Infindável

Certa noite, enquanto as notas cítricas de um vinho chileno me aqueciam, recebi um e-mail de um velho amigo. Após lê-lo, fiquei feliz e respondi que…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Certa noite, enquanto as notas cítricas de um vinho chileno me aqueciam, recebi um e-mail de um velho amigo. Após lê-lo, fiquei feliz e respondi que iria imediatamente. Havia uns bons anos que não o via. Guardei o vinho na geladeira, troquei de roupa e, depois de dirigir alguns quilômetros, avistei sua casa.

Ele morava no alto de uma belíssima falésia. Sua casa era uma construção no estilo A-frame, toda de carvalho, com duas janelas altas. Estacionei o carro e, por alguns minutos, contemplei a vista, que eu quase havia esquecido o quanto era encantadora.

Permiti que meu olhar se perdesse naquela paisagem, que mais parecia uma pintura. Acima de mim, o céu, onde as poucas nuvens se moviam com certa rapidez. As estrelas ostentavam um brilho assustador. A lua estava minguante (fase que acho mais encantadora). À minha frente, a imensidão do mar e seu pacífico quebrar de ondas.

"Preciso entrar!"

Antes que eu pudesse concluir meu pensamento, minha atenção se voltou para a porta. Ouvi o trinco mover-se vagarosamente, assim como o ranger dos ferrolhos enferrujados. Então, ele surgiu no canto (um pouco abatido, é bem verdade). Trajava um conjunto de moletom preto e chinelos, mas continuava o mesmo. A barba grisalha escondia parte das rugas. Com um sorriso tímido, gesticulou para que eu entrasse. Eu estava feliz por vê-lo.

— Venha, entre, caro amigo.

Sua voz rouca, acompanhada de um pigarro, reverberou naquele lugar.

Ao entrar, olhei em volta e percebi que nada mudara. Era uma casa de tamanho considerável, dividida entre cozinha, sala e uma suíte. Ao lado da porta, ficava uma mesa redonda preta, com duas cadeiras. Na sala, o velho sofá de couro marrom. À sua frente, uma bela lareira e, acima dela, uma cornija esculpida em mármore, exibindo fotografias e algumas conquistas pessoais. Mais à frente, encontrava-se uma janela grande, por meio da qual era possível enquadrar a lua com toda sua graça sob o firmamento estrelado. Abaixo dela, uma confortável poltrona de couro marrom, que resistiu bravamente ao tempo. Notei também uma garrafa de whisky sobre uma mesa de canto, acompanhada de dois copos.

— Fique à vontade.

Apontou para o sofá e, em seguida, dirigiu-se à poltrona.

— Veja, Tomé, a noite está nos proporcionando um verdadeiro espetáculo. Tenho algo para você.

Ele abriu a garrafa, exalando notas de caramelo, maçã, laranja e baunilha. Após isso, encheu os copos até a metade. Em seguida, brindamos. Confesso que fazia tempo que não bebia whisky; logo senti o ardor em minha garganta, acompanhado de notas amadeiradas.

Sorriu e disse que era um whisky escocês muito raro. Em seguida, perguntou se eu queria ouvir uma música. Foi até o quarto e trouxe uma vitrola, que deixou próxima à lareira. Escolheu um vinil do qual tinha boas lembranças: tratava-se de uma coletânea de Robert Johnson. O som da agulha deslizando no vinil era quase fantasmagórico. Em seguida, vieram as notas agourentas de sua guitarra, acompanhadas de sua inconfundível voz.

— Ah, Tomé, como é bom revê-lo. Sabe, não tenho tido muitas visitas, e ver um rosto familiar sempre é animador.

A melancolia estava presente em cada palavra.

— Eu que peço desculpas por não ter mais aparecido, João. Minha vida está bastante confusa. Me separei, não estou conseguindo produzir como antigamente. Tudo que escrevo soa medíocre. Mas trabalho com revisão de textos e escrevo para uma coluna no jornal. E você, como está?

Ele sorveu a bebida por completo e, enquanto acrescentava mais, disse:

— Não tenho do que reclamar. Tive uma vida dura, mas incrível. O mar me fez conhecer lugares que jamais imaginei conhecer. Colecionei muitas histórias...

Passou as mãos na testa e nos poucos cabelos que lhe restam. Então, continuou:

— Porém, eu tenho vivido de lembranças. As aventuras que tive no mar são o que me mantém vivo. Velejei minha vida inteira, hoje em dia estou aposentado. Quanto ao dinheiro, tenho uma boa quantia no banco, devido aos longos anos de trabalho no mar.

— É verdade, João, você era um exímio capitão. Conhece o mar como ninguém, enfrentou a terrível imensidão inúmeras vezes. Sem dúvidas, vivenciou situações deveras difíceis. Brindamos a isso. Viva!

Em seguida, conversamos por mais algumas horas. A garrafa já passara da metade. Ele encheu mais uma vez os copos e, inebriado, disse:

— Tomé, de todas as histórias que você ouviu, existe uma que me assombra. Durante todos esses anos, guardei-a a sete chaves.

Sua fisionomia adquiriu tons graves; seus olhos inertes brilhavam sob aquele turgido luar. Ele continuou:

— Sabes que o mar, em sua grandiosidade, esconde segredos inimagináveis. Não tenho explicação para o que me ocorreu naquela horrenda noite.

Ele respirou fundo, bebeu mais um pouco e, ao som de "Hellhound on My Trail", iniciou sua narrativa.

O céu exibia um lindo entardecer, onde tons alaranjados se misturavam ao azul escuro. No horizonte, o sol, em sua beleza arrebatadora, brilhava. Notei também pinceladas de rosa e roxo. Uma obra-prima!

As condições eram perfeitas. Era verão, 15 de janeiro de 1998. Decidi comemorar minha aposentadoria com um passeio. Verifiquei todo o casco, chequei também a proa, assim como a popa. Convés e porão foram inspecionados, assim como as velas e cabos. Por último, o leme e a âncora. Era uma embarcação de porte médio. Meu anemômetro estava com defeito, porém, ao longo dos anos, aprendi a calcular o vento com base em observações e anotações.

Ergui as velas ao ar, pedi licença aos mares e iniciei meu passeio. Aparentemente, estava tudo tranquilo. A noite chegou rápida, usurpando a luz do dia e trazendo uma brisa fresca. Liguei o refletor e segui.

Te digo: não importa o quão experiente você seja, o vazio marítimo te causa calafrios. Mesmo com o luar e as estrelas, o breu se torna quase tangível.

Desliguei um pouco o motor e segui, até que, em determinado trecho, notei uma brusca mudança nos ventos. Se não me engano, eles estavam a trinta e quatro nós, fazendo as ondas se agitarem...

A uma certa distância, sob a luz do refletor, enxerguei algo semelhante a uma ponte. Definir seu começo e seu final era uma tarefa impossível. Parecia infindável.

Meus olhos arregalados não podiam acreditar naquela visão medonha. Você pode conhecer os mares como a palma de sua mão, mas nada te prepara para o desconhecido. Ela parecia flutuar sobre as águas. Era possível ver o topo das colunas que a sustentavam e, imaginar sua dimensão, causou-me verdadeiro terror. Tentei manter a embarcação trimada, mas as águas estavam revoltas.

É em situações como esta que percebemos o quão frágeis somos. Aquele monumento colossal era um lembrete de que não passamos de poeira cósmica habitando um planeta minúsculo.

Enquanto me perdia em meus devaneios, vi que estava mais próximo. Trovões intensos revelaram mais detalhes. Notei a presença de inúmeros postes, todos enferrujados. A estrutura estava coberta por uma viscosa camada de musgo ao longo de sua lateral.

Olhei para o céu, e o clarão dos relâmpagos rabiscava formas monstruosas sob as nuvens. Estava aterrorizado. Existia uma força cósmica naquele trecho, a qual nem ouso imaginar.

Por sorte, a distância em que me encontrava permitia voltar, mas seria um trabalho árduo. Mesmo com a curiosidade corroendo minhas entranhas para descobrir o que aquela construção nefasta escondia, permanecer ali seria assinar meu atestado de óbito.

Liguei o motor e girei o leme até o limite. Porém, senti a embarcação sofrer uma desestabilização, deixando-a à deriva. Algo me impedia de ir embora.

Após quase naufragar, consegui, aos poucos, retomar o controle da embarcação. Enquanto minhas trêmulas mãos seguravam o leme com afinco, de costas para a ponte, praguejei-a.

Tentei ignorar, mas não consegui. Mesmo temeroso, olhei por cima dos ombros pela última vez. Então, ouvi nitidamente os ventos soprarem meu nome, como se fossem um funesto coral formado por inúmeras vozes vindas do abismo. Elas ocuparam toda a vastidão do mar.

Implorei ao universo forças para sair dali.

Após longas horas, consegui fugir. Já não via mais a construção.

Gritei até não poder mais. Até que enxerguei a beira da praia. Parecia até uma miragem.

Joguei a âncora e desembarquei. Cheguei em terra firme. O dia começava a surgir timidamente. Foi maravilhoso ver luz.

Ele terminou aquele relato medonho com um olhar vazio e assustador. Eu estava apavorado. Sem dúvidas, foi uma experiência impressionante. Perguntei se estava bem. Ele disse que sim. Contar sua vivência foi libertador, pois ninguém sabia o que ele havia passado.

Permanecemos em silêncio enquanto "Crossroad Blues" preenchia o vazio.

— João... — Minha voz quase não saiu — Meu caro, eu sinto muito pelo que você passou. Mas saiba que estou aqui. Sabes que sempre podes contar comigo. E não se preocupe, levarei seu relato até o dia da minha morte.

Ele agradeceu minha companhia por ter ouvido seu relato.

Ao se despedir, disse:

— Lembre-se: "Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia."

Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Horrífico

Diante de mim está o altíssimo e longínquo corredor em forma de arco. Seu comprimento é imensurável, tal qual o colossal monstro bíblico Leviatã...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Diante de mim está o altíssimo e longínquo corredor em forma de arco. Seu comprimento é imensurável, tal qual o colossal monstro bíblico Leviatã. Assustada, contemplo-o com admiração. Infelizmente, as pedras encontram-se severamente puídas; tenho certeza de que viveram eras em que sua beleza era notada por todos que cruzassem este corredor. Elas eram de diferentes tamanhos e espessuras, mas, unidas, resultavam em um visual sublime e uniforme, apresentando uma coloração que varia entre marrom, verde musgo e, em algumas, um tom acinzentado. 

Adornando toda a extensão do corredor, delicadas, porém resistentes teias, executadas com precisão pelas habilidosas aranhas, trabalhavam com ardor sob a chama trêmula oriunda das inúmeras velas. Por estranho que pareça, senti paz observando aquela cena, mas um leve menear trouxe-me de volta. Preciso continuar — digo para mim mesma, enquanto observo as chamas desenharem vultos sobre as pedras. Minha mente voltou a assobiar terrores que vivenciei em meu quarto. Tenho numerosas dúvidas, as quais temo proferir em voz alta. É com esses questionamentos que inicio minha caminhada cautelosa; meus passos ecoam no silêncio, desviando das constantes teias que insistem em enroscar-se em meus cachos. Estou caminhando há alguns minutos. Olho para trás e já não é possível ver o começo do corredor. Conforme ando, vejo que as velas se tornam cada vez mais escassas. Antes que fique em total escuridão, apodero-me de um dos candeeiros e prossigo. 

— Parece não ter fim. — Minhas palavras são engolidas pela penumbra, que lentamente me abraça. Lembro-me com clareza deste corredor; percorri-o no dia do grande baile de máscaras, e ele não me parecia tão extenso. Mas prossigo. Estou cogitando a ideia de estar alucinando, de que estou presa em um sonho. Será tudo fruto da minha imaginação? “Não, Rose, concentre-se”, digo a mim mesma, e acabo não percebendo que as paredes se tornaram mais próximas. Sei que é algo ilógico, dada a construção sólida do castelo, mas compreendi que, neste lugar, o inimaginável se torna tão real quanto o breu lá fora. 

Meus passos se tornaram mais acelerados, e o corredor mais estreito. Algo me faz parar: uma brisa que não pertencia ao castelo surgiu como uma assombração e parece trazer consigo vida e frescor. Inspiro e vejo folhas verdejantes sendo atingidas por intensos ventos, desprendendo-se e flutuando com graça sob o céu azul até tocar o chão de terra. Reconheço aquele lugar. Volto a ser criança novamente, fecho os olhos e sinto o perfume adocicado da mangueira, o som das suculentas mangas caindo naquele jardim, exalando o cheiro inconfundível. 

Abandono a terna lembrança e, mais à frente, me deparo com algo grandioso. Elevo a vela à altura dos olhos e fico extasiada: diante de mim está um lindíssimo portão, esculpido de forma magistral em ouro velho. Em torno dele, pairam centenas de borboletas em tons de marfim, com o bater de asas muito bem orquestrado, um espetáculo, como se velassem segredos além do tempo. Hipnotizada, respiro e vou ao encontro da gélida maçaneta. Ao girá-la, liberto um odor ferruginoso; as borboletas permanecem quietas. Sou recebida por um sopro diferente, um frescor toca meu rosto, como uma leve garoa. À minha frente, encontro uma enorme estufa. O lugar é surreal, meu cérebro tenta assimilar o que vê. Estou em êxtase, parece que cruzei a toca do coelho e vim parar em outra realidade. Aqui, exala vida; a vegetação brilha misteriosamente em tons de verde, roxo e vermelho. Seu brilho se estende por toda a estufa, tal qual uma nebulosa na imensidão do firmamento. Devido à sua bioluminescência, alguns insetos sobrevoam a vegetação colorida. Gotículas de água escorrem sob a redoma de vidro. Plantas das mais variadas espécies crescem vigorosas, exibindo suas folhas e frutos suculentos. Plantas das quais eu não tinha conhecimento que existiam. Quem ficaria encantado por este lugar era meu pai, pois ele era um entusiasta da botânica. Foi ele quem me mostrou algumas obras filosóficas e ocultistas; por não ter conhecimento adequado, compreendia quase nada, mas aquele mundo misterioso me encantou. Lia tudo escondida em meu quarto, na penumbra do abajur rosa; era nosso segredo. 

Imersa na nostalgia, vejo algo que me faz suspirar. À minha frente, este lugar também é uma extensa biblioteca, repleta de inúmeros exemplares, desde livros de bolso até verdadeiros calhamaços. Realmente, este castelo não deixa de me surpreender. Abismada, me questiono se o funesto livro se encontra aqui. Atenta, observo tudo, enquanto meus delgados dedos sentem as texturas de cada livro. Noto obras sobre botânica, alquimia, matemática, esoterismo e até mesmo magia. Alguns títulos me eram conhecidos, como A Mônada Hieroglífica, O Livro da Lei, A História da Magia, O Alquimista, e alguns livros sobre botânica que estavam em latim. Sigo lendo os títulos, estou chegando quase ao final da estufa, quando percebo uma mesa vitoriana branca. Sobre seu tampo, uma singela renda do mesmo tom da mesa; havia também duas xícaras e uma chaleira de porcelana verde. Por fim, duas cadeiras, sendo uma delas ocupada por alguém. Receosa, prossigo; agora seus traços ficam mais nítidos. Suas roupas estão com resíduos de terra; era uma idosa, dona de um sorriso sereno, de olhar profundo e amoroso. Trajava uma camiseta branca, uma jardineira e, por fim, um suéter de tricô verde. Havia algumas poucas rugas sob seu rosto pálido. Aproximei-me, temerosa; ela estendeu a mão, convidando-me a sentar. Assim o fiz. Ela sorriu e disse: 

— Não tenhas medo, minha jovem. Como se chama? 

Sua doce e trêmula voz trazia uma familiaridade que não consigo explicar. 

— Me chamo Rose — minha voz soou quase inaudível. Seu olhar era acolhedor, então ela continuou: 

— Pois bem, é um prazer te conhecer, Rose-besin. Eu me chamo Ameritt. 

Minhas feições me entregaram. Percebendo que eu não havia compreendido a palavra "besin", ela explicou seu significado, contando também que a palavra deriva de povos antigos da vila de Séttimor, que fica nos arredores do castelo. Aquilo me deixou intrigada. Ela mencionou, ainda, as sete mortes e os misteriosos habitantes dessa vila. Apoiei meu pulso sob o queixo e fiquei pensando: o que seria essa tal vila? Como chegar até ela? No entanto, ela continuou falando. 

— Resido aqui há muito tempo, e posso afirmar, minha jovem, vi e vivenciei coisas inimagináveis. Mas, pelo que percebi, acredito que você também, não é mesmo, Rose-besin? 

Assenti que sim. 

— Minha querida, posso lhe oferecer um chá? Eu mesma colhi as ervas. Aliás, percebi como você ficou encantada; vi seus olhos brilhando perante a vasta flora, bem como sua bioluminescência. É prazeroso quando vejo alguém que se apaixona pelo meu jardim. 

Perguntei sobre os besouros e insetos daqui, e ela explicou que eles tinham um significado profundo. Além de polinizar, eram almas perdidas que reencarnaram. Fiquei ainda mais confusa e entrei numa espécie de delírio. Será que virarei um besouro também, dada a minha natureza? Seus lábios moviam-se com a ternura de uma avó, me tranquilizando. Então, ela abriu a tampa da chaleira, e logo um aroma peculiar pairou no ar; era único. Ela serviu o chá com tranquilidade, olhou-me e disse: 

— Beba, vai se sentir melhor. 

Um sorriso plácido surgiu em seus lábios. Elevei a xícara à altura do meu queixo, vislumbrei as especiarias em infusão. O aroma era indescritível e convidativo. Fechei os olhos, inalei e sorvi. Porém, um pensamento assustador pairou em minha mente: e se este chá estiver envenenado? 

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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Palidez

A sensação de torpor parece não querer me abandonar, cada puído tijolo do meu aposento escuta com atenção minhas aflições, meu corpo ainda sofre com espasmos…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

A sensação de torpor parece não querer me abandonar, cada puído tijolo do meu aposento escuta com atenção minhas aflições, meu corpo ainda sofre com espasmos, a doce e sedutora voz do Conde reverbera em meu inconsciente, bem como as notas tocadas por aquela fúnebre orquestra.

As vagas lembranças eram confusas, a dança, o jantar, aquela versão obscura do castelo, por mais estranho que fosse, queria estar lá novamente. Continuo deitada em meus aposentos numa majestosa cama, feita de madeira sólida, ela ocupava grande parte do quarto. Elevo meus olhos e noto uma cabeceira imponente em mogno, esculpida à mão, com adornos que eram um verdadeiro deleite.

A cômoda ainda trazia um aconchegante estofado, em tons de roxo, diria que o anfitrião me conhece muito bem, pois esse tecido me remete a um passado quase esquecido. Fecho os olhos e deslizo suavemente meus dedos ainda manchados da última refeição, sentindo toda maciez do tecido, deixando escapar dos meus lábios escarlates tímidos sorrisos.

Sem perceber, sou conduzida para épocas felizes, quando ainda criança, meus pais me cobriam com uma manta de veludo verde musgo, nos dias chuvosos, lembro-me do doce cantar entoado pela minha mãe, quando os intensos relâmpagos invadiam meu quarto, sua voz me acalmava e me fazia dormir. Se eu buscasse nas profundezas do meu subconsciente, ainda conseguia ouvir o sussurrar amoroso, desejando um boa noite, deixando seu inconfundível sutil aroma de rosas.

Por breves segundos, voltei a ser a inocente Rose, cujas únicas preocupações eram: ser uma boa filha, brincar e tirar boas notas. Mas, ao abrir meus olhos inundados de nostalgia, vejo os brilhantes cristais presentes em um lindo lustre feito de ferro fundido, um lembrete de que ainda estou aqui, percebo também que ainda era dia, pois a luz rastejava pela fresta da enorme cortina, (que também era de veludo) em tom de roxo, escondo-me atrás da cabeceira e espero o anoitecer.

Sem demora, ela chegou, a encantadora noite, me levanto com leveza. Caminho para a imensa janela, abro-a e sou banhada pelo cálido luar, em seguida, sinto o toque gélido da noite em meu rosto e meus cachos dançam com o soprar noturno.

Vejo que, ao lado da cama, há uma cadeira vitoriana com minhas roupas dobradas, talvez tenha sido o mordomo; em frente à cama se encontra uma lindíssima banheira vitoriana e, à sua direita, uma pia esculpida em porcelana branca que parece ser do século XIX, com detalhes em dourado. 

Meu tempo é escasso, então, limpo meu rosto assim como algumas partes do meu corpo, sinto-me renovada com o toque da água gélida, só então troco de roupa, e torno a ficar em frente à janela.

Não sei ao certo, mas havia algo sombrio nos arredores do castelo, um medo irreal percorre cada centímetro do meu corpo, o terror se manifestar através de arrepios, vislumbro o céu com poucas nuvens, onde as estrelas ostentam um brilho nunca visto antes, a lua está em sua mais bela forma, imponente e cheia, minha atenção se volta para o horizonte, é possível contemplar inúmeras montanhas altíssimas, já outras menores, porém, todas brilhavam horrivelmente com o luar, e a vegetação presente nos picos das montanhas adquiriram um verde neon.

Uma visão arrebatadora, meus olhos seguem perambulando na escuridão, me deparo com vegetações mais rasteiras, e também alguns arbustos, mais abaixo, vejo algumas estradas serpenteando para diferentes direções, absorta, é quando vislumbro algo aterrador, em meio àquela escuridão, surge um denso nevoeiro, fazendo com que pouco a pouco as montanhas, estradas e vegetações desaparecessem em meio à neblina. 

Entretanto, não era um simples nevoeiro, eu estava prestes a testemunhar a materialização do desconhecido, nossa ínfima mente não está preparada para tal visão, conforme ela se movia, pude ver uma espécie de galhos longos e esbranquiçados, alcançando alturas inimagináveis.

Absorta, vejo o nevoeiro ultrapassar os altos muros do castelo, fecho a janela pois, ele se aproxima, meu colo palpita descompassado, senti a mesma sensação ao tocar aquele funesto livro confeccionado em pele humana.

Enrolo meus cachos com os dedos frenéticos, e começo a lembrar de algo terrífico; na segunda página do livro, dividindo a folha com outros símbolos e frases, havia um desenho que ocupava uma boa parte da folha, eram longos ramos brancos, o horror ancestral corrói minhas entranhas, meus olhos continuam tragados pelo desconhecido, pouco a pouco me torno nívea.

Já não é mais possível ver as montanhas e vegetações, nem mesmo o brilho da lua, apenas o mover dos brancos galhos na imensidão do céu, ouço passos temerosos subindo e descendo as escadas do castelo, ouço sussurros que se perdem pelos corredores, aquele quarto se torna sufocante, preciso ir novamente à biblioteca.

Texto publicado na 7ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de julho de 2024. → Ler edição completa

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Convite

Um estridente ranger é ouvido por toda biblioteca; a porta fora aberta, mas permaneço encarando o temível livro. Quando um forte caminhar rasga o…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Um estridente ranger é ouvido por toda biblioteca; a porta fora aberta, mas permaneço encarando o temível livro. Quando um forte caminhar rasga o silêncio daquele lugar, causando sutis arrepios, em determinada hora, os passos cessam, pela minha visão periférica enxergo debilmente uma figura, ela traz consigo um castiçal contendo uma vela a qual projeta, sob o piso de pedra, dançantes sombras; ao virar, me deparo com uma figura trajando um manto sombrio e, após um comprimento formal, a figura estende uma das mãos, revelando um envelope rubro, se esvaindo na escuridão, deixando-me sozinha novamente.

Abro o envelope com cautela, meus olhos quase saltam da órbita. Escrito em letras douradas, no papel de mesmo tom rubro, um convite para um exuberante baile de máscaras; tal ideia me encanta, pois, sonho com este momento desde criança, leio com atenção as instruções, assim como a localização dos meus aposentos, bem como meus trajes. 

Eufórica, imaginei-me rodopiando com algum deslumbrante vestido, animada, guardei o convite na jaqueta, respiro profundamente, e ele ainda está lá, o livro clama por mim, creio que terei tempo de vê-lo, mesmo que rapidamente. Volto-me para o livro, deslizo suavemente meus dedos sob a repugnante superfície daquele puído e grandioso exemplar, deixando resíduos debaixo das minhas unhas. Havia um símbolo em sua capa, vejam bem, apesar de nova, sou bastante curiosa em relação ao oculto, consumi alguns livros sobre o assunto, mas esse símbolo me causa certa estranheza, nunca vi nada igual, e se encontra severamente devorado pelo infindável tempo.

Ao abri-ló me deparo com uma série de funestos símbolos e fragmentos de textos, escritos em uma língua desconhecida, tão antiga quanto a existência. O odor ferruginoso salta no ar, fazendo-me salivar, meu colo pulsa fortemente, deixo escapar de meus lábios uma leve excitação, “preciso me controlar” digo a mim mesma, fecho o livro, e vou em direção aos meus aposentos, pois tenho um baile a ir. 

Conforme eu caminhava, ouvia conversas e sussurros, alguém caminhava com graça sob saltos altos, escuto um ansioso respirar, notei algumas fragrâncias como sândalo, outras mais cítricas, cheguei até meu quarto e abri a porta. Meu coração, então, disparou, acima dos lençóis perfeitamente arrumados, encontrava-se meus trajes. Sem dúvida o anfitrião me conhecia, era um estupendo vestido longo renascentista, todo trabalhado no cetim roxo, adornos em rendas pretas abrilhantaram ainda mais a peça, por fim, uma encantadora máscara, feita inteiramente com rendas douradas e roxas.

Devidamente vestida, me dirigi com rapidez para o salão principal, meu colo batia descompassado, segui com mãos gélidas. Após atravessar um extenso corredor, me deparo com o salão principal, repleto de rostos desconhecidos, homens e mulheres trajando a mais pura elegância, todos exuberantes, tudo era maravilhoso, as máscaras deixavam tudo ainda mais misterioso. 

Um quarteto de cordas tocava alegremente as quatro estações de Vivaldi, os acordes tocados eram um convite para bailar, meus olhos ainda contemplavam aquele belíssimo baile. Pouco a pouco os outros hospedes ocupam o enorme salão, meus olhos encontram uma estranha figura, ela se aproxima com leveza, muito cordial me oferece uma bebida em tom carmim, retribuo a gentileza, aceitando a taça dourada. Após erguê-la, sorvo de forma voraz, em seguida ele me conduz para o meio do salão, estende a mão direita e gentilmente me convida a dançar, ele trajava vestes negras, sua máscara do mesmo tom das vestes; seus olhos azuis me remetiam à horrenda noite em que experimentei o gosto amargo do sangue.

Após longos rodopios, encontrava-me em outro lugar onde a decadência reinava imponente, assemelhando a um sonho, o castelo estava em ruínas, todos os convidados assemelhavam a horrendas sombras bailando em celebração à depravação, a alegre canção que outrora preenchia o castelo fora substituída por notas fúnebres da sinfonia de Giuseppe Tartini, intitulada Devil’s Trill; a dança se tornou lascívia, com movimentos rápidos, meu estranhamento foi notado pelas criaturas, era possível ouvir sussurros maldosos através das sombrias máscaras. Soltei a mão do meu acompanhante e questionei o que estava acontecendo, mas ele gargalhou, senti o escárnio vindo dele.

Aproximou-se de mim e disse: “Você não pode fugir disto, é o seu destino! Entregue-se à escuridão”. Amedrontada, empurrei-o e tentei respirar, em vão, por mais medonho que fosse, ele tinha razão, pertenço à escuridão.

Texto publicado na 5ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de maio de 2024. → Ler edição completa

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