Diário de Anton S. Miahi IV
26 de junho —Ainda tenho essa lembrança.Pareceu-me que haviam se passado horas desde que fui barrado em Séttimor. Ioam era uma figura imponente...
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Diário de Anton S. Miahi IV
(Escrito no Castelo)
26 de junho —Ainda tenho essa lembrança. Pareceu-me que haviam se passado horas desde que fui barrado em Séttimor. Ioam era uma figura imponente, sua altura e braços longos contrastavam com suas mãos ossudas e frias, que pareciam esculpidas na pedra. Apesar da sua aparência pálida e gelada, havia uma força oculta em seu corpo. Seu rosto disforme, com olhos profundos e insondáveis como os de um cadáver, brilhava com íris vermelha, a cor incandescente das brasas de uma fogueira antiga. Cada vez que ele falava, uma fumaça escura e espessa escapava de seus lábios, como se suas palavras fossem substâncias tóxicas. Sua pele, escurecida e marcada por uma deterioração que eu ainda não compreendia, parecia se desintegrar sob a luz tênue. Ele vestia roupas tão desgastadas e rotas quanto os trapos de um espectro, reminiscências de um passado longínquo.
Após a visão de Ioam, um som grave e profundo começou a ressoar ao meu redor, ecoando com a intensidade dos disparos de canhões franceses, mas muito mais ensurdecedor. O estrondo parecia vibrar nas minhas entranhas, e eu não pude evitar levar as mãos aos ouvidos na tentativa desesperada de abafar o barulho.
Ergui os olhos para o céu, e percebi que o firmamento estava em transformação. As estrelas, antes brilhando em uma disposição familiar, agora pareciam se afastar umas das outras, ou talvez fossem movidas por alguma força invisível. O silêncio que se seguiu era pesado e opressivo, interrompido apenas pelo açoite do vento que sussurrava através das árvores com um som cortante e sinistro. Os uivos que antes preenchiam o espaço haviam cessado abruptamente, deixando uma sensação de vazio angustiante que se alojou no fundo do meu peito.
Quando finalmente consegui focar meus olhos, o céu revelou um panorama disforme. As estrelas, uma vez conhecidas e tranquilizadoras, agora se assemelhavam a olhos, incontáveis e vigilantes, observando cada movimento meu com uma intensidade perturbadora. Traços de luz prateada serpenteavam pelo firmamento, como fios de prata entrelaçados em uma tapeçaria cósmica que pulsava com um brilho etéreo e desconcertante. Cada ponto de luz parecia vibrar, lançando reflexos que distorciam o espaço, criando uma sensação de ser observado por uma presença cósmica e implacável.
Naquele instante, a percepção do meu corpo mudou de forma radical. Eu já não tocava o chão; sentia-me flutuando, suspenso no vácuo etéreo do desconhecido. O espaço ao meu redor parecia se estender indefinidamente, envolto em uma neblina tênue que impossibilitava discernir onde o vazio terminava. Ao fundo, a voz de Ioam reverberava como um eco distorcido, suas palavras se dissolvendo em um buraco negro de incompreensibilidade. A realidade parecia desvanecer-se ao meu redor, e eu era engolido por um mistério insondável, onde o céu se convertia em um enigma aterrador.
Sentia-me como uma marionete nas mãos de um artista cósmico, meu corpo leve e sem resistência, completamente desprovido de qualquer sensação de segurança. Meu olhar então foi atraído para uma vasta criatura que parecia se fundir com a imensidão do espaço negro. Seus olhos brilhavam intensamente, como dois faróis cortando a escuridão infinita. Era uma presença de beleza aterradora, com cada olhar parecendo um abismo profundo de mistério e poder.
Por um instante, algo que se assemelhava a uma boca surgiu, ou pelo menos uma paródia dela — longa e serpenteante, como um tentáculo emergindo do vazio, sem um rosto que pudesse caracterizá-la. Dois olhos adicionais se formaram na figura, fixando-se em mim com uma curiosidade quase infantil, como um médico examinando um paciente com um interesse quase científico.
A criatura então falou, sua voz ecoando no espaço entre as estrelas, preenchendo o vazio com um sussurro místico e terrível que parecia vibrar nas paredes do cosmos.
— Se sente sozinho? — Sua voz era profunda e reverberante, como se estivesse sendo projetada de uma caverna antiga. O tom não parecia ameaçador, mas carregava um peso de sabedoria infinita. — Você viu?
Eu não consegui responder imediatamente; parecia que minhas palavras estavam congeladas no vácuo. Então, como se fosse uma revelação, a resposta surgiu em minha mente.
— Sem solidão, então. Apenas dor. Você também sente isso, não é? — A criatura parecia ouvir meus pensamentos como se fosse um eco no vácuo. — Você a viu.
Meus olhos se arregalaram de assombro. Como ele podia ler minha mente?
— Sou aquele que "apenas existe", uma testemunha de mortais e imortais. — Sua voz retumbava em meus ouvidos com uma ressonância quase física. — O que você viu não era uma assombração ou uma miragem. Estava aqui, mas não exatamente aqui. Um reflexo da existência, do tempo… Uma distorção.
Ele vasculhou minha memória, e eu comecei a compreender que a jovem que eu vira era real, mas ela estava em um lugar além da compreensão.
— O tempo… O Castelo… Drácula… A feiticeira… — Ele fez uma pausa, como se estivesse ponderando as palavras certas para usar. Sua consciência parecia mergulhada em uma profunda contemplação. — Você se prende… Sim… Você continua lá. Vejo seu pesar, sua angústia…
As memórias começaram a emergir, como fantasmas que se arrastam das sombras profundas, insistindo em revisitar cada canto de minha mente onde eu desesperadamente tentava afastar o passado. Eram imagens vívidas e carregadas de uma dor esmagadora, uma angústia que se enraizava em meu peito, cortante e implacável, como uma lâmina fria. Eu via novamente os rostos dos amigos caídos, irmãos de combate cujas expressões distorcidas e pálidas ainda eram um reflexo do horror da batalha. Mas nada era tão insuportável quanto a visão de meu próprio irmão, René.
Ele era apenas um garoto, meu irmão mais novo, com seus dezesseis anos de vida ainda intocados pelo tempo. A lembrança do momento em que a baioneta prussiana encontrou seu alvo é vívida: o golpe cruel e certeiro atravessou o ar, um movimento frio e calculado. Em meus braços, seu sangue quente e espesso tingiu a terra ao nosso redor, formando uma mancha vermelha que parecia impregnar minha alma. Sua vida esvaiu-se lentamente, como um fluxo ininterrupto de dor e desespero, e eu só pude segurá-lo, impotente, sentindo seu último suspiro enquanto a batalha rugia em um estrondo ensurdecedor ao nosso redor. Aquele instante, um fragmento de tempo dilacerante, está gravado em meu ser como uma ferida profunda que nunca cicatrizará.
Senti uma lágrima quente e salgada escorregar pela minha face, seu caminho um rastro úmido que refletia a dor que eu sentia. Meu coração palpitava a cada lembrança, como se fosse cravado por uma faca afiada, rasgando e dilacerando minha alma com cada pensamento. O tormento parecia interminável, como um rio de tristeza que fluía incessantemente da minha alma para meus olhos. Nunca pude voltar a Sevilha para dizer à minha mãe sobre sua perda. A culpa de não ter conseguido protegê-lo é um fardo pesado que carrego, um peso que faz com que meus dias sejam um tormento constante e insuportável.
— Anton, teu passo é um eco de dor... Mas há esperança, o futuro ainda pode ser moldado pelo agora... — Pela primeira vez, o eco cessou, e a criatura parecia sentir uma centelha de compaixão pela tormenta que se desenrolava em minha mente. — Observa os muros do Castelo com atenção... Examina com cuidado os habitantes que o povoam... Penetra o véu sombrio da realidade e rompe as correntes do tempo.
A sensação de dor começou a se desfazer como uma neblina ao amanhecer. Meu corpo, antes tenso e pesando como uma âncora, começou a relaxar. O peso emocional que me oprimia parecia se dissolver, dando lugar a uma estranha sensação de alívio. Olhei ao redor e percebi que o horizonte, o Castelo, e até mesmo Séttimor haviam desaparecido. Estava envolto em um espaço escuro e desolado, onde a única presença era a da criatura, que agora parecia me envolver em um abraço etéreo.
— O vazio deste mundo guarda segredos profundos, esconde o que não pertence ao natural... — A voz da criatura tornou-se mais grave, quase professoral, com um tom que parecia refletir séculos de sabedoria. — Olga vê o ordinário como monótono... Não, ela aprecia o que reside no Vazio. Ela encontrou o que buscava entre suas sombras.
A menção de Olga gerou um frio inquietante. Quem era ela, e por que sua presença parecia tão relevante? Onde ela estava no Castelo?
— A dançarina... Mora no Castelo... Em algum lugar além do espelho do mundo... O tempo aqui é maleável, as linhas do destino se entrelaçam e se cruzam. Muitos caminhos se encontram e se perderão... — A criatura fez uma pausa, como se mergulhasse em um oceano de pensamentos. — Um nome... Nauärah... Pequena... Voa... Corre... Dança!
O nome parecia familiar, um eco do que eu havia visto na festa de Séttimor. Mas o que significava estar no "espelho" do mundo? Por onde andei no Castelo, só encontrei quartos vazios, salas empoeiradas e portas trancadas, um labirinto de desolação.
A angústia se entrelaçava com a esperança enquanto a criatura falava. Eu sentia uma conexão com o mistério que me envolvia, uma promessa de que as respostas estavam à espreita nas sombras do Castelo. O vazio, embora aterrador, parecia ser a chave para desvendar os segredos que buscava.
— Nauärah, como encontrarei este fantasma no Castelo? — Minha pergunta se perdeu no vazio, uma busca desesperada por respostas em meio à crescente inquietação.
Senti um peso inesperado sobre mim, como se lençóis pesados me envolvessem em uma prisão de tecido. A escuridão era densa, quase palpável, e meus olhos demoraram a se adaptar. O corpo estava uma mistura de dor e cansaço, uma sensação de desgaste físico que lembrava os treinos extenuantes com o sargento Jean. Levantei-me com cuidado, o esforço era visível em cada movimento lento e cuidadoso, como se estivesse tentando sair de um pesadelo denso e opressivo.
A dor e a fadiga eram intensas, desconcertantes, um lembrete constante da estranheza do lugar. Sentei-me na beirada da cama, tentando orientar minha visão em um ambiente que parecia ser meu quarto no Castelo. Um frêmito de desconforto percorreu minha espinha enquanto me dirigia até a janela, cujas cortinas estavam fechadas como um véu que escondia o que estava além.
Ao abrir as cortinas, a luz da lua se projetou pela janela, revelando o cenário noturno que parecia tanto familiar quanto alienígena. As roupas do baile ainda estavam em mim, um lembrete vívido da noite passada. Uma avalanche de memórias intensas e perturbadoras invadiu minha mente, como se fossem sombras que se arrastavam de volta para a superfície.
Caminhei com dificuldade até a mesa de frente para a cama e me deixei cair na cadeira com um suspiro cansado. A mente girava, tentando unir as peças de uma noite que parecia se estender interminavelmente. As visões de Séttimor e da criatura que se apresentava como aquele que “apenas existe” eram fragmentos confusos, enquanto dois nomes ecoavam incessantemente em meus pensamentos: Olga e Nauärah.
Cada pensamento era uma lâmina afiada, cortando através do nevoeiro da confusão. A sensação de estar em um labirinto mental, cercado por sombras e ecos do passado, criava uma atmosfera de suspense e inquietação. O Castelo parecia guardar segredos nas entrelinhas da realidade, e eu estava prestes a desvendar um enigma que prometia levar a uma revelação sombria.
Diário de Anton S. Miahi VI
(Escrito no Castelo — Part. III)
02 de agosto 1871 — Ao despertar nesta manhã, senti um peso inusitado em meu corpo, um cansaço que transcendia o mero físico. Ao sentar-me no lado direito da cama, percebi que o ar não estava frio, mas carregado de uma estranheza intangível. Minha mente, lenta e nebulosa, parecia vagar por entre sombras, como se encharcada pelo licor do sargento Miguel, aquele líquido esverdeado que ele alegava ser uma herança familiar, mas que sempre me pareceu mais um veneno disfarçado.
Com esforço, reuni a coragem necessária para me erguer daquele leito, arrastando meu corpo pesado até a janela, ainda fechada. No instante em que toquei a madeira fria, algo inexplicável aconteceu. A realidade ao meu redor começou a se desvanecer, como se fosse um reflexo em águas turvas. Meu quarto se tornou um eco de si, sobreposto por imagens distorcidas, simultaneamente familiares e estranhas.
Cambaleei, tombando ao chão, enquanto o espaço ao meu redor se desdobrava em camadas desconexas. Formas se duplicavam e se desfaziam, detalhes surgiam e desapareciam como se eu estivesse preso entre dois mundos, ambos reais, ambos irreais. O conhecido e o desconhecido se entrelaçavam em uma dança perversa, desafiando minhas percepções e deixando-me à mercê de um enigma insondável.
Ouvi o ranger pesado e longo de quem estava espreitando atrás da porta, até que ela silenciou, pronto o som de passos pesados de solado de couro no piso de madeira ecoava em minha mente, então se seguiu duas vozes. Uma delas reconheci devido ao convívio, Narcís. Tentei olhar na direção deles, mas tudo girava de uma forma que me impedia concentrar-me, então fechei os olhos.
A outra era de um barítono baixo, meus ouvidos podiam haver me enganado, mas quando consegui ouvir podia ouvir que era mais. Ele falava firme, e não pude compreender o que era dito.
Tentei abrir os olhos novamente e ver quem seria o outro na sala, ele tinha a pele escura, os cabelos aparados, a barba era bem-feita. As vestes dele eram semelhantes à de um aristocrata.
O segundo retira um relógio do bolso enquanto se agacha ao meu lado. Consegui ver o mostrador do relógio, adornado com delicadas engrenagens visíveis mediante um cristal impecável, marca o tempo com uma precisão perturbadora. Cada tic-tac parece ressoar no ar, como um sussurro de algo antigo e esquecido. Ao redor, o tempo parece distorcido, curvando-se à vontade dele, que observa Anton, caído e vulnerável sob os poderes temporais que o relógio exala.
Perto da porta, em meio à escuridão que o envolve, está Nestor, o mordomo sombrio do Castelo Drácula. Sua figura alta e imponente é uma sombra que vigia, seus olhos atentos ao que se desenrola diante dele. Ele permanece imóvel, mas o ar ao seu redor parece pulsar com uma energia inquietante, como se ele estivesse em perfeita sintonia com o poder sinistro que emana do relógio na mão de daquele ao meu lado.
— Monm, creio que subestimas a delicadeza do tempo. — A voz de Nestor cortava o ar com uma precisão quase cirúrgica, cada palavra um golpe de aço frio que parecia reverberar pelas paredes do quarto. Seus olhos, escuros e intensos, fixavam-se em Monm com uma desaprovação palpável, como se visse em cada fração de segundo um erro iminente.
Por um instante, Monm baixou a cabeça, uma sombra de aborrecimento cruzando seu rosto antes de erguê-la novamente com um brilho desafiador.
— Ah, Nestor, sempre tão preocupado com as minúcias. O tempo, para mim, é uma tela em branco, pronta para ser pintada com novas realidades. — Sua voz era um sussurro leve, quase musical, enquanto girava o relógio de bolso entre os dedos, o brilho verde musgo lançando padrões de luz nas paredes, criando uma dança de sombras inquietantes. — Anton é apenas… — Ele olhou diretamente para Nestor, um sorriso sarcástico curvando seus lábios. — Uma pincelada ousada.
— Essas tuas pinceladas ousadas podem desmoronar todo o quadro. — Nestor estreitou os olhos, a voz agora carregada de um tom sombrio e ameaçador, como o crepitar de um incêndio distante. — Anton está à beira do abismo, e um passo em falso poderá custar-lhe muito mais do que o simples passar dos segundos.
— Ora, ora, que dramático! Não se preocupe tanto, meu caro. — Monm respondeu com uma leveza desconcertante, a voz quase um murmúrio divertido. — O abismo é fascinante, não acha? — Ele girava o relógio de bolso, o som metálico quase hipnótico. — Um lugar onde a lógica se perde e a realidade se distorce. Anton deveria sentir-se privilegiado por ser uma das raras almas a vislumbrá-lo.
— Brincar com o tempo é arriscar, Monm. — Nestor intensificou sua aura vermelha, o brilho ardente criando uma aura ameaçadora. Sua voz agora era um trovão profundo e grave, reverberando pelas paredes do quarto. — E já que tanto aprecias as chamas, cuidado para que não acabes queimado por elas.
— Fogo, gelo, tempo… — Monm riu suavemente, inclinando-se sobre Anton com uma expressão de curiosidade quase paternal. — Tudo isso são apenas ferramentas nas mãos certas, Nestor. Agora, veja, observe como a realidade se dobra e se molda. Anton está aprendendo uma valiosa lição sobre a natureza efêmera do tempo, algo que poucos têm o privilégio de entender…— Seu tom era cauteloso, mas carregado de uma ameaça sutil. — Ou sobreviver.
— Cuidado, Monm. As forças que invocas são antigas, mais do que tu podes controlar. — Nestor falou com uma voz baixa e imponente, carregada de uma autoridade que parecia emanada das profundezas de sua própria experiência. — Eu, que servi e ainda sirvo a poderes além da compreensão, sei o que ocorre com aqueles que ultrapassam seus limites. Não subestime o preço.
— Ah, Nestor, se a eternidade não nos oferece diversão, qual é o propósito de possuí-la? — Monm ainda sorria, mas com um brilho calculista em seus olhos. — Anton é apenas o começo. O tempo é vasto e cheio de surpresas… vejamos onde ele nos leva.
Monm, ainda agachado ao lado de Anton, girava o relógio de bolso entre os dedos, sua aura de fogo-fátuo verde musgo projetando sombras inquietas nas paredes do quarto. Anton, prostrado no chão, começava a recobrar a consciência, mas o peso esmagador do tempo manipulado por Monm ainda o oprimia. Nestor permanecia à porta, sua presença imponente ardendo em tons de vermelho, como uma brasa viva, seus olhos quase ocultos na escuridão de seu rosto severo.
— Monm, estás brincando com forças que nem tu compreendes plenamente. Anton não é uma peça descartável para teus experimentos. — Nestor afirmou, a voz cortante como um fio de lâmina. — Ele pertence a Drácula, e Olga tem planos para ele que não envolvem teus caprichos temporais.
— Oh, Nestor, sempre tão zeloso pelos interesses de teus mestres. — Monm respondeu com um sorriso irreverente, seu tom leve e brincalhão. — Mas não te preocupes, Anton é mais resistente do que aparenta. — Olhando para Anton com um brilho enigmático, ele continuou, — Ele sobreviveu ao toque do tempo até agora, não é verdade, meu jovem?
— Liberte-me... Monm, por favor... não aguento mais essa sensação… — Anton suplicava com a voz entrecortada, a angústia evidente em cada palavra. — Essa confusão... não sei mais o que é real…
— Vês, Monm? Estás levando-o ao limite. Liberta-o antes que destruas sua mente. — Nestor interrompeu, sua voz grave e cheia de autoridade, como um trovão distante que prenuncia uma tempestade iminente.
— Ah, Anton... a realidade é tão relativa, não achas? — Monm se aproximou mais de Anton, sua voz um sussurro sedutor carregado de mistério. — Mas compreendo teu desejo. O tempo pode ser um mestre implacável... ou um aliado inesperado. Estás começando a vislumbrar o que poucos têm a chance de ver. Por que apressar o fim dessa experiência única?
— O que é isso... o que estou vendo? O que fizeste comigo? — Anton perguntou com os olhos arregalados, sua voz carregada de uma curiosidade desesperada. — Por que parece que o tempo se distorce ao meu redor?
— Ah, meu caro, estás tocando a própria essência do tempo, uma dádiva rara. — Monm sorriu misteriosamente, um toque de empatia em seu olhar. — Mas não te preocupes, vou acalmar as águas para ti... por enquanto.
— Não brinques com ele, Monm. Já cometeste um erro irreparável em outra ocasião, um erro que ainda te assombra. Anton não é o veículo para tua redenção — Nestor falou com uma frieza penetrante, sua aura vermelha pulsando com uma ameaça velada.
— Erro? Que palavra pesada, Nestor. Prefiro chamar de... aprendizado! — Monm respondeu, visivelmente afetado, mas escondendo sua vulnerabilidade sob uma camada de sarcasmo. — E quanto a Anton, talvez haja mais nele do que imaginamos. Quem sabe ele seja a chave para corrigir... certas coisas.
— O que estás insinuando? Conheces este jovem de outro lugar, não é? De outra linha temporal, talvez? Monm, não ousarias... — Nestor estreitou os olhos, sua suspeita palpável.
— Insinuar? Eu? Nunca, Nestor. Apenas... vejo um potencial em Anton, algo que me é familiar — Monm olhou para Anton com uma expressão quase melancólica, mas logo retomou seu tom espirituoso. — Uma história que pode ter sido... ou ainda será.
Tentando me levantar, minha curiosidade superou o medo. Senti o peso invisível do tempo se moldando ao meu redor, como uma neblina densa que sussurrava promessas e perigos. O quarto, que antes era meu refúgio familiar, pulsava com uma energia estranha e inquietante, como se estivesse prestes a revelar segredos há muito enterrados. Os olhos de Monm, carregados de um enigma silencioso, me observavam com uma intensidade quase paternal, enquanto Nestor permanecia como uma sombra vigilante à porta, sua presença uma advertência de que minha curiosidade poderia me levar a lugares de onde não haveria retorno.
— Que história? O que estou destinado a ser? E por que… — minha voz tremia enquanto tentava me erguer. — Sinto que há algo em mim que ainda desconheço?
— Tudo a seu tempo, meu jovem — Monm ajudou-me a levantar, falando com suavidade. — Por agora, saiba que o tempo tem mais camadas do que o mundo à tua volta pode mostrar. E talvez, só talvez, tu sejas a peça que faltava para completar o quebra-cabeça que comecei há muito tempo.
— Monm, cuidado com teus jogos. Drácula e Olga não tolerarão falhas. Anton deve ser preservado para seus propósitos, e qualquer desvio será... corrigido — Nestor advertiu, sua aura vermelha pulsando como uma ameaça iminente. — Não esqueças tua posição.
— Oh, Nestor, sempre tão rígido — Monm suspirou, com um brilho astuto nos olhos. — Não te preocupes, Anton será bem cuidado... desde que ele esteja disposto a aprender com o tempo.
A conversa entre Monm e Nestor se desfez em uma tensão que parecia quase palpável, um manto de expectativas e incertezas que me envolveu. As palavras de Monm ecoavam na minha mente, como se uma porta estivesse prestes a se abrir para um mundo que mal comecei a entender. O quarto ao meu redor agora pulsava com uma vida própria, as paredes sussurrando segredos antigos em uma língua que mal conseguia captar. O brilho verde-musgo do relógio de Monm lançava sombras dançantes, enquanto a aura vermelha de Nestor formava uma barreira opaca entre mim e os mistérios ainda não desvendados do castelo.
Levantei-me com esforço, minhas pernas vacilantes encontrando um novo equilíbrio. O tempo, sinto agora, não é mais o mesmo. Algo profundo e irrevogável mudou, transformando o que eu conhecia em algo maleável e desconcertante. Decidi ir até a janela, movido por uma necessidade urgente de reconectar-me com algo familiar. Aproximei-me com uma mistura de curiosidade e temor, puxando a cortina e abrindo a janela com um esforço que me pareceu quase mágico.
O que vi me deixou atônito. O inverno, com seu manto de gelo e silêncio, havia desaparecido, dando lugar a uma primavera vibrante e exuberante. O ar que entrava pela janela era fresco e perfumado com o aroma das flores que desabrochavam em cores intensas e inesperadas. A luz do sol, cálida e brilhante, filtrava-se através das folhas verdes e brotos floridos, criando uma tapeçaria de luz e sombra que dançava ao ritmo do vento. A confusão e a esperança se entrelaçavam em meu peito, como se a primavera representasse um novo começo, uma chance de reescrever minha história em um mundo onde as regras da realidade se esticavam e se dobravam conforme o capricho do tempo.
Sentia como se estivesse em um lugar que desafiava a compreensão, onde cada decisão poderia moldar não apenas o presente, mas também o futuro de maneira inexplicável. O castelo ao meu redor sussurrava meu nome, prometendo revelações e perigos que poderiam me levar além dos limites do que eu conhecia... ou me destruir no processo. A sensação de estar entrelaçado com o desconhecido me envolvia, e eu estava prestes a descobrir se este novo tempo seria meu aliado ou meu destino.
Leia mais em As Crônicas do Castelo Drácula:
Histórias Cruzadas: Ecos do Passado
A noite embeleza ainda mais a atmosfera deste lugar e a lua grandiosa em tom fúlvido parece brilhar na umidade da minha pele. Sorrio de maneira leve, mas...
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
A noite embeleza ainda mais a atmosfera deste lugar e a lua grandiosa em tom fúlvido parece brilhar na umidade da minha pele. Sorrio de maneira leve, mas quando me acalmo da dança, o meu sorriso começa a se desfazer, pois noto o perigo que eu corri dançando sem capa nos arredores do castelo. A Nauärah em alerta desperta e se torna novamente atenta em relação aos perigos. Preciso de um banho gelado, penso. Jogo a água em meu rosto e em meu corpo, sem nem me livrar das vestes que me cobrem. Começo a me sentir quase impura. Não deveria sentir felicidade ao dançar.
Seco a minha pele, quase como se me limpasse de um pecado que cometi e visto-me com outras vestes ainda mais compridas, utilizando a capa e decidindo que vou observar mais este lugar, na certeza de encontrar os olhos que me observaram. Mas decidi levar todo o meu armamento.
"Não use de violência, minha filha." A voz do meu pai parece ecoar nos meus ouvidos, como se ele estivesse me vendo pegar o arco e as flechas à distância. Respiro, relaxando os meus braços, como se me desarmasse.
"Perdão, meu pai, mas a minha flecha vai comigo." Digo quase em um tom audível, ainda que eu esteja sozinha neste vão.
A madeira do arco range sob meus dedos enquanto eu ando furtivamente pelos corredores escuros do castelo. Cada passo é um desafio, mas a coragem surge aos poucos e a cada dia estou mais confiante e menos escondida. O meu coração palpita no peito como uma batida ritmada que ecoa na imensidão do silêncio misterioso daqui.
Carrego comigo não apenas o arco, mas também um desejo ardente de respostas. Quem me viu dançar? Quem ousou espiar a minha alma exposta nos movimentos da dança sagrada?
As tochas nas paredes lançam sombras vacilantes, e a cada curva, eu sinto a tensão se intensificar. Meus instintos de caça, forjados na floresta densa de minha aldeia, me mantém alerta. Minha respiração é controlada, mas não posso controlar o tumulto interno: medo e curiosidade se misturam em minhas veias como um veneno doce.
Chego ao grande salão principal. O recinto é vasto e decorado com tapeçarias ricas que narram histórias de conquistas antigas. Aqui, em meio ao brilho das tochas, vejo a silhueta de... um homem. Ele está de costas para mim, absorto em contemplação diante deste espaço grandioso. Por um momento, meu corpo congela. O perigo é palpável, mas algo mais profundo me chama, uma curiosidade quase dolorosa.
Mais um homem? Outro? Quem é ele? O que busca aqui? Eu deveria saber que há outros estudiosos e escritores que podem vir explorar este castelo livremente, assim como eu. O certo seria eu voltar para a minha aldeia no Brasil e parar de querer lutar contra o meu trauma, enfrentando coisas cujas quais eu não estou pronta para lidar. Ou será que eu estou atraindo para mim o que mais temo? Quanto mais tenho medo deles, mais deles parecem se multiplicar neste lugar.
Começo a ficar apavorada e levo uma mão à fronte, fechando os olhos firmemente. Lembranças... sempre as lembranças. Uma lágrima que sempre insiste em chegar nesses momentos de tensão aparece, mas respiro e decido seguir com isso.
Antes que o tal desconhecido perceba a minha presença, se é que não já percebeu, ajusto a flecha no arco, mantendo a mira perfeita, caso ele se vire para me fazer mal. Mas alguma força maior trava os meus braços e abaixo toda a minha armadura, respirando fundo e já demonstrando inevitavelmente para ele que eu estou aqui, indefesa, mas disposta a enfrentá-lo.
…
Diário de Anton S. Miahi
(Escrito no Castelo — Part. II)
27 de julho de 1871 — Me levantei da cadeira, logo desci, girando meu corpo para ficar de costas para as pernas da mesa, até me sentar no chão frio de pedra do meu quarto no Castelo Drácula. Cruzei as pernas e as mãos repousando sobre os joelhos. A única fonte de luz era a lua cheia, que derramava sua luz prateada através da janela que estava com suas cortinas abertas, lançando sombras dançantes nas paredes de pedra. A atmosfera que eu sentia ao meu redor era densa, carregada de uma calma inquietante que parecia ecoar através dos séculos.
Fecho meus olhos e tento acalmar a mente, mas as memórias surgiam como tempestades inesperadas. Vislumbres de rostos, lugares e eventos que se misturavam, formando um mosaico confuso e perturbador. A figura do próprio Drácula, o senhor daquela morada, dominava seus pensamentos, trazendo consigo uma sensação de terror e fascínio.
— Que estou fazendo aqui? — Anton murmurou para si, sua voz reverberando suavemente na escuridão. Ele se lembrava de ter chegado ao castelo como um estudioso, atraído pelas lendas e mistérios que cercavam o lugar. Mas com o passar do tempo, a linha entre realidade e ilusão começara a ficar questionável.
De repente, uma batida suave na porta quebrou o silêncio sepulcral do quarto. Meu coração disparou, e um frio gélido percorreu minha espinha. Quem poderia ser àquela hora da noite? Aproximei-me lentamente da porta, hesitante. Minha mão tremia quando a estendi para a maçaneta. Antes que pudesse girá-la, uma voz baixa e sibilante veio do outro lado:
— Eles estão vindo para você, não há para onde correr. — A voz era estranhamente profunda e perturbadora.
Antes de abrir a porta, olhei a cintura onde deveria estar o meu sabre, pela graça divina, ao notar que ele ainda estava em seu lugar, desembainhei sem sombra de dúvidas. Com um impulso abri a porta, esperando que ali se encontrasse o que quer que fosse, mas o corredor estava vazio. A voz ainda ressoava em meus ouvidos, uma ameaça velada que deixava um rastro de pavor. Fechei a porta rapidamente e me apoiei contra ela, tentando acalmar minha respiração ofegante.
— Quem está vindo? E por quê? — Meus pensamentos estavam acelerados com toda aquela adrenalina explodindo por cada parte do meu corpo.
O quarto parecia encolher ao meu redor, as sombras se fechando como tentáculos.
— Qual é o meu papel nesse lugar perdido? Qual a razão da imagem daquele semelhante monstro e esses nomes que ecoam em minha mente a cada instante, “Nauärah” e “Olga”? — Minha voz ao longo da frase foi diminuindo como se a resposta estivesse no silêncio do quarto, da minha mente.
O silêncio voltou a reinar, mas agora estava carregado de suspense e inquietação. Sabia que precisava encontrar respostas, descobrir a verdade sobre Séttimor, a criatura que “apenas existe” e os nomes de Olga e Nauärah. Mas como? E a que custo? Meu corpo estava fraco, mas minha mente, apesar de atormentada, se preparava para qualquer situação que pudesse se desenrolar não apenas no mundo exterior, mas também dentro de mim.
Dirigi-me ao velho guarda-roupa de madeira escura, com desenhos em baixo-relevo entalhados, que dominavam um canto do meu quarto. Suas portas rangeram quando as abri, revelando minhas vestes. Escolhi um conjunto adequado para a jornada: uma camisa de linho branco com botões de osso, cujas mangas abotoei com firmeza nos pulsos; uma calça de lã escura, grossa o suficiente para enfrentar o frio; e um colete de veludo negro, decorado com botões de prata que refletiam a pouca luz do quarto.
Vesti-me com cuidado, cada peça ajustando-se ao corpo como uma armadura contra o frio. Sobre o colete, coloquei um sobretudo de lã pesada, de cor azul royal, com uma gola alta que oferecia alguma proteção contra o vento gelado. Abaixo dos joelhos, prendi botas de couro, desgastadas pelo tempo, mas ainda firmes, e por fim, enrolei um cachecol grosso em torno do pescoço.
Fechei o guarda-roupa e me voltei para a parede oposta, onde havia deixado apoiado meu sabre militar da cavalaria repousado em sua bainha. Peguei-o com reverência. O sabre da cavalaria francesa do século XIX que eu tinha em mãos era uma obra de arte tanto quanto uma arma de guerra. O punho, esculpido em marfim, exibia intrincadas espirais que se entrelaçavam de forma complexa, criando uma textura rica e detalhada que parecia pulsar sob meus dedos. Com o guarda-mão de aço negro, finamente talhado, envolvia o punho com elegância e força, oferecendo proteção e um toque de refinamento sombrio.
A lâmina, ligeiramente curvada, refletia a luz da lua em um brilho frio e implacável. Ao longo de quase toda a extensão da lâmina, entalhes em baixo-relevo narravam cenas de batalhas e vitórias, dando vida a figuras e símbolos que pareciam estar em movimento. Esses entalhes não eram meramente decorativos; eles contavam a história de guerreiros passados, suas glórias e sacrifícios, e conferiam à lâmina um caráter quase mítico.
A bainha, não menos impressionante, era adornada com desenhos de cavalos em plena corrida, suas crinas e caudas fluindo com um dinamismo que contrastava com a rigidez do metal. Detalhes em aço destacavam-se contra o fundo escuro, acrescentando profundidade e complexidade ao design. Os cavalos, símbolo de poder e liberdade, pareciam prontos para saltar da bainha a qualquer momento, infundindo a arma com uma energia latente.
Ao prender o sabre ao meu cinto, senti o peso da história e da arte que ele carregava. Não era apenas uma arma, mas uma peça de mestre, criada para simbolizar honra, coragem e destreza. Com ele ao meu lado, estava pronto para enfrentar a escuridão que se estendia diante de mim.
O castelo estava silencioso, seus corredores vazios e sombrios, ecoando apenas meus passos determinados. Ao sair para o pátio do castelo, o ar frio da noite me envolveu imediatamente, cortando minha pele como os projetis. O céu estava claro, a lua cheia iluminando a neve que cobria o solo, criando um contraste fantasmagórico com as sombras das torres do castelo.
Sem olhar para trás, comecei a descer a trilha que levava à vila que estava em minha memória. As botas afundando na neve a cada passo, cada cravada um lembrete da dureza do inverno transilvano. Minha busca por Nauärah havia se tornado uma necessidade visceral, um instinto primitivo de caçador. Precisava saber se a visão que tivera na festa de Séttimor fora apenas uma miragem ou algo muito mais profundo. Séttimor também pairava em minha mente como memórias incompletas, uma sombra que eu precisava dissipar.
A cada passo, procurava sinais de sua passagem e da vila. Pegadas leves na neve, galhos quebrados, qualquer indício que pudesse me levar até ela. E quanto à cidade, queria ver se surgia no alto das árvores fumaça, sinais de existir pessoas por perto. No entanto, mesmo com a noite clara, não surgia nenhum sinal de civilização. A floresta ao redor estava silenciosa, exceto pelo som abafado dos meus próprios passos e o ocasional farfalhar das árvores ao vento. O sabre ao meu lado parecia pulsar com a mesma urgência que eu sentia, um lembrete constante de que estava preparado para o que viesse.
Conforme me aproximava do local onde deveria estar a vila de Séttimor pelo que vinha a minha memória, um frio diferente começou a se instalar em meus ossos, não apenas o frio do inverno, mas algo mais profundo, mais antigo. A clareira surgiu diante de mim, vasto e desolado espaço onde eu esperava encontrar a vila. Nada restava além de uma imensa área vazia, a neve intocada, exceto por alguns sinais rúnicos gravados nas árvores ao redor, escritos na antiga língua eslava.
Aproximei-me das runas, tentando decifrar seus significados, mas sentindo uma presença crescente ao meu redor. Seria a Nauärah? Podia sentir uma vigilância, olhos sobre mim, uma intenção assassina parecia espreitar-me. Meu coração acelerou, cada batida um tambor de alerta. Não estava sozinho, isso era certo. Mas quem poderia ser e estava oculto na escuridão da floresta congelada?
Desembainhei o sabre com um movimento suave, ocultando-o parcialmente sob o manto pesado do sobretudo. Movi-me com cuidado, como um rastreador experiente, procurando um ponto onde pudesse ter uma visão clara dos arredores sem me expor. Encontrei uma elevação natural na borda da clareira, onde uma árvore caída oferecia cobertura. Subi lentamente, cada movimento calculado, o sabre pronto em minha mão.
A noite estava silenciosa, mas senti que a presença do meu perseguidor oculto estava mais próxima. Olhei ao redor, tentando captar qualquer movimento, qualquer sombra que traísse sua posição. O frio mordia minha carne, mas minha mente estava afiada, focada. Eu era um caçador em sua vigília, esperando, observando, preparado para enfrentar os segredos que a escuridão ainda escondia.
E ali, no silêncio e na penumbra, aguardei. Sabia que não poderia fugir das perguntas que me assombravam, e menos ainda da figura que agora espreitava meus passos. Será que ela estava ali? E eu estava pronto para desvendar o mistério que nos ligava, custasse o que custasse.
…
Penso em parar com isso, com a minha gana de expulsar tudo e todos. Respiro fundo e aproveito o momento em que esse outro desconhecido está focado em outra direção para me esvair lentamente da sua presença. A minha habilidade com movimentos e técnicas corporais faria com que eu não fosse percebida, mas, ao mesmo tempo, preciso saber quem é. Talvez ele fosse um guardador do castelo. Por outro lado, a minha desconfiança em figuras masculinas não me permite ser tão otimista e confiante neles, muito menos boazinha e próxima, ainda mais estando sozinha agora.
Como uma ideia brilhante que surge na mente, resolvo pregar-lhe uma peça. Talvez, me divertir um pouco neste lugar tiraria a minha tensão e eu o assustaria, fazendo-o se afastar. Começo a sair sutilmente da sua presença e lembro-me que o meu quarto fica próximo da direção onde ele se encontra agora. Então, com passos rápidos, quase correndo pelo recinto, subo as escadas como uma criança peralta ou um adulto em fuga e passo pela sacada superior interna, me debruçando um pouco na balaustrada para me certificar de que não estou sendo vista. Até que chego em direção ao quarto onde estou hospedada e entro cautelosamente.
Respiro fundo, descansando da fuga por alguns segundos. Tranco a porta do quarto e reforço os meus armamentos, munindo-me com mais flechas e enchendo a minha aljava, não importa quão pesada esteja. Deixo-a pendurada nas costas e mantenho as luzes apagadas. Preparo o arco e saio por uma porta que dá espaço à uma bela sacada na parte externa do quarto.
Ao sair, o avisto ainda ali, como se ele se escondesse de algo, se preparasse para fazer alguma coisa ou para invadir o quarto mais próximo, o meu. Daqui a visão é perfeita e, para assustá-lo, resolvo lançar a flecha em um galho próximo à região da sua cabeça. Não seria violenta a ponto de machucá-lo, mas o medo me toma grandiosamente. Seria ele o olhar que me acompanhou na dança? O encaro através da minha sacada, olhando-o de cima, sem ser percebida e tentando dar uma chance à minha candura restante, mas não posso. Uma revolta em mim fala mais alto.
Preparo a flecha no arco e, com movimentos estudados, me agacho, posicionando as pernas e pés bem confortavelmente, então, sem muito me demorar, lanço-a exatamente num galho áspero da árvore em que ele tenta se esconder, próximo à sua cabeça e tendo a certeza de que os seus olhos se assustariam ao olhar para o lado e ver a flecha cravada mui próxima.
— Ôpa! Me desculpe, senhor cavalheiro. Hoje a minha flecha está um pouco preguiçosa, pois já acertou traseiros demais, mas ela teve misericórdia do senhor escondido aí. — Divirto-me, de maneira rara e inevitável, deixando escapar um leve riso irônico. Aquele cavalheiro escondido entre uns arbustos me faz resgatar comportamentos que eu não tinha há anos. O de sorrir e pregar peças. Mas me recomponho, levanto-me e volto a ser redil, falando com aspereza. — Pode aparecer! Quero ver quem está à espreita próximo à sacada do meu quarto. E se tentar correr, o que não me falta são lanças e flechas para acertá-lo precisamente onde mais o senhor temer! Se mostrares a tua face e me disseres quem és, mostrarei a minha e me apresentarei cordialmente.
Com a capa cobrindo quase todo o meu rosto, preparo o arco e a próxima flecha. Apontada em sua direção, tenho a certeza de ele percebe que não estou para brincadeiras, apesar da peça que preguei.
— Renda-se! Não tem como escapar, não há para onde ir! — Minha voz corta o ar, carregada de uma autoridade fria.
Ele levanta o sabre em sinal de rendição e paz, tentando mostrar que não tem intenções hostis. Mas, ao fazer isso, seu pé encontra um ponto escorregadio. Ele perde o equilíbrio e cai desajeitadamente no chão. O sabre escapa da sua mão e desliza alguns metros para longe.
Solto uma risada melodiosa, mas antes que pudesse recuperar minha postura, eu também escorrego, caindo de minha posição elevada e deslizando pela inclinação até parar a alguns metros do tal cavalheiro.
Nós dois ficamos ali por um momento, desconcertados e um pouco envergonhados. Que encontro mais anticlimático.
— Bem, — Eu digo, com uma pitada de ironia na voz. — Parece que estamos ambos fora de prática, mas eu só desequilibrei porque sorri. — Meu rosto parece claramente frustrado, enquanto me levanto rapidamente, ainda temerosa e me afastando dele imediatamente.
Ele também se levanta lentamente, sacudindo a neve de suas roupas.
— Sim, precisamos claramente de mais treino em... quedas graciosas. — Seus músculos devem ter doído, mas não tanto quanto seu orgulho militar.
Eu rio novamente, uma risada leve que dissipa um pouco da tensão que sinto por estar próxima a um desconhecido, até então.
— Quedas graciosas. Gosto disso. Mas não pense que sairá sem se apresentar. Quem é você, afinal? Um cavalheiro desastrado procurando por uma donzela em perigo? — Digo com um tom irônico e uma expressão curiosa estampada na face, apesar de tentar esconder o meu rosto.
— Algo assim, quem sabe? Tenho mais perguntas que respostas, e você é uma das respostas. — Enquanto fala, ele arruma suas vestes, pegando seu sabre do chão e guardando-o com cuidado. — Meu nome é Miahi, Anton Stefan Miahi, oficial da cavalaria francesa. E você deve ser Nauärah, a figura das minhas visões. — Ele aponta para mim com a sua mão esquerda e me olha com muita atenção.
Eu arqueio uma sobrancelha, intrigada.
— Visões? Interessante. Por que eu sou uma das respostas? E o que exatamente você viu, cavaleiro Anton? — Claramente há um tom de deboche, mas meu rosto parece indicar que há algo mais que eu estou escondendo.
— Vi você dançando na festa da vila Séttimor, como uma miragem, um fantasma. E depois... apenas um enorme vazio e sombras. — O tom da sua voz fica sombrio.
— Então foi o senhor! Muito observador, senhor Anton. Apesar de que não lhe devo nenhuma explicação, ouvi uma melodia, algo vindo de algum lugar do castelo. — Não há dúvida ou engano na minha voz e nem em minha postura. — Acabei sendo levada por uns movimentos corporais. Foi apenas isso. Levada pela magia da minha terra.
— Isso é um mistério, eu a vi naquela vila na noite de ontem. Em meio aos Séttimor! Mas… Não estava lá, mas você ouviu a música, certo? — Ele diz com um sorriso cansado. — Parece que me estão pregando peças também, nada parece ser real.
Eu olho para ele por um longo momento e os meus olhos avaliam cada detalhe. Preciso saber bem quem ele é. Por outro lado, o seu armamento se aproxima do meu e isso, talvez, tenha gerado em mim uma tranquilidade maior, uma espécie de identificação com o tal senhor Anton.
— Talvez nem tudo seja enganação. Você me encontrou, afinal. — Minha voz soa empática, apesar de minha rigidez física indicar o contrário. — E de um jeito inusitado, pois senti alguém me observando, mas alguém que não estava presente de corpo. Como pode isso? Talvez seja até um sinal, algo de outra ordem. Aqui tudo é um mistério.
— Sim, Verdade! — Apesar de concordar, ele parece ter dúvidas pairando sobre sua cabeça, e uma certa ansiedade cresce. — Estou buscando informações. Você está morando no castelo? Conhece alguma Olga…? Não recordo seu sobrenome.
— Hum, informações... Que tipo de informações? — Eu começo a ficar temerosa e falo com um olhar de desconfiança, como se o avaliasse dos pés à cabeça. — Bem, a Olga me recebeu aqui neste recinto. Não sei se deveria lhe dizer, mas o seu sobrenome é Nivïtzz, Olga Nivïtzz. E eu vim explorar este castelo, estudá-lo, como uma forma de enfrentar o mundo cruel. Mas, sabe? Eu quase gosto de você. Preciso de tempo para analisar se não irá colher informações muito particulares sobre mim. Mas só porque me fez sorrir um pouco, me apresento. Me chamo Nauärah. Nauärah Tupiniquim, e venho do Brasil. Sinta como se eu estivesse lhe dando um bom aperto de mão cordial.
Não permito que ele toque a minha mão, sequer, é óbvio, mas retiro o meu capuz do rosto, finalmente, mostrando a minha face de maneira lenta. O observo melhor, franzindo a testa, mas lhe dando um sorriso cordial, apesar de tímido. A face do senhor Anton transmite generosidade, masculinidade, e eu não posso negar a sua beleza e educação. Apesar do medo, eu dou de ombros, como se resolvesse dar um voto de confiança ao novo desconhecido. Afinal, se ele citou a Olga Nivïtzz, me sinto mais aliviada, pois ele pode conhecê-la, de alguma forma. Sendo assim, quem a conhece, me passa maior confiança, mas ainda preciso estudá-lo, aos poucos, e entender que ligação é essa que ele demonstra ter comigo e que me fez sentir segura com ele.
Personagens nessa crônica:
Leia mais em As Crônicas do Castelo Drácula:
Diário de Anto Stefan Miahi - Part. IV
Meu caro amigo, te envio notícias da capital. Além desta carta, somam-se alguns jornais nossos….
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
De Marcel D. Laurent II
De: Marcel D. Laurent
Para: Anton S. Miahi
28 de junho de 1871
Meu caro amigo, te envio notícias da capital. Além desta carta, somam-se alguns jornais nossos. Infelizmente até chegar em suas mãos devo admitir que vão estar atrasadas. Por feliz graça você me deixou a direção do tal conde, realmente espero que estejam chegando minhas cartas.
Paris tem tido momentos sombrios no espectro político e social, isso desde que Napoleão caiu nas mãos de Frederico, O Grande, e se viu despido de toda sua majestosa glória divina concedida pelo Papa Pio IX e sua igreja. Foi uma guerra santa feita por pecadores e desgraçados que banharam o centro da Europa.
Recordando que quando voltávamos a casa na longa viagem que fizemos, antes que se molhasse a pena e manchasse o papel, os comunas assumiram as rédeas da nação com o apoio das Forças Nacionais.
Por culpa daquele detrator e infame Adolphe Thiers. Ele que ao invés de entender o valor do sangue derramado, não pelo infeliz ex-presidente e imperador, mas pelo próprio povo, fechou a boca e se recusou a dar valor a honra de nossos irmãos de trincheiras, assim como de suas famílias que derramaram lágrimas.
Meu amigo, tudo tem custo, não é mesmo?
Apenas um pesadelo após o outro!
Vimos os horrores da guerra longe de casa, para voltar ao final de 1870. Desde o início do ano de 1871, por volta de março, penso eu, fora possível notar que aqui também poderíamos sangrar, não contra inimigos externos, países estranhos, mas contra nossos vizinhos, primos, irmãos e pais. As
A hora em que te escrevo essa carta é no silêncio da noite, Bernie está dormindo no andar superior, enquanto estou acompanhado de duas garrafas de um bom vinho tinto produzido na vinícola de meu primo Ghutier. Nada como o doce sabor da uva para soterrar as más lembranças e curar velhas feridas da alma.
Recomendo como seu amigo esse tratamento tão singelo, mas de excelente resultado.
Talvez por essa razão eu esteja te escrevendo esta carta, parte de uma clara preocupação com seu bem-estar, e com a nossa amada França.
Vivemos um tempo de efervescência social nunca vista em nosso país, já que ainda existem núcleos de descontentes com governo provisório e por sua falta de força e respostas perante o fracasso de Napoleão frente a Prússia.
O ano apenas está na metade e parece que já viveremos o apocalipse dos textos sagrados!
Já que Versalhes está com o governo provisório e Paris passou um tempo nas mãos dos comunas. É de se pensar quanto ao sacrifício que estes revoltosos estão dispostos a fazer. Lutam pelo poder popular, poder do povo. Querem reinventar a roda? Difícil crer que eles poderiam conseguir algo sem o povo ao seu lado, menos ainda sem os mosquetes que os nobres conseguem armazenar.
A política tem muitas faces, meu amigo.
Enquanto nós, enfrentávamos outra nação pelo poder do presidente da segunda república francesa, Charles-Louis Napoleão Bonaparte. No quintal nosso borbulhava sentimentos de inconformismo que tomaram as ruas. Inegável a destruição causada em Paris, ruas manchadas de vermelho, bloqueios, cartazes a favor da comuna por todas as partes. E os livros de um tal de Victor-Marie Hugo, dizem que ele saiu da região de Besançon. Este homem que motivava por meio de suas obras a já existente e crescente insatisfação contra o poder vigente no país.
2 de setembro de 1870, a dobrada de joelhos de Bonaparte, a fome, a crise social, a guerra tudo parecia conduzir para essa situação catastróficas que foi essa revolta de Paris, ao não aceitar a rendição.
O que também apoiei até certo ponto.
Admito que o problema tão logo foi a infestação dos comunas que se viam bebendo das fontes prussianas dos pensadores críticos da produção favoráveis e da luta de classes. Muitos não viram o racha que isso poderia causar.
Ali nasceu a divergência, bem no meio dos defensores de Paris e o governo provisório contra uma possível luta em solo francês contra os prussianos.
Acho que o vinho começa a me fazer devagar, meu amigo. Novamente espero ter notícias tuas. Amanhã irei aos correios, se conseguir levantar.
De seu irmão de trincheiras,
Maurice.
Anton S. Miahi IV
(Anotações feitas em Séttimor)
24 de junho — A curiosidade me levou por caminhos que admito eu desconhecer, e mais que isso, sou imerso em assombro proveniente dos recantos distantes do imaginário humano, com verdadeiras visões que fazem minha racionalidade falhar.
Aceitei entrar na casa de um dos ditos moradores do povoado oculto no vale abaixo do Castelo Drácula. O lugar é lúgubre, funesto. Olho aquelas pessoas, algumas nem mesmo face mais tem, no entanto, sinto nelas angústia, medo, e algumas, noto a completa ausência de esperança.
Por diversas razões, encontro-me imerso em um tormento psicológico que remete diretamente às tendas dos socorristas durante a guerra Franco-Prussiana. Esses cenários, uma vez repletos de desesperança e dor, agora se desenrolam em minha mente como um pesadelo eterno. Naqueles campos de batalha, os olhares dos moribundos, resignados ao seu destino cruel, eram apenas sombras de um sofrimento interminável.
Aqui, neste lugar desolado, sinto a mesma sensação de derrota avassaladora. Não há nada que inspire ou motive; apenas um vazio absoluto. O ambiente é um eco da minha experiência, uma paisagem desolada onde o ânimo e a esperança parecem ser conceitos estrangeiros, pertencentes a um mundo distante e inalcançável.
Nesta cidade, a ambição pela vida é um resquício remoto do que eu conhecia. O espírito de luta que uma vez me impulsionou agora parece ter sido extinto, substituído por uma desolação fria e implacável. Cada dia aqui é uma lembrança do desespero que experimentei nos campos de batalha, uma contínua crise emocional onde o desejo de viver é uma memória dolorosa e distante.
Uma sensação de um luto constante, o ar parece viciado, angustiante, que nos remete a tormentos passados. Estou aqui há poucas horas e já me sinto quase no mesmo estado emocional que essas pobres criaturas.
As casas de ripas e toras de madeira escura, com seus telhados pontiagudos como garras estendidas ao céu, exalavam uma sensação de decadência eterna. Embora não estivessem se desfazendo, a idade delas era palpável, como uma entidade maligna que se recusava a partir. Musgo verde-escuro rastejava pelas paredes, e ervas retorcidas subiam como dedos ossudos, emprestando um ar de abandono e desespero. A cada sombra lançada pelas casas, o ambiente ficava mais opressivo, como se a própria vila respirasse o medo e o espalhasse pelo ar frio e denso.
Por dentro, o lugar exalava uma estranha e enganosa sensação de aconchego, envolta em suas limitações desconfortáveis. Ervas pendiam na janela ao lado da porta, secando lentamente, emitindo um odor forte e acre que se misturava ao cheiro persistente de fumaça velha e fuligem. A lareira rústica de pedra, marcada por anos de uso, exibia manchas negras de fogo e fuligem, espalhando uma luz trêmula e vacilante pelo ambiente.
Apesar de uma aparente limpeza superficial, havia uma sensação de desordem oculta, como se algo sinistro estivesse apenas aguardando para se revelar. O ar carregava uma mistura de cheiros: carne seca pendurada, ervas em decomposição e um leve aroma de mofo, criando uma atmosfera sufocante e opressiva.
O que mais me perturbou foi a ausência total de símbolos da Igreja Romana. A ausência de qualquer sinal de fé comum na Europa era inquietante, deixando a impressão de que o lugar seguia crenças antigas e esquecidas, talvez até proibidas.
No canto oposto à lareira, uma escadaria estreita e escura subia para o andar superior, envolta em sombras espessas que pareciam pulsar com uma presença invisível. Panelas de pedra e partes de animais penduradas nas paredes completavam a cena macabra, transformando o que poderia ser um refúgio acolhedor em um antro de mistério e terror.
Percebo que um jovem do meio daquelas pessoas no lado externo da casa se aproxima da dela. Seu rosto ainda existe, seu corpo é pequeno, magro, mas não raquítico, suas roupas são tão puídas. Não parece estar com mais de vinte anos, seu rosto expressa ansiedade e lampejos de gato curioso. Os olhos são da cor vermelha, sua respiração libera uma neblina, ou melhor, é mais semelhante a uma suave fumaça, como um fumante, porém, sem cachimbo. Ele caminha rápido e se senta na cadeira na frente da mesa onde me encontro.
— Senhor, como está o mundo fora da vila? — Ele pergunta como uma inocência e sinceridade infantil.
Então uma voz de uma mulher se escutou no mesmo instante que notei seus passos pesados nas escadas. Era vigorosa, aguda, com um suave sibilar ao final das frases.
— Deixe o nosso visitante em paz, Andrei. — Seu tom era como a bronca de uma mãe ou uma mulher mais velha. Olhei fixamente para escada e quando ela surgiu, creio eu que esperava muito que ela fosse mais humana, no entanto, não. Ela tinha os mesmos traços que os demais. — E qual o nome do cavalheiro?
Demorou uns quantos segundo para que meu cérebro voltasse a se comunicar com minha boca.
A imagem daqueles indivíduos fora da casa, tanto quanto, os dois que ali estavam perturbavam minha mente. Seus corpos disformes, os rostos tão perturbadoramente anormais.
A cada instante, meus dedos apertavam com mais força a bainha do meu sabre, como se apenas o contato com a arma pudesse afastar a crescente sensação de pavor. Mesmo percebendo uma aparente tranquilidade na cidade, meu coração batia descompassado, cada pulsação reverberando em meus ouvidos como um tambor de guerra.
O ar parecia carregado de uma presença invisível, uma energia que se enroscava em minha pele como um manto sufocante. Sentia um frio gélido subindo pela espinha, e uma voz sussurrava insidiosamente em minha mente — “Corra”, “Fuja daqui!”.
Os odores ao meu redor eram intensos e perturbadores: o cheiro metálico do medo, misturado com um aroma acre de mofo e decomposição, impregnava minhas narinas, mais do que das ervas ou da carne seca, tornando a respiração difícil e pesada. A luz pálida do dia parecia ser sugada pelas sombras, que se alongavam e se moviam antinaturalmente, como se tivessem vontade própria.
Cada som era amplificado na quietude opressiva: o farfalhar das árvores, o uivo sombrio do vendo soprando, os passos ecoando do lado de fora da casa, e um sussurro distante que parecia vir de todos os lados. Meus sentidos estavam em alerta máximo, cada fibra do meu ser gritava para eu deixar aquele lugar. A cidade, com sua aparente calmaria, exalava uma malevolência silenciosa, uma promessa de perigo iminente que não podia ser ignorada.
— Me chamo, Sargento Anto Stefan Miahi. Oficial e pesquisador vindo de Paris para estudar os documentos que o Conde Drácula tem em sua posse. — Admito que falar com eles fez com que lembranças viessem e revisassem emoções que eu havia pensado ter superado. — E a senhora como se chama? — Perguntei com toda cortesia que me era possível evocar.
— Sou, ou é como resolveram me chamar, Catalina Rusu. Então o jovem mestre Anton, está como convidado do conde? — Aquela senhora expressou o que parecia um sorriso amargo.
Antes que eu pudesse tentar dizer algo, ela retomou.
— Nem todos são aceitos na morada do Drácula… —Soando quase um murmuro, sua voz carregada de suspense. — E menos ainda aos cuidados de Olga Nivïttz, onde segredos sombrios são guardados!
— Quem seria essa Olga Ni… Nivïttz? — Ficou clara a minha completa ignorância quanto aquela pessoa. — Que segredos a senhora se refere?
Todos que estava prestando atenção em nossa conversa do lado de fora da casa se entre olharam com notório espanto e crescente receio.
— Em algum momento conhecerá ela acredite em mim. — Falou o jovem sentado de frente comigo. Com os braços cruzados, olhando para o chão como se estivesse com medo de que a mãe escutará aquelas palavras no como ao lado no meio da noite.
Naquele momento, uma sensação de inquietação tomou conta de mim. Instintivamente, minhas mãos tremiam quando fui olhar meu relógio de bolso, com o emblema da cavalaria gravado. Fiquei paralisado ao ver que os ponteiros estavam imóveis, congelados. Um frio gelado percorreu minha espinha outra vez — será que o relógio havia parado exatamente agora? Isso não fazia sentido. Quando o trouxe de Paris, ele estava funcionando perfeitamente. E, enquanto me preparava, não percebi se havia algo de errado com ele.
A ansiedade apertava meu peito, e eu me vi obrigado a olhar pela janela aberta. O céu lá fora estava inalterado, a lua ainda no mesmo ponto alto que havia visto ao sair do castelo. Mas a pergunta aterrorizante começou a me atormentar: quanto tempo havia passado desde então? A sensação de confusão e a crescente angústia se entrelaçavam, como se o tempo estivesse se esticando e se deformando de uma maneira incompreensível, e eu estivesse preso em um intervalo de terror absoluto.
De Dr. Christopher V. Walker
(Carta para Anton)
De: Dr. Christopher V. Walker
Para: Anton S. Miahi
20 de junho de 1871
Caro colega, sinto não haver podido estar na sua partida de Paris. Mas graças a Marcel nosso bom amigo em comum pude saber para onde enviar meus desejos de sucesso.
Por pouco não o alcancei antes que pisasse na carruagem, mas por questões acadêmicas fiquei retino na universidade de Oxford com umas quantas palestras. E acabei atrasando minha viagem para Paris. Queria haver podido dar um abraço e entregar uns quantos livros para seu divertimento. Devo dizer que fiquei demasiadamente surpreso com o quanto nossos amigos britânicos avançaram em suas pesquisas com referência a mente, ao corpo, e alma humana.
Existe uma revolução intelectual ocorrendo e Paris se perdendo entre baioneta e pólvora. Inacreditável os efeitos que a guerra terá nos anos que viram.
Querido amigo, espero que esta carta chegue o mais rápido possível, desejo ter notícias suas. Aproveitei e junto a ela estou enviando um pacote com livros que consegui em Oxford que espero que te entretenha por algum tempo. Estarei nos arredores do Boulevard Saint-Michel no cortiço de Anne e Morgana.
Do seu estimado Dr. Christopher V. Walker!
Anton S. Miahi V
(Anotações feitas em Séttimor — II)
24 de junho — Parece que as horas foram passando, o ar de tensão que senti ao chegar foi suavizado, porém não desapareceu. Ainda me mantenho com os sentidos em alerta, o corpo parece enrijecido, os músculos doem, sinto dormência na mão que está segurando a bainha do sabre. Apesar de sensação de tempo avançar, a lua seguia em seu firmamento, admirando do alto todo o antinatural cenário que se desvelou ao meu redor.
A Catalina, a senhora que me abriu as portas da sua casa, foi até as ervas na janela e pegou um pote pequeno de argila, com um couro de animal amarrado, tomou um tempo escolhendo alguma coisa dentro dele. Ela retira de dentro o que parecia serem casca de romã desidratada, ela devolve o invólucro ao seu lugar e caminha em direção da lareira que está acessa. A senhora retira uma haste de ferro longa que numa ponta é em formato de L que ela encaixa em duas argolas que estão uma em cima da outra, presas na pedra na borda da lareira. Enquanto na outra é um gancho quadrado, nesta ponta ela coloca uma velha chaleira que estava sobre uma mesinha e que ela havia cheio de água do balde que estava ao lado da lareira, muito bem escondido. A dona da casa faz tudo com cuidado, coloca no recipiente cheio d’água e logo o leva ao fogo.
Catalina rompe o silêncio.
— Cada um de nós “nasceu” na vila, e ao adentrar ao paradoxo, começamos nossa jornada. — Começou ela a contar com um tom professoral que Anton já conhecia bem, pois ele mesmo usava. — Aqui, estamos presos no paradoxo. Você deve entender as sete mortes que nos conduziram até este destino.
Ela fez uma pausa e seu rosto disforme parecia assumir um pesar muito incomum.
Segundo ela, cada um de deles estava condenado a passar por sete mortes, um ciclo implacável que começava no momento em que nasciam na vila. “Nosso nascimento aqui sela nosso destino,” disse ela, seus olhos vazios refletindo a luz da lareira. “Não há escapatória.”
A primeira morte, adentrar ao paradoxo, marcava nosso nascimento. Desde o início, estávamos presos, uma sensação sufocante de predestinação que nos envolvia como um manto frio. Sentíamos o paradoxo durante a infância, uma presença constante e opressiva, como sombras que espreitavam ao nosso redor. “Quando crianças, sentimos algo errado,” ela sussurrava, “uma presença constante, sufocante.”
À medida que avançávamos para a pré-adolescência, percebíamos o paradoxo de forma mais aguda. Os rostos ao nosso redor começavam a se desvanecer, a realidade se distorcia, tornando-se uma pintura borrada de horror. “Na pré-adolescência, começamos a perceber a distorção da realidade,” explicou ela. “Os rostos que se desvanecem.”
Na adolescência, as perguntas surgiam, mas nunca encontrávamos respostas. “Adolescentes, começamos a questionar o que é real,” disse ela, a voz carregada de um desespero silencioso. “Nossas perguntas nunca encontram respostas.” A cada questionamento, a escuridão ao nosso redor se aprofundava, como se a própria vila se alimentasse de nossa dúvida e confusão.
Quando chegávamos à vida adulta, a compreensão do paradoxo nos envolvia como uma teia de escuridão. “Adultos, compreendemos que estamos presos em uma teia de escuridão, nossos destinos já traçados.” A sensação de estar aprisionado se tornava insuportável, cada dia uma luta contra uma força invisível e inescapável.
Na velhice, o desejo de se entregar ao paradoxo crescia, uma rendição silenciosa e inevitável. “Na velhice, o desejo de entregar-se ao paradoxo cresce,” ela dizia com uma voz quase inaudível. “A resistência é inútil.” A resignação se infiltrava em nossos ossos, e qualquer vestígio de esperança desaparecia como um sopro na escuridão.
Um som estrondoso reverberou pelo ar, ecoando como um trovão ancestral. Os moradores, como que em um transe silencioso, começaram a olhar ao redor. O vento aumentou de intensidade, chicoteando as árvores ao redor com uma fúria repentina, enquanto luzes de cores vibrantes começavam a dançar no céu, pintando um espetáculo etéreo acima de nós. O mais surpreendente era a ausência de espanto nos rostos dos habitantes; eles apenas voltaram seus olhares para a entrada da cidade com uma calma quase reverente.
Senti uma curiosidade irresistível e saí para me juntar a eles. Ao olhar na mesma direção, notei uma névoa espessa começando a se formar do lado de fora dos portões da cidade. As runas antigas gravadas nos umbrais começaram a brilhar com uma luz azul misteriosa, emitindo faíscas como se estivessem carregadas de uma energia arcana.
A névoa se ergueu em um redemoinho, girando cada vez mais rápido, formando uma coluna luminosa. Uma luz cegante emanou do centro do vórtice, forçando-me a proteger os olhos com o braço esquerdo. O mundo ao meu redor desapareceu momentaneamente na intensidade da luminosidade.
Então, tão repentinamente quanto começou, tudo cessou. O vento acalmou, as luzes desapareceram e a energia que impregnava o ar dissipou-se, deixando apenas o eco distante do fenômeno. O que restou, em meio ao nevoeiro remanescente, foi uma silhueta. Parecia uma forma humana, imóvel, na parte interna do portão.
A névoa se dissipou lentamente, revelando uma figura enigmática. Vestia roupas rasgadas, sujas e puídas que pareciam feito de sombras, as bordas tremeluzindo com uma luz suave que lembrava estrelas distantes. Seus olhos eram escuros e fundos com um vermelho profundo.
Os moradores, como que movidos por uma força invisível, correram em direção ao novo visitante. Seus rostos mostravam uma mistura de expectativa e aceitação, como se esperassem por esse momento. A figura misteriosa permaneceu imóvel, observando tudo com uma calma serena, emanando uma presença que parecia, ao mesmo tempo, inocente e perdida.
Eu, paralisado pela cena impressionante, sentia uma mistura de ansiedade e fascínio. A cidade de Séttimor, já envolta em mistérios e segredos, revelava agora mais uma camada de seu enigma. A chegada desse ser, envolto em magia e luzes sobrenaturais, marcava o início de algo profundo e transformador, um evento que todos, mais que eles eu, sentiríamos em nossas almas.
Presenciei algo que não podia explicar, quero dizer, já não consegui quanto aos moradores que já estava vendo, agora com este novo evento me vi desprovido de argumentos, não havia nada em que eu pudesse me lastrear. Minhas pernas bambearam. Apenas cai no chão sem ter o que pensar.
Os moradores vieram em festa pelo novo membro daquele pequeno vilarejo. Aquilo era o nascimento? Era daquilo que a velha Catalina falava? Eles vinham assim para este mundo?
— Vamos jovem Anton, levante-se, hoje temos o que comemorar! — Falou a Catalina da porta de sua casa. — O novo nascido e a chegada de um estrangeiro. Hoje é um bom dia — Disse ela com uma suave e doce. Seu rosto expressou um sorriso, ou parecia ser.
Momentos, ou horas, mais tarde — Voltei para dentro da casa de Catalina e conversei com ela sobre a história da cidade e de seu tempo naquele lugar, enquanto isso observava pela janela a corrida que se fazia para preparar um grande banquete, os homens e jovens carregando madeira, os bancos de madeira, a levar algumas mesas, todos eram bem-organizados. A fogueira no centro da cidade, e para as pequenas espalhadas ao redor dessa, eles as alimentavam para que colocasse as carnes para assar. As mulheres se apressaram em levar os pedaços de carne para a praça, ervas também eram carregadas, óleos e outras coisas.
Catalina veio até mim com uma caneca de metal batido.
— Acho que ainda não comeu, é bom que pelo menos com esse chá aguentará um pouco mais até que tudo esteja pronto. — Ela me entregou a caneca com cuidado, sua presença, apesar da aparência, era acolhedora.
O chá feito de casca de romã, admito, não era meu favorito entre os tipos, mas o cheiro era agradável e parecia que ela havia agregado no preparo, mel. Sorvi um pouco do líquido quente e seu sabor era suave, refrescante e na doçura adequada. Uma coisa que notei era que o ar frio que sentia fora da cidade era muito menor dentro dela. Como se o clima fosse menos agressor aqui, no interior dos muros de Séttimor, do que fora.
Quando me dei conta, eles já tinham terminado de montar tudo. Deixei a caneca sobre a mesa e fui até a porta para observar melhor aquela festa que estava começando. Estranhamente, o tempo neste lugar era algo estranho, eu não sentia sua passagem, e para ser sincero, desde que cheguei no Castelo isso não me incomodava de verdade. Agora que penso dormir, não dormir, parecia não dar diferença.
Eles tinham tambores e tamborins, alguns carregavam instrumentos de cordas. Um começou a tocar o com as mãos nuas. As batidas dos tambores ressoavam no ar com uma força hipnotizante, cada golpe profundo e reverberante ecoando como o coração pulsante da terra. Os ritmos, inicialmente lentos e graves, criavam uma tensão quase palpável, como se o próprio ar estivesse carregado de eletricidade. Era algo que eu nunca escutei, não eram as músicas dos bailes, era algo mais primitivo, selvagem.
A cada batida sentia o coração pulsar, então notei que alguns pareciam se submeter as batidas a melodia. Começavam a se reunir ao redor da fogueira principal, as jovens almas ali presentes moviam seus corpos com suavidade, delicadeza e sensualidade. Cada mover dos quadris, a ondulação era um poema de elegância e sensualidade, fluindo suavemente como um rio que conhece bem seu curso. Com um sutil balançar, elas evocavam a cadência de uma melodia antiga, um ritmo que falava de mistérios e histórias esquecidas.
Os quadris das dançarinas eram a expressão máxima de seu controle e liberdade. Suas mãos no alto com movimentos sutis, delicados reverenciando os céus. Um convite ao desejo, ao sonho. O mergulhar na loucura. Em cada movimento, havia uma mensagem silenciosa de confiança e poder, uma demonstração de que a beleza reside nos detalhes e na capacidade de contar uma história sem palavras. E assim, com cada balanço e ondulação, ela cativava e encantava, transformando a dança em uma experiência verdadeiramente mágica.
Os dançarinos homens avançavam com passos firmes e decididos, emanando uma energia viril que preenchia o espaço ao seu redor. Seus movimentos eram poderosos e precisos, cada gesto carregado de força e propósito, como se estivessem desenhando a história de seu povo no ar.
Os pés batiam no chão com uma cadência rítmica, ecoando como tambores de guerra. Os corpos musculosos se arqueavam e giravam com uma agilidade impressionante, combinando resistência física com uma elegância rústica. As pernas, fortes e bem treinadas, marcavam o ritmo com uma precisão quase militar, transmitindo uma sensação de disciplina e coragem.
À medida que os tambores aceleravam, suas batidas transformavam-se em uma cascata de som, cada toque provocando um arrepio na pele. Era uma música que não apenas se ouvia, mas se sentia, reverberando nas profundezas do corpo e da alma. Cada batida era como um feitiço lançado, evocando imagens ancestrais e rituais sagrados sob um céu estrelado.
O som dos tambores parecia invocar espíritos antigos, suas vibrações impregnadas de uma magia antiga e poderosa. Havia algo de sedutor na maneira como os ritmos se entrelaçavam, um convite irresistível para se perder no mistério e na paixão da música. As batidas fortes eram como sussurros carregados de segredos, prometendo revelações ao mesmo tempo, tentadoras e assustadoras.
Nesse momento me vi sendo atraído para dentro daquela dança, eu senti ela me chamar, uma voz na escuridão, insistente e incansável. Algo familiar em minha mente.
E então, uma voz de barítono se ergueu acima do ritmo, recitando uma poesia encantadora na melodia que estava sendo tocada, fazendo uma harmonia sombria.
Do mais profundo emergiu, das trevas,
Uma melodia entoada com requinte,
Jamais ouvindo algum escutou algo tão grandioso,
Um delicado convite, um encanto irresistível.
A composição envolvia, tão sedutora,
Ansiava por ela, com fervor, mergulhar na sandice,
Do longínquo, uma voz ressoava,
Epopeia dos perdidos a me seduzir.
Contorcia-se como serpente encantada,
Atraindo-me como um sortilégio sutil,
No compasso dos seus pés, passos enganosos,
Tal qual fogo-fátuo sobre o campo febril.
Nos alcançava os ouvidos, sinistro e encantado,
Essa enigmática melodia, vida do etéreo,
E assim, imerso em seu mistério profundo,
Para além da vastidão do oculto, em Séttimor o silêncio tumular.
Eu estava completamente imerso em uma experiência sensorial, cada batida da música ressoando em meu peito com uma intensidade quase palpável. As letras penetravam tão fundo na minha alma, rompendo as barreiras e despertando emoções que eu nem sabia que poderiam existir. A música era uma tempestade arrebatadora, e eu me deixava levar por cada acorde, cada nota vibrante.
Então, alguém me entregou uma caneca de cerveja. Seu aspecto era inusitado, quase misterioso, e um aroma robusto e cativante logo se espalhou pelo ar. O cheiro era uma promessa sedutora: malte torrado com profundidade de café fresco e um toque de caramelo queimado. Era como se a cerveja estivesse murmurando segredos antigos, convidando-me a explorar seus encantos.
Ao tocar os lábios, a textura da cerveja preta se revelou um deleite. A espuma, espessa e da cor de um café encorpado, derretia lentamente em uma sensação macia e aveludada. Era como ser acariciado por uma nuvem de creme, a suavidade envolvente proporcionando um contraste delicioso com a intensidade da música que ainda pulsava em meu coração.
E então veio o sabor, uma explosão de complexidade que me envolveu completamente. As notas iniciais de malte torrado se desdobravam no paladar, revelando ricos sabores de café expresso e cacau amargo, cada gole era uma viagem profunda e prazerosa. O caramelo surgia para suavizar o amargor, criando um equilíbrio perfeito, enquanto nuances de baunilha e toffee acrescentavam uma doçura sofisticada e uma profundidade sedutora. Cada gole era uma descoberta, uma mistura mágica de sabores que dançavam na minha boca, prolongando o prazer e deixando um final caloroso e envolvente.
A combinação daquela música intensa e a cerveja preta, com sua textura aveludada e sabor multifacetado, era um convite ao prazer absoluto. Eu estava completamente cativado, mergulhado em uma experiência sensorial que tocava todos os sentidos e me deixava ansioso pelo próximo gole, pelo próximo acorde, pela próxima emoção que me esperava.
Ali estava eu seguindo o ritmo, acompanhando os homens, dançando com eles. Sim, me vi eufórico, dançando como um adolescente. Sorrindo e saltando, acompanhando os homens ao redor da fogueira.
Meus olhos pareciam estar falhando, ou era a desidratação de tanto dançar com o povo da vila, ou a cerveja que já me tomava por completo, mas vi a sombra de outra pessoa emergir do nada. No entanto, não parecia ser um morador de Séttimor, parecia um espírito invocado por aquela música. Sim, miragens, tinha que ser. Uma volta mais ao redor da fogueira e então a silhueta de uma mulher se formou atrás das pessoas. Parei de dançar por um instante, e passei a observar melhor aquela sombra que gradualmente foi ganhando detalhes.
Ela parecia não estar ali, ninguém mais a estava vendo? Ou será que não estavam dando atenção? Será que todos já beberam demais?
Seu rosto lentamente revelava uma pele morena agraciada pela noite, lábios carnudos e charmosos, olhos delineados, um nariz pequeno e belo. Seus cabelos eram longos e escuros, ondulados da raiz até onde eu podia ver. Não parecia ser alta, aparentava ser esguia e suas roupas não eram como a dos locais e menos ainda dos romenos ou francês, o que me indicava que ela vinha de um lugar que desconhecia. Ela começa a se mover, ao que parecia ela ouvia a música que estava sendo tocada. Mas, ela em si parecia uma miragem, sua imagem ondulava.
Os movimentos dela eram, ao mesmo tempo, delicados e vigorosos, uma combinação de força e sutileza que fascinava o olhar. Quando ela girava os quadris, era como se o mundo ao seu redor desacelerasse, fixando toda a atenção na harmonia dos seus gestos. A cada passo, uma promessa; a cada giro, um segredo revelado.
Suas mãos se moviam com uma fluidez quase etérea, traçando padrões invisíveis no ar que pareciam desafiar as leis naturais. Seu corpo, livre das amarras do mundo material, dançava como se flutuasse sobre as ondas da música que preenchia o ambiente.
Em um instante, pude vê-la em toda a sua magnificência. Vestia uma saia leve que cobria seus ombros. Ela balançava com cada movimento, pendendo até pouco abaixo dos joelhos, revelando um jogo de luz e sombra sobre sua pele. Braceletes de metal adornavam seus braços, cintilando a cada gesto com uma aura de mistério e magia. Seus pés estavam calçados com sandálias finas, que acariciavam o chão em passos suaves e ritmados.
A dança tribal que ela executava era um espetáculo de graça e destreza. Seus movimentos eram uma fusão hipnótica de ondulações e giros, cada curva e contorção um testemunho de um domínio profundo sobre seu corpo e a música. Com cada balanço dos quadris e cada rotação sutil, ela exibia uma feminilidade e uma jovialidade que parecia transcender o tempo e o espaço.
Enquanto a música inundava o ambiente com suas notas pulsantes, ela se destacava como uma visão encantada em meio aos habitantes de Séttimor. A dança a envolvia em um manto de brilho etéreo, mas a presença dos moradores muitas vezes atravessava sua imagem, deixando-a momentaneamente desfocada, como um sonho fugaz.
Eu a observava hipnotizado, imerso na magia da melodia e na intensidade de seus movimentos. Ela parecia uma entidade de outro mundo, suas danças evocando um mistério profundo e sedutor que me mantinha cativo. A cada passo, a cada gesto, ela me arrastava mais fundo na espiral de sua dança encantadora, enquanto o som da música envolvia cada canto da cidade, criando um ambiente onde a realidade e o sonho se entrelaçavam em perfeita harmonia.
Um estrondoso som foi escutado, a melodia cessou, todos pararam para observar atentamente ao redor. Nuvens negras se formaram no alto das montanhas, relâmpagos desabaram sobre a terra, linhas luminosas corriam os céus.
Então me dei conta de que fiquei em Séttimor por tempo demais. Eu precisava voltar o baile do conde. Mas sendo sincero, quanto tempo fiquei aqui nessa cidade? Já não sei dizer se foram realmente horas. Comecei a andar em direção do portão da cidade até que alguém segurou meu braço.
— Melhor o senhor não sair agora. A floresta entre o castelo e nosso povoado oculta segredos mortais. E o senhor como visitante pode acabar sendo uma triste vítima. — Era o jovem que veio falar comigo quando cheguei. Sua expressão é de terror. Ele, ou eles, sabiam de algo.
— Quem é você? Do que está falando? — Questionei ele com uma cara de poucos amigos.
— Aqui me chamaram de Ioan. Estou na minha quinta morte, senhor Anton, eu não cheguei aqui ontem. — Sua voz era firme e severa, mas transmitia segurança. — Confie em mim.
Não podia evitar aceitar seu pedido. Inesperadamente um som alto que começou de maneira grave e foi ficando agudo surgiu. A princípio era como o sopro do vento em meio uma tempestade, mas esse era diferente, foi quando me dei conta que era um uivo de lobo. De apenas um viraram dez em tons diferentes. Olhei para o Ioan, então percebi que não era um aviso e um pedido tolo.
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
Diário de Anto Stefan Miahi (Part III)
Caros colegas, Envio este memorando para compartilhar um breve parecer sobre minha investigação no Castelo Drácula, em Bram. O Conde…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Memorando para a Universidade de Paris
(De Anton Stefan Miahi)
22 de junho de 1871
Para: Meus pares da Universidade de Paris
De: Anton S. Miahi
Assunto: Investigação no Castelo Drácula, em Bram.
Caros colegas,
Envio este memorando para compartilhar um breve parecer sobre minha investigação no Castelo Drácula, em Bram. O Conde, senhor destas terras, possui uma vasta biblioteca dividida em dois setores. Infelizmente, até o momento, pude averiguar apenas um deles. Contudo, posso afirmar com certeza que este nobre local detém livros surpreendentes, alguns dos quais acredito serem de grande relevância para os departamentos de teologia e sociologia da nossa universidade.
Ao longo de sua vida, o Conde acumulou livros de diversos lugares, incluindo o Império Otomano e o Império Russo. Isso realmente me surpreendeu, pois, academicamente, temos enfrentado grandes dificuldades para adquirir conhecimento intelectual de regiões tão distantes.
O Castelo em si é um verdadeiro tesouro de registros documentais de períodos antigos e modernos. Notei a presença de obras de arte que datam de dois a três séculos atrás. O Professor Doutor Rafael, do departamento de arte, teria um imenso prazer em explorar tantas peças com ricos símbolos e histórias.
Desde já, afirmo que minha viagem a este lugar remoto não está sendo uma perda de tempo, como inicialmente pensei. No entanto, ainda há muito a ser investigado, pois o Castelo é imenso e possui muitos ambientes a serem verificados.
Agradeço aos amigos da academia pelo apoio. Anseio poder enviar mais detalhes sobre as descobertas nestas terras da Transilvânia.
Atenciosamente,
Anton Stefan Miahi
~’’~
De Marcel Durand Laurent
(Carta datilografada para Anton)
De: Marcel D. Laurent
Para: Anton S. Miahi
23 de junho de 1871
Bom dia, meu amigo e irmão Anton!
Como tem passado nestes últimos tempos? Fui surpreendido pelo carteiro ainda nesta manhã com sua primeira carta, além das cobranças do governo quanto ao dinheiro de nós, meros mortais.
Não sei o quão alegre se tornou minha manhã ao poder abrir sua carta e ler as novas de sua empreitada, meu amigo. A todos nós nos surpreendeu sua mudança de opinião quanto a essa viagem. Inclusive, sua irmã e mãe decidiram sair de Sevilha para rumar para Paris e centralizar suas cartas. Elas chegaram há alguns dias com minha esposa na estação, pois infelizmente não tiveram tempo hábil para te alcançar e se despedirem. Alojamo-las em uma boa casa, três casas para baixo da minha. O dono é um homem protestante, um britânico, mas às vezes parece ser como eu um bom católico; sua esposa ajudará ambas a se adequarem aqui na capital do mundo. Espero que elas nunca me ouçam dizer estas palavras, já que, pelo que notei, elas, como boas católicas e fiéis ao Papa, amam seu monarca. Quase são tão radicais e cabeças-duras quanto os jacobinos no nosso parlamento e nas ruas.
Pelo que li em sua carta, o lugar, apesar de admirável, é imerso em uma aura mística, como as narradas pelos imigrantes da Europa Central. Aquelas bruxas vindas do meio do nada do nosso velho continente sabem como contar histórias sombrias sobre essas terras natais, mas o que chama a atenção é seu relato, que quase se assemelha ao das velhas ciganas dos bairros afastados da nossa amada cidade.
Mediante a possibilidade, mantenha a calma diante do que lhe aflige emocionalmente. Para quem pode sobreviver aos campos de batalha, creio que uma perturbação ou outra seja apenas consequência. Mas, tendo em vista o homem que é, dotado da experiência e ceticismo de quem provou da dor e da ciência, não se permitirá perder a razão.
Busque dar objetivos aos seus pensamentos, meu amigo, e trazer à Universidade de Paris boas novas que lhe trarão orgulho. Ademais, quando regressar, o que espero que seja o mais breve possível, poderá reencontrar sua mãe Louise e sua irmã Jade.
Assim sendo, espero ter novas notícias suas, já que estas entregarei eu mesmo à sua família! Novamente digo que me sinto feliz e espantado pela tua decisão de viajar. Creio que a mudança de ares poderá te proporcionar um bom renovo.
De seu irmão de trincheiras,
Maurice.
~’’~
Anto Stefan Miahi III
(Anotações em meu diário)
25 de junho de 1871 — Depois de muito procurar encontrei meu fiel amigo que trouxe de Paris, meu diário. Agreguei a ele as folhas que usei para fazer minhas anotações anteriores.
Antes que eu possa comentar algo mais, quero registrar aqui eventos sociais dos quais pude ser partícipe e que a mim foram inequívocos fatos que me fogem aos parâmetros do natural e racional do presente século.
Me faz lembrar o que Descartes diria neste presente momento; “O bom senso é a coisa do mundo melhor partilhada.” Me vejo como um solitário e louco dentro deste castelo. Por dados momentos tive a triste sensação de retornar à guerra e seus horrores, no entanto, aqui estou, à salvo num castelo, mas tais pensamentos que proporcionam o suplício da mente inquieta meu sono e perturbam minha paz na consciência. Onde poderia eu casar a meditação de Descartes neste instante que parece querer romper as ideias e destroçar meu coração?
Bem, antes que meus pensamentos se percam na filosofia, mas é inevitável não recorrer ao pensador Rene, novamente, ao me ver dentro deste quarto quando ele diz algo como: “Frequentemente, as ideias que inicialmente me pareciam verossímeis revelaram-se enganosas ao serem transcritas para o papel.”, estendo para além delas mergulhando nessas palavras. E quando intenciono me confessar ao papel crendo ser mentira e vejo que revelo o que é verdadeiro nesta folha tão pura que agora se mancha com meus pensamentos?
Outra vez já estou divagando e quero ir direto aos fatos, aos eventos.
Na noite, eu acho, de 22 de junho, fui notificado de um evento social no castelo que deveria ocorrer na noite do dia 24 de junho.
Desde que cheguei, basicamente, tenho buscado me adaptar aos horários do conde, a quem devo admitir ter costumes de uma tesura inimaginável. Passo a confundir noite e dia, já que passamos as noites conversando sobre as obras, as teorias, a aristocracia, as políticas, e os pensadores. E tem sido muito profícuo nossos debates noturnos, pois me tem permitido exercitar minha experiência acadêmica, e não posso deixar de dizer o quão impressionante é o conhecimento do Conde, ele demonstra uma ampla vivência intelectual e dentro da alta sociedade que poucos homens de sua posição parecem apreciar.
Naquela noite em que ele me notificava que havia enviado convites para um evento social da alta sociedade local, tivemos uma conversa bastante incomum.
— Caro Anton, me vejo curioso sobre como anda Paris mesmo com estes tempos tão turbulentos. — Sua voz era calma e denotava claro interesse quanto ao tema.
E havíamos debatido sobre a tragédia do pensamento literário que a Rússia produzia em conflito da produção prussiana que denotava racionalismo, da francesa que buscava a liberdade da sociedade, da tirania dos poderes divinos do rei sem se desvincular da Igreja Apostólica Romana.
— “São a força e a liberdade que fazem os homens virtuosos. A fraqueza e a escravidão nunca fizeram nada além de pessoas más.”, Rousseau afirmou isso, e não posso discordar. Após a guerra promovida por Napoleão iniciar sua campanha, pudemos talvez ver melhor a própria França, as forças da aristocracia divina ruir ante nossos olhos. — Meu pensamento parecia ter soado distante e talvez apático, já que acabei sendo transportado para um lugar que lutava não voltar. — Creio que me fiz soar algo desconexo, Conde. No entanto, após a guerra chegar ao fim, distante da graça do Papa, com o escárnio da Prússia em nossa face, e estes sendo mantidos por aqueles maçons contra a sacrossanta igreja. Não duvido que também os judeus por detrás das cortinas políticas, às escondidas, não estivessem fazendo seu jogo contra o império, como dizem as más línguas. Meu sentimento em responder é de penúria.
Por um curto tempo se fez um silêncio e o conde apenas parou, observando a minha pessoa. O mais incomum era que ficava óbvio essa sensação de observação, e isso me impelir a ter que seguir com a minha resposta.
— Quando retornamos, Paris estava em conflagração interna, a aristocracia perdia seu lugar, o parlamento ganhava mais espaço, e Napoleão que caiu nas mãos inimigas vergonhosamente. O Estado do presidente imperador já não existiria mais. — Admito que após os horrores da guerra, voltar e ver uma revolução nos jardins do palácio de Versalhes foi pouco surpreendente pelas notícias que recebíamos de casa por parte dos nossos oficiais. — Creio que em meu rosto deve ter sido criado algum sinal ou expressão de antipatia quanto aos fatos tratados.
— “A missão suprema do homem é saber o que precisa para ser homem.”, posso estar enganado quanto a fonte, mas foi Kant que disse algo assim, e não estava de todo errado em afirmar isso ao pensar em suas luzes de racionalidade alemã. — A fala do conde denotou uma precisão cirúrgica num mar de calma e empatia. — Mas, como, em contrapartida, o saber é a chave da liberdade, creio que foi Robespierre que afirmou algo assim; “O segredo da liberdade é de educar os homens, assim como o da tirania é conservá-los na ignorância.’” Ao nos apoderarmos do saber nos expomos ao tormento do entendimento, diante da escolha de lutar contra ignorância, mas o que não podemos negar são os poderes que guiam este mundo; a cobiça, o poder e a tirania.
As palavras do conde foram como um soco bem-posicionado em meu estômago. Era inadmissível a alguém que se deu o trabalho de afundar-se nos livros, numa jornada pelo conhecimento, se permitir esquecer do fundamental da erudição que é a propagação do próprio saber. A guerra produzida pelos tiranos da Prússia e da França custaram almas humanas, um sangue que regou os campos de batalha sem haver razão.
Após uma hora mais de conversa, o conde decidiu se recolher às suas habitações em algum lugar do castelo. Em seguida me recolhi para meu quarto. Subi aquelas escadas em pedra e madeira observando lentamente os quadros e tapeçarias expostos. Ao chegar já fui abrindo a porta e entrando. A luz que estava no corredor invadiu o ambiente e pude notar sobre a mesa uma carta. Prontamente fui abrindo e nela continha um convite formoso.
23 de junho — Durante o dia e parte da noite deste dia não tive a companhia do conde durante o seu período habitual. Passado uma boa parte da madruga registrando os livros da parte da biblioteca do lado da porta pequena que ficava ao fundo da sala. Devo admitir que a curiosidade de quando aquela porta passou a aumentar, mas venho resistindo a investigá-la. Algo nela desperta minha atenção.
Seu servo, Narcís, por umas quantas vezes veio ver como eu estava passando e se eu necessitava de algo. Por umas três vezes ele conseguiu me surpreender, dando-me um grande susto já que estava completamente absorvido por minhas investigações. Mas devo dizer que ele tem passos incrivelmente silenciosos. Ele, em sua última visita, aproveitou para me avisar.
— Sr. Anton, o evento de amanhã ocorrerá a partir das 21h. Creio que os convidados irão comparecer cerca das 20h. Alguns deles tem uma pontualidade surpreendentemente similar à de um relógio suíço. — Sua postura era sempre extremamente séria, mesmo quando se tratava de coisas triviais como trazer o chá.
24 de junho — Após ter me recolhido mais cedo no dia anterior para poder ter energia suficiente para a reunião que o conde havia criado. Confesso ter ficado surpreso que ele, com hábitos tão únicos, tivesse interesse por este tipo de reunião. Um baile com máscaras. Por infelicidade não tinha as peças de roupas que combinassem com o solicitado no convite, mas o espantoso era que o conde havia se antecipado quanto a este que, a meu ver, lhe era completamente alheio, desconhecido.
Os tons eram carmesim e dourado, os detalhes eram finos, elegantes, fazendo jus às peças feitas para a nobreza. Mas para meu assombro, ao me vestir, que surpresa, as roupas estavam perfeitamente encaixadas. Nada folgava ou faltava, estava na medida perfeita. Me sobraram apenas as perguntas: “Como ele saberia as minhas medidas? Em que momento ele conseguiu saber quais eram elas?”. Creio que isso se somaria às demais coisas estranhas que tenho que tentar obter as respostas neste lugar.
Na justa hora do baile — Narcís, preparou um bom banho quente de tina, pude aproveitar bem este momento, ele aproveitou e me trouxe sais e pétalas de rosas, que segundo ele eram para suavizar minha pele queimada de sol. Como afirmei em outro momento, luxos para um militar eram ter um lugar para dormir, comida não mofada, e um rio gelado para refrescar, e muitas vezes nos vimos privados dessas coisas.
Após o banho com auxílio de Narcís que fez questão de ajudar-me a vestir aquelas roupas tão finamente produzidas. Calça, camisa, um sobretudo, um laço e, por fim, a máscara que, segundo o mordomo, era obrigatório.
O servo do conde me conduziu para outra parte do castelo, após terminar com retoques na roupa. Normalmente, assim que saía do meu quarto, tomava o caminho da direita e alcançava a escada que me levava direto para o salão onde eventualmente eu comia, a biblioteca e a entrada principal. Contudo, desta vez, fomos rumo ao lado oposto. O corredor era reto e terminava numa escada em L, e depois por outro corredor reto, diferente do que normalmente eu via lá atrás, nestes não havia quadros ou tapeçarias. Tinha apenas candelabros de bronze, uns quantos quartos que estavam fechados, e pouca mobília até que chegamos numa nova escadaria agora circular que levamos uns quantos minutos para descer, pronto uma luz amarelada e forte surgiu ao fundo da escadaria, estávamos estreando uma nova ala que eu não conhecia.
Assim que a luz ficou mais forte, uma porta se revelou, dela um salão belamente decorado, várias fitas nas mesmas cores que da minha roupa. O teto tinha um pé direito alto, poucas janelas, essas com vitrais com cores tão ímpares, escuros que pareciam perfeitos para impedir a luz crua do sol, dando uma iluminação muito peculiar de colorações singulares, um jogo de cores e sombras dançantes. Velas, lamparinas a óleo e uma lareira de um metro e meio de largura e quase dois metros de altura ajudavam a iluminar o local, além de aquecer.
Claro que, à princípio, não considerei verdadeiras as afirmações do mordomo da pontualidade da nobreza local, mas me deparei com muitos convidados já no ambiente. Os músicos estavam posicionados. Supus que ali se encontravam pelo menos cento e cinquenta pessoas, mas aquele salão suportaria seguramente uma quantidade maior de pessoas. Terminei de descer as escadas, olhei ao redor e vi mesas de madeira rústica nas laterais cobrindo parte considerável do espaço. De onde eu estava para o meio e o lado oposto estava completamente aberto e se podia ver uma grande porta dupla de madeira por onde alguns dos convidados entravam e saíam
Drácula entrou por uma porta disposta no lado esquerdo, ele se posicionou ao lado da banda que era um lugar elevado e cabia com folga oito músicos, o regente e ele sem ter que disputar espaço.
Ele faz um breve discurso e inicia a festividade, que sou claro em afirmar não saber sua razão ou a que se atribuía. Minha completa ignorância poderia proporcionar uma cena constrangedora.
Vejo o conde caminhar em minha direção e esticar seu braço direito até sua mão tocar meu ombro.
— Anton, hoje o senhor poderá descansar dos seus estudos e pesquisas. Minha intenção é proporcionar ao amigo umas quantas horas do desfrutar das vantagens da nobreza e descansar. — Era inegável o tom amistoso e a expressão empática que ele transmitia. Ele era o único sem máscaras até aquele momento. Drácula sorria no melhor de quem sabe ser político e aristocrático. — Dance, coma, cante, converse e seja feliz meu amigo.
Assim que ele terminou de dizer essas palavras, ele colocou a máscara, e pude perceber novamente aquela estranha aura no olhar que nas minhas memórias pensei ter visto. Tornar a ver nada mais que confirmava as minhas lembranças, não havia sido um engano.
Trouxeram-me uma bela taça de um vinho que, quando provei da taça de vinho tinto amadeirado, senti o aroma robusto que emanava das notas de carvalho e baunilha. Ao primeiro gole, os elementos frutados de ameixa e cereja dançaram em seu paladar, conferindo um toque suculento à bebida. A leve acidez cortava a doçura, criando um equilíbrio refrescante que tornava a experiência ainda mais sofisticada. A melodia melancólica do piano ressoava pelo salão, enquanto as sombras das figuras elegantes se entrelaçavam em um ritmo lento e hipnotizante.
Em alguns momentos me detive em perceber sombras incomuns dançando ao meu redor, seus olhares eram etéreos. Parei para observar tal fenômeno, mas estas pessoas surgiam e tão logo desapareciam, era uma sensação atordoante. Uma estranha sensação de perigo surgia em mim. Algo naquelas pessoas passou a me incomodar, seus olhares tinham um efeito similar do conde, me sentia uma presa diante de seus predadores, mas agora era em todas as direções.
Até que, perto da porta, notei cabelos pretos ondulados e a pele branca quase igual ao marfim. O ar parecia saturado, sentia minha visão ficando levemente turva, até que levei a mão aos olhos, e decidi que deveria sair daquele lugar. A música já começava a me soar hipnótica, acentuando ainda mais a sensação opressiva.
Decidi então que deveria tomar um ar, sair para o exterior. Rumei para a porta, mas por alguma razão sentia que a distância até ela estava demais e que era uma luta do meu corpo com uma massa invisível que queria me atrair para o centro do baile, mas meus instintos diziam para lutar contra. Com algum esforço consegui alcançar a porta e, ao abri-la, uma brisa fria passou — o que me fez sentir como se despertasse de algum tipo de sonho acordado.
No exterior, um pequeno pátio com um corredor para a esquerda que parecia conduzir a um lance de escadas. Uns poucos metros à frente, um beiral de pedra até quase a altura da cintura com uma vista magistral das montanhas nevadas e um vale com uma floresta de abeto-branco.
Um som vindo da escadaria me chamou a atenção que me fez ir em sua direção.
Quando me aproximei, notei que ela era uma longa escadaria correndo pela lateral do castelo até a base da montanha onde a casa do conde estava construída, culminando no início da floresta, olhei um pouco mais à frente e pude ver se destacar uma série de pequenas colunas de fumaça.
Em minha mente, as opções seriam voltar para a festa e voltar àquele mar de sensações embriagantes ou me aventurar nos arredores do castelo. Para mim a escolha era simples, qualquer lugar seria mais interessante que aquele oceano de emoções e alerta de perigo que não sei indicar a razão.
— Melhor aqui neste frio, com árvores, uma estranha e as montanhas. — após ter dito isso em voz alta, apenas me restou rir.
Comecei a minha jornada de uns vários minutos pela escadaria que serpenteava pela encosta da montanha do castelo Drácula. A descida foi monótona a um certo passo, mas minha curiosidade apenas me impulsionava para frente.
Ao atingir a base da escada pude ver um caminho de pedras de paralelepípedo por meio das árvores de abeto-branco que estavam cobertas de neve. Olhei ao redor e notei uma fina neblina se formando até que ela tocou a linha das árvores.
Não havia mais o que fazer, voltar e ignorar explorar essa região, de se privar da experiência de conhecer melhor o país do conde, ou simplesmente avançar e ver o que o destino me reservaria. As perguntas que havia deixado registradas no meu diário há uns dias nunca gritaram tão alto em minha mente como agora. Espero que minhas decisões não tenham sido um completo erro.
Obviamente, para fazer valer a chance de dar valor às minhas próprias palavras, decidi seguir adiante.
Por quase trinta minutos avancei em meio a flores por aquele caminho suspeito, cortando a neblina que parecia gritar na minha cara que eu estava rumando para o perigo.
A sorte e o instinto guiaram a minha decisão de incluir minha espada ao modelito para o baile. Graças a isso, pela primeira vez desde que cheguei, minha mão pode encontrar a bainha do meu sabre em minha cintura.
Antes que me desse conta, estava diante dos portais, dos muros de pedra e madeira, da entrada de uma cidade enfurnada no meio da floresta. Observei enquanto me aproximava que nas colunas continha inscrições no idioma local, o romeno. Elas cobriam da base até a parte mais alta. Aquele portal era feito do mesmo tipo de árvore da região, mas claramente era algo antigo, algumas partes estavam apodrecidas.
Quando toquei, eu senti como uma descarga de uma energia estranha, como se um raio percorresse o meu corpo. Olhei em direção à cidade, ela ainda estava a alguns metros. As casas eram rústicas, todas de madeira, o caminho de pedra seguia até o que parecia ser uma praça. Caminhei naquela direção. Notei serem um total de dez casas fazendo um círculo, e em todas havia chaminés com fumaça sendo expelida. Olhei ao redor e a princípio parecia abandonada, algo ainda mais estranho era evidente, a névoa não avançava para além dos portais e dos seus muros. Era como se algo impedisse que ela entrasse.
Então ouvi passos, não evitei sacar o sabre, os instintos foram mais fortes. Como se fosse uma miragem, de início não acreditei que fossem pessoas nas portas, janelas e ao redor de mim, logo elas começaram a se revelar.
A princípio eram como sombras sem definição, gradualmente tomaram forma que parecia humana, detalhes foram surgindo, quando reparei seus rostos completamente disformes. Os sons normais de um vilarejo rompem o silêncio que até então era rei.
— Quem são vocês pelo amor do bom Deus? — Exclamei num grito de assombro e terror, enquanto apontava a ponta do sabre na direção do que estava mais perto de mim. — De que inferno vocês surgiram?
— Somos os moradores sem sorte desta Vila conhecida como Séttimor! — Sua voz era rouca, e de sua boca saía uma fumaça cinzenta, foi quando notei que de alguns até dos olhos saía, enquanto de outros assombrosamente nem face tinham. — Aquele atrás de você é nosso chefe Kvvus! — Apontou ele com seu dedo da mão direita um homem sentado. Ele está em sua sétima morte, suas vestes eram simples e puídas. O expressava o vazio da existência num estado de paralisia, seus olhos de tão fundos lhe proporcionavam aspecto cadavérico.
O espanto que aquela cena me deu assombrou de tal forma que percebi a ausência de periculosidade naquele povo estranho habitantes da vila de Séttimor!
Leia mais em As Crônicas do Castelo Drácula:
Diário de Anto Stefan Miahi II
(Anotações em folhas soltas) 21 de junho de 1871 - Por alguma razão, desde que cheguei a este castelo, sinto ter perdido…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Diário de Anto Stefan Miahi II
(Anotações em folhas soltas)
21 de junho de 1871 - Por alguma razão, desde que cheguei a este castelo, sinto ter perdido algo mais que meu bom senso. Nesta manhã busquei meu caderno, que uso há algum tempo para escrever meus pensamentos, e não pude localizá-lo em parte alguma de minha habitação. Tirei do armário as roupas, joguei gavetas para todos os lados e nada de encontrar meu pequeno companheiro. Tive que recorrer às folhas soltas que encontrei na escrivaninha disposta defronte da cama, que por sorte também não são poucas, e posso gastar algum tempo nestes registros de minha aventura dos últimos dias.
Inicio este meu relato em meio a esta tarde de sol opaco e ventos uivantes com sinais sombrios de tempestade. Voltando para o dia 19 de junho, pela manhã despertei com alguma dificuldade. A minha mente estava nebulosa. O quarto estava em um completo breu, e pouca coisa conseguia ver. Alguns minutos se passaram até que pude realmente abrir meus olhos sem me sentir dentro de um maldito barco. Meus hábitos como militar me fazem levantar da cama às cinco da manhã. Nem mesmo o galo é tão pontual quanto um militar bem doutrinado.
O que a rotina e a repetição fazem com o indivíduo? Resultam em uma clara domesticação do homem selvagem e brutal, criando nele o senso de civilidade e consonância social que passam a ser demasiadamente enraizados em sua alma, e ele cria estima por eles. Bem, isso parece lógico.
Devo dizer que este lugar é impressionante por si só. De onde estou, posso ver uma cadeia montanhosa com seus altos pontos completamente brancos, verdadeiros gigantes adormecidos. O quarto está bem-posicionado, devo dizer. O Sol, por detrás daqueles picos majestosos, tira o ar de tão impressionante que é.
Após estes momentos de percepção e admiração que nunca foram de meu interesse, mas que neste momento sinto que devo pontuar, volto ao castelo propriamente dito. Os corredores exibem tapetes vermelhos e tapeçarias que parecem retratar e remontar as gerações anteriores que aqui viveram. Os móveis dispostos neles são elegantes, com desenhos em baixo relevo. Parece que em todo lugar que olho tem história, fatos. Ao que vejo, se for retirada uma pedra do seu lugar, talvez seja capaz de remontar a algum evento na antiguidade. Minha ansiedade é tanta que imagino que, em minhas pesquisas, eu possa descobrir que daqui veio algum Papa, ou um parente perdido de Joana D’Arc que buscava redenção para a pobre moça.
Caminhando pelo primeiro andar, pude notar um detalhe curioso nos quartos. Muitas portas estavam, não apenas fechadas, mas trancadas com chave. Dessas, algumas poucas, pude notar um odor incomum que logo desapareceu e que me fez lembrar os campos em que estive. Isso me estremeceu as pernas, um frio percorreu minha espinha, e, em pouco tempo, as lembranças vieram à minha mente. Dei dois passos para o lado, me apoiei no móvel que ali estava, e logo levei minha mão direita até minha face, cobrindo os olhos. Pouco tempo passou e voltei a mim.
Decidi que deveria descer. Já eram quase sete e meia da manhã, e não tinha a intenção de me atrasar para o café da manhã. Supus que deveria ser esse o horário para comer, já que, até este momento de minha exploração, não havia encontrado ou escutado uma única alma viva no corredor, nem mesmo nos quartos que estavam com as portas abertas ou destrancadas.
O castelo do Conde era realmente grande. Um convidado poderia se perder dentro dele. Isto constato ao pensar que ainda haveria dois andares para cima, o terraço, e as torres que dão mais um ou dois pisos para cima. Admito que desconsidero haver algo abaixo da terra, não me parece lógico. Contudo, não posso descartar por completo a possibilidade de que os criadores dessa construção tenham investido empenho e criatividade para agregar algo indo para baixo do térreo.
Desci lentamente as escadas que encontrei, torcendo serem elas que levariam à entrada, aos cômodos inferiores, onde se encontraria o grande salão para poder quebrar este meu jejum. Por sorte, tomei o caminho correto.
Me deparei com a grande porta de madeira maciça com belos umbrais entalhados que havia visto na noite anterior, antes do meu desmaio inusitado, que também irei pontuar mais para frente neste meu relato, que se mostra um fato com detalhes estranhos.
Da porta de entrada, em ambos os lados, disponha duas flâmulas curtas, do tamanho da altura da cintura de um homem adulto comum. As duas paredes laterais eram amplas e nelas estavam dispostas, em cada uma, duas flâmulas do mesmo tamanho, entre elas uma grande tapeçaria com o brasão que parecia ser da família do conde.
A imponência daquele ambiente era de deixar muitas famílias da nobreza francesa envergonhadas. Próximo a mim, em ambos os lados, havia passagens em arco, sem portas, para cômodos que poderiam ser explorados.
Olhei primeiramente para a esquerda; era um cômodo amplo, com uma mesa no canto oposto à porta por onde eu observava o interior, feita de madeira escura, sobre a qual estavam dispostos vários papéis e alguns livros. Atrás dela, uma poltrona do mesmo tom de verniz e madeira, com um grande encosto. Nela, estavam várias peles grossas, uma parecia ser de urso-pardo. No alto do encosto, estavam esculpidos dois corvos, um de frente para o outro, mas com as cabeças voltadas para baixo.
Nunca havia visto algo tão sombrio e incomum. Quanto ao cômodo em si, suas paredes estavam repletas de livros, cobrindo a totalidade das superfícies. Então, percebi uma porta ao fundo, não muito alta, de frente para o portal por onde eu observava. Ao lado dela, deparei-me com algo que parecia um corrimão entrando na parede, indicando um ambiente a mais em um cômodo oculto.
Antes que eu me desse conta, uma voz serena de barítono me tirou de minha exploração visual.
— O senhor é esperado neste aposento para o desjejum. — Apesar da voz calma e do tom educado, sua expressão facial era aterradora. Tinha olhos grandes, castanho-escuros, com órbitas afundadas. Sobrancelhas arqueadas, um nariz aquilino e um queixo curto. Os lábios eram finos e esbranquiçados, com as maçãs do rosto muito pronunciadas. A pele, sem muita cor.
— Oh…! Obrigado. — Minha voz saiu de sobressalto, e minha reação instintiva foi levar minha mão esquerda até a cintura em busca da bainha de minha espada. Para minha profunda frustração, ela não estava em seu lugar devido. — Quem é o senhor? — Questionei o homem diante de mim, vestido com trajes subalternos.
Ele sorriu, o que o deixou ainda mais assombroso, com um ar psicótico.
— Sou seu humilde servo, Narcís Nestor. E creio que o senhor seja Anton, certo? — Ele fez uma reverência um tanto longa enquanto falava, e ao término dela se endireitou. Era alto e magro, e suas roupas lhe davam um porte elegante e igualmente ameaçador. Seus cabelos, longos até os ombros, estavam presos em um rabo de cavalo com fios ruivos e ondulados.
Apenas assenti com um movimento de cabeça, confirmando sua informação.
— Venha por este caminho, cavalheiro. — Ele girou nos calcanhares e começou a andar sem me dar a chance de questioná-lo sobre qualquer outra coisa.
Ele me conduziu por um corredor sem janelas e, ao alcançarmos o meio dele, havia um portal, este com portas. Ele abriu ambas as portas, revelando uma sala de jantar espaçosa. No centro, uma grande mesa acomodava até dezesseis pessoas. A mesa era de carvalho em tom bege-claro, e as cadeiras completavam o conjunto na mesma cor. Na parede oposta à porta, havia uma lareira grande, acesa, e acima dela, um escudo com duas espadas cruzadas.
— Ao entrar, o ambiente estava quente e aconchegante. Olhei para cima, observando os detalhes o máximo que me era possível. O pé-direito daquele espaço era alto, com dois grandes lustres feitos de rodas de carroça, presos por correntes.
Mesmo naquela sala de jantar, o luxo não era escasso, pois notei grandes vitrais acima da porta. Nas bordas, o azul-índigo se destacava, enquanto o centro era de cristal, permitindo a visão do exterior, onde uma tempestade de neve se formava. No meio, um azul-escuro predominava, bloqueando a entrada da luz do sol. Além disso, cortinas duplas pendiam do ponto mais alto, cobrindo quase toda a janela. As cortinas mais grossas eram de um tom bordô profundo, de tecido que parecia veludo, enquanto as mais finas eram brancas, lembrando a neve que caía lá fora, feitas de seda.
O ambiente não parecia carecer de luz natural com todas aquelas velas e a lareira queimando lenha. Isso me fez perceber um detalhe que me havia escapado até então: muitas das janelas tinham esse mesmo tom escuro. Mesmo a do meu quarto possuía um tom azulado que deixava o ambiente mais sombrio.
— Aconselho que o senhor se sente neste lugar enquanto trazemos seu café da manhã. Já está ficando tarde e creio que esteja com fome, cavalheiro. — Ele apontou para uma cadeira que havia movido, indicando onde eu deveria me sentar. Sua expressão estava séria, apesar de tentar parecer convidativo e educado.
— Claro, evidentemente não queremos atrasar o café da manhã do Conde! — Tentei ver se Narcís dizia algo sobre seu mestre, já que até o momento ele não havia me fornecido nenhuma informação sobre ele ou sobre o castelo. — Não podemos fazer essa quebra de protocolo social.
— O mestre Drácula tem o hábito de comer em seus aposentos. Mas, ele lhe desejou um excelente desjejum. — Novamente, aquele sorriso que faria até um coveiro sentir arrepios na coluna.
— Que inusitado. Bem, diga ao Conde que também lhe desejo o mesmo e que gostaria de poder sentar-me com ele para conversarmos sobre o assunto que me trouxe até aqui. — Tentei dar meu melhor sorriso para a criatura ao meu lado, que estava arrumando meus talheres.
— Vou transmitir sua mensagem ao Conde. — Narcís se colocou ereto e seguiu em direção à porta na parede oposta àquela por onde eu havia entrado, mais próxima à parede à direita.
O mordomo Narcís caminhou rápido e silencioso, parando quase em frente à porta. Ele estendeu o braço para pegar um sino sobre um móvel ao lado esquerdo, e logo o fez soar. A porta se abriu com um forte rangido. Dela saiu uma senhorita de cabelos pretos, pequena e esguia, trazendo um carrinho com vários pratos e bebidas quentes. Ao se aproximar, pude observar melhor suas feições. Os olhos eram amendoados, de um tom de âmbar que eu nunca havia visto, tão intensos e atentos. As sobrancelhas eram retas, um pouco finas demais. O nariz era delicado, levemente aquilino. O queixo pontudo, com o lábio superior fino e o inferior carnudo.
Ela levava um tecido amarrado sobre a cabeça para prender o cabelo, e ao se aproximar para pôr a mesa que trazia no carrinho, notei que seus cabelos eram negros e ondulados.
— Obrigado, ficarei apenas com o café, a manteiga, alguns pães e talvez essa geleia que parece ser de mirtilo. — Busquei um tom gentil e a expressão mais sincera possível. Mas aquela senhorita mantinha o rosto sem emoções.
— Se é o que o senhor deseja. — A voz dela era de uma soprano, agradável de se ouvir, um verdadeiro contraste. Um choque.
— Por favor, qual é o seu nome? Eu me chamo Anton, é um prazer conhecê-la! — Tentei ser social e educado, mesmo parecendo que ela não permitiria que eu me aproximasse. Desejava poder conversar com alguém, já que minha tentativa anterior foi frustrada.
Apenas obtive um profundo e consternante silêncio por parte daquela jovem.
Naquele mesmo dia ao entardecer - Devo dizer que me senti compelido a retornar ao meu quarto após o almoço e após abrir mais alguns livros da biblioteca. Tem sido uma exploração frutífera. No entanto, uma inquietante sensação vem dominando meus pensamentos. A lástima é que ainda não pude perceber a razão desses pensamentos ou mesmo sua fonte, se ela habita em mim ou é proveniente de algo externo. O que acalma meu espírito é estar neste quarto com a caneta, a tinta e o papel ao meu alcance.
Voltemos ao dia 19 de junho.
Apesar de minhas tentativas de criar vínculo com os empregados do castelo terem sido um completo fracasso, naquele dia Marcos, após o desjejum, me guiou para outra sala que eu havia observado antes. Ele disse que eu poderia acessar todas as obras dispostas neste cômodo e que em outro momento me levaria a uma sala ainda maior, contendo obras raras que o conde mantinha apenas para si, mas que, por conta de minha presença, estaria inclinado a abrir para que eu pudesse investigá-las.
Eu não havia visto a totalidade daquela sala. À esquerda da porta, ao fundo, havia uma curta escadaria em L que avançava para dentro e para cima da parede, acima da porta, como um patamar com mais prateleiras e livros que só se podia notar ao adentrar o ambiente. O andar inferior tinha pé-direito alto, e ao lado da mesa havia duas janelas em arco de dois metros e, entre elas, uma porta de vidro que levava ao pátio, além de outra pequena, de madeira, que não ousei verificar.
Desde o andar de baixo até o de cima, do piso até a metade da altura de um homem adulto, as paredes eram revestidas com uma madeira caramelo formosa e bem cuidada. O patamar superior tinha um pouco menos de um metro e noventa de altura, o que me fez desviar dos candelabros presos nas colunas quando subi para explorar.
O que me surpreendeu foi que cada volume estava bem cuidado, suas capas pareciam novas, com sinais de pouco uso. O conde deve ser rigoroso com a conservação das obras mantidas aqui em seu castelo.
As horas passaram enquanto eu verificava cada obra naquela imensa sala. Levaria um longo tempo até que eu revisasse cada livro ou, no mínimo, juntasse os que realmente me interessavam. Ao olhar para o exterior pelas janelas da porta, percebi que já estava escurecendo. No pico das montanhas, a luz começava a desaparecer, e fiquei hipnotizado por aquela vista.
Então, uma voz profunda e calma quebrou meu transe.
— Espero que não esteja interrompendo, senhor Anton? — Por um instante senti que meu corpo se congelava, no entanto não durou muito. Uma voz, apesar de grossa, era firme, capaz de fazer o silêncio reinar com apenas uma palavra numa estalagem cheia de bêbados.
Dei meia volta para ver quem falava, apesar do susto. Ele estava parado no patamar superior, escorado no guarda-corpo, com um livro na mão. Sua altura era menor que a minha, o corpo um tanto esguio, com tudo estava bem trajado com uma camisa branca e um colete de dois tons pelo que parecia, preto nas costas e vermelho na frente. Os cabelos pretos e levemente ondulados e um tanto longos caíam sobre os ombros.
— Sou um homem de hábitos noturnos, para a infelicidade de meus convidados. — Ele virou o rosto ficando de perfil de frente com uma lâmpada que estava a menos de um metro dele pendurada na coluna, revelando uma aparência surpreendentemente jovial. O bigode e cavanhaque bem aparados mostrando refino como evidência de sua vaidade, assim sendo esperado de alguém que vinha de uma da alta sociedade. A pele parecia de marfim, de um aspecto fantasmagoricamente translúcido, como se os raios dourados carregados por Apolo jamais a tivessem tocado. Seus lábios finos e brancos pareciam sem vida, e seu nariz aquilino deixava sua expressão severa, algo enigmático, que me causava calafrios por toda a espinha. Ele me observava de soslaio, dando-me a impressão de pouco interesse.
Sua presença era imponente, inundava a biblioteca, dando-me a triste impressão de estar na companhia de um animal selvagem, um indivíduo de poderes não mensuráveis, pronto para me atacar. Meus instintos mais íntimos gritavam freneticamente para que eu saltasse pela porta de vidro às minhas costas, enquanto meu treinamento me compelia a manter a posição e enfrentar meu temor, como fiz tantas vezes diante dos estrondosos gritos dos inimigos de Napoleão e das baionetas dos prussianos.
— O senhor me pegou desprevenido… — Minha voz saiu rouca, porém o mais firme que consegui. Fitei seus olhos, que pareciam de um tom quase âmbar, vivos, atentos, de uma profundidade assombrosa. Parecia ler minha intenção combativa. O conde havia movido apenas a cabeça para olhar minha pobre existência confrontando sua magnitude. — Devo supor que seja meu estimado anfitrião, que vi na minha primeira noite e com quem, por alguma infelicidade, não pude trocar muitas palavras. — Neste momento, escapou dos lábios dele um sorriso sem jeito. Tentei recobrar minha dignidade e civilidade perdida com o susto.
Vlad então fechou o livro que estava em suas mãos e começou a descer a escada oculta atrás da parede. O que me assombrou de sobremaneira foi a completa ausência do som de seus passos na escada de madeira. Parecia caminhar como um gato. A sensação de perigo voltou a invadir minha mente, meu coração acelerou, e instintivamente me movi para a frente da grande mesa. Minha mão esquerda mais uma vez buscou a bainha de minha espada, e novamente sua falta me deixou frustrado, fazendo-me sentir nu, desprovido de proteção, à mercê de quaisquer poderes que o conde Drácula pudesse tentar contra mim.
Mesmo ele sendo menor que eu na altura e, naquele momento, estando na escada à minha frente, aquele sentimento opressor não se amenizava. Quando a silhueta de Drácula se delineou na curva do L da escadaria, seus olhos ganharam um estranho brilho amarelo. Uma emanação que não encontro outra palavra para descrever, senão espiritual. Como pequenas pedras em sua face que emanavam uma presença aterradora. Naquele momento, meu ceticismo quase cedeu aos mitos contados pelas ciganas das periferias de Paris sobre as lendas dessa terra estranha.
Seu corpo, não muito mais alto que um metro e setenta e cinco, alcançou a luz do andar de baixo, e sua face havia mudado completamente, ganhando ares mais suaves. Seu porte tinha uma elegância incomum, e seu caminhar era calmo, demasiadamente sereno.
— Ora… Devo assumir que este sou. Seja bem-vindo oficialmente ao meu humilde lar. — Vlad tentou exprimir um sorriso que revelou seus dentes, e o que me surpreendeu foram os caninos anormalmente pontiagudos e brancos, similares aos de um lobo. O que me deixou desconfortável, mesmo ele parecendo tentar acalmar-me. — Espero que suas acomodações e alimentação estejam de acordo com seu gosto. Suponho que alguém que venha da cidade grande tenha preferências alimentares mais requintadas, não é mesmo, Anton? — Aquela pergunta me soou estranha, mas até aquele momento minha estadia no Castelo Drácula não havia tido problemas, exceto minha tentativa falha de me comunicar com os empregados.
— Conde, não tive qualquer problema quanto aos aposentos ou mesmo referente à alimentação. Militares se habituam a dormir em catres desconfortáveis, a dormir pouco, e a comer mal. — Recorri à minha honra como soldado para voltar ao meu centro, meu equilíbrio mental. — Aqui está além daquilo a que me habituei nos últimos anos.
Vlad passou as horas seguintes conversando comigo, tratando da cultura local, suas influências, as histórias, e me mostrou alguns de seus títulos favoritos. Nossa conversa foi amistosa, e me senti como diante de um dos mestres da minha antiga universidade, aprendendo o que estivesse ao alcance de minhas faculdades mentais. O tempo, em alguns instantes, pareceu ficar mais lento. A noite avançava vagarosamente, mesmo que a conversa estivesse empolgante, aquela percepção não me abandonava.
O conde realmente era um homem da noite, estava cheio de energia, diferente de seus primeiros momentos naquela sala. Sua oratória, o vasto conhecimento que ele apresentava, me dava a impressão de que alguns dos fatos narrados ele havia vivido. A riqueza de detalhes, a precisão do relato, traziam uma segurança que apenas quem viveu, presenciou e experimentou poderia possuir.
Andávamos por todo o cômodo enquanto conversávamos. Apesar de eu ter despertado antes do galo, realmente podia sentir que não me faltava energia, um impulso, não, uma força me sustentava ali naquela conversa. Parei diante da porta, com ela às minhas costas, enquanto observava Drácula caminhar em direção à poltrona com dois corvos de cabeças voltadas para o assento. Ele se sentou como um rei, cruzou as pernas, apoiou-se no braço esquerdo e repousou um livro sobre a perna esquerda, olhando fixamente para mim. Sua forma de olhar era intimidadora, novamente notei aquele estranho brilho.
Olhei o relógio que carregava no bolso do colete e pareceu-me que eram quase seis horas da manhã do dia seguinte. Meus olhos voltaram para as janelas, onde a luz da lua ainda brilhava intensamente. Caminhei em direção à porta de vidro e, ao olhar para fora, o espanto me dominou. A lua ainda se encontrava no ponto mais alto do céu. O pátio do castelo estava coberto de neve, e a luz que vinha do céu dançava em tons de azul, brindando a neve branca com um belo detalhe.
Subitamente, o ar pareceu ficar denso, difícil de respirar. Olhei para trás e vi o rosto daquele homem pequeno, sentado em sua grande poltrona, com um sorriso arqueado na face, novamente revelando aqueles caninos animalescos, num ar malicioso.
A biblioteca tinha uma pequena lareira na parede à direita da porta de entrada, onde também se encontrava a porta de vidro. Mesmo assim, minha respiração condensou como se eu estivesse ao ar livre. Voltei meu rosto para fora e notei a silhueta de uma mulher parada próxima ao muro. Não era alta, e seus cabelos pareciam longos. Aproximei-me mais da janela para tentar ver melhor, quando a luz da lua recaiu sobre ela, revelando uma pessoa com o mesmo tom de pele do senhor Drácula. Ela deu alguns passos mais para o centro do pátio, evidenciando mais detalhes de sua fisionomia.
Os cabelos eram ondulados, mais longos do que notei inicialmente, de um tom preto similar ao céu noturno. Seu nariz fino e levemente pontudo contrastava com seus olhos grandes, que pareciam ser de um azul claro. Os lábios eram volumosos. Seu corpo era pequeno, esguio e delicado. Sua expressão era apática, distante. Ela olhou para a lua e, assim como o senhor do castelo, pareceu-me exibir uma aura sobrenatural. Seus olhos brilharam num tom branco pálido, mas logo meu ceticismo voltou, e supus que era efeito da luz da lua.
Aquela presença no pátio estava apenas coberta com um vestido de algodão rústico e uma capa transparente. Direcionei minha atenção aos pés dela, que estavam descalços.
Quando pensei em tocar na fechadura para chamar a jovem no pátio, senti algo me impedindo de tomar aquela ação. Mais uma vez, meus instintos soaram em minha mente como trombetas de guerra. Girei nos calcanhares, com os punhos fechados e os dentes cerrados, como se estivesse pronto para receber o primeiro golpe. Assim que o fiz, um vento gélido invadiu o ambiente, a lareira apagou, sobrando apenas a iluminação natural vinda de fora que, ao passar pelos vitrais, deixava o ambiente num jogo de vários tons de azul. Foi então que, ao abrir meus olhos, notei três pares de olhos me observando. O único que reconheci foi o que havia visto nos olhos do conde, que ainda se encontrava sentado em sua poltrona. Os que vi no patamar eram vermelhos com toque âmbar, enquanto os que estavam próximos à entrada que conduzia ao interior do prédio eram de um tom vermelho como brasa viva.
Ouvi um grunhido de feras ocultas na escuridão. Sentia a adrenalina subir e inundar cada parte do meu ser. Minha respiração ficou rápida e as batidas do meu coração eram palpáveis dentro do peito.
Então, o silêncio. A escuridão. O vazio apagando cada um dos meus sentidos. Sobrando apenas o impacto oco do meu corpo contra o chão de madeira do castelo.
Para meus registros finais nestas folhas deste último evento, não me pareceu ter levado mais que alguns poucos minutos, segundo minha percepção. Corrijo, o que recordo destes últimos momentos é como um pesadelo sombrio e muito vívido. Não consigo confiar em minhas memórias desta manhã, ou noite. Existe algo que me obscurece a razão, que me desafia a duvidar dos fatos. Será que o que vivenciei naquela manhã, ou noite, era real? O que vi foi realmente um fato? Quem era aquela jovem no pátio? Será que fiz a escolha correta de vir ao meio do nada em Bram, no centro da Europa?
Leia mais de As Crônicas do Castelo Drácula:
Diário de Anto Stefan Miahi
15 de junho de 1871 - Volto uma vez mais a este caderno velho e surrado. Talvez já tenha se tornado um hábito, colocar nestes diários minhas angústias e…
Imagem criada pelo autor, com CanvaIA
Diário de Anto Stefan Miahi
(Notas em meu caderno)
15 de junho de 1871 - Volto uma vez mais a este caderno velho e surrado. Talvez já tenha se tornado um hábito, colocar nestes diários minhas angústias e pensamentos, e eventuais alegrias nessas páginas. Já não sei quantos escrevi, em meu escritório devo ter uns quantos armazenados na velha estante no lado esquerdo da mesa de trabalho, junto com meus livros queridos.
Já faz algum tempo que me correspondo com uma personalidade do meio leste da Europa, devo ter em minha maleta neste momento umas três cartas e pelo menos dez telegramas. Segundo as correspondências temos afinidades intelectuais. Algo poderoso em cada uma delas me compelia a responder, uma sensação indescritível, mas aqui tentarei traduzi-las. Devo dizer que o que senti era provocante, uma emoção que me deixa ainda agora agitado, ansioso, como se ali houvesse um feitiço e a cada palavra… Não! A cada onda das letras, elas estavam me atraindo, conduzindo minha existência, e por fim, a guiar minhas mãos para responder tão rápido quanto me fosse possível. Senti como um apaixonado respondendo a amante, numa carta secreta, contando segredos obscuros. Por vezes como uma inocente criança confessando à mãe seus feitos do dia com total inocência e despretensão.
Inegável que ao terminar, o ar que saía dos meus pulmões era como se estivesse libertando minha alma de dentro de um cativeiro do qual naqueles momentos não tinha como sair, e que a chave para tal era colocar o ponto final naquela folha, branca e inocente.
Após alguns minutos. - Após uns quantos chacoalhões da carroça e algumas tantas maldições proferidas, assim como insultos ao cocheiro e seu amigo, pude retomar os pensamentos aqui nessas páginas.
Para uma pessoa como eu; que sou dado às letras, ao pensamento, aos livros; me ver às voltas com uma baioneta em mãos, preparando o mosquete, e ouvindo o estrondoso som das explosões e o zunido dos projéteis voando por sobre a cabeça, realmente foi inesperado para assombroso. Uma completa mudança de ares.
Isto já se converteu em rotina realmente, estar com o lápis em uma mão e um caderno na outra, ainda mais após meu regresso daquele infame conflito entre os poderosos, Bonaparte e Frederico.
O cheiro da pólvora, das cinzas e do sangue ainda atormentam meu nariz e, os gritos, a minha memória. Campos verdes agora desfigurados, marcados e banhados com sangue de homens valentes e covardes, astutos e ignorantes, de amigos quanto de inimigos.
Faz um pouco mais de 3 dias que me encontro dentro desta repugnante carroça, e ainda me faltam um dia e umas quantas horas para chegar ao meu destino.
Escutando o condutor, um homem velho e rechonchudo, com uma barba malfeita, com uma semicalvície que ele oculta com um chapéu velho e sujo. O que lhe falta de altura compensa com o falatório. Enquanto seu amigo, que vai sentado ao seu lado direito, é alto, esguio, tão quieto que parece morto. Seus olhos cansados, e a cara de quem não quer nada com nada, não fazem jus a sua força física jovial, lançou as malas que eu levava com apenas uma mão para o alto da carruagem, e para o cúmulo repetiu a façanha com as de uma jovem senhorita com seu irmão e cuidadora que me acompanharia nessa viagem.
Pelo que pude notar a conversa de ambos não passava de, - “Adrian” - esse parecia ser o nome do homem alto e silencioso e do cocheiro pelo que percebia era Loui. - “Clarice não me deixou quieto, só por causa que me encontrei com os rapazes da estalagem para beber…” após isso me dei conta do quão desinteressante eles eram.
16 de junho de 1871 - Ontem à noite comecei a escrever e, ao relatar os fatos, terminei por cair em devaneios sobre o cocheiro e seu amigo, mas devo dar alguns pontos importantes a estes meus relatos. Acho que o cansaço e a monotonia da paisagem me levaram aos braços de Morpheus.
Retomo então para as minhas ideias originais.
Há um pouco mais, ou menos, não tenho certeza, de um mês, recebi minha última carta dele, dando as indicações e detalhes para minha viagem até sua terra. Com tantos preparativos para essa jornada, ainda mais depois de regressar da guerra, e mal ter pisado em Paris, já me aventurar novamente, tira o fôlego de qualquer um. Acabei não fazendo um registro justo e detalhado deste fato crucial nos dias anteriores.
Seu remetente era de uma parte de um país esquecido pelas divindades. Romênia. Um lugar cheio de uma mística, de umas quantas lendas, verdadeiro centro de contos. A história da região contada pelos ciganos é realmente impressionante se fosse crer em tudo o que dizem.
Devo acrescentar que é um texto elegante aquele que encontrei naquelas duas páginas, além de uma caligrafia impecável, da parte de um tal Conde Drácula. Suponho ser uma pessoa realmente culta, douta, pois em sua carta não notei um erro de sintaxe ou de modismo populares, pois sendo romeno, escreveu com exímia clareza, em um francês belíssimo. Isso me encantou, mesmo que minha área de entendimento fosse a História, os fatos, os heróis, aquelas palavras me cativaram de uma forma que apenas meus escritores favoritos poderiam.
Um convite para uma visita para explorar a história local, e acessar livros, ter contato com documentos exclusivos, e segundo o que dizia na carta, ter contato com um outro estudioso da história e da sociedade.
Paris estava um caos, e eu, só queria uma boa desculpa para pegar minhas coisas e sair daquela cidade infernal. Essa é uma oportunidade que não posso me negar. Corri para organizar minha partida.
18 de junho de 1871 - Cheguei hoje no meio da tarde, por volta das 15h, à região de Bram e há coisas que devo realmente relatar do dia de hoje nestas páginas.
A vista era montanhosa, com pequenas cidades sombrias e tristes, nos tons de cinza, marrom e branco, óbvio que aqui faz um frio de doer os ossos. O clima frio e severo do lugar não é convidativo, mesmo nosso cocheiro falante rendeu-se ao silêncio no trecho final da corrida. Todos tentavam manter a cabeça calma, e o corpo quente, por sorte a companhia de dentro da carruagem não era de todo ruim. A jovem, com sua dama e o acompanhante tinham consigo um pouco de vinho de Lyon.
Um breve comentário sobre os que estavam dentro da carruagem, a jovem, com olhos azuis, tinha cabelos negros bem amarrados numa trança perfeitamente trançada, o rosto denunciava sua pouca idade, passava muito tempo observando o exterior; enquanto aos que a acompanhavam: era uma senhora magra com rosto severo, loira, com cabelo abaixo dos ombros, de olhos verdes, tinha um crucifixo grande de madeira em seu pescoço, onde ela por várias vezes o buscou, como quem deseja receber conforto; enquanto ao cavalheiro, um tanto jovial, mas já passava dos trinta anos, suas roupas bastante elegantes, bem cuidadas, pele branca, com um bigode bem tratado adornado por bochechas rosadas, obviamente pelo frio e pelo vinho, o que deixa ele com aspecto ainda mais bonachão.
Nos primeiros dias pude conversar melhor com o cavalheiro, apesar de suas roupas, era uma pessoa simples e sociável, já a sua companheira por outro lado beirava o fanatismo quase igual aos jacobinos, por vezes intragável. Quanto a jovem, bem, tratava das coisas de seu tempo.
Eu, o sargento Anto Stefan Miahi, um historiador e militar, agora estou no meio das montanhas da Romênia, na intenção de mudar meu próprio rumo de vida. Longe de casa e outra vez com a promessa de ser reconhecido. Devo ter inalado muita fumaça de canhão.
Assim que cheguei a Bram, tive a infeliz surpresa de que teria que trocar de carruagem. Acabei numa conversa assombrosa com os condutores.
— Mas senhores, segundo minhas fontes, estamos a menos de duas horas de alcançar nosso objetivo. — Supliquei aos dois cavalheiros sentados no coche quase se abraçando para manter os corpos quentes, seus rostos estavam quase vitrificados de tanto frio.
— Senhor, sinto dizer que nem Jesus nos fará subir o caminho proposto. — Falou Adrian com uma voz trêmula, parecia um baritono, abraçando a si mesmo, com as mãos dentro do casaco negro que vestia.
— Sinto dizer que nem por minha mãe vou por este caminho, o senhor não viu enquanto vínhamos para esta cidade perdida de Deus? — A pergunta de Loui com uma voz rouca de quem bebia e fumava sem qualquer controle, mas me fez lembrar de algumas coisas. Todos com que cruzamos na estrada fazia o comumente sinal da cruz. Em seus rostos havia apenas uma expressão de angústia e desdém.
A conversa não avançou além deste ponto, e assim terminei no meio de um povoado estranho, que me olhava à distância como se eu tivesse alguma praga, ou estivesse acompanhado do próprio demônio.
Não demorou para que um velho senhor viesse pela estrada, arrastando seu corpo cansado, com um rosto de poucos amigos.
— O senhor vai para o castelo? — Perguntou avançando lentamente, sem olhar para qualquer lado. Ele para a minha frente, ele apenas move os olhos na minha direção, sinto que aquele olhar vai além de me ver.
— Sim, sim, eu vou! — Tentei simular meu melhor sorriso, mas algo no meu interior dizia que seria um esforço inútil.
Ele voltou a olhar para frente, baixou a cabeça, cuspiu no chão em frente aos meus pés, o que me fez dar um passo e meio para trás, mas antes mesmo que eu pudesse dizer ou fazer em resposta aquilo, o senhor se virou para mim, e logo estendeu os braços e agarrou minha mão direita. Naquele ato ele me entregou um colar de tira de couro com uma cruz de madeira rústica. Ele recolhe os braços para junto do corpo, rapidamente com sua mão esquerda ele tira seu gorro azul, e faz o mesmo sinal que vi na estrada quilômetros atrás.
De Anto Stefan, 18 de junho de 1871
Boa noite, meu estimado amigo, Maurice!
Como tem passado?
Já faz alguns dias que parti e espero que tudo esteja na mais perfeita ordem na nossa amada Université de Paris.
Agora são 22h, deste mesmo dia, após me estabelecer melhor pude retornar a este meu diário, pois ainda me sinto incomodado com os eventos até o presente momento.
Após aquela cena rara com aquele senhor na vila, ouvi o som do relincho dos cavalos, além do estalar de um chicote, não muito longe, descendo a estrada que eu deveria tomar.
O senhor deu meia volta nos calcanhares sem que eu notasse e tomou um caminho contrário, quando me dei por mim, apenas vi suas costas ao longe desaparecendo no meio do povoado.
Não demorou muito para que uma carruagem surgisse ao longe. Ela tinha uma pintura preta, e quanto mais perto chegava melhor eu podia ver os detalhes de suas estruturas, como cortinas vermelhas iguais a brasa viva, janelas adornadas com bordas de prata, e quatro cavalos negros maiores dos que eu havia visto na guerra. Pararam ao lado de onde eu estava. O cocheiro tinha seu rosto coberto por um cachecol vermelho escuro que deixava sua respiração passar e condensar o ar, suas roupas eram de couro tingido de preto, e um chapéu de abas largas e um trio de penas adornando. Os olhos dele eram soturnos, frios, parecia que para onde ele fosse olhar poderia congelar.
— O senhor se chama Anto Stefan Miahi? — Uma voz grossa que era abafada pelo cachecol deu para ser ouvida.
Ele nem esperou minha resposta e saltou da carruagem. Um homem alto, o pouco de pele que se podia ver, era branca, tal qual mármore, magro, de braços longos, e um cabelo comprido, de um castanho claro. Agora que ele estava mais perto, deu para ver a cor dos olhos dele, num tom verde e amarelo.
— Sim, sou eu. — Respondi o mais prontamente que me foi possível — Você é o cocheiro que vai me levar até o Castelo, do Conde? — Mesmo para um homem como eu experimentado na guerra, que viu coisas horríveis, aquela presença era intimidante.
Ele apenas assentiu com a cabeça de maneira positiva, e logo foi pegando as duas malas que estavam no chão ao meu lado. Num piscar de olhos ele as colocou no teto e já abria a porta para que eu subisse, sua agilidade fugia claramente do normal.
A viagem foi no mais profundo e mórbido silêncio, a monotonia reinou plena nas horas que se seguiram.
Um tempo depois, ouvi duas pancadas ocas no teto do carro. Abri a janela da porta e coloquei a cabeça um pouco para fora, o suficiente para poder ouvir e ver.
— Mais à frente já podemos ver o castelo, senhor Miahi. — Pude escutar a voz gutural do cocheiro que com sua mão esquerda aponta para frente uma série de pontos brilhantes, ainda distantes, dentro de uma sombra imensa, que tão pronto começou a parecer com uma estrutura, e não demorou muito para delinear a construção em si.
Alguns minutos mais tarde eu estava cruzando um portão de ferro, um portal de pedra, com uma muralha que terminava no que parecia um despenhadeiro gelado. Uma curta passagem que levava à porta principal, num grande pátio, e no seu centro uma velha fonte que agora estava cheia de neve. Mais ao fundo uma outra passagem que levava para o estábulo.
Os cavalos reclamaram quando o cocheiro puxou as rédeas forçando sua parada, ele fez algum som que os animais reconheceram e fizeram silêncio. Aquele homem alto saltou, e quando me dei por mim, ele já havia aberto a porta. Sai tentando absorver todo aquele cenário que beirava o aterrador, sombrio, e belo, com algo de clássico. A arquitetura do lugar era impressionante, mesmo já quase estando todo o ambiente submerso na escuridão.
Quando olhei o horizonte e vi na linha das montanhas o sol lentamente desaparecer, foi que eu ouvi o som das malas tocando o chão e a porta de madeira maciça ranger loucamente, como se gritasse. Nisso uma sombra se projetou dela. No alto de uma escadaria espaçada que conduzia para uma porta de umbrais de madeira grossa, com entalhes que já não podia ver bem, em tom natural, e em cada folha o que pareciam desenhos em baixo relevo.
A porta ficou completamente aberta, a luz dentro era amarela e forte, deixando apenas ali a silhueta de uma pessoa alta, coberta por algo que parecia ser uma capa, e uma voz se projetou. Algo nela me fazia recordar as mesmas sensações que eu sentia ao ler as cartas e telegramas do Conde Drácula.
— Já é noite meu jovem. As noites nessas paragens podem te matar numa única mordida. — Houve uma risada baixa ao final da frase.
— Certo… Claro! — Me apressei em subir as escadas, me esquecendo das maletas perto… bem… não sei em que momento ele havia subido na carruagem, porque quando me dei conta apenas ouvi o relincho dos cavalos, o som do ranger da madeira e um estalo agudo. — Deixe-me pegar as maletas, senhor, e logo vou apertar sua mão.
Por mais atrapalhado que pareça, tentei manter a pose diante de quem quer que fosse que estivesse ali observando no alto da escada com aquela postura imponente e sombria.
Assim que recolhi minhas coisas, já não havia mais luz do sol, neste momento olhei para o céu instintivamente, quando me deparei com aquele mar de estrelas, por um breve momento senti que o chão em meus pés estava desaparecendo e eu caia, foi então que senti em minhas costas um toque suave, gentil, e um rosto estava para se revelar a mim, quando apenas senti que caía num sono prazeroso, um abraço bem-vindo.
Maurice, há algo raro e estranho neste lugar, dentro deste quarto tão suntuoso, mas ao mesmo tempo tão frio, o carmesim das cortinas da janela, o roxo dos cobertores e travesseiros, a pedra cinzenta das paredes e a madeira dos móveis, parecem não vir deste mundo. Mais estranho é que senti essa emoção inquietante desde o momento que passei os portais do muro desde a construção belíssima de tão sombria. Existe um ar que me absorve e me acorrenta aqui.
Bem, já não vou mais importuná-lo nesta carta com estes detalhes anormais, aguarde minhas próximas cartas ou telegramas.
Desde já desejo a você, meu amigo e mentor das artes da história, toda a boa sorte.
De seu velho amigo, Anton.
PS.Sempre, “Hic et ubique terrarum” (“Aqui e em qualquer lugar do mundo”) carregando o lema de nossa amada instituição no coração e na mente.
Leia mais desta autoria:
LXXIV
Na noite perpétua, onde as sombras doudejam | Os corvos ecoam em negra melodia | Sob o manto estrelado, a solidão reina | E o coração se perde na escuridão vazia…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Na noite perpétua, onde as sombras doudejam
Os corvos ecoam em negra melodia
Sob o manto estrelado, a solidão reina
E o coração se perde na escuridão vazia
Na morada dos lamentos, a aflição reina
Almas desalentadas buscam abrigo
Sob o manto da noite, a verdade se divide
Entre ruínas e brumas, o tempo perpassa
O testemunho do passado nas linhas dos epitáfios
No ressoar dos suspiros noite adentro
Num cenário de sonhos despedaçados.
Leia mais deste autor:
LXXVI
Na noite de sombras imprescritíveis | Onde os pesares ali regem | O vazio do tempo, a dor sem cura | Na alma perdida entre estrelas, a busca pela expiação de sua agonia…
Criado para o Castelo Drácula com Midjourney
Na noite de sombras imprescritíveis
Onde os pesares ali regem
O vazio do tempo, a dor sem cura
Na alma perdida entre estrelas, a busca pela expiação de sua agonia
Entre paredes de pedra, ecos do distante passado
O suspiro daqueles corações inocentes
Indo para além da solidão, o sutil encontro com a vil lâmina
Na angústia existencial, as lembranças de profunda aflição
No abismo do ser, o anseio pela absolvição dos pecados
O sentido da vida se esvai como a neblina na manhã
Após emergir a luz, se desfaz a escuridão dos teus pensamentos.
Leia mais deste autor:
VIII
Espectro insensível | Expressão da corrupção | A visão alucinada do coração | Desvela as minhas emoções…
Imagem criada pelo autor com IA
Espectro insensível
Expressão da corrupção
A visão alucinada do coração
Desvela as minhas emoções
A descoberta de minhas dores
Em meio a artimanhas
Da quimera do coração
A visão da Alva
Raiar da minha esperança
Sensação de tocar a salvação
Redenção para o pecador
Leia mais deste autor:
VII
Nestas linhas, abjurações | Vagas promessas | Desapegos à vil existência | Conflituosas as emoções dentro do peito…
Imagem criada pelo autor com IA
Nestas linhas, abjurações
Vagas promessas
Desapegos à vil existência
Conflituosas as emoções dentro do peito
A frialdade de seu coração
Ante a amarga verdade
Da passagem do tempo
Efêmera mortalidade
Abreviado seu momento
Estilar sobre a lembrança
Num angustiante final
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…