Velian: Sob o Chamado de Nix
Voltava do Rio de Janeiro, onde estivera com Cassandra — e, embora não quisesse nomear a saudade, ela se insinuava, discreta, como aquele…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Voltava do Rio de Janeiro, onde estivera com Cassandra — e, embora não quisesse nomear a saudade, ela se insinuava, discreta, como aquele odor residual que permanece na pele mesmo depois de muitos banhos. O que fora dito, o que fora silenciado, tudo seguia reverberando dentro dele, como as ondas mansas do mar que vira na partida, batendo sem pressa na memória.
Agora, Fortaleza o recebia novamente, com suas ruas quentes mesmo à noite, onde o suor se misturava ao sal do ar, e os prédios se erguiam como colossos cansados, com as fachadas descascadas pela maresia e pelo tempo. A cidade vibrava em outra frequência, mais bruta, mais nua, mais próxima da pele.
Velian caminhava pelas calçadas irregulares da Aldeota, depois cruzou lentamente o Centro, onde vitrines fechadas refletiam sua figura alongada, espectral, entre restos de lixo e placas enferrujadas. Não tinha pressa.
Procurava sangue, sim — como sempre — mas não apenas para se alimentar ou tentar saciar-se, e sim como quem deseja, ainda que secretamente, sentir-se parte de alguma coisa: um olhar, uma troca de palavras, um encontro improvável no meio da noite suada de uma cidade que parecia tão alheia quanto qualquer outra.
A cada passo, sentia a carne mais densa e o espírito mais leve, como quem se desloca gradualmente entre dois mundos. O Rio ainda latejava nele, com o cheiro doce das manhãs à beira-mar e as conversas enigmáticas com Cassandra, aquela que sempre o fazia sentir-se ao mesmo tempo mais forte e mais vulnerável. Ela ficara — e ele voltava a vagar, como sempre.
Havia ironia nisso, claro: uma criatura tão antiga, tão cheia de histórias, e, ainda assim, eternamente condenada a buscar um sentido nas ruas de cidades modernas, iluminadas por néons decadentes e com o asfalto rachado expondo raízes velhas que insistiam em romper a ordem dos homens.
Mas, naquela noite, algo o atravessou.
Não foi uma voz, nem um clarão súbito. Foi uma espécie de tração invisível, como um músculo antigo que, mesmo atrofiado, ainda sabe se mover.
O Castelo Drácula o chamava.
Velian reconheceu o chamado não com surpresa, mas com aquela espécie de resignação cúmplice, como quem sabe que não poderia ser de outro modo. Sempre que retornava a Fortaleza, era assim: primeiro vagava, depois era puxado — nunca sabia ao certo quando ia acontecer, mas sempre acontecia. A cidade nunca o retinha por completo.
...vazios e, ao sair dali, sentiu que o ar se rarefezia, como se os elementos conhecidos do espaço urbano começassem a se dissolver.
Em poucos passos, já não estava mais na cidade.
O limiar era tênue, quase imperceptível: o concreto quebrado do calçamento cedia lugar ao solo úmido, coberto de folhas mortas, e o som abafado do trânsito se extinguia, substituído pelo sussurro grave das árvores e o canto noturno de pássaros invisíveis.
A floresta sagrada que envolvia o Castelo Drácula o recebia como sempre — sem alarde, sem cerimônia, mas com a gravidade de quem reconhece um de seus.
As ruínas esquecidas surgiam entre as folhagens como espectros de um passado ainda mais antigo que o seu: colunas tombadas, altares carcomidos, fragmentos de deuses anônimos soterrados pelo musgo e pelas raízes. Velian passava a mão sobre uma dessas pedras frias, como quem saúda um irmão adormecido.
E ali, sem necessidade de invocação, a presença se fazia sentir: Nix.
Desta vez, a senhora da noite não apareceu personificada, como figura, nem como entidade delimitada, mas como princípio. A Senhora da Noite. A vastidão que acolhe e engole tudo, a mãe e o túmulo, o véu e o abismo, Mas, Velian sabia que ela estava lá.
Velian ergueu os olhos. O céu, opaco, parecia mais uma pele translúcida do que uma cúpula infinita. Entre os galhos entrelaçados, as estrelas apenas sugeriam sua existência, veladas pelo manto de Nix.
“Salve, Senhora”, disse, quase como quem saúda uma velha amiga — com respeito, mas também com uma ponta de ironia que não conseguia extirpar nem mesmo diante do mistério absoluto.
Continuou caminhando entre as ruínas, sentindo a umidade das folhas sob os pés, o aroma profundo da madeira apodrecida e da terra revirada. Aquelas eram as relíquias que verdadeiramente o comoviam — não os objetos das cidades, não os monumentos de concreto, mas esses sinais silenciosos de uma eternidade que se consome lentamente, mas nunca desaparece por completo.
O Castelo Drácula ergueu-se, enfim, diante dele, imponente e mutilado, com suas torres fendidas e os vitrais quebrados deixando entrar feixes aleatórios de luar que se desfaziam como fumaça.
Velian parou um instante antes de cruzar o limiar. Respirou fundo, não por necessidade — a respiração, há muito, perdera o sentido biológico — mas, como quem deseja ainda sentir o ar, como quem quer lembrar que ainda é corpo, mesmo sendo, sobretudo, espírito.
Sentia-se vazio e cheio ao mesmo tempo.
Carregava a melancolia inevitável de quem já vira demais, perdera demais, desejara demais. Mas também uma esperança tênue — um traço de luz sob as cinzas do tempo, um resíduo de fé na possibilidade de que, ainda assim, pudesse encontrar um outro, ou um outro sentido, ou apenas o próximo capítulo de sua própria errância.
Sorriu sozinho, ali, diante do portão entreaberto, como quem reconhece o paradoxo: a busca infinita, a travessia interminável, mas, ainda assim, o desejo de continuar.
Adentrou o castelo, as paredes úmidas absorvendo sua figura como um líquido escuro.
E ali, naquele breve intervalo entre o fora e o dentro, o antes e o depois, percebeu mais uma vez a estranha maleabilidade do tempo.
Para os homens, o tempo é linha, é flecha, é cronologia. Para ele, o tempo era mais: um tecido espesso e ondulante, ora nó, ora fenda, ora espiral.
As noites de Fortaleza e do Rio de Janeiro sobrepunham-se agora como véus transparentes: o mar ao longe, o cheiro das frutas na calçada, o calor da pele de Cassandra, a textura úmida das ruínas, o hálito frio de Nix. Tudo coexistia, simultâneo e indistinto.
Não havia passado que se encerrasse, nem futuro que prometesse redenção. Apenas camadas, justapostas, ressoando umas nas outras, como ecos infinitos numa caverna sem fundo.
E, contudo, havia ali, naquele excesso, uma espécie de melancolia mansa: a constatação de que nenhum instante se perde, mas, também, de que nenhum pode ser plenamente revivido.
Velian sabia que continuaria a atravessar cidades, florestas, corpos e séculos, sempre tocando o tempo com a ponta dos dedos, mas, sem jamais poder retê-lo entre as mãos.
Essa percepção, contudo, não o paralisava. Ao contrário: alimentava aquela esperança sutil que, como uma lâmina fina, cortava a densidade da noite.
Ainda que tudo fosse transitório, ainda que tudo fosse simultâneo e indomável, ele continuava.
E esse continuar não era desespero, mas, uma escolha — ou talvez, mais honestamente, uma necessidade inscrita em sua própria natureza.
Sorriu sozinho, ali, diante do portão entreaberto, como quem reconhece o paradoxo: a busca infinita, a travessia interminável, mas, ainda assim, o desejo — sempre o desejo — de seguir adiante.
Adentrou o castelo, as paredes úmidas absorvendo sua figura como um líquido escuro.
E ali, sob o olhar invisível de Nix, senhora do mistério e do silêncio, Velian seguiu.
Como sempre.
Como nunca deixaria de ser.
As Crônicas de Velian: Divagações da Imortalidade
Velian, sob a maldição ou bênção da imortalidade vampírica, percorre as ruas de Fortaleza, mergulhado em reflexões sobre sua existência eterna. Em meio a angústias e silêncios, ele confronta os dilemas do tempo, da vida e da morte, questionando o sentido e os limites da razão. Ouvindo um chamado visceral do Castelo Drácula, Velian mergulha em divagações introspectivas, onde a busca por respostas é ainda mais complexa e a solidão, ao lado da melancolia, levam-no a vivências atormentadoras. » Leia todos os capítulos.
Weslley Cunha
Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Sob o Véu da Noite: Velian e o Abismo
O vento cortante do Rio de Janeiro soprava com hálito de tempestade, uivando entre as rachaduras dos prédios…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O vento cortante do Rio de Janeiro soprava com hálito de tempestade, uivando entre as rachaduras dos prédios antigos como se os deuses da noite trovejassem advertências em línguas esquecidas. Em Copacabana, onde o mar se confundia com o céu de chumbo, Velian caminhava como um espectro pelas vielas iluminadas apenas por postes trêmulos. Seu corpo parecia não pertencer àquele tempo. Seus olhos — sombreados por dúvidas e ecos de existências anteriores — buscavam algo que não se nomeava: talvez consolo, talvez uma resposta, talvez apenas um instante de silêncio.
Ao chegar à cobertura de Cassandra, um dos últimos refúgios onde o luxo e a decadência coexistiam como amantes cansados, foi recebido com o cheiro inebriante de rosas escuras e sangue fresco. O perfume era tão antigo quanto as paredes decoradas com tapeçarias negras e espelhos entalhados em molduras de ossos e marfim. A luz vermelha banhava o aposento como se a própria luxúria tivesse se tornado luminária.
Cassandra estava ali — de pé diante da sacada, alta, imponente, cabelos longos e ondulados escorrendo pelos ombros como serpentes de ébano. Os lábios, tingidos por batom e sangue, exibiam o vermelho da fome e do sarcasmo. Sua presença, mesmo silenciosa, falava mais do que muitos discursos mortais. Quando se virou, os olhos brilharam com aquele tom perigoso de quem conhece a verdade, mas prefere rir dela a se curvar.
— Ainda vives com teus dilemas existenciais, Velian? — disse ela, cruzando os braços nus e perfumados. — Sempre essa tua sede insaciável por sentido. É tão… humano.
— Tu sabes que não é simples — respondeu ele, pousando a capa encharcada sobre a cadeira. — A eternidade exige mais que apenas sobreviver. Ela exige… compreender.
Cassandra soltou uma risada baixa, melódica, quase cruel.
— Compreender? Olhe pela janela, querido. Veja essa cidade. É sangue, sexo, vício e ganância. Não muito diferente de nós. A diferença? Eles morrem. Nós… não temos esse luxo.
Ela caminhou lentamente até ele, e suas palavras ressoavam como encantamentos cortantes:
— Queres saber o sentido da vida? É poder. É gozar do que o tempo não pode apagar. É dominar. Se não dominas, és dominado. E tu, Velian, estás sempre vacilante entre querer destruir e querer entender. Isso te enfraquece.
Velian cerrou os punhos. A tensão entre eles era elétrica. Não havia medo, mas respeito — o tipo perigoso, como o que se sente diante de uma fera indomável que por capricho ainda não devorou.
— Cassandra… o Castelo Drácula… eu estive lá. Em suas múltiplas dimensões. Há algo ali… ancestral, devorador. É como se o próprio vazio tivesse se assentado naquele trono de trevas.
Os olhos de Cassandra brilharam, desta vez com algo próximo da admiração.
— Ah, então enfim provaste do ventre de Soramithia. A ponte entre o fascínio e o terror… Eu conheço suas entranhas, Velian. Sei onde a escuridão deixa de ser símbolo e se torna carne. Vem comigo. Levar-te-ei a uma das câmaras esquecidas do castelo, onde a treva é mais densa que o tempo. Talvez ali encontres o que tanto procuras.
No Coração do Abismo: ou quando até os monstros sentem falta de si mesmos
O portal se abriu como uma ferida antiga na pele do mundo.
O ar da dimensão de Soramithia tinha gosto de ferro e orvalho podre. Era como respirar através do pulmão de um cadáver encantado. Velian entrou primeiro, não por coragem, mas porque preferia cair antes de hesitar.
— Bem-vindo ao útero da tua alma — disse Cassandra, com aquele sorriso que misturava erotismo e ameaça. A capa dela ondulava como fumaça viva. Seus pés não pareciam tocar o solo. Talvez nunca tivessem tocado.
O castelo se erguia na paisagem de uma realidade que já não reconhecia o tempo. Era feito de ossos negros, torres retorcidas e espelhos partidos, onde o reflexo recusava obediência. A cada passo, Velian sentia algo pressionar seu peito — como se o próprio lugar estivesse curioso sobre quem ele era.
— Soramithia… — ele sussurrou, testando a palavra na língua. — O nome soa como um gemido de flor morrendo. Poesia para os mortos.
— Ou um feitiço para os vivos que ainda não sabem que morreram — retrucou Cassandra, com a voz baixa, quase carinhosa.
Ela observava Velian com o cuidado de quem segura uma taça de vinho muito caro: sabendo que pode se partir, mas desejando sentir seu gosto até o fim.
Velian riu, um riso breve e sem humor.
— Este lugar fede a memória. A nossa, a deles, a de todos os que tentaram se salvar mergulhando. Sabe, Cassandra, às vezes penso que toda eternidade é só um eco mal interpretado.
Cassandra não respondeu. Seus olhos, negros como tinta fresca, pousaram sobre ele com uma intensidade silenciosa. Ela sabia que Velian falava mais por defesa do que por clareza. Ele cuspia sabedoria como uma lâmina afiada, mas por dentro ainda carregava o menino que sangrava pelas dúvidas que ninguém nunca respondeu.
Ao atravessarem a antessala do Trono das Raízes — uma estrutura viva de cipós petrificados que sussurravam em idiomas mortos —, Cassandra se voltou e o encarou.
— Aqui tu não és senhor de nada, Velian. Nem do teu próprio sangue. Soramithia exige entrega. Aqui, até tua ironia será comida pelas sombras. E só restará o que tu sempre foste.
Velian fechou os olhos por um instante. Queria responder com sarcasmo. Algo como: “Então me diga, minha adorável sacerdotisa da morte, o que eu sou, além de um vampiro entediado com uma libido filosófica?”
Mas não disse. Porque ele sentia. O castelo pulsava como um coração sombrio e antigo, e cada batida parecia esvaziá-lo um pouco mais.
Ali, ele se lembrava.
Da cela. Do frio.
Da fome.
Do som do próprio corpo sendo esquecido por si mesmo.
As memórias voltavam como fantasmas carinhosos e cruéis.
— Lembro do som da água escorrendo… — murmurou. — Tinha cheiro de ferrugem e abandono. Cada gota parecia zombar da minha sede. E sabe o mais curioso, Cassandra? Eu ria. Ria como quem sabe que o pior já aconteceu, e o resto é só detalhe.
Ela se aproximou lentamente. Tocou-lhe o rosto.
Mas não com piedade — com uma espécie de reverência sombria.
— Tu sobreviveste à prisão dos ancestrais sem enlouquecer. Pelo menos, não completamente. E ainda és belo. Ainda desejas. Ainda dúvidas. Isso… é o que mais me assusta em ti.
Velian ergueu uma sobrancelha, divertido.
— Está admitindo que sente medo de mim?
— Não. — Ela hesitou. — Estou admitindo que admiro tua fome. Essa sede por algo que nem sabes nomear. Como um cavaleiro medieval, perdido entre cruzadas sem cruz, buscando o Santo Graal de uma identidade impossível.
Silêncio.
Profundo.
Sagrado.
Eles se sentaram sobre o chão pulsante da câmara central. Abaixo deles, diziam, estava a raiz do mundo. A primeira gota de sangue. O primeiro erro.
Cassandra falou, olhando o vazio:
— O que tu és, Velian, não pode ser definido. Teu gênero dança entre o toque e o abismo. Tua fome mistura gozo e medo. Teu corpo recusa destino. Por isso tu sobrevives. E por isso me perturbas.
Velian sorriu, cansado. A voz saiu baixa:
— Eu sou a pergunta que nunca quer a resposta. Talvez isso seja o pior tipo de monstro. Ou o mais sincero.
Epílogo: Os Lábios da Noite
Mais tarde, deitados sob os véus de névoa da câmara íntima de Cassandra, os dois corpos se enroscavam como raízes em busca de luz. As paredes pulsavam um brilho orgânico, como se a própria estrutura do castelo respirasse junto com eles. O chão sob a pele lembrava carne morna, viva, e os sussurros das almas seladas nos pilares continuavam, mas agora pareciam cânticos distantes — respeitando aquele instante como se fosse um ritual.
Cassandra o observava como quem contempla um eclipse: com medo e êxtase. Seus dedos traçavam linhas invisíveis no peito de Velian, como se lesse nele um livro de sombras escritas em linguagem esquecida. Ele, por sua vez, fingia sono, mas sentia tudo: o cheiro de incenso e sangue ressecado; a textura da pele dela, queimada pelo tempo e ainda assim macia; o peso do mundo antigo repousando sobre o silêncio.
Ela se aproximou, colando os lábios no ombro dele, e murmurou com um fiapo de voz:
— Amanhã te odeio de novo.
O tom era quase maternal, mas carregado de ironia triste.
Um riso cruzou o canto da boca de Velian.
— Só amanhã? Que generosidade repentina… — provocou, abrindo os olhos, revelando um brilho âmbar que os séculos não apagaram.
— Esta noite eu te pertenço um pouco — completou ela, como se ignorasse o sarcasmo, mas sem deixar de notar o calor que aquilo gerava entre os dois.
Velian a fitou por um momento longo demais. A penumbra tremulava com as brasas de velas verdes e negras, e por um instante, ela viu nele não o vampiro desafiador, mas o homem anterior a todas as máscaras. A criatura ainda em busca. A alma inquieta que jamais aceitou o conforto da resposta fácil.
— Um pouco é tudo o que se pode ter de alguém como eu — respondeu ele, sério agora, sem teatro. Havia cansaço no olhar. Mas também havia desejo. Desejo de existir. De ser tocado para além da carne.
Fizeram amor como se cada toque fosse uma última chance. Como se seus corpos guardassem segredos que só o atrito revelaria. A língua dele desenhou runas em sua barriga. As unhas dela se cravaram em suas costas como tatuagens rituais. A cada gemido, a estrutura de Soramithia tremia levemente, como se o castelo reconhecesse que dois de seus filhos mais antigos estavam — por um breve instante — vivos de verdade.
Ela gemeu seu nome como quem invoca um deus. Ele sussurrou o dela como quem confessa um pecado.
E então vieram as mordidas. Lentamente. No pulso. No pescoço. Na virilha. Ambos sangraram. Ambos beberam. Os fluidos se misturaram. A eternidade estremeceu.
Quando o silêncio caiu de novo, espesso como névoa de pântano, Cassandra repousou a cabeça sobre o peito dele. Tocou-lhe o esterno, sentindo algo bater lá dentro. Um resto de batida. Uma ilusão? Talvez. Mas não menos real.
— Ainda tens alma, Velian… — ela disse, com a voz embargada. — E isso é o que mais me desespera. Porque tua alma é selvagem. Tu podes destruí-la a qualquer instante. Ou usá-la pra nos destruir a todos.
Ele passou os dedos pelo cabelo dela, enredando os fios longos e escuros entre os próprios. Não respondeu de imediato. Apenas olhou o teto da câmara, onde formas estranhas se moviam, como se fossem lembranças encarnadas em sombra líquida.
Depois, falou com a voz mais grave, baixa e firme:
— Eu sou o que resta quando a fé morre e o desejo sobrevive. Sou o cavaleiro que nunca encontra a relíquia. Que se apaixona pelo caminho, mas odeia cada estrada. Eu sou a fome que pensa.
Ela ficou em silêncio. Não por falta de palavras — Cassandra nunca as perdeu —, mas porque ali, deitada com ele, sabia: aquele era o momento mais íntimo que já viveram. E talvez o mais frágil. E talvez o último.
Mesmo partida, ela o admirava.
Admirava o fato de ele duvidar. De ele sangrar. De ele se recusar a tornar-se máquina, lenda ou servidão. Havia nele uma nobreza antiga, torta, quase extinta — como um livro que sobreviveu a todas as fogueiras.
“Mesmo partido," pensou, "tu és mais perigoso que todos os reis que beijei. Porque tu duvidas. E um monstro que duvida… é capaz de fazer o impossível.”
Ela fechou os olhos.
E por um instante, talvez um único,
o castelo adormeceu com eles.
As Crônicas de Velian: Divagações da Imortalidade
Velian, sob a maldição ou bênção da imortalidade vampírica, percorre as ruas de Fortaleza, mergulhado em reflexões sobre sua existência eterna. Em meio a angústias e silêncios, ele confronta os dilemas do tempo, da vida e da morte, questionando o sentido e os limites da razão. Ouvindo um chamado visceral do Castelo Drácula, Velian mergulha em divagações introspectivas, onde a busca por respostas é ainda mais complexa e a solidão, ao lado da melancolia, levam-no a vivências atormentadoras. » Leia todos os capítulos.
Weslley Cunha
Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Velian – O Som das Engrenagens na Eternidade
Velian caminhava entre as sombras de Fortaleza, sentindo o cheiro de maresia misturado ao ferro enferrujado dos portos e ao suor adocicado…
Criatura núrida, tu estás prestes a ler um dos capítulos da história de Velian, um vampiro cuja profundez existencial é capaz de tocar em nossos modos-de-ser, nos imergindo em reflexões existenciais de inestimável valor. O autor tem uma técnica fascinante para que a leitura, ainda que densa em existencialidade, nos desperte um inenarrável prazer, dada a sua qualidade literária. Aprecie e boa leitura!Com sombrio apreço, a Anfitriã Sahra Melihssa
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Velian caminhava entre as sombras de Fortaleza, sentindo o cheiro de maresia misturado ao ferro enferrujado dos portos e ao suor adocicado das ruas noturnas. Pensava o vampiro que em outros tempos as ruas das grandes cidades que conhecera, como Londres, Amsterdã, Paris, entre tantas outras, eram ruins em épocas diferentes, por motivos diferentes, como pestes, pobreza e muito mais, Porém agora tudo era ruim porque parecia muito mecânico, mesmo com o suor das danças noturnas, com a sobrecarga de trabalho dos humanos e todo o sofrimento, parecia para Velian, que havia uma sombra pairando a humanidade, principalmente nas grandes zonas urbanas, em que tudo era muito, muito mecânico, pensava Velian sobre a vida nesses últimos meses, em suas idas e vindas pelo Castelo Drácula. Velian tinha certeza de que o Castelo Drácula era uma manifestação de outras dimensões, seu conhecimento espiritual e de ser sobrenatural lhe davam essa certeza.
Porém o Vampiro sabia também que o Castelo lhe mostrava muito de seu mundo interno e ele às vezes ficava confuso e se perguntava se realmente era digno de entrar no Castelo por não entender muitas vezes as simbologias, mensagens e significados das várias dimensões do Castelo Drácula. Por vezes Velian desejava encontrar o próprio Drácula, mas sempre era submetido a entrar em outras camadas do Castelo e conhecer diferentes seres. Velian não estava tão confortável em apreciar apenas vagamente esses seres que às vezes lhe provocavam medo e o vampiro tinha que lutar e se dispor de todos os seus poderes para encarar tais seres grandiosos, mas que ia e vinham brevemente. Voltando a pensar sobre sua vida em Fortaleza e a observar como vivia, percebeu: as luzes dos postes piscavam sobre as calçadas rachadas, refletindo o mundo moderno que parecia ao mesmo tempo imutável, decadente e repetitivo. Fazia meses que sua fome se tornara diferente — não era apenas por sangue, mas por algo que ele ainda não sabia nomear.
Matara mais do que o habitual. Seduziu mulheres e homens com beijos e promessas vazias, apenas para desaparecer de suas vidas e os deixar no desespero do abandono. Gostava da ilusão de controle, de ver os corações partidos como espelhos estilhaçados refletindo fragmentos de sua própria alma quebrada. Mas nada disso o preenchia. Nem a caça, nem o desejo, nem o caos que espalhava ao redor. Ele se perguntava se algum dia voltaria a realmente sentira prazer nesses jogos ou se tudo não passava de um reflexo pálido do tédio e da insatisfação.
Ele olhou para o céu. Cinzento. Impessoal. Como se o universo estivesse indiferente à sua presença.
E então o chamado veio. Velian entendia que precisava de mais tempo para outro sobressalto do Castelo e uma outra dimensão que apenas iria novamente, mas ainda assim o chamado veio.
O Castelo Drácula sempre o convocava quando sua alma estava prestes a afundar demais na monotonia do mundo. Sentiu o puxão em seu peito, como se algo arrancasse sua consciência da cidade e a atirasse para um outro lugar. O vento mudou. O cheiro de ferrugem e vapor substituiu a maresia. O calor úmido do Ceará deu lugar a um frio metálico. Quando abriu os olhos, não estava mais em Fortaleza.
Estava diante do Castelo. Mas ele não era o mesmo (como sempre).
O Som das Engrenagens
As engrenagens giravam nos cantos mais improváveis. Tubulações surgiam dos muros, exalando vapor denso. Os corredores pareciam agora parte de uma máquina viva, movendo-se lentamente, respirando em estalos metálicos. O céu era tomado por uma poeira dourada que obscurecia as estrelas, e no horizonte dois sois ardentes se erguiam, lançando uma luz acobreada sobre tudo.
Velian caminhou pelo pátio, sentindo o chão de metal frio sob seus pés. Uma sensação de inevitabilidade o tomou. Era como se estivesse dentro de um mecanismo muito maior do que sua compreensão. Tudo era efêmero, tudo seguia uma programação invisível. Ele, um vampiro há séculos no mundo, poderia ser imortal, mas diante da engrenagem do destino, até mesmo ele parecia insignificante.
Foi então que a viu.
No centro do pátio, entre as engrenagens e o vapor, uma mulher de manto negro que o vampiro identificou como a mesma mulher da última visita. Tudo ao seu redor era diferente, mas a mulher, sua presença e sua poderosa energia eram a mesma, Velian ficou até feliz de ver o mesmo ser, mesmo em outra dimensão, ela caminhava lentamente, guiando um pequeno rebanho de cabras negras, como da última vez. Seu cajado de carvalho era encimado por uma pedra negra, pulsante como um coração. Havia algo de bruxa nela. Algo de vampira. Algo de deusa ancestral que existia antes mesmo que os mundos tivessem forma. Velian se preparava para ter com esse ser e não podia ser coincidência que ela ali estivesse novamente.
Ela o olhou, e sua voz cortou o silêncio com um tom que não pertencia a este tempo.
— Tu andas perdido, como sempre.
Velian cruzou os braços, sentindo o incômodo de ser lido tão facilmente.
— E há outro caminho a seguir? A não ser a dúvida? A não ser a angústia?
Ela sorriu de forma enigmática.
— A engrenagem gira, e essa dimensão representa apenas isso – as faces das eras não param, apesar da monotonia de alguns instantes, mas não és tu quem a move. Tens vivido como se buscasses o sentido nas ruínas do desejo, nas cinzas das paixões destruídas. Mas até quando?
Ele desviou o olhar para os dois sois difusos.
— E qual seria a alternativa? Seguir um destino rígido? Aceitar um papel pré-escrito? Como essas engrenagens malditas dessa dimensão, seja lá qual for ela? Se tudo está conectado por engrenagens invisíveis, há como quebrar esse ciclo?
Ela se aproximou, e o cheiro de terra antiga, ferrugem e sangue fresco emanou dela.
— A dúvida te corrói, mas também te mantém vivo. No dia em que parares de perguntar, serás apenas mais uma peça nessa máquina infinita. Há tempos olhas para a eternidade e te perguntas o que fazer com ela. Mas eu te digo… o que fazes com um único instante?
Velian a fitou. Sua presença era hipnótica. Ele sentia que, de algum modo, tinha aprendido algo, ou entendido algo, mas ainda não sabia o quê.
O vapor sibilou ao redor deles, e, por um breve momento, tudo pareceu congelar. A mulher sorriu novamente antes de desaparecer na névoa dourada.
Mas Velian não gostava daquilo. Um mundo de engrenagens para ele, um ser romântico nos termos de um poeta louco, seu sentir demais, não gostava daquele mundo que agora pairava sobre ele, desejou ainda dialogar mais que esse ser ancestral que ia e vinha das várias dimensões e desejou sair daquela dimensão em que estava, pois não gostava de engrenagens e do conceito de destino e de tudo ser meramente funcional, como as engrenagens naquela dimensão pareciam mostrar.
Entre a Máquina e o Sangue
Ele detestava a visão do Castelo transformado em uma prisão de engrenagens. A ideia de um destino rígido, de um ciclo que girava por si só, o enojava. O que era um ser imortal senão um errante sem caminho definido? Ele não queria ser parte de uma máquina sem alma, programado para existir sem sentir.
Foi nesse momento que compreendeu algo muito importante.
Não era o caos, a destruição ou o vazio que o movia. Não era a sedução para o abandono, o prazer na angústia alheia, nem o desejo de quebrar corações apenas para ver os estilhaços. Nada disso o preenchia. O que verdadeiramente o sustentava era a conexão, ainda que efêmera.
A troca de olhares no meio da noite. O calor de um corpo desconhecido em sua cama. O sussurro de um segredo que nunca seria repetido.
Não importava que os momentos fossem passageiros. Não importava que, no fim, tudo se dissolvesse no esquecimento. Enquanto duravam, eles eram reais. Com esse pensamento, ele decidiu que era hora de voltar.
Mudaria de identidade mais uma vez, deixando para trás o vampiro que devorava e destruía por tédio. Não se livraria de suas dúvidas, mas aprendera que elas eram parte dele. Não era assim também com a humanidade? A incerteza, o medo, a busca por sentido no vazio?
Talvez ele fosse, afinal, a personificação da humanidade.
Sempre teria questionamentos. Sempre sentiria o vazio corroer sua alma. Mas agora entendia que, no meio da escuridão, existiam fagulhas de conexão que tornavam a eternidade suportável. Em meia a devaneios e reflexões, olhou novamente para o mundo mecânico, mas tudo o que viu foi o topo do prédio em que estava após sua última cassada, estava de volta à velha capital cearense e estava feliz pela primeira vez de não estar em alguma dimensão perdida, principalmente aquela feita de engrenagens.
E talvez fosse a hora de visitar Cassandra.
Não para buscar respostas, o vampiro ponderou que respostas e conhecimento eram coisas diferentes, então decidiu partir em busca de Cassandra e de conhecimentos que nem ele conhecia bem, mas que a vampira ancestral, por mais debochada e irônica que fosse, dominava muito bem.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
Velian: No Limite do Vazio
Nos últimos meses, Velian entregou-se a um jogo silencioso de morte e desejo nos becos e esquinas da Fortaleza. Sua fome de sangue, antes um ritual…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Nos últimos meses, Velian entregou-se a um jogo silencioso de morte e desejo nos becos e esquinas da Fortaleza. Sua fome de sangue, antes um ritual de prazer e sobrevivência, tornara-se algo mais sombrio e impulsivo. Ele matava mais que o necessário, mas nunca de forma descuidada. Como um predador meticuloso, seduzia homens e mulheres com sua presença magnética, arrastando-os para noites de prazer e promessa, apenas para desaparecer sem deixar vestígios. Para alguns, deixava apenas um vácuo insuportável de paixão não correspondida; para outros, um destino mais definitivo, corpos drenados em quartos de motéis baratos, em vielas abafadas ou em apartamentos frios onde apenas o cheiro do sangue indicava que algo terrível havia acontecido.
Ele queria se sentir vivo, queria encontrar sentido em sua fome, em seu jogo de sedução e destruição, mas tudo o que encontrava era mais vazio. A paixão ardente dos amantes logo se tornava uma poeira esquecida, o terror dos moribundos se dissipava na banalidade da rotina da cidade. O caos que ele causava não lhe trazia nenhuma epifania, apenas uma sensação crescente de que estava fugindo de algo que nem mesmo compreendia.
Numa noite particularmente abafada, Velian se viu em seu quarto, um refúgio de sombras e silêncio, onde apenas a cidade distante, viva e indiferente, pulsava lá fora. Sentia-se cansado, exausto de sua própria existência. Estava farto das promessas de prazer e do gosto do sangue quente. Farto da imortalidade que não lhe trazia respostas, apenas mais perguntas sem solução. Ele se deitou dentro de seu caixão, não para descansar, mas para escapar.
Então, o chamado veio.
Ele sentiu o ar mudar, a realidade tremer. A grande cidade de Fortaleza ficou para trás, e, quando abriu os olhos novamente, estava no Castelo Drácula, envolto em névoa e frio. Os ventos obscuros rugiam contra as muralhas ancestrais, e flocos de neve dançavam no ar gélido, trazendo uma sensação de deslocamento impossível. O tempo havia se partido. O mundo, por um instante, parecia outra coisa, algo entre o real e o inexistente.
Ele caminhou lentamente pelos corredores da fortaleza até os portões exteriores, onde encontrou um mundo que não deveria estar ali. Casas estendiam-se ao horizonte, como se um lapso do tempo e do espaço tivesse arrastado toda uma civilização para dentro do limiar do Castelo. E foi ali, no meio desse cenário de distorção e silêncio, que a viu.
Uma mulher de manto negro, segurando um cajado de carvalho com uma pedra negra incrustada na voluta, guiava um pequeno rebanho de cabras negras. Seus olhos refletiam algo ancestral, algo que Velian não sabia nomear. Ela não parecia pertencer a esse mundo, mas tampouco destoava dele. Algo em seus olhos lhe diziam que ela conhecia a natureza vampírica, mas também não era um deles, parecia ser também uma magista poderosa e Velian já tinha conhecido bruxas e magistas grandiosas, mas era algo que não só dominava, mas que parecia possuir toda a magia conhecida e desconhecida do universo. Ela era como uma sombra que sempre estivera ali, pairando, apenas esperando que ele a notasse.
Ele se aproximou, sentindo um misto de irritação e fascínio.
— Quem é você? — Sua voz era baixa, arrastada, como se cada palavra fosse um peso que carregava há séculos.
A mulher ergueu os olhos para ele e sorriu levemente, um sorriso que era tão antigo quanto a noite.
— Sou a pergunta que nunca terá resposta, Velian.
Ele sentiu um arrepio percorrer seu corpo, não de medo, mas de algo mais profundo, um reconhecimento involuntário. Por meio de suas várias leituras ao longo dos anos sobre mitologias, deusas e deuses antigos, parecia que o vampiro estava diante da deusa da própria noite, conhecida pelos gregos pelo nome de Nix, uma deusa que até o própria Zeus temia. Mas Velian desejou continuar o diálogo com esse ser tão desconhecido, primordial e poderoso e em seu tom desafiador, crítico e sarcástico de vampiro secular respondeu:
— Eu já tive todas as respostas — murmurou, desviando como o olhar. — Mas nenhuma delas valeu de nada.
— Porque você fez as perguntas erradas.
O vampiro soltou uma risada irônica e amarga.
— Então me diga, qual é a pergunta certa?
A mulher tocou o cajado no chão, e a realidade ao redor deles pareceu oscilar, como se estivessem flutuando entre mundos.
— Por que você continua?
Velian ficou em silêncio.
— Você bebe sangue para sobreviver, mas não sente mais prazer nisso. Seduz humanos, mas não se importa com eles. Provoca paixões e abandona-as, mas isso não preenche nada. Mata, mas a morte se tornou banal. Então, por que você continua?
Ele sentiu a irritação crescer dentro de si.
— Porque não há outra opção. Eu existo, e essa existência tem um preço.
— Mas quem lhe disse que você precisa pagar esse preço assim?
O silêncio caiu entre eles. A mulher parecia esperá-lo chegar a uma conclusão por si mesmo.
Velian respirou fundo, um hábito humano que ele nunca abandonara.
— Eu sinto... como se estivesse abandonado pelo próprio universo. Como se nada importasse. Mas eu não quero desaparecer.
A mulher assentiu.
— É essa a verdade. Você não quer desaparecer. Você tem medo do vazio, mas também tem medo da existência. Então fica preso na dúvida, na monotonia, na repetição. Mas as dúvidas são sua única salvação.
Ele olhou para ela com um misto de desconfiança e curiosidade.
— Por que você diz isso?
— Porque são as dúvidas que o fazem continuar. O desejo morre, o prazer desaparece, as paixões são efêmeras. Mas a dúvida... essa nunca o abandona. É ela que o mantém de pé, mesmo quando você acredita que não há mais sentido. É ela que o faz buscar algo, mesmo sem saber o quê.
Velian sentiu um frio estranho percorrer seu corpo. Havia algo certo nas palavras dela. Algo incômodo, mas verdadeiro.
— Eu achei que espalhar caos e destruição me fizesse sentir vivo — admitiu, quase para si mesmo.
— Mas só o deixou mais vazio.
— Sim.
A mulher se aproximou, sua voz tornando-se um sussurro antigo, um eco de algo perdido no tempo.
— Então, pare de buscar sentido em fins e comece a buscar sentido no próprio caminho.
Velian sentiu um peso deixar seu peito, mas não sabia o que isso significava. Ele olhou para a mulher, mas ela já estava se afastando, desaparecendo na névoa.
— Espere. Quem é você, de verdade?
Ela virou-se uma última vez, e seus olhos brilharam como estrelas distantes.
— Eu sou o que você sempre soube, mas nunca quis aceitar.
E então, ela sumiu.
O Castelo Drácula retornou ao seu estado habitual, e Velian sentiu-se sozinho novamente. Mas, desta vez, a solidão parecia diferente. Ele não sabia explicar o que havia aprendido, mas sabia que algo dentro dele havia mudado.
Velian voltou para seu quarto, na cidade de Fortaleza, nordeste do Brasil e lembrou por que decidiu habitar ali, os costumes nordestinos e cearenses eram hilários, engraçados e as pessoas eram mais simpáticas e possuíam um animo para a vida diária que o fascinava, diferente da frieza europeia, e isso o despertou por um tempo, mas o vampiro também percebeu a pouca força, consciência e vontade de organização social para enfrentar problemas coletivos que a raça humana enfrentava ali naquela região e isso junto de todas as mazelas que já existiam também na antiga Europa e em outras partes do mundo.
Assim, mais uma vez, o vampiro entendeu seu tédio, sua chateação e medo do vasto mundo que parecia não parar de crescer de forma caótica sem uma finalidade e um sentido e Velian percebeu o quando ainda se apegava a essa ideia mortal de sentido e de coerência no vasto mundo e decidiu dormir um sono longo. Não porque estivesse cansado, mas porque precisava de introspecção. Apenas o Castelo poderia acalentá-lo, e ele esperaria até que fosse chamado novamente.
E, enquanto o vento soprava lá fora, trazendo consigo os sussurros da noite, Velian fechou os olhos, mergulhando na escuridão não apenas de seu quarto e seu caixão, mas também de seus próprios pensamentos.
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…