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O sopro da brenha - Resenha

A morte de um colega de trabalho, desencadeia uma imensidão de novas diligências. Valéria, uma bailarina de trinta anos…

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  • O sopro da brenha

  • Autora: Sarah Schmorantz 

  • Ano:2021

  • Número de páginas: 342

  • O sopro da brenha

A morte de um colega de trabalho, desencadeia uma imensidão de novas diligências. Valéria, uma bailarina de trinta anos, desinteressada de seu passado, volta a sentir urgência em tomar conhecimento de cada pedacinho de sua história após presenciar uma tenebrosa aparição em sua casa. Detalhes importantes surgem à medida que a busca por suas origens se torna uma jornada intrínseca e mística.

O sopro da brenha traz uma narrativa poética, detalhada, colocando em pauta o direito da mulher no que diz respeito ao controle de suas próprias vidas, e a descomunal força que sustentamos em momentos de necessidade.

A trama percorre vários caminhos e traz reviravoltas importantes ao desenrolar narrativa. Inserida em um cenário obscuro, conseguimos absorver diversas emoções, boas e desagradáveis relacionados a uma coleção de situações incompreensíveis diante de um certo ponto de vista. 

Confesso que o desfecho partiu meu coração por eventualidade de um dos personagens mais queridos e um tanto afetado pela atmosfera misteriosa da história. Novamente, adorei a oportunidade de ler mais de uma autora tão poética e sensitiva, que consegue não só transmitir a paixão pela escrita, mas presentear o leitor com a chance de conhecer a origem dos nossos próprios sentimentos.

Texto publicado na 6ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de junho de 2024. → Ler edição completa

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O Caçador

A criatura fugia pelas montanhas e Miguel estava exausto. Nunca, em suas décadas de caçada, tinha tido tão pouco tempo para si, para descansar…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

A criatura fugia pelas montanhas e Miguel estava exausto. Nunca, em suas décadas de caçada, tinha tido tão pouco tempo para si, para descansar, e para comer. Nunca tinha sentido tanto frio. A gigante lua prateada pairava sob o céu há dias, imutável. Não se movia, crescia ou diminuía. Apenas ficava lá, o tempo todo naquele mesmo ponto fixo, impossivelmente grande, ofuscando as estrelas. O sol não nascera desde que a maldita lua surgira. Ao menos não era vermelha. Suas montanhas estavam tomadas pela nevasca cujo gélido vento açoitava sua pele sem dar trégua. A noite sem fim ainda durava, já havia perdido a conta de quanto tempo. Não mais que um mês, ele dizia a si mesmo, não mais que um mês.

Não sabia o porquê dessa noite eterna, o porquê dessa lua imutável, quando isso acabaria, ou nem mesmo se acabaria. Mas sabia que precisava continuar caçando. Caçava não porque queria, muito menos porque gostava. Miguel o fazia porque era seu dever patrulhar e proteger as montanhas onde nasceu – tinha feito essa barganha de livre vontade, era verdade – mas o fardo de sua vida havia ficado pesado. Como que para calar suas dúvidas, instintivamente, tocou o medalhão do sol em seu peito, reconfortando-se com sua presença. Inspirou profundamente, expandindo seus sentidos, e buscou certificar-se de que ainda se mantinha no rastro. Estava, e, portanto, continuou.

A verdade é que as montanhas lhe eram conhecidas. Sabia muito bem onde estava, mas a gélida noite branca havia instigado toda a sorte de monstruosidades a saírem de seus covis. Há seis refeições – era assim que podia contar o tempo – passara por um acampamento alvejado. Lá, encontrou uma família inteira assassinada, seus corpos parcialmente mastigados ainda frescos e o sangue quente, espalhado por todo lado, derretera um pouco de neve onde tinha empoçado, formando uma viscosa lama carmesim. Sangue, neve, e terra. Ao menos com isso já estava acostumado. Desde o acampamento, caçava a assassina criatura pelas montanhas. Ainda sem sucesso, mas seguia em seu rastro.

Horas de caminhada montanha acima se passaram e seu corpo já não aguentava mais. O frio, a fome, a neve, a falta do sol, a interminável caçada, tudo isso minava sua força e sua vontade. Não aguentava mais, caiu de joelhos no chão. Olhou para o céu, a lua impossivelmente grande, impossivelmente clara, a nevasca que não dava trégua, e, pior de tudo, a falta do sol. Pela primeira vez na vida considerou desistir e se envergonhou por sua fraqueza. Se enfureceu com sua vergonha. Fora acolhido pelos caçadores do sol ainda órfão, treinado, alimentado, educado. Sim, tudo isso era verdade. Deram a ele uma casa, um nome, um propósito, mas também tomaram sua vida em troca. Jurou abster-se de uma família, de amigos, de filhos, de viver. Jurou caçar. Desde que aceitou se tornar um dos sóis essa fora sua vida: sangue, morte, e vingança. Já sem ver o venerado sol há dias, frustrado, questionando sua vida e sua vocação, Miguel, rompendo a corrente prateada com suas próprias mãos, arrancou o medalhão de seu peito, atirou-o à neve e chorou. Sem saber quanto tempo ficou ali prostrado, desmaiou.

Acordou ainda no mesmo local, seu medalhão já levemente encoberto por uma nova camada de neve que continuava a cair. O céu ainda era o mesmo, mas o vento parecia ter piorado. A visibilidade havia diminuído. Se levantou com alguma dificuldade, esfregando seus olhos e sentindo a pele arder com o sal de suas lágrimas congeladas. Precisava comer. Precisava se aquecer. Juntou o pouco de gravetos que conseguiu encontrar e tentou fazer fogo. Conseguiu uma parca chama, um lampejo de luz e calor, de esperança. Lampejo que logo foi ceifado pela nevasca que não cessava. Tentou de novo, e de novo, e de novo, todas as vezes com o mesmo resultado. Um breve calor reconfortante, logo extinguido. Por fim, se rendeu a comer o pouco de carne salgada que ainda tinha e levantou-se, olhando para o medalhão ainda largado ao seu lado.

Titubeou, sua mente tomada por dúvidas. O sol o havia abandonado, o branco gélido tomava conta do que antes era luz, calor, e verde. Por outro lado – mas pelos mesmos motivos – as montanhas nunca precisaram tanto de um caçador. Lembrou-se dos corpos mutilados, da carne devorada, e do sangue empoçado. Terminaria essa caçada e então decidiria seu futuro. Questionar-se era um luxo para o qual não tinha tempo agora. Recolheu seu medalhão, colocou-o no bolso do casaco e seguiu montanha acima o rastro da criatura de cheiro inconfundível que precisava ser parada.

Já próximo ao topo, Miguel notou seu corpo entrar em alerta. Havia chegado ao seu destino, a criatura estava próxima. A batalha era iminente. Como já fizera muitas outras vezes antes, Miguel desembainhou a espada e deu os últimos passos em direção ao cume, em direção a muito mais do que apenas uma criatura.

Ao chegar, deparou-se com uma estrutura de rocha negra e formas geométricas impossíveis. O contraste entre a nevasca branca, o luar prateado, e a rocha era como olhar para um abismo que desafiava a razão e a própria sanidade. O cheiro da criatura vinha lá de dentro e, sem escolha, Miguel prosseguiu. Cruzar o arco e entrar na estrutura foi como entrar em outro mundo. Se lá fora o vento uivava e o branco cegava, ali dentro o silêncio ensurdecia e a escuridão era indecifrável. Deu mais alguns passos adiante e aos poucos seus olhos começaram a distinguir paredes de espaços vazios, e a cada passo mais profundamente entrava naquele santuário no cume da montanha, com o cheiro do monstro que caçava como seu único guia.

Virou à direita e chegou em uma grande sala aberta. O teto impossivelmente alto, as colunas grotescamente retorcidas, como vinhas negras que cresceram se contorcendo em si mesmas e então viraram pedra. Nada mais escutava do vento lá fora. Um par de olhos prateados surgiu em meio a escuridão. Era a criatura. Avançou em sua direção, mas ela, surpresa, fugiu. Miguel a perseguiu. Seus instintos tomando conta de seu corpo, a espada empunhada pronta para matar quando, de repente, os olhos de Miguel foram açoitados pela luz. A perseguição o levara até uma sala na qual as paredes de rocha eram translúcidas, deixavam passar a luz da lua diretamente em um altar da mesma rocha negra da qual era feita todo o restante da construção. O prateado da lua, o branco da neve, e o abismo da rocha se juntavam para permear o ambiente com um surreal brilho anil. Era como um lembrete do mundo hostil que o aguardava lá fora. Em meio à confusão pela impossibilidade do que via, Miguel sentiu dor. A criatura aproveitara o momento de desatenção para arrancar, com os dentes, um pedaço de seu ombro esquerdo.

Tomado pelos seus instintos, lutou. Por um breve momento tudo ao seu redor não mais importava, esqueceu da neve, do frio, da falta de sol. Esqueceu da insanidade do local onde estava, das suas dúvidas, de seu medo, e lutou. Defendeu-se de garras e dentes com sua espada e, encontrando uma oportunidade, feriu a criatura – decepando um de seus membros de onde jorrou o tóxico sangue rubro já conhecido de Miguel. O monstro, ferido, cessou seus golpes furiosos e fugiu. O primeiro instinto do caçador foi perseguir e terminar o que tinha começado, afinal não tinha ainda infligido um ferimento mortal. As monstruosidades podem se recuperar de coisas muito piores. Ao mesmo tempo, o altar lhe chamava, ele queria responder. Titubeou.

Perseguir a criatura significaria não mais encontrar essa sala, esse local sagrado de um deus desconhecido. Significaria voltar à sua vida de caçador. Ao frio, à fome, à nevasca. As paredes do santuário – sentindo sua dúvida – deixaram adentrar o vento gélido que rugia lá fora, açoitando a pele de Miguel e invadindo seus ouvidos. Estremeceu e institivamente levou a mão ao peito, almejando tocar seu medalhão do sol que não estava mais lá. Havia-o colocado no bolso. Nesse momento de angústia e dúvida, deixou a criatura fugir. Como que por uma demonstração de boa vontade, o altar restaurou a calmaria, novamente cobrindo o ambiente naquele curioso anil e silenciando o vento. Ainda exausto, drenado pelo recém combate, sentou-se no chão rochoso, de frente ao altar, disposto a ouvir o que a pedra tinha a dizer.

Miguel Alaric Sigel, caçador do sol, protetor das montanhas, aniquilador de monstros. Essa era sua identidade até aqui, essa fora a sua vida. Seu nome resumia bem quem era. Havia sido treinado para isso desde criança. Mas o altar lhe mostrou que poderia ter sido diferente. Infinitas outras possibilidades invadiram sua mente e ele viu que poderia ser o que quisesse, poderia ser feliz. Poderia abandonar o frio, a neve, os monstros. Poderia abraçar essa escuridão, fazer desse santuário seu lar. Bastava que renegasse o sol. Já não tinha o sol o renegado? Já não tinha o sol sumido dos céus, abandonando-o à neve? A dúvida dilacerava o caçador. Ele temia saber mais, mesmo assim o queria. Precisava saber mais. Rogou ao altar que lhe revelasse seus segredos. Queria compreender o que significaria abdicar de sua fé e aceitar outro deus. Mas também queria a paz, o silêncio, e o acolhimento daquele ambiente. Não ansiava voltar à nevasca, ao frio, e à fome. Desejava, mais que tudo, momentos de conforto e percebeu que já não os tinha há muito.

E o altar não mentiu. Não escondeu. Aquele era o santuário dos monstros e da noite. Era o santuário daqueles que Miguel passara sua vida combatendo. Mas a noite precisava dele, de alguém para brandir seu estandarte, e o receberia de braços abertos. Conceder-lhe-ia essa honra. Ele poderia ser o senhor de um novo mundo se assim desejasse. Isso o chocou. Era ao mesmo tempo inimaginável, inconcebível, e inaceitável, mas também completamente tentador. Poderia abdicar de tudo que acreditava, de sua vida, dos seus juramentos, em troca do conforto desse lar? Deixar os habitantes das montanhas à mercê das criaturas que os dilaceravam?

O altar, em sua infinita sabedoria, contra-argumentou. Disse-lhe que precisava de um campeão para coordenar as criaturas da noite. Poderia ser Miguel. Não era melhor que fosse ele? Melhor ele do que qualquer outro? O antigo caçador poderia conter as criaturas, diminuir o número de ataques, mantê-las sob seu controle, se portar como um carcereiro dos condenados. Estava a seu alcance. Era só tomar a oportunidade e o poder para si, bastava aceitar. Titubeou.

A oferta era doce, sensata, razoável. Sentia-se abandonado pelo sol, estava exausto, perdido, em uma terra que já não mais reconhecia como sua. E quem poderia culpá-lo? Se o fizessem, estaria ao seu alcance se vingar. Com o comando das criaturas, poderia direcioná-las como bem entender. Poderia subjugar seus inimigos. A noite já o tomara, já pensava como um deles. Ainda nem tinha a coroa e já havia sido corrompido. A alternativa era voltar à neve, ao vento, à fome. Não aguentava mais aquele branco sem fim, aquele frio interminável. Chorou, e aceitou. Resignou-se a aceitar a oferta. E assim levantou Miguel Ragnar Nott, o traidor. 

Texto publicado na 6ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de junho de 2024. → Ler edição completa

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Parte II – Darquinha - Capítulo II - Insanidade

Dizem que o simples acaso não existe e que, para que algo aconteça…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Dizem que o simples acaso não existe e que, para que algo aconteça de fato, há inúmeros outros acasos acontecendo, seguindo uma sintonia perfeita de diversos acontecimentos. E foi justamente essa perfeita junção de vários acasos em sintonia que proporcionou o encontro de um ex-cativo chamado Thomás e uma determinada equilibrista de nome Joana D’Arc, mais conhecida por todos como Darquinha. O destino pode até ser considerado por alguns como um deus um tanto quanto traiçoeiro. No entanto, ninguém jamais poderá negar que esse mesmo deus é o autor de todas as histórias já escritas, contadas e vividas, sejam elas cômicas ou trágicas.

Darquinha talvez tenha sido a única mulher que Thomás amou verdadeiramente. É evidente que, para um homem de sua idade, ele tenha tido conhecimento de outras mulheres no leito. Entretanto, sempre fora de uma forma bastante efêmera e descompromissada, algumas até mesmo em troca de algumas moedas ou algum tipo de favor. Contudo, nunca algo muito sério. Eram sempre relacionamentos de uma única noite, na maioria das vezes fugazes demais para serem repetidos, uma vez que, antes de conhecer Darquinha, ele era um homem errante, sempre perambulando de um lado para o outro em busca de trabalho. Quando a conheceu, Darquinha era uma bela jovem ainda na flor da idade, com apenas quinze anos recém-completados. Ela tinha a pele extremamente clara e macia, cabelos cacheados na cor de ouro e belos olhos azuis que lhe davam a aparência de uma princesa de contos de fadas.

Thomás a conheceu no circo ao qual ela fazia parte desde que nascera – sendo seus pais artistas circenses desde sempre – e de acordo com que fora crescendo, seguindo os passos dos pais e atendendo a um chamado do talento artístico que corria em suas veias, tornara-se uma exímia equilibrista, que a todos impressionava tanto por sua beleza e simpatia, bem como a ousadia dos números que ela desempenhava a cada espetáculo. Negro e ex-cativo, Thomás, desde que a abolição fora decretada, – mesmo sendo ele um negro foro, bem antes disso – vivia errando de um lado para o outro de cidade em cidade em busca de algum trabalho honesto que lhe proporcionasse os meios para a sua sobrevivência de uma forma digna. 

Se a vida dos negros escravizados já era difícil nas senzalas, com toda a humilhação e privação de qualquer tipo de dignidade. Quando ainda cativos morriam aos montes, no trabalho árduo e contínuo, onde seus senhores nenhum pouco se importavam, pois eram considerados apenas como instrumentos de trabalho que se moviam sozinhos, executando aquilo que lhes eram ordenados. Pois se um deles perecia, logo havia outro para poder substituí-lo. Como havia grande oferta, poderiam ser adquiridos por uma reles quantia nas feiras onde eram vendidos como animais considerados como seres desprovidos de alma ou qualquer tipo de sentimento. 

Assim que foram libertos se encontraram numa situação um pouco mais degradante e desesperadora, pois não tinham dinheiro, nem bens e muito menos um lugar onde pudessem ficar. A maioria dos ex-cativos das cidades foram ocupar os morros em barracos improvisados, que mais pareciam sinistras armadilhas, prontas a colher a vida de seus ocupantes a qualquer momento. Para completar ainda mais o caos em que suas vidas se tornaram, a grande maioria não conseguia trabalho honesto em quase lugar algum. Desprovidos de bens, ou qualquer tipo ofício, os negros que conquistaram através da Lei Áurea sua tão sonhada liberdade, se encontravam soltos pelo mundo sem eira nem beira, completamente entregues à própria sorte. Para sobreviverem, eram obrigados a enfrentar e aceitar qualquer tipo de ocupação que lhes apresentasse, mesmo que fossem as mais degradantes possíveis. Literalmente, para não morrerem de fome, os negros logo após a abolição tinham que se virar sozinhos naquilo que desse e viesse. Talvez seja dessa época o provérbio que diz: “... não há maldade ou situação tão ruim que não possa piorar um pouco mais...”.

É correto salientar que, independente de qualquer coisa que se possa dizer o cativeiro, – seja ele qual for – é ignominioso e bastante deplorável. Contudo, a libertação dos escravos no Brasil em particular, se demonstrou em algo um tanto quanto ineficaz aos negros cativos, que se por um lado se viram livres do julgo de seus senhores, por outro continuaram escravos da necessidade e da humilhação, que torna qualquer individuo um prisioneiro do desespero e da indignação.

Thomás, que há tempos se encontrava no mais completo ócio, já praticamente sem dinheiro algum e quase à beira do desespero, muito se animou quando, numa bela manhã de céu claro e tempo firme, o circo desembarcou na cidade onde ele se encontrava naquele momento. Como era do tipo de homem que enfrentava todo e qualquer tipo de trabalho, logo foi contratado para a montagem das barracas e do improvisado e combalido parque de diversões – um colorido chamariz para as crianças – que agora fazia parte das atrações do circo. O Grande Circo Chittway – agora já não tão grande – já à beira da falência definitiva, sobrevivendo de minguadas arrecadações – cada vez mais escassas – sempre buscava, na medida do possível, gastar o mínimo, tentando empregar quem cobrasse um soldo mais barato, se possível alguém que trabalhasse por dois e recebesse pela metade de um – talvez seja por essas e outras que tenha surgido o preconceito que alega que o circo seja um antro de pessoas de índole duvidosa.

Thomás, com as finanças quase no fim, com o aluguel de seu biombo por vencer nos próximos dias, e se vendo em sérias necessidades financeiras, aceitou de imediato o parco valor oferecido por uma diária de trabalho. Esse ordenado, mesmo que mísero, foi prontamente aceito, pois vinha acompanhado de uma refeição, que logicamente não era nenhum manjar olimpiano – diga-se de passagem – mas, para quem já havia experimentado os mais abjetos repastos de uma senzala, qualquer comida poderia ser considerada um banquete.

Foi no mesmo dia em que se empregou no circo, numa tarde quente e abafada, com o sol brilhando forte e majestoso num céu límpido e claro, que Darquinha ofereceu ao suado negro Thomás uma refrescante limonada. Este, por sua vez, muito timidamente perante a beleza da jovem, aceitou o refresco e logo sorveu toda a limonada em grandes goles, pois naquele momento, debaixo daquele sol escaldante, a sede o açoitava sem piedade alguma – principalmente após o almoço, que fora composto de arroz com carne de sol e legumes, bem caprichado no sal. Contudo, quando, com toda galhardia, quis agradecer à bela jovem que lhe prestara aquela boa ação, logo lhe foi informado por um dos integrantes do circo que ela era surda desde criança. Thomás também soube pela mesma pessoa que ela havia ficado órfã há pouco tempo. Seus pais – a maior sensação do circo – haviam perecido num trágico incêndio que quase destruíra o circo por completo.

Alguns acreditavam que o fogo se iniciara na barraca de atendimento de Madame Staell, talvez foco de um de seus inúmeros incensos, que queimavam quase todo o tempo em sua barraca de cigana. Como ninguém sabia ao certo se fora realmente ela a responsável pelo incêndio, não ousavam acusá-la diretamente por perda tão irrecuperável – também havia o medo de, ao responsabilizá-la por tamanha tragédia, quem assim o fizesse poderia se tornar uma pessoa não grata aos olhos ferinos da sinistra cigana. Como esse incêndio trouxera enormes prejuízos materiais ao já combalido circo, e também colhera a vida do mágico Norman e sua esposa, a bela assistente Elizabeth, logo a vida de Madame Staell se tornou um tanto quanto insustentável ali perante seus companheiros que, de uma forma, mesmo que velada, estavam praticando certo desprezo pela cigana.

O dono do circo já não tinha tanta simpatia por ela. Primeiro, porque ela nunca lhe dera nenhum tipo de ousadia, mesmo as ofertas tendo sido por demais tentadoras e bastante generosas por parte dele. Segundo, porque os Benetti sempre a defenderam, pois ela era uma espécie de fada madrinha da jovem Darquinha. E por último – talvez, esse o fator mais relevante – o fato de ela ter perdido completamente a visão de um de seus olhos, enquanto o outro olho que lhe restara se mantinha sempre vermelho e remelento, dando-lhe uma feição asquerosa e horripilante. Sendo assim, seu faturamento como vidente havia diminuído substancialmente – afinal, ninguém tinha muita fé em alguém que prometia enxergar o futuro, se nem mesmo conseguia ver o presente. Madame Staell ainda não havia abandonado o circo porque, após o acidente que matara Norman e Elizabeth, a pequena Darquinha – com apenas doze anos – havia ficado sob seus cuidados.

Desde que se associara àquele circo há mais de vinte anos, ainda nas longínquas terras do velho mundo, Madame Staell tinha se afinizado bastante com os Benetti – na época, um jovem casal de artistas de matrimônio recente – e foi justamente ela – ninguém sabe ao certo como – que havia ensinado a pequena Darquinha uma forma de comunicação através de sinais, assim que a filhinha adorada dos Benetti demonstrou os primeiros sinais de surdez. Essa desconhecida forma de comunicação havia facilitado bastante a interação com a pequena equilibrista que, assim como seus próprios pais, também era muito aplaudida pelo público em suas apresentações, tanto por sua rara beleza quanto por sua destreza e coragem em números muito ousados para sua idade.

Soube-se depois que aquela forma de comunicação através de gestos e sinais era uma antiga tradição oriunda dos antepassados de sua avó – A Mudra é uma espécie de dança teatral que envolve movimentos rítmicos misturados com gestos e sinais que conseguem transmitir algum tipo de mensagem sem emitir nenhum tipo de som. Madame Staell conseguiu de alguma forma adaptar a Mudra para uma forma de comunicação que pudesse dispensar os movimentos rítmicos, deixando apenas gestos e sinais. Com zelosa paciência e dedicação, logo a cigana se comunicava abertamente com Darquinha, tornando-se assim, mesmo de uma forma involuntária, sua intérprete oficial para todos os outros integrantes do circo.

Depois da morte dos Benetti, o único parente vivo de Darquinha que ainda havia sobrado em terras brasileiras era seu tio Nicolas – Nico Besta-fera – um indivíduo de índole muito duvidosa, que enfrentava sérios problemas com a bebida – talvez devido à sua condição física – e que piorara bastante nos últimos tempos após a perda de seu irmão Norman, que sempre lhe fora uma espécie de protetor. Como não havia possibilidade alguma de deixar uma donzela – mesmo sendo sua sobrinha – aos cuidados de uma pessoa que não conseguia tomar conta nem de si mesmo – a situação emocional e a aparência física de Nico Besta-fera era cada dia mais deplorável – optou-se pela sensata decisão de que a jovem órfã deveria ficar aos cuidados e proteção da velha cigana, que além de ser uma mulher de comportamento ilibado, também sabia se comunicar muito bem com ela.

Não foi apenas o exagero da bebida que fez com que Darquinha fosse afastada da companhia de seu tio, sendo direcionada à proteção da velha cigana. Na verdade, Madame Staell não era nenhuma pessoa senil ainda. Contudo, após a perda parcial da visão, a decepção com as terras brasileiras, a dor e a tristeza adicionaram um suave toque de velhice à sua aparência – segundo a sabedoria popular: "... nada nessa vida é capaz de envelhecer um ser vivo mais do que o sofrimento...". A olhos vistos, a impressão era que a velha cigana tinha se esquecido do significado do que era esperança – talvez a constante companhia de duas almas sofredoras pudesse ser confortadora para ambas. De certa forma, a assustadora aparência de seu tio Nicolas já era motivo suficiente para manter a jovem e indefesa equilibrista afastada dele, o tanto quanto fosse possível.

Nicolas Benetti era irmão gêmeo de Norman. A diferença entre ambos gerava piadas um tanto quanto maldosas. Vladimir – que não era nenhum pouco simpático ao anão – certo dia, estando zangado com Nico por uma besteira qualquer, chegou mesmo a dizer: – "Quando o mágico Norman nasceu, sua bondosa mãe ficara tão admirada de sua beleza que decidira criar também sua placenta...". Muito diferente de seu irmão, o anão era um sujeito disforme, com uma cabeça enorme sobre uma protuberante corcunda; suas pernas eram grotescas e curtas, numa total desproporção ao seu torso. Sua cabeça, além de grande, era afinada na frente, quase como a figura de um tubarão; suas sobrancelhas unidas sobre o nariz vermelho eram salientes e davam-lhe um aspecto animalesco. Mas a pior parte eram os dentes afinados como os de um cão, além dos olhos que, pela lógica, deveriam ser claros, mas permaneciam quase constantemente olhando sempre em direções diferentes.

Nicolas Benetti fazia parte da família do mágico Norman e, por isso, acompanhava o pacote – o fantástico mágico, a bela assistente e o pequeno monstro. Enquanto Norman e Elizabeth deixavam o público boquiaberto com o universo místico dos passes de mágica, Nicolas Benetti, o anão húngaro do circo, amedrontava mulheres e crianças e divertia os adultos. Era apresentado ao público – na maioria das vezes completamente bêbado e sempre mal-humorado – como Nico Besta-fera, o último mordomo do Conde Drácula. Alguns diziam que o desavisado Conde Drácula havia morrido após experimentar o sangue do anão, nocivo até para o mais abjeto dos demônios.

Fora o próprio Sr. Zacky quem tivera a ideia de que a jovem Darquinha fosse viver na companhia de Madame Staell, ficando assim esta pela responsabilidade de zelar pela integridade da filha dos Benetti. Contudo, havia algo a mais além de toda essa benevolência por parte desse nobre cavalheiro, pois sua verdadeira intenção era, assim que a primeira oportunidade se demonstrasse propícia, abandonar a velha cigana – que há tempos era apenas um peso para o circo, pois era vista pelo público como uma horripilante bruxa. Quase ninguém mais procurava por seus serviços. Se suas premonições eram ruins, eram recebidas como agouro. Se, por outro lado, se demonstrassem boas e promissoras, eram consideradas uma benesse das trevas, que poderiam ser cobradas posteriormente – ficava semanas inteiras sem arrecadar nenhum tostão.

A jovem equilibrista, por sua vez, também não rendia os mesmos aplausos de outrora. Logo após a trágica morte de seus pais, ela ficara meses sem se apresentar – fato que foi respeitado por todos num primeiro momento – e, quando aos poucos foi voltando ao picadeiro, suas apresentações eram insalubres e sem nenhum brilho. Chegando mesmo, por algumas vezes, a abandonar o palco chorando numa sofrível agonia – quem conhecera os Benetti a aplaudia nesses momentos de tristeza, solidarizando-se com seu sofrimento. Mas como não há alegria que seja eterna e nem tristeza que perdure para sempre, logo até mesmo a morte dos Benetti virou história, e quem pagava para ver o espetáculo não se interessava por um show de lágrimas.

Sr. Zacky muitas vezes se perguntava se seu circo, que outrora fora grande e majestoso, havia se tornado uma casa de apoio a deficientes e idosos – na Europa, havia sempre a renovação do quadro de artistas. Era comum sempre aparecer indivíduos com algum talento artístico em busca de emprego. Desde que chegara ao Brasil, nenhum artista fora incorporado ao grupo, quando muito, um ou outro ser com alguma aparência estranha. Desde que chegaram ao Brasil, muitos haviam abandonado o circo para tentar a vida como colonos em grandes fazendas de café. Os que restaram eram algo deprimente de se ver: um anão bêbado em constante crise existencial, uma vidente praticamente cega que não via mais o futuro e nem o presente e já demonstrava esquecer até mesmo seu próprio passado, uma equilibrista que levava tombos da vida a torto e a direito e que havia ficado completamente surda, e por fim alguns outros artistas, sem muita importância, que já estavam ficando velhos e obsoletos. Por mais leviana que pudesse parecer, sua intenção de se livrar da cigana e de sua protegida – uma despesa supérflua – era tentar cortar todo tipo de gasto desnecessário de um circo que praticamente já não arrecadava quase nada.

Sr. Zacky, por muitas vezes – quando em madrugadas insones, quando todos dormiam e tudo se aquietava – deitado em seu leito na solidão de seus pensamentos, se arrependia amargamente de um dia ter abandonado sua terra para se lançar numa louca aventura, baseado em promessas vazias feitas por um desconhecido endinheirado e nos conselhos de uma sombria cigana – que advogava em causa própria. Mesmo que a situação do circo naquele momento na Europa fosse desesperadora, deveria ter sido mais prudente e não se deixar levar pelas circunstâncias. Infelizmente, em momentos de solidão e carência, toda e qualquer companhia é bem-vinda e, para quem está faminto, qualquer repasto é banquete. Naquele momento desesperador, tanto a sua realidade quanto a de seus companheiros fora substituída pela promessa de dias melhores em terras de além-mar.

Madame Staell – a pedido do próprio Sr. Zacky – tinha visto em suas cartas que a vida de todos no circo seria bem diferente no Brasil. Como as cartas não mentem jamais, a cigana tinha dito a verdade. Realmente a vida de todos que acompanharam o circo para terras brasileiras havia mudado bastante. Sr. Zacky suspirava de desgosto e arrependimento. Em outros tempos, quando ainda era jovem, a aventura de vir para o Brasil ou qualquer outra parte da América poderia ter sido diferente, pois sabia ele que o maior inimigo de um homem era o frio cortante dos anos acumulados em suas costas. Assim que o calor da juventude se esvai pelo corpo, pelas constantes decepções acumuladas, jamais essa chama poderia se aquecer novamente. Com o corpo frio e sem perspectivas para dias melhores, por diversas vezes havia cogitado a ideia de abandonar tudo e retornar sozinho para a Europa em busca de algum parente que ainda lhe restasse ou mesmo algum amigo que pudesse lhe dar guarida para terminar seus dias com dignidade em sua terra natal. Em sua concepção, a vinda para o Brasil se demonstrara um erro terrível. Mas, até que sua resolução de retornar à Europa fosse viável, deveria ele tentar cortar todo tipo de gasto desnecessário, pois, às escondidas e com muita dificuldade, na medida do possível, estava ele ajuntando míseros tostões para que pudesse custear seu retorno ao velho mundo.

O circo, cada vez mais decadente, havia se instalado naquela cidade – onde Thomás estava de passagem – devido a uma animada festa de quermesse, que se iniciaria duas semanas depois. As festas de quermesse, em muitas cidades do sertão, são sempre ansiosamente aguardadas pela população local e adjacente dessas ermas localidades, que em sua grande maioria não têm muitos atrativos. Essas festas religiosas são grandes acontecimentos, onde há muita bebida, comida farta com várias novidades, tanto de mercadorias comercializadas nas coloridas barracas de mascates, quanto nas barracas de jogos e diversão e, vez por outra, algo um tanto quanto mais diversificado como um circo, por exemplo. Após três dias de trabalho duro – com o auxílio do negro Thomás – logo o circo já estava todo montado e pronto para um colorido espetáculo.

Durante esses três dias de trabalho, por incentivo do dono do circo – que, independente de qualquer coisa, sempre fora muito gentil e benevolente com todos que trabalhavam com ele ou para ele – por duas ou três vezes, Darquinha havia servido algo para Thomás; um refresco aqui, um gole de café acolá e até mesmo uma satisfatória fatia de broa de milho que ela mesma havia preparado sob a supervisão da velha cigana – que havia visto em suas premonições algo muito promissor para ambas na presença daquele simpático e educado negro. De certo modo, de uma forma bastante substancial, Thomás fazia parte do futuro tanto de uma quanto da outra, mas bem longe do circo e de todos aqueles que as conheciam.

O destino, esse deus – entidade, espírito, ou seja, lá o que o valha – um tanto quanto confuso às vezes, para a simples e limitada compreensão humana, tornou a presença de Thomás – um homem já maduro – muito confortável para a jovem, que após muito tempo de tristeza voltou a sorrir e ter o olhar brilhante outra vez. A cigana, mesmo com a visão bastante comprometida, logo percebeu certa afinidade entre eles. Mesmo sem ela pronunciar nenhuma palavra e nem ao menos poder ouvir qualquer coisa que ele dizia, parecia que a troca de sorrisos e olhares entre ambos dava mostras de estarem travando longos diálogos. Madame Staell, muito interessada em tudo aquilo, decidiu questionar sua protegida. Através de gestos cuidadosos e com bastante parcimônia, perguntou a ela:

– Por que tanta gentileza para com aquele negro desconhecido?

Darquinha, por sua vez, também através de gestos, mesmo com certa timidez, mas bastante confiante, respondeu:

– Há algo de curioso no modo como ele me olha, e o jeito como ele me trata me deixa bastante segura e muito confortável, como se em seus gestos gentis e seu sorriso sincero houvesse algo que me fizesse lembrar meu saudoso pai.

Assim que conseguiu se fazer entender, caiu num doloroso pranto, abraçando fortemente a cigana, que logo a amparou em seus braços, deixando que ela pudesse desabafar toda a tristeza que havia retraída em seu ser por tão irreparável perda.

Darquinha, vez por outra, em raros momentos de descanso, flagrava Thomás com um livro nas mãos. Um livro em si era sinal de grandeza de caráter – seu pai, que era um assíduo leitor, sempre dizia que os grandes espíritos se formavam através de sabedoria e muito conhecimento – concedendo ao seu portador ares de boa índole, tal como seu próprio pai fora um dia. Um homem amante das letras, portando sempre consigo um bom livro, seria incapaz de cometer qualquer tipo de grosseria ou indelicadeza com quem quer que fosse.

Quando ela ainda era uma criança e ainda podia ouvir algum tipo de som claramente, certa vez questionou seu pai porque deveria aprender a ler e a escrever, sendo que aquele tipo de atividade não era tão relevante para eles ali no circo, onde não havia muitos livros para serem lidos. Seu pai, um homem de traços serenos, sempre muito paciente e carismático, lhe respondera citando um antigo provérbio árabe:

– “A ignorância é vizinha da maldade.” Pessoas sábias são benevolentes por natureza.

Mesmo já com os primeiros sinais de surdez, quando seu pai lia algum livro para ela ou lhe ensinava algo, Darquinha escutava com silenciosa atenção, coisa que só se via na face de um aluno quando o professor era objeto de sincera admiração. Em seus inocentes pensamentos, um homem que admirasse os livros e que amasse as letras saberia o verdadeiro significado do amor.

Madame Staell tentou lhe gesticular sobre a diferença que havia entre eles, não só de cor – que era proporcional ao dia e à noite – a origem e tudo o mais, mas principalmente a idade, que era demasiadamente incompatível para um relacionamento entre ambos. Darquinha então se recordou de um livro que seu pai lera para ela há muito tempo. Nessa obra escrita pelo filósofo Platão ainda nos tempos áureos da humanidade, o enredo tratava de um grande banquete onde um elogio era feito para o Amor, esse deus infinito de sentimento sublime. Dentre os diversos elogios que foram cantados, um se destacou acima dos demais; dizia que no princípio éramos seres ligados como se fôssemos apenas um, formando duas partes que se completavam para formar um todo. Até que um dia os deuses – por ira ou talvez até mesmo inveja da felicidade humana – nos dividiram por toda a eternidade em duas partes distintas e, a partir de então, erramos pelo mundo de coração vazio e alma atribulada, sempre em busca de nossa outra metade. Quando encontramos a outra parte que nos completa, nada mais importa. Nenhum tipo de riqueza, status ou posição social faz sentido até nos ligarmos de forma incondicional a essa metade e sermos completos novamente.

Desde que o homem pisou nessa terra, talvez fosse essa a melhor explicação para o Amor, esse estranho sentimento que une as pessoas sem fazer distinção de gênero, cor, idade etc. Não que o amor seja cego, na verdade apenas consegue ver muito mais além do que os olhos podem enxergar. Madame Staell, uma mulher muito versada nas questões que envolvem os sentimentos e até mesmo a própria alma, se deu por convencida e nada mais acrescentou.

Na noite de estreia do circo, tudo estava belo e colorido como num sonho. Naquele pequeno vilarejo, era a primeira vez que um circo se instalava ali. Para a grande maioria – de uma população relativamente pequena – o circo era uma fantástica novidade, e todos estavam bastante ansiosos pelas apresentações. Até mesmo Darquinha, que há tempos não se apresentava como outrora sempre fizera, naquela noite em particular, estava bastante eufórica.

A festa da quermesse se iniciara assim que o sol se pôs e deu lugar a uma bela noite enluarada de tempo fresco e agradável. Havia comidas e bebidas dos mais variados tipos. Barracas coloridas anunciavam muitas novidades da cidade grande e o circo, sem muita demora, logo iniciara suas apresentações. O espetáculo foi um tremendo sucesso, mesmo que a plateia não fosse tão numerosa quanto o esperado. No entanto, a meia centena de pessoas – talvez até um pouco mais – que assistira ao espetáculo ficou admirada com tanta maestria dos artistas. O mais deslumbrado dos espectadores era o negro Thomás, que contemplava a apresentação de Darquinha boquiaberto. A jovem equilibrista estava inspirada naquela noite e fez uma de suas mais belas apresentações, mal sabendo que aquela seria a última vez que atuaria como uma artista circense.

Assim que as apresentações se encerraram e todos estavam contentes com o resultado – alguns porque ficaram admirados com toda a magia do circo, outros porque logo terminara. Somente Sr. Zacky estava cada vez mais acabrunhado com os parcos resultados da bilheteria, que, mesmo para uma noite de estreia, mal cobriam os custos da montagem do circo. Os artistas, que pareciam já estar acostumados com aquelas poucas migalhas, se deram por satisfeitos e, assim que terminaram suas apresentações, quiseram também – na medida do possível – aproveitar a festa. Nico Besta-fera, que antes mesmo de terminar as apresentações já estava caindo de bêbado, assim que o circo deu por encerradas as atividades da noite, logo se recolheu e foi tentar curar sua bebedeira com uma tranquila noite de sono. Alguns seguiram o exemplo de Nico e também foram se recolher.

Muitos outros quiseram estender a noite. Enquanto Vladmir se exibia com suas habilidades com as facas para algumas moças e rapazes, viu que Darquinha dava certa ousadia ao negro que ajudara na montagem do circo. Percebeu que os dois estavam ficando íntimos demais, pois o negro já havia lhe comprado um mimo na barraca de bichos de pelúcia e também haviam tomado refrescos juntos. Estando ela sempre muito sorridente para aquele estranho. Vladmir que outrora cultivara um amor platônico pela bela mãe de Darquinha, com a morte desta, entendeu que esse amor poderia ser estendido para filha que a cada dia que passava, ficava tão bela quanto a própria mãe. Ele que estava mordido de ciúmes pelo comportamento que Darquinha despedia a um estranho, – intimidades que a ele nunca fora permitida – decidiu que se quisesse alguma chance com a jovem deveria agir muito rapidamente. Como na feira havia bebidas à vontade para quem pudesse pagar, ele acabou exagerando no consumo e em pouco tempo já não era senhor de seu juízo perfeito e arquitetara para aquela mesma noite tomar Darquinha por companheira, mesmo que tivesse que obrigá-la a tal feito. O único problema era a velha cigana que trazia sua protegida sempre debaixo de seus olhos, mas como ele já havia tomada aquela resolução ficaria a espera da melhor oportunidade para colocar em prática seu vil intento. 

Antes da meia noite, quando as luzes começaram a se apagar e todos já estavam se recolhendo, o casal de apaixonados também decidira dar aquela noite por encerrada e após se despedirem com algumas trocas de carícias foram se recolher. Thomás se dirigira para o quarto onde estava hospedado radiante de alegria, tal como uma criança que ganha um brinquedo novo. Darquinha por sua vez, vivia os momentos mais intensos de sua tão lastimosa existência e se encaminhara a passos lentos para a barraca da velha cigana, que naquela hora já estava recolhida, mas ainda acordada a espera da jovem protegida. O circo estava montado ao lado da igreja e o acampamento dos artistas um pouco mais atrás. Entre o circo e o acampamento havia um pequeno trecho que àquela hora da noite, com céu já começando a se fechar para uma chuva que se anunciava para breve, estava um pouco escuro, mas era o caminho que ela deveria seguir até a barraca em que estava alojada.

 Foi justamente nesse trecho que Vladmir decidiu esperar por ela e dar seu golpe de misericórdia. Assim que Darquinha se aproximou do local onde ele estava de tocaia, ele se fez visível e para que ela não se assustasse gesticulou para que ela o reconhecesse. Como conhecia o faquir há muitos anos, ela pareceu não dar muito importância a ele e continuou caminhando até o momento que ele a segurou firmemente pelo braço tentando arrasta-la até uma construção em ruínas ao lado do caminho. Qualquer pessoa teria tentando gritar por socorro, mas para a jovem Darquinha isso não era possível, e ela mesmo que muito relutante, teve que se deixar levar, pois Vladimir tinha quase o dobro de sua força e parecia estar completamente descontrolado. Ela pode sentir o hálito de bebida e mesmo na penumbra da noite parece que podia ver algo estranho em seu olhar. Brilho que só aparece nos olhos de alguém que está friamente determinado a fazer algo terrível.  

Darquinha estava, naquela noite, trajada com um belo vestido de cetim de cor amarelo com belos motivos florais. Tinha os cabelos soltos apenas com um enfeite de prata para prender a franja que lhe caia nos olhos, e usava um agradável perfume que trazia notas de refrescantes flores silvestres. Até o momento que fora abordada por Vladmir estava numa noite esplendorosa, mas se vendo presa nas garras daquele ignominioso crápula experimentou um momento de terrível desespero. O até então, gentil e prestativo faquir, finalmente revelara sua verdadeira natureza e estando os dois a sós resguardados pela penumbra e a quietude da noite tentava de todas as formas arrancar as vestes de Darquinha com o ímpeto de possuí-la a qualquer custo e depois tomá-la por esposa. Naquele momento o terror enfrentado por Darquinha era algo inominável, sabendo que ali naquele local e àquela hora da noite sem poder gritar por ajuda, ninguém viria em seu socorro.

 Contudo, o ser humano desde sua origem mais remota, nos momentos mais terríveis de sua existência sempre conseguira encontrar uma forma de vencer as adversidades que a vida lhe apresentava e foi agarrada a essa desconhecida força que Darquinha encontrou a ajuda que necessitava naquele instante. Sabendo que suas forças e capacidades físicas eram inversamente desproporcionais a daquele asqueroso ser que a atacava como um animal selvagem, ela utilizando-se da capacidade de dissimulação que só os seres humanos têm, deixou de resistir e deu mostras que consentiria tudo o que ele quisesse.

Estando ele muito entretido em seu intento, parecendo que ela havia cedido as suas investidas e também por estar sobre forte efeito do álcool, abriu sua retaguarda e nem mesmo percebeu quando ela num ímpeto incrível de sobrevivência e defesa da honra arrancara-lhe uma de suas facas – que ele sempre trazia consigo na cintura – e num único golpe certeiro, cravou-lhe em seu peito com toda a força que possuía – a energia que um ser vivo consegue canalizar quando se encontra na iminência de algo perigo letal, é algo inacreditável. – Vladimir que jamais poderia esperar uma atitude daquela, vindo de alguém que até então tinha sido de uma meiguice extraordinária, deu alguns passos para trás e caiu de joelhos tentando arrancar a faca de seu peito. Todavia, o golpe havia encontrado o destino certo e o coração que outrora já batera doridamente pela mãe de Darquinha, naquele fatídico instante encerrava seus movimentos de uma vez por todas e colocava um fim definitivo na errante e frustrada vida daquele distinto faquir, que em último ato de desespero havia puxado a faca da ferida recém-aberta sacramentando seu próprio fim.

Assustada com todo aquele sangue que esvaia em jorros da ferida de seu algoz, sem saber se ele estava vivo ou morto, Darquinha saiu correndo na direção do acampamento que não estava muito longe. Logo na entrada do local onde as barracas estavam instaladas parou por um instante, para que pudesse recuperar o fôlego e tentar se recompor. Parada encostada a uma pequena árvore olhou ao redor e pôde então perceber que àquela hora já bastante avançada da noite, todos haviam se recolhido. Tudo estava quieto e silencioso, somente na barraca de Madame Staell ainda havia luz e movimento. Mesmo estando o céu quase todo encoberto por pesadas e escuras nuvens que ameaçavam derramar um aguaceiro a qualquer momento, naquele instante uma réstia de luar brilhou em seu rosto pouco antes dela entrar na barraca da cigana, que de alguma forma sobrenatural pressentia que algo não estava certo e já a aguardava ainda de pé bastante ansiosa. 

Quando sua protegida entrou ainda esbaforida e com escuras manchas de sangue respingadas em quase todo o vestido, a sábia cigana logo concluiu que por mais uma vez sua intuição não estava errada e muito rapidamente acolhendo a assustada jovem em seus braços tentou acalma-la com carícias e afagos. Assim que percebeu que sua respiração se desacelerava e ela estava um pouco mais calma, questionou o que havia acontecido a ela e o porquê dela estar naquele estado tão lastimável. Através de gesticulações ainda desconexas, Darquinha lhe relatara todo o acontecido e tentava a todo custo convencê-la a segui-la para mostrar-lhe o local onde Vladmir tentara lhe violentar e ela o havia ferido. Mesmo sendo vítima daquela vil criatura, ainda assim, demonstrava uma profunda preocupação pela vida daquele ser, e ansiava por tentar ajuda-lo de qualquer forma. 

Madame Staell sendo uma mulher já experimentada em anos de vivência e com a maldade humana, decidiu que não seria correto irem sozinhas até o local de um possível homicídio. Sem demora, foram chamar o dono do circo, mas antes fizera com que Darquinha trocasse o vestido sujo de sangue e lavasse bem o seu rosto, tentando apagar qualquer traço de culpa que pudesse lhe incriminar. A velha cigana fora categórica ao dizer que ela deveria manter tudo àquilo no mais absoluto segredo, e de forma alguma deixar que qualquer pessoa ao menos desconfiasse que ela tivesse algo haver com o assassinato em si. Diriam apenas que, estando ela voltando de um passeio pela cidade se deparou com alguém caído no caminho e quando ela por curiosidade foi ver de quem se tratava, percebeu que era o faquir e este, estava ferido de morte.

Como a hora já era um tanto quanto avançada, Sr. Zacky com muita má vontade e um mau humor bastante amargo, se levantara praguejando a tudo e a todos, quis logo saber quem o estava incomodando àquelas horas tão tardias. Com palavras rápidas e diretas, logo a cigana o colocara a par de toda a situação e mais que depressa lhe rogou que as acompanhasse até o local para quem sabe ainda poder ajudar o infeliz faquir. Rapidamente se encaminharam para o local do acontecido.

Quando chegaram onde tudo ocorrera, Sr. Zacky logo percebeu que o faquir estava sobre uma poça de sangue como se todo o sangue de seu corpo tivesse se esvaído e logo pôde verificar que Vladmir já estava sem vida, e que nada mais poderia ser feito por ele. Pediu a velha cigana que lhe repetisse toda a historia uma vez mais. Enquanto Madame Staell lhe relatava a história que ela mesmo criara em todos os seus pormenores, sem mudar uma única silaba se quer, ele com o dedo sobre o lábio superior tentava entender como aquele fato se dera. Mesmo achando toda aquela historia muito estranha. Pois, sabia ele que Vladimir era um homem forte e muito ágil e não deixaria se ferir tão facilmente daquela forma com uma facada no peito, havia algo muito errado naquilo tudo, mas de forma alguma ele ousou duvidar das palavras que a cigana lhe relatara.

Deixando o dono do circo digerir a historia bem como entendesse, deu-lhe alguns minutos de reflexão e logo em seguida questionou-lhe de forma categórica e muito convincente:

– O que faremos Sr. Zacky? Este homem foi assassinado! Devemos acionar as autoridades imediatamente! Ou pelo menos dar o alarde pela cidade, quem sabe assim poderemos esclarecer o que aconteceu com nosso companheiro.

Darquinha se mantinha de cabeça baixa sem conseguir levantar os olhos – pois sabia que qualquer um poderia ver culpa em seus olhos – se mantinha quieta ao extremo tentando manter até mesmo a sua respiração num movimento cadenciado e muito silencioso, vez por outra dava um suspiro profundo e balançava a cabeça em movimento negativo. Quando a cigana propôs acionar as autoridades, de alguma forma ela pode entender o que estava sendo dito, mesmo sem poder ouvir nenhuma palavra se quer. Um frio arrepio correu por toda a sua espinha e todos os pelos de seu corpo se eriçaram, sorte sua que as trevas da noite ocultaram aquela infeliz e involuntária reação perante aquelas palavras de sua tutora. O dono do circo decidira que o melhor a se fazer era primeiro alertar seus companheiros, e somente depois, acompanhado de outras pessoas de sua confiança irem em busca das autoridades locais, pois sabia melhor do que ninguém que a polícia no Brasil não era muito sociável com estrangeiros e nada benevolente com estórias mal contadas. 

Em poucos minutos todo o circo estava de pé. O alvoroço foi completo como se o Juízo Final tivesse se iniciado. Houve diversas acusações, profundos lamentos e várias conjecturas infundadas. Todos pareciam ter uma resolução predeterminada para o que havia acontecido. Sr. Zacky a todo o tempo tentando se manter calmo e como líder daquela trupe, buscara com palavras de bom senso manter os ânimos amainados. Dizendo em tom sereno, mas de uma forma firme, que todos deveriam tentar falar um pouco menos e agirem um pouco mais. Reuniu alguns homens consigo e acompanhado da velha cigana foram em busca de alguma autoridade na cidade. Madame Staell dera ordem a Darquinha para que se recolhesse e em hipótese alguma deveria manter nenhum tipo de diálogo com quem quer que fosse. 

Logo toda a cidade estava sabendo do acontecido e como era um lugar onde a paz era absoluta, aquele trágico acontecimento era uma novidade que por muitos dias serviria de entretenimento nas rodas de conversas. Antes de tudo, havia a necessidade de tentar solucionar o crime. Naquela mesma noite, um pouco mais cedo, algumas pessoas da cidade presenciaram uma violenta discussão entre Nico Besta Fera e o Faquir Vladimir. Para os integrantes do circo aquilo era algo mais do que normal, mas para uma população pacífica e bastante fraterna, aquela contenda era algo desnecessário e bem possível de ser evitado. Para quem presenciou a discussão, não restava dúvidas de quem era o assassino do belo e simpático rapaz que a todos agradara naquele pequeno lugarejo. Vladimir, quando lhe era conveniente sabia muito bem como ser agradável e muito dissimulado. Assim que a notícia do assassinato chegou aos ouvidos do padre – principal autoridade local – e os relatos da discussão se fez presente, rapidamente fora dada a ordem para que o anão do circo fosse detido para um breve interrogatório.

É dito em mesas de bares e rodas de conversas que uma desgraça nunca vem sozinha. Nico Besta Fera que dormia sossegadamente, curtindo mais uma noite de bebedeira, nem mesmo poderia imaginar o que estava acontecendo quando um grupo de homens lançou-se sobre ele para o manietarem e o levarem perante o padre que já havia chamado o coronel, para que em sua presença o acusado pudesse confessar seu hediondo crime. O anão que despertara de um sono ebriamente pesado, se assustara bastante com tudo o que estava acontecendo. Primeiro pensou estar tendo um terrível pesadelo, mas logo pode perceber que realmente estava sendo amarrado e amordaçado por um monte de pessoas desconhecidas naquela escuridão da noite. 

Como ele dormia numa espécie de oficina do circo, junto a várias ferramentas e apetrechos, num ímpeto de tentar escapar daquela situação, deu alguns pinotes e empurrando um daqui e derrubando outro acolá tentou fugir pela única porta que havia naquele improvisado dormitório e quando se lançou em sentido a porta, acabou por derrubar a única mulher que estava naquele grupo que viera com intuito de prendê-lo. Na queda a mulher foi de encontro com um ancinho que havia caído com toda aquela balburdia. Os dentes da ferramenta lhe cravaram em seu crânio de forma letal, causando a segunda morte da noite naquela então pitoresca e pacata cidadela. 

O anão sem saber do que se tratava, ainda tentou de todas as formas escapar de seus algozes, mas sua tentativa desesperada de fuga era prova mais que suficiente de sua culpa pelo assassinato do faquir. Aquele incidente com a mulher na porta de sua barraca selara de vez o seu destino que se resolvera em poucos minutos, quando a turba enfurecida com a cena da mulher que perdera sua vida avista de todos após o anão tê-la empurrado na tentativa de se evadir do local. Nicolas Benetti fora linchado por um grupo de pessoas, que até então se demonstraram ser bastante calmos e muito benevolentes com forasteiros, mas naquele momento perdera por completo o sentimento de piedade. Sob uma torrente de socos e pontapés vindos de todos os lados, em poucos instantes a vida do anão do circo também fora tolhida.

Aquela noite que se iniciara com fogos de artifício, muita música e uma alegria incontida por parte de todos que prestigiavam a festa, terminaria com um saldo bastante negativo. Três mortes bastante incomuns. O primeiro deles, – um assassinato sem sombra de dúvidas – não havia certeza plena de quem era o criminoso – apenas conjecturas –. O segundo havia sido um infeliz acidente causado pelas sinistras tramas do destino. E o terceiro, – também um crime certamente –, mas os assassinos eram muitos e não havia como indicar um único culpado. Pois, fora um grupo, que sob a proteção da escuridão da noite conseguiu se livrar de qualquer tipo de acusação. Tudo foi tão rápido que ninguém viu nada e se alguém o viu, preferiu por se manter em sigilo numa espécie de autoproteção mútua. De certo modo tudo estava esclarecido. O que restava era cada qual chorar e lamentar pelos seus mortos e dar prosseguimento para as devidas exéquias de cada um.

Texto publicado na 6ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de junho de 2024. → Ler edição completa

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Diário de Anto Stefan Miahi II

(Anotações em folhas soltas) 21 de junho de 1871 - Por alguma razão, desde que cheguei a este castelo, sinto ter perdido…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Diário de Anto Stefan Miahi II

(Anotações em folhas soltas)

21 de junho de 1871 - Por alguma razão, desde que cheguei a este castelo, sinto ter perdido algo mais que meu bom senso. Nesta manhã busquei meu caderno, que uso há algum tempo para escrever meus pensamentos, e não pude localizá-lo em parte alguma de minha habitação. Tirei do armário as roupas, joguei gavetas para todos os lados e nada de encontrar meu pequeno companheiro. Tive que recorrer às folhas soltas que encontrei na escrivaninha disposta defronte da cama, que por sorte também não são poucas, e posso gastar algum tempo nestes registros de minha aventura dos últimos dias.

Inicio este meu relato em meio a esta tarde de sol opaco e ventos uivantes com sinais sombrios de tempestade. Voltando para o dia 19 de junho, pela manhã despertei com alguma dificuldade. A minha mente estava nebulosa. O quarto estava em um completo breu, e pouca coisa conseguia ver. Alguns minutos se passaram até que pude realmente abrir meus olhos sem me sentir dentro de um maldito barco. Meus hábitos como militar me fazem levantar da cama às cinco da manhã. Nem mesmo o galo é tão pontual quanto um militar bem doutrinado.

O que a rotina e a repetição fazem com o indivíduo? Resultam em uma clara domesticação do homem selvagem e brutal, criando nele o senso de civilidade e consonância social que passam a ser demasiadamente enraizados em sua alma, e ele cria estima por eles. Bem, isso parece lógico.

Devo dizer que este lugar é impressionante por si só. De onde estou, posso ver uma cadeia montanhosa com seus altos pontos completamente brancos, verdadeiros gigantes adormecidos. O quarto está bem-posicionado, devo dizer. O Sol, por detrás daqueles picos majestosos, tira o ar de tão impressionante que é.

Após estes momentos de percepção e admiração que nunca foram de meu interesse, mas que neste momento sinto que devo pontuar, volto ao castelo propriamente dito. Os corredores exibem tapetes vermelhos e tapeçarias que parecem retratar e remontar as gerações anteriores que aqui viveram. Os móveis dispostos neles são elegantes, com desenhos em baixo relevo. Parece que em todo lugar que olho tem história, fatos. Ao que vejo, se for retirada uma pedra do seu lugar, talvez seja capaz de remontar a algum evento na antiguidade. Minha ansiedade é tanta que imagino que, em minhas pesquisas, eu possa descobrir que daqui veio algum Papa, ou um parente perdido de Joana D’Arc que buscava redenção para a pobre moça.

Caminhando pelo primeiro andar, pude notar um detalhe curioso nos quartos. Muitas portas estavam, não apenas fechadas, mas trancadas com chave. Dessas, algumas poucas, pude notar um odor incomum que logo desapareceu e que me fez lembrar os campos em que estive. Isso me estremeceu as pernas, um frio percorreu minha espinha, e, em pouco tempo, as lembranças vieram à minha mente. Dei dois passos para o lado, me apoiei no móvel que ali estava, e logo levei minha mão direita até minha face, cobrindo os olhos. Pouco tempo passou e voltei a mim.

Decidi que deveria descer. Já eram quase sete e meia da manhã, e não tinha a intenção de me atrasar para o café da manhã. Supus que deveria ser esse o horário para comer, já que, até este momento de minha exploração, não havia encontrado ou escutado uma única alma viva no corredor, nem mesmo nos quartos que estavam com as portas abertas ou destrancadas.

O castelo do Conde era realmente grande. Um convidado poderia se perder dentro dele. Isto constato ao pensar que ainda haveria dois andares para cima, o terraço, e as torres que dão mais um ou dois pisos para cima. Admito que desconsidero haver algo abaixo da terra, não me parece lógico. Contudo, não posso descartar por completo a possibilidade de que os criadores dessa construção tenham investido empenho e criatividade para agregar algo indo para baixo do térreo.

Desci lentamente as escadas que encontrei, torcendo serem elas que levariam à entrada, aos cômodos inferiores, onde se encontraria o grande salão para poder quebrar este meu jejum. Por sorte, tomei o caminho correto.

Me deparei com a grande porta de madeira maciça com belos umbrais entalhados que havia visto na noite anterior, antes do meu desmaio inusitado, que também irei pontuar mais para frente neste meu relato, que se mostra um fato com detalhes estranhos.

Da porta de entrada, em ambos os lados, disponha duas flâmulas curtas, do tamanho da altura da cintura de um homem adulto comum. As duas paredes laterais eram amplas e nelas estavam dispostas, em cada uma, duas flâmulas do mesmo tamanho, entre elas uma grande tapeçaria com o brasão que parecia ser da família do conde.

A imponência daquele ambiente era de deixar muitas famílias da nobreza francesa envergonhadas. Próximo a mim, em ambos os lados, havia passagens em arco, sem portas, para cômodos que poderiam ser explorados.

Olhei primeiramente para a esquerda; era um cômodo amplo, com uma mesa no canto oposto à porta por onde eu observava o interior, feita de madeira escura, sobre a qual estavam dispostos vários papéis e alguns livros. Atrás dela, uma poltrona do mesmo tom de verniz e madeira, com um grande encosto. Nela, estavam várias peles grossas, uma parecia ser de urso-pardo. No alto do encosto, estavam esculpidos dois corvos, um de frente para o outro, mas com as cabeças voltadas para baixo.

Nunca havia visto algo tão sombrio e incomum. Quanto ao cômodo em si, suas paredes estavam repletas de livros, cobrindo a totalidade das superfícies. Então, percebi uma porta ao fundo, não muito alta, de frente para o portal por onde eu observava. Ao lado dela, deparei-me com algo que parecia um corrimão entrando na parede, indicando um ambiente a mais em um cômodo oculto.

Antes que eu me desse conta, uma voz serena de barítono me tirou de minha exploração visual.

— O senhor é esperado neste aposento para o desjejum. — Apesar da voz calma e do tom educado, sua expressão facial era aterradora. Tinha olhos grandes, castanho-escuros, com órbitas afundadas. Sobrancelhas arqueadas, um nariz aquilino e um queixo curto. Os lábios eram finos e esbranquiçados, com as maçãs do rosto muito pronunciadas. A pele, sem muita cor.

— Oh…! Obrigado. — Minha voz saiu de sobressalto, e minha reação instintiva foi levar minha mão esquerda até a cintura em busca da bainha de minha espada. Para minha profunda frustração, ela não estava em seu lugar devido. — Quem é o senhor? — Questionei o homem diante de mim, vestido com trajes subalternos.

Ele sorriu, o que o deixou ainda mais assombroso, com um ar psicótico.

— Sou seu humilde servo, Narcís Nestor. E creio que o senhor seja Anton, certo? — Ele fez uma reverência um tanto longa enquanto falava, e ao término dela se endireitou. Era alto e magro, e suas roupas lhe davam um porte elegante e igualmente ameaçador. Seus cabelos, longos até os ombros, estavam presos em um rabo de cavalo com fios ruivos e ondulados.

Apenas assenti com um movimento de cabeça, confirmando sua informação.

— Venha por este caminho, cavalheiro. — Ele girou nos calcanhares e começou a andar sem me dar a chance de questioná-lo sobre qualquer outra coisa.

Ele me conduziu por um corredor sem janelas e, ao alcançarmos o meio dele, havia um portal, este com portas. Ele abriu ambas as portas, revelando uma sala de jantar espaçosa. No centro, uma grande mesa acomodava até dezesseis pessoas. A mesa era de carvalho em tom bege-claro, e as cadeiras completavam o conjunto na mesma cor. Na parede oposta à porta, havia uma lareira grande, acesa, e acima dela, um escudo com duas espadas cruzadas.

— Ao entrar, o ambiente estava quente e aconchegante. Olhei para cima, observando os detalhes o máximo que me era possível. O pé-direito daquele espaço era alto, com dois grandes lustres feitos de rodas de carroça, presos por correntes.

Mesmo naquela sala de jantar, o luxo não era escasso, pois notei grandes vitrais acima da porta. Nas bordas, o azul-índigo se destacava, enquanto o centro era de cristal, permitindo a visão do exterior, onde uma tempestade de neve se formava. No meio, um azul-escuro predominava, bloqueando a entrada da luz do sol. Além disso, cortinas duplas pendiam do ponto mais alto, cobrindo quase toda a janela. As cortinas mais grossas eram de um tom bordô profundo, de tecido que parecia veludo, enquanto as mais finas eram brancas, lembrando a neve que caía lá fora, feitas de seda.

O ambiente não parecia carecer de luz natural com todas aquelas velas e a lareira queimando lenha. Isso me fez perceber um detalhe que me havia escapado até então: muitas das janelas tinham esse mesmo tom escuro. Mesmo a do meu quarto possuía um tom azulado que deixava o ambiente mais sombrio.

— Aconselho que o senhor se sente neste lugar enquanto trazemos seu café da manhã. Já está ficando tarde e creio que esteja com fome, cavalheiro. — Ele apontou para uma cadeira que havia movido, indicando onde eu deveria me sentar. Sua expressão estava séria, apesar de tentar parecer convidativo e educado.

— Claro, evidentemente não queremos atrasar o café da manhã do Conde! — Tentei ver se Narcís dizia algo sobre seu mestre, já que até o momento ele não havia me fornecido nenhuma informação sobre ele ou sobre o castelo. — Não podemos fazer essa quebra de protocolo social.

— O mestre Drácula tem o hábito de comer em seus aposentos. Mas, ele lhe desejou um excelente desjejum. — Novamente, aquele sorriso que faria até um coveiro sentir arrepios na coluna.

— Que inusitado. Bem, diga ao Conde que também lhe desejo o mesmo e que gostaria de poder sentar-me com ele para conversarmos sobre o assunto que me trouxe até aqui. — Tentei dar meu melhor sorriso para a criatura ao meu lado, que estava arrumando meus talheres.

— Vou transmitir sua mensagem ao Conde. — Narcís se colocou ereto e seguiu em direção à porta na parede oposta àquela por onde eu havia entrado, mais próxima à parede à direita.

O mordomo Narcís caminhou rápido e silencioso, parando quase em frente à porta. Ele estendeu o braço para pegar um sino sobre um móvel ao lado esquerdo, e logo o fez soar. A porta se abriu com um forte rangido. Dela saiu uma senhorita de cabelos pretos, pequena e esguia, trazendo um carrinho com vários pratos e bebidas quentes. Ao se aproximar, pude observar melhor suas feições. Os olhos eram amendoados, de um tom de âmbar que eu nunca havia visto, tão intensos e atentos. As sobrancelhas eram retas, um pouco finas demais. O nariz era delicado, levemente aquilino. O queixo pontudo, com o lábio superior fino e o inferior carnudo.

Ela levava um tecido amarrado sobre a cabeça para prender o cabelo, e ao se aproximar para pôr a mesa que trazia no carrinho, notei que seus cabelos eram negros e ondulados.

— Obrigado, ficarei apenas com o café, a manteiga, alguns pães e talvez essa geleia que parece ser de mirtilo. — Busquei um tom gentil e a expressão mais sincera possível. Mas aquela senhorita mantinha o rosto sem emoções.

— Se é o que o senhor deseja. — A voz dela era de uma soprano, agradável de se ouvir, um verdadeiro contraste. Um choque.

— Por favor, qual é o seu nome? Eu me chamo Anton, é um prazer conhecê-la! — Tentei ser social e educado, mesmo parecendo que ela não permitiria que eu me aproximasse. Desejava poder conversar com alguém, já que minha tentativa anterior foi frustrada.

Apenas obtive um profundo e consternante silêncio por parte daquela jovem.

Naquele mesmo dia ao entardecer - Devo dizer que me senti compelido a retornar ao meu quarto após o almoço e após abrir mais alguns livros da biblioteca. Tem sido uma exploração frutífera. No entanto, uma inquietante sensação vem dominando meus pensamentos. A lástima é que ainda não pude perceber a razão desses pensamentos ou mesmo sua fonte, se ela habita em mim ou é proveniente de algo externo. O que acalma meu espírito é estar neste quarto com a caneta, a tinta e o papel ao meu alcance.

Voltemos ao dia 19 de junho.

Apesar de minhas tentativas de criar vínculo com os empregados do castelo terem sido um completo fracasso, naquele dia Marcos, após o desjejum, me guiou para outra sala que eu havia observado antes. Ele disse que eu poderia acessar todas as obras dispostas neste cômodo e que em outro momento me levaria a uma sala ainda maior, contendo obras raras que o conde mantinha apenas para si, mas que, por conta de minha presença, estaria inclinado a abrir para que eu pudesse investigá-las.

Eu não havia visto a totalidade daquela sala. À esquerda da porta, ao fundo, havia uma curta escadaria em L que avançava para dentro e para cima da parede, acima da porta, como um patamar com mais prateleiras e livros que só se podia notar ao adentrar o ambiente. O andar inferior tinha pé-direito alto, e ao lado da mesa havia duas janelas em arco de dois metros e, entre elas, uma porta de vidro que levava ao pátio, além de outra pequena, de madeira, que não ousei verificar.

Desde o andar de baixo até o de cima, do piso até a metade da altura de um homem adulto, as paredes eram revestidas com uma madeira caramelo formosa e bem cuidada. O patamar superior tinha um pouco menos de um metro e noventa de altura, o que me fez desviar dos candelabros presos nas colunas quando subi para explorar.

O que me surpreendeu foi que cada volume estava bem cuidado, suas capas pareciam novas, com sinais de pouco uso. O conde deve ser rigoroso com a conservação das obras mantidas aqui em seu castelo.

As horas passaram enquanto eu verificava cada obra naquela imensa sala. Levaria um longo tempo até que eu revisasse cada livro ou, no mínimo, juntasse os que realmente me interessavam. Ao olhar para o exterior pelas janelas da porta, percebi que já estava escurecendo. No pico das montanhas, a luz começava a desaparecer, e fiquei hipnotizado por aquela vista.

Então, uma voz profunda e calma quebrou meu transe.

— Espero que não esteja interrompendo, senhor Anton? — Por um instante senti que meu corpo se congelava, no entanto não durou muito. Uma voz, apesar de grossa, era firme, capaz de fazer o silêncio reinar com apenas uma palavra numa estalagem cheia de bêbados.

Dei meia volta para ver quem falava, apesar do susto. Ele estava parado no patamar superior, escorado no guarda-corpo, com um livro na mão. Sua altura era menor que a minha, o corpo um tanto esguio, com tudo estava bem trajado com uma camisa branca e um colete de dois tons pelo que parecia, preto nas costas e vermelho na frente. Os cabelos pretos e levemente ondulados e um tanto longos caíam sobre os ombros.

— Sou um homem de hábitos noturnos, para a infelicidade de meus convidados. — Ele virou o rosto ficando de perfil de frente com uma lâmpada que estava a menos de um metro dele pendurada na coluna, revelando uma aparência surpreendentemente jovial. O bigode e cavanhaque bem aparados mostrando refino como evidência de sua vaidade, assim sendo esperado de alguém que vinha de uma da alta sociedade. A pele parecia de marfim, de um aspecto fantasmagoricamente translúcido, como se os raios dourados carregados por Apolo jamais a tivessem tocado. Seus lábios finos e brancos pareciam sem vida, e seu nariz aquilino deixava sua expressão severa, algo enigmático, que me causava calafrios por toda a espinha. Ele me observava de soslaio, dando-me a impressão de pouco interesse.

Sua presença era imponente, inundava a biblioteca, dando-me a triste impressão de estar na companhia de um animal selvagem, um indivíduo de poderes não mensuráveis, pronto para me atacar. Meus instintos mais íntimos gritavam freneticamente para que eu saltasse pela porta de vidro às minhas costas, enquanto meu treinamento me compelia a manter a posição e enfrentar meu temor, como fiz tantas vezes diante dos estrondosos gritos dos inimigos de Napoleão e das baionetas dos prussianos.

— O senhor me pegou desprevenido… — Minha voz saiu rouca, porém o mais firme que consegui. Fitei seus olhos, que pareciam de um tom quase âmbar, vivos, atentos, de uma profundidade assombrosa. Parecia ler minha intenção combativa. O conde havia movido apenas a cabeça para olhar minha pobre existência confrontando sua magnitude. — Devo supor que seja meu estimado anfitrião, que vi na minha primeira noite e com quem, por alguma infelicidade, não pude trocar muitas palavras. — Neste momento, escapou dos lábios dele um sorriso sem jeito. Tentei recobrar minha dignidade e civilidade perdida com o susto.

Vlad então fechou o livro que estava em suas mãos e começou a descer a escada oculta atrás da parede. O que me assombrou de sobremaneira foi a completa ausência do som de seus passos na escada de madeira. Parecia caminhar como um gato. A sensação de perigo voltou a invadir minha mente, meu coração acelerou, e instintivamente me movi para a frente da grande mesa. Minha mão esquerda mais uma vez buscou a bainha de minha espada, e novamente sua falta me deixou frustrado, fazendo-me sentir nu, desprovido de proteção, à mercê de quaisquer poderes que o conde Drácula pudesse tentar contra mim.

Mesmo ele sendo menor que eu na altura e, naquele momento, estando na escada à minha frente, aquele sentimento opressor não se amenizava. Quando a silhueta de Drácula se delineou na curva do L da escadaria, seus olhos ganharam um estranho brilho amarelo. Uma emanação que não encontro outra palavra para descrever, senão espiritual. Como pequenas pedras em sua face que emanavam uma presença aterradora. Naquele momento, meu ceticismo quase cedeu aos mitos contados pelas ciganas das periferias de Paris sobre as lendas dessa terra estranha.

Seu corpo, não muito mais alto que um metro e setenta e cinco, alcançou a luz do andar de baixo, e sua face havia mudado completamente, ganhando ares mais suaves. Seu porte tinha uma elegância incomum, e seu caminhar era calmo, demasiadamente sereno.

— Ora… Devo assumir que este sou. Seja bem-vindo oficialmente ao meu humilde lar. — Vlad tentou exprimir um sorriso que revelou seus dentes, e o que me surpreendeu foram os caninos anormalmente pontiagudos e brancos, similares aos de um lobo. O que me deixou desconfortável, mesmo ele parecendo tentar acalmar-me. — Espero que suas acomodações e alimentação estejam de acordo com seu gosto. Suponho que alguém que venha da cidade grande tenha preferências alimentares mais requintadas, não é mesmo, Anton? — Aquela pergunta me soou estranha, mas até aquele momento minha estadia no Castelo Drácula não havia tido problemas, exceto minha tentativa falha de me comunicar com os empregados.

— Conde, não tive qualquer problema quanto aos aposentos ou mesmo referente à alimentação. Militares se habituam a dormir em catres desconfortáveis, a dormir pouco, e a comer mal. — Recorri à minha honra como soldado para voltar ao meu centro, meu equilíbrio mental. — Aqui está além daquilo a que me habituei nos últimos anos.

Vlad passou as horas seguintes conversando comigo, tratando da cultura local, suas influências, as histórias, e me mostrou alguns de seus títulos favoritos. Nossa conversa foi amistosa, e me senti como diante de um dos mestres da minha antiga universidade, aprendendo o que estivesse ao alcance de minhas faculdades mentais. O tempo, em alguns instantes, pareceu ficar mais lento. A noite avançava vagarosamente, mesmo que a conversa estivesse empolgante, aquela percepção não me abandonava.

O conde realmente era um homem da noite, estava cheio de energia, diferente de seus primeiros momentos naquela sala. Sua oratória, o vasto conhecimento que ele apresentava, me dava a impressão de que alguns dos fatos narrados ele havia vivido. A riqueza de detalhes, a precisão do relato, traziam uma segurança que apenas quem viveu, presenciou e experimentou poderia possuir.

Andávamos por todo o cômodo enquanto conversávamos. Apesar de eu ter despertado antes do galo, realmente podia sentir que não me faltava energia, um impulso, não, uma força me sustentava ali naquela conversa. Parei diante da porta, com ela às minhas costas, enquanto observava Drácula caminhar em direção à poltrona com dois corvos de cabeças voltadas para o assento. Ele se sentou como um rei, cruzou as pernas, apoiou-se no braço esquerdo e repousou um livro sobre a perna esquerda, olhando fixamente para mim. Sua forma de olhar era intimidadora, novamente notei aquele estranho brilho.

Olhei o relógio que carregava no bolso do colete e pareceu-me que eram quase seis horas da manhã do dia seguinte. Meus olhos voltaram para as janelas, onde a luz da lua ainda brilhava intensamente. Caminhei em direção à porta de vidro e, ao olhar para fora, o espanto me dominou. A lua ainda se encontrava no ponto mais alto do céu. O pátio do castelo estava coberto de neve, e a luz que vinha do céu dançava em tons de azul, brindando a neve branca com um belo detalhe.

Subitamente, o ar pareceu ficar denso, difícil de respirar. Olhei para trás e vi o rosto daquele homem pequeno, sentado em sua grande poltrona, com um sorriso arqueado na face, novamente revelando aqueles caninos animalescos, num ar malicioso.

A biblioteca tinha uma pequena lareira na parede à direita da porta de entrada, onde também se encontrava a porta de vidro. Mesmo assim, minha respiração condensou como se eu estivesse ao ar livre. Voltei meu rosto para fora e notei a silhueta de uma mulher parada próxima ao muro. Não era alta, e seus cabelos pareciam longos. Aproximei-me mais da janela para tentar ver melhor, quando a luz da lua recaiu sobre ela, revelando uma pessoa com o mesmo tom de pele do senhor Drácula. Ela deu alguns passos mais para o centro do pátio, evidenciando mais detalhes de sua fisionomia.

Os cabelos eram ondulados, mais longos do que notei inicialmente, de um tom preto similar ao céu noturno. Seu nariz fino e levemente pontudo contrastava com seus olhos grandes, que pareciam ser de um azul claro. Os lábios eram volumosos. Seu corpo era pequeno, esguio e delicado. Sua expressão era apática, distante. Ela olhou para a lua e, assim como o senhor do castelo, pareceu-me exibir uma aura sobrenatural. Seus olhos brilharam num tom branco pálido, mas logo meu ceticismo voltou, e supus que era efeito da luz da lua.

Aquela presença no pátio estava apenas coberta com um vestido de algodão rústico e uma capa transparente. Direcionei minha atenção aos pés dela, que estavam descalços.

Quando pensei em tocar na fechadura para chamar a jovem no pátio, senti algo me impedindo de tomar aquela ação. Mais uma vez, meus instintos soaram em minha mente como trombetas de guerra. Girei nos calcanhares, com os punhos fechados e os dentes cerrados, como se estivesse pronto para receber o primeiro golpe. Assim que o fiz, um vento gélido invadiu o ambiente, a lareira apagou, sobrando apenas a iluminação natural vinda de fora que, ao passar pelos vitrais, deixava o ambiente num jogo de vários tons de azul. Foi então que, ao abrir meus olhos, notei três pares de olhos me observando. O único que reconheci foi o que havia visto nos olhos do conde, que ainda se encontrava sentado em sua poltrona. Os que vi no patamar eram vermelhos com toque âmbar, enquanto os que estavam próximos à entrada que conduzia ao interior do prédio eram de um tom vermelho como brasa viva.

Ouvi um grunhido de feras ocultas na escuridão. Sentia a adrenalina subir e inundar cada parte do meu ser. Minha respiração ficou rápida e as batidas do meu coração eram palpáveis dentro do peito.

Então, o silêncio. A escuridão. O vazio apagando cada um dos meus sentidos. Sobrando apenas o impacto oco do meu corpo contra o chão de madeira do castelo. 

Para meus registros finais nestas folhas deste último evento, não me pareceu ter levado mais que alguns poucos minutos, segundo minha percepção. Corrijo, o que recordo destes últimos momentos é como um pesadelo sombrio e muito vívido. Não consigo confiar em minhas memórias desta manhã, ou noite. Existe algo que me obscurece a razão, que me desafia a duvidar dos fatos. Será que o que vivenciei naquela manhã, ou noite, era real? O que vi foi realmente um fato? Quem era aquela jovem no pátio? Será que fiz a escolha correta de vir ao meio do nada em Bram, no centro da Europa?

Texto publicado na 6ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de junho de 2024. → Ler edição completa

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Lúgubre

Por mais que eu tivesse anseios em sair de lá, sabia que minha alma pertencia àquele lugar tenebroso onde o odor escarlate emanava de cada puído tijolo…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Por mais que eu tivesse anseios em sair de lá, sabia que minha alma pertencia àquele lugar tenebroso onde o odor escarlate emanava de cada puído tijolo, onde a escuridão chegava a ser tangível.

Após o empurrão, me afastei do salão principal, mas permaneci estática diante daquela figura horrífica, enquanto os musicistas dedilhavam seus dedos sangrentos sob as cordas de aço do violino que lamentava a cada acorde tocado.

— Senhorita! Perdoe minha indelicadeza, permita-me recomeçar por favor, meu nome é Conde Nickollas, disse ele, seus lábios moviam com elegância, e os olhos azuis, apesar de vazios, iluminaram aquele pálido rosto, as maçãs do rosto eram protuberantes, seus lábios sedutores eram um convite à luxúria, emoldurando seu fino rosto. Cabelos lisos, penteados para trás em tons castanhos, ele se portava como um verdadeiro lord, seu vocabulário era riquíssimo. 

— Me chamo Rose — minha voz soou trêmula como um sussurro, ele me convida novamente para dançar, aceito seu convite. Enquanto caminhava, o imenso salão tornou-se vazio, tal qual numa dança nupcial, o que causou desconforto, pois era uma lembrança dolorosa, não sei como sobrevivi àquele casamento... foram anos terríveis ao lado daquele crápula, ainda carrego marcas, imersa naquele poço lamacento de lembranças. Ele me conduz de forma gentil, assim como fizera mais cedo.

Meus cachos ruivos bailam no ar, ao som daquele nefasto quarteto de cordas que agora executava a fúnebre peça de Bach: Toccata and Fugue. Enquanto bailo, questiono minha sanidade, tudo isto é real? Quem será o dono deste colossal castelo? O castelo é real? Devo estar em algum sonho, ou em alguma realidade paralela. Meu par, percebeu minha inquietação, envolveu seus braços em volta da minha cintura, sorriu e disse: — Senhorita Rose, o que lhe aflige? — Meu busto palpitava, olho em volta, sinto a volúpia através das máscaras, sussurros se intercalam com sorrisos.

— Não há o que temer... — em seguida ele sorriu, então, vislumbrei o que seus lábios de seda escondiam, eram caninos pontiagudos brilhantes. Desviar o olhar se tornou uma árdua tarefa.

Uma leve vertigem apoderou-se de mim, disse-lhe que não me sentia bem, então fomos em direção a uma das inúmeras janelas. Chegando lá, fomos agraciados com uma túrgida e lânguida lua, brilhava soberana sob a temível escuridão. Fui arrebatada por aquela visão, fui tomada por um inominável terror, mas não consegui emitir nenhum som. Ao abri a janela, uma impetuosa lufada de vento nos abraça, se não fosse a rapidez do meu par, estaria ao chão.

Olhando em meus olhos ele disse: — Notei que você está fraca, suponho que esteja faminta, vamos alimente-se. — Ele, então, ergueu seu punho sob a luz do lúgubre luar, era possível ouvir o pulsar de suas veias, sem pensar, cravo minhas presas com vigor em seu braço, sinto o rasgar de sua pele, e finalmente vejo a vida escorrendo do braço, o líquido viscoso e amargo desce por minha garganta, estava faminta, por mais que o gosto fosse repulsivo, eu precisava.

Espasmos percorriam meu corpo, acompanhados de gemidos inaudíveis, meus lábios e busto estavam manchados de escarlate, assim como meu lindo vestido.

Experimentei um profundo torpor, foi mais devastador do que a primeira vez, olhei ele e agradeci, após isto, sucumbi em seus braços.

Acordei nos meus aposentos com uma forte dor de cabeça e náuseas. Eu ainda estava de vestido, o vestido com manchas escarlate, e aquele estranho gosto na boca. Pouquíssimo me recordo da noite anterior, então permaneço deitada e tento entender o que ocorrera.

Texto publicado na 6ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de junho de 2024. → Ler edição completa

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7. Jardim da Morte: Dança da Morte

Na penumbra da noite eterna, um jardim agora floresce no Sheol. O jardim…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Na penumbra da noite eterna, um jardim agora floresce no Sheol. O jardim agora possuía rosas negras que exalavam um perfume fúnebre. A ceifadora trouxe de uma de suas viagens e deu a mulher a responsabilidade de cultivá-las naquele solo incomum. A mulher estava fazendo um bom trabalho com as flores. Antes só ficava ali sentada perdida em pensamentos à espera da ceifadora para mais um de seus jogos habituais e suas conversas, mas agora a mulher tinha uma atividade além de só esperar.

— Você voltou rápido dessa vez. — Murmurou a mulher olhando para a ceifadora que se sentava à mesa e descansava a sua foice ao seu lado, o símbolo do seu inescapável ofício.

— Sim — A ceifadora respondeu com um sorriso enigmático.

— Ainda bem que está de volta, depois do nosso passeio você saiu tão rápido para seus afazeres que nem pude te contar os detalhes do que ocorreu. — A mulher se sentou à mesa de mármore de frente à ceifadora.

— Você sabe que eu estava lá, não é? Eu presenciei tudo. — Disse a ceifadora.

— Eu sei, eu sei, mas você é a única com quem posso falar e eu queria falar sobre isso. 

— Está bem. Podemos falar disso enquanto jogamos então? — Disse ela arrumando as peças de xadrez à mesa, brancas para ela e pretas para mulher. — Depois tenho um convite a te fazer. — A ceifadora sorri, seu olhar penetrante refletindo a luz pálida da lua.

— Humm…que misteriosa, agora fiquei curiosa. Está bem, vamos jogar. — A mulher se preparava.

A ceifadora sorri e avança o peão da dama para a quarta casa.

— Ah…— Suspirou a mulher. — Aquela belíssima capela, iluminada pelas chamas das velas naqueles castiçais dourados tão brilhantes. — A mulher responde com o peão da dama para a quarta casa.

— Eu vi, tudo estava perfeito. Como se fosse feito só para você. — A ceifadora prossegue avançando seu peão da coluna “c” para a quarta casa, expondo sua rainha de maneira tão prematura.

— A música que tocava, uma sonata tão melancólica que fazia ter vontade incontrolável de cantar e dançar. Rute debruçada sobre a Bíblia. Ela sempre foi curiosa e não resistia a um livro, não importa qual fosse. — A voz tingida de nostalgia. — E, quando nos vimos, era como se nunca tivéssemos nos separado. Dançamos ao som daquela sonata. Cada movimento era uma lembrança tão saudosa. — A mulher faz seu peão avançar e capturar o peão da ceifadora na coluna “c”.

— Vocês dançaram lindamente. — Disse a ceifadora sorrindo para ela e avançando o cavalo do rei para a terceira casa.

— Então tudo ficou escuro e voltei para cá num piscar de olhos. — Disse a mulher em tom triste.

— Os momentos mais preciosos são fugazes. — A ceifadora murmurou isso acenando lentamente.

A mulher tentou reagir, mas os movimentos da ceifadora foram implacáveis. Cada avanço, uma captura, uma dança mortal. Peões caem, cavalos são abatidos até que em um movimento final, a ceifadora encurrala o rei da mulher com um xeque-mate inescapável.

— E mais uma vez você vence. —  A mulher suspira.

— E olha que nem me esforcei hoje. — Diz a ceifadora sorrindo. — Estou cansada de tantas vitórias. — Confessa a ceifadora, apoiando as mãos no queixo.

— E o convite? — A mulher pergunta ansiosa.

— Ah, sim, o convite, sim. — Ela tira um envelope vermelho e preto adornado de arabescos dourados da maleta e entrega à mulher. — Então minha adorável dama, você aceita me acompanhar em um baile de máscara no castelo do Conde Drácula? — Disse isso de forma afetada.

— É claro, que dizer é… — A mulher falava tropeçando nas palavras. — Conde Drácula, o vampiro? Baile de máscaras? Isso não seria quebrar as regras? — Ela olha a ceifadora em dúvida.

— Sim é o baile anual do Conde Drácula o vampiro e…sim, em partes estaríamos quebrando algumas regras, mas recebi o convite para esse baile, estou trabalhando demais também, preciso de um pouco de diversão, entende? — A ceifadora olha para ela com um sorriso forçado.

— Então, por que não? Vamos? — A mulher sorri intrigada.

E assim, uma porta preta, adornada de arabescos dourados nas bordas envolta em uma névoa carmesim se materializou foram transportadas para um grande salão suntuoso. As duas estavam belamente vestidas, a mulher com um magnífico vestido de veludo sanguíneo com decote em V, mangas longas bem justas terminadas em um punho largo finalizado em rendas. A saia volumosa que arrastava graciosamente pelo chão. Em seu pescoço um colar dourado que pendia um camafeu delicado. Em seu rosto uma máscara simples em tom de sangue adornada de dourado, os cabelos escuros longos presos atrás como uma cascata de cachos. 

A ceifadora em seu vestido preto vitoriano, com a saia volumosa em camadas que varriam o chão com graça a cada movimento, o vestido parecia sussurrar lamentos. Um corpete justo que realçava sua figura esguia. Uma gola alta e austera, mangas bufantes nos ombros que desciam justos até os punhos, com babados delicados de renda. Em sua cabeça, a ceifadora usava um pequeno chapéu preto de abas, posicionado de lado. O chapéu adornado com fita preta de seda e uma única pena negra. Os cabelos grisalhos, que contrastavam com a sua pele de um grafite cinzento, preso atrás com uma trança única. No rosto uma máscara de médico da peste ocultava suas feições. Feita de couro branco, a máscara tinha um bico longo e curvado semelhante a um corvo, com lentes redondas e escuras que ocultavam seus olhos de um branco leitoso sem pupila. Segurava firmemente uma bengala de ébano, no lugar de sua foice. A bengala com um cabo ornamentado em prata, terminava em sua ponta metálica que ressoava de modo suave ao tocar o chão. 

A ceifadora entrou no salão de braços dados à mulher, com sua confiança habitual. Observava cada detalhe através das lentes escuras da máscara. A música espectral, as luzes tremeluzentes criavam um ambiente convidativo para elas. Algumas pessoas no baile não ousavam se aproximar demais da ceifadora devido a sua presença impactante. Ao lado dela a mulher estava deslumbrada com toda aquela decoração, parecia um sonho para ela estar presente num evento tão impressionante.

— Vamos dançar? — Sugeriu a ceifadora, sua voz ecoando através do bico de sua máscara.

— É claro. — Disse a mulher radiante. — Mas vou logo te avisando, não sei conduzir.

— Sem problema, eu só sei conduzir. — Tomando a mão da mulher, a ceifadora a levou até o meio do salão. Seus movimentos eram fluidos e precisos. As duas a dançar criavam um espetáculo hipnotizante. 

Elas dançaram graciosamente pelo salão. Se divertindo enquanto rodopiavam. O riso de ambas se misturando a música. Trocaram de pares várias vezes aproveitando cada segundo do baile e cada companhia excêntrica. Aproveitaram da comida e das bebidas, conversaram amenidades com aqueles que queriam dialogar e dançaram com aqueles que estavam ali somente para dançar. Retornaram a dançar juntas, era chegada a hora da última dança da noite. Bailaram aproveitando cada movimento e a música findou. O baile havia chegado ao fim, a mulher estava eufórica:

— Nunca imaginei que em morte iria realizar um sonho de adolescente de participar de um baile de máscara vestida como uma verdadeira dama gótica. — Ela sorria e apertava as mãos eufórica. Enquanto a ceifadora sorria para ela por trás da máscara.

Elas andaram pelo castelo procurando um portal que as levasse de volta ao jardim. Seus passos ecoando juntos com tantos outros que seguiam para seus aposentos ou para a saída do castelo. Tantos seres tão estranhos quanto elas. A atenção da mulher foi atraída para a vista de uma varanda, seguiu adiante e se deparou com um céu estrelado tão belo e uma lua cheia descomunal que parecia quase dominar o firmamento. Sentiu-se preenchida por uma sensação serena, como se pudesse sentir uma mão divina acariciar seus cabelos a deixando tranquila. Começou a cantarolar de modo suave uma canção e sua voz ecoava. A melodia saía de seus lábios harmonizando com a calmaria da noite. Ela estava hipnotizada por aquela lua, seus olhos fixos nela enquanto cantava. Ficou ali cantando para o luar e perdida em pensamentos. A ceifadora se aproximou, interrompendo seu canto suave:

— Vamos, princesinha gótica, já passou do nosso horário. Temos que ir logo. Já encontrei o portal. — Ela falou batendo sua bengala no chão de pedra impaciente.

— Até a próxima vez. — Sussurrou a mulher para o castelo e a lua. Relutante ela se virou e foi de encontro à ceifadora. Entraram na porta cinza adornada de beladona e voltaram ao jardim.

Texto publicado na 6ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de junho de 2024. → Ler edição completa

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6. Castelo Vampírico: O firme fundamento das coisas que se esperam

Diário de Rute Fasano. 25 de dezembro — Acredito que você tenha perguntas — Ela fixou seu olhar no meu…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Diário de Rute Fasano

25 de dezembro - 

— Acredito que você tenha perguntas — Ela fixou seu olhar no meu, sorrindo. — Venha, vamos procurar um lugar mais calmo para poder conversar. 

Andou à minha frente me guiando pelos corredores do castelo, abriu uma grande porta que dava para uma imensa biblioteca com inúmeros livros, fechou a porta atrás de nós deixando lá fora o barulho da música. eu estava deslumbrada com aquele cômodo que eu ainda não tinha conhecimento. Imaginava se na minha versão do castelo também havia uma igual, estantes altas, livros de diversas cores, uns muito antigos e outros mais novos. Havia uma mesa no centro com um tecido preto e acima dela um livro muito antigo, ao qual não pude deter minha atenção, minha doppelgänger apontou para algumas poltronas num canto da biblioteca. Nos sentamos, ela retirou sua máscara e eu permaneci com a minha:

— Como isso é possível? — Eu disse ansiosa por uma resposta que fizesse sentido.

— Eu poderia explicar isso usando o conceito de multiversos, das múltiplas versões de nós mesmas vivendo vidas diferentes em cada mundo, mas acredito que você já pensou nessa hipótese. — Ela falava com tanta desenvoltura, que eu me perguntava se a natureza vampírica dela que a tornou assim.

— Você tem razão. Não é essa a pergunta que eu quero fazer. — Me endireitei na poltrona tentando formular a pergunta na minha cabeça enquanto balançava a perna esquerda. — Qual é o motivo de tudo isso? Esses bailes, assombrações, perturbações, revelações, tudo isso.

Ela sorriu, talvez percebendo o quão mal eu poderia formular uma pergunta. Cruzou as pernas, colocou as mãos sobre o colo, respirou fundo mantendo aquele sorriso intacto:

— Entenda, Drácula não está em busca de poder, e sim, como cada hóspede deste castelo, em busca de conhecimento e tudo que o mantenha vivo, que faça com que ele se sinta mais vivo. A eternidade às vezes nos leva a não sentir nada, ser indiferente a certos prazeres e a nossa presença enche o castelo de vitalidade. — Me olhou séria. — Os estratagemas terríveis que ele usa é para despertar em nós sentimentos e sensações que às vezes não nos permitimos sentir, mas que alimentam o castelo e a nós mesmo. Ninguém aqui é como antes de adentrar o castelo. Ele não pode sair daqui, mas pode trazer e convidar quem há de melhor lá fora para cá. E ele aceita os curiosos, os sedentos, os perdidos e os fugitivos. — Na última palavra ela levantou as sobrancelhas, com um sorriso que já começava a me irritar e fixou o olhar em mim por bastante tempo.

— Entendo, mas qual o motivo de ele se apegar a partes muito específicas do meu passado? O que ele quer conseguir com isso? Eu já superei essas coisas. — Eu disse já bastante incomodada e com uma certa irritação na voz.

— Você está tentando se enganar, ou melhor me enganar, não é? — Falou usando um tom de voz debochado.

— Então o que devo fazer? deixar as coisas acontecerem e ver o que vai dar? — Me endireitei mais uma vez na poltrona e cruzei os braços.

— Escute, eu não posso te dar todas as respostas, apenas partes delas, não posso dar a você o refrigério da alma que você necessita. — Falou isso olhando para cima e movimentando a cabeça de um lado para o outro. — O que aconteceu comigo, os caminhos que percorri aqui, as escolhas que fiz são diferentes das que você tem tomado, compreende isso? Em nenhum momento desde a minha entrada no castelo até esse momento eu não me encontrei com nenhuma doppelgänger, o que significa que talvez você não venha se tornar o que eu me tornei, então não posso dizer o que você deve fazer, você entende isso? A única coisa que posso dizer a você é… — Ela parou por um momento, fechou os olhos sorrindo e balançando levemente a cabeça. — Me surpreendo com o que vou dizer agora, mas deixe a lógica por um breve momento de lado e tenha fé.

— Sério? — Olhei para ela em dúvida, ainda de braços cruzados, tentando acreditar no que ela havia dito.

— Sei que parece piada, mas leve em consideração a nossa nova família.

Ficamos em silêncio até que tomei fôlego para mais uma pergunta. Ela me surpreendeu colocando os dedos gelados em um movimento suave em meus lábios, impedindo que eu formulasse uma frase.

— Eu sei que pode parecer estranho, mas sinto que devemos dançar. — Disse retirando os dedos devagar. — Daqui a pouco vão anunciar a última dança e após isso devemos voltar a nossos aposentos. Sei que Drácula se ocupará em fazer você voltar sã e salva, talvez nem tanto sã, para seu mundo. Então vamos aproveitar a nossa própria companhia por alguns instantes?

Não havia percebido que o tempo passou tão depressa. E como tinha pouco tempo aceitei a última dança. Ela recolocou sua máscara e voltamos ao salão. Todos os pares já se preparavam para dançar. E dançamos no meio do salão com ela conduzindo, repetindo exatamente os passos que dancei com minha amada na capela. E rodopiamos uma, duas, três e quatro vezes e meu corpo, como se eu não tivesse controle sobre ele, foi jogado em seus braços. Do meu peito apertado pude sentir irradiar aquele formigar característico que parece abrir caminho pelos meus músculos como se eu estivesse eletrificada. No meio daqueles rostos que me olhavam por trás das máscaras e gargalhavam mais alto do que eu havia percebido inicialmente, a música alta, o arrastar dos pés sobre o chão do salão que agora parecia mais cheio, o som rascante dos tecidos roçando em outros tecidos, tudo isso me consumia e eu precisava fugir dali. A música cessou:

— Calma. Inspire e expire lentamente. — Ela disse suavemente com um olhar preocupado. — Nosso tempo acabou, espero que sua experiência com a Selenoor seja diferente da minha. Nos veremos de novo e com mais tempo, espero. — Ela tirou minha máscara e me deu um beijo suave na minha face direita, olhando em meus olhos ainda preocupada. Em um piscar de olhos eu estava de frente a porta do meu quarto.

Já havia passado das 3h, coloquei a mão na maçaneta e fiquei à porta pensando se devia entrar no quarto ou tentar a sorte por entre o castelo, sei que deveria seguir as regras, mas e se eu não as seguir? Drácula foi bem específico no convite dizendo que as três deveríamos estar em nossos aposentos, mas o tempo que fiquei pensando se entrava ou não, deve ter feito com que eu passasse das três. Então eu já estava quebrando a regras, o que de pior ou anormal poderia acontecer comigo além do que já aconteceu? Assim que tirei minha mão da maçaneta pude sentir um frio percorrer meu corpo e irradiar por ele, gelando meu coração, trazendo a ele uma sutil tristeza e desesperança já conhecida minha. Fui então em rumo do que o castelo tinha a me proporcionar, a palavra “Selenoor” ecoava em minha cabeça, o que seria isso, algo com que eu deveria me preocupar? Então fui em busca de mais uma perigosa aventura e a cada passo que eu dava eu me perguntava o motivo de estar fazendo isso tudo, por que estou me colocando em perigo, me fazendo presenciar situações intensas, procurando gatilhos para acionar memórias traumáticas?

Caminhei sem rumo, perdida em pensamentos e encontrei novamente a capela de outrora. E a capela que antes se encontrava em ruínas, agora estava no ápice de sua beleza, não havia somente traços dessa vez, ela era bela e imponente. Eu entrei e o ar dentro dela estava denso e gélido, os castiçais com velas que antes estavam velhas e quebradas, agora tremulavam de modo suave suas chamas sobre o altar, percorri o corredor entre os bancos de madeira agora todos em perfeito estado para chegar ao ambão. A bíblia estava em perfeito estado e curiosa fui olhar se haveria de novo algo marcado, aberta no livro de Mateus no capítulo 17 e em um azul-pálido bem fraco apenas parte do versículo 20 estava marcado “Por causa da vossa pouca fé” li e ri disso, aparentemente minha falta de fé era algo perturbador. Uma luz azul pálida vinda da lua se infiltrava pelos vitrais, iluminava a capela de modo incomum, e isso me perturbava, eu sentia o brilho da lua penetrar a minha pele através das minhas vestes e sua luminosidade era fria. Me sentei trêmula em um dos bancos, e coloquei as mãos sobre o colo. Fechei meus olhos e deixei minha mente vagar permitindo qualquer pensamento vir, fui invadida por uma fragrância cítrica e nostálgica, que trouxe memórias de infância. Me lembrei de segurar a mão de minha mãe enquanto entrávamos por portas grandes de madeira maciça. A luz do sol sendo filtrada pelos vitrais coloridos, espalhando um arco-íris quase que hipnótico pelo chão de pedra. Me lembrei de correr pelos bancos da igreja, os sapatos ecoando por aquele espaço santo, minha mãe rindo e me chamando para que eu me sentasse ao seu lado. As missas sempre com aqueles cantos alegres que me envolviam com um calor reconfortante, como se eu pudesse sentir o abraço de algo divino. A sensação de pertencimento era incontestável, eu me sentia segura, parte de algo que era muito maior que eu mesma.

Deixei minhas lembranças continuaram a fluir e chegarem à minha adolescência, a igreja que antes era meu lugar seguro, se tornou um local de exclusão. Eu sentia o peso dos olhares de desaprovação, os sussurros abafados quando eu adentrava aquele local santo. As mesmas pessoas que antes me tinham como família agora me olhavam com desconfiança e desgosto. Eu não compreendia o que havia mudado até perceber que a questão estava em quem eu era. O lugar que sempre me acolheu agora me rejeitava, as palavras de carinho se tornaram sermões fervorosos sobre pecado e redenção. Cada palavra era como facas afiadas penetrando minha alma. As palavras de amor ditas no púlpito começaram a parecer cada vez mais contraditórias atreladas com os olhares de julgamentos que passei a receber. E a cada dia a sensação de não pertencimento crescia, aquele lugar sagrado se tornou para mim apenas mais um edifício de pedra, as orações não eram mais um consolo e eu me sentia traída.

Meus pensamentos foram interrompidos por um som etéreo, vozes em coro vindo de todas os lados ao mesmo tempo e ecoando e preenchendo aquela capela, de modo suave cantavam em uníssono de modo quase tangível:

Iesum, salvator mundi. Tue famuli subveni. Quos pretioso sanguine. Quos pretioso sanguine. Redemisti

Apertei os olhos e as mãos com força para tentar controlar meus sentimentos e as sensações que logo me dominariam. Ouvir aquela canção depois de tantos anos irrompeu em mim um sentimento de nostalgia e pesar. Uma voz feminina familiar, vinha do lado de fora, além das paredes de pedra do castelo, começou a cantarolar:

Fairy lady who stands on the walls, life is short and wait is long… — Era a voz da minha amada morta, um soprano angelical que ressoava com um toque sobrenatural. — The stars, away, dim with the dawn, fairy lady who stands on the walls…

Abri os olhos e ao reconhecer a melodia, e logo me levantei. Olhei para os vitrais e a luz azul pálida da lua parecia ter se intensificado. Fui em direção a música que parecia flutuar pelo ar me atraindo para algum lugar fora do castelo. Corri por aqueles corredores de pedra fria, sentia aquele ar gelado queimar os meus pulmões, meu coração palpitava descompassado. Eu podia ouvir meus passos ecoarem naquelas paredes de pedra. A cada curva, um novo corredor, a voz que me guiava parecia estar mais próxima e ao mesmo tempo fora do meu alcance. Os castiçais nas paredes lançavam uma luz rubra que contrastavam com minha ansiedade. Meus pensamentos eram inundados por lembranças, pelas nossas lembranças, fui tomada por uma mistura de medo e desejo. Será mesmo que eu queria vê-la de novo depois do nosso último encontro?

Your tale has only begun, it comes from far, the Nowhereland…

Finalmente cheguei aos jardins do castelo, parei por um momento tentando recuperar o fôlego, me virei em direção a voz, minha respiração ainda ofegante. Olhei para cima e inclinada sobre o parapeito da sacada alta do castelo estava ela. Meu coração pareceu parar por um instante. Era ela com um vestido vermelho vivo longo, de mangas longas com punhos largos, como uma dama de conto de fadas. Curvilínea, saudável e corada, o cabelo comprido escuro em cachos, exatamente como eu me lembrava. Minha amada. 

The wind is blowing a sound well known, fairy lady, your love is long gone…

Ela cantou mais um verso da canção, que era a sua preferida e o tempo pareceu congelar. Eu queria gritar seu nome, mas as palavras ficaram presas na minha garganta. A luz da lua iluminava seu rosto e seu olhar era atraído para ela. E antes que eu pudesse fazer qualquer movimento, ela se virou lentamente, como se tivesse alguém dentro do castelo a chamando, e entrou sem nem notar a minha presença. Dei alguns passos, tentando encontrar fôlego para gritar. “Espera, por favor!” e minha voz saiu como um sussurro que foi levado pelo vento. Ela já havia ido e a visão dela desvaneceu na escuridão do castelo. Fiquei ali, parada, olhando para onde ela estava, sentindo as lágrimas virem e usando toda a força possível para não deixar elas descerem. Eu ouvia apenas o leve som do vento nas folhas.

Inspirei profundamente, segurei o ar por alguns segundos e soltei, virei para a lua cheia que havia chamado a atenção dela. O céu de um azul profundo salpicado de estrelas, e com uma lua descomunal tão perto. Reparei no jardim em que eu estava, envolto em um clima gélido, eu sentia o ar frio cortando a minha pele. Uma nuvem de vapor saía com cada respiração minha. A escuridão naquele jardim só era amenizada pelo brilho daquela lua cheia enorme e opressiva no céu iluminando os chuviscos que começaram a cair. Cada passo meu naquele chão úmido rangia sobre os meus pés enquanto caminhava. Havia estátuas de anjos com expressões melancólicas, de asas abertas ao vazio, damas esculpidas em mármore, com véus sobre seus rostos escondendo talvez semblantes tristes. Naquele jardim havia uma profusão de rosas espalhadas em arbustos, com pétalas de um vermelho sanguíneo que contrastava violentamente com o azul profundo do céu e o branco sobrenatural daquela lua cheia.

Enquanto eu caminhava o chuvisco aumentava, suas gotas frias se misturavam às lágrimas quentes que eu não conseguia mais segurar. As rosas, agora mais úmidas, pareciam mais vibrantes, era como se sangrassem sob a luz da lua. Um perfume adocicado levemente metálico impregnava o ar junto com o cheiro da terra úmida e do musgo sobre o chão e as estátuas. O jardim estava vivo e pulsante e fui invadida por um sentimento de solidão. A chuva aumentou ainda mais, o frio se infiltrou em meus ossos e precisei voltar para dentro do castelo. Corri para ele e escorreguei pisando em poças de água e terra que haviam se formado. Logo me levantei e continuei meu caminho. Todos aqueles corredores longos se tornaram tão curtos na minha volta ao quarto. Meus pensamentos eram um redemoinho confuso de saudade e culpa que me consumiam. Entrei no quarto, um ambiente agora familiar que me proporcionava um mínimo de conforto, com as mãos trêmulas fechei a porta atrás de mim com força numa tentativa vã de me afastar de tudo lá fora. Eu sentia que algo além da tristeza havia entrado comigo.

Tirei as roupas molhadas que agora eram um incômodo, o tecido colado em meu corpo. O vestido molhado que pesava e precisava ser removido como um fardo. Tomei um banho rápido para tirar a lama, mas não consegui tirar a sensação de que tinha algo agarrado a mim. Vesti algo confortável e largo e me deitei cansada. O sono veio logo, mas sem tranquilidade. Estava inquieta, sonhos conturbados agitavam minha mente, uma criatura escondida na escuridão azulada me observando silenciosa. Sua forma era nebulosa, mas sua presença era palpável, senti um peso sobre meu peito, tentei gritar no sonho, mas minha voz não saía.

26 de dezembro - Abri meus olhos e um calafrio percorreu todo meu corpo. No quarto escuro iluminado apenas pela luz da lua, percebi uma presença naquela escuridão azulada. Uma forma indefinida, com olhos como brasa. Meu coração batia descompassado e minha mente tentava racionalizar aquilo como produto da minha imaginação. Mas o medo intenso que me consumia dizia o contrário. Me sentei na cama e a forma sumiu, talvez fosse apenas um resquício dos meus pesadelos. Não consegui mais dormir, então fui usar meus sentimentos para escrever algo que valesse a pena ser lido. Percebi que não amanhecia, a lua continuava lá, cada vez mais brilhante, eu sabia que era manhã, pois o café-da-manhã trazido para mim no mesmo horário acompanhado pelas três batidas na porta já havia chegado. Passei o dia abatida, a presença da criatura ainda fresca em minha mente. Na hora de dormir sentia arrepios constantes e a sensação de ser observada por olhos invisíveis. Mal conseguia fechar os olhos. Sonhei com corredores intermináveis, sempre correndo, mas nunca chegando a lugar nenhum.

27 de dezembro - Acordei assustada, com uma sensação de algo se infiltrando em meus pensamentos. A lua agora parecia assustadoramente mais próxima. A criatura parecia mais distinta dessa vez, os olhos ardendo em chamas. Tentei me apegar aos pensamentos de que ela era apenas fruto da minha imaginação e voltei a dormir um sono agitado. Minhas noites se tornaram um tormento, sonhos terríveis onde minha amada aparecia, os olhos cheios de uma dor incompreensível, a voz melodiosa agora carregada de desespero. E na escuridão azulada, a criatura espreitava, aguardando sua oportunidade.

28 de dezembro - A lua não desapareceu ao amanhecer e sua presença já tornava o tempo irrelevante. Acordei sentindo dores pelo corpo, sensação de fraqueza e náuseas. Mesmo assim sentei-me para escrever e por vezes podia enxergar a criatura pelo canto do olho a me rondar como se esperasse seu momento. A sensação de mal-estar parecia piorar então voltei para cama e adormeci.

29 de dezembro - Os dias se misturavam, eu já não tinha muita certeza de que dia era. Me guiava apenas pelas batidas habituais na porta do café-da-manhã, almoço e jantar. O mal-estar piorará e eu estava febril, uma dor de cabeça lancinante, enjoos incessantes, me levantava da cama com dificuldade. Dormia várias vezes ao dia em uma sequência de tormento e vigília. E sentia a criatura mais próxima a cada abrir e fechar de olhos. Em meus sonhos eu ouvia gritos acusatórios da minha amada me culpando por sua morte. Minha mente parecia à beira da ruptura. A criatura estava mais próxima, quase tocando a cama onde eu dormia.

30 de dezembro? - A lua permanecia no céu, uma sentinela que vigiava meu sofrimento. A febre queimava a minha mente, dores incessantes em meu corpo. Não conseguia mais sair da cama, e a criatura estava tão próxima que eu podia sentir seu hálito gelado, grandes olhos vermelhos brilhando com intensidade, o corpo esquelético, a pele pálida e esticada sobre os ossos protuberantes, parecia faminto com aquele sorriso aberto de orelha a orelha com dentes afiados e amarelos. Comecei a delirar, não distinguia mais o que era real e alucinação. Meus sonhos eram um entrelaçamento de imagens de morte, gritos de agonia, imagens distorcidas. A criatura ao meu lado de olhos fixos em mim, parada apenas a espera.

31 de dezembro? - Mais um dia sem conseguir levantar da cama. A lua parecia estar prestes a devorar tudo ao redor, era tão grande que eu já nem via mais o céu. A criatura estava deitada ao meu lado com o rosto frio bem junto ao meu, seus grandes olhos vermelhos e aquele sorriso incômodo. Com uma mão de dedos finos e longos acariciava minha cabeça como se eu fosse sua cria ou um pequeno filhote, parecia testar minha sanidade. Eu só conseguia me imaginar morrendo ali e meu corpo, talvez devorado, sendo encontrado tempos depois. Tentava me segurar ao pouco de sanidade que eu ainda tinha. Sentia a criatura como um abutre apenas esperando minha morte para se apossar do meu corpo ou saciar seus hábitos necrófagos, ou fazer sabe-se lá o que. A lua, essa entidade, o medo, a culpa, tudo se misturava na minha mente, eu não encontrava mais forças para lutar contra aquilo, eu havia deixado toda a esperança escapar por entre meus dedos febris. Tentava me agarrar ao pouco de sanidade que me restava, mas eu não tinha esperança de que sobreviveria mais uma noite. 


 Nota de rodapé:

1.Jesus, Salvador do mundo / Teus servos te pedem ajuda / Aqueles a quem com teu precioso sangue /Aqueles a quem com teu precioso sangue / Você resgatou

Senhora encantada que espera no muro /A vida é curta e a espera é longa / As estrelas ao longe, enfraquecem com o alvorecer / Senhora encantada que espera no muro / Seu conto apenas começou / Vem de longe, da Terra de Lugar Nenhum / O vento está soprando um som bem conhecido / Senhora encantada, seu amor há muito se foi.

Texto publicado na 6ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de junho de 2024. → Ler edição completa

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A Casa das Sete Irmãs

Num lugar etéreo existe um sobrado, que eu, ao andar pelos sonhos, encontrei ao acaso, nas horas tardias de uma noite qualquer…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Num lugar etéreo existe um sobrado, que eu, ao andar pelos sonhos, encontrei ao acaso, nas horas tardias de uma noite qualquer. 

Eram paredes cinzas e descascadas, com um lodo escorrido em estrias escuras sobre a tinta branca envelhecida, recoberta de trepadeiras, tinha o contorno de uma burlesca figura. 

Um jeito bucólico nas janelas altas, jardim de roseiras, árvores de galhos retorcidos, a grama por cortar de onde trevos brotavam, escondia os sapatos ao pisar no caminho. 

Havia pedras encaixadas no chão antes de chegar na varandinha inclinada. A entrada breve tinha algo quase lúdico, recaía o telhado sobre a fachada. No fim da tarde havia um brilho nas janelas de vidro fúlgido.

Não se encaixava em qualquer época que fosse, perdida num mundo isolada e tão só. Uns ares nostálgicos de infância, mas era um pouco estranha demais para ser casa de vó.

Bati à porta e depois de alguns toques percebi que se abriu de repente. Ninguém me recebeu, na verdade, mas fui entrando pela porta da frente. 

Era o fim do dia e meus olhos já sentiam a fosca escuridão do entardecer. Eu buscava ali uma estalagem onde eu poderia me hospedar, um lugar seguro para, então, adormecer. 

Conforme entrei fui notando de quem era a residência, primeiro pelas fotos nas paredes, depois pelas próprias moradoras, que eu logo encontrei na sequência.

Eram mulheres muito bonitas, todas irmãs de soberba elegância, todas elas com capricho na aparência e um modo muito cortês, de pronto tive a impressão. Eram sete moças, nenhum irmão.

Tão logo estive com elas, percebi por que fiquei tão atraído, a natureza lasciva daquelas mulheres encantadoras. Eram elegantes, como uma dama deve ser, e eu estava acanhado, com desenvoltura amadora.

Passei com elas aquele fim de tarde e à noite subsequente. Foi uma noite tão fria e escura que o vento soprava fazendo parecer permanente. Mas tive uma ótima experiência no interior do sobrado, que agora eu conto neste breve relato.

Não eram tímidas nem tampouco audazes. Mas não estavam acostumadas a receber muitos rapazes.

Acho que é por isso que tive a honra de ser cortejado. Depois de um jantar no conforto do sobrado, na calmaria de um ambiente tão hospitaleiro. Ali eu era o único hóspede, não sei se fui o primeiro.

Não é que tivesse um jeito de cabaré decadente, por Deus, não, nem sequer as aparências de um lupanar. Tudo aquilo era até mesmo um pouco inocente, bastante respeitável pelo que consigo lembrar.

Assim, terminada a refeição, nas segundas horas daquela noite, começa o jogo de sedução. Se empenharam no cortejo, uma a uma. E eu tão sensível a elas, reagia emotivo como o arrepiar de uma pluma.

Satisfeito e acomodado ainda na mesa, vi uma imagem deslumbrante, me salta aos olhos a primeira beleza. Aquela que se revela de vez num instante, mas que devolve os olhares para então compreendê-la.

Eu passaria tantas horas contemplativo, sem nem mesmo o ângulo alterar. Poria meus olhos a desvendar essa mistura, imerso nas cores que a visão captura, perdido nas linhas daquele profundo olhar.

Ela foi uma paixão duradoura, um primeiro amor de juventude que ali reencontrei. Ela foi o primeiro sentimento da paixão quando estoura, o primeiro retrato depois que coroam o rei.

Aquele mundo dos seus olhares me envolveu como se fosse um novo sonho e me acolheu na paisagem etérea que fez dos contornos. Era algo nostálgico que estava em mim, eu suponho, naquela imagem construída de riscos, texturas e adornos 

A próxima irmã era a boneca da pele clara mais lisa. De onde vinha um toque com a aspereza do olhar, nas formas de uma geometria muito precisa. 

Ali havia o desenrolar inerte de um movimento na estática. Não sei onde ela nasceu, talvez fosse de todo mundo, mas tenho certeza de que ela cresceu na Ática. E ainda conserva um modo grego de mostrar o corpo em detalhes. Uma maneira caprichosa na destreza dos seus entalhes.

Embora ficasse imóvel, com suas misteriosas expressões na inação, desvendada no corpo em cada pormenor, debaixo da pele o músculo ainda sentia a pressão, carne viva num sentido maior.

Só seu toque era frio, me causava uma sensação inesperada por não ter tato na palidez, algo como um arrepio. Quase poderia esperar um calor, quase sentia o veludo da pele. Mas no teste me deparava com uma rigidez.

Intrêmula sem mudar o semblante. No entanto, havia um movimento insistente. É como se o tempo parasse num instante, mas que o vento ainda soprasse sutilmente.

A terceira irmã era proeminente. De rosto simétrico e a que vestia maior grau de elegância. Ela é a que esteve sempre presente, em toda a cidade que visitei, em qualquer circunstância. Por isso a considero inevitável. Era a mais prática de todas elas, de ações certeiras e personalidade razoável. 

Ela sabe ser modesta quando quer, e assim mesmo transbordar sua beleza. Era a mais magnânima mulher, nos braços dela fui tratado como um membro da realeza. No descanso do seu toque eu senti um grande alívio. Companhia da solidão ou cenário do convívio. 

Me convidou para a sala que era um lugar tão agradável. Foi aquela que me fez acomodar, me pôs no maior dos confortos daquela casa que era seu próprio lar. 

Daí então me estendi na poltrona e ali estava um calor convidativo. Depois me mostrou a sua grandiloquência, a sua vocação eminente e soberana. Ela era o modo mais eficiente de representar a grandeza humana.

Então todo meu entorno era a coisa mais nobre, foi ela quem o criou assim. Fosse com o recurso mais rico ou então o mais pobre, a casa e seus cantos, que encontrei pelo caminho, eram a pura expressão dos encantos desta nobre irmã e seus carinhos.

A moça seguinte era então deslumbrante, a que encontrei, talvez, tardiamente. Tão alheia a mim, mas tão excitante, eu mal notei, mas tanto esteve em mim presente. 

Estava nos gestos que me recordam a memória, estava na ação do que quer que eu fizesse. Ela, a maneira mais sofisticada de se contar uma história, logo apareceu mostrando a sua finesse.

O rosto mudava num vórtice de emoções ostensivas, causando-me um êxtase tão expressiva figura. Surgiu num instante, como a visão de uma diva, usando a meia luz daquela sala escura.

Ela era todo um mundo que surgia na minha frente, toda possibilidade das coisas como poderiam ser se elas emergissem como são na nossa mente, a ficção mais real que alguém poderia conceber, a verdade filtrada do mundo aparente. 

Todo o drama que ela tinha vivido ainda estava ali completando a tragédia. A mais sofrida das irmãs, também ria e encenava suas dores e lágrimas como se fosse uma comédia.

Fiquei absorto ao assistir sua performance, me ganhava a atenção cada hora mais e mais. Devia ser a mais sensível, era o que eu pensava enquanto ela estava ali na minha frente. Era a mais destacada, era, até então, o olhar mais potente.

Logo em seguida, com um andar ritmado, vem a jovial e mais enérgica das mulheres daquela casa. Veio suave quase levitando, como se movesse com auxílio de asas.

Era mesmo como um anjo ao fazer seus balanços suaves. Ela tinha um incrível controle, tal como a delicadeza que têm as aves. Pois voava como se morasse num céu esplêndido de outono, nas nuvens evanescentes, no vai e vem. Essas nuvens se moldam no vento com a mesma fluidez que ela tem.

Esta era o corpo por excelência e colocava seu corpo no limite da possibilidade. Me deixava atônito em ver suas proezas, que fantástica desenvoltura ao saltar com destreza, que sentimento apaixonante em mim ela invade.

Tinha um jeito de menina travessa e um andar ostentoso de mulher fatal. Era como o leito de um rio em correnteza ou como a luz coruscante no brilho de um cristal.

Suas pernas e braços deslocavam o ar, deve ser por isso que ele me faltava naquele momento. Esvoaçava os panos das vestes de um jeito que poderia ser as vezes rápido ou mesmo lento. Foi desta forma que ela me fez entender o significado mais precioso do que é movimento

Grande amor foi a seguinte. O maior de todos, da paixão mais aguda. De linhas finas e modo suave. Era tão passional a penúltima irmã e seu amor também era o mais grave

Era a mais velha daquela família, personalidade forte de um jeito volúvel, eu poderia dizer até mesmo lunática. Governava as outras como uma grande soberana e seu corpo tinha uma perfeição matemática.

Ela tinha um toque tão cativante, uma carícia e um apelo tão fortes às minhas emoções, se divertia em acelerar o ritmo do ar que eu aspirava nos meus pulmões.

Surgiu de canto sem que eu notasse, sua presença não vi, mas eu pude sentir. Pelos panos pousados no chão ao meu lado, percebi que ela deixou seu vestido cair.

Busquei ansioso ver onde ela estava, quis afoito olhar sua nudez, virava a cabeça seguindo o ruído. Eu procurava de um lado e depois do outro, mas só sentia os sussurros bem perto do ouvido.

Ela era também a mais íntima da Inspiração, a causa de um êxtase quase hipnotizante. Naqueles braços eu sentia as batidas do meu coração, que se repetia pulsando de instante em instante.

E a última… Eu me lembro bem.

Por fim esta última me causava um mistério. Permanecia alheia a mim, de canto, num semblante mais sério. Acho que esperava que eu a entendesse, lançava seus olhares, mas não se empenhava. 

Eu sabia dela pelas histórias contadas, irmã inquieta, do tipo aventureira, com um viver inteiramente conturbado. Saiu pelo mundo registrando o que via e trouxe pra cada uma das outras um presente guardado. Um breve relato de alguém ou uma descrição que revivesse a essência de um belo lugar. Algo que servisse de inspiração, que fosse proveitoso pra alguma outra usar.

Foi assim que me despertou a curiosidade, com um vislumbre pequeno do que ela trazia. Quanto andou? Por onde tinha passado?  Eram perguntas que eu me fazia sem saber ao certo se eu queria a resposta. A verdade é que eu queria tudo e queria saber o quanto ela estava disposta.

Eu esperava que algo acontecesse, que alguma coisa mudasse aquele silêncio. Será que era isso que ela pretendia sem que eu percebesse? Eu estava intrigado com aquela situação, fiquei tenso e inseguro até que notei o mais evidente, ela inverteu esta lógica da sedução.

Seu olhar analítico era estonteante, isso sem sequer tentar algum raio fatal. Me olhava serena, de um jeito distante, com ares altivos de quem pouco se importa. Ao mesmo tempo flui a minha imaginação em composições de lembranças que a consciência recorta transformando cada uma em irmã. 

Esses fragmentos que a última me trouxe, me remeteram às outras mulheres daquela morada. Então entraram, naquele olhar, todas elas. O cortejo daí teve fim, no último toque de cada uma, pois se foram então de repente. Era apenas o éter de uma visão, formas sem solidez, presença evanescente.

Sobrou por fim só a última irmã sentada na sala, no mesmo lugar, inerte e ainda com a mesma expressão, fazendo parecer que mesmo calada ainda tinha muito a dizer.

Ela era a amada irmã, que trazia um pouco das outras em si. Mesmo não sendo a mais velha carregou-as todas quando criança, tinha um pouco delas sem que precisasse usar de alguma forma, cor ou estímulo sonoro. Ela era mesmo um grande mistério, esfinge de inúmeros enigmas. “Decifra-me e desta forma eu te devoro”.

Texto publicado na 6ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de junho de 2024. → Ler edição completa
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Remorso Póstumo

Estive por tanto tempo absorta em pensamentos, me deliciando com as palavras ganhando vida em páginas em branco. Vestígios de um sangue…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Estive por tanto tempo absorta em pensamentos, me deliciando com as palavras ganhando vida em páginas em branco. Vestígios de um sangue azul de outrora me levaram para um frenesi que Malus não pôde prever. Vidrada, fui escrava de meus sentimentos e escrita desenfreada. 

Desci a meu antigo vilarejo. Esbanjando suavidade, beleza e terror. Não cogitaram que eu pudesse ser um mero fantasma, me chamaram de Diabo, e levantaram suas cruzes para mim. Escárnio. Eu que dormia ao pé de uma cruz de madeira com um Jesus crucificado testemunhando meus desejos e sonhos pecaminosos. Ah, se eu fosse o Diabo... Não lhes tomaria somente o sangue, com prazer, torturaria suas almas.

O pai que minha mãe me dera, não de sangue, era um paspalho pervertido que tentara contra sua própria filha, Carrie, minha única irmã, 10 anos mais nova do que eu. Minha amada progenitora nada fazia, nada dizia, éramos nós por nós mesmas. 

Eu almejava as alturas, ser imponente como a lua que me permitia enxergar na escuridão. E diante dela, eu jurei nunca mais temer alguém insignificante, desprezível e tão patético quanto aqueles que me criaram.

No deleite, alimentando-me do líquido carmesim de seus corpos, fui vista por Carrie. A fúria que se abateu em mim, por meu próprio ato descuidado, fez com que jogasse seu corpo frágil contra a lareira mal esculpida. Na tentativa de trazê-la de volta à vida, sem sucesso, me peguei saboreando de seu sangue puro, inocente e doce, como jamais havia sentido. Não era azul, mas era tão sublime quanto, ou ainda mais.

 Delírios, devaneios, remorso, culpa, deleite... em minha vingança falha atentei contra o que ainda me prendia a um mundo do qual já não mais pertencia.

...

Malus

Deveras como um cadáver. Muito mais fria do que o habitual, pele azulada, quase que seca quanto uma flor desidratada.

— Maneira sublime de morrer, Concordo. Mas nada bela. — Peguei o corpo cadavérico de Anelly que estava jogado sobre a cama e o acomodei de maneira mais confortável. 

— Há quanto tempo não se alimenta? —  Ainda sem resposta, fiz um corte considerável em meu pulso e a alimentei.

A princípio permanecia inerte. Como se a vida já a tivesse escapado. Mas ao toque de meu sangue em seus lábios, pude perceber que Ane ainda estava ali. Com um toque fraco de suas mãos em meu braço, se alimentava gentilmente. À medida que recuperava suas forças, sentia que o impulso aflorava em seu ser. Esta era a jovem por quem estava ludibriado, sozinha, mas não inocente, doce, mas não frágil, delicada, mas sombria como a noite sem luar.

...

Anelly

Não pude suportar o peso de ter tomado a vida de quem mais amei. Carrie me assombrava e me fazia perder a sanidade que já duvidava se realmente tinha.

Fugi de mim, entregue às valsas, fios invisíveis e enquanto rastejava nas sombras. Pouco a pouco abandonei meu ser, deixando meu corpo inerte, à mercê da própria sorte. Quanto mais neve avistava pela janela, mas eu definhava. 

Estava oca, a fome já havia me abandonado. Sentia minha pele fria se enrijecer, e minha mente se apagou. Não posso dizer quanto tempo depois fui desperta. O sabor inconfundível da criatura mais interessante e deliciosa que eu já havia conhecido tocou meus lábios, e eu só conseguia desejar por mais.

 — Definitivamente não é uma bela forma para uma donzela padecer. — Falou seriamente Malus.

— Donzela? — Ri, deixando que um pouco de seu sangue percorresse o canto esquerdo de minha boca. — Uma piada, certamente, mas que não combina com seu tom de voz.

— Você desapareceu por dias. Não a sentia mais. Estive fora do castelo e não tinha certeza se te encontraria no meu retorno. — Franziu o cenho e perguntou interessado. — O que levaria você a fazer uma greve de fome?

— Não fiz uma greve de fome! — Respondi brava, incomodada com a insinuação tola e juvenil.

— Dias sombrios abraçam até os seres mais obscuros, eu sei. Mas o que houve, minha cara?

Relatei meu infortúnio e remorso póstumo.  Malus deu de ombros. Disse que transformar minha irmã teria sido uma péssima ideia, e continuou:

— Bebês... Crianças e bebês têm o sangue mais doce e puro que poderá encontrar. Não saboreá-los é um desperdício. Não deixe que laços do passado a castiguem por um mal necessário. Uma vez que foi vista, não teria outra escolha. 

Estranhamente me senti mais confortável comigo mesma após ouvi-lo. Era divertido ter sentimentos por ele. Alguém como nós sentir algo tão bom um pelo outro. Uma paixão ardente, mórbida e que cada vez mais me via dependente.

Folheando rapidamente meu diário, me prometeu um novo, em breve. Admirava a rapidez com que eu havia preenchido tantas páginas. Questionou uma máscara partida em cima da escrivaninha, preta e de renda. Disse não saber sobre sua origem, mas mostrei-lhe o poema "A Valsa dos Desesperados". Ele sorriu. Disse que o conde não perdia oportunidades. Beijou minha mão direita e se retirou. 

Já muito mais disposta, caminhei até a janela. A neve havia se instaurado com força.  O céu banhando em um azul-carmim, evidenciava uma lua lúgubre. A melancolia percorria minhas veias. Uma tristeza sem cor avançou sobre mim. Quase não tinha mais páginas, mas o tinteiro estava cheio. Malus deveria se apressar com meu novo diário, caso contrário, teria que recorrer a outros meios para continuar a escrever.

Suas veias azuladas
As mesmas que via em mim
Sob um sol frio e pálido
As últimas lembranças que me restam de ti.

(...)

Texto publicado na 6ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de junho de 2024. → Ler edição completa

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Sete Noites

Após a noite do abraço, parecia que eu havia dormido por uma eternidade, mas o que constava no jornal local fora que se passaram seis dias…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Após a noite do abraço, parecia que eu havia dormido por uma eternidade, mas o que constava no jornal local fora que se passaram seis dias. O que falar das sensações pós abraço? Tive contato com a criatura tenebrosa que me hipnotizara e me fizera ingerir não somente seu sangue, mas também sua carne. Antes que eu pudesse desmaiar e ser enterrado em uma cova, senti que ao invés da criatura se tornar mais fraca, aquilo lhe dera forças. O monstro havia se humanizado; surgiu um homem de cabelos longos e negros por debaixo da carne podre do quase cadáver que me atormentara e me infligira a ter impulsos repugnantes. O homem possuía dois olhos vermelhos e expressivos, olhar que eu nunca tinha visto parecido ou igual. Já não sabia distinguir se era melhor ter visto apenas o quase morto ou se o que se transformou em homem era mais assustador.

Em oposição a criatura que se despertara, eu estava fraco, algo me consumia por dentro tal qual chamas de uma fogueira. Já não sabia distinguir se era o efeito do vinho ou o consumo da carne podre. Quando dei por mim, já estava sonolento e sendo arrastado pelos pés pelo cemitério. Senti uma espécie de choque, entendi que havia sido mordido, seguido a isso, o homem de cabelos negros me induziu a beber mais do seu sangue e logo após senti que meu crânio iria se despedaçar após levar um soco do homem em questão. Após entender que havia sido soterrado em alguma das covas, percebi que despertei em alguns momentos, mas não saberei precisar as noites, pois se bem me lembro, já não me recordava de sentir o sol das manhãs, apenas das fases lunares não precisos através das frestas de terra que me possibilitavam enxergar alguma coisa. Em um primeiro momento só tive forças para empurrar meus braços e minhas mãos para fora da cova. Em um segundo momento, empurrei meus pés, no terceiro momento já me sentia mais forte e consegui tirar meu corpo por inteiro de toda a terra que me empurrava à sete palmos abaixo. Já me sentia forte, mas também fraco ao mesmo tempo; algo me necessitava. 

Juntei as forças que ainda me restavam e perambulei, pelo que me constava, pela sétima noite no cemitério. Vi que o coveiro ainda trabalhava para enterrar um dos moribundos que enfim ganhava seu lar eterno em uma das covas. Já via e sentia com detalhes que antes não precisava, mas algo me despertou atenção; ao passo que me aproximava mais do coveiro, conseguia sentir todo o sangue, veias e artérias que ali pulsavam, sentia todo o sistema vascular do pobre homem. Sentia sobretudo sede. Sem pestanejar, surpreendi o coveiro pela retaguarda e por instinto o mordi. Fora minha primeira vítima e foi cruel o que eu fiz; além de sugar todo o sangue que pude, utilizei dá pá de enterrar para abrir seu corpo: primeiro consumi seu cérebro, depois o seu coração e por fim suas vísceras. Quase nada sobrara ali. Sentei-me por um segundo na lápide de algum morto, farto como se tivesse banqueteado em um jantar na corte. Estava todo rasgado e ensanguentado, queria poder trocas as vestimentas, porém, quando já estava a ponto de deixar o cemitério, uma voz intrusa invadiu minha mente com ordens e comandos. Senti alguma semelhança com a voz que me hipnotizara na tumba misteriosa e entendi que algo poderia estar me ligando ao sujeito que me oferecera a própria carne e o sangue e que também havia me mordido. Por impulso e ordem voltei até a tumba. Quando adentrei o local e dei por mim, o mesmo homem misterioso de olhos rubros e cabelos negros como a noite esperava por mim. Mas eu já não sentia medo e sim semelhança. 

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Solilóquio

Os acontecimentos anteriores me deixaram ainda mais convicto das incertezas deste lugar. Um salão de festas, cheio de gente, onde ninguém…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Os acontecimentos anteriores me deixaram ainda mais convicto das incertezas deste lugar. Um salão de festas, cheio de gente, onde ninguém olhava diretamente para mim, sem nem ao menos esboçar uma qualquer comunicação, visual ou verbal, seja comigo, seja com outros presentes naquele momento… para piorar, aquela fatídica dança, aquela misteriosa parceira de noite que, além de me fazer magicamente entortar as pernas e mãos ao redor de seu corpo, me deixou tonto da cabeça e cheio de pensamentos ao final do evento…

Não diria estar me sentindo cativo aqui, à mercê de algum projeto secreto, nas mãos obscuras de um(a) maquinista oculto e arranjador de situações para, aos poucos, me levar a algum destino… pelo contrário: continuo afastando-me dessa conclusão e sentindo-me estranhamente confortável, servido diariamente de estímulos e atmosfera para o desenvolvimento da escrita. Pois sim, este é o verdadeiro objetivo que parece se desenhar por trás de minha presença e dos outros convivas do Castelo. 

Leio-os, todos, com afinco, e retiro de suas experiências narrativas a conclusão de que estamos unidos pelas sensações, pela profundeza de ideias que o ambiente cercado por estas paredes parece cavar e encerrar mais — o resultado final dessa escavação, ainda um mistério… a incerteza no ar…

Há pouco, sentado diante desta biblioteca enorme de livros, disposta de maneira a — imagino — atender aos meus anseios (ou faltas) de inspiração, percebi-me atingido por uma vaga ideia: um raio capcioso de argumentação, de dúvidas quanto à realidade em que estou inserido, varou meu íntimo literalmente “do nada”... algo iniciado, se posso tentar adivinhar uma mínima origem, ao me desviar rapidamente das estantes e cruzar o olhar com o brilho espectral da Lua, invadindo este quarto…

Pois registro aqui que a Lua, vista da torre em que faço morada, todas as noites parece iluminar a paisagem sem barreira aparente. Da janela pela qual deixo entrar o ar nas deliciosas noites que fazem, junto com essa luz, sinto chegar igualmente até mim toda a sorte de sensações e mistérios que imagino rodar pelo mundo, invariavelmente causando em almas sensíveis os gatilhos necessários para se começar a pensar…

Eis o de agora: quem dirá (além dos raros cosmonautas) ter plena certeza de que a Lua se encontra , naquele céu misterioso e enganador que não sabemos seu fim? Se longe que estamos, e até onde nossos olhos alcançam, não podemos ter convicção alguma de não confundirmos uma árvore com alguma parede de maior estatura e verdejante; uma casa com algum tipo de projeção artificial, devidamente iluminada; um ser humano com alguma criatura além de nossa compreensão…

Vejam só, neste mesmo procedimento sobre o qual falo: por que essa reflexão? De onde tirei a iniciativa, estando há alguns minutos preocupado unicamente em tentar enxergar os títulos dos livros que me fazem companhia? São procedimentos mentais totalmente voluntários?... A própria linha de raciocínio e ação parece completamente indiferente a qualquer tentativa de apreensão. Qual terá sido o primeiro gesto, o pontapé inicial da minha série de atitudes que determinaram (pois assim deve ter sido) minha chegada a esta etapa da vida, a esse momento de incisiva reflexão? Mantém-se a pergunta… 

Havendo resposta ou não para esse brilho do céu, para essa dúvida quanto às sucessivas etapas que me trouxeram a esse quarto, e por que decidi me atentar ao processo de pensar, certo é que cheguei aqui impulsionado por uma onda — já estando à espera (e à deriva) da próxima. Se nem mesmo os passos que eu daria ao entrar no Castelo — que me revelaram, por mais absurdo que possa parecer, o aprendizado da dança(!), além de outras descobertas quanto a habilidades de escrita — puderam ser previstos, que dirá ter plena certeza dos movimentos reais do satélite natural, assim nomeado por quem também acha ser apropriada a definição…

Encontrando ou não alguma razão em minha estadia no Castelo, uma resposta final ou explicativa de minha chegada aqui, certo é que estou mais aberto aos estímulos de fora, atento aos acontecimentos que se mostram e surgirão a cada dia aqui — já com a plena certeza de ter sido aceito nesse lugar por obra de alguma construção minha (antecedida por outras), consciente ou não…

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Delírio Azul

Hoje o luar está sereno, porém com um fenecimento visível, como quem dá razão ao meu padecer. Sei que isso se dá pelo fato de eu ter perdido…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Hoje o luar está sereno, porém com um fenecimento visível, como quem dá razão ao meu padecer. Sei que isso se dá pelo fato de eu ter perdido aquele para a morte. Uma música triste pode tocar no interno dos meus ouvidos — aquela música que nós ouvimos aqui mesmo nesta pilastra onde estou sutilmente encostada.

A lua tem um tom cobalto ao seu redor e está imersa nas alturas, como se flutuasse num céu em tom marinho. As nuvens passeiam vagarosas e provocativas, me fazendo flutuar em pensamentos que são suficientes para que a primeira lágrima caia dos meus olhos.

Quando a minha lágrima cai, a doce e rouca voz sussurra em minha mente:

“Vês, estimada Nathállia, o céu azul. As nuvens passeiam claras e pacientes, enquanto a lua ilumina e nos encoraja a amar.”

Suspiro forte, ao ponto de sentir o meu vestido vitoriano apertando firme o meu busto. Por que não estás, Pierre? Por que não estás mais? A sua morte me dói, convidando-me, também, a fenecer com ele.

Lembro-me das manhãs em que ele me despertava da janela barroca do meu quarto, das tardes em que íamos tomar um banho de rio, escondidos, sem nunca nos tocarmos. E a noite? Era aqui mesmo onde admirávamos a tal lua. Lua maldita — me faz lembrar dele toda vez em que ela surge. Esse anil do luar é o que mais me mata. Anil é a cor que Pierre usava nos bailes onde valsamos por saudosos anos.

De tanto refletir na dor dessa perda, encosto a minha cabeça na pilastra e sento-me na baixa balaustrada, quando sinto em meu ombro a suave mão, a tão carinhosa mão... Será Pierre? Sorrio. Sorrio e olho para trás, mas é apenas a candura de Marta, que vem me recolher do grande pátio.

— Senhorita, precisa descansar. — Marta me acaricia o ombro, de maneira carinhosa. — Eu sinto em lhe dizer: O jovem Pierre não vem. Ele não vai voltar, senhorita. 

Marta sabe que nas noites de lua sempre venho o esperar... sempre. Engulo seco e quando quase me conformo, a enfrento:

— Ele vai voltar, sim! Nem que eu precise morrer para encontrar-me com ele. Nem que eu finja que ele está aqui. Nem que eu sonhe com ele todas as noites. — Caminhamos até o meu quarto enquanto me perco no que eu digo. — Ele era o meu melhor amigo, ele era mais que um amigo, ele era...

— O seu amor, não era? — Pergunta sorrindo leve.

— Era não. É. Pierre É o meu amor! E sempre vai ser.

Deito-me, como a única alternativa.

— A senhorita não vai se trocar? Vestir um damanoute para dormir...

— Não quero. Eu quero dormir assim, do jeito que eu costumava ficar na presença dele.

Marta não diz mais nada. Pede licença e se retira do meu quarto. Do meu dossel, a maldita lua, a bendita lua, lumiando o meu quarto e me trazendo a sensação de estar sendo tocada por Pierre. Sim, eu o sinto. E posso ouvir a sua voz grave e serena agora.

“Estou aqui, minha estimada Nathállia. Eu sempre estarei aqui no gélido anoitecer e no azul do luar. Estarei vertendo em tua face, junto às tuas lágrimas azuis que vertem agora.”

Constato dois fatos: eu enlouqueci e consegui acessar o mundo do outro lado onde o meu eterno estimado está. O seu corpo é esbelto, forte e, vestido em trajes clássicas, ele me segura contra o seu torso, acarinhando-me a face e os cabelos. E o frio da noite nos faz ficarmos mui próximos e aquecidos, envoltos aos lençóis do meu espaçoso dossel. 

ASelenoor que acontece na região é raro. E é isso que me conforta. Porque a noite é perpétua, bem como a lua tão anil que me proporciona o melhor delírio real com o meu Pierre, e que nunca mais irá se findar.

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Blog da Carmen

Olá, meu nome é Carmen! Apenas Carmem! Venho de uma cidade que morei por alguns meses com o meu marido. Eu não tive pais, não sei muito bem como…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Olá, meu nome é Carmen! Apenas Carmem!

Venho de uma cidade que morei por alguns meses com o meu marido. Eu não tive pais, não sei muito bem como vim ao mundo. Talvez eu seja fruto da imaginação de algum ser sobrenatural, mas prefiro pensar que sou apenas uma pessoa comum. Morei um tempo na roça e não tenho mais o sotaque mas “Ôh trem bão” que era viver naquela zona rural. Quando conheci o meu marido, primeiro e único namorado. Fomos direto morar na cidade. Ele era um empresário renomado e nossa vida até que era boa. Eu não podia dar um filho para ele, meu útero veio com defeito de fábrica, ou será que é sobrenatural que nem a existência dos que me tiveram? 

Gostávamos muito de viajar e alguns amigos dele nos indicaram uma cidadezinha que ficava na fronteira de um bendito lugar que eu não faço a menor ideia como eles descobriram um lugar como aquele. A cidade não morava ninguém, tinham evacuado as pessoas, mas mantinham tudo abastecido. Não tinha bichos na rua, as casas estavam todas fechadas, como se todos os vizinhos realmente tivessem se mudado. Eles disseram para ele, o meu marido, que na cidadezinha tinha algo interessante e que nos ia ensinar umas novas aventuras.

Aceitamos a empreitada e fomos só com a nossa mala de sempre, com data prevista para passar uns dois meses e desfrutar ao máximo o que aquele lugar pudesse nos oferecer.

Quando chegamos lá, estava exatamente do jeito que eu falei anteriormente, só que os mercados eram o único lugar aberto. Não tinha como fazer reserva de um lugar para ficar, apenas chegamos e nos alojamos na única casa aberta. A cor da frente da casa me chamou atenção de longe. O vermelho carmim e as portas da mesma cor, com duas janelinhas abertas sem cortina e sem persianas. Ao entrar no recinto, a mobília até que era agradável, os móveis antigos pareciam recém-restaurados, acho que o antigo dono vinha passar uma demão de verniz para mantê-los daquela forma. Ou só estou sendo matuta a cogitar isso. 

A casa tinha dois quartos, apenas com andar térreo, apenas um banheiro, cozinha, sala e jantar. Fomos às compras no mesmo dia e ao chegar no mercado era pegar o que queria que estava tudo certo. 

Nossa rotina consistia em tentar abrir as casas vizinhas, entrar no shopping da cidade que estava aberto, mas as lojas não. Apenas a praça da alimentação e lá tinha tudo dos cardápios expostos e prontos. Meu marido comia de tudo um pouco, voltávamos para a casinha e dormimos. E foi assim por quinze dias seguidos, eu não estava cansada, porque eu queria agradar ele. 

No décimo sexto dia, meu marido acordou empachado com toda a comida, e ele havia ganhado uns quilinhos a mais desde que viemos para cá, meus cabelos vermelho cor de sangue, precisavam de um retoque. Quando ele levantou para usar o banheiro, lá estava eu pintando as madeixas, quando ele me cobrou sobre a minha “regra”, se já havia descido. Achei esquisito ele perguntar, pois, o mesmo nunca se importou, assim como ele já sabia da minha esterilidade. 

De repente ele aumentou a entonação como nunca fizera antes nesse tempo de casados. Me cobrou persistentemente pela minha regra, até que desci a calcinha e mostrei o absorvente de pano que eu usava com meu sangue. Com as mãos sujas de tinta, parecia uma cena de crime, tudo vermelho, meu marido enfiou a mão no meu órgão e enfiou meu catamênio pela boca. Sem direito de falar, eu engoli a força algo tão íntimo e repulsivo para alguns. Após o ocorrido, perguntei porque ele fizera isso.

Sua resposta, que não fora nada convincente, ousou dar a desculpa que o sangue da mulher nutre, assim como o sagrado feminino, ele quis impor a mim que meu sangue iria deixar meu útero fértil. E assim me cobrou todos os dias de “chico” para que a cena se repetisse. Fiz com gosto, porque acreditei que sua fé poderia me causar algum fio de esperança e como agradá-lo era meu maior feitio como esposa, fiz tudo calada. 

Chegamos no nosso segundo mês naquela cidadezinha silenciosa, que o maior som era do nosso mastigar quando íamos ao shopping. Meu marido já tinha engordado bastante e eu fiquei feliz por ele estar feliz nesse lugar a sós comigo. 

Precisei retocar o cabelo novamente e com isso a regra desceu junto. Eu não estava grávida e mais uma vez meu marido insistiu para eu fazer o mesmo do mês passado. Fiz tudo calada e a rotina seguia do mesmo jeito todos os dias. Como num loop de clipes repetidos, eu estava vivenciando a mesma coisa, exceto quando estava de chico.

Nossa estadia perdurou e meu marido não parava de comer, e eu não ficava grávida, até que um belo dia eu acordei querendo uma nova aventura, segui minha curiosidade e fiz alguns testes com a minha regra do nosso nono mês nessa cidade pacata e farta. Coloquei meu fluxo na bebida do meu marido, o gosto não era ruim, era sangue, não tinha cheiro, afinal eu usava apenas paninhos de algodão, a química do absorvente descartável que dava o odor. 

Quando ele bebeu o suco, não reclamou de nada. Fiquei calada e quando ele dormiu, decidi enfiar um pouco na boca dele enquanto dormia. Ele acordou no outro dia sentindo dores fortes e eu com o chico acabando. Já estava cansada daquele lugar. Ele queria permanecer, mas esse vício na minha regra de me cobrar mensalmente estava me deixando assustada. Parecia um caso de monomania.  

Decidimos voltar para casa devido às dores dele, que foram aumentando de acordo com que íamos chegando em outra cidade. Ao chegar no primeiro hospital que vi, o médico deu o parecer que meu marido estava sentindo contrações. Perguntei se era devido ao fato dele ter adquirido 50 quilos a mais desde que viajamos para a casinha vermelha e o doutor disse que essas contrações eram iguais a uma gestação.

Não pude crer quando ele falou isso. Afinal, meu sangue era fértil, só que nutriu o solo errado. As dores foram intensas e meu marido não resistiu. Eu voltei para casa e meu luto foi passageiro, agora voltei a ser a Carmen, apenas Carmen e criei esse blog. 

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Dilacerante

No dia que o revés lhe bate à porta, | ele escuta a notícia lastimável | e implacável de que ela agora é morta, | que jaz num mausoléu inviolável….

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

No dia que o revés lhe bate à porta,
ele escuta a notícia lastimável
e implacável de que ela agora é morta,
que jaz num mausoléu inviolável.

Alucinado pela dor pungente,
nada pensa senão da perda o horror
e obedece ao infeliz rapidamente
a loucura que pede o seu amor:

Na ânsia de ver sua vestal preclara,
chega ao jazigo em pressurosos passos,
quebra o mármore impérvio que separa 

os dois, deixando, como ele, em pedaços
o féretro de sua bela amante 
para ver novamente o seu semblante,
para mais uma vez tê-la em seus braços.

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Olhos de Cadáver

Olhos petrificados e | Boca gélida, | De um vermelho desbotado. | Vestes amarrotadas | Ligeiramente forçadas, | Mas sem sucesso. | Cabelos sujos | Cobrindo…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Olhos petrificados e
Boca gélida,
De um vermelho desbotado.

Vestes amarrotadas
Ligeiramente forçadas,
Mas sem sucesso.

Cabelos sujos
Cobrindo, no chão
Sangue e musgos.

Face bela
Talvez outrora
Sonhaste com ela.

Se questionado,
Ou até mesmo me importado
Lamentaria o seu fim.

Mas me prendi nos desenhos,
Naturalmente formados
Por seu sangue carmesim.

Deitada ao chão
Fria ao pé d’uma árvore
Sinto que me chamam, seus olhos de cadáver.

Encosto minha cabeça à sua
E completamente nua
Ela pula para o ataque.

Foi uma emboscada
De inspetor fui à vítima
Encerrando minha jornada.

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Afirmando a autenticidade dos fatos

Estimado amigo, admito, elaborei uma farsa a respeito de meu passado. Fabulei em minhas rotinas de escrita. A razão de minha expulsão…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Estimado amigo, admito, elaborei uma farsa a respeito de meu passado. Fabulei em minhas rotinas de escrita.

A razão de minha expulsão, digo com relação ao colégio interno destinado a jovens moças. Nenhum plano malévolo jamais fora arquitetado contra minha pessoa, sou a única responsável por meus infortúnios. Concebo imagens de minha silhueta abraçada a mim mesma, consoladas sobre o mesmo véu negro invadido pela desesperança. Vejo-me como uma pedra afligindo uma fina flor, e afogo-me em luto, minhas mãos alcançam a superfície, porém ninguém jamais poderá resgatar-me da transgressão; deixe-me flutuar junto ao mar de flores, tal como Ofélia, deixe-me sangrar até sucumbir penalizada...

Através da janela contemplei a vista dos vales inteiramente cobertos pela neve, as árvores empalidecidas e parcas parecem-me solitárias a certa distância. 

Extraordinário a forma habitual como o azul tingido na amplidão do céu durante a alvorada, atinge todo o horizonte com a variação índigo da cor.  Ressentida, deixei uma lágrima escapar ao testemunhar as nuvens ocuparem o espaço, absorvendo a coloração, tornando o firmamento empalidecido, como o azul das Campânulas ressequidas ao alcance de minhas mãos, como os olhos de Teodoro Trindade. Em momentos de extrema lucidez, desejo de todo coração não possuir uma memória impressionantemente vasta, até mesmo os sons são armazenados em minha memória. 

Adaptei-me a adormecer na companhia de uma sonoridade específica; os gritos pueris da infância, as desconexas sentenças, assombrosas, que ecoam em minha memória, regularmente, durante as madrugadas. No momento em que ocorre, sinto um certo alívio, sinto-me em casa. Próxima a Teodoro Trindade.

Amadeu, Luiz Antônio e Theodoro Trindade eram membros do Esquadrão da Guarda do Vice-Rei de Portugal, o 1º Regimento de Cavalaria do Exército. Os homens Trindade deixaram seu país de origem após a invasão napoleônica, buscando abrigo em nosso simplório colégio. Eu os vi adentrar os portões cercados pela neblina cálida e úmida, desenvolvida por consequência da sensação térmica elevada, e arrisquei-me a estudar o estranho trotar de seus cavalos em nosso território. O Sargento Teodoro carregava consigo, abraçado ao tronco, uma criança, mais tarde descobri ser um jovem de seu próprio sangue, nascido de um caso vulgar de amor 

Por meses eu o vi arar a terra e auxiliar nas tarefas de manutenção do terreno e do prédio onde se alocava o colégio. Teodoro trazia, em seus olhos azuis, profunda tristeza lacrimosa, e os cachos dourados de seus cabelos perdiam o brilho e a maciez conforme seu tempo estendia-se em nossa companhia. Trindade não fazia uso das palavras, perdera a habilidade da manifestação vocal ao ter a língua decepada durante uma tortura, minutos antes de sua fuga. 

Após as tarefas, o sargento recolhia-se aos fundos da propriedade, onde dedicava-se ao filho, o acalentando, na esperança de fazê-lo olvidar os dias de flagelo. A criança berrava noite e dia, e os olhos de Teodoro enchiam-se de lágrimas instantaneamente, mesmo ele carregava na alma o efeito da covardia humana, e sobrevivia puramente pela esperança de auxiliar o retorno do filho à jovem casca.

Eu o visitava pela madrugada, o sargento tinha meu interesse como o presente dos céus, uma gentileza atrelada a minha alma pura e jovial, embora eu nutrisse certa fraqueza por seus olhos azuis lacrimosos e a força como atravessava o rio da vida, molhando-se o tanto quanto era permitido, afogando-se na esperança de sufocar a dor latente de carregar bárbaras memórias de violação de seu corpo e de quem mais amava, um sobrevivente, jamais carregado pela maré, apesar do desejo oculto de permitir que a morte ceife sua vida. 

Sentei-me certa vez ao pé de sua cama, de modo que pudesse tocar em seus dedos alvos e longos, sentindo a aspereza de sua pele sobre a palma de minhas mãos. Trindade era um jovem homem na casa dos vinte e cinco anos, poucos anos à minha frente, porém, sua constante vestimenta branca, o olhar puro e temeroso e o movimentar dos olhos vagarosamente ao levar as mãos aos lábios pequenos e rosados, o atribuía um ar pueril.

O homem fora meu lar quando esquecida por meus familiares e vivia em uma rotina cansativa de estudos e leituras, ao menos meus livros acompanharam-me em minha jornada. Jamais nos beijamos em vida, ou trocamos o calor de nossos corpos, embora eu tenha fantasiado, e no desfecho de nossa história encostar os lábios nos seus empalidecidos, em busca de soprar-lhe de volta à vida, intoxicando-me com o gosto frio da morte impiedosa.

Pois bem, Trindade aproveitou de meu conhecimento para que o ajudasse em uma ocorrência, fez-me prometer encontrar uma forma de ceifar sua vida e a da criança, primeiramente segurou minhas mãos trêmulas sobre um punhal de encontro à sua artéria, imprensando seu torso nu, aproveitando de minhas distrações por seus olhos lacrimosos e melancólicos e lábios rosados para arrancar de mim a ímpia promessa de morte. 

Eu não o matei, não à sua hora, embora o tenha executado mais tarde, quando sua afeição fora direcionada à irmã Celeste. Ele jamais a pediu que o deixasse escapar para o descanso eterno, era feliz ao seu lado, contudo cumpri minha promessa, findei sua vida, e a de seus irmãos e de sua prole, ambos envenenados com arsênico, privando suas células do organismo de obter oxigênio. Antes de partir, Teodoro abraçou o filho, assentiu para mim de forma compreensiva e pranteou ao aceitar a morte. 

A culpa recaiu sobre mim como podes imaginar, a jovem ensanguentada por fustigar o rosto contra parede em busca da dor e do padecimento, a jovem cujas lágrimas misturavam-se ao plasma sangrento, gotejado sobre as pálpebras e lábios entreabertos em um grito de cólera. Não havia uma outra alma sabida como a minha em companhia de uma coleção de livros e artigos intelectuais relacionados à biologia, alquimia e estudos herméticos. Neguei o crime, todavia deixo aqui minhas palavras, afirmando a autenticidade dos fatos. 

Ainda consegues nutrir afeição por mim, estimado amigo, mesmo após ouvir a minha verdade?

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Remorso Póstumo

Suas veias azuladas | As mesmas que via em mim | Sob um sol frio e pálido | As últimas lembranças que me restam de ti. | Na fúria eu cravei…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Suas veias azuladas
As mesmas que via em mim
Sob um sol frio e pálido
As últimas lembranças que me restam de ti.

Na fúria eu cravei
Minhas presas em sua vida
Como uma tola saboreei
Todo o líquido que de ti escorria.

Sob um inferno congelado
Quis padecer pouco a pouco
Sua tez cadavérica
Se opõe a seu gosto doce.

Num dúbio delírio
Te arranquei a mocidade
Bebi sua inocência
Mas te carregarei pela eternidade.

Como o preço pelos meus pecados
Tê-la-ei para sempre em meus lábios
Viva em meus pensamentos,
Sua fria face de pouca idade.

Texto publicado na 6ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de junho de 2024. → Ler edição completa

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Escrito por Morgana Mortem, -Contos Castelo Drácula Escrito por Morgana Mortem, -Contos Castelo Drácula

Os Fantasmas na Tenebra de Minha Alma

A morte… sob a soturna treva que se sepulta no lúgubre ar, contemplo eu a morte. Morrer, por fim, parece-me a…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

A morte… sob a soturna treva que se sepulta no lúgubre ar, contemplo eu a morte.

Morrer, por fim, parece-me a resolução mais sensata para as funestas torturas que acometem meu miserável ser; sim, morreria, pois, somente entregando-me ao submundo, somente repousando no gélido de um mausoléu arcaico, poderia idealizar o recuperar de minha calmaria há muitas épocas dissipada por entre as nuvens da obscuridade que tudo consome. Como angustio, ansiando que a Morte roubasse-me o último suspiro de vida! À morte, rogo que me usurpe desta minha angústia, ainda que me encontre no mármore mais profundo do inferno! 

Vós, cujos espíritos conservam a sanidade racional, não podeis compreender-me, sem embargo, ao tempo em que redijo meus infortúnios à negra tinta e à caligrafia de uma pena de corvo nesta memória amaldiçoada, concedo-me a lamúria de relatar-vos os fatos, as reminiscências ominosas que me fazem, no desafortunado presente, aspirar ao caráter putrefato de minha morte. 

Minha alma, há tantos invernos, afligiu-se, atormentando-se por visões hórridas, as quais homem nenhum é apto a idealizar, se não pela ação do próprio Diabo. O mal, o pior dos males, rasteja por meu ser, como uma víbora, envenenando-me com imagens e sensações provindas das profundezas do abismo eterno de pecadores. O horror assombra-me, e, eu, a miserável eu, ambiciono somente por uma madrugada onde não mais os espíritos e demônios arruínem-me, em uma ocasião de crepúsculo em que possa, mesmo que em túmulo álgido e ausente de vida, descansar sem sofrer pelos murmúrios agonizantes que provém da eternidade perversa. Meus terrores não apresentam causa ou razão, há somente o caráter detestável, que, com seus aspectos tenebrosos, dilacera minha fleuma e distancia-me de uma boa mente sóbria; o que sou, nesta terrível contemporaneidade, é somente um reflexo esquelético do que um dia fora, um cadáver cujo sangue é ainda infernalmente cálido. Não, não só me sinto assombrada, como bem sei que, os infernos contemplados por meus negros olhos em todo o anoitecer em que a paz é-me arrebatada, apresentam-se como mais que os meros devaneios quiméricos de uma mente ardente em delírios.

Por efeito de meus próprios terrores, disponho de uma parca memória, gravemente tênue, que é incapaz de recordar-me mesmo de minhas mais estimadas lembranças, no entanto, em prol da coesão desta narrativa, empenho-me, apesar de meus sentidos debilitados, para lembrar-me de motivos e datas. Com um tom dúbio, ocultado pela névoa cinza de meus pensamentos, tenho a vaga recordação de enfraquecer-me por esta maldição de horror posteriormente ao abandonar de meu pretérito lar, em um outono de brisas uivantes em que empreendi uma longa viagem até a solitude das posses de minha estimada tia, a qual assisti até os derradeiros dias de sua enfermidade que, ao fim, em um anoitecer mudo como este, roubou-lhe a vida, levando-a ao seu sepulcro. Ulteriormente à tal fatalidade, que, com suficiência, já debilitava meus nervos, conservei-me nas dependências da arcaica residência que há gerações acolhe todos àqueles aos quais compartilho meu sangue; todos repousam no cemitério deste recinto e eu, esta débil herdeira, também enterrar-me-ei nesta terra maldita. E, nesta decisão mal refletida, reside minha dolorosa sina, que me condena a ser horrorizada pelo próprio anjo das trevas, para todo o sempre…

Nesta casa mal-aventurada, construída em meio à melancolia e infelicidade, há a solidão taciturna e somente esta; à parte de minha alma só, existem apenas os fantasmas, cuja intenção é arrastar-me até o mesmo inferno em que habitam. Por entre as galerias consumidas pela quietude sombria, vivo eu, contemplando minha tragédia que não há de ser contada pelas cores e nuances vívidos de um talentoso pintor, um homem de artes que desenharia meu drama na harmonia de um afresco. Nestes umbrais que bradam, na maré contrária às arfadas exorbitantes de um vento intenso, observo eu o horizonte sinistro que acolhe o exterior, questionando-me se mesmo na estranheza bucólica do mundo externo seria eu perturbada por estes espíritos agourentos que suporto em minha sombra. Todavia, mesmo no aquém da soledade de meu exílio turbulento, o medo oculta-se; em todo o desconhecido que se esconde nos vale de um verde pálido, na dura natureza intocável das colinas varridas pela brisa sazonal, nos ferozes lagos de águas turvas que abraçam os entornos da propriedade. Para além da fortaleza corroída por monstros, descansa a paisagem desolada, ausente de um só homem vivo, que, por certo, complementa-se às desgraças das ruínas desta casa. 

Em minhas dependências pessoais, o terror constrói sua morada, morosamente, pois toda aflição é mais sentida quando a dor apresenta-se toda fiel noite; a maldade detém de sua própria sabedoria, não sem razão todo cálice de toxinas é melhor empregado como ferramenta de assassinato quando ministrado em pequenas doses, vós os sabeis melhor. E é neste mesmo leito, sufocada pela escuridão, que morro eu. O entardecer, o ocaso de tons cobres, que carrega o astro solar para o véu do horizonte, havia sido de grandes lamentações; quando as antigas pedras que erguem estes muros ainda acolhiam o cintilar diurno, tremia eu, ponderando sobre o que havia de passar-se quando a penumbra se fizesse minha só companhia. Meus dias têm passado-se em tais queixas silenciosas, que alimentam os pavores da psique fraca. Quando ainda há claridade, sinto-me em grande molesta, receando, mortalmente, o cair da noite, pois são nas sombras obscuras que os espíritos arrastam-se.

Inevitável, não obstante, é o regresso do escurecer. Destarte, recebo as agourentas novas do cenário noturno, com as mesmas desventuras que trucidam minhas vísceras como se fossem já um hábito. Em minha mortalha, onde zelo por minhas dores intensificadas perante meus presságios ruins, meus olhos veem-se incapazes de exercer o mero ato de fechar-se. Não há repouso para esta alma maldita, que não é apta a encontrar, no conforto de sua cama, o sossego da sonolência trazida pelas harpas divinas. Assim, desperta, não há empecilho para tudo que há de maligno visitar-me. Nesta insônia febril, suscitam-se, por minha consciência que se recusa a descansar, os piores delírios; padecimento, cólera, mágoa, ressentimento… Quando, por misericórdia de meus vilões, entrego-me aos braços de Morfeu, o maligno, também em sua própria hibernação, desadormece, aguardando-me para mais um período de terríveis visões.

Há apenas o escuro breu; diante de meu ser retraído, tudo é preto, pintado à escuridão que amedronta. Ainda que minhas pálpebras movam-se e busque eu, em vão, por uma fonte de luz, nada existe além de minhas entranhas e o vazio que sufoca. Em meu coração, sentimentos de ânsia intensificam-se, como uma febre irritante para os nervos, formigante para as mãos trêmulas e delirante para com o cérebro adoentado. Gélida, tal qual o inverno mais ferrenho nos alpes, suspiram minhas respirações entrecortadas, gravemente descompassadas, apressando-se e encurtando-se, fazendo do alçar e retrair de meus pulmões um ato quase taquicardíaco. Lágrimas carmesins derramam-se de meus lábios, que se oprimem até que o aroma de ferro propague-se no ar e a cor sanguínea manche toda a vida existente. Como presença constante de minha apreensão, tremores terríveis alastram-se por toda minha constituição, fazendo-me um esqueleto vacilante, incapaz de movimentar-se com clareza por seus críticos arrepios. De súbito, um pálido e bruxuleante cintilar contempla minha visão; o brilho que observo perante meus olhos fatigados é débil, tal qual minha própria saúde, impossibilitando-me de contemplar todo o quadro em meu derredor. Brevemente, experimento o perfume de brancos botões-de-ouro e dourados lírios, que me abraçam com seu frescor dos límpidos riachos de primavera. Por um minuto de hora, sinto-me diante da placidez calma, estudando o aroma de flores reconfortante e olvidando-me de quaisquer matérias terrenas. Entretanto, a paz que recai sobre meu ser mundano é, rapidamente, furtada pela personificação do desespero. Em meu cerne, uma cólica atroz grita, esbraveja, troveja desde meu coração até a última veia de sangue em meu corpo. O desconforto invade-me e logo arfo, ofegante em completa exasperação; os respiros de ar faltam-me, ao passo em que meus pulmões recobrem-me de algo que intoxica. Clamo, clamo aos céus e ao inferno para que me auxiliem, no entanto, nem mesmo a mais cândida prece salva-me. E, perante o desalento que me imerge, rendo-me ao meu último suspiro que me encaminha para as sombras…

Abruptamente, é já a madrugada maldita quando, por santo ou diabo, recobro meus sentidos e amanheço de meus tenebrosos sonhos ruins. No entanto, mesmo o recuperar de minhas boas respirações não faz-se suficiente para repor meus pobres nervos pois, com o temor de uma consciência acostumada a tais acontecimentos, a peça que encenar-se-á no anfiteatro do inferno é uma tragédia na qual esta atriz já não mais deseja atuar. Desgraçadamente, sem embargo, tal resolução não é-me concedida e, assim, sucumbo aos males de toda a madrugada. Então, em meu detestável derredor, o entendimento é apenas a penumbra, a escuridão; trevas e mais trevas ameaçam-me. Como sentir-se acolhida pelas sombras? É uma questão tola, que não dispõe de respostas sábias. Nos aposentos do inferno, a noite é sépia, de um ébano carvão como o sangue de um de seus diabólicos filhos. Entre a mudez das chamas ardentes do mármore e a infernal melodia da mudez que assassina, pouco há, além da escuridão. Somente a escuridão, e nada mais. 

Lânguido vermelho, profundo preto da obscuridade, fantasmagórico branco de vultos. Inevitáveis, estes últimos torturam-me com as suas súbitas aparições. Aquelas malditas figuras tortuosas, desprovidas de contornos corretos, sobrevoam os entornos de meu leito como uma eterna maldição. Fantasmas de aspecto lívido perturbam-me, bailando em escárnio por cima de minha cabeça, tonteando-me com seus movimentos descoordenados e executados para causar-me tais enxaquecas. Esqueletos, grandes esqueletos desprovidos de órgãos, mas de cadavéricas bocas de dentições afiadas, que ferroam repetidamente, mastigando ossos e pedras ao pé de seus ouvidos já danificados. Suas largas bocas expõem suas horrendas línguas espectrais, fazendo graças e zombarias com a face de desgosto de meu ser infausto. Estas criaturas de Belzebus, pintam-se em um branco maldito, tal qual o cloro mais ácido, cloro este que anseio poder tragar, para que a morte liberte-me. Nesta dança da morte, rangem e remoem ossos, cantando em estridentes uivos transtornantes. E tais diabólicas figuras nunca apresentam-se sós, é uma certeza que minha mente debilitada adquiriu de experiências passadas. São estas somente a entrada para um horrendo prato principal.

E, em um ímpeto, manifesta-se o Diabo, o próprio Diabo! Por todas minhas maldições, sangram meus tímpanos, que se lastimam com a soada progressiva, arrastada, que cresce desde a entrada de meu quarto. Como passos estridentes, esta toada infernal rasteja, sempre mais alta e mais próxima. Para a minha miserável eu, resta somente encolher-me, aguardando, em prantos, que o perverso arruíne-me. Em meio ao vento que ameaça arrebatar-se contra os vitrais e persianas, o timbre de um arranhar surge, ferindo tal qual a lâmina de um punhal; é o dilacerar minucioso de algo, e temo eu, que este seja minha carcaça prestes a apodrecer em meio aos vermes da terra pútrida. Logo, o pesadelo de ruídos torna-se um espetáculo, rompendo em tragédias que me cegam. Por entre as nuances da completa penumbra, uma cena maldita gargalha perante meu drama; tardia, a aparição tenebrosa desloca-se, com o desgosto de um ente do submundo. Entre lágrimas de horror, contemplo as garras ausentes de um corpo, de uma matéria viva, que caminham nas sombras, somente nas sombras, deslizando sua entidade desgraçada nas paredes da extensão de todo o cômodo. Estas mãos, mãos de monstruosas garras afiadas, procuram por meu corpo, procuram por minhas lesões, procuram golpear-me. Navalhas, terríveis navalhas, suspendem-se sob meu crânio! Então, estas garras prendem-me!  

Por meus demônios, hostilizo-me! Em meu desespero crescente, por alguma entidade sacra, sou capaz de desvencilhar-me, apressando-me a abandonar meus aposentos. Ausente do equilíbrio lógico para sequer dar-me conta de meus arredores, percorro, em meio ao escuro, os corredores negros, onde risadas diabólicas acompanham minha peregrinação rumo à morte. Torres em pedra, escadas em caracol, frestas em arcos, rosáceas, bustos em bronze, pinturas de um sangue amaldiçoado; abandono a tudo que existe no velho castelo para libertar-me. Quando aproximo-me do grande portal em abóbada cercado por duas torres, não há alívio em minha essência, apenas apresso-me, segura de não regressar, se não morta, ao mundo maldito que habita na fortaleza desta abadia ominosa. Posterior a mim, bem sei que o mal persegue-me, sedento por meu sangue infeliz. 

Contudo, quando meus passos errantes traçam sua fuga sob a ponte arqueada de pedregulhos, congelo no instante, presa, por alguma razão, nas águas escuras abaixo de meus pés. Sob um véu azulado de neblina, o lago fita-me de volta e, de improviso, uma tempestade banha-me, como um dilúvio de memórias invadindo meus pensamentos soturnos. Minhas reflexões melancólicas, meus anseios tenebrosos, as flores, minhas vestes molhadas, minha face desbotada de vida… contemplando as águas, compreendo uma terrível resolução. Ante o abrigo das águas, meu reflexo é inexistente, minha imagem é desconhecida, meu ser não é presente neste plano; sempre estivera morta.

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Sono atormentado

Prefiro aquele sono atormentado | por ogros e por bestas, pelo cão | sinistro e escuro, pela aparição | de tudo que é perverso e desolado | do que sonhar d’Arcádia o…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Prefiro aquele sono atormentado
por ogros e por bestas, pelo cão
sinistro e escuro, pela aparição
de tudo que é perverso e desolado

do que sonhar d’Arcádia o campo amado
das ninfas e dos faunos, da canção
de Febo, deus do som e do clarão
imenso, deus vidente-iluminado.

O sono de terror, quando termina,
dilui-se no raio que ilumina
a mente quando morre a madrugada.

Mas quando do prazer desperta o sono
e o peito enfim percebe este abandono,
levanta-se a viver um grande Nada!

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Crepúsculo

As horas de clareza vão findando, | o Sol de face rubra já declina, | as sombras reinam sobre ramo e folha, | a Lua azul aos poucos se revela. | Constelações…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

As horas de clareza vão findando,
o Sol de face rubra já declina,
as sombras reinam sobre ramo e folha,
a Lua azul aos poucos se revela.
Constelações se mostram no vazio,
estrelas desenhando as formas delas,
luzindo, ainda que mortas há milênios,
o mesmo fogo astral, era após era.
E ao contemplar os pontos desse abismo
surgiu em mim um lúgubre conforto:
saber que a mesma forma e o mesmo brilho
hão de luzir quando eu estiver morto…

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