Adormecido Sol
Adormecerás, sol. Darás quietude ao horizonte. Aquece, enquanto isso, o corpo frágil de minha nímia tristura. Ancestral, traga-me a esperança para o…
Adormecerás, sol. Darás quietude ao horizonte. Aquece, enquanto isso, o corpo frágil de minha nímia tristura. Ancestral, traga-me a esperança para o fim dos tempos e deixa-me banhar-me em teu mar de dunas solitárias.
Concedo ao tempo a passagem, e desejo que resguarde sua beleza efêmera. No derredor de escuridão profunda, um oceano solar resplandece no meu peito lacrimante e eu me assento na porcelana de águas mornas, onde posso admirá-lo enquanto ele cega meus olhos.
Adormecido sol, leva-me, silente e calmo, ó doce e sussurrante entardecer... Sim, anelo deitar-me contigo, sem visões às minhas queimadas retinas. O teu calor mórbido, em vida e verdade, conduzirá minha lúgubre fé.
Sonura escrita por Sara Melissa de Azevedo em 24 de janeiro de 2025, registrada na Câmara Brasileira do Livro pela Editora Castelo Drácula.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
Os irmãos Winsttein
— A arte, querida Bella, requer vida e morte, tu sabes… — Bellanna pretendia argumentar, todavia, Dhiego aumentou seu tom de voz ao notar que seria interrompido…
— Não renuncie a tua descendência, Bellanna Winsttein! — Proferiu Dhiego, seu irmão. Bellanna o olhou furiosa.
— Sabes que não o faço, apenas questiono a tua pretensão… — Dhiego sorriu.
— A arte, querida Bella, requer vida e morte, tu sabes… — Bellanna pretendia argumentar, todavia, Dhiego aumentou seu tom de voz ao notar que seria interrompido, Bellanna, portanto, recuou bufando. — Tu sabes que para termos o pigmento da morte, precisamos nos aproximar dela sem sucumbir às suas cores pútridas e tão fascinantes!
— E o fazemos, Dhiego! Papai está morto naquele quadro! — Bellanna apontou para o quadro à esquerda, na parede da sala. A moldura marfim fora esculpida com os ossos do falecido, a tela foi costurada com a sua pele e, pelas mãos hábeis de Dhiego, o sangue e a carne tonalizaram as nuances do retrato. Dhiego deu de ombros ao ouvi-la. — Não é suficiente para ti?
— Poderia ser… mas nunca ouvimos um Winsttein sequer pintar a si mesmo sem que tivesse de beijar os lábios mórbidos da morte…
— O que estás dizendo, Dhiego!?
— Pinte-me ainda vivo! Retire alguns ossos desnecessários, rasgue-me a pele, retira-me o sangue! Todavia, mantenha-me vivo.
Os olhos de Bellanna se arregalaram na surpresa da proposta de seu irmão, que loucura aquilo lhe parecia! Mas, Bellanna rapidamente se sentiu intrigada com tal horrenda possibilidade — afinal, era uma Winsttein. Deixou-se, portanto, idealizar a imagem de sua própria pintura, ao lado de seu irmão, sendo eternizados em morte, sem que morressem de fato.
— Uma… exposição… —Murmurara Bellanna, olhando ao derredor, sonhando. — Apenas aos críticos, aos familiares… tu e eu, Dhiego! Arrancando-nos partes de nossos corpos e pintando de imediato o nosso próprio retrato. E, então, finalizá-lo antes de nossa morte…
— Porque, se vivos no término, já teremos o legado… — Completou Dhiego, extasiado com a ideia. Ambos se olharam.
— Que assim seja! — Proferiram sorrindo.
A macabra exposição masoquista aconteceu como previsto e os irmãos Winsttein nunca foram esquecidos. Morreram minutos após o término do quadro e os seus gritos — dizem aqueles que lá estiveram — foram gritos hórridos, lamúrias atormentadoras e gemidos lascivos, tudo tétrico tal como as cenas mais atrozes de mutilação e tortura. Sorriam, contudo, a quase todo o instante; sentiam o prazer do maior de todos os feitos. Ninguém os interrompeu e seus filhos os assistiram bem à frente do palco — crianças tão pequenas. Todos os aplaudiram por minutos até o momento em que morreram no palco. Um silêncio, então, espargiu pelo anfiteatro até ser quebrado por uma terrível e grave voz que disse: “Bravo!” entre aplausos longos e mórbidos.
Até hoje, ninguém sabe de quem era aquela voz e, acreditam, era da Morte que os assistia desde o início.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
Eternizado
Arranquei teu coração e empalei teu corpo com niazílium; costurei teus lábios e te levei ao lago de crânios sob um céu de estrelas infindas…
Arranquei teu coração e empalei teu corpo com niazílium; costurei teus lábios e te levei ao lago de crânios sob um céu de estrelas infindas. Amei-te e beijei-te como uma ninfa, eu jamais olvidarei de nosso momento. Tornei-te eterno em meus braços, mesmo sem teres alma e ser. Entretanto, juro que ouço teu sussurro nas noites mais escuras e até o teu respirar aflito — criações de minha mente angustiada com a saudade, certo? Eu não sei. Agora, um corpo tão só traz-me o prazer e não o amor. Fui notando que a cada novo momento ao teu lado naquele pântano de morte, a maldição de meu ato impulsivo avultava-se e espargia-se como um fungo pernicioso. Tuas cavidades oculares enegrecidas e teus olhos naquele vidro na cabeceira tornaram-se meu maior tormento e mesmo agora, escrevendo, após guardá-los no sótão junto ao teu corpo empalado, sinto tua presença em meu dorso.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
Diário de Dantesca Nínmia — Trecho nº1
Uma criatura de agoníria atravessara o portal obsidia; foi contida por Somníria dentre as densas nuvens alvililáses, todavia, em sua força sombria…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Uma criatura de agoníria atravessara o portal obsidia; foi contida por Somníria dentre as densas nuvens alvililáses, todavia, em sua força sombria, atravessara a contenção, encontrando-me de súbito, com sua aparência asquerosa e dentes afiados. O líquido negro de sua constituição vertia sobre o derredor, enegrecendo ao violeta profundo as nuvens características do reino… eu temi, por um momento… temi não ser capaz de contê-lo.
Seu sibilo e grunhido eram terríficos! Sem olhos, a criatura parecia guiar-se apenas pelo som; raízes cinéreas escurecidas formavam a sua asquerosa fisionomia. Para ser tão poderosa assim, receio que não venha d’um pesadelo qualquer, mas sim d’um abíssico trauma. Não encontrei sua origem ainda, contudo, tenho esperanças. Por hora, exausta me sinto… conter a criatura terrífica esgotou meu poder a um nível mortífero…
Adormeci pouco após o incidente com aquilo, e receio que a mórbida coisa penetrara em violência o meu sonhar — ou o pretendia fazer, pois, tive pesadelos de uma estranheza absurda! Parecia-me que a criatura me observava, mesmo destituído de visão. Lorrt tem cuidado do meu sono, quando me esgoto em perturbações, todavia, sei que ele está passando por um momento difícil que o está atormentando… parece que Somníria trouxe Áurea para ele, isso… me intriga, pois… é perigoso, é um risco imensurável para o Somníria e para todos nós.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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“Hibisscuss”
Quando me aproximei daquelas ruínas, imaginei que encontraria destroços de um outrora sombrio, objetos deteriorados pelo tempo e, talvez, segredos…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Quando me aproximei daquelas ruínas, imaginei que encontraria destroços de um outrora sombrio, objetos deteriorados pelo tempo e, talvez, segredos esquecidos sobre aqueles que já se foram. Mas, não. Ao invés disso, avistei densos arbustos que possuíam uma espécie de flor de hibisco, cor de sangue vivo.
Adentrando nestas plantas, encontrei um recôndito que, como uma clareira, deixava o sol pálido atravessar sutilmente o seu interior e a luz evidenciava uma estrutura fascinante. Era como uma biblioteca em um jardim, possuía estantes de pedra, esculpidas como por um artista antigo. Os livros — sim, as estantes tinham livros inteiros — estavam protegidos dentro de invólucros feitos de algum tipo de rocha, talvez da mesma cujas estantes haviam sido erguidas. Cada livro, em um idioma desconhecido, ocupava um desses invólucros que o preservavam da umidade.
Embora lindo, era… estranho…
O silêncio pairava como uma mórbida presença que, de soslaio, observava. A brisa frígida fazia assemelhar-se a oscilação da folhagem e dos hibiscos, como passos entre a vegetação e isso me assustava. Sempre que me aventurava a abrir um dos invólucros e folear algumas páginas, arrepiava-me a tez como se algo amedrontador estivesse escrito em seu interior. Em um dos livros, notei que a tinta estava ainda fresca…
Cada detalhe me levava a uma inquietação profunda, então fugi o mais rápido que pude após o segundo arrepio, pois, com ele veio o que eu juro ter sido um murmúrio, um sussurro longínquo e tão próximo… acho que esse bizarro som dissera-me “hibisscuss” — arrastando no “s” como o silvar de uma cobra cuja língua freme na ponta dos lábios.
Quando alcancei o nevoeiro outra vez, respirei profundamente aliviada, mas isso não durou muito; notei uma flor daquelas em meu braço, devia ter caído por causa do meu movimento fugaz. Ao puxá-la, senti uma pungente dor. Sua raíz adentrara minha pele, deixando viva a carne por debaixo, como uma ferida profunda. Temi que tivesse algum veneno, todavia, dentre a névoa naquele lugar tão macabro, eu não podia encontrar algo que pudesse ser utilizado para desinfeccionar a ferida.
Em razão daquele murmúrio bizarro, veio à mente a opção de sugar o local para, quem sabe, extrair qualquer veneno existente. Eu, então, o fiz. Sangue. Gosto ferroso. Até ser engasgada com outra flor de hibisco que emergiu do local mais uma vez… puxá-la abriu ainda mais o ferimento inicial. Foi uma dor terrível…
Olhei para a lesão, preocupada e agonizando, e o que vi fora perturbador…vi dezenas… infindas raízes na carne, minúsculas e, sutilmente, em movimento… dentro de mim… mudando a minha humana natureza e transformando-me em uma delas… das flores… por uma maldição sussurrada em meu ouvido…
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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Diário de Áurea Lihran — Trecho nº1
Elas se calaram… as vozes do meu abismo. E agora perduro em Selenoor como quem a ela pertence, uma rainha índigo de sangue e solidão…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Elas se calaram… as vozes do meu abismo. E agora perduro em Selenoor como quem a ela pertence, uma rainha índigo de sangue e solidão. Em uma profunda tristura, vejo-me irreconhecível em meu âmago, perdida no esquecimento. Vejo Rosaemoris congeladas no tempo, aguardam-me em uma paciência serena. Ouço corvos brancos próximos, nos céus de tom azul-marinho, eles crocitam minha angústia. Eles são como o triste piano em meu peito, o agouro da minha condição.
Mesmo sem lembrar do que vivi, a saudade é a lágrima que verte em um carmesim profundo, dos meus olhos aos meus lábios. “Selenoor é esta lua lúgubre que vês, doce vestal, ela te irriga como planta rara; ouça-a azulescida em teu peito…” — Cantara Lahgura até desaparecer como miragem. Como é sê-la? Poderosa, mágica… quem é Lahgura? Quem sou? Esta anil atmosfera enternece-me… é sopro de melancolia e temo que redigir essa abíssica verdade, leva-me ainda mais em sua silente imersão hostil.
Alguém bate à porta, suave como mãos femininas… creio ser uma visitante disposta a me salvar do meu azúleo afogamento interior.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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Permaneça
Teu amor trouxera-me a escuridão; querido, o teu inferno cativou-me o peito cuja vida efêmera protege. Os sigilos do teu corpo enfermo, cicatrizaram-se…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Teu amor trouxera-me a escuridão; querido, o teu inferno cativou-me o peito cuja vida efêmera protege. Os sigilos do teu corpo enfermo, cicatrizaram-se aos meus cuidados enquanto, em pesadelos, tive teu toque no meu mais íntimo anseio. Ouvi tua gravíssima voz em desabafos perniciosos, olhei-te com temor e alento; ouvi-te, também, na lamúria e nos brados de mórbido pesar. Não hei de beijar os lábios do arrependimento, meu Dom. Amorttam é traiçoeira tal como Lilith, mas não eu; deita-te em meu torso, amado, descansa-te sentindo este perfume que me possui na natureza do que sou; deixe-me alimentá-lo ao teu deleite, pela fé, pelo amor. Tornaste-me uma apaixonada inominável! Aquela que adormece somente após o teu sono nuvial, plácido.
Tua noite verdejara-se aos meus olhos, tua alma permitira o vindouro florescer dos meus lírios brancos; agora, esqueci tudo por ti, para manter-te amado enquanto a vida perfura-me a carne com as agulhas da morte, lentamente. E assim, lembro d’água doce que me deras e da tua atenção quando lacrimei aos pés da noite verdinegra; mesmo o medo que me fizeras sentir no belvedere, amor, jamais duvidei da tua inócua essência — desvelava-me a tua íris, uma genuinidade inexorável… ó, sim… tua íris-noite… teu semblante, amante, de calvário; viste em mim, eu sei, a tua fuga e te levei comigo, mesmo presos na Mansão Negra, éramos lá uma pulcra luz nas frestas dos umbrais silenciosos, éramos um segredo e aprendi amar o teu universo frígido, aprendi a acalorá-lo com afeto…
“Permita-me amar-te…” — Sussurraras. E eu permiti… assim te rogo, permaneças. Não te cinjas à vingança — olvides os males e banhe as tuas fissuras com azeite de ternura. Estou aqui por ti, tal como estive desde o início.
Por favor…
Com ardor,
Saeeri
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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Lar de Breu-Mármore e Rubi
O sol era a nódoa escarlate na imensidão enevoada em um carmim enegrecido; o sol não tangível em sua forma de estrela, era tão só um clarão rubro…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
O sol era a nódoa escarlate na imensidão enevoada em um carmim enegrecido; o sol não tangível em sua forma de estrela, era tão só um clarão rubro, espargido pelo firmamento instável. Abaixo dele, um oceano de mármore preto tal a noite que se via, por vezes, entre as clareiras do céu, criadas pelo vento intenso e amedrontador. Noite e dia; um entardecer melancólico, um paradoxo único. Das sombras no mármore, o fogo queimava na cor do sangue mais puro entre vilas cujas casas erguidas eram como ruínas de uma ancestral civilização.
Meus pés aquecidos, o frígido sopro oscilava os galhos dos secos carvalhos mais próximos e, conforme eu caminhava, os arbustos de flores se faziam presentes como um jardim etéreo; flores símeis às dálias, porém, com pétalas em voluta, formando um redemoinho escarlate; eram leves como penas, rarefeitas pétalas brilhantes em cor negra-sublime com nuances carmesim. Espinhosas como as rosas, fascinantes como tudo o que habitava aquele lugar. Por quanto andejava, sentia a melancolia em meu peito. Desejei tanto adormecer sob tal lumiar coralino, enquanto a névoa negra dançava acima.
Nada, todavia, era mais deslumbrante que aquele castelo; em torres pontiagudas, esculpido em atro mármore e bruto rubi; desvelou-se a mim quando subi em outras ruínas, como antigos lares destruídos pelo tempo. E lá estava a sua inconcebível arquitetura. Intui um dever profundo de adentrar os seus umbrais e continuei minha marcha até que tal feito fosse realizado. Encontrei nímios frutos pelo rumo, nas veredas e pontes; eram tão semelhantes às uvas, de uma doçura apetitosa. Ainda que estas árvores frutíferas e outras plantas se movimentassem pelo ventanear; ainda que o mármore rachasse, vez ou outra; e o fogo ardesse, crepitante, por onde os olhos podiam enxergar; o silêncio beijava ao derredor, sem medo.
Então, ouvi som de queda d’água e sorri; sentia sede. Subi sobre mais escombros e alcancei uma pequena fonte ornamental próxima ao palácio sombrio. A água era negra, fluída, aprazível. Lavei com ela o meu rosto, renovando minh’alma que, na verdade, parecia distante de mim. Dali, portanto, fui à entrada da monumental maravilha em sua tétrica constituição. Seus umbrais gigantes se abriram para mim, sem que eu precisasse tocar em sua aldrava. Havia um lago em seu interior, colunas esculpidas com anjos e seres míticos; a luz do entardecer carmim adentrava os vitrais criando uma iluminação fascinante. À frente, um imenso trono de veludo encarnado.
Não me dirigi ao trono, ponderei sobre quem seria, pois, digno de tamanha magnificência. Em resposta à minha íntima indagação, passos ecoaram e, fitando na direção do que ouvia, avistei um homem forte. Seu corpo era como de um deus, e tinha uma tez com cicatrizes em sua fronte. Seus olhos eram rubros e brilhantes, uma roupa negra e régia o cobria. Era de uma beleza inenarrável. Tinha cabelos finos e curtos — os quais se movimentavam como as pétalas vistas outrora pelo caminho. Era um homem alto, sua força era visível e majestosa; se próxima a ele, decerto me sentiria como uma pequena criatura ínfima. Olhava-me, ele, atento e sério. Tão diferente de mim… eu que estava descalça e com meus soltos cabelos orvalhados pelo clima, sofrível, pois marchava no mármore. Decerto não éramos da mesma origem.
— Estás em meu reino, em meu palácio. Bebeste de minha água e aqueceste os teus pés em meu mármore. Admiraste meu jardim e desejaste tocar o veludo de meu trono. — Dissera em tom sereno e grave, como um trovão sob controle. — E não sabes sequer o meu nome. Ao menos sabes como chegaste até aqui? — Indagou e sua voz que me embargava, assemelhava-se a um vinho de doce aroma e seco sabor. Prostrei-me ao chão, pois reconheci, em meu âmago, que estava de frente a um ser majestoso, um rei de um reino carmesim.
— Perdoe-me, vossa alteza. Despertei à beira de um oceano e, invitada por um ser de poética nume, adentrei seu pequeno barco e ouvi seu lirismo melancólico até descer nas vossas terras. O ser poético fora uma ilusão, transfigurado em pedra, uma estátua devaneada por mim. Não compreendo mais nada além disso e fui enlevada pela sublimidade de teu grandioso castelo. — Disse, célere; respirei profundamente ao término e mantive-me de joelhos. O silêncio pairou por longos instantes.
— Levanta-te. — Eu o obedeci. Era agradável retornar meus olhos ao seu austero semblante. — O Sonurista da Morte não é uma ilusão. Não compreendo, todavia, a razão pela qual ele te trouxe até meu império. Vês? — O ser estendeu sua mão esquerda e os umbrais de seu palácio se abriram ao seu comando. Então vimos a paisagem em completude, um reino carmim e negro, envolto a fogo rubro, mármore-breu, lava, rochas ígneas, ventos, natureza morta e flores raras; era lindo e solitário. — Este é o Inferno. — Explicou, todavia, não compreendi. — Sou o rei do Inferno há éons, incontáveis noites, inumeráveis dias. Esta é a minha terra, de rara beleza.
— Como tu és, vossa majestade. — Sussurrei, senti-o me encarar. — Perdoe-me, majestade. Apenas devo dizer que se cá estou, então, devo servir-te… não há nada em mim… há nada que sou… nem mesmo tenho nome… — Eu não tinha memória do antes de despertar naquela areia negra, com a água negra daquele oceano em meus pés. Sequer um nome eu tinha, ou uma história. Voltei-me ao rei, aproximei-me devagar.
— Teu nome será Líria, pelo lírico perfume doce que emanas e pela poesia vestal dos teus olhos. — Reconheci-me Líria, intimamente. — E deverás chamar teu rei pelo nome que o pertence… Ahzaez. Eu sou Ahzaez. — Afirmou e manteve seus olhos em mim, olhos de raro rubi.
— Ahzaez… — Sussurrei e, para ele, sorri.
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…