Abram a porta

Trabalhar era meu refúgio. | Eu via pessoas e conversava. | Me distraia, | Sorria... | Mas o mundo parou, | Silenciou | E diante de tanto horror, | Se trancou…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Trabalhar era meu refúgio.
Eu via pessoas e conversava.
Me distraia, 
Sorria...

Mas o mundo parou,
Silenciou
E diante de tanto horror,
Se trancou.

Mas o que eu faria
Ali sozinha,
Com o que mais temia:
A velha da minha tia.

Há tempos acamada,
Face que me aterrorizava
Voz cavernosa,
Chorosa e pegajosa.

Presa nesse pesadelo de vida,
Acompanhando pela Tv
Tantas vidas perdidas
Sem ao menos uma despedida.

Sem trabalhar,
Tendo que dela cuidar,
Lamentava ensandecida.

Enfim a epifania!
Uma vida moribunda
Pela minha,
Pela sua.

O Diabo deveria aceitar
Ficar com ela e nos salvar
Precisamos abrir as portas.

Tal qual não foi minha surpresa,
Quando no dia seguinte,
Sentada à mesa,
Minha tia estava a fumar?

Por um golpe do destino,
Seu fantasma agora era inquilino
Do que deveria ser meu lar.

O inferno estava lotado.
Não houve barganha,
Nenhum trato.

E até que o mundo padeça
Ou se recupere, não tenho certeza
Pode ser que eu enlouqueça
E esta vida passe a aceitar.

Enquanto isso não acontece
Ela está aqui a me torturar
Uma alma que, por muito tempo, esteve calada,
Agora me despeja toda sua raiva.

Sem ter para onde ir,
Esperando a porta abrir
Inalo fumaça de um fantasma.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

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O fim dos tempos

Quando o lockdown começou, muitos falavam sobre o fim dos tempos; como negar isso? Eu via apenas o nada lá fora, apenas fragmentos de uma…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Quando o lockdown começou, muitos falavam sobre o fim dos tempos; como negar isso? Eu via apenas o nada lá fora, apenas fragmentos de uma realidade deturpada. As janelas agora não serviam mais para que eu pudesse observar o que acontecia lá fora; o próprio silêncio suspenso parecia me observar, o mundo parecia congelado. Um novo vírus, diziam. A televisão mostrava as mesmas notícias de sempre, pedindo que nos mantivéssemos em casa, calmos, pois logo tudo ia acabar. Mostravam que o “novo normal” era apenas uma tela de mentiras. Houve o primeiro dia de lockdown, o isolamento social era obrigatório e todos deveriam seguir as normas, e, no terceiro, o silêncio começou: ninguém parecia mais falar ou ser visto pelas janelas. Ruas vazias, comércios fechados, o trânsito parado — somente o nada e o silêncio absoluto. Minha curiosidade era intensa, mas eu conhecia as regras: “Não saia de casa!” Então as segui à risca. A mídia transmitia o mesmo discurso repetidas vezes, um toque de recolher absoluto, segundo as autoridades, mas ninguém sabia o que acontecia com aqueles que decidiram desafiar as regras. 

Em alguns canais, líderes religiosos diziam que a humanidade precisava de purificação, pois estávamos sendo preparados para algo grandioso. E nas redes sociais, mensagens surgiam. Havia aqueles que diziam que o Salvador havia voltado e que os que sumiram estavam sendo arrebatados. Era essa a explicação? As autoridades faziam vista grossa para esses desaparecimentos e sugeriam que eram pessoas que desobedeceram ao isolamento, mas que logo isso seria resolvido. À noite, eu ouvia sons quase imperceptíveis, ruídos estranhos, pulsantes, como se viessem de algum lugar acima do meu prédio. Todos os dias esses sons ficavam um pouco mais altos e mais próximos. Em uma noite, observei algo pela janela: um raio fino e muito luminoso cortava o céu, atingindo algo na rua de trás. Noutra noite, recebi uma mensagem de um amigo que dizia: 

“Já percebeu que nada mais parece real? Que os programas de televisão estão só repetindo um mesmo padrão, como uma máquina tentando parecer humana?” 

Eu não tinha certeza do que ele estava falando; imaginei ser uma nova teoria da conspiração que ele estava acompanhando. Mas, como eu não tinha muito o que fazer, comecei a prestar mais atenção nas notícias, e a cada dia elas mostravam os mesmos rostos, e rostos muito semelhantes, dizendo sempre as mesmas coisas, mas de maneira diferente: “Aos poucos, as coisas vão se normalizando; em breve tudo voltará ao normal.” Entrei em um fórum online e encontrei outras pessoas que também haviam percebido essas discrepâncias. Parecia um padrão de controle, uma ilusão para nos manter calmos. Eles queriam que tudo parecesse normal, enquanto alguma coisa lá fora parecia fazer algum trabalho sujo. O isolamento social inicial parecia que era para nos proteger de algum vírus, de uma praga moderna, mas parecia também nos proteger de algo pior, e eu me perguntava o motivo disso. Ninguém que saía voltava, e ninguém parecia se perguntar o porquê disso. 

Uma noite, ao abrir o fórum, vi uma postagem: um usuário dizia ter testemunhado o arrebatamento do outro lado da rua. De acordo com ele, uma figura luminosa apareceu e levou para o céu todos aqueles que saíram para a rua. Alguns concordavam, citando versículos bíblicos e dizendo que todos seriam levados em um piscar de olhos. Mas eu sabia o que eu tinha visto; eu vi um raio luminoso e não uma figura luminosa, e me perguntava se esses raios que apareciam não eram parte de algo muito mais assustador. Quando os dias viraram semanas, algo ficou mais claro: o mundo lá fora não era obra de Deus. Aquele novo normal que a TV mostrava, como se as coisas tivessem voltado ao normal, parecia agora uma paródia sinistra. E cada vez mais eles queriam que acreditássemos que as pessoas desapareciam porque eram escolhidas, que o Salvador havia voltado e que tudo estava bem. 

Então veio o que parecia ser a verdade. No fórum, um vídeo foi compartilhado. Na tela, meu amigo, que desaparecera após sair de casa, aparecia no canto de um beco, escondido atrás de um monte de entulho. Ele falava sussurrando, olhando ao redor com os olhos arregalados, o rosto muito pálido. 

“Isso não é o fim dos tempos, não é o arrebatamento. Eles estão aqui, eles querem a Terra para si, mas não nos querem aqui. Todos os ruídos, o lockdown, a mídia… tudo isso é só uma forma de limpar o terreno. Eles analisaram todas as nossas redes, sabem no que queremos acreditar e estão usando tudo contra nós, controlando as mídias, fazendo tudo parecer normal. Mas se você sair para a rua, você será...” 

O vídeo terminou com um raio de luz atravessando a tela e um grito que eu nunca mais vou esquecer. Então eu entendi que a Terra era um bem precioso para “eles”, mas nós éramos criaturas indesejáveis que a habitavam. “Eles” não eram Deus; ninguém tinha voltado para nos salvar. E o confinamento era o que nos mantinha a salvo. Eram as paredes que nos protegiam... mas nos protegiam do quê? 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

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Plácido

Desde que entramos em quarentena, nunca mais fomos os mesmos. Dia após dia, nossa sanidade foi cruelmente usurpada pelo desconhecido…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Desde que entramos em quarentena, nunca mais fomos os mesmos. Dia após dia, nossa sanidade foi cruelmente usurpada pelo desconhecido. Sem que pudéssemos revidar, fomos algemados pelas perversas mãos do invisível, aprisionados em nossas próprias casas. Ao mesmo tempo, a falsa ideia de “proteção” nos dava algum consolo. 

Enquanto isso, o terrífico vazio reina imponente sobre os escaldantes paralelepípedos; os únicos sons que se ouvem são o soprar da brisa marítima, que parece vir das profundezas do mar, espalhando os grãos de areia por todas as esquinas e ruas, precipitando-se por entre as frestas dos desgastados paralelepípedos. 

Minha casa fica em uma íngreme ladeira, próxima à placa de boas-vindas da vila. Devido à impiedosa maresia, não é possível mais ler a placa, mas, com muito esforço, é possível enxergar entre a ferrugem a vogal “P”. 

Minha casa é simples, assim como todas as outras. Possui um terraço feito de cimento queimado, uma rede dobrada sustentada por antigos armadores e uma cadeira de balanço. A sala é de bom tamanho; um sofá marrom de camurça ocupa o centro, próximo à porta, junto a uma poltrona, e em frente ao sofá há um rack com uma televisão de trinta polegadas. Acima do rack, algumas lembranças em fotografias. Mais à frente, uma mesa talhada em imbuia com quatro cadeiras. À esquerda, os quartos; à direita, uma cozinha. 

Por minha casa ter uma boa localização, consigo enxergar quase toda a vila e sua natureza exuberante. A vila é cercada por imensas falésias cobertas de gramíneas, e acima delas, belos e frutíferos coqueiros bailam suavemente perante os ventos. 

Vivo sozinho desde o fatídico dia em que minha família precisou fazer uma viagem de emergência, dois meses antes do isolamento. Nosso primo havia passado muito mal, acometido por um grave quadro de arritmia, e precisou ir ao hospital o mais rápido possível. Fiquei cuidando da casa; eles confiavam muito em mim. Toda noite, porém, sou assombrado por devaneios. Será que estão bem? Como anda a saúde de meu primo, a quem tenho tanta estima? Será que estão vivos?... Se algum dia tudo voltar ao normal, tentarei ser uma pessoa melhor. 

Os dias são iguais; tudo se tornou monótono, como um interminável e solitário entardecer de domingo. Às vezes ligo a televisão, mas as notícias são desanimadoras, o alerta para não sair é torturante. Apesar de ser uma vila muito afastada, não irei arriscar sair e algo acontecer. Ouço com apatia o tique-taque do relógio, que anuncia a chegada de mais um anoitecer. 

A noite se tornou para mim o pior momento do dia. É desconfortável olhar e ver os bancos das praças vazios. Se eu fechar os olhos, consigo ouvir pessoas caminhando, sorrisos, crianças correndo, até mesmo o cheiro amanteigado do carrinho de pipoca. Agora, porém, a desolação ocupa a praça. 

Debruçado na janela, observo com profunda melancolia e recordo com pesar momentos felizes. Meus olhos se perdem naquela rua escura, mas algo me tira do calabouço de memórias: escuto um arrepiante som vindo de alguma das longínquas casas. Era uma porta que acabara de ser aberta; o ranger foi ouvido por toda a vila, e meus olhos arregalados procuram a origem do som, sem êxito. 

Não importa qual seja o motivo — desespero, revolta ou curiosidade — o fato é que há alguém lá fora. Eu ouvia os passos com uma certa fascinação mórbida. Os passos, que começaram acanhados, se tornaram mais acelerados. Em meio àquele breu, os primeiros traços surgiram. Tratava-se de um homem alto, branco, de cabelos curtos, trajando pijamas em tons de bege, que caminhava desorientado. Em determinado trecho, ele parou, olhou para trás e formulou frases inaudíveis. A pálida lua salientava seus olhos apavorados, que pareciam querer saltar das órbitas. Sua expressão terrífica era assustadora. Outros moradores também observavam pelas frestas de suas casas. Ele clamou por ajuda, mas sem êxito; eis que uma voz ecoa, alguém lhe pedindo para que voltasse, mas ele ignorou o pedido. 

Ainda ali, com os olhos imersos na fechadura, noto que o homem continua na mesma posição, mas algo o faz olhar bruscamente para trás. Ele eleva as mãos aos céus, em desespero, e depois baixa a cabeça, lamentando sua escolha. Realmente havia algo lá fora. Ele continuou a correr, falando frases desconexas; sua respiração tornou-se mais debilitada. Prosseguiu por mais alguns metros, mas não o suficiente, pois seus pulmões começavam a falhar. Contemplo enquanto seu corpo lentamente cai de joelhos e, antes de sucumbir, ele profere a seguinte frase: “Não saiam! Pois Ele está à espreita, e quem desobedecer será severamente punido.” Após dizer isso, seu corpo cai sobre os paralelepípedos. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Iter

Não importava que o mundo estivesse em lockdown, Dario passava todos os dias pela curva atrás do mercado. Era o caminho mais rápido…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Não importava que o mundo estivesse em lockdown, Dario passava todos os dias pela curva atrás do mercado. Era o caminho mais rápido para o seu trabalho: o hospital. As ruas, antes cheias de vida e barulho, agora eram corredores vazios, como se a cidade estivesse presa em um pesadelo interminável. Todos aqueles que não precisavam sair de casa estavam dentro delas. As janelas fechadas e as portas trancadas pareciam observar Dario com um silêncio pesado, como se o isolamento tivesse tornado o próprio ambiente um vigia silencioso. Algumas casas, às cinco da manhã, ainda estavam com as luzes acesas. Ou será que seus moradores tinham acabado de acendê-las? 

Dario tinha a impressão de que nunca saberia isso, pois passava exatamente no mesmo horário por ali, e a luz já estava acesa. O vazio ao redor o fazia sentir como se estivesse sendo sugado para dentro da própria monotonia da rotina. Isso ele conseguia aceitar. O que realmente gostaria de saber era por que raios sempre se perguntava a mesma coisa toda manhã? Por quê? Nunca obteria a resposta, a não ser que acordasse antes ou se atrasasse, tendo a imensa sorte de passar por ali no exato momento em que os donos da casa estivessem apagando ou acendendo a luz. Mas, mesmo se descobrisse, isso realmente mudaria alguma coisa? A cidade parecia suspensa no tempo, sem espaço para surpresas, apenas a repetição constante de sua própria solidão. 

Gostaria de ter um amigo matemático só para calcular as probabilidades de isso acontecer. Santo Deus! A tática de pensar bobagens para não pensar no caos e no horror que o hospital estava — com vítimas de COVID que não paravam de chegar, gente morrendo nas filas de espera, a nulidade de leitos disponíveis, e ele arriscando a própria vida todos os dias na linha de frente — estava funcionando bem demais. Que tipo de médico sem coração eu sou? Pensar essas idiotices enquanto tantas pessoas morrem todos os dias, a cada momento... Que babaca eu sou. 

Ele já havia dobrado o plantão, ido para casa, dormido por quatro horas, e ali estava, passando pela curva atrás do mercado. Hoje, a luz da casa rosa não estava acesa. Sentiu-se estranhamente motivado a olhar para as janelas, reparando que eram amplas. Não havia cortinas. Parecia que os moradores tinham se mudado. 

Ou talvez estivessem mortos. Outro dia, ele pensou ter visto um vulto com máscara observando-o lá de dentro. Na ocasião, achou que era coisa de sua cabeça. Ao olhar melhor, viu que as cortinas estavam fechadas, e era apenas o padrão da estampa delas que parecia uma pessoa parada, de máscara, em pé. Sorriu ao perceber que chegava novamente ao impasse de não obter respostas sobre a casa rosa, nem sobre os moradores ou as luzes. 

Na volta do hospital, ele nunca passava pela casa rosa, mas desta vez decidiu passar. Lera certa vez em uma revista de neurologia que mudar os caminhos que percorremos habitualmente pode prevenir ou retardar o aparecimento do Alzheimer. Quando passou em frente à casa rosa, desta vez no lado da pista que ficava ao lado dela, viu que havia alguém sentado nos degraus da varanda. Usava um chapéu de abas largas, roupas pretas e uma máscara de tecido branca. 

Era sua chance! Decidiu frear e parar em frente à casa. Seu intuito era falar com o morador. Se identificaria como médico, essa era a desculpa perfeita. Perguntaria se ele estava bem, puxaria papo e aproveitaria para perguntar sobre a casa. Sim, sim, era o plano perfeito. Foi isso que pensou enquanto apertava o botão para desprender o cinto. Abriu a porta do carro olhando para a maçaneta — sempre evitava contato visual quando pensava no que iria dizer. Porém, ao dar o primeiro passo em direção à varanda, notou que a figura com o chapéu de abas largas já não estava mais lá. Devo estar me esforçando além dos limites do meu próprio corpo, pensou, nem sequer ouvi a figura se levantar, caminhar, abrir a porta e fechá-la. As luzes da casa rosa estavam apagadas. Dario pensou que não haveria mal nenhum em espiar lá dentro, quem sabe descobrisse algo. Dessa forma, ficaria satisfeito e esqueceria o assunto. 

Aproximou-se pé ante pé. Chegou a pensar em parar e retornar para o carro, ir para casa, telefonar para a recepção e avisar que tiraria o dia de folga. O julgamento de Hipócrates o impedia de trabalhar mais. Estava tão estafado que, com certeza, mataria alguém se continuasse a trabalhar. Mesmo querendo ajudar, ele não poderia ultrapassar os limites do próprio corpo. Além disso, aquilo baixaria sua imunidade e ia contra o juramento de Hipócrates. 

Mas só faltava um passo para alcançar alguma visão da janela, e ele continuou. A curiosidade sobre a casa rosa — uma casa que, a princípio, era muito parecida com todas as outras — precisava ser sanada. Ela era como uma coceira em seu cérebro, muito mais torturante que o cansaço que estava sentindo. 

Foi então que ele viu: uma cadeira e uma corda enrolada sobre ela. Somente isso. Não havia mais nada no cômodo, só isso. A porta que dava para o interior da casa estava fechada. Ele sentiu um aperto no peito. Aqueles objetos o levavam a uma conclusão óbvia: a figura de chapéu era alguém que planejava se matar. 

Novamente, Hipócrates o obrigou a bisbilhotar mais. Olhou em direção às casas vizinhas. Já passava da meia-noite, e era época de lockdown. A casa à direita ficava muito distante, e pela janela ele podia ver luzes que pareciam ser de uma TV piscando. A casa à esquerda era amarela, com muitas margaridas plantadas ao redor. Também havia girassóis. Mas, naquele horário, estava tudo desligado e fechado. Parecia ser a casa de algum casal de idosos, que não teria a mínima chance de ouvir nada. Será que algum vizinho sabia o que acontecera com os moradores da casa rosa? Será que havia moradores ou era apenas aquela figura? Porra, eu nem sei se é homem ou mulher. 

Decidiu parar de pensar e agir. Se aquilo que ele presumia fosse verdade — e ele tinha quase certeza de que era —, por que mais alguém disporia aqueles objetos daquela forma? Dirigiu-se até a porta principal e girou a maçaneta. A porta estava destrancada. Um pedido de socorro silencioso? Um grito do subconsciente daquela pessoa implorando por ajuda? Talvez... Seus instintos de médico estavam emergindo. Sentia que, pouco a pouco, estava ativo, desperto e atento. Por isso, ouviu alguém derrubar algo muito pequeno na sala. Talvez, sob outras condições — aquelas de antes do lockdown, quando ele ainda não era o médico fatigado e ansioso de agora —, talvez ele não desse atenção ao pequeno barulho. Começou a suar frio e a se arrepender daquela decisão. Quem quer que estivesse ali poderia ser perigoso e ter a mente perturbada... 

Alguém acertou sua cabeça com toda a força. Dario despertou no carro, fazendo novamente a curva atrás do mercado. Quando seus olhos pousaram sobre a casa rosa, notou que as luzes estavam apagadas. Foi tudo um pesadelo então? A casa, a cadeira, a corda... Ele se perguntava como tinha ido parar ali de novo. O desconforto crescia, e ele decidiu estacionar para verificar. Precisava ver se a cadeira e a corda ainda estavam lá. Seu corpo estava tenso enquanto caminhava. Ao se aproximar da janela, seu coração acelerou: a cadeira e a corda permaneciam no mesmo lugar, dispostas exatamente como antes. 

Desta vez, o medo o corroía de forma diferente. Sua mente gritava para se afastar, para ir para casa. Pensou imediatamente na sua família — e se aquela figura me atacar de novo? Ele imaginou Alícia e sua esposa sozinhas, esperando por ele. Fazia três meses que o lockdown havia começado, e ele mal as via, exceto nas breves horas de descanso. Ainda assim, sentia que sabia mais sobre Mari, a enfermeira do hospital, do que sobre sua própria filha Alícia. Afinal, por que diabos eu não consigo parar? 

Mesmo sabendo o que provavelmente iria acontecer, ele girou a maçaneta da porta com o máximo de cuidado, o coração batendo forte. Sentiu o formigamento nas extremidades, a ansiedade apertando-lhe o peito. Ele respirou fundo e entrou, os olhos escaneando o cômodo vazio. Então, um clarão. E, de repente... estava de volta ao carro, mãos no volante, como se nunca tivesse saído de lá. 

O carro estava em movimento, a caminho do hospital. As ruas estavam desertas, imóveis, como se a vida tivesse sido drenada de cada esquina. Um medo crescente continuava a corroer sua alma. Suas mãos estavam firmemente presas ao volante, mas ele as sentia molhadas, bem como seu peito por debaixo da camisa. As vitrines dos comércios, uma vez cheias de movimento e cores, agora eram apenas silhuetas vazias e opacas, lembranças do que já fora uma cidade viva. Sabia que era por causa do isolamento, devido à pandemia, mas sentia que algo estava errado. 

Olhava para as janelas das casas e, de repente, via diversas silhuetas, todas com máscaras, mesmo dentro de casa. As sombras nos prédios pareciam observá-lo de dentro dos apartamentos escuros, como se o vazio da cidade o julgasse silenciosamente. O medo imperava em cada olhar; as ruas, sem alma, pareciam conspirar contra ele, como se a própria cidade quisesse expurgá-lo. Por que todos estavam observando o seu carro? Eram olhares de julgamento. Mas eu sou médico, caralho! Estou fazendo a minha parte. Olhou para o timer do painel do carro; eram 13:36 da tarde. A essa altura, Alícia e Rebeca já teriam almoçado? 13:36! Ele já deveria ter batido o ponto há horas! Pisou no acelerador e, de repente, na próxima curva, lá estava ela: a casa rosa. Desta vez, com as luzes acesas. 

Lá dentro, Alícia, Rebeca e um homem, que ele não soube dizer quem era, almoçavam. As duas sorriam e conversavam animadamente. À medida que se aproximava, notou que o homem vestia suas roupas, tinha a mesma cor de cabelo que ele, os mesmos trejeitos. Quando o estranho se levantou, antes que ele fechasse a persiana, notou, com horror, que era um cara igual a ele — só que muito mais feliz! Por Deus! O que estava acontecendo? Quem era aquele? Sou eu que tenho de estar lá, e não esse cara. Mas o hospital o aguardava. Apesar de estar acelerando, fechou os olhos por alguns segundos, enquanto uma solitária lágrima de desespero e culpa escorria. Quando abriu novamente, a casa rosa estava como antes, luzes apagadas; não quis parar dessa vez e seguiu para o seu trabalho, já que estava atrasado. Por que será que Rebeca não o acordara esta manhã para ele ir trabalhar? Será que ela já não se importava? Depois que a pandemia começara, ele não tivera tempo de conversar com ela. Mas o hospital o aguardava; o juramento de Hipócrates cobrava o seu preço. Ele devia salvar vidas, sua esposa e filha poderiam entender. Elas entendiam? 

Ao chegar no hospital, um pouco de normalidade se fez presente; a realidade batia à porta! Muita gente se acotovelava na recepção do hospital, dezenas de pacientes aguardando para dar entrada, acompanhados de parentes desesperados. Dor, miséria e desespero por todo lado. Ele pegou o jaleco no banco do carona e desejou, mais do que nunca, estar com sua família. Será que, enquanto ele trabalhava, havia outro no lugar dele? Buscava, sem sucesso, tentar entender o que estava acontecendo, mas o que ele acabara de experienciar ia além dos limites da sua razão. Quando pisou no saguão do hospital, uma mulher magra e desesperada agarrou o seu braço: 

— Doutor! Doutor! Por favor, leva o meu esposo pra dentro com o senhor, senão ele vai morrer; ele não conseguindo respirar. 

Dario olhou para a mulher apontando para o paciente, um homem que estava com as mãos no peito, cambaleando. Gritou, e algumas enfermeiras acudiram rapidamente, enquanto uma pressionava o ambu, ele realizava a manobra de ressuscitação. Quando olhou para o rosto do paciente, viu seu próprio, mas desacordado, pálido... Chorando, ajoelhada ao lado dele, não mais era a senhora, e sim Rebeca, desesperada e chorando. Não estavam mais no hospital; estavam em casa, ou melhor, na casa rosa. Um clarão tomou conta da sua visão; não quis parar, não queria parar a manobra. Rebeca não iria perdê-lo! Mas novamente não teve força e nem vontade própria para lutar contra a perda de consciência. Acordou novamente atrás do volante do seu carro. Novamente na curva atrás do mercado e em movimento. 

Decidiu não olhar para a casa rosa; passou reto. Quando chegou até a esquina, ligou o pisca alerta para a esquerda. A decisão estava tomada; voltaria para casa para verificar a sua família. Apesar de gostar do seu emprego, da sua profissão, entendia que só trabalhava por elas, e se elas não existissem em sua vida, não havia motivo para continuar fazendo o que ele fazia. Iria para casa, abraçaria a sua esposa. Conversaria mais com Alícia. Mais tarde, ligaria para o hospital, dando uma desculpa, e reajustaria o seu horário; sua família também precisava dele. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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No Coração dos Labirintos

[O labirinto do quarto de tua mente vagante e doente ensaio do mundo lá fora...] Em uma cidade onde a luz se tornara uma memória distante…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

[O labirinto do quarto de tua mente vagante e doente ensaio do mundo lá fora...]

Em uma cidade onde a luz se tornara uma memória distante, Harry encontrava-se aprisionado em um quarto minúsculo, um cubículo que parecia pulsar com a própria essência do desespero. As paredes, tingidas de um cinza pálido e desconfortável, pareciam encolher ao seu redor, como se quisessem abraçá-lo em um gesto de contenção, um convite à claustrofobia. O ar, pesado e impregnado com o cheiro de mofo, envolvia-o como uma névoa densa, enquanto o eco distante do mundo exterior se transformava em uma melodia sufocante, um murmúrio de vozes que pareciam sussurrar segredos sombrios.

[No silêncio grave, onde o tempo se aquieta,
Caminhos de asfalto, serpentes de solidão,
A cidade, espectro, em névoa se afeta,
Ecoa o lamento de uma vida em suspensão....]

Harry sentava-se em um canto do quarto, as pernas encolhidas contra o peito, os olhos perdidos em um vazio profundo.

Seu reflexo em um pequeno pedaço de vidro, improvisado como espelho, revelava um homem consumido pela inquietude.

Os cabelos, grisalhos e desgrenhados, pareciam mais uma floresta selvagem do que a coroa de um ser humano.

Sua pele, pálida como a lua minguante, estava marcada por sombras que falavam de noites insones e de pesadelos que dançavam em sua mente como espectros.

[Em sua descida ao umbralino eco,
Eu perambulo por ruas desertas,
Com máscaras que ocultam o ser eterno,
E o medo pulsante nas almas despertas.]

As visões começaram como sussurros, ecos de memórias distorcidas que se transformaram em monstros.

A cada hora que passava, o quarto tornava-se um labirinto de assombrações.

Cores vibrantes se desvaneciam, dando lugar a um mar de cinzas, onde figuras fantasmagóricas flutuavam — sombras de pessoas que ele conhecera, mas cujos rostos agora eram borrões indistintos.

Elas o observavam com olhos vazios, como se esperassem algo de Harry, uma resposta que ele não sabia como dar.

[A janela embaçada, o olhar que perscruta,
Revela demônios, cujos rostos são planos,
Rostos familiares, em visagens corruptas,
Famílias em ruínas, os traumas insanos.]

Eis que surgem os monstros, nas sombras a dançar,
Criaturas de pânico, nas noites sem fim,
Vêm do abismo, da mente a vagar,
Sussurros de horrores que habitam em mim.

[O mundo, um teatro de angústia e desdém,
Onde o vírus é sombra, e a esperança, um eco,
Na luta por um futuro, que é fútil, amém,
A luz se oculta, num instante seco.]

Os pesadelos eram invasores, surgindo como tempestades de emoções descontroladas. No silêncio ensurdecedor, as paredes pulsavam com as batidas de um coração que não era mais o seu, mas que, ainda assim, o aprisionava.

As vozes tornavam-se gritos, clamando por redenção, enquanto Harry lutava para discernir a realidade das alucinações.

Cada esquina do quarto, cada fresta de luz que entrava pela única janela suja, parecia esconder verdades ocultas — labaredas de dor e arrependimento.

[Perdidos nas casas, em cárcere estreito,
Os pensamentos se tornam serpentes ferozes,
Com a mente emaranhada, num ciclo imperfeito,
As vozes interiores transformam-se em vozes.]

Ele se lembrava de um tempo em que o mundo era vasto e repleto de promessas. As lembranças dançavam à sua frente como uma miragem — imagens de risos e amores, de viagens e descobertas. Mas agora, tudo isso parecia distante, como uma canção que havia sido esquecida. O isolamento tornara-se uma prisão, e Harry, um prisioneiro de sua própria mente, via-se enredado em teias de angústia e paranoia.

[Mas lá fora, nas ruas, a noite se extasia,
Um riso maligno ecoa na escuridão,
Os monstros se alimentam da nossa agonia,
E dançam nas calçadas, em sádica união.]

Numa noite particularmente escura, quando a lua estava oculta atrás de nuvens pesadas, Harry teve uma visão que o abalou até a alma. Ele viu o quarto se transformar em um grande teatro — as paredes se ergueram, e as sombras tornaram-se espectadores, encarando-o com um olhar faminto. Ele estava no centro do palco, cercado por olhares que o julgavam, que o acusavam. A cada movimento seu, um murmúrio crescente ecoava pela sala, como se o universo inteiro estivesse à espera de sua sentença.

[Assim, perdido, eu clamo por alento,
Por um sopro divino que rompa a prisão,
Mas na penumbra, só resta o tormento,
E o silêncio de um mundo em colapso, em tensão.]

"Harry, você não pertence a este lugar", uma voz profunda e ressoante sussurrou, mas ele não sabia se era real ou uma criação de sua imaginação. A dúvida se infiltrou em seu ser como veneno, corroendo o que restava de sua sanidade. Ele tentava gritar, mas as palavras se perdiam na neblina de sua mente, transformando-se em lamentos que se dissipavam como fumaça.

[Oh, quão longe a luz que já fomos a cantar,
Na primavera que os deuses, em riso, nos deram,
Agora a dor e o medo nos vêm atormentar,
E a vida, um poema de terrores que ferem.]

A madrugada se arrastou, e, em meio à penumbra, Harry começou a notar pequenos detalhes ao seu redor que antes lhe escapavam. O canto do quarto, onde a luz mal conseguia entrar, revelava um universo de rachaduras e formas. Ele viu rostos, figuras que pareciam se contorcer em expressões de dor e sofrimento. Eram os ecos de sua própria angústia, espelhos quebrados de suas inseguranças. Ele fechou os olhos, tentando ignorar aquelas visões, mas elas se tornaram mais intensas, mais insistentes, como se quisessem chamar sua atenção.

[Quando a quarentena acabar, o que será?
Renascem os monstros, do pânico em nós?
Num ciclo eterno, a sanidade a chorar,
No labirinto da vida, onde a esperança é atroz.]

Em um momento de clareza, Harry compreendeu que estava vivendo em um ciclo vicioso. O medo alimentava suas alucinações, e as alucinações, por sua vez, alimentavam o medo. Era um círculo que o aprisionava, uma dança macabra de realidades distorcidas. Com um esforço quase sobre-humano, ele começou a desenhar no chão com os dedos, linhas que se entrelaçavam como a própria vida, tentando criar uma rota de fuga, um mapa para escapar daquela prisão invisível.

[Um espectro se ergue, a vida se disfarça,
Ecos de lamentos se entrelaçam na razão.
Qual no umbral do que se avizinha,
Errante, em desatino, por ruas desoladas,
Não são chamas que ardem na cruenta mesquinha;
É o temor que se enlaça em almas desesperadas.]

As horas se tornaram dias, e os dias se tornaram semanas. O quarto, antes apenas um espaço físico, agora pulsava como um organismo vivo. Harry sentia seu coração sincronizar-se com as batidas daquela prisão, como se estivesse se tornando parte dela. Ele percebeu que as visões, em sua essência, eram parte dele, fragmentos de uma identidade que ele havia esquecido. Ao aceitar sua dor, ao abraçar suas memórias, ele começou a desenhar um novo destino.

[A luz do dia, fugidia, retrocede, temerosa,
Diante das sombras que em torno se avultam,
Monstros de pânico, em dança sinistra e voraz,
De almas em ruínas, qual vísceras, se exultam.]

A luz da manhã começou a infiltrar-se pelas frestas da janela, e Harry, com um novo brilho nos olhos, compreendeu que a liberdade não era apenas a saída física daquele quarto, mas uma jornada interna. Com um último olhar ao seu redor, ele sorriu para as sombras, agora não mais como inimigos, mas como aliados em sua luta.

Com o coração mais leve, Harry deixou o quarto, não como um homem quebrado, mas como um viajante de sua própria alma, pronto para redescobrir o mundo que o aguardava além das paredes...

[Eis a janela embaçada, qual olho de um ser,
Que perscruta o abismo onde a razão se fratura,
Rostos que, outrora, eram afeto a florescer,
Agora se corrompem em neblina de amargura.]

Vagueia... [Estais a divagar?] Vagueia o pensamento...

Canto II

[Oh, mundo! Teu teatro, de angústia em compasso,
O vírus, sombra opressora, esperança é um sussurro,
Na luta por um futuro que esmorece e se esvaço,
A luz se oculta, no turvo instante que urdo.]

Com um passo hesitante, Harry deixou o quarto, e a realidade ao seu redor se desdobrou em um cenário surreal e distorcido. A luz da manhã, que antes parecia um alívio, agora se misturava a um crepúsculo anárquico, onde cores vibrantes e sombras dançantes entrelaçavam-se em um balé macabro. As ruas, que antes eram familiares, transformaram-se em um labirinto de pesadelos, cada esquina uma nova possibilidade de terror.

[As casas, as paredes, um cárcere onde os espíritos se encolhem,Pensa
mentos emaranhados, serpentes a devorar,
Vozes interiores, na mente que se acolhem,
Transformam-se em gritos, ecos prontos a explodir.
Mas do lado de fora, na noite que se espraia,
Um riso maligno ecoa, como brisa envenenada,
Os monstros se alimentam da dor que se ensaia,
E dançam nas calçadas, em dança amedrontada.]

Conforme caminhava, Harry sentiu a pulsação da cidade sob seus pés, como se o chão estivesse vivo, respirando com uma cadência errática. Os edifícios, altos e grotescos, pareciam se inclinar sobre ele, como sentinelas malignas, sussurrando segredos que ele não desejava ouvir. Ele era um intruso em um mundo que agora

lhe parecia hostil, cercado por entidades cósmicas que espreitavam nas sombras, criaturas que transcenderam a compreensão humana.

[Perdido, clamo por alento, um sopro divino,
Que rompa as correntes desta prisão que é nosso ser,
Mas na penumbra, restam apenas o destino,
E o silêncio de um mundo que não sabe viver.
Oh, quão distante a luz que outrora nos aquecia,
Na primavera de riso que os deuses nos deram,
Agora a dor e o medo se fazem a companhia,
E a vida, um poema de terrores que ferem...]

De repente, ele avistou uma figura ao longe, envolta em uma névoa espessa e turva. Era uma entidade de proporções impossíveis, uma silhueta que misturava características de seres conhecidos e deformações indescritíveis. Os olhos da criatura eram abismos de escuridão, sugando a luz e a esperança. Harry sentiu seu coração disparar, um compasso descontrolado que ecoava em sua mente. Essa não era apenas uma criatura; era a personificação de seus medos mais profundos, uma sombra viva que se alimentava de sua incerteza.

[Quando a quarentena findar, que resquício haverá?
Renascem os monstros, do pânico em nós?
Num ciclo eterno, a sanidade a clamar,
No labirinto da vida, onde a esperança é atroz.
E assim, em desassossego, persisto a vagar,
No labirinto dos dias, onde a razão é um eco,
A cidade, um espelho, refletindo o pesar,
E em cada esquina, um pesadelo que me afeco.]

“Harry…”

a voz sibilante da entidade ecoou em seu ser, como um cântico perdido nas correntes do tempo.

“Você fugiu de mim, mas nunca poderá escapar.”

[Cai a noite, o mundo em sombra,
As portas trancadas, a mente assombra.
Na casa, ecoa um sussurro gelado,
Um medo profundo, um espaço aprisionado.]

Ele começou a correr, os passos ecoando nas ruas desertas, mas a criatura estava ali, sempre a poucos passos atrás. Ao olhar para trás, Harry viu que outras figuras haviam surgido, cada uma mais grotesca que a anterior. Uma mulher de olhos vazios, seu rosto distorcido em uma expressão de dor eterna; um homem cujos membros se contorciam de maneiras impossíveis, como se estivesse preso em uma dança horrenda. Cada uma dessas entidades representava um fragmento de sua própria

psique, os medos que ele tentara enterrar, agora ressurgindo com uma força devastadora.

[Olhos nas janelas, sombras espreitai,
Corações aceleram, é hora de escutai
As paredes se fecham, um abraço voraz,
A sanidade grita, mas ninguém faz paz.]

As ruas estavam repletas de portas e janelas que se abriam para mundos ainda mais distorcidos. Harry se viu diante de um espelho quebrado que refletia não apenas sua imagem, mas versões dele mesmo em desespero. Ele viu o homem que poderia ter sido, suas esperanças despedaçadas, seus sonhos se transformando em poeira. “Não deixe que eles te definam”, uma voz sussurrou dentro dele, um eco de sua própria determinação.

[Relógios marcam horas, mas o tempo se esvai,
Cada batida é um eco, um aviso que não sai.
Paranoia se espalha, como névoa a flutua, você flutua também?
Suspeitas sussurradas, desespero quebrado, salvação estilhaçada]

Com um esforço sobre-humano, Harry parou e encarou a criatura que mais o aterrorizava. Ele percebeu que a única maneira de se libertar era confrontar aquilo que temia. Com um grito que rasgou o silêncio da rua, ele declarou: “Você não é real! Você é uma parte de mim, e eu não vou deixar que você me domine!”

[Os fantasmas do medo dançam ao redor,
E a solidão é um grito, um silencioso clamor.
A realidade distorcida, um pesadelo real,
Sonhos se fragmentam, a mente perdida,
No labirinto sombrio, não sei como fugir.
Entre paredes e sombras, a esperança se esconde,
E na noite eterna, a sanidade responde.]

A criatura hesitou, como se suas palavras tivessem cravado uma fissura na armadura de terror que a envolvia. Harry, sentindo uma onda de coragem, avançou. A luz que emanava de seu ser, uma luz que ele pensava ter apagado, começou a brilhar intensamente. Os outros monstros pararam, suas formas se contorcendo, como se o brilho os queimasse. Ele entendeu que tinha o poder de transformar aquela escuridão em luz, de resgatar não apenas a si mesmo, mas também as partes dele que estavam presas em medo e angústia.

[Caminhos invisíveis, a mente destroça,
Neste terror do agora, o futuro é um revés.
Mas na escuridão profunda, uma luz pode brilhares,
Se a coragem renascer, podemos nos libertares...]

Com cada passo que dava em direção à entidade, o abismo nos olhos da criatura começou a se iluminar, revelando não apenas horrores, mas memórias que ele havia escondido. Harry viu momentos de alegria, de amor e de amizade, vislumbres de uma vida que ainda podia ser vivida. Ele percebeu que os monstros não eram apenas criaturas, mas partes de sua própria história, suas lutas e seus triunfos.

[Ecos do Enclaustro... Sangue, luz, penumbra...
A cidade adormece, um lamento,
As luzes apagadas, não há onde
A porta é um muro, o mundo, um espectro,
No silêncio profundo, um eco de medo.
Paredes sussurram segredos ancestrais,
Histórias de pragas, de destinos fatais.
Cada esquina é sombra, cada ruído, um ser,
Paranoia nas veias, um desejo de correr.]

Finalmente, diante da criatura, Harry ergueu a mão e a tocou. Ao fazer isso, a escuridão ao redor começou a dissipar-se como névoa ao sol. A entidade, antes tão imponente, começou a se desintegrar, suas formas grotescas desvanecendo-se em poeira dourada. “Eu sou mais forte do que você”, ele sussurrou, e a cidade ao seu redor começou a se transformar.

[Os relógios se arrastam, os dias se fundem,
A mente, um labirinto onde os demônios se escondem.
Um olhar pelo vidro, um vulto errante,
No confinamento eterno, quem pode fugir?
Sonhos se tornam pesadelos, noites em claro,
A mente em espiral, um terror avassalador.
E a solitude grita, rasgando o silêncio,
No fundo do peito, um eco imenso...]

As ruas se iluminavam com um brilho cálido, as sombras recuavam, e o horizonte se expandia em cores vibrantes. As criaturas, agora despojadas de sua hostilidade, tornaram-se ecos distantes, fragmentos que já não o aterrorizavam. Harry percebeu que havia vencido não apenas uma batalha contra monstros cósmicos, mas também uma guerra interna. Ele tinha a força para enfrentar seus medos e redefinir seu caminho.

[Mas no abismo do medo, uma luz pode surgir,
A força da resistência, o desejo de existir.
Quebrar as correntes, libertar a alma do pensamento.
Cárcere Silencioso...

No silêncio pesado, o mundo se foi,
As janelas embaçadas, sem sol que nos foi.
A vida é um eco de risos distantes,
No cárcere sombrio, somos todos errantes.
Paredes que fecham, um labirinto sem fim,
A mente em tormento, um pesadelo de mim.
As horas se arrastam, cada minuto é um grito,
E o medo, como sombra, se torna o infinito...]

Com a nova luz da manhã banhando seu rosto, Harry sorriu. Ele havia emergido das trevas, não como um prisioneiro, mas como um conquistador de seu próprio destino. As ruas da cidade, agora vivas e pulsantes, aguardavam sua exploração, cada passo uma nova possibilidade, cada esquina uma nova história a ser contada. E assim, ele caminhou para frente, um viajante de sua própria alma, pronto para reescrever a narrativa de sua vida.

[Passos no corredor, será alguém?
Ou só o murmúrio de um passado que vem?
Os relógios parados, a esperança se esconde,
Na trama do isolamento, a paranoia responde.
E no fundo da alma, um desejo de sair,
Mas as correntes da mente não deixam existir.
Cada som é um presságio, cada silêncio, um horror,
Neste poço profundo, o coração é dor.
Mas nas frestas da noite, uma luz
A força da resistência, o anseio de amor.
Quebrar as barreiras, voltar a respiração,
No cárcere silencioso, renascerão...]

Nas sombras frias, o metal ressoa,
Caminhos de dor onde a luz não voa.
Paredes de pedra, um labirinto amargo,
Sussurros de almas, um lamento largo.

A cela dos olhos é um ventre que nunca se acalma,
Guardião de pesadelos, rouba a alma
em pranto no quarto, nos tetos e nas paredes
Correntes que arrastam o sonho perdido,
O tempo é um monstro, o tempo é ferido.

[Olhos vazios, como faróis apagados,
Refletem a angústia de corações calados.
A solidão grita, um grito silencioso,
Um eco eterno, um destino duvidoso.
Nos corredores frios, o passado é um peso,
Cada passo, uma sombra, um eterno desprezo.
As risadas distantes, como ecos de morte,
Na prisão da mente, onde não há sorte.]

Quando a liberdade parece um estandarte,
Surgem correntes invisíveis, um novo arte.
Pois quem carrega a prisão dentro do peito,
Viverá eternamente no mais denso leito.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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2020

O mundo fecha-se por detrás da cortina, | Esconde de mim seu endereço. | Sozinho, | Tenho por companhia somente a angústia…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O mundo fecha-se por detrás da cortina,
Esconde de mim seu endereço.
Sozinho,
Tenho por companhia somente a angústia,
Um alerta mortal de que cada passo
Pode ser em falso…

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

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A Última Porta

A casa estava em completo silêncio. Julia, uma menina de apenas oito anos de idade, sentia o peso da ausência da mãe como um buraco em sua alma…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

A casa estava em completo silêncio. Julia, uma menina de apenas oito anos de idade, sentia o peso da ausência da mãe como um buraco em sua alma. O lockdown não terminava nunca. As janelas fechadas escondiam o mundo lá fora, como se o medo de que algo pudesse acontecer pudesse ser barrado da mesma forma que o vírus. Ela não se lembrava de uma época em que o medo não existisse. 

Seu pai, Ricardo, estava na sala, sentado no sofá. Desde que Camila, mãe de Julia, havia morrido, ele não era mais a mesma pessoa. Estava sempre com uma aparência cansada, olheiras profundas e uma tristeza que corroía sua alma. Ele quase não falava, mas, quando o fazia, suas palavras pareciam vir de um lugar distante. 

Julia andava inquieta pela casa. Ela sentia algo diferente, uma presença sutil, uma brisa gelada. Não era como o vento, pois as janelas estavam sempre fechadas. Era como se a casa respirasse, como se algo nela, além deles, tivesse vida. 

— Você ouviu isso, pai? — perguntou Julia. 

Ricardo levantou os olhos e deu de ombros, indiferente. Ele não ouvia nada. Somente ela ouvia e sentia. 

Nas primeiras semanas, era apenas um murmúrio que Julia fingia fazer parte de um sonho. Mas logo as coisas começaram a se mover: portas batendo, sombras pelos corredores... 

Em uma noite, enquanto Ricardo dormia no sofá, Julia acordou com um som. Uma batida suave na porta da frente. No começo, achou que era um sonho, mas ouviu outra batida, e mais outra. Seu coração acelerou, e ela desceu as escadas assustada. 

Ao se aproximar da porta, viu algo que a congelou. A maçaneta girava lentamente, como se alguém do lado de fora estivesse tentando entrar. Ela tentou gritar, mas o som não saiu. Até que ouviu uma voz familiar em seu ouvido. 

— Julia... 

Era a voz doce e gentil de sua mãe. Ela recuou, e, de repente, a porta parou de tremer. Tudo voltou ao silêncio inicial. 

Ela correu de volta para o quarto, sem contar nada ao seu pai. Ele jamais acreditaria. Nos próximos dias, o som das batidas prosseguia, e tudo se tornou mais frequente. A porta tremia, as janelas vibravam, e aquela voz tornava-se cada dia mais nítida. 

Ricardo começou a notar também. Uma noite, enquanto os dois jantavam em silêncio, a porta da cozinha se abriu. Os dois pararam. Os olhos de Ricardo encontraram os de Julia, e, pela primeira vez em semanas, ele falou: 

— Acha que é ela? 

Julia não respondeu, mas sentiu um frio tomar conta do local. Sabia que algo estava tentando entrar na casa, e já sabia o que era. 

Nas noites seguintes, a situação piorou. A porta batia com violência. Julia acordava com o som de arranhões na parede de seu quarto e o sussurro insistente de sua mãe: 

— Venham para mim... 

Então, em uma noite, enquanto a tempestade caía lá fora, Julia não resistiu. Ela desceu até a porta da frente, movida por uma força que não conseguia controlar. A maçaneta, como sempre, girava sozinha. Ela a segurou com força, mas, ao tocar o metal frio, a voz de sua mãe a envolveu. 

— Julia, meu amor, abra a porta. Eu só quero que estejamos juntos novamente. 

Julia hesitou, mas estava tão "quebrada" que não conseguiu resistir. Queria a presença de sua mãe, seu calor, sua proteção. Ela abriu a porta. 

No meio da escuridão da rua, a figura pálida de sua mãe se revelou. O rosto de Camila estava distorcido, seus olhos vazios. Ela sorriu macabramente. 

— Venham. Vocês precisam vir comigo. Aqui não é mais o lugar de vocês. 

Julia recuou. Mas algo na voz de sua mãe a fez parar. Ali havia dor e tristeza, como se a morte tivesse transformado sua mãe em algo sombrio. 

— Mamãe... — A voz de Julia saiu quase inaudível, seu coração despedaçado pela revelação de que aquela entidade que tanto a assustava era a pessoa que ela tanto amava. 

O que restava de Camila estendeu a mão. 

— Precisamos estar juntos de novo. Venha, minha filha. 

Julia olhou para trás e viu seu pai. Ricardo estava parado no topo da escada. Seu rosto estava cansado, derrotado, como se estivesse esperando por aquele momento desde o começo de tudo. Ele não falou, tampouco lutou. 

Com os olhos cheios de lágrimas, Julia compreendeu. Não havia como escapar. Sua mãe não queria que eles vivessem; não queria eles no mundo sem ela. Ela os queria em seu novo mundo. 

Julia deu um passo para trás, mas sentiu o frio crescendo ao seu redor. Ricardo, sem forças para reagir, olhou para a filha pela última vez. 

— Desculpa, Julia. 

A porta se fechou sozinha. 

A casa, antes um refúgio, agora era uma prisão para os vivos. A voz da mãe continuaria a chamar até que todos estivessem juntos no silêncio eterno da morte. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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