8. Castelo Vampírico: O Vale da Sombra da Morte

31 de dezembro? - Um tremular doloroso e frio me consumia, a criatura continuou lá me acalentando e esperando paciente…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Diário de Rute Fasano

31 de dezembro? - Um tremular doloroso e frio me consumia, a criatura continuou lá me acalentando e esperando paciente que eu fechasse meus olhos. Tudo ao meu redor começava a se tornar nebuloso e indistinto. Ao pé da minha cama uma mulher vestida de preto, de pele de um cinza escuro e cabelos prateados, me olhava com seus olhos brancos. Seu olhar agudo parecia me culpar pela minha situação. Meus olhos se fecharam devagar, eu estava cansada de lutar para me manter acordada. Fechei meus olhos. Quando os abri, eu estava deitada em outro lugar, entre sombras e neblinas. Me levantei e percebi que estava em meio a um vale cinzento, deitada perto de onde corria um rio com águas que pareciam mercúrio líquido. Olhei de um lado a outro e nem sinal do castelo, apenas neblina e vários tons de branco, vermelho, preto e cinza. E com infelicidade percebi que teria que andar descalça, já que fui para lá sem os sapatos.

Porém ao começar a caminhar comecei a ficar deslumbrada. A flora desse vale cinzento era ao mesmo tempo perturbadora e fascinante, havia uma certa estranheza que me estimulava a querer continuar aqui. Eu caminhei naquele lugar tentando entender a lógica da sua existência, mas era em vão. Observei cada detalhe da flora que me rodeava. As árvores eram as mais impressionantes, seus troncos de um branco pálido, como se fossem ossos muito bem preservados e com sua alvura intacta. Eu toquei a superfície da casca e era fria e lisa, me lembrando de mármore levemente acetinado. As árvores eram altas, galhos retorcidos formando contornos intrincados contra aquele céu nebuloso. As poucas folhas dessas árvores eram de um vermelho tão profundo, quase negro.

Espalhado pelos troncos das árvores havia líquens de um vermelho vivo como se estivesse saturado de sangue recém derramado. A presença de líquens aqui me encheu com uma sensação de alegria, respirei até mais profundamente para testar o ar, aquele líquen era um indicador de que o ar dali era puro, ou pelo menos eu queria acreditar nisso, já que aquela era uma outra realidade. Eu estava extasiada, as flores de lá possuíam um tom vermelho escuro, pareciam crescer em profusão, tinha caules finos e frágeis, mas ao tocá-los percebi que eram incrivelmente resistentes, algumas flores tinham pétalas com bordas serrilhadas que pareciam prontas para cortar qualquer um que as ousasse arrancar dali. Outras flores exibiam um vermelho muito mais intenso com pétalas que se abriam em espirais complexas, o centro delas de um negro profundo que parecia absorver toda a minha atenção como se eu estivesse a olhar um abismo. 

No chão, uma vegetação rasteira cobria quase tudo. A grama era de um vermelho enegrecido, e ao pisar nela com meus pés nus, senti como se estivesse caminhando sobre um tapete de veludo. Espalhados por entre as árvores e a grama, havia os arbustos de folhas longas e estreitas, tingidas de uma cor que varia entre o vermelho escarlate e o preto. Esses arbustos estavam cobertos de bagas negras, que exalavam um aroma doce. Peguei uma dessas bagas, mas não ousei experimentar seu sabor, sua textura era macia. Apertei uma delas e um líquido vermelho vivo escorreu por entre meus dedos aparecendo sangue arterial fresco. As rochas que havia ali possuíam uma luminosidade, como se estivessem banhadas de orvalho. Havia musgo em algumas delas de um preto profundo.

Outras flores diversas haviam ali entre as rochas, umas se assemelhavam a lírios de um tom prateado, com pétalas longas e curvadas. Outras eram como lírio-da-aranha-vermelha bem vibrantes que se movimentavam em sincronia em seus caules como aranhas reais mexendo suas patas. Toda a flora daquele ambiente parecia estar saturada de uma vitalidade incomum, uma energia que parecia me fascinar e ao mesmo tempo me levar a uma saudade de algo que eu não sabia o que era, uma saudade equilibrada entre a beleza e o horror. Tentava, por hábito, procurar significado nessa sensação, e talvez decifrar a linguagem das flores que eu via neste vale cinzento. Mas aquele não era o momento para decifrar aquilo, eu tinha que encontrar o castelo.

Andei por aquela neblina, procurando o caminho de volta. E avistei uma vila peculiar, havia pessoas lá, com seus rostos disformes e uma fumaça negra que emanava de seus olhos e bocas, outros nem rosto possuíam, me deixaram intrigada e um pouco assustada. Porém eles não pareciam ser perigosos, mas olhar diretamente para eles me perturbava. Respirei fundo, eu fui até um deles, precisava voltar ao castelo. Cheguei perto com receio.

— Olá. Poderia me dizer em que lugar estou e como posso voltar ao castelo? — perguntei receosa.

— Essa é a Vila de Séttimor — ele respondeu com paciência. — Nem todas as pessoas são bem-vindas aos umbrais de Drácula ou aos cuidados de Olga Nivïttiz, então criamos aqui um lugar para existirmos. Para voltar ao castelo você deverá seguir em direção ao ramoso nevoeiro. — Ele apontou para esquerda para um lugar cheio de brumas e ramos brancos translúcidos que pareciam vivos. — Você é hospede do castelo? — ele perguntou se virando para mim.

— Sim, mas de alguma forma que não entendo, vim parar aqui. 

— Você é bem-vinda aqui, se quiser ficar por um tempo. Mas ficar por tempo demais distante do castelo pode te fazer perder partes do seu corpo, memória, moral, consciência e existência. Tudo será corroído pelo paradoxo da atemporalidade. Nós, os settimôros, nos acostumamos a isso. Mas aconselho que, se não for da sua vontade, é melhor não permanecer por muito tempo aqui.

Mesmo com esse aviso eu não sentia vontade de ir, não naquele momento. A aparência fora do comum dos habitantes, aquele vale, aquela vila, tudo parecia me acolher. Enquanto eu o seguia para a vila em meio àquela neblina densa, pude reparar nas casas cinzas e de telhados pretos, alguns tão pontiagudos que pareciam espetar a neblina que ocultava aquele céu também cinzento. Em certos telhados eu podia ver aquele líquen vermelho como sangue, diferente do vale em que eu havia acordado, a flora daquele lugar parecia morta, flores secas e árvores altas com troncos e galhos enegrecidos. Os habitantes, apesar das aparências perturbadoras, não transmitiam perigo algum, assim como o morador que me guiava pela vila. Todos pareciam viver suas vidas, crianças, jovens, velhos todos, mesmo que sem nenhuma expressão em seus rostos vazios e cheios de fumaça, pareciam transparecer felicidade. Suas vestimentas variavam em estilos e cores, alguns usavam mantos longos e escuros, outros se vestiam com roupas que pareciam feitas de couro. Existiam aqueles que se apresentavam com trajes nobres em cores entre vermelho, preto e tons cinzentos, com diversos adornos. Resolvi ficar um pouco mais naquela vila, talvez para entender o motivo de eu me sentir tão confortável lá. 

O morador, que depois se apresentou com um nome que parecia soar como Dalvk, ou coisa parecida, virou-se para mim talvez percebendo meu interesse na vila.

— Vejo que está interessada na vila, muitos que acabam aqui perdidos a acham extraordinária, outros a acham terrífica. Eu posso apresentá-la para que você tire suas próprias conclusões. Você aceita?

— Sim, claro. — Eu disse animada.

Ele me guiou pela vila me mostrando cada parte dela, me levou até uma das casas que era cinzenta também por dentro e dominada pela neblina que vinha de fora. Ele me mostrou um pequeno altar e me explicou que havia um desse em todas as casas da vila, onde diariamente eram deixadas oferendas ao Ente. Alguns deixavam pedras preciosas, flores colhidas no vale fora da vila, ou objetos feitos à mão. Ele me explicou que o Ente era uma entidade que representa para os habitantes da vila o entendimento além do paradoxo, ele representa a paz em meio ao desconhecido. Me contou que o Ente se manifesta para aqueles que estão próximos de sucumbir ao paradoxo, guiando-os.

Ele relatou que em noites de lua nova, os moradores vestem roupas cerimoniais em preto ou cinza e acendem velas em um ritual silencioso. Essa cerimônia era chamada de noite das sombras, onde eles homenageavam aqueles que passaram pela sétima e última morte. Toda a vila ficava em silêncio enquanto as velas eram levadas até o cemitério e deixadas sobre as lápides. Acho que ele percebeu que eu não estava entendendo essa coisa de “sétima e última morte”, pois olhou para mim como se sorrisse e me explicou.

— Eis as sete mortes que conduzem a vila. Me permita explicar cada uma delas.

— Sete mortes? — eu disse curiosa.

— A primeira morte é adentrar ao paradoxo, o nascer na vila. Esta morte é o início da nossa jornada, o momento que deixamos o desconhecido e entramos nessa existência. A segunda morte é sentir o paradoxo, na infância. Nesta fase começamos a sentir o paradoxo e nos deparamos com a complexidade do nosso mundo pela primeira vez. A terceira morte é perceber o paradoxo, na pré-adolescência. É quando começamos a perceber claramente as inconsistências do paradoxo, questionando a lógica que nos cerca. A quarta morte é questionar o paradoxo, na adolescência. Nessa fase, começamos a questionar o paradoxo em busca de respostas. A quinta morte é compreender o paradoxo, na vida adulta. É quando começamos a aceitar e entender o paradoxo e abraçando sua complexidade e sua existência. A sexta morte é desejar o paradoxo, na velhice. Nesta fase passamos a desejar o paradoxo buscando a complexidade que antes nos desafiava. E, finalmente, a sétima morte é sucumbir ao paradoxo, a morte em si. É quando deixamos essa existência e vamos de encontro ao um estado mental de paz, somos consumidos pelo paradoxo, nos entregando ao desconhecido uma vez mais e indo de encontro ao Ente.

— Isso é tão profundo e bonito. — Eu fiquei fascinada com a sua explicação.

— Sim, cada fase é uma pequena morte que nos transforma, nos prepara para a nossa próxima morte. Venha, quero te mostrar algo.

Eu o segui por entre o cemitério da vila, e a cada passo eu queria fazer parte daquele mundo e daquele povo. Ele me levou até um local que parecia um pequeno templo, sentado lá dentro algo que parecia um homem envolto em um manto negro sentado em posição de lótus, com o rosto virado para cima como se olhasse fixamente para o teto. Seu rosto paralisado, olhos profundos e negros, uma fumaça cinza escura que parecia sair dos seus poros. 

— Este é nosso líder ancião Kvvus, ele está passando pela sétima e última morte. Ele não fala mais, não escreve, apenas fica a meditar e a sucumbir lentamente ao paradoxo. Logo o paradoxo o consumirá, e acredito eu, ele encontrará o Ente. 

Não sei se foi a presença do ancião ou estar em um cemitério, mas comecei a me sentir estranha. Um enjoo, sonolência, uma sutil sensação de pavor que subia pelo meu ventre e se fixava no meu estômago. Olhei para minha pele que antes era um marrom claro e estava adquirindo um tom acinzentado.

— Os efeitos do paradoxo chegaram cedo demais para você. Aconselho que vá agora, pois depois não conseguirá sair mais. Venha.

Ele me levou até o ramoso nevoeiro e disse que eu deveria seguir por ele sem olhar para trás. Me despedi dele como quem se despede de um amigo de longa data e me surpreendi ao abraçá-lo sem pensar. Ele retribuiu o abraço e disse para que eu fosse logo. Caminhei por entre a neblina e cada passo era um desafio, sentia vertigens que se intensificavam aos poucos. Eu precisava encontrar alguém, a solidão que antes era uma necessidade para mim, agora era um incômodo insuportável, talvez o encontro com os settimôros tenha me deixado com a necessidade de estar no meio de outros. Eu não queria estar sozinha, eu queria voltar para a vila. Os galhos do nevoeiro me prendiam tentando me arrastar de volta para névoa e dentro de mim a vontade de apenas me deixar ir e ser levada por ele de volta à vila era quase irresistível. Enquanto me deixava ser puxada vi uma sombra parada para além da névoa. Eu precisava saber o que era ou quem era, sua aparência me era familiar. Então ela apareceu diante de mim, imponente e serena. Seus olhos de um branco cadavérico. Era a mulher que me olhava ao pé da minha cama. Ela me olhou por um tempo. 

— Não é a sua hora, você não deveria querer estar aqui. — Sua voz era suave como um sussurro. — Hadassa não te culpa por nada. — Ela pegou um globo parecido com uma bola de cristal só que menor e me mostrou ela em um jardim cuidando de belas flores negras. — Ela está em paz e quero que permaneça assim. Esse apego está te matando aos poucos, volte para o castelo. — Ouvir o nome da minha amada sair de seus lábios fez com que eu sentisse um frio subir pela minha espinha e um incômodo no peito. E, enquanto escrevo essas palavras em meu diário, a lembrança do evento faz com que consiga sentir outra vez esse frio me percorrer.

Enquanto eu olhava para ela, tentava processar suas palavras. Minha mente era um turbilhão de pensamentos e emoções. Vê-la feliz em um jardim, saber que todos os encontros que tive com ela foram talvez reais, despertou uma ideia que dominou minha mente. Comecei a falar comigo mesma em voz alta, gesticulando de maneira incontrolável com as mãos, andando de um lado a outro. 

— Será que é possível trazer ela de volta? Drácula fez isso, se eu soubesse como talvez eu poderia fazer o mesmo. Mas como ter acesso a esse conhecimento? 

Perdida em minhas reflexões, mal percebi que a mulher tinha desaparecido e que a névoa ao meu redor se adensava. Seus ramos me reconfortavam de forma sutil. Só que agora com essa ideia na mente eu não queria mais permanecer lá, por mais tentador que fosse. Eu corri e seus ramos se moviam rápidos na bruma, mas meus esforços pareciam em vão. A mulher misteriosa de antes apareceu de novo, dessa vez carregando um lampião prateado, ela me entregou ele. 

— Isso a guiará de volta ao castelo. — Voltei a me movimentar pela névoa e a mulher misteriosa segurou meu braço me obrigando a voltar a olhar para ela. — Que ela permaneça em paz onde ela está, para sua segurança. — Seu tom soou como uma ameaça e isso me alarmou. Ela soltou meu braço com delicadeza, fechou os olhos por uns segundos como se parasse para refletir. — Há mistérios que não precisam ser conhecidos. — Ela disse isso e desapareceu em meio à névoa, me deixando sozinha com o lampião. 

Voltei a correr, segurando firme o lampião, e de repente me senti puxada na direção em que eu seguia. Logo me encontrei no quarto como se estivesse acordando de um sonho. Me sentei sobressaltada, uma euforia febril tomou conta de mim. Senti uma dor muito forte no antebraço esquerdo, a criatura estava roendo-o. A visão era horrível, seus dentes afiados cravados na minha carne, o sangue escorrendo. Senti uma onda de desespero e instintivamente, com toda a força que pude reunir, bati com o lampião na cabeça da criatura. O impacto foi brutal e deixou o lampião em pedaços, espalhando vidro e metal pelo quarto. A criatura urrou de dor, recuando com o golpe. Aproveitei a oportunidade e corri para fora do quarto, sentindo o coração bater forte e o sangue pulsar em meus ouvidos. Os corredores do castelo se estendiam intermináveis diante de mim, mas eu não podia parar, precisava escapar da criatura.

Corri até minhas pernas começarem a doer e meus pulmões arderem. Parei em um corredor por um momento para tomar fôlego. Havia uma grande janela à minha direita, me aproximei. Fiquei sem palavras com o que vi, depois de 6 dias de completa escuridão azulada, o céu estava finalmente clareando. Uma manhã cinza e enevoada, as flores estavam mortas e as árvores sem vida. A solidão que antes eu tinha como refúgio, agora me consumia. Aquela manhã gelada e cinza parecia tornar tudo mais incômodo dentro de mim. Eu não queria estar sozinha, não depois de passar um tempo com os settimôros e ver neles toda aquela união e o desapego por aquilo que era permanente. De repente, ouvi risadas. Risadas infantis, ecoando pelos corredores. Dissonante naquela atmosfera solitária. Sem pensar muito segui o som, na esperança de encontrar qualquer coisa.

Quanto mais eu me aproximava das risadas, mais meu coração acelerava de ansiedade. Passei por salas vazias com apenas retratos antigos que pareciam me seguir com o olhar. Cheguei a uma porta e as risadas vinham lá de dentro. Empurrei a porta e fiquei perplexa com aquele salão imenso e alto, bem iluminado, cheio de brinquedos, artes penduradas nas paredes de pedra e várias crianças brincando. Seus rostos angelicais, suas roupas anacrônicas. Ao me verem entrar pararam de brincar e me olharam com curiosidade. Uma das crianças, uma menina de cabelos negros e olhos brilhantes, se aproximou de mim.

— Você está perdida? — ela perguntou com uma voz inocente. Senti as lágrimas virem e as segurei enquanto olhava para aquelas crianças.

— Sim. — Respondi com a voz tremendo. — Estou perdida. — A menina sorriu e segurou minha mão.

— Venha talvez depois da aula eu possa te ajudar a encontrar o caminho.

Ela me levou para o fundo da sala, me sentei no chão e fiquei observando as crianças enquanto elas pareciam brincar. Então algo perturbador chamou minha atenção, sete espectros brancos agindo como sombras e imitando cada movimento das crianças. Cada espectro de tamanho diferente. De repente uma das crianças, em segundos, se transmutou e assumiu a forma de um adulto. Fiquei surpresa quando uma a uma as crianças assumiram a forma dos espectros e se transformaram cada uma, umas em adultos, outras em adolescentes, outras em velhos. Me lembrei das sete mortes dos settimôros, e senti falta daquele lugar incomum ao qual passei tão pouco tempo. A menina de cabelos negros havia acabado de se transformar em uma adulta e logo depois voltou a ser criança.

— Como isso é possível? — Perguntei cheia de curiosidade e espanto.

— Todos aqui são aprendizes do domínio do tempo. Aprendemos a nos transmutar com o professor Monm. Podemos viver a infância em um segundo e logo depois nos tornarmos adultos. Quer aprender? — Ela me perguntou cheia de entusiasmo na voz. Hesitei por um momento, mas a curiosidade de experimentar esse conhecimento era tentadora.

— Sim. — Respondi trêmula e fiquei um pouco em dúvida se era o certo a fazer.

Texto publicado na 7ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de julho de 2024. → Ler edição completa

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Capítulo 3: A Natureza do Ser

Lancei-me contra as sombras do corredor, apressei cada um de meus passos enquanto minha mente atordoada se alimentava de sua própria angústia…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Lancei-me contra as sombras do corredor, apressei cada um de meus passos enquanto minha mente atordoada se alimentava de sua própria angústia. Covarde. Vi o lume lunar se extinguindo e o silêncio se aguçando como o adentrar no fundo de um oceano mortal. É assim que farás justiça em nome de teu único amor? De algum modo inexato, tracei o caminho ao meu aposento, embora o Castelo parecesse um labirinto. A aragem soprava uma mórbida invernagem e conduzia, com sua extensão bizarra, todo o meu terror. Quanta tolice. Atravessei os umbrais semiabertos, e vi, como outrora, o meu leito. As sete vozes do abismo permaneciam, enquanto meu coração era um frenético pêndulo. Volte e acabe com isso! Em alguma instância, as lágrimas passaram a liderar minhas emoções. “Silêncio! Silêncio!” — Bradei, em busca de serenidade. Ele é mais forte, ele vai te encontrar. Eram límpidas e douradas, pois vertiam e desciam pelo meu rosto, a nascente de meus olhos, contornando meu queixo e morrendo na curva de meus seios. Então vi a cor. E vi que também ruíam coralinas. A morte dele seria um alívio. Vesti-me em busca de aquecimento e considerei cavar o túmulo de minha solidão perpétua. Todavia, eu não partiria antes de reter a minha missiva, decerto que possuiria valiosas verdades acerca de meu passado. “Lëvri… por quê?” — Pensei, ele não saía de minha mente. Traidor facínora, esqueça-o! Não havia escolha, era preciso encontrar Drácula. 

Amável Áurea, teu semblante plácito incita minha esperança, aquém da morte encarnada, corroendo minha existência. Não conto com a tua lembrança, porque sei que Pherhesí, se mal manipulada tal como fora, poderá resultar em angústias de inominável poder. Perdoe-me, minha dócil, perdoa este que amou a tua humanidade e tirou-a de ti sem considerar as consequências. Não sei no que te transformaste... e anseio, com tudo o que há de mais humano em meu cerne, que sejas uma nova Illitan e que possas recomeçar a nossa raça em nome de quem sou, aquele que te amou e há de amar-te além-vida. Não anelo, sob o estado em que me encontro, considerar o pior. Áurea, amante minha, dulcífera criatura; encontre a quem amar e, se fores Illitan, dê à luz. Se não o fores, te recordes do último Illitan, honre meu nome à posteridade, de alguma forma. 

Sinto a morte em minhas entranhas, ela é lenta e profunda; como um invadir de raízes dentre as minhas veias, alimentando-se do poder que me faz ser quem eu sou. Quão amargo não mais dar-te um primogênito; tampouco a pequena cabana aos pés da neve, com o oceano mórbido ao horizonte. Eu sinto muito. Ao despertares, não te aproximes desta belíssima flor que vês em meu peito, reluzente em carmim, com pétalas abertas como um lírio e outras semifechadas como as rosas mais sublimes, não toque nas raízes âmbar, tenha cuidado com os espinhos. Um toque bastará para que o veneno lhe adoeça à morte sôfrega. Fuja, Áurea minha, e agora que não mais lhe posso privar do hediondo saber, tenha cautela... e não pise, em hipótese alguma, seja o que for ou quem for que te guie, no império de Krvier, tampouco pelas terras de Vonssihren; vá para as Ruínas e em algum lugar de lá, crie seu próprio reinado. 

A carta terminava com palavras ininteligíveis enquanto minha astenia súbita se alastrara por todo o meu corpo. Lorrt morrera, decerto, enquanto redigia; sua dor parecia atravessar meus ossos e o papel em minhas mãos tinha aroma de sangue. Quando a li, fui soterrada por uma tortura pontiaguda no coração, agulhas abruptas no âmago meu, entre lágrimas e temor — era insuportável. Prostrei-me, de joelhos, na alfombra de algodão sob meus pés e desejei a morte para ser digna do descanso eterno, sem as vozes abíssicas, sem a dor da lembrança, sem tudo o que parecia compor minha desgraça. Naquele recôndito, nenhuma luz lunar reluzia nas janelas; a noite, na verdade, parecia-me outra e essa confusa sensação temporal, atordoava-me. Só pude retomar minha sanidade, quando o mal que me doía destilou-se e o vi em névoa cinérea pelo lado de fora do Castelo, através dos vitrais semiabertos. 

Illitan era a raça vampírica de Lorrt e seu falecimento acontecera durante, ou talvez depois, do ritual de transmutação vampírica — o qual me fez o que sou. Os Ohrmons, decerto, foram os que o mataram, como na visão que tive, vampiros da raça inimiga, com seus olhos negros sem esclera; eu jazia inconsciente em meu leito naquela noite ao lado de Lorrt, no entanto, não em completude, pois a dor mórbida que tomara meu corpo advinha da lembrança do momento em que os Ohrmons invadiram o local e vi Lorrt matar um por um até ser infectado pela Rosaemori no movimento último de um dos inimigos. O amor acima de sua própria vida. Ainda não compreendo a totalidade do que é a Rosaemori e o porquê ela existe, mas sei que um dos Ohrmons possuía uma adaga dourada imersa em seu veneno, ele a fincou, por fim, em meu único amor. Parte da revelação da carta fora dada a mim por meio de Lahgura, tudo fazia sentido. Quiçá, portanto, ali naquele Castelo misterioso, residisse a última vampira da raça Illitan — assim o compreendi. Notei, pela missiva de Lorrt, o quanto isso tinha valor para ele; lutou até o fim para não extinguir a sua raça e pensou nisso até o último instante de sua trágica morte, encorajando-me a procriar para dar à luz a novos vampiros de sua estirpe. O amor abaixo do curioso egoísmo de promover o próprio legado?  

Embora eu lembrasse, por fim, de nosso vínculo, de seu heroico cuidado sobre meu corpo inerte naquele leito e de toda a sua nobreza; nada confortava meu espírito. Quando tive em mãos o papel, observei-o com longa demora, hesitei em lê-lo, pois, este desconforto enraizara-se desde que deixei Lëvri e fui guiada pelo cântico sombrio. “É parte de quem tu és, Ennehris; não temas a tua história” dissera Olga Nivïttiz. Fora ela quem me encontrara à esmo pelo Castelo, em busca de Drácula; sua feição era bela, como uma impactante mulher; tinha olhos de um azul pálido e era plácida como as nuvens de verão, carregava a carta em suas mãos enquanto andejava à minha procura — embora eu tenha pressentido o saber dela acerca do local em que eu estava naquele momento; a mulher que emanava algo obscuro e oculto — o que desejei não saber a respeito — tinha um tipo visível de elo com cada parede de pedra a nos cingir; cada vela e candelabro; cada escuro canto; ela parecia dominar as sombras e as luzes, e o fremir do silêncio. Seu sorriso singelo, ao fitar-me sob intranquilidade, aqueceu-me um pouco, na frialdade do meu amargor. Apresentou-se, formal e afável. Não a interroguei sobre o local, meu desgosto e confusão mental em razão daquelas mórbidas vozes deturpavam minha racionalidade e impediam-me de tomar as decisões mais corretas. Porém, tive a calmaria de ser convidada por Olga a recorrer ao seu aposento caso eu precisasse de quaisquer favores e esclarecimentos, assim, em razão do convite, não me senti na obrigação de prolongar, naquele átimo, a nossa conversa. 

Todavia, quando a dor cessou e a solitude beijou novamente os meus lábios; uma das mórbidas vozes, única e mais grave, em meu sepulcro mental, antevira um instinto obsceno que eu jamais vivenciei; ecoou em meu crânio enquanto minha visão se encarnava. Sangue... Sangue... Sangue... Tudo, as tapeçarias, as pedras, o mobiliário do aposento; tudo era puro e negrume rubi, a cor mais vermelha e sanguinolenta que um dia imaginei existir. Senti-me sufocada, com todos os sentidos atormentados e, com uma sobrenatural rapidez, uma célere e monstruosa cinesia, tracei os claustros e passagens do Castelo Drácula, abandonando a carta que, até o momento que decidi abri-la, não a havia soltado. Aos meus ouvidos conduzia-se, tão somente, minha respiração afoita, meu coração pulsante frenético e o silêncio sombrio da minha sede. Temi a morte, no ápice da agonia. Então, n’uma caça qual nem eu mesma compreendia, avistei um homem adentrar um cômodo há pouco mais de dois metros de mim. Segui-o lentamente e vi-me transfigurada em sombras que tomavam cada canto daquele aposento, conduzindo o olhar do rapaz a um semblante de insegurança. 

Não é uma dádiva a memória daquele momento, confesso que desejava esquecê-lo de modo integral, pois, a agressividade do que me conduzia e a visão encarnada trouxera-me uma estranheza medonha, um horror íntimo que só pude notar no fim, quando se dissipou. Até lá, no entanto, eu era apenas um títere escoltado pelas mãos do instinto daquilo que me tornei, refém do meu próprio poder. Uma vampira... obcecada pela seiva acerejada... doce liquor da vida humana. Consegui obscurecer todo o ambiente e ainda não era vista pelo jovem que estava cada vez mais amedrontado, embora sua feição não transmitisse horror em si, mas sim um encanto imerso em medo e angústia. Eu vislumbrava-o, cada artéria de seu corpo, cada veia; sua pele parecia translúcida e seu coração estava tão convulso quanto o meu, eu o sentia. Da névoa negra dissipando, fiz meus olhos serem vistos e, depois, meu corpo. Não sei como eu estava, contudo, através daqueles olhos por detrás dos óculos de grau, aquele rapaz avistava uma mulher sedenta e desta maneira, ébria e ávida, aproximei-me de seu corpo humano, ele não se afastava de mim, estava sendo conduzido por algo meu que eu mesma desconhecia. De perto pude ver um brilho pulcro em suas retinas, e as pupilas dilatadas e trêmulas, em estado de transe. 

Então toquei-lhe o rosto empalidecido, descendo minha mão pelo seu pescoço viril enquanto fitava seu sangue ardente, quase fulgurante ao meu olhar, esplendoroso e acelerado. Aquele homem exalava vida, um tipo de vida que eu não tinha mais. Sei que o sorri naquele momento, porque mesmo dominada pelo inferno da minha condição, eu ainda era eu. Segurei sua cintura, lentamente; e próxima, por fim, de seu pescoço, finquei-lhe meus dentes que afundaram em sua carne sem dificuldade; o tórrido líquido entornou-se pelos meus lábios, inundando minha garganta gélida. Sorvi de seu éter com uma morosidade diabólica... embriagava-me em exultação perniciosa... e senti a estrutura física de meu mártir vibrar, ele gemia, lamúrias baixas, murmúrios de pavor e deleite. O licor vital escorria, traçando curvas pelo meu queixo e pelo corpo de minha vítima, manchando sua camisa branca, eternamente assinalada por minha atrocidade. Pouco a pouco a visão carmim se extinguia e eu voltava à sanidade, o suficiente para parar o meu ato e olhar para o corpo pálido daquele rapaz inocente. Seus olhos se fecharam devagar, eu não o havia matado, no entanto, retirei de seu corpo parte de sua vida, o qual carregarei para sempre em mim, mesmo que de modo tão simbólico. Deitei-o desacordado na cama, beijei-lhe o rosto frígido. “Eu sinto muito...” — sussurrei e olhei-o mais uma vez para, por fim, fugir. E fugi para o mais longe que pude, sem saber o que me esperava fora daquele lúgubre templo de morte. Corri na mesma urgência de outrora, quando dominada por minha bestialidade, e vi as torres altas do Castelo transmutarem-se, pouco a pouco, a um horizonte de névoa erma. 

A cinérea bruma era densa, turvava-me o senso de direção. Caminhando com cautela, perscrutei o silêncio e a palidez anuviada, uma cerração quase tangível que, de forma sutil, pressionava minha alma, oprimia meu espírito, imergia-me na insólita sensação de dissipação existencial. Com delicadeza e, sobretudo, lentidão; a névoa parecia desgastar minha pele, mesmo não havendo nenhuma mudança visível; da mesma forma, conforme meu caminhar se prolongava sob a tortura daquele fenômeno, ouvindo corvos no horizonte, fui submetida a uma queimação, como o fumegar de meus órgãos e um fervilhar de minha seiva, embora o crocitar doasse-me tenra esperança por existir, naquela vastidão nuviosa, algum tipo de vida além da minha. Ainda assim, era um cruel suplício onde meu único alívio advinha do absoluto silêncio das sete vozes do abismo. Não sei, contudo, por quanto me inundaria de paz aquele vazio, pois um sonido fantasmagórico preencheu a falta de minha maldição e parecia-me sussurrar o inaudível, símil à chuva e à respiração ecoante, no longínquo e, ao mesmo tempo, ao meu lado. Um medo aterrador ascendeu meu pânico à uma fobia de toda aquela ausência de visão, contornada pela névoa, minha respiração tornou-se ofegante e comecei a correr outra vez até ver tudo lentificado, como dezenas de espectros no meu olhar, embaçado e tardio, completamente turvo e confuso. Assim caí de joelhos no que me parecia restos de uma densa floresta, com flores e folhas secas. Busquei pelo ar, mais e mais, toquei meu torso, como que para segurar meu coração que, estranhamente, parecia parar, embora continuasse pulsando. 

Quando ouvi passos, temi em maior aterramento e olhei na direção do som. Mais passos. Por todas as direções. Mais e mais passos. Ofegante, estremeci em um horror conturbado, mas não havia força alguma em meu corpo, não havia como esgueirar-me dessa vez. Pensei em toda a culpa que carregava e supus ser o meu carma por sorver, sem permissão, daquele sangue. Então fui pega por criaturas com faces sombrias, pareciam humanos, pareciam pessoas com feições distorcidas. Demorou para que eu pudesse vê-los de fato, pois, toda a minha visão tornara-se palidez pura, enquanto eu me conduzia apenas pelos sussurros da névoa. Como fluíam as coisas... há pouco devorando uma frágil criatura humana, sendo apinhada de energia e poder sobrenatural, tendo em meus olhos encarnados o luzir da glória, o sabor quente do sangue nos lábios e, logo depois, ser a presa da densa névoa, uma vítima da natureza insondável daquele lugar. Não havia quaisquer possibilidades diante do que eu sentia, em meu peito havia, decerto, um relógio e, naquele instante, não só estava em perpétua paralisia, como duplicava-se e distorcia-se adulterado e violento — e triste, lúgubre, toldado de sua própria existência. 

Quando restaurei meu precípuo sentido, enxerguei incontáveis casas em uma longa estrada de pedra. E vi mais daquelas pessoas com rostos estranhos, elas atentamente curiosas ao meu respeito, traziam consigo itens, dentre eles mantas, cálices de frutas. E notei casas com luzes trêmulas, das velas em castiçais de prata. Fui carregada a um dos lares, sendo posta em uma cama com frondosas cobertas cujo tecido assemelhava-se a um veludo estufado como um pedaço de algodão puro, conduzia um calor próprio; muitas as vestes daquele povo assemelhavam-se a este tecido, intrigava-me, porém, seus semblantes deformados e toda a sensação que transmitiam: pacificidade, solidão; um laço que os envolvia, a cada um deles. Os que me carregaram, prostraram-se diante meu corpo deitado, colocando artefatos e frutos trazidos pelos demais — alguns eram jovens, lembro-me de ver uma pequena criança carregando um frasco em suas delgadas mãozinhas. 

Trhe eroen virëhs! Eroen, eroen riamn! — Dissera o mais próximo de mim, pude confirmar a grafia de suas palavras a posteriori. Todos se retiraram do quarto e, daquele que permanecera, senti suas mãos tocarem minha fronte. — Ficarás bem, descansa-te. — Sussurrara, era uma voz feminina e o toque feminil fora tórrido e esmerado. Vi-a deixar o aposento, acendendo algumas velas apagadas pelo movimento fora do comum e fechando a porta em seguida. Som algum ressoou-se no perpassar dos instantes, inclusive deduzi que dormiam, quando os ouvi, ao que parecia, beijar seus rostos, eram como uma família, e repetiam a frase: “Nouen ehelun”, silenciando, todos eles, no suceder, quando lá fora, no nevoeiro, a noite se achegava — via pela fenestra diagonal do meu atual recanto. Assim que pude retomar a sanidade, sentei-me no leito e bebi da frígida água deixada na moringa sobre a mesa de canto próxima. Era água e não duvidei que seria; algo naquelas pessoas transmitiram-me profunda confiança, ainda que o terrífico de suas faces me assombrasse. 

Dessarte, na penumbra, o calmo cuidado deixado pelos residentes, metamorfoseou-se na mórbida sensação de abismo, onde o medo e escuridão são as veredas por onde posso me orientar. Olhei à direita e vi mãos masculinas segurando bagas de um pequeno fruto de envoltório negro, como uvas ou mirtilos, porém maiores. Fitei, por fim, a face do indivíduo, possuía uma aparência adônia com olhos azuis, conspícua expressão, sem embargo ao seu tenro sorriso pontiagudo. Vestia-se de um negrume noturno, roupas de inverno intenso, embora não pesadas e em cortes oblíquos; assemelhava-se a couro, no entanto, não reluzia como tal. Diferentes os que me receberam, os que pronunciavam palavras de um idioma ancestral, este, em evidência, era como eu e não pertencia àquela cultura dos que não possuíam faces completas. Indaguei-me no súbito momento se, por acaso, tratava-se de um vampiro. Hesitei em pegar o fruto que me oferecia, pois, sua aura era funérea e instável. 

Não temas teu Arcanjo, bel donzela.Voz de voragem, tom cruel; dúbia existência indigna da minha compreensão. Hesitei em respondê-lo. Levou uma das bagas à sua boca, mastigou-a com elegância, deixando as restantes sobre a ânfora destinada a frutas. O homem — se era mesmo um — sentou-se à cadeira de balanço, próxima à porta, e fitou-me pacífico, ainda, todavia, obscuro. 

Quem és tu? — Fui obrigada a questioná-lo. 

Tua maldição. — Respondera intenso. Confundi-me por instantes. — Ou apenas Seth, se preferires. — Decerto demonstrei ainda mais do conflito mental, o distúrbio da incompreensão, pois que ele, Seth, ajustou-se em seu acento, olhando-me fixamente — Sou teu Arcanjo, Áurea. Destinado a impedir que quaisquer males afetem a tua preciosa existência, pelo preço de conduzir tuas ações com as sete vozes do abismo, as quais são minhas, como podes notar. — De fato, sua voz era familiar, embora mais grave. Respirei fundo, olhando para a janela, indagando-me o porquê de todas as coisas. Senti-o se aproximar. Sentou-se ao meu lado, em meu leito aquecido. Olhei-o. 

Então te personificas humano... e, pelo visto, sabes tudo sobre mim. Andas, como a hialina aragem e estás ao meu lado como um gárrulo das sombras. — Ele sorriu, parecia mesmo um Arcanjo, dada a beleza viril que o preenchia da pele à barba rala, das veias aos olhos, dos poros à totalidade.

Não. Geralmente estou... dentro de ti. — Silenciamo-nos por um tempo. 

Há como revogar minha aspiração? Olvidar todos os horrores, tal como outrora? 

Não, Áurea... Lahgura é uma perversa magista, manipula suas vítimas com maestria. 

Serves a ela, pelo visto, Senhor Arcanjo; tendo o trabalho norteado como uma tábula resignada, obrigado a fenecer ao meu lado a favor da minha existência. 

Errado, que previsível... — Olhei-o com mais atenção, seus olhos reluziam gentis, mesmo e apesar de seu poder ocultista e de sua ironia. — Existo dentro da tua alma... e corpo. Sinto o que tu sentes, ouço o que tu pensas... Tua morte, portanto, significará a minha. Não conheço todo o poder de Lahgura, tampouco sei como é possível que ela faça o que fez. Mas sei que estou vivo agora, através de ti. 

Se te personificas, por que não te ausentas do meu corpo? Se não tens vínculo com Lahgura, por que apenas não cala as tuas vozes abissais? — Outro sorriso, dele para mim, e um apoiar-se na cama, como se a ela pertencesse. 

Tua inocência pode acabar com a nossa vida. — Seth aproximou-se súbito, segurando meu queixo e respirando próximo de meus lábios; meu assombro despertou o que outrora estivera conduzido pela estranha vertigem e nada mais. — Não tenho elos com Lahgura, mas tenho contigo. Personifico-me, todavia, como a noite se afasta sob o alvor do sol no horizonte, não sou capaz de permanecer fora de ti por mais do que algumas horas. — Explicou, retirando sua mão de mim e voltando à cama, apoiando-se. — É isso que sei, pois sinto; é o que determina minha existência. 

A consciência assimilada cingia-me sem pressa e o delíquio ascendia como o frio. À minha visão, um homem denominado Seth cuja personificação de minha maldição o significava, sendo, mais do que isso, uma criatura codependente de mim; convencida de suas palavras, lidava com a sensação de inabalável descrença, uma dualidade que me machucava — confabulado sobre Arcanjos, temia que ele fosse, em verdade, um demônio e, sendo um, dominador assíduo da mentira à vista disso. Silenciada, busquei refúgios em mim, esquecendo-me que a ele pertenço e provando do acre sabor dessa maldição ominosa. 

Áurea... — Fitei-o, odiava ouvir-lhe chamar-me pelo mesmo nome que Lortt em sua missiva inestimável. Prensei meus dentes como fuga do meu ódio. — Eu sei o que sentes... e o que pensas... — Reforçou, em razão de todas as verdades desveladas. Ele se levantou e tão logo senti sua mão em minha nuca, forçando-me a levantar. Assim pude notar sua estatura alta, ele não estava comprimindo o meu pescoço. — Irrita-me teu ódio contra mim, eu que sou o teu defensor; enfurece-me ouvir estas tuas afrontas silentes que atravessam meu crânio! — Seus olhos estavam ainda mais azuis e sua voz mais grave do que antes, seu rosto era como a noite mais mórbida dos mais medonhos pesadelos. — Tu achas que não estou sob a lôbrega coerção das tuas vozes abissais enquanto te vitimizas da maldição que tu escolheste? — Seth segurou meus cabelos com mais intensidade, aproximando-se de novo da minha face assustada. — Eu... diferente de ti... — Sua voz abaixava tanto que trazia o timbre do inferno, eu sentia fremer minha alma ao ouvi-lo. — Não tive escolha. 

Então, seus olhos que eram azuis começaram a empalidecer e sua pele translucidar. Todo o seu corpo tangível transfigurava-se em um fantasmagórico organismo etéreo e aquilo, como um tipo denso de névoa, penetrava meus olhos, boca, narinas e ouvidos. Doía em minhas veias, sim, cada artéria por onde deveria correr a minha seiva humana. Eu o sentia por todos os meus músculos, pele e carne; um tipo de energia corrosiva, súbita e poderosa. Quando findara, tudo o que ele era já não estava ali — ao menos não personificado; contudo, no meu âmago, eu sentia o peso da sua existência, ascendido de forma desmedida se comparado com antes de conhecê-lo, quando era apenas sete vozes e não Seth, o Arcanjo. A intensidade fora tão insondável, que caí sobre o chão de madeira, batendo minha cabeça sobre a mesa de canto e, com isso, derruindo a ânfora no chão. Vi seu quebrantar, estraçalhado; e a água vertendo nas curvas naturais da madeira. Algo naquela cena, em seus detalhes exíguos, despontava reminiscências próximas à minha consciência. 

 

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Perfeitos Estranhos - II

Ao entrar pelos umbrais do castelo, fui tomado pela sensação lúgubre da morte […] A atmosfera deste Castelo é sutil e todo ruído da porta principal, o mínimo que seja, é possível ser ouvido…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Ao entrar pelos umbrais do castelo, fui tomado pela sensação lúgubre da morte. Não me lembrava de como havia chegado ali, tampouco me apercebi de qualquer fonte lógica para o terror que me tomava. Certamente essa, e tantas outras respostas, haviam sido postas à sombra do meu ser, um local que, em definitivo, eu não teria acesso neste momento.

O outro fizera exatamente o que sugeri, em sonho. Pela primeira vez minhas sementes haviam dado frutos dentro daquele ser sugestionável e covarde que compartilhava do mesmo corpo, e mente, comigo.

Sem sorrisos, alegrias e quaisquer vestígios de bondade. Aqui, dentro destas paredes cinzentas e cadavéricas, eu me tornaria realizado. Seus mistérios, envoltos nos mais cruéis ardis, seriam o solo fértil para a concretude de meus mais íntimos desejos.

Dentro do Castelo, não havia limites.

Entretanto, da mesma maneira que eu me tornei um predador, outros também predavam neste território. Havia outros escritores, dispostos a alimentar a máquina carniceira que o castelo se tornara. Caçadores e vítimas. O topo e a base da mesma cadeia.

O outro me servira bem. Percorreu uma distância surreal e empreendeu recursos de forma exaustiva para chegar até aqui. Tudo isso sem, sequer, ter certeza dos motivos. Queria tê-lo como amigo, mas uma relação parasitária como a nossa, dispensa quaisquer interesses do tipo. O horror tomaria conta da sua alma se soubesse da natureza do castelo. Por isso precisávamos vir. É dentro destas paredes que o tempo, a lógica e a sanidade se corrompem e recaem sobre si mesmas.

Ainda é muito cedo para especulações. Muito precisa ser feito.

Para minha surpresa, compartilhamos da mesma visão. A figura feminina, misteriosa e distante, de dentro do castelo. Fui tomado pelo seu olhar arrebatador, impactante e desmedido. Pude sentir, mesmo estando à sombra, que meu colega também foi abatido por esse acontecimento. O Castelo brinca com as distâncias, com o tempo e com as emoções, e eu havia começado a ser manipulado por ele, mesmo distante das suas garras. A silhueta, mesmo ao longe, me parecia próxima. O peso de ser observado quase fez minhas costas curvarem.

Bem, tudo, daqui em diante, deveria ser examinado com cautela e inteligência. Tateei os bolsos e encontrei meus óculos. O outro não usava óculos. As lentes estavam imundas, descuidadas e completamente embaçadas. Arrisco dizer, com segurança, que notei um ou dois riscos. A falta de cuidado para com minhas coisas me aborrecia, mas consigo ser empático o bastante para compreender esse dissabor.

As portas se fecharam às minhas costas, em um som seco e amadeirado. Uma pequena nuvem de poeira me abraçou pelas costas e tingiu, gentilmente, toda a minha roupa. Era chegada a hora de explorar os ambientes internos desta obscenidade.

O salão principal era amplo, teto alto e com uma infinidade de caminhos possíveis. Deduzi a direção que deveria seguir para chegar à janela do curioso espectro que me observou enquanto chegava.

...

A atmosfera deste Castelo é sutil e todo ruído da porta principal, o mínimo que seja, é possível ser ouvido, ainda que estejamos em cômodos distantes. Ouço, então, o ranger da colossal porta a se abrir. A minha intuição briga com a possibilidade de não ser tal figura que avistei ao longe nas matas atrás do Castelo.  

Apesar de calejada pelas experiências funestas que ocorreram em minha vida, estou intrigada. A curiosidade rouba os meus princípios e todas as regras que eu estabeleci para mim mesma. A voz interior ainda me questiona se devo fazer o que estou imaginando. Mas o meu espírito aventureiro é grandioso demais para recusar os riscos. 

Coloco um roupão que me cobre ainda mais, como uma capa em tom canela, escondendo o damanoute que me veste, escondendo o meu corpo quase completamente. “Cuide do teu corpo. Ele é um templo.” A lembrança da voz maior me orientando ressoa na minha mente. 

Aproximo-me da porta do meu quarto e abro. O ar gélido do Castelo, bem como o som da antiga música do baile anterior parece ecoar, ainda, em meus ouvidos. Mas não mais do que o som de passos que começam a me confirmar que é aquela figura que vi nas matas.  

Do alto, ainda escondida em frente à porta da clássica alcova onde me hospedo, o vejo, vejo mais próximo. A balaustrada traz espaços em filigranas, onde o rosto baixo e reto do homem se encaixa simetricamente. Agora as minhas certezas ganham forças e uma emoção dolorosa me encontra. É a primeira figura masculina que os meus olhos percebem depois de tudo. Os únicos homens cujos quais tenho vivência são os da minha família, vizinhos xamânicos e indígenas da região onde eu estava morando.  

Percebo que há muito para relatar sobre esses estudos que resolvi fazer. Mas o que este homem está fazendo aqui no Castelo? Ele veio me importunar? Quase me arrependo de ter vindo para este lugar. Mas seria muito luxo e muita exigência da minha parte que este grandioso recinto hospedasse apenas mulheres.

 “Homem”. Respiro. A palavra precisa soar natural para mim. Preciso parar de temê-los. Por que tenho medo deles desta maneira? Nem todos são iguais àquele ser, eu sei, não são.  

Encosto-me na balaustrada e a magia do lugar parece querer trazer alguma percepção ou conexão entre mim e a figura masculina. Ainda assim, disfarço bem, para que ele não note a minha presença o observando. Torço, ainda, para que o meu perfume natural não me denuncie, espiando-o na parte alta do Castelo, escondida na balaustrada em frente a alcova.  

Quase não respiro, enquanto ele parece se direcionar a um alvo. O que ele vê? Penso em voltar para o meu quarto, antes que essa figura me alcance com o seu olhar. Não quero ser percebida. 

Talvez, se eu buscar um arco e uma flecha, eu me sinta mais segura, mas algo dentro de mim pede para não o machucar sem antes saber quem ele é. Pela recepção que tive anteriormente, estou segura. Nem mesmo devo ousar direcionar a lança em sua direção. Não posso. Sinto que não devo. Aqui ninguém me fará mal. 

Fico apenas pronta para recuar rapidamente ao meu quarto, se por um acaso ele me perceba. O capuz que cobre a minha cabeça deixaria alguma incerteza para ele, de que talvez eu não fosse um ser tão indefeso assim, como ele percebera da minha janela, ao longe. 

 

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À Espreita

Aconteceu que minhas dúvidas foram sanadas; meus receios confirmados, em parte… Aquela tensão que me corroía e me deixava em vigília por noites…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Aconteceu que minhas dúvidas foram sanadas; meus receios confirmados, em parte… Aquela tensão que me corroía e me deixava em vigília por noites e noites, após chegado aqui no Castelo, dissipou-se da maneira mais simbólica e carnal que poderia esperar… Chegaria a hora ter de escrever sobre isso.

Inclusive, neste momento em que o faço, já não sei bem se respondo por mim ou por outro eu, outra persona que suspeito haver nascido no ambiente sobrenatural desse lugar…

Ao adentrar no espetacular pórtico que me recebera de portas abertas, com suas dependências acolhedoras e convivas até então, de certa forma, simpáticos (ainda que ariscos, falando mais por meio de suas histórias habilmente desenvolvidas e reveladoras de suas origens do que no tête-à-tête), como já registrado, diversas manifestações estranhas e, devo dizer, fantásticas me fizeram de testemunha — quando não um ator nesses acontecimentos, diretamente envolvido com as singulares pessoas… O último desses foi algo cabal; acima de tudo, definidor do que agora devo classificar esse recinto: infestuoso.

Pois de maneira nada além do natural, voluntária foi com que me vi “vítima” — já nem sei se assim devo me dizer — da manifestação orquestrada por uma agente das sombras desse Castelo. Como se completamente entregue às suas forças, vi-me envolvido e invadido por sua influência, por algo da mais obscura e encantadora categoria…

Estava retornando de uma das minhas caminhadas — após me deter por alguns minutos na vista avassaladora que temos aqui de cima, diretamente para a Lua e o panorama quase que expressionista do horizonte —, quando voltei para o meu quarto. Eu sabia que havia passado sozinho toda a noite (algo estranho de se dizer, mas sincero de minha parte, pois há momentos mais que outros em que nada mesmo parece acercar-se de nós além de nossos pensamentos), sem nenhuma companhia exceto os livros e esboço de ideias para alguma escrita, quando me virava para fechar a porta e dar uma última olhada para o corredor...

(Devo anotar que não duvido de que essas nossas escritas, poemas, contos e crônicas — principalmente essas últimas — passam pelo crivo de alguma leitura mais atenta, de alguém que a faz e, após isso, inteira-se melhor das atitudes e pensamentos dos habitantes do Castelo…)

Ao me deter no final do corredor, foi que a vi… Espectral, longuíssima, numa veste branca iluminada (ao menos parecia branca), coroada pelos raios de luz daquela Lua fantasmagórica no céu lá fora… Os cabelos negros, longuíssimos… (se bem enxergava, do alcance da barra daquele vestido) E seu rosto… fixo, teso, em direção a mim…

Eu escrevera “longuíssimos… quão precisa essa palavra para traduzir o que eu via… Os olhos dela, seu rosto… ainda que impreciso daquela distância, eu percebia me olharem, fixos em mim, numa atração estranhamenteatraente… impossível de me desvencilhar. Quando o mais natural seria entrar abruptamente por aquela porta, me fechar com chave no quarto e apelar (por que não?), por socorro, eu agia como se esperasse a aproximação dela…

Então, segundos, talvez minutos naquela troca de impressões, como se calculássemos nossos próximos movimentos, eu a vi chegar perto de mim. Estranho que minha memória agora não consiga precisar se de fato eu enxergava seus pés ou mesmo uma flutuação dela até onde eu estava…, mas prefiro acreditar que tenha sido, sim, um movimento de alguém de carne e osso — meu ceticismo, até onde eu puder, colocarei à frente de qualquer decisão mais radical, ainda que este Castelo, sem dúvidas, demonstre algo bastante além das manifestações naturais…

E lá estava ela… a poucos metros, depois tão próxima que esbocei um contato — respondido pelo que parecia um sorriso… Um esgar de confiança, de alguém que, certamente, por mais maldosa que fosse, eu não teria como evitar… Fosse minha morte, minha danação prestes a acontecer naquele momento, e eu estaria entregue, completamente à mercê do que quer que seguisse…

E como não?! Pudesse transmitir por palavras aquele enlevo, aquela aura obscura, porém sedutora, enigmática em toda sua forma desinibida diante de meu olhar estarrecido… Minha expressão era de desespero… mas do tipo que já não via saída, então contando com a benesse do tempo para que nada de grave resultasse daquilo, que aquela invasora mostrasse alguma piedade entre seu manifestado poder… 

Suas mãos estenderam-se em direção às minhas… Quando fui agarrá-las, não foi o toque delas que as sentiu, mas meu pescoço! Temi ali por minha vida; senti ali o resultado incontornável de toda essa história de vampiros, do Conde até então figurante… Ela era, com certeza, daquele universo, uma de suas forças intransigentes, surdas a qualquer súplica desesperada, sedenta pelo meu sangue!...

Tudo o que depois lembro de ter acontecido foi sentir o toque daquele aguilhão; devo ter erguido meu pescoço, ansioso para que aquilo acabasse logo, temeroso apenas da dor, de alguma febre demoníaca, do tipo que me fizesse contorcer em ais e angústia por alguma maldição completa, sem chances de escapatória…

Acontece que acordei sem dores. Ainda que carregue as marcas do fatídico encontro (um jogo de camas manchado em rubor), trago comigo ainda mais dúvidas: o que será daqui para frente? Encontrarei de novo essa figura ostentosa, dona de um encantamento misterioso e terrivelmente sedutor? E as consequências daquela mordida… causaram ou causarão em mim algum efeito?

Não sei mesmo o que esperar…

 

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Diário de Anto Stefan Miahi (Part III)

Caros colegas, Envio este memorando para compartilhar um breve parecer sobre minha investigação no Castelo Drácula, em Bram. O Conde…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Memorando para a Universidade de Paris

(De Anton Stefan Miahi)
22 de junho de 1871 
Para: Meus pares da Universidade de Paris 
De: Anton S. Miahi  
Assunto: Investigação no Castelo Drácula, em Bram.

Caros colegas,

Envio este memorando para compartilhar um breve parecer sobre minha investigação no Castelo Drácula, em Bram. O Conde, senhor destas terras, possui uma vasta biblioteca dividida em dois setores. Infelizmente, até o momento, pude averiguar apenas um deles. Contudo, posso afirmar com certeza que este nobre local detém livros surpreendentes, alguns dos quais acredito serem de grande relevância para os departamentos de teologia e sociologia da nossa universidade.

Ao longo de sua vida, o Conde acumulou livros de diversos lugares, incluindo o Império Otomano e o Império Russo. Isso realmente me surpreendeu, pois, academicamente, temos enfrentado grandes dificuldades para adquirir conhecimento intelectual de regiões tão distantes. 

O Castelo em si é um verdadeiro tesouro de registros documentais de períodos antigos e modernos. Notei a presença de obras de arte que datam de dois a três séculos atrás. O Professor Doutor Rafael, do departamento de arte, teria um imenso prazer em explorar tantas peças com ricos símbolos e histórias.

Desde já, afirmo que minha viagem a este lugar remoto não está sendo uma perda de tempo, como inicialmente pensei. No entanto, ainda há muito a ser investigado, pois o Castelo é imenso e possui muitos ambientes a serem verificados.

Agradeço aos amigos da academia pelo apoio. Anseio poder enviar mais detalhes sobre as descobertas nestas terras da Transilvânia.

Atenciosamente,
Anton Stefan Miahi

~’’~

De Marcel Durand Laurent

(Carta datilografada para Anton)
De: Marcel D. Laurent 
Para: Anton S. Miahi
23 de junho de 1871

Bom dia, meu amigo e irmão Anton!

Como tem passado nestes últimos tempos? Fui surpreendido pelo carteiro ainda nesta manhã com sua primeira carta, além das cobranças do governo quanto ao dinheiro de nós, meros mortais.

Não sei o quão alegre se tornou minha manhã ao poder abrir sua carta e ler as novas de sua empreitada, meu amigo. A todos nós nos surpreendeu sua mudança de opinião quanto a essa viagem. Inclusive, sua irmã e mãe decidiram sair de Sevilha para rumar para Paris e centralizar suas cartas. Elas chegaram há alguns dias com minha esposa na estação, pois infelizmente não tiveram tempo hábil para te alcançar e se despedirem. Alojamo-las  em uma boa casa, três casas para baixo da minha. O dono é um homem protestante, um britânico, mas às vezes parece ser como eu um bom católico; sua esposa ajudará ambas a se adequarem aqui na capital do mundo. Espero que elas nunca me ouçam dizer estas palavras, já que, pelo que notei, elas, como boas católicas e fiéis ao Papa, amam seu monarca. Quase são tão radicais e cabeças-duras quanto os jacobinos no nosso parlamento e nas ruas.

Pelo que li em sua carta, o lugar, apesar de admirável, é imerso em uma aura mística, como as narradas pelos imigrantes da Europa Central. Aquelas bruxas vindas do meio do nada do nosso velho continente sabem como contar histórias sombrias sobre essas terras natais, mas o que chama a atenção é seu relato, que quase se assemelha ao das velhas ciganas dos bairros afastados da nossa amada cidade.

Mediante a possibilidade, mantenha a calma diante do que lhe aflige emocionalmente. Para quem pode sobreviver aos campos de batalha, creio que uma perturbação ou outra seja apenas consequência. Mas, tendo em vista o homem que é, dotado da experiência e ceticismo de quem provou da dor e da ciência, não se permitirá perder a razão.

Busque dar objetivos aos seus pensamentos, meu amigo, e trazer à Universidade de Paris boas novas que lhe trarão orgulho. Ademais, quando regressar, o que espero que seja o mais breve possível, poderá reencontrar sua mãe Louise e sua irmã Jade.

Assim sendo, espero ter novas notícias suas, já que estas entregarei eu mesmo à sua família! Novamente digo que me sinto feliz e espantado pela tua decisão de viajar. Creio que a mudança de ares poderá te proporcionar um bom renovo.

De seu irmão de trincheiras,  
Maurice.

~’’~

Anto Stefan Miahi III

(Anotações em meu diário)

25 de junho de 1871 — Depois de muito procurar encontrei meu fiel amigo que trouxe de Paris, meu diário. Agreguei a ele as folhas que usei para fazer minhas anotações anteriores.

Antes que eu possa comentar algo mais, quero registrar aqui eventos sociais dos quais pude ser partícipe e que a mim foram inequívocos fatos que me fogem aos parâmetros do natural e racional do presente século.

Me faz lembrar o que Descartes diria neste presente momento; O bom senso é a coisa do mundo melhor partilhada. Me vejo como um solitário e louco dentro deste castelo. Por dados momentos tive a triste sensação de retornar à guerra e seus horrores, no entanto, aqui estou, à salvo num castelo, mas tais pensamentos que proporcionam o suplício da mente inquieta meu sono e perturbam minha paz na consciência. Onde poderia eu casar a meditação de Descartes neste instante que parece querer romper as ideias e destroçar meu coração?

Bem, antes que meus pensamentos se percam na filosofia, mas é inevitável não recorrer ao pensador Rene, novamente, ao me ver dentro deste quarto quando ele diz algo como: “Frequentemente, as ideias que inicialmente me pareciam verossímeis revelaram-se enganosas ao serem transcritas para o papel.”, estendo para além delas mergulhando nessas palavras. E quando intenciono me confessar ao papel crendo ser mentira e vejo que revelo o que é verdadeiro nesta folha tão pura que agora se mancha com meus pensamentos?

Outra vez já estou divagando e quero ir direto aos fatos, aos eventos.

Na noite, eu acho, de 22 de junho, fui notificado de um evento social no castelo que deveria ocorrer na noite do dia 24 de junho

Desde que cheguei, basicamente, tenho buscado me adaptar aos horários do conde, a quem devo admitir ter costumes de uma tesura inimaginável. Passo a confundir noite e dia, já que passamos as noites conversando sobre as obras, as teorias, a aristocracia, as políticas, e os pensadores. E tem sido muito profícuo nossos debates noturnos, pois me tem permitido exercitar minha experiência acadêmica, e não posso deixar de dizer o quão impressionante é o conhecimento do Conde, ele demonstra uma ampla vivência intelectual e dentro da alta sociedade que poucos homens de sua posição parecem apreciar.

Naquela noite em que ele me notificava que havia enviado convites para um evento social da alta sociedade local, tivemos uma conversa bastante incomum.

— Caro Anton, me vejo curioso sobre como anda Paris mesmo com estes tempos tão turbulentos. — Sua voz era calma e denotava claro interesse quanto ao tema. 

E havíamos debatido sobre a tragédia do pensamento literário que a Rússia produzia em conflito da produção prussiana que denotava racionalismo, da francesa que buscava a liberdade da sociedade, da tirania dos poderes divinos do rei sem se desvincular da Igreja Apostólica Romana. 

“São a força e a liberdade que fazem os homens virtuosos. A fraqueza e a escravidão nunca fizeram nada além de pessoas más.”, Rousseau afirmou isso, e não posso discordar. Após a guerra promovida por Napoleão iniciar sua campanha, pudemos talvez ver melhor a própria França, as forças da aristocracia divina ruir ante nossos olhos. — Meu pensamento parecia ter soado distante e talvez apático, já que acabei sendo transportado para um lugar que lutava não voltar. — Creio que me fiz soar algo desconexo, Conde. No entanto, após a guerra chegar ao fim, distante da graça do Papa, com o escárnio da Prússia em nossa face, e estes sendo mantidos por aqueles maçons contra a sacrossanta igreja. Não duvido que também os judeus por detrás das cortinas políticas, às escondidas, não estivessem fazendo seu jogo contra o império, como dizem as más línguas. Meu sentimento em responder é de penúria. 

Por um curto tempo se fez um silêncio e o conde apenas parou, observando a minha pessoa. O mais incomum era que ficava óbvio essa sensação de observação, e isso me impelir a ter que seguir com a minha resposta. 

— Quando retornamos, Paris estava em conflagração interna, a aristocracia perdia seu lugar, o parlamento ganhava mais espaço, e Napoleão que caiu nas mãos inimigas vergonhosamente. O Estado do presidente imperador já não existiria mais. — Admito que após os horrores da guerra, voltar e ver uma revolução nos jardins do palácio de Versalhes foi pouco surpreendente pelas notícias que recebíamos de casa por parte dos nossos oficiais. — Creio que em meu rosto deve ter sido criado algum sinal ou expressão de antipatia quanto aos fatos tratados.

— “A missão suprema do homem é saber o que precisa para ser homem.”, posso estar enganado quanto a fonte, mas foi Kant que disse algo assim, e não estava de todo errado em afirmar isso ao pensar em suas luzes de racionalidade alemã. — A fala do conde denotou uma precisão cirúrgica num mar de calma e empatia. — Mas, como, em contrapartida, o saber é a chave da liberdade, creio que foi Robespierre que afirmou algo assim; “O segredo da liberdade é de educar os homens, assim como o da tirania é conservá-los na ignorância.’” Ao nos apoderarmos do saber nos expomos ao tormento do entendimento, diante da escolha de lutar contra ignorância, mas o que não podemos negar são os poderes que guiam este mundo; a cobiça, o poder e a tirania.

As palavras do conde foram como um soco bem-posicionado em meu estômago. Era inadmissível a alguém que se deu o trabalho de afundar-se nos livros, numa jornada pelo conhecimento, se permitir esquecer do fundamental da erudição que é a propagação do próprio saber. A guerra produzida pelos tiranos da Prússia e da França custaram almas humanas, um sangue que regou os campos de batalha sem haver razão.

Após uma hora mais de conversa, o conde decidiu se recolher às suas habitações em algum lugar do castelo. Em seguida me recolhi para meu quarto. Subi aquelas escadas em pedra e madeira observando lentamente os quadros e tapeçarias expostos. Ao chegar já fui abrindo a porta e entrando. A luz que estava no corredor invadiu o ambiente e pude notar sobre a mesa uma carta. Prontamente fui abrindo e nela continha um convite formoso.

23 de junho Durante o dia e parte da noite deste dia não tive a companhia do conde durante o seu período habitual. Passado uma boa parte da madruga registrando os livros da parte da biblioteca do lado da porta pequena que ficava ao fundo da sala. Devo admitir que a curiosidade de quando aquela porta passou a aumentar, mas venho resistindo a investigá-la. Algo nela desperta minha atenção.

Seu servo, Narcís, por umas quantas vezes veio ver como eu estava passando e se eu necessitava de algo. Por umas três vezes ele conseguiu me surpreender, dando-me um grande susto já que estava completamente absorvido por minhas investigações. Mas devo dizer que ele tem passos incrivelmente silenciosos. Ele, em sua última visita, aproveitou para me avisar.

— Sr. Anton, o evento de amanhã ocorrerá a partir das  21h. Creio que os convidados irão comparecer cerca das 20h. Alguns deles tem uma pontualidade surpreendentemente similar à de um relógio suíço. — Sua postura era sempre extremamente séria, mesmo quando se tratava de coisas triviais como trazer o chá.

24 de junho — Após ter me recolhido mais cedo no dia anterior para poder ter energia suficiente para a reunião que o conde havia criado. Confesso ter ficado surpreso que ele, com hábitos tão únicos, tivesse interesse por este tipo de reunião. Um baile com máscaras. Por infelicidade não tinha as peças de roupas que combinassem com o solicitado no convite, mas o espantoso era que o conde havia se antecipado quanto a este que, a meu ver, lhe era completamente alheio, desconhecido.

Os tons eram carmesim e dourado, os detalhes eram finos, elegantes, fazendo jus às peças feitas para a nobreza. Mas para meu assombro, ao me vestir, que surpresa, as roupas estavam perfeitamente encaixadas. Nada folgava ou faltava, estava na medida perfeita. Me sobraram apenas as perguntas: “Como ele saberia as minhas medidas? Em que momento ele conseguiu saber quais eram elas?”. Creio que isso se somaria às demais coisas estranhas que tenho que tentar obter as respostas neste lugar.

Na justa hora do baile — Narcís, preparou um bom banho quente de tina, pude aproveitar bem este momento, ele aproveitou e me trouxe sais e pétalas de rosas, que segundo ele eram para suavizar minha pele queimada de sol. Como afirmei em outro momento, luxos para um militar eram ter um lugar para dormir, comida não mofada, e um rio gelado para refrescar, e muitas vezes nos vimos privados dessas coisas.

Após o banho com auxílio de Narcís que fez questão de ajudar-me a vestir aquelas roupas tão finamente produzidas. Calça, camisa, um sobretudo, um laço e, por fim, a máscara que, segundo o mordomo, era obrigatório.

O servo do conde me conduziu para outra parte do castelo, após terminar com retoques na roupa. Normalmente, assim que saía do meu quarto, tomava o caminho da direita e alcançava a escada que me levava direto para o salão onde eventualmente eu comia, a biblioteca e a entrada principal. Contudo, desta vez, fomos rumo ao lado oposto. O corredor era reto e terminava numa escada em L, e depois por outro corredor reto, diferente do que normalmente eu via lá atrás, nestes não havia quadros ou tapeçarias. Tinha apenas candelabros de bronze, uns quantos quartos que estavam fechados, e pouca mobília até que chegamos numa nova escadaria agora circular que levamos uns quantos minutos para descer, pronto uma luz amarelada e forte surgiu ao fundo da escadaria, estávamos estreando uma nova ala que eu não conhecia. 

Assim que a luz ficou mais forte, uma porta se revelou, dela um salão belamente decorado, várias fitas nas mesmas cores que da minha roupa. O teto tinha um pé direito alto, poucas janelas, essas com vitrais com cores tão ímpares, escuros que pareciam perfeitos para impedir a luz crua do sol, dando uma iluminação muito peculiar de colorações singulares, um jogo de cores e sombras dançantes. Velas, lamparinas a óleo e uma lareira de um metro e meio de largura e quase dois metros de altura ajudavam a iluminar o local, além de aquecer. 

Claro que, à princípio, não considerei verdadeiras as afirmações do mordomo da pontualidade da nobreza local, mas me deparei com muitos convidados já no ambiente. Os músicos estavam posicionados. Supus que ali se encontravam pelo menos cento e cinquenta pessoas, mas aquele salão suportaria seguramente uma quantidade maior de pessoas. Terminei de descer as escadas, olhei ao redor e vi mesas de madeira rústica nas laterais cobrindo parte considerável do espaço. De onde eu estava para o meio e o lado oposto estava completamente aberto e se podia ver uma grande porta dupla de madeira por onde alguns dos convidados entravam e saíam

Drácula entrou por uma porta disposta no lado esquerdo, ele se posicionou ao lado da banda que era um lugar elevado e cabia com folga oito músicos, o regente e ele sem ter que disputar espaço.

Ele faz um breve discurso e inicia a festividade, que sou claro em afirmar não saber sua razão ou a que se atribuía. Minha completa ignorância poderia proporcionar uma cena constrangedora.

Vejo o conde caminhar em minha direção e esticar seu braço direito até sua mão tocar meu ombro.

— Anton, hoje o senhor poderá descansar dos seus estudos e pesquisas. Minha intenção é proporcionar ao amigo umas quantas horas do desfrutar das vantagens da nobreza e descansar. — Era inegável o tom amistoso e a expressão empática que ele transmitia. Ele era o único sem máscaras até aquele momento. Drácula sorria no melhor de quem sabe ser político e aristocrático. — Dance, coma, cante, converse e seja feliz meu amigo.

Assim que ele terminou de dizer essas palavras, ele colocou a máscara, e pude perceber novamente aquela estranha aura no olhar que nas minhas memórias pensei ter visto. Tornar a ver nada mais que confirmava as minhas lembranças, não havia sido um engano.

Trouxeram-me uma bela taça de um vinho que, quando provei da taça de vinho tinto amadeirado, senti o aroma robusto que emanava das notas de carvalho e baunilha. Ao primeiro gole, os elementos frutados de ameixa e cereja dançaram em seu paladar, conferindo um toque suculento à bebida. A leve acidez cortava a doçura, criando um equilíbrio refrescante que tornava a experiência ainda mais sofisticada. A melodia melancólica do piano ressoava pelo salão, enquanto as sombras das figuras elegantes se entrelaçavam em um ritmo lento e hipnotizante.

Em alguns momentos me detive em perceber sombras incomuns dançando ao meu redor, seus olhares eram etéreos. Parei para observar tal fenômeno, mas estas pessoas surgiam e tão logo desapareciam, era uma sensação atordoante. Uma estranha sensação de perigo surgia em mim. Algo naquelas pessoas passou a me incomodar, seus olhares tinham um efeito similar do conde, me sentia uma presa diante de seus predadores, mas agora era em todas as direções.

Até que, perto da porta, notei cabelos pretos ondulados e a pele branca quase igual ao marfim. O ar parecia saturado, sentia minha visão ficando levemente turva, até que levei a mão aos olhos, e decidi que deveria sair daquele lugar. A música já começava a me soar hipnótica, acentuando ainda mais a sensação opressiva.

Decidi então que deveria tomar um ar, sair para o exterior. Rumei para a porta, mas por alguma razão sentia que a distância até ela estava demais e que era uma luta do meu corpo com uma massa invisível que queria me atrair para o centro do baile, mas meus instintos diziam para lutar contra.  Com algum esforço consegui alcançar a porta e, ao abri-la, uma brisa fria passou — o que me fez sentir como se despertasse de algum tipo de sonho acordado.

No exterior, um pequeno pátio com um corredor para a esquerda que parecia conduzir a um lance de escadas. Uns poucos metros à frente, um beiral de pedra até quase a altura da cintura com uma vista magistral das montanhas nevadas e um vale com uma floresta de abeto-branco.

Um som vindo da escadaria me chamou a atenção que me fez ir em sua direção.

Quando me aproximei, notei que ela era uma longa escadaria correndo pela lateral do castelo até a base da montanha onde a casa do conde estava construída, culminando no início da floresta, olhei um pouco mais à frente e pude ver se destacar uma série de pequenas colunas de fumaça.

Em minha mente, as opções seriam voltar para a festa e voltar àquele mar de sensações embriagantes ou me aventurar nos arredores do castelo. Para mim a escolha era simples, qualquer lugar seria mais interessante que aquele oceano de emoções e alerta de perigo que não sei indicar a razão.

— Melhor aqui neste frio, com árvores, uma estranha e as montanhas. — após ter dito isso em voz alta, apenas me restou rir.

Comecei a minha jornada de uns vários minutos pela escadaria que serpenteava pela encosta da montanha do castelo Drácula. A descida foi monótona a um certo passo, mas minha curiosidade apenas me impulsionava para frente.

Ao atingir a base da escada pude ver um caminho de pedras de paralelepípedo por meio das árvores de abeto-branco que estavam cobertas de neve. Olhei ao redor e notei uma fina neblina se formando até que ela tocou a linha das árvores. 

Não havia mais o que fazer, voltar e ignorar explorar essa região, de se privar da experiência de conhecer melhor o país do conde, ou simplesmente avançar e ver o que o destino me reservaria. As perguntas que havia deixado registradas no meu diário há uns dias nunca gritaram tão alto em minha mente como agora. Espero que minhas decisões não tenham sido um completo erro. 

Obviamente, para fazer valer a chance de dar valor às minhas próprias palavras, decidi seguir adiante.

Por quase trinta minutos avancei em meio a flores por aquele caminho suspeito, cortando a neblina que parecia gritar na minha cara que eu estava rumando para o perigo.

A sorte e o instinto guiaram a minha decisão de incluir minha espada ao modelito para o baile. Graças a isso, pela primeira vez desde que cheguei, minha mão pode encontrar a bainha do meu sabre em minha cintura.

Antes que me desse conta, estava diante dos portais, dos muros de pedra e madeira, da entrada de uma cidade enfurnada no meio da floresta. Observei enquanto me aproximava que nas colunas continha inscrições no idioma local, o romeno. Elas cobriam da base até a parte mais alta. Aquele portal era feito do mesmo tipo de árvore da região, mas claramente era algo antigo, algumas partes estavam apodrecidas.

Quando toquei, eu senti como uma descarga de uma energia estranha, como se um raio percorresse o meu corpo. Olhei em direção à cidade, ela ainda estava a alguns metros. As casas eram rústicas, todas de madeira, o caminho de pedra seguia até o que parecia ser uma praça. Caminhei naquela direção. Notei serem um total de dez casas fazendo um círculo, e em todas havia chaminés com fumaça sendo expelida. Olhei ao redor e a princípio parecia abandonada, algo ainda mais estranho era evidente, a névoa não avançava para além dos portais e dos seus muros. Era como se algo impedisse que ela entrasse.

Então ouvi passos, não evitei sacar o sabre, os instintos foram mais fortes. Como se fosse uma miragem, de início não acreditei que fossem pessoas nas portas, janelas e ao redor de mim, logo elas começaram a se revelar.

A princípio eram como sombras sem definição, gradualmente tomaram forma que parecia humana, detalhes foram surgindo, quando reparei seus rostos completamente disformes. Os sons normais de um vilarejo rompem o silêncio que até então era rei.

— Quem são vocês pelo amor do bom Deus? — Exclamei num grito de assombro e terror, enquanto apontava a ponta do sabre na direção do que estava mais perto de mim. — De que inferno vocês surgiram?

— Somos os moradores sem sorte desta Vila conhecida como Séttimor! — Sua voz era rouca, e de sua boca saía uma fumaça cinzenta, foi quando notei que de alguns até dos olhos saía, enquanto de outros assombrosamente nem face tinham. — Aquele atrás de você é nosso chefe Kvvus! — Apontou ele com seu dedo da mão direita um homem sentado. Ele está em sua sétima morte, suas vestes eram simples e puídas. O expressava o vazio da existência num estado de paralisia, seus olhos de tão fundos lhe proporcionavam aspecto cadavérico.

O espanto que aquela cena me deu assombrou de tal forma que percebi a ausência de periculosidade naquele povo estranho habitantes da vila de Séttimor!

Texto publicado na 7ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de julho de 2024. → Ler edição completa
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Palidez

A sensação de torpor parece não querer me abandonar, cada puído tijolo do meu aposento escuta com atenção minhas aflições, meu corpo ainda sofre com espasmos…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

A sensação de torpor parece não querer me abandonar, cada puído tijolo do meu aposento escuta com atenção minhas aflições, meu corpo ainda sofre com espasmos, a doce e sedutora voz do Conde reverbera em meu inconsciente, bem como as notas tocadas por aquela fúnebre orquestra.

As vagas lembranças eram confusas, a dança, o jantar, aquela versão obscura do castelo, por mais estranho que fosse, queria estar lá novamente. Continuo deitada em meus aposentos numa majestosa cama, feita de madeira sólida, ela ocupava grande parte do quarto. Elevo meus olhos e noto uma cabeceira imponente em mogno, esculpida à mão, com adornos que eram um verdadeiro deleite.

A cômoda ainda trazia um aconchegante estofado, em tons de roxo, diria que o anfitrião me conhece muito bem, pois esse tecido me remete a um passado quase esquecido. Fecho os olhos e deslizo suavemente meus dedos ainda manchados da última refeição, sentindo toda maciez do tecido, deixando escapar dos meus lábios escarlates tímidos sorrisos.

Sem perceber, sou conduzida para épocas felizes, quando ainda criança, meus pais me cobriam com uma manta de veludo verde musgo, nos dias chuvosos, lembro-me do doce cantar entoado pela minha mãe, quando os intensos relâmpagos invadiam meu quarto, sua voz me acalmava e me fazia dormir. Se eu buscasse nas profundezas do meu subconsciente, ainda conseguia ouvir o sussurrar amoroso, desejando um boa noite, deixando seu inconfundível sutil aroma de rosas.

Por breves segundos, voltei a ser a inocente Rose, cujas únicas preocupações eram: ser uma boa filha, brincar e tirar boas notas. Mas, ao abrir meus olhos inundados de nostalgia, vejo os brilhantes cristais presentes em um lindo lustre feito de ferro fundido, um lembrete de que ainda estou aqui, percebo também que ainda era dia, pois a luz rastejava pela fresta da enorme cortina, (que também era de veludo) em tom de roxo, escondo-me atrás da cabeceira e espero o anoitecer.

Sem demora, ela chegou, a encantadora noite, me levanto com leveza. Caminho para a imensa janela, abro-a e sou banhada pelo cálido luar, em seguida, sinto o toque gélido da noite em meu rosto e meus cachos dançam com o soprar noturno.

Vejo que, ao lado da cama, há uma cadeira vitoriana com minhas roupas dobradas, talvez tenha sido o mordomo; em frente à cama se encontra uma lindíssima banheira vitoriana e, à sua direita, uma pia esculpida em porcelana branca que parece ser do século XIX, com detalhes em dourado. 

Meu tempo é escasso, então, limpo meu rosto assim como algumas partes do meu corpo, sinto-me renovada com o toque da água gélida, só então troco de roupa, e torno a ficar em frente à janela.

Não sei ao certo, mas havia algo sombrio nos arredores do castelo, um medo irreal percorre cada centímetro do meu corpo, o terror se manifestar através de arrepios, vislumbro o céu com poucas nuvens, onde as estrelas ostentam um brilho nunca visto antes, a lua está em sua mais bela forma, imponente e cheia, minha atenção se volta para o horizonte, é possível contemplar inúmeras montanhas altíssimas, já outras menores, porém, todas brilhavam horrivelmente com o luar, e a vegetação presente nos picos das montanhas adquiriram um verde neon.

Uma visão arrebatadora, meus olhos seguem perambulando na escuridão, me deparo com vegetações mais rasteiras, e também alguns arbustos, mais abaixo, vejo algumas estradas serpenteando para diferentes direções, absorta, é quando vislumbro algo aterrador, em meio àquela escuridão, surge um denso nevoeiro, fazendo com que pouco a pouco as montanhas, estradas e vegetações desaparecessem em meio à neblina. 

Entretanto, não era um simples nevoeiro, eu estava prestes a testemunhar a materialização do desconhecido, nossa ínfima mente não está preparada para tal visão, conforme ela se movia, pude ver uma espécie de galhos longos e esbranquiçados, alcançando alturas inimagináveis.

Absorta, vejo o nevoeiro ultrapassar os altos muros do castelo, fecho a janela pois, ele se aproxima, meu colo palpita descompassado, senti a mesma sensação ao tocar aquele funesto livro confeccionado em pele humana.

Enrolo meus cachos com os dedos frenéticos, e começo a lembrar de algo terrífico; na segunda página do livro, dividindo a folha com outros símbolos e frases, havia um desenho que ocupava uma boa parte da folha, eram longos ramos brancos, o horror ancestral corrói minhas entranhas, meus olhos continuam tragados pelo desconhecido, pouco a pouco me torno nívea.

Já não é mais possível ver as montanhas e vegetações, nem mesmo o brilho da lua, apenas o mover dos brancos galhos na imensidão do céu, ouço passos temerosos subindo e descendo as escadas do castelo, ouço sussurros que se perdem pelos corredores, aquele quarto se torna sufocante, preciso ir novamente à biblioteca.

Texto publicado na 7ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de julho de 2024. → Ler edição completa

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Almas Cinzentas

A noite estava fria, mas o frio do amanhecer é maior e me desperta de um sono longo. Ao abrir os olhos, percebo que tudo é cinzento, vazio, morto. Logo, meu globo ocular arde…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

A noite estava fria, mas o frio do amanhecer é maior e me desperta de um sono longo. Ao abrir os olhos, percebo que tudo é cinzento, vazio, morto. Logo, meu globo ocular arde levemente, trazendo lágrimas quentes que começam a verter. Por que a monotonia me toma, por quê? Por que o dia amanhece tão estranho? Na verdade, onde estou? Estaria eu ainda sonhando? Talvez. Seco as lágrimas de saudade de algo que não sei decifrar.

Levanto-me da cama, lavo meu corpo e sinto a água gelada. Saio rapidamente do banho e me visto com roupas confortáveis e aquecidas. Decido explorar melhor o lugar, mas antes de sair, avisto uma placa gigantesca na saída do castelo onde estou hospedada, que diz: “Vila Séttimor” — percebo da minha janela. Então, o nome deste lugar é Vila Séttimor? Muitas interrogações me tomam.

Lembro-me de Olga Nivïttz, da sua inteligência, altivez e coragem para viver neste lugar, que agora me encanta grandiosamente. A cada orientação sua, me sinto mais segura, ainda assim, sinto-me nostálgica, como se algo dentro de mim faltasse. A busca por esse algo parece distante, dolorosa.

Ao longe, vejo pessoas caminhando vagarosamente, como se estivessem enfermas ou com preguiça. Mas todas? Decido sair do quarto para conhecer melhor o ambiente lá fora. Desço as escadas e a atmosfera é gélida, logo, penso que fiz bem em me cobrir bastante.

A porta do castelo se abre lentamente e range alto. Nunca sei o que me espera por aqui, e realmente, o que vejo é estranho. Ao me afastar do grande recinto, vejo as pessoas lentas, da mesma maneira que vi pela janela. Seus rostos são estranhos e elas não me olham fixamente.

— Olá... — digo, mas ninguém responde. Os seres andarilhos apenas me olham. Realmente, este lugar é um destino que jamais imaginaria estar. Essas pessoas não me fazem mal, mas me transmitem estranheza, como se eu estivesse em outro mundo, um mundo além do meu. Meus líderes conversaram bastante comigo sobre portais que podem ser abertos e nos levar a locais inexplicáveis, e penso se isso poderia estar acontecendo comigo.

As pessoas que vejo são frias, em todos os sentidos possíveis. Logo, elas me fazem lembrar de tantas pessoas que amo e que se foram, não sei por que penso nisso. A morte parece estar tão próxima de mim, uma atmosfera cinzenta, uma aura funesta e dolorida...

Continuo caminhando e não apenas sinto cheiro de sangue, mas o vejo por entre os cristais de gelo ao chão. Sim, nevou, e a neve ainda cai, improfícua. De quem seria esse sangue? A vila parece grande, misteriosa e assustadora.

Decido retornar, ou essas pessoas me deixariam ainda mais tonta de tanto rondarem próximas a mim, como se fossem cair e me derrubar ao chão.

Não acredito que zumbis possam existir neste espaço-tempo em que me encontro. São pessoas, pessoas estranhas, mas ainda são seres humanos. Isso parece ser um pouco mais profundo do que imaginei.

Ao retornar para o castelo, lembro-me do meu avô. Ele me doutrinou tanto, me ensinou tantas coisas, e agora não tenho seus conselhos sábios em tempo real. Tudo ficou na minha mente, apenas. Lembro-me e choro. Meu choro é a única coisa que aquece um pouco o meu rosto, pois a frieza que toma minha pele, ainda que aquecida, é inegociável.

De tanto pensar, esbarro em uma pessoa que parece não estar olhando por onde anda.

— Você consegue olhar por onde anda? — Quase brado, impacientemente, e a pessoa passa por mim e para, de costas. Quando se vira para mim, vejo que seu rosto não existe, está cinzento, pálido, vazio, com uma cor inexistente... me assusto desta vez. Antes que a figura abra a boca para dizer algo, corro para o castelo, e antes mesmo que eu possa me aproximar, a grande porta se abre, parecendo me reconhecer enquanto residente.

Adentro a porta e subo as escadas correndo, até chegar ao meu quarto. Preciso urgentemente relatar tudo para meus líderes xamânicos que deixei em meu país. Eles precisam saber o que anda acontecendo desde que aqui cheguei.

Fico imaginando: se uma daquelas criaturas adentrar o castelo, não sei o que poderá acontecer. Pela primeira vez não tive medo ao ver figuras masculinas rodando a Vila Séttimor. Talvez, por ter figuras femininas por perto. Ou talvez por serem lentos, indefesos. Mas por que não tive medo? Por que sei que não me fariam mal? Por que são tão diferentes dos outros seres vivos?

Pego meus pergaminhos, caneta e tinteiro, e surgem as primeiras palavras, ainda em minha mente. Acalmo-me e sento-me à escrivaninha disponível em meu quarto. Através dela, é possível ver a janela, que me dá a possibilidade de ver as pessoas estranhas lá fora. Eis o momento de respirar fundo e iniciar meu primeiro relato a ser enviado para minha aldeia.

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