O Espelho do Vazio

O mímico se arrasta, | não há luz o tocando, | um vulto na escuridão, | um sussurro silencioso. | Sua face é uma máscara sombria, | imitando o mundo com…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O mímico se arrasta,
não há luz o tocando,
um vulto na escuridão,
um sussurro silencioso.

Sua face é uma máscara sombria,
imitando o mundo com suas mãos vazias,
mas o que ele reflete
não é vida, tampouco a morte,
é algo entre o tudo e o nada,
momentos perdidos nas linhas do tempo. 

Ele te observa,
seus olhos são como espelhos,
onde o teu reflexo se perde,
onde o teu medo se esconde,
onde teu silêncio se quebra.

No palco de sua vida,
ele dança sem motivos
uma coreografia macabra,
movimentos sem alma e sem cor.

E quando ele te estende as mãos,
não é para te tocar,
mas para consumir o que resta de ti,
uma fome que não cessa,
uma sombra que não morre.

O mímico é o vazio que respira,
uma entidade que se molda no escuro,
sempre esperando
pelo momento em que será parte de seu show.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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As Figuras Macabras do Wonder Teatro

O Wonder Teatro era um mausoléu vivo. Suas paredes desmoronadas e sujas de poeira eram como pele envelhecida, rachada e morta…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O Wonder Teatro era um mausoléu vivo. Suas paredes desmoronadas e sujas de poeira eram como pele envelhecida, rachada e morta, cobertas por sombras que dançavam à luz bruxuleante dos poucos holofotes acesos. O ar era denso, impregnado de um cheiro ácido de mofo e tempo apodrecido. Mesmo antes de atravessar as portas, sentia a opressão deste lugar, como se o próprio edifício sussurrasse segredos sombrios, desejando me engolir. 

Quando entrei, o silêncio se estendeu sobre mim como um manto pesado. Havia outros, sim, esperando suas audições, mas nenhum deles parecia realmente presente. Eles estavam ali, sentados nas poltronas desgastadas, mas seus olhares estavam fixos no vazio, nas sombras nascidas entre os feixes de luz do palco. 

Enquanto esperávamos, algo estava errado. Uma sensação de desconforto percorreu minha espinha, e eu senti, lá no fundo, que não deveria estar ali. Mas o desejo de ser escolhida, de provar meu valor, me segurou firme. Foi quando o vi pela primeira vez: um homem estranho e sombrio, figura pesada, vestido com um terno desbotado e remendado. Seu rosto estava pintado de branco, o sorriso congelado e terrível, esticado de uma orelha à outra como se fosse cortado a faca. Seus olhos, negros como breu, estavam vazios. Ele estava ao fundo, imóvel como uma estátua de mármore, mas parecia um mímico. 

Eu tentei desviar o olhar, mas era como se ele tivesse me enfeitiçado. Seus olhos, mortos e profundos, cravavam-se nos meus, e por um momento, tive a impressão de que ele estava dentro da minha cabeça ou torci para isso. 

— Você está bem? — A voz de uma mulher participante quebrou o transe. 

Eu olhei para o lado, forçando um sorriso tenso para a atriz ao meu lado, que parecia preocupada. Seus olhos, no entanto, estavam estranhamente distantes, quase como se ela falasse de forma automática. 

— Sim... acho que sim. Você viu o... — Olhei de volta, mas o tal mímico havia desaparecido. Aquele palco, que antes parecia vazio, agora estava apenas mais sombrio. 

— O quê? — Ela me olhou, franzindo a testa. 

Eu balancei a cabeça, tentando afastar a sensação de estar sendo vigiada. 

— Nada. 

Mas não era "nada". A partir daquele momento, o teatro se fechou ao meu redor, o ar parecia mais grosso, sufocante, cada respiração me prendia mais àquele lugar. E os outros... eles pareciam diferentes. Enquanto os chamavam um a um para o palco, a cada retorno, seus semblantes mudavam, como se algo neles estivesse sendo lentamente arrancado, inclusive aconteceu com aquela atriz que se aproximou. Suas vozes ficavam apagadas, seus olhares mortos, como se tivessem sido tocados pelo mesmo mal que eu sentia rastejar por dentro de mim. 

Finalmente, chegou a minha vez. 

Subi ao palco com os músculos tensos, as luzes ofuscantes piscando fracamente, como se estivessem prestes a se apagar para sempre. Quando comecei a recitar meu texto, algo na sala mudou. A atmosfera tornou-se sufocante, e senti que não estava mais sozinha no palco. 

Eu estava sendo observada. Não somente observada — imitada. 

Olhei para o lado e o vi. O mímico. Estava a poucos metros de mim, cada gesto meu era replicado com uma precisão perturbadora. Seus movimentos eram os meus, mas de alguma forma distorcidos, como se ele estivesse me zombando, exagerando cada curva dos meus braços, cada inclinação da minha cabeça. Seu sorriso era maior, grotesco, quase um grito mudo preso entre seus lábios pintados. 

— Pare com isso! — Gritei, mas minha voz saiu fraca, como se o teatro estivesse absorvendo o som. 

Ele não parou. Ao contrário, continuou imitando até o meu grito. Ele abriu a boca, como se estivesse gritando também, mas sem som. O eco silencioso da zombaria perfurou meus ouvidos como inúmeras facas invisíveis. Aterrorizada, corri meus olhos pelo teatro, buscando uma saída, mas as portas estavam fechadas, e os outros atores… desapareceram, mas eles não estavam desaparecidos, exatamente. Eu sabia que não. 

Quando meus olhos percorreram as fileiras de poltronas, percebi com horror que havia mais deles. Não apenas um, mas vários mímicos, todos agora levantados, saindo das sombras. Eles estavam lá o tempo todo, disfarçados. Cada um imitava um gesto meu, uma expressão. Seus corpos rígidos se moviam como bonecos quebrados. 

— Isso não pode estar acontecendo... — Murmurei, sentindo meu corpo tremer. 

Olhei ao redor e vi um espelho no fundo do palco. Me aproximei, desesperada por qualquer conexão com a realidade, mas o reflexo que vi não era o meu. No vidro sujo e empoeirado, meu rosto estava pálido, com olhos vazios e um sorriso horrendo — eu estava me tornando um deles. 

— Não… não… — Comecei a andar de costas, querendo fugir do espelho, mas o mímico estava logo atrás de mim. Quando virei, ele estava tão perto que senti o frio de sua presença. Ele estendeu a mão em um movimento lento, zombando do meu medo. 

— Quer ser uma de nós? — Ele sussurrou, mas era minha voz que eu ouvia. Ele estava falando com a minha própria voz, imitando minha entonação, cada sílaba. — Nós todos somos artistas aqui. — Ele riu em tom baixo, um riso infantil, mas que reverberava com crueldade. 

Os outros mímicos se aproximaram, cercando-me lentamente, causando-me um desespero terrífico. Seus sorrisos inexpressivos me cercavam como uma teia. Meus gestos se tornaram automáticos, meus pés imitaram seus passos, e eu já não sabia mais o que era eu e o que era eles. O teatro parecia pulsar, respirar comigo, como se eu fosse parte dele, fundida à sua escuridão. 

— Não há saída. — Disse a minha própria voz, ecoando por entre os corpos pálidos dos mímicos que se contorciam ao meu redor. — Você é uma de nós agora. 

Corri, desesperada, para as portas trancadas. Meus dedos arranharam a madeira, tentando encontrar uma saída, mas era inútil. As risadas aumentaram, ecoando por todo o salão, zombando da minha luta. E, então, eu vi: a chave, brilhando no meio da escuridão, bem no centro do palco. 

Eu sabia que nunca conseguiria alcançá-la. 

Quando me virei, o mímico original estava lá, os mesmos olhos negros e sem alma, o mesmo sorriso devorando seu próprio rosto. Ele estendeu a mão e, antes que eu pudesse reagir, tudo ficou escuro no ambiente. 

Agora, não sou mais eu; sou um reflexo no espelho e, terrivelmente, sou um dos mímicos. Espero a próxima audição de atores neste sombrio lugar. Talvez eu me veja entrar pela mesma porta por onde adentrei. Queria que isso fosse um sonho e que eu pudesse acordar, mesmo que, ao abrir os meus olhos, visse a figura mímica a me observar em meu despertar, sozinha ou acompanhada de outros como ela.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Está chegando a hora!

Em 31 de outubro será lançada a 10ª edição do nosso periódico Castelo Drácula, uma revista digital para apreciadores da Literatura Gótica, do Terror, Horror, Mistério e Fantasia Sombria….

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Em 31 de outubro será lançada a 10ª edição do nosso periódico Castelo Drácula, uma revista digital para apreciadores da Literatura Gótica, do Terror, Horror, Mistério e Fantasia Sombria. Junto desta edição de Halloween, cujo nome é Aborom, lançaremos a edição do Desafio Sombrio, que já conta com mais de 30 envios de autores e convidados. É uma conquista poder comemorar um ano de Castelo Drácula com uma edição dupla cheia de magia e horror. A empolgação irradia de todos os que estão participando com afinco e, principalmente, de mim, que vejo se materializando um sonho que sempre tive: reunir autores, publicá-los, lê-los e me dedicar a eles para vê-los escrever cada vez mais.

Os spoilers já foram dados: a edição Aborom é laranja e vivifica a essência do Halloween que, embora seja uma festividade norte-americana, aqueles cujo coração transborda em trevas não podem ignorar tamanha celebração. Estamos vinculados a Samhain, esta é a verdade, pois somos pagãos, de uma forma ou de outra; ainda que o inverno não se inicie em nosso adorável outubro, sentimos que, em homenagem às energias do inverno em países do hemisfério norte, celebramos para fortalecer a egrégora. A verdade é que, no Brasil, as estações são diferentes, e estamos próximos do fim da primavera. Nosso Samhain deveria ser em março, com suas águas profundas fechando o verão mórbido e trazendo o outono. No entanto, você já imaginou como poderíamos ressignificar o Halloween para nossa cultura? Eu já pensei.

É principalmente por isso que a Edição 10 da revista Castelo Drácula chama-se Aborom. A palavra remete às abóboras, pois a colheita também é feita nesse período no Brasil. Este vegetal é representativo também no Halloween norte-americano. As abóboras não são tão fãs de climas profundamente frios, então combinam com a primavera brasileira, que, em alguns estados, é quente e úmida, embora não tão quente quanto o verão, quer dizer, às vezes é. Nossas estações são quentes, quase sempre. O calor é nossa maldição, e é por isso que Aborom é de um laranja intenso, lembrando um entardecer melancólico de calor.

Aborom é o nome que dei para esse festim que acontece todo 31 de outubro — que, na verdade, acontece em minha mente e pude trazer para vocês através do Castelo Drácula. Nele, unimo-nos com aqueles que importam, cozinhamos receitas ancestrais com abóboras e grãos integrais rústicos, frutos de nêsperas, acerolas, mangas e jabuticabas, especiarias moídas: cumaru, açafrão e folhas de manjericão. Relembramos momentos especiais sentados à mesa, dançamos ao som de músicas estranhas e consultamos nossos oráculos das cartas, para que possamos entrar com sabedoria no período de transição que se inicia em novembro. Novembro e dezembro são meses de profunda reflexão; neles, uma melancolia de fim de ano se esparge e, em Aborom, são compreendidos como um período importante para nossa individualidade e nossos vínculos. Foi assim que ressignifiquei o Halloween. Uma tradição única e incrível, não acha?

Talvez você acredite que isso não tenha a ver com os brasileiros; no entanto, tudo começa pela literatura. Nela vivenciamos o que faz sentido para nós e a tornamos real. Tudo o que crio e compartilho por aqui é para ser apreciado por aqueles que veem sentido em cada detalhe, e sei que alguém, além de mim, verá. Em Aborom, há a brincadeira comum de "doces ou travessuras", onde usamos roupas e máscaras para assustar os familiares e amigos que não levam doces para a celebração. É uma recreação que acontece nesse dia. Debaixo do fim da primavera, próximo ao verão, festejamos em Aborom.

Dia 31 de outubro você fará parte dessa festa apreciando a Edição 10 da revista mensal Castelo Drácula. E, depois de apreciá-la em todo o seu encantamento sombrio, poderá dizer se não é, pois, a festa mais fascinante de Halloween que você já viu! Melhor do que o Halloween, melhor do que Samhain. Estamos em Aborom!

 
 
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Entidade

Na fria balada da noite, sob o manto da neblina | Surge figura soturna, felina. | Com sorriso aberto, nova vítima procura. | Caçada furiosa empreende…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Na fria balada da noite, sob o manto da neblina
Surge figura soturna, felina.
Com sorriso aberto, nova vítima procura.
Caçada furiosa empreende, mediante animalesca busca 

Sem uma única palavra causa pânico e terror
Sangue-frio, entidade de puro horror
Sorriso amarelo, doentio e inebriante
Que rasga tecidos, causador de dor excruciante

Ameaça misteriosa torna a desaparecer
Assim que a mãe noite começa ao horizonte perecer
Assim, poderoso astro-rei desponta
Riso macabro, por fim, encerra sua afronta.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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