O som da agulha deslizando no vinil era quase fantasmagórico. Em seguida, vieram as notas agourentas de sua guitarra, acompanhadas de sua inconfundível voz.
— Ah, Tomé, como é bom revê-lo. Sabe, não tenho tido muitas visitas, e ver um rosto familiar sempre é animador.
A melancolia estava presente em cada palavra.
— Eu que peço desculpas por não ter mais aparecido, João. Minha vida está bastante confusa. Me separei, não estou conseguindo produzir como antigamente. Tudo que escrevo soa medíocre. Mas trabalho com revisão de textos e escrevo para uma coluna no jornal. E você, como está?
Ele sorveu a bebida por completo e, enquanto acrescentava mais, disse:
— Não tenho do que reclamar. Tive uma vida dura, mas incrível. O mar me fez conhecer lugares que jamais imaginei conhecer. Colecionei muitas histórias...
Passou as mãos na testa e nos poucos cabelos que lhe restam. Então, continuou:
— Porém, eu tenho vivido de lembranças. As aventuras que tive no mar são o que me mantém vivo. Velejei minha vida inteira, hoje em dia estou aposentado. Quanto ao dinheiro, tenho uma boa quantia no banco, devido aos longos anos de trabalho no mar.
— É verdade, João, você era um exímio capitão. Conhece o mar como ninguém, enfrentou a terrível imensidão inúmeras vezes. Sem dúvidas, vivenciou situações deveras difíceis. Brindamos a isso. Viva!
Em seguida, conversamos por mais algumas horas. A garrafa já passara da metade. Ele encheu mais uma vez os copos e, inebriado, disse:
— Tomé, de todas as histórias que você ouviu, existe uma que me assombra. Durante todos esses anos, guardei-a a sete chaves.
Sua fisionomia adquiriu tons graves; seus olhos inertes brilhavam sob aquele turgido luar. Ele continuou:
— Sabes que o mar, em sua grandiosidade, esconde segredos inimagináveis. Não tenho explicação para o que me ocorreu naquela horrenda noite.
Ele respirou fundo, bebeu mais um pouco e, ao som de "Hellhound on My Trail", iniciou sua narrativa.
O céu exibia um lindo entardecer, onde tons alaranjados se misturavam ao azul escuro. No horizonte, o sol, em sua beleza arrebatadora, brilhava. Notei também pinceladas de rosa e roxo. Uma obra-prima!
As condições eram perfeitas. Era verão, 15 de janeiro de 1998. Decidi comemorar minha aposentadoria com um passeio. Verifiquei todo o casco, chequei também a proa, assim como a popa. Convés e porão foram inspecionados, assim como as velas e cabos. Por último, o leme e a âncora. Era uma embarcação de porte médio. Meu anemômetro estava com defeito, porém, ao longo dos anos, aprendi a calcular o vento com base em observações e anotações.
Ergui as velas ao ar, pedi licença aos mares e iniciei meu passeio. Aparentemente, estava tudo tranquilo. A noite chegou rápida, usurpando a luz do dia e trazendo uma brisa fresca. Liguei o refletor e segui.
Te digo: não importa o quão experiente você seja, o vazio marítimo te causa calafrios. Mesmo com o luar e as estrelas, o breu se torna quase tangível.
Desliguei um pouco o motor e segui, até que, em determinado trecho, notei uma brusca mudança nos ventos. Se não me engano, eles estavam a trinta e quatro nós, fazendo as ondas se agitarem...
A uma certa distância, sob a luz do refletor, enxerguei algo semelhante a uma ponte. Definir seu começo e seu final era uma tarefa impossível. Parecia infindável.
Meus olhos arregalados não podiam acreditar naquela visão medonha. Você pode conhecer os mares como a palma de sua mão, mas nada te prepara para o desconhecido. Ela parecia flutuar sobre as águas. Era possível ver o topo das colunas que a sustentavam e, imaginar sua dimensão, causou-me verdadeiro terror. Tentei manter a embarcação trimada, mas as águas estavam revoltas.
É em situações como esta que percebemos o quão frágeis somos. Aquele monumento colossal era um lembrete de que não passamos de poeira cósmica habitando um planeta minúsculo.
Enquanto me perdia em meus devaneios, vi que estava mais próximo. Trovões intensos revelaram mais detalhes. Notei a presença de inúmeros postes, todos enferrujados. A estrutura estava coberta por uma viscosa camada de musgo ao longo de sua lateral.
Olhei para o céu, e o clarão dos relâmpagos rabiscava formas monstruosas sob as nuvens. Estava aterrorizado. Existia uma força cósmica naquele trecho, a qual nem ouso imaginar.
Por sorte, a distância em que me encontrava permitia voltar, mas seria um trabalho árduo. Mesmo com a curiosidade corroendo minhas entranhas para descobrir o que aquela construção nefasta escondia, permanecer ali seria assinar meu atestado de óbito.
Liguei o motor e girei o leme até o limite. Porém, senti a embarcação sofrer uma desestabilização, deixando-a à deriva. Algo me impedia de ir embora.
Após quase naufragar, consegui, aos poucos, retomar o controle da embarcação. Enquanto minhas trêmulas mãos seguravam o leme com afinco, de costas para a ponte, praguejei-a.
Tentei ignorar, mas não consegui. Mesmo temeroso, olhei por cima dos ombros pela última vez. Então, ouvi nitidamente os ventos soprarem meu nome, como se fossem um funesto coral formado por inúmeras vozes vindas do abismo. Elas ocuparam toda a vastidão do mar.
Implorei ao universo forças para sair dali.
Após longas horas, consegui fugir. Já não via mais a construção.
Gritei até não poder mais. Até que enxerguei a beira da praia. Parecia até uma miragem.
Joguei a âncora e desembarquei. Cheguei em terra firme. O dia começava a surgir timidamente. Foi maravilhoso ver luz.
Ele terminou aquele relato medonho com um olhar vazio e assustador. Eu estava apavorado. Sem dúvidas, foi uma experiência impressionante. Perguntei se estava bem. Ele disse que sim. Contar sua vivência foi libertador, pois ninguém sabia o que ele havia passado.
Permanecemos em silêncio enquanto "Crossroad Blues" preenchia o vazio.
— João... — Minha voz quase não saiu — Meu caro, eu sinto muito pelo que você passou. Mas saiba que estou aqui. Sabes que sempre podes contar comigo. E não se preocupe, levarei seu relato até o dia da minha morte.
Ele agradeceu minha companhia por ter ouvido seu relato.
Ao se despedir, disse:
— Lembre-se: "Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia."
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Ben
O relógio batia nove horas, e José, diferente dos jovens de sua idade, preferia estar em seu quarto, testando algum software novo, descobrindo…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
O relógio batia nove horas, e José, diferente dos jovens de sua idade, preferia estar em seu quarto, testando algum software novo, descobrindo novos sites ou apenas jogando jogos vintage em seu emulador. Gostava também de ouvir música em seu toca-discos; essa atmosfera dos anos noventa lhe agradava muito. Antes de se sentar em sua cadeira, ele liga o toca-discos. Seus dedos passeiam sobre os plásticos que protegem cada vinil e, finalmente, escolhe o álbum: Violator, da banda Depeche Mode. É um de seus álbuns favoritos. Os primeiros acordes de "World in My Eyes" ecoam no quarto. Acompanhado de sua caneca transbordando de café, José inicia sua noite. Primeiro, checa seu e-mail, que está transbordando de spam, entre outros e-mails indesejáveis. Quando estava selecionando-os, algo chamou sua atenção.
No passado, sua curiosidade o levou a lugares peculiares, e desta vez não foi diferente. O e-mail em questão era, no mínimo, suspeito. Ele elevou a caneca aos lábios e inspirou os aromas de baunilha, canela e notas de chocolate. Sorveu e colocou o café ao lado do mouse, sobre a mesa de madeira.
Ele havia ouvido dezenas de casos sobre e-mails estranhos, que mais se assemelhavam a alguma creepypasta, de tão fantasiosos que eram. Essas histórias geralmente eram encontradas em algum fórum do Reddit, ou acabavam em um tópico escondido do 4chan, com o intuito de viralizar ou assustar.
Ele estava prestes a clicar quando sentiu as garras gélidas e pontiagudas do medo cravarem-se em sua nuca, roubando os contornos leves de seu rosto, assim como a mansidão tão presente em seus olhos azuis. Sua expressão adquiriu feições de pavor, e a ponta suada dos dedos escorregava sobre o mouse. Olhou em volta; tudo estava igual: o abajur emanava a luz azulada ao lado esquerdo de sua cama, as roupas continuavam sobre a cama, o café também estava lá. Piscou os olhos e retomou sua atenção para a tela do computador. Havia algo naquele estranho e-mail. Primeiro, seu remetente parecia ser criptografado; não havia nada escrito, apenas um link. Ele passou a mão na testa; as primeiras gotas de suor começaram a aparecer. “Não deve ser nada”, pensou ele. Enquanto isso, "Personal Jesus" tocava na vitrola. Bebeu mais um pouco de café e clicou. Uma aba foi aberta, e ele imediatamente reconheceu: era um site chamado CleverBot, um chatterbot criado pelo veterano em IA Rollo Carpenter, que já havia desenvolvido outros aplicativos para a web.
José estava eufórico, pois havia um mistério envolvendo o CleverBot. Uma creepypasta, temida por muitos, dizia que, através deste chatterbot, o usuário poderia se comunicar com “Ben”, um garotinho que amava jogar Zelda e que havia morrido sob circunstâncias misteriosas, com sua alma presa em uma fita do jogo. Cético, José inicia uma conversa com perguntas triviais, interagindo com a máquina. Estava se divertindo bastante, mas, de repente, as perguntas começaram a soar estranhas. Seus olhos estavam fixos na tela, e ele decidiu desafiar o aplicativo. Começou a digitar: “Onde está o Ben?”, mas antes de enviar, houve uma resposta.
— Se fosse você, não faria isso.
— Não faria o quê?
— Talvez você encontre algo de que não goste.
— Eu não iria procurar nada.
— Eu sei que sim; não adianta negar.
Imediatamente, uma sensação perturbadora de estar sendo observado o envolveu. Pensou: "Isto está ficando bizarro, melhor fazer outra coisa". Porém, algo o prendia ali.
— Deve ser algum tipo de brincadeira. Adeus.
— Não vá, José; estava começando a me divertir.
— Como você sabe meu nome?
— Ora, eu sei de tudo.
— Nunca deveria ter aberto aquele e-mail.
— Tarde demais para arrependimentos.
— Aliás, eu adorei a luminária azul.
Suas mãos tremiam. Ele saiu do computador, olhou em volta, ligou a luz, fechou as janelas e a porta.
— Sabe, José, gosto muito de Depeche Mode. Inclusive, “Waiting for the Night” é uma das minhas preferidas.
Uma atmosfera terrível pairava naquele quarto. José estava amedrontado, andando de um lado para o outro. Uma pavorosa sensação de sufocamento o acompanhava, como se fosse um obsessor. Sentiu uma dor pungente brotar de seu peito, gritou até não poder mais e, antes de sucumbir, leu a última frase no computador.
— A propósito, me chamo BEN.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Leia mais em “Desafio Sombrio 2024”
O Lago
— Alertei para ele não ir até lá... — disse Marcos, equilibrando seu corpo inebriado na banqueta, os cotovelos apoiados na bancada de madeira…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
— Alertei para ele não ir até lá... — disse Marcos, equilibrando seu corpo inebriado na banqueta, os cotovelos apoiados na bancada de madeira, lutando para não cair. Sua voz, inaudível, soou um tanto fantasmagórica enquanto contemplava o vazio através de seus olhos verdes.
— Até hoje sou assombrado por aquele horrendo entardecer... — Após proferir tais palavras, um silêncio perturbador reinou naquele bar.
Enquanto isso, Carlos, que lustrava a bancada, ouvia com temor cada sílaba, pois aquele terrível acontecimento ainda lhe causava calafrios.
— Por Deus, Marcos, temos visitantes na vila; é melhor não abrir a boca, entendeu? Todos nós avisamos sobre os perigos daquele lago, e mesmo assim... ele sorriu e foi ao encontro daquelas turvas águas. Ele tinha um ego maior que o temível Kraken — concluiu ele, servindo outra dose para Marcos.
Nesse momento, alguém com passos leves se aproxima e ouve parte da conversa. A princípio, eles ignoram, mas o cumprimento do visitante faz os homens despertarem daquele estado letárgico.
Nesta época do ano, a vila recebe muitos turistas por conta de um festival tradicional de frutos do mar, com os mais diferentes pratos, gerando muita renda para o comércio local. As águas cristalinas da praia eram belíssimas, o céu sempre azul-marinho, e o sol radiante era um espetáculo para os olhos.
Após as formalidades, o visitante entrou e pediu uma cerveja. Carlos o serviu, e o homem, que dizia ser um pesquisador, explicou que estava ali para escrever uma matéria para uma revista.
— Mas que belo lugar este, não é? — disse Pedro, o visitante. — Desculpem minha curiosidade, mas ouvi boa parte da conversa, e... os fatos narrados são verdadeiros? Digo, é uma história bastante assustadora.
Os homens se entreolharam com temor antes de responder.
— Aquele lago é amaldiçoado — iniciou Marcos, em um tom que falhava, como se revelasse algum segredo macabro.
— Crescemos ouvindo histórias sobre o lago. Diziam que, uma vez que você entra nas turvas águas, nunca mais será o mesmo. Acontecem mudanças físicas que tenho pavor em mencionar.
— Que mudanças? — perguntou Pedro, intrigado.
— Após três dias — disse Carlos, sussurrando — a pele se transforma, adquirindo um aspecto viscoso. Com o avançar dos dias, a pele desaparece por completo, e em seu lugar, escamas surgem dos poros. E então um cheiro pútrido e desagradável começa a ser sentido em certas horas... e os olhos... — Neste momento, um terrível arrepio percorreu os três. — Meu Deus, os olhos... ficam vazios, mortos, e o corpo se torna uma espécie de aglomerado acinzentado.
Absorto, Pedro escutou com muita atenção e pensou consigo mesmo: “Será que tal relato é verdadeiro? Mas por que razão esses humildes homens haveriam de mentir? Suas feições vestem o verdadeiro horror.”
Ainda espantado, Pedro disse:
— Eu já ouvi muitas histórias estranhas nesta vida, mas nada se compara a esta. Se me permitem, será que eu poderia escrever uma matéria?
Os homens tremiam e olhavam ao redor enquanto engoliam as lembranças com o álcool.
— Acho que sim — um deles falou, enquanto o outro admirava o copo vazio com um olhar perdido. Pedro insistiu, e eles aceitaram. Mas antes de se despedirem, Carlos falou:
— Se você tem amor à sua vida, vá embora o quanto antes. Sei que é dia de festa por aqui, mas aconselho você a ir.
Pedro caminhava pela rua com aquela história na cabeça quando uma forte brisa tocou seu rosto, desarrumando seus cabelos pretos e trazendo consigo um odor pútrido, igual ao que acabara de ouvir. Procurou seu carro e acelerou o mais rápido possível.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Plácido
Desde que entramos em quarentena, nunca mais fomos os mesmos. Dia após dia, nossa sanidade foi cruelmente usurpada pelo desconhecido…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Desde que entramos em quarentena, nunca mais fomos os mesmos. Dia após dia, nossa sanidade foi cruelmente usurpada pelo desconhecido. Sem que pudéssemos revidar, fomos algemados pelas perversas mãos do invisível, aprisionados em nossas próprias casas. Ao mesmo tempo, a falsa ideia de “proteção” nos dava algum consolo.
Enquanto isso, o terrífico vazio reina imponente sobre os escaldantes paralelepípedos; os únicos sons que se ouvem são o soprar da brisa marítima, que parece vir das profundezas do mar, espalhando os grãos de areia por todas as esquinas e ruas, precipitando-se por entre as frestas dos desgastados paralelepípedos.
Minha casa fica em uma íngreme ladeira, próxima à placa de boas-vindas da vila. Devido à impiedosa maresia, não é possível mais ler a placa, mas, com muito esforço, é possível enxergar entre a ferrugem a vogal “P”.
Minha casa é simples, assim como todas as outras. Possui um terraço feito de cimento queimado, uma rede dobrada sustentada por antigos armadores e uma cadeira de balanço. A sala é de bom tamanho; um sofá marrom de camurça ocupa o centro, próximo à porta, junto a uma poltrona, e em frente ao sofá há um rack com uma televisão de trinta polegadas. Acima do rack, algumas lembranças em fotografias. Mais à frente, uma mesa talhada em imbuia com quatro cadeiras. À esquerda, os quartos; à direita, uma cozinha.
Por minha casa ter uma boa localização, consigo enxergar quase toda a vila e sua natureza exuberante. A vila é cercada por imensas falésias cobertas de gramíneas, e acima delas, belos e frutíferos coqueiros bailam suavemente perante os ventos.
Vivo sozinho desde o fatídico dia em que minha família precisou fazer uma viagem de emergência, dois meses antes do isolamento. Nosso primo havia passado muito mal, acometido por um grave quadro de arritmia, e precisou ir ao hospital o mais rápido possível. Fiquei cuidando da casa; eles confiavam muito em mim. Toda noite, porém, sou assombrado por devaneios. Será que estão bem? Como anda a saúde de meu primo, a quem tenho tanta estima? Será que estão vivos?... Se algum dia tudo voltar ao normal, tentarei ser uma pessoa melhor.
Os dias são iguais; tudo se tornou monótono, como um interminável e solitário entardecer de domingo. Às vezes ligo a televisão, mas as notícias são desanimadoras, o alerta para não sair é torturante. Apesar de ser uma vila muito afastada, não irei arriscar sair e algo acontecer. Ouço com apatia o tique-taque do relógio, que anuncia a chegada de mais um anoitecer.
A noite se tornou para mim o pior momento do dia. É desconfortável olhar e ver os bancos das praças vazios. Se eu fechar os olhos, consigo ouvir pessoas caminhando, sorrisos, crianças correndo, até mesmo o cheiro amanteigado do carrinho de pipoca. Agora, porém, a desolação ocupa a praça.
Debruçado na janela, observo com profunda melancolia e recordo com pesar momentos felizes. Meus olhos se perdem naquela rua escura, mas algo me tira do calabouço de memórias: escuto um arrepiante som vindo de alguma das longínquas casas. Era uma porta que acabara de ser aberta; o ranger foi ouvido por toda a vila, e meus olhos arregalados procuram a origem do som, sem êxito.
Não importa qual seja o motivo — desespero, revolta ou curiosidade — o fato é que há alguém lá fora. Eu ouvia os passos com uma certa fascinação mórbida. Os passos, que começaram acanhados, se tornaram mais acelerados. Em meio àquele breu, os primeiros traços surgiram. Tratava-se de um homem alto, branco, de cabelos curtos, trajando pijamas em tons de bege, que caminhava desorientado. Em determinado trecho, ele parou, olhou para trás e formulou frases inaudíveis. A pálida lua salientava seus olhos apavorados, que pareciam querer saltar das órbitas. Sua expressão terrífica era assustadora. Outros moradores também observavam pelas frestas de suas casas. Ele clamou por ajuda, mas sem êxito; eis que uma voz ecoa, alguém lhe pedindo para que voltasse, mas ele ignorou o pedido.
Ainda ali, com os olhos imersos na fechadura, noto que o homem continua na mesma posição, mas algo o faz olhar bruscamente para trás. Ele eleva as mãos aos céus, em desespero, e depois baixa a cabeça, lamentando sua escolha. Realmente havia algo lá fora. Ele continuou a correr, falando frases desconexas; sua respiração tornou-se mais debilitada. Prosseguiu por mais alguns metros, mas não o suficiente, pois seus pulmões começavam a falhar. Contemplo enquanto seu corpo lentamente cai de joelhos e, antes de sucumbir, ele profere a seguinte frase: “Não saiam! Pois Ele está à espreita, e quem desobedecer será severamente punido.” Após dizer isso, seu corpo cai sobre os paralelepípedos.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Último Sono
Era por volta das onze horas da noite. Eu estava me preparando para dormir; já havia feito meus rituais noturnos, como ir ao banheiro, escovar…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Era por volta das onze horas da noite. Eu estava me preparando para dormir; já havia feito meus rituais noturnos, como ir ao banheiro, escovar os dentes, trancar as portas, lavar algumas louças pendentes do jantar, encher minha moringa de barro e colocá-la ao lado direito da minha cama, sobre a mesinha de canto feita de carvalho, onde fica um antigo exemplar de capa dura da minha obra favorita, Morro dos Ventos Uivantes, uma das doces lembranças que tento preservar nesta casa repleta de fantasmas silenciosos.
Deveria ter me acostumado com a solidão; afinal, faz tantos anos que convivo com ela, mas seu prazer é torturar-me dia e noite. As paredes desta casa estão fartas de ouvir minhas lamúrias. A noite ia ser longa, meu travesseiro é meu confidente, assim como você foi um dia. O lado em que você dormia permanece intacto, como se algum dia você pudesse voltar. Eu sei, é bobagem alimentar tal devaneio; preciso aceitar o fato de que nunca mais verei teu sorriso acolhedor, teu caloroso abraço e teu plácido olhar quando dizia que me amava. De nada adianta lamentar-se; não há como reparar o mal que tanto lhe causei. Se existir alguma divindade neste infinito cosmo, ela me fará dormir eternamente.
A incômoda e brilhante luz do sol rastejou pelas frestas da persiana, sempre que a brisa matinal soprava, atingindo meus sonolentos olhos. Não sei o que é mais doloroso: não poder ouvir teu amável "boa noite" ou teu caloroso "bom dia". Observo, com melancolia nos olhos, o doce tear das aranhas armadeiras; elas tecem cada fio sem preocupação. Bocejo e, em seguida, me levanto.
Enquanto tomo meu café, meu celular toca; era um número que não conheço. Penso ser uma daquelas ligações indesejáveis de telemarketing que recebemos durante o dia, mas decido atender. A princípio, o silêncio permanece, até que escuto um melancólico "alô". Era uma voz feminina, que soou um tanto trêmula. Ela me contou o motivo da ligação e disse que conseguiu meu número por indicação de um amigo. (De fato, já havia feito alguns trabalhos como fotógrafo — casamentos, batizados e alguns ensaios —, mas nada se comparava a isso.) O trabalho em questão era um registro post-mortem.
Foi algo tão inesperado que fiquei desconcertado, mas prossegui com a conversa e disse, com pesar, que sentia muito por sua perda, mas, infelizmente, não seria capaz de realizar o trabalho. Ouvi a dor em sua respiração. Ela entendeu e, aos prantos, desligou. Encontrei-me extasiado, contemplando a fumaça do café evaporando no ar. Aquela conversa me fez lembrar de um seminário que participei há alguns anos, onde foi abordado um tema que, na época, me soou um tanto mórbido. O seminário em questão foi sobre os diferentes campos da fotografia. Eu ainda estava engatinhando nesse maravilhoso mundo e sentei nas cadeiras do meio, empolgado, pois, entre os temas, havia um em especial que causava uma estranha curiosidade.
A voz rouca do palestrante anunciou o tema, e lembro dos avisos de que seria um tema sensível. Ele apagou as luzes, ligou o retroprojetor e exibiu uma obscura galeria. Explicou que esse tipo de fotografia trata-se de retratos post-mortem, um registro fotográfico de um ente querido após o falecimento. Ele mencionou que esse tipo de fotografia foi bastante difundido na era vitoriana, mas também na Europa e na África, e era dividida em categorias, como “O Último Sono” (como o próprio nome diz, a fotografia era tirada com o cadáver numa cama, algumas decoradas, outras não); outra categoria era “A Última Presença Social” (a fotografia era realizada com os amigos mais próximos e familiares, que ficavam em volta do cadáver, como o último evento em honra ao morto); e havia também a categoria chamada “Mãe e Filha” (em sua maioria, as filhas ou filhos eram natimortos, e geralmente as fotos eram das respectivas mães abraçadas com suas crianças).
Ele bebeu água, enxugou a testa e prosseguiu, dizendo que, diferente da pintura, o daguerreótipo tornou mais acessível ter esse registro fotográfico de um familiar querido. Para nossa surpresa, os organizadores do seminário trouxeram dois exemplares reais, cedidos gentilmente para serem exibidos a nós. A fotografia estava envolta por um sólido compartimento de acrílico; nos deram luvas para manuseá-la, e posso te dizer com franqueza: assim que a toquei, senti uma terrível angústia. Eu não conseguia encarar a fotografia. A foto em questão era o “Sono Eterno”. Era desconfortante encarar aquele semblante calmo, com traços angelicais e, ao mesmo tempo, um tanto sombrio, o que me causou arrepios. Olhei rapidamente e a devolvi, pois não conseguia ver aquela imagem por muito tempo. Mas a verdade é que aquela fotografia permanece viva em minha memória; aqueles olhos fechados me assombram até hoje.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Pesadelo
Os gritos histéricos e o agoniante ranger da cama ecoavam por toda a casa. Sob o lençol branco, seu corpo se contorcia num medonho frenesi. Ele acorda…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Os gritos histéricos e o agoniante ranger da cama ecoavam por toda a casa. Sob o lençol branco, seu corpo se contorcia num medonho frenesi. Ele acorda aterrorizado: a cama encharcada, os olhos quase saltando das órbitas, os braços estendidos implorando por alguma intervenção. Amedrontado, Pedro senta-se na cama, atordoado. Ele tenta buscar respostas para esse terrível pesadelo e sussurra:
— Isto foi tão assustador, e tão tangível quanto as paredes dessa casa.
Ofegante, ele fita a janela à frente da cama. Ouve o soprar dos ventos, que soam como o arrepiante uivo de lobos em plena lua cheia, e ouve também as flores do jardim e as altas gramas movendo-se de forma estranha. Enquanto encara a janela, uma terrível sensação de estar sendo observado toma conta dele. Munido de coragem, ele se levanta, e, ao acender a luz do quarto, nota algo estranho: o piso parecia maleável, prestes a ceder a qualquer momento. Ele caminha com cautela e acende as luzes o mais rápido que pode. As alterações pioram severamente. Ele podia ouvir o horrível ranger da estrutura da casa; a tinta das paredes parecia derreter. Seus olhos percorrem, apavorados, todo o lugar. Viu também que os móveis da sala haviam duplicado, adquirindo um indescritível aspecto.
— Não pode ser... Isto é loucura! Será que acordei, ou ainda estou dormindo?
Após cruzar a sala, Pedro chegou à porta que dava acesso ao jardim. Ao abrir, ele contemplou o inimaginável ganhando vida diante dos seus olhos: o jardim que outrora era gracioso e belo sofrera também as anomalias. As altas gramas transformaram-se em horrendos e viscosos tentáculos que dançavam sob o temível luar. O som era repugnante. A terra adquirira um aspecto lamacento, como um pântano. O limoeiro fora tomado pelo lamaçal.
Pedro eleva as mãos até a cabeça, e, tomado pelo terror, vocifera perante o inconcebível:
— Isto não é real!! Estou dormindo ainda!
Enquanto ele grita, os tentáculos partem ao seu encontro, deixando um rastro negro pelo chão. Ele corre para dentro de casa e, num piscar de olhos, está de volta em sua cama, apavorado, aliviado por ter amanhecido e pela luz brilhante do sol que invade o quarto. Levanta-se rapidamente, mas não consegue acreditar no que vê: as anomalias continuam lá.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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A Janela
Mais uma madrugada em que a insônia é minha companhia. Inquieto, me aproximei da janela, abri-a e senti a brisa fresca tocar meu rosto, dispersando as…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Mais uma madrugada em que a insônia é minha companhia. Inquieto, me aproximei da janela, abri-a e senti a brisa fresca tocar meu rosto, dispersando as gotas de suor em minha testa e trazendo um certo alívio, já que durante o dia tem sido demasiadamente quente.
Meu quarto fica no andar superior, proporcionando uma excelente vista de toda a rua. Debruço-me sobre a janela e vislumbro aquela rua vazia, mal iluminada pelos puídos e amarelados postes. Há algum prazer oculto, o qual desconheço, em imaginar o que meus vizinhos estão fazendo dentro das quatro paredes. Consigo ver algumas casas com luzes acesas, enquanto outras estão em absoluta escuridão. No entanto, algo chama minha atenção em uma casa à minha frente. Há um homem alto que anda de um lado para o outro, parecendo nervoso. Abaixo-me para observar com cuidado. Através da cortina, vejo que ele ensaia movimentos que lembram os de um mímico.
Não consigo desviar o olhar. Vejo-o abrir o guarda-roupa e retirar algo que se assemelha a uma fantasia listrada preta e branca. Em seguida, ele a joga sobre a cama e vai até a janela para verificar se ninguém o está observando. Noto que ainda está com a maquiagem característica dos mímicos. Ao retornar, ele carrega uma grande mala. Sinto um frio na espinha, a sensação de que ele sabe que estou a observar seus segredos. Com certa facilidade, ele ergue algumas sacolas pretas, coloca-as na mala e a fecha.
Tomado pelo horror, emito um grito, fazendo com que ele volte à janela. Infelizmente, ele me viu. “É tarde demais, provavelmente aquelas sacolas eram... Não quero nem pensar nisso...”. Algum tempo se passou e tudo voltou a ficar calmo (pelo menos era o que eu achava). Ainda me encontrava sentado no chão, em posição fetal, quando uma suave melodia soou como a sinistra sinfonia de Bach intitulada Toccata and Fugue. Foi então que ele finalmente entrou. Seus passos firmes ecoavam por toda a casa. Subiu as escadas, cruzou o corredor e encontrou meu quarto. Então, eu o vi: tinha por volta de um metro e noventa, o rosto afinado e pálido, coberto de tinta branca, sobrancelhas marcantes, olhos vazios e perversos. Seus cabelos estavam penteados para trás, tão negros quanto aquela noite. Por fim, um sorriso malicioso, que ansiava devorar-me, surgiu. Ele trajava calça de moletom preta e camiseta branca, salpicada de escarlate. A passos lentos, se aproximou de mim e disse calmamente:
— Não era para você ter visto. Agora você fará parte da minha coleção.
A primeira vez que a vi foi numa noite sem lua, tão escura quanto a alma dos homens corrompidos pela luxúria. Mal sabia eu que contemplava minha própria ruína…