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Delírio Azul

Hoje o luar está sereno, porém com um fenecimento visível, como quem dá razão ao meu padecer. Sei que isso se dá pelo fato de eu ter perdido…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Hoje o luar está sereno, porém com um fenecimento visível, como quem dá razão ao meu padecer. Sei que isso se dá pelo fato de eu ter perdido aquele para a morte. Uma música triste pode tocar no interno dos meus ouvidos — aquela música que nós ouvimos aqui mesmo nesta pilastra onde estou sutilmente encostada.

A lua tem um tom cobalto ao seu redor e está imersa nas alturas, como se flutuasse num céu em tom marinho. As nuvens passeiam vagarosas e provocativas, me fazendo flutuar em pensamentos que são suficientes para que a primeira lágrima caia dos meus olhos.

Quando a minha lágrima cai, a doce e rouca voz sussurra em minha mente:

“Vês, estimada Nathállia, o céu azul. As nuvens passeiam claras e pacientes, enquanto a lua ilumina e nos encoraja a amar.”

Suspiro forte, ao ponto de sentir o meu vestido vitoriano apertando firme o meu busto. Por que não estás, Pierre? Por que não estás mais? A sua morte me dói, convidando-me, também, a fenecer com ele.

Lembro-me das manhãs em que ele me despertava da janela barroca do meu quarto, das tardes em que íamos tomar um banho de rio, escondidos, sem nunca nos tocarmos. E a noite? Era aqui mesmo onde admirávamos a tal lua. Lua maldita — me faz lembrar dele toda vez em que ela surge. Esse anil do luar é o que mais me mata. Anil é a cor que Pierre usava nos bailes onde valsamos por saudosos anos.

De tanto refletir na dor dessa perda, encosto a minha cabeça na pilastra e sento-me na baixa balaustrada, quando sinto em meu ombro a suave mão, a tão carinhosa mão... Será Pierre? Sorrio. Sorrio e olho para trás, mas é apenas a candura de Marta, que vem me recolher do grande pátio.

— Senhorita, precisa descansar. — Marta me acaricia o ombro, de maneira carinhosa. — Eu sinto em lhe dizer: O jovem Pierre não vem. Ele não vai voltar, senhorita. 

Marta sabe que nas noites de lua sempre venho o esperar... sempre. Engulo seco e quando quase me conformo, a enfrento:

— Ele vai voltar, sim! Nem que eu precise morrer para encontrar-me com ele. Nem que eu finja que ele está aqui. Nem que eu sonhe com ele todas as noites. — Caminhamos até o meu quarto enquanto me perco no que eu digo. — Ele era o meu melhor amigo, ele era mais que um amigo, ele era...

— O seu amor, não era? — Pergunta sorrindo leve.

— Era não. É. Pierre É o meu amor! E sempre vai ser.

Deito-me, como a única alternativa.

— A senhorita não vai se trocar? Vestir um damanoute para dormir...

— Não quero. Eu quero dormir assim, do jeito que eu costumava ficar na presença dele.

Marta não diz mais nada. Pede licença e se retira do meu quarto. Do meu dossel, a maldita lua, a bendita lua, lumiando o meu quarto e me trazendo a sensação de estar sendo tocada por Pierre. Sim, eu o sinto. E posso ouvir a sua voz grave e serena agora.

“Estou aqui, minha estimada Nathállia. Eu sempre estarei aqui no gélido anoitecer e no azul do luar. Estarei vertendo em tua face, junto às tuas lágrimas azuis que vertem agora.”

Constato dois fatos: eu enlouqueci e consegui acessar o mundo do outro lado onde o meu eterno estimado está. O seu corpo é esbelto, forte e, vestido em trajes clássicas, ele me segura contra o seu torso, acarinhando-me a face e os cabelos. E o frio da noite nos faz ficarmos mui próximos e aquecidos, envoltos aos lençóis do meu espaçoso dossel. 

ASelenoor que acontece na região é raro. E é isso que me conforta. Porque a noite é perpétua, bem como a lua tão anil que me proporciona o melhor delírio real com o meu Pierre, e que nunca mais irá se findar.

Texto publicado na 6ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de junho de 2024. → Ler edição completa
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Blog da Carmen

Olá, meu nome é Carmen! Apenas Carmem! Venho de uma cidade que morei por alguns meses com o meu marido. Eu não tive pais, não sei muito bem como…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Olá, meu nome é Carmen! Apenas Carmem!

Venho de uma cidade que morei por alguns meses com o meu marido. Eu não tive pais, não sei muito bem como vim ao mundo. Talvez eu seja fruto da imaginação de algum ser sobrenatural, mas prefiro pensar que sou apenas uma pessoa comum. Morei um tempo na roça e não tenho mais o sotaque mas “Ôh trem bão” que era viver naquela zona rural. Quando conheci o meu marido, primeiro e único namorado. Fomos direto morar na cidade. Ele era um empresário renomado e nossa vida até que era boa. Eu não podia dar um filho para ele, meu útero veio com defeito de fábrica, ou será que é sobrenatural que nem a existência dos que me tiveram? 

Gostávamos muito de viajar e alguns amigos dele nos indicaram uma cidadezinha que ficava na fronteira de um bendito lugar que eu não faço a menor ideia como eles descobriram um lugar como aquele. A cidade não morava ninguém, tinham evacuado as pessoas, mas mantinham tudo abastecido. Não tinha bichos na rua, as casas estavam todas fechadas, como se todos os vizinhos realmente tivessem se mudado. Eles disseram para ele, o meu marido, que na cidadezinha tinha algo interessante e que nos ia ensinar umas novas aventuras.

Aceitamos a empreitada e fomos só com a nossa mala de sempre, com data prevista para passar uns dois meses e desfrutar ao máximo o que aquele lugar pudesse nos oferecer.

Quando chegamos lá, estava exatamente do jeito que eu falei anteriormente, só que os mercados eram o único lugar aberto. Não tinha como fazer reserva de um lugar para ficar, apenas chegamos e nos alojamos na única casa aberta. A cor da frente da casa me chamou atenção de longe. O vermelho carmim e as portas da mesma cor, com duas janelinhas abertas sem cortina e sem persianas. Ao entrar no recinto, a mobília até que era agradável, os móveis antigos pareciam recém-restaurados, acho que o antigo dono vinha passar uma demão de verniz para mantê-los daquela forma. Ou só estou sendo matuta a cogitar isso. 

A casa tinha dois quartos, apenas com andar térreo, apenas um banheiro, cozinha, sala e jantar. Fomos às compras no mesmo dia e ao chegar no mercado era pegar o que queria que estava tudo certo. 

Nossa rotina consistia em tentar abrir as casas vizinhas, entrar no shopping da cidade que estava aberto, mas as lojas não. Apenas a praça da alimentação e lá tinha tudo dos cardápios expostos e prontos. Meu marido comia de tudo um pouco, voltávamos para a casinha e dormimos. E foi assim por quinze dias seguidos, eu não estava cansada, porque eu queria agradar ele. 

No décimo sexto dia, meu marido acordou empachado com toda a comida, e ele havia ganhado uns quilinhos a mais desde que viemos para cá, meus cabelos vermelho cor de sangue, precisavam de um retoque. Quando ele levantou para usar o banheiro, lá estava eu pintando as madeixas, quando ele me cobrou sobre a minha “regra”, se já havia descido. Achei esquisito ele perguntar, pois, o mesmo nunca se importou, assim como ele já sabia da minha esterilidade. 

De repente ele aumentou a entonação como nunca fizera antes nesse tempo de casados. Me cobrou persistentemente pela minha regra, até que desci a calcinha e mostrei o absorvente de pano que eu usava com meu sangue. Com as mãos sujas de tinta, parecia uma cena de crime, tudo vermelho, meu marido enfiou a mão no meu órgão e enfiou meu catamênio pela boca. Sem direito de falar, eu engoli a força algo tão íntimo e repulsivo para alguns. Após o ocorrido, perguntei porque ele fizera isso.

Sua resposta, que não fora nada convincente, ousou dar a desculpa que o sangue da mulher nutre, assim como o sagrado feminino, ele quis impor a mim que meu sangue iria deixar meu útero fértil. E assim me cobrou todos os dias de “chico” para que a cena se repetisse. Fiz com gosto, porque acreditei que sua fé poderia me causar algum fio de esperança e como agradá-lo era meu maior feitio como esposa, fiz tudo calada. 

Chegamos no nosso segundo mês naquela cidadezinha silenciosa, que o maior som era do nosso mastigar quando íamos ao shopping. Meu marido já tinha engordado bastante e eu fiquei feliz por ele estar feliz nesse lugar a sós comigo. 

Precisei retocar o cabelo novamente e com isso a regra desceu junto. Eu não estava grávida e mais uma vez meu marido insistiu para eu fazer o mesmo do mês passado. Fiz tudo calada e a rotina seguia do mesmo jeito todos os dias. Como num loop de clipes repetidos, eu estava vivenciando a mesma coisa, exceto quando estava de chico.

Nossa estadia perdurou e meu marido não parava de comer, e eu não ficava grávida, até que um belo dia eu acordei querendo uma nova aventura, segui minha curiosidade e fiz alguns testes com a minha regra do nosso nono mês nessa cidade pacata e farta. Coloquei meu fluxo na bebida do meu marido, o gosto não era ruim, era sangue, não tinha cheiro, afinal eu usava apenas paninhos de algodão, a química do absorvente descartável que dava o odor. 

Quando ele bebeu o suco, não reclamou de nada. Fiquei calada e quando ele dormiu, decidi enfiar um pouco na boca dele enquanto dormia. Ele acordou no outro dia sentindo dores fortes e eu com o chico acabando. Já estava cansada daquele lugar. Ele queria permanecer, mas esse vício na minha regra de me cobrar mensalmente estava me deixando assustada. Parecia um caso de monomania.  

Decidimos voltar para casa devido às dores dele, que foram aumentando de acordo com que íamos chegando em outra cidade. Ao chegar no primeiro hospital que vi, o médico deu o parecer que meu marido estava sentindo contrações. Perguntei se era devido ao fato dele ter adquirido 50 quilos a mais desde que viajamos para a casinha vermelha e o doutor disse que essas contrações eram iguais a uma gestação.

Não pude crer quando ele falou isso. Afinal, meu sangue era fértil, só que nutriu o solo errado. As dores foram intensas e meu marido não resistiu. Eu voltei para casa e meu luto foi passageiro, agora voltei a ser a Carmen, apenas Carmen e criei esse blog. 

Texto publicado na 6ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de junho de 2024. → Ler edição completa
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Escrito por Morgana Mortem, -Contos Castelo Drácula Escrito por Morgana Mortem, -Contos Castelo Drácula

Os Fantasmas na Tenebra de Minha Alma

A morte… sob a soturna treva que se sepulta no lúgubre ar, contemplo eu a morte. Morrer, por fim, parece-me a…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

A morte… sob a soturna treva que se sepulta no lúgubre ar, contemplo eu a morte.

Morrer, por fim, parece-me a resolução mais sensata para as funestas torturas que acometem meu miserável ser; sim, morreria, pois, somente entregando-me ao submundo, somente repousando no gélido de um mausoléu arcaico, poderia idealizar o recuperar de minha calmaria há muitas épocas dissipada por entre as nuvens da obscuridade que tudo consome. Como angustio, ansiando que a Morte roubasse-me o último suspiro de vida! À morte, rogo que me usurpe desta minha angústia, ainda que me encontre no mármore mais profundo do inferno! 

Vós, cujos espíritos conservam a sanidade racional, não podeis compreender-me, sem embargo, ao tempo em que redijo meus infortúnios à negra tinta e à caligrafia de uma pena de corvo nesta memória amaldiçoada, concedo-me a lamúria de relatar-vos os fatos, as reminiscências ominosas que me fazem, no desafortunado presente, aspirar ao caráter putrefato de minha morte. 

Minha alma, há tantos invernos, afligiu-se, atormentando-se por visões hórridas, as quais homem nenhum é apto a idealizar, se não pela ação do próprio Diabo. O mal, o pior dos males, rasteja por meu ser, como uma víbora, envenenando-me com imagens e sensações provindas das profundezas do abismo eterno de pecadores. O horror assombra-me, e, eu, a miserável eu, ambiciono somente por uma madrugada onde não mais os espíritos e demônios arruínem-me, em uma ocasião de crepúsculo em que possa, mesmo que em túmulo álgido e ausente de vida, descansar sem sofrer pelos murmúrios agonizantes que provém da eternidade perversa. Meus terrores não apresentam causa ou razão, há somente o caráter detestável, que, com seus aspectos tenebrosos, dilacera minha fleuma e distancia-me de uma boa mente sóbria; o que sou, nesta terrível contemporaneidade, é somente um reflexo esquelético do que um dia fora, um cadáver cujo sangue é ainda infernalmente cálido. Não, não só me sinto assombrada, como bem sei que, os infernos contemplados por meus negros olhos em todo o anoitecer em que a paz é-me arrebatada, apresentam-se como mais que os meros devaneios quiméricos de uma mente ardente em delírios.

Por efeito de meus próprios terrores, disponho de uma parca memória, gravemente tênue, que é incapaz de recordar-me mesmo de minhas mais estimadas lembranças, no entanto, em prol da coesão desta narrativa, empenho-me, apesar de meus sentidos debilitados, para lembrar-me de motivos e datas. Com um tom dúbio, ocultado pela névoa cinza de meus pensamentos, tenho a vaga recordação de enfraquecer-me por esta maldição de horror posteriormente ao abandonar de meu pretérito lar, em um outono de brisas uivantes em que empreendi uma longa viagem até a solitude das posses de minha estimada tia, a qual assisti até os derradeiros dias de sua enfermidade que, ao fim, em um anoitecer mudo como este, roubou-lhe a vida, levando-a ao seu sepulcro. Ulteriormente à tal fatalidade, que, com suficiência, já debilitava meus nervos, conservei-me nas dependências da arcaica residência que há gerações acolhe todos àqueles aos quais compartilho meu sangue; todos repousam no cemitério deste recinto e eu, esta débil herdeira, também enterrar-me-ei nesta terra maldita. E, nesta decisão mal refletida, reside minha dolorosa sina, que me condena a ser horrorizada pelo próprio anjo das trevas, para todo o sempre…

Nesta casa mal-aventurada, construída em meio à melancolia e infelicidade, há a solidão taciturna e somente esta; à parte de minha alma só, existem apenas os fantasmas, cuja intenção é arrastar-me até o mesmo inferno em que habitam. Por entre as galerias consumidas pela quietude sombria, vivo eu, contemplando minha tragédia que não há de ser contada pelas cores e nuances vívidos de um talentoso pintor, um homem de artes que desenharia meu drama na harmonia de um afresco. Nestes umbrais que bradam, na maré contrária às arfadas exorbitantes de um vento intenso, observo eu o horizonte sinistro que acolhe o exterior, questionando-me se mesmo na estranheza bucólica do mundo externo seria eu perturbada por estes espíritos agourentos que suporto em minha sombra. Todavia, mesmo no aquém da soledade de meu exílio turbulento, o medo oculta-se; em todo o desconhecido que se esconde nos vale de um verde pálido, na dura natureza intocável das colinas varridas pela brisa sazonal, nos ferozes lagos de águas turvas que abraçam os entornos da propriedade. Para além da fortaleza corroída por monstros, descansa a paisagem desolada, ausente de um só homem vivo, que, por certo, complementa-se às desgraças das ruínas desta casa. 

Em minhas dependências pessoais, o terror constrói sua morada, morosamente, pois toda aflição é mais sentida quando a dor apresenta-se toda fiel noite; a maldade detém de sua própria sabedoria, não sem razão todo cálice de toxinas é melhor empregado como ferramenta de assassinato quando ministrado em pequenas doses, vós os sabeis melhor. E é neste mesmo leito, sufocada pela escuridão, que morro eu. O entardecer, o ocaso de tons cobres, que carrega o astro solar para o véu do horizonte, havia sido de grandes lamentações; quando as antigas pedras que erguem estes muros ainda acolhiam o cintilar diurno, tremia eu, ponderando sobre o que havia de passar-se quando a penumbra se fizesse minha só companhia. Meus dias têm passado-se em tais queixas silenciosas, que alimentam os pavores da psique fraca. Quando ainda há claridade, sinto-me em grande molesta, receando, mortalmente, o cair da noite, pois são nas sombras obscuras que os espíritos arrastam-se.

Inevitável, não obstante, é o regresso do escurecer. Destarte, recebo as agourentas novas do cenário noturno, com as mesmas desventuras que trucidam minhas vísceras como se fossem já um hábito. Em minha mortalha, onde zelo por minhas dores intensificadas perante meus presságios ruins, meus olhos veem-se incapazes de exercer o mero ato de fechar-se. Não há repouso para esta alma maldita, que não é apta a encontrar, no conforto de sua cama, o sossego da sonolência trazida pelas harpas divinas. Assim, desperta, não há empecilho para tudo que há de maligno visitar-me. Nesta insônia febril, suscitam-se, por minha consciência que se recusa a descansar, os piores delírios; padecimento, cólera, mágoa, ressentimento… Quando, por misericórdia de meus vilões, entrego-me aos braços de Morfeu, o maligno, também em sua própria hibernação, desadormece, aguardando-me para mais um período de terríveis visões.

Há apenas o escuro breu; diante de meu ser retraído, tudo é preto, pintado à escuridão que amedronta. Ainda que minhas pálpebras movam-se e busque eu, em vão, por uma fonte de luz, nada existe além de minhas entranhas e o vazio que sufoca. Em meu coração, sentimentos de ânsia intensificam-se, como uma febre irritante para os nervos, formigante para as mãos trêmulas e delirante para com o cérebro adoentado. Gélida, tal qual o inverno mais ferrenho nos alpes, suspiram minhas respirações entrecortadas, gravemente descompassadas, apressando-se e encurtando-se, fazendo do alçar e retrair de meus pulmões um ato quase taquicardíaco. Lágrimas carmesins derramam-se de meus lábios, que se oprimem até que o aroma de ferro propague-se no ar e a cor sanguínea manche toda a vida existente. Como presença constante de minha apreensão, tremores terríveis alastram-se por toda minha constituição, fazendo-me um esqueleto vacilante, incapaz de movimentar-se com clareza por seus críticos arrepios. De súbito, um pálido e bruxuleante cintilar contempla minha visão; o brilho que observo perante meus olhos fatigados é débil, tal qual minha própria saúde, impossibilitando-me de contemplar todo o quadro em meu derredor. Brevemente, experimento o perfume de brancos botões-de-ouro e dourados lírios, que me abraçam com seu frescor dos límpidos riachos de primavera. Por um minuto de hora, sinto-me diante da placidez calma, estudando o aroma de flores reconfortante e olvidando-me de quaisquer matérias terrenas. Entretanto, a paz que recai sobre meu ser mundano é, rapidamente, furtada pela personificação do desespero. Em meu cerne, uma cólica atroz grita, esbraveja, troveja desde meu coração até a última veia de sangue em meu corpo. O desconforto invade-me e logo arfo, ofegante em completa exasperação; os respiros de ar faltam-me, ao passo em que meus pulmões recobrem-me de algo que intoxica. Clamo, clamo aos céus e ao inferno para que me auxiliem, no entanto, nem mesmo a mais cândida prece salva-me. E, perante o desalento que me imerge, rendo-me ao meu último suspiro que me encaminha para as sombras…

Abruptamente, é já a madrugada maldita quando, por santo ou diabo, recobro meus sentidos e amanheço de meus tenebrosos sonhos ruins. No entanto, mesmo o recuperar de minhas boas respirações não faz-se suficiente para repor meus pobres nervos pois, com o temor de uma consciência acostumada a tais acontecimentos, a peça que encenar-se-á no anfiteatro do inferno é uma tragédia na qual esta atriz já não mais deseja atuar. Desgraçadamente, sem embargo, tal resolução não é-me concedida e, assim, sucumbo aos males de toda a madrugada. Então, em meu detestável derredor, o entendimento é apenas a penumbra, a escuridão; trevas e mais trevas ameaçam-me. Como sentir-se acolhida pelas sombras? É uma questão tola, que não dispõe de respostas sábias. Nos aposentos do inferno, a noite é sépia, de um ébano carvão como o sangue de um de seus diabólicos filhos. Entre a mudez das chamas ardentes do mármore e a infernal melodia da mudez que assassina, pouco há, além da escuridão. Somente a escuridão, e nada mais. 

Lânguido vermelho, profundo preto da obscuridade, fantasmagórico branco de vultos. Inevitáveis, estes últimos torturam-me com as suas súbitas aparições. Aquelas malditas figuras tortuosas, desprovidas de contornos corretos, sobrevoam os entornos de meu leito como uma eterna maldição. Fantasmas de aspecto lívido perturbam-me, bailando em escárnio por cima de minha cabeça, tonteando-me com seus movimentos descoordenados e executados para causar-me tais enxaquecas. Esqueletos, grandes esqueletos desprovidos de órgãos, mas de cadavéricas bocas de dentições afiadas, que ferroam repetidamente, mastigando ossos e pedras ao pé de seus ouvidos já danificados. Suas largas bocas expõem suas horrendas línguas espectrais, fazendo graças e zombarias com a face de desgosto de meu ser infausto. Estas criaturas de Belzebus, pintam-se em um branco maldito, tal qual o cloro mais ácido, cloro este que anseio poder tragar, para que a morte liberte-me. Nesta dança da morte, rangem e remoem ossos, cantando em estridentes uivos transtornantes. E tais diabólicas figuras nunca apresentam-se sós, é uma certeza que minha mente debilitada adquiriu de experiências passadas. São estas somente a entrada para um horrendo prato principal.

E, em um ímpeto, manifesta-se o Diabo, o próprio Diabo! Por todas minhas maldições, sangram meus tímpanos, que se lastimam com a soada progressiva, arrastada, que cresce desde a entrada de meu quarto. Como passos estridentes, esta toada infernal rasteja, sempre mais alta e mais próxima. Para a minha miserável eu, resta somente encolher-me, aguardando, em prantos, que o perverso arruíne-me. Em meio ao vento que ameaça arrebatar-se contra os vitrais e persianas, o timbre de um arranhar surge, ferindo tal qual a lâmina de um punhal; é o dilacerar minucioso de algo, e temo eu, que este seja minha carcaça prestes a apodrecer em meio aos vermes da terra pútrida. Logo, o pesadelo de ruídos torna-se um espetáculo, rompendo em tragédias que me cegam. Por entre as nuances da completa penumbra, uma cena maldita gargalha perante meu drama; tardia, a aparição tenebrosa desloca-se, com o desgosto de um ente do submundo. Entre lágrimas de horror, contemplo as garras ausentes de um corpo, de uma matéria viva, que caminham nas sombras, somente nas sombras, deslizando sua entidade desgraçada nas paredes da extensão de todo o cômodo. Estas mãos, mãos de monstruosas garras afiadas, procuram por meu corpo, procuram por minhas lesões, procuram golpear-me. Navalhas, terríveis navalhas, suspendem-se sob meu crânio! Então, estas garras prendem-me!  

Por meus demônios, hostilizo-me! Em meu desespero crescente, por alguma entidade sacra, sou capaz de desvencilhar-me, apressando-me a abandonar meus aposentos. Ausente do equilíbrio lógico para sequer dar-me conta de meus arredores, percorro, em meio ao escuro, os corredores negros, onde risadas diabólicas acompanham minha peregrinação rumo à morte. Torres em pedra, escadas em caracol, frestas em arcos, rosáceas, bustos em bronze, pinturas de um sangue amaldiçoado; abandono a tudo que existe no velho castelo para libertar-me. Quando aproximo-me do grande portal em abóbada cercado por duas torres, não há alívio em minha essência, apenas apresso-me, segura de não regressar, se não morta, ao mundo maldito que habita na fortaleza desta abadia ominosa. Posterior a mim, bem sei que o mal persegue-me, sedento por meu sangue infeliz. 

Contudo, quando meus passos errantes traçam sua fuga sob a ponte arqueada de pedregulhos, congelo no instante, presa, por alguma razão, nas águas escuras abaixo de meus pés. Sob um véu azulado de neblina, o lago fita-me de volta e, de improviso, uma tempestade banha-me, como um dilúvio de memórias invadindo meus pensamentos soturnos. Minhas reflexões melancólicas, meus anseios tenebrosos, as flores, minhas vestes molhadas, minha face desbotada de vida… contemplando as águas, compreendo uma terrível resolução. Ante o abrigo das águas, meu reflexo é inexistente, minha imagem é desconhecida, meu ser não é presente neste plano; sempre estivera morta.

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Escrito por Alex Miranda, -Contos Alex Miranda Escrito por Alex Miranda, -Contos Alex Miranda

Capítulo 1: Desventuras (Parte 2) — Darquinha

O verdadeiro nome de Pai Thomas, ninguém sabia ao certo, muito menos qual era sua origem verdadeira…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

O verdadeiro nome de Pai Thomas, ninguém sabia ao certo, muito menos qual era sua origem verdadeira. Talvez nem mesmo sua própria filha soubesse verdadeiramente de onde ele viera ou que tipo de pessoa seu pai realmente fosse. Sua história anterior ao dia em que chegou por aquelas bandas era, na verdade, um completo mistério para todos, até mesmo para seus vizinhos mais próximos. Entretanto, mesmo que uma espessa sombra recaísse sobre sua verdadeira origem, desde que, há muitos anos, se estabelecera naquela erma e pacata região, num primeiro momento como o simples e descontraído chapeleiro Thomas, acompanhado de sua simpática esposa — a jovem e bela Darquinha — e sua velha e sombria tia — a taciturna cigana Madame Staell — e posteriormente, após a trágica morte da esposa, tornando-se o afamado e temido curandeiro Pai Thomas, mesmo que de forma involuntária, na maioria das vezes conseguira cultivar diversos sentimentos dissonantes sobre si mesmo. Se, por um lado, alguns logo se simpatizavam muito com ele, por simples adulação ou mesmo por gratidão devido a alguma benesse recebida, seja ela uma simples bênção ou até mesmo a cura de algum mal dado como irremediável, outros, no entanto, sentiam até mesmo certa repugnância por sua simples presença, que se demonstrava por demais sinistra e até mesmo ameaçadora de certo ponto de vista, se assim ele o desejasse. Em todo caso, o que era consenso era o quanto ele era respeitado por todos sem exceção, fosse por medo ou mera admiração por sua peculiar personalidade.

A simples menção ao seu nome trazia em si certo desconforto e até mesmo um velado temor. Esse sentimento não era de todo vazio e muito menos exagerado. Todos que o conheciam, mesmo que apenas por nome, e que conheciam as histórias contadas sobre ele e seus extraordinários dons de cura, mas principalmente de sua sombria sabedoria, sabiam que sua fama precedia, e muito, sua presença. Na maioria das vezes, quando em profundo desespero e sem nenhuma alternativa, sempre que alguém o procurava para uma simples prece, talvez um conselho, ou até mesmo para algo um pouco mais sério, de alguma forma um tanto quanto sinistra e bastante misteriosa, ele já sabia do que se tratava, bem antes de qualquer coisa ser proferida sobre o assunto em questão, mesmo que fosse algo da mais profunda intimidade, que somente o solicitante soubesse. Não era apenas esse tipo de comportamento que atemorizava a todos; sua estranha aparência, de certa forma, era inquietante e muito assustadora para os padrões normais.

Pai Thomas era um homem de estatura física um tanto quanto fora do comum para os padrões normais. De certo modo, às vezes era até mesmo inconveniente, pois chegava ao ponto de fazer com que mesmo os homens mais altos da região, ao estarem em sua presença e precisarem olhar em seus olhos para lhe dirigir a palavra de forma mais direta, tivessem que olhar para cima, estando ambos de pé. Quando tal fato se tornava indispensavelmente necessário, isso era bastante inquietante. Além do fato de haver a crença de que Pai Thomas conseguia desvendar todas as intimidades e segredos através dos olhos de quem ele olhasse, a visão de seus próprios olhos era aterradora, pois a cor que outrora, possivelmente foram negros e brilhantes, nos últimos tempos havia se tornado opaca e acinzentada como uma fria manhã de inverno. O certo é que o cinza em seus olhos era a ação do tempo sobre si. Contudo, vez por outra, aparecia alguém que seria capaz de jurar pelo sangue do cordeiro que, qualquer um que olhasse em seus olhos por muito tempo, conseguiria observar que mudavam de cor em determinadas circunstâncias, principalmente quando ele estava fazendo uma prece. Dependendo da prece, a cor de seus olhos transitava de cinza para um azul, passando por violeta e, por fim, chegando a um vermelho intenso, retornando ao cinza sem brilho ao final da prece.

Era ele um homem negro e bastante robusto, mesmo que seus cabelos e barba, já completamente brancos como algodão, demonstrassem uma idade bastante avançada. Havia rumores de que, depois da morte de sua esposa, ele envelhecera muito rapidamente devido à dor da perda. Em questão de meses — alguns dizem que foi em poucos dias — seus cabelos e barba, que eram negros e cheios de vida, ficaram brancos e sem vida como num passe de mágica. Sendo um homem bastante alto, todo o seu corpo era proporcional à sua altura; assim, seus membros também tinham um tamanho incomum. Suas mãos eram assustadoramente enormes, com dedos longos e esbranquiçados. Devido ao contraste com sua pele extremamente negra, as palmas de suas mãos eram brancas como leite fresco. Se seus olhos por si só já denotavam pavor a quem quer que os encarasse, suas mãos não eram diferentes, pois era justamente com essas monstruosas mãos que ele executava suas preces e benzimentos — ou, no dizer da raia miúda: “fazia suas mandingas”. Quando ele levantava aqueles enormes membros sobre a fronte de alguém para conceder uma bênção, suas mãos causavam uma espécie de sombra no rosto dessa pessoa, provocando momentaneamente uma inquietante sensação de mal-estar. Alguns — obviamente longe de sua presença — até mesmo ousavam relatar que, no exato momento em que estavam recebendo a prece, havia uma estranha e inexplicável sensação de se encontrarem em algum outro local bem distante dali, um lugar sombrio e horripilante, carregado de certa melancolia e completamente dominado pelas trevas. Era notoriamente evidente que aquele que estava sendo abençoado só poderia imaginar tal coisa ao dizer que via uma inquietante escuridão, pois para receber uma bênção de Pai Thomás, a pessoa deveria fechar os olhos e abrir sua mente e seu coração naquele momento. Condição essa na qual o velho mago era bastante taxativo. Dizia ele: “Feche bem os seus olhos e abra completamente o seu coração para receber de graça essa bênção requerida, sem nada dar em troca em seguida...”.

Pai Thomás, além de poderoso e respeitado benzedor, era um sábio conselheiro e também bastante versado no preparo de emplastos, beberagens e eficientes garrafadas, capazes de curar qualquer tipo de moléstia, fosse essa física — doenças em geral comuns a todo ser vivente, — ou até mesmo espiritual — adquirida de forma involuntária ou encomendada. Muitas mulheres — protegidas pelo infalível nevoeiro do sigilo corroborado pela inabalável descrição de Pai Thomás — sendo elas moças de família ou meras meretrizes se encontrando em terríveis apuros maternais, constantemente o procuravam a fim de se evitar uma gestação indesejada que pudesse vira a causar uma desonra familiar ou empecilho a sua atividade profissional. Seus famosos chás contraceptivos eram infalivelmente eficazes. Havia um ditado, — falando em surdina obviamente que dizia — que dizia: “Se o desespero bateu, o chá de Pai Thomás é bebeu-desceu...”.

Para inúmeras pessoas que tinham sido agraciadas com algum tipo de benesse — fosse uma beberagem, bênção ou até mesmo um simples conselho — Pai Thomás era visto e respeitado como um ser ungido por Deus, sendo usado como instrumento em sua Divina obra. Contudo, para alguns outros, ingratos e despeitados, ele era apenas um mandingueiro trapaceiro — poderoso e temível, é verdade, mas apenas um feiticeiro a serviço das trevas, que vez por outra fazia algo extraordinário ou adivinhava uma coisa ou outra. Dentre essa mesma raia miúda, que carregavam certa repugnância ou até mesmo uma velada inveja dos inexplicáveis feitos de Pai Thomás, havia aqueles mais ousados na palavra, que defendiam a ideia de que ele tivesse um pacto com o próprio diabo, e que era por esse motivo que possuía fantásticos poderes de cura e uma vasta sabedoria, tendo conhecimento inclusive daquilo que estava abissalmente oculto, pois o príncipe das trevas sempre atendia suas preces. A verdade era que, entre tantas informações sobre sua pessoa — algumas verdadeiras, outras nem tanto — o que era de fato comprovado era que bastava um único olhar seu sobre uma plantação bem verde e viçosa para que essa se perdesse por completo, sem nada poder ser colhido, ou apenas algumas poucas palavras rumorejadas por ele, com alguns brotos de uma erva qualquer, para que uma criação à beira da morte se restabelecesse por completo e vivesse por bastante tempo, gozando de plena saúde. Havia também as histórias sobre as serpentes — e somente quem presenciou poderia acreditar — se havia uma infestação de cobras numa plantação, ou até mesmo num quintal qualquer, logo ele era chamado, e sem mais delongas, com poucas palavras e simples gestos ele resolvia a questão sem nenhuma serpente precisar ser sacrificada. Mesmo parecendo ser apenas mais um charlatão como tantos existentes por aí, em nada Pai Thomás se comparava a outros benzedores comuns, pois de forma alguma aceitava qualquer tipo de pagamento por seus feitos e, se porventura houvesse qualquer tipo de insistência, ele logo se zangava e demonstrava estar bastante ofendido. Certa vez, após tirar uma criança do leito de morte, onde todos já davam por certo uma morte iminente, o pai da criança, muito satisfeito por tal feito, quisera lhe recompensar financeiramente, o que obrigou Pai Thomás a lhe dizer de forma dura e até mesmo grosseira: “Quanto vale a vida de seu filho? De forma alguma tente avaliar aquilo que não tem preço. Eu jamais poderia cobrar qualquer valor por aquilo que é dado de graça e saiba que, se lhe fosse cobrado, certamente o seu dinheiro e suas riquezas não poderiam pagar...”.

Se por um lado sua origem verdadeira era uma tanto quanto obscura, por outro sua idade certa, também era um grande mistério. Afinal, a tendência biológica é que pessoas de pele genuinamente negra não apresentem sinais da passagem do tempo com tanta facilidade. Há até mesmo um ditado popular que diz: “O negro só pinta, depois dos cento e trinta”. Sendo verdade ou não o tal ditado, o certo era que, mesmo sendo ainda muito robusto e bastante ágil, mesmo assim, Pai Thomás já era bastante velho, fato esse corroborado, dentre outros fatores, pela cor de seus cabelos e da barba branca que trazia sempre muito bem aparados, mas principalmente pela quantidade de cicatrizes que havia em suas costas largas. Marcas essas, possivelmente causadas por chicotadas recebidas ainda no tronco, quando ele era ainda cativo, bem antes da Abolição dos escravos. Há um burburinho que Pai Thomás recebera sua carta de alforria bem antes da assinatura da Lei que libertou os cativos. 

Sua liberdade fora adquirida das mãos de seu último dono, um velho e solitário professor que não tinha nenhum parente e nem mesmo muitos amigos, devido aos seus ideais e comportamento um tanto quanto diferente daquilo que se poderia considerar politicamente correto para uma sociedade conservadoramente cristã e zelosa dos dogmas que a igreja determinava. Professor Ozório, durante quase toda sua vida, lecionara os mistérios que envolvem o universo dos números; ele era um matemático muito respeitado e bastante reconhecido tanto por seus ex-alunos quanto pelos ex-colegas. Contudo, sua grande paixão era a filosofia, ciência essa que o tornara um determinado admirador das ciências ocultas e todos os mistérios que envolvem a origem da vida e as consequências que levam à morte e um possível além-túmulo. Professor Ozório, que era um eremita por opção desde a morte de sua esposa, ocorrida pouco depois de se casarem há mais de cinquenta anos, já avançado em anos e com os efeitos inevitáveis da senilidade, decidira arranjar uma companhia que lhe auxiliasse tanto nos afazeres domésticos quanto em seus estudos. Optou por comprar um cativo e imediatamente dar-lhe a carta de alforria com a promessa de que esse agora ex-escravo lhe acompanhasse até o fim de seus dias.

Thomás deixou então a combalida fazenda onde nascera e fora cativo desde sempre para se tornar mordomo e secretário particular numa bela casa da capital. Além da liberdade tão sonhada, Thomás fora muito beneficiado por seu ex-dono, que, por estar ficando com as vistas cansadas, o ensinou a ler, escrever e os conceitos básicos da matemática. Professor Ozório era um excelente mestre e Thomás demonstrou ser um aluno muito dedicado — nada neste mundo apraz mais um professor do que um aluno interessado —, buscando aprender bem mais do que o simples bê-á-bá. Por muitas vezes, Thomás virava noites, madrugada afora, lendo os livros que havia na respeitada biblioteca particular do sábio mestre, que vez por outra flagrou seu agora também aprendiz estudando livros de ocultismo — escritos que poderiam ser considerados subversivos e até mesmo perigosos para uma mente fechada. Sabendo da proximidade do fim de seus dias, como não tinha nenhum herdeiro e por temer que seu fiel companheiro pudesse ficar desamparado após sua morte, buscou por meios legais redigir um testamento onde constava o negro Thomás como seu único herdeiro, com direito total a todos os seus bens. Esse testamento nunca seria aberto. Assim que o Professor Ozório ajuntou as mãos sobre o peito para dormir o sono sem sonhos, Thomás se viu obrigado a dar um novo rumo à sua vida, pois parte da herança de seu protetor — que não era tão grande — ficou com seu advogado para saldar supostas dívidas antigas, outra parte foi doada ao clero como oferta em missas que seriam rezadas em encomenda a sua alma, que certamente estava no purgatório devido ao incauto falecido ter vivido seus dias longe da proteção da Santa Igreja, e o restante foi usado para custear um simples e rápido funeral que contou com a presença de um ou outro curioso e dos fiéis papa-defuntos, não mais do que meia dúzia de presentes. Thomás foi o último a sair do cemitério, honrando até o fim a memória de seu benfeitor. Com a morte de seu mestre, restou a Thomás a liberdade, algum dinheiro que o professor lhe havia dado ainda em vida — que ele sabiamente havia guardado — e alguns livros que o advogado permitira que ele os levasse consigo; não eram muitos, mas eram bastante valiosos para que soubesse do que se tratavam. Thomás jamais se afastaria dessas preciosidades literárias.

De posse de sua liberdade, com algum dinheiro e sabendo ler e escrever – numa sociedade onde a maioria era analfabeta –, Thomás decidiu se lançar em busca de uma vida melhor. Conheceu muitas cidades e trabalhou em muitos lugares, utilizando-se sempre de sua força física e de seus conhecimentos. Contudo, a vida não era muito fácil para um ex-cativo, mesmo sendo alforriado e versado nas letras e nos números. Para alguém que havia rodado pelo mundo quando ainda era jovem, agora, na sua velhice, nos últimos anos antes de sua morte, Pai Thomás vivia na companhia de sua filha Gardênia, a quem ele tinha muito apreço, e de seu neto Luís Miguel, que já estava sendo encaminhado no ofício da chapelaria, ofício esse que, mesmo com a idade já avançada, ele ainda praticava com maestria. Desde que sua amada esposa fora tomada de seus braços, quando Gardênia era ainda uma criança de colo, vivia ele de modo taciturno e muito sombrio, fechado em um mundo à parte, que ele mesmo criara para si, distante de tudo e de todos. A alegria desaparecera por completo de seu semblante. Sua face, antes sempre muito alegre e simpática, tornara-se muito obscura e, para alguns, até mesmo um tanto quanto sinistra, com leves traços de maldade, escondidos sorrateiramente nas rugas de sofrimento que surgiram com o tempo. Quem o conhecia de outrora, sabia parte de sua história recente e qual era o verdadeiro motivo que o transformara naquele infeliz ser, de semblante frio e olhar distante. Seu olhar, que um dia fora firme e brilhante, após sua trágica perda, tornara-se lúgubre, fitando o vazio – muitas vezes olhando para lugares sombrios onde reinava as trevas –, sempre buscando ao longe algo que certamente não estaria lá. Algo que, pela curiosa fisionomia de sua face, talvez nem pertencesse a este mundo.

A dolorosa e precoce morte da mãe de Gardênia levou consigo para o túmulo, não somente o corpo definhado pela doença e agora já inerte de sua esposa, mas também sua alegria de viver, deixando-lhe tão somente muita dor e sofrimento. Sentimentos esses que se refletiam em um constante e perturbador silêncio, que ele mesmo lhe impusera. Esse mutismo, que somente muito raramente era quebrado, ocorria quando uma palavra sua se fazia extremamente indispensável. Nos primeiros dias, logo após a morte de Darquinha, quando ele, sem acreditar no que havia acontecido e sentindo o gosto amargo de uma perda recente, demonstrava um comportamento nada convencional, houve até mesmo — por parte dos desocupados profissionais da região — certos comentários sobre sua sanidade mental estar seriamente abalada e que, por isso, estaria talvez incapacitado de cuidar de sua filha Gardênia. De certo modo, sua lucidez realmente ficou um pouco abalada, e seu comportamento não denotava muita confiança. Ainda durante o velório, mesmo com toda a dor e desespero pela perda de sua esposa, ele não se comportava como uma pessoa lúcida. Dizia coisas sem nenhum nexo com a realidade e parecia estar assustado, demonstrando um terrível arrependimento, como se tivesse cometido um ato imperdoável. Havia traços de um dorido remorso até mesmo em seus profundos suspiros, que eram frequentes, como se fosse ele o responsável pela morte de sua amada esposa, que todos sabiam que há tempos travava uma árdua luta contra um tumor na cabeça. Para muitos que acompanharam de perto toda a agonia e o longo sofrimento da simpática Dona Darquinha, a morte fora para ela, na verdade, um merecido descanso.

O sepultamento de Darquinha ocorreu já no finalzinho de uma tarde de vento frio e pôr do sol tristonho e arroxeado. Naquela noite, como o cemitério ficava distante de sua casa, Thomás e a pequena Gardênia passaram a noite na casa de Seu Juraci, que era amigo da família de longa data, desde os tempos em que eles ali chegaram. E, para essas horas mórbidas, não havia conselheiro melhor. Talvez tenham sido as sábias palavras de Seu Jura que contribuíram para que Thomás entendesse que ele agora era o único responsável pela pequena Gardênia. Essa pobre e indefesa criança que havia acabado de perder a mãe não poderia perder também o pai. Mesmo trazendo consigo um sentimento bastante egoísta, ao se ver agora como único progenitor de uma inocente criança com menos de cinco anos, Thomás, deitado muito desconfortável num catre bem menor que ele, olhando ao longe o brilho das estrelas que entrava pela janela aberta naquele momento, pensou consigo mesmo: “Darquinha não escolheu morrer, e muito menos optara por deixar uma criança órfã, pois não há mãe, por pior que seja, que não ame um filho, e quando essa mãe tem a inocência e bondade de um anjo, maior ainda se torna esse amor...”.

Milhares de pensamentos turbilhonavam na cabeça de Thomás naquele momento: medo, arrependimento, ansiedade; era complicado escolher qual tipo de sentimento mais o atormentava. Contudo, o que mais o atormentava era a lembrança de que, durante todo o tempo em que viveu ao lado de Darquinha, desde quando a conhecera, ela jamais tinha pronunciado uma única palavra sequer. Mas em seus últimos dias de vida, enquanto ele estava sempre ao seu lado naquele triste leito, sempre que a olhava nos olhos era capaz de ler claramente o que ela dizia no triste silêncio daquele lacrimejante olhar. Para os dois, que sempre se comunicaram com gestos, sorrisos e olhares, ficara claro para ele a súplica de uma mãe que sabia que a morte a estava rondando e que seus dias nesta terra estavam findando. Havia um pedido de socorro naquele olhar, que implorava a ele que cuidasse e protegesse o fruto do amor que um dia houvera entre eles e que, naquela doce e inocente criança, esse sentimento jamais teria fim. Desde o dia em que se conheceram, a maior parte da comunicação entre ambos era feita através da troca de olhares que, de algum modo muito estranho, era imediatamente mutuamente compreendido, e naquele momento não foi diferente. Sabendo que aquilo a deixaria mais confortável, apertando suas mãos entre as suas, ele lhe respondeu com um sincero sorriso no olhar, mesmo sabendo que ela não poderia ouvir suas palavras, mas algo dentro de si dizia que ela, de algum modo, o compreendia: "que enquanto ele estivesse vivo, Gardênia estaria segura, longe de qualquer maldade desse mundo, e ele poderia estar certo de que não mediria esforços e moveria o mundo para protegê-la...".

Foi através dos conselhos e palavras de alento de Seu Jura e relembrando dessa promessa feita no leito de morte de sua amada, que seu comportamento voltou à normalidade, decidindo assumir completamente suas responsabilidades de pai e agora também de mãe. Sabendo que, para que isso acontecesse deveria ser senhor absoluto de suas faculdades mentais. Contudo, ele jamais seria o mesmo homem que fora um dia, pois a morte de Darquinha colocara um fim trágico numa verdadeira história de amor. História essa que parecia impossível, entre o ex-cativo e já não tão jovem Thomás e a equilibrista Joana D’arc, uma artista europeia ainda na flor da idade e dotada de uma beleza angelical. Quem, porventura, teve o privilégio de conhecê-la em seus dias de esplendor, antes que a doença a transformasse numa entidade cadavérica, afiançaria com veemência que realmente era ela, uma criatura de beleza ímpar.

Darquinha era o carinhoso apelido pelo qual sua esposa era conhecida desde sua mais remota infância. Quando ainda criança, sendo ela bem franzina, demonstrava certa fragilidade doentia, típica de um ser que não suportaria nem até o fim do primeiro inverno. Mesmo com um ar de fragilidade cristalina, era dotada de uma peculiar beleza infantil, dando-lhe os traços de uma boneca de porcelana, que, mesmo sendo muito bela, ainda assim era bastante frágil e poderia se quebrar a qualquer momento. Desde sempre, vivera no circo, primeiro na companhia de seus pais, que sempre foram artistas circenses. Seu pai era o famoso mágico Norman Winslow Benetti ou simplesmente o Grande Benetti – o mago –, sempre muito aplaudido por onde o circo passava. Sua mãe era a bela Elizabeth Zurmin, assistente de seu pai. Os dois faziam o número mais esperado do espetáculo, deixando o público sempre muito apreensivo e cada dia mais boquiaberto com mágicas cada vez mais ousadas e misteriosas. Durante os treze primeiros anos de sua vida, tivera a companhia e proteção de seus pais. Nesse período, teve também a oportunidade de demonstrar seus talentosos dons artísticos – algo que parecia estar no sangue dos Benetti – tornando-se, devido à sua compleição física, uma exímia equilibrista, que sempre deixava toda a plateia tensa e preocupada a cada número, que vinha se tornando cada vez mais ousado. Com a trágica e misteriosa morte de seus pais, num violento incêndio que quase consumira o circo por completo, ficara ela, momentaneamente sob a tutela e proteção de seu único parente restante, o irmão gêmeo de seu pai, o tio Nicolas Benetti, o anão do circo, mais conhecido como Nico Besta Fera, apelido esse devido à sua monstruosa e grotesca aparência.

Havia pouco mais de dois anos que Darquinha perdera seus pais quando conheceu Thomás, que por sua vez só soube seu verdadeiro nome quando se casaram. O verdadeiro nome de Darquinha era uma singela homenagem a Joana D’Arc, a santa heroína da cidade em que ela nascera, quando o circo estava de passagem por lá. Essa cidade era a pitoresca Orléans, às margens do rio Loire. Quando sua mãe estava prestes a dar à luz, o circo fazia uma turnê pelo então chamado Vale do Loire. Justamente quando Darquinha nasceu, estava acontecendo um festival em homenagem à famosa "Virgem de Orléans", considerada mártir. Joana D’Arc passou para a história como a personagem mais importante da cidade por ter salvado a cidade de um terrível cerco inglês no ano de 1429. Desde então, essa corajosa jovem havia se tornado heroína local. Na verdade, Darquinha nunca teve a oportunidade de conhecer de fato sua cidade natal, pois como todo e qualquer circo, aquele ao qual fazia parte era também itinerante — sempre transitando de um lugar para outro em busca de um público mais curioso e interessado no lúdico universo do circo e, consequentemente, mais liberal economicamente — e nem sempre retornavam à mesma cidade, principalmente se por ventura o espetáculo se demonstrasse ruidoso e desinteressante ao público, sem lucratividade alguma naquele local. Evidentemente, sempre acompanhando seus pais, tal qual o próprio circo — do qual faziam parte — eles também nunca se estabeleceram por muito tempo no mesmo lugar, transitando sempre de cidade em cidade em busca de dias melhores, tentando a cada dia sobreviver de sua arte.

O circo, desde sua origem mais remota, sempre fora um entretenimento nômade, buscando sobreviver onde houvesse um público curioso ao ponto de se dispor a gastar algumas moedas para assistir a um belo espetáculo ou, ao menos, poder ver com seus próprios olhos fatos curiosos, pessoas extraordinárias e até mesmo bizarrices da natureza. Depois de rodar por grande parte da Europa — principalmente pelos interiores mais ermos — sem nunca mais voltar à França, após anos de crise e até mesmo cogitar por várias vezes desistir dos espetáculos circenses e pôr fim ao circo, que pertencia à sua família por incontáveis gerações, o dono do circo, o polonês Eloy Zachary Chittway, decidiu atravessar o grande Oceano Atlântico e tentar a sorte na América. Mas não na América propriamente dita — aquela dos peregrinos —, mas sim em outra parte do grande continente descoberto por Colombo, que também era América, só que no Sul. A convite de um poderoso homem do governo brasileiro — talvez fosse ele um ministro de Estado — que assistira a um espetáculo do circo, que naquela época já estava mais do que agonizante, mas ainda se apresentava na cidade de Évora, em Portugal, numa espécie de turnê pelas terras ibéricas. O dono do circo, como um tiro de misericórdia para não encerrar de vez os espetáculos do Grande Circo Chittway — não apenas findando uma companhia secular, mas também deixando sem emprego dezenas de artistas e afins — decidiu vir com toda a sua trupe e montar seu picadeiro em terras brasileiras, para quem sabe assim tentar a sorte com um público diferente e ainda desprovido das inovações tecnológicas — fotografia, telefone, cinema etc. — que fizeram grande parte do público europeu perder o interesse no fantástico e secular mundo do circo.

As apresentações circenses – até onde se tem notícia – são muito antigas. Os números em si, como malabarismos, contorcionismos, mágicos etc., estão presentes junto às civilizações desde sua aurora. Desde a origem da humanidade, sempre houve um indivíduo ou outro que ousou entreter com o intuito de ocupar o tempo ocioso e, se possível, ganhar algo em troca, caso alguém apreciasse o que estava assistindo. Desde as civilizações mais antigas, sempre existiu alguém bastante diferente fisicamente ou com algum talento extraordinário capaz de ganhar a vida divertindo os outros, seja por admiração, espanto ou simples curiosidade. Mesmo nas cortes dos reis mais sisudos e até mesmo violentos, sempre houve pantomineiros, ventríloquos ou mesmo um simples bobo.

Contudo, o circo como o conhecemos atualmente remonta ao período medieval, em tempos de obscurantismo religioso, onde quase tudo era proibido e nenhum senhor ousava manter um artista em seus domínios. As apresentações circenses eram uma forma de entretenimento para as pessoas menos favorecidas da Europa, principalmente aquelas que se aglomeravam em pequenos vilarejos. Se, por um lado, mesmo que de forma clandestina, divertiam a gente pobre das sujas e pestilentas cidadelas, fazendo com que, momentaneamente, através do riso e do espanto, se esquecessem de sua miserável condição de quase sobrevivência, por outro lado, eram uma eficaz forma de sustento para quem tivesse algum talento ou dom para a arte e nenhuma outra ocupação ou fonte de renda. Desde sempre o circo foi um espetáculo sazonal, pois, por mais atrativo que pudesse parecer quando ainda fosse uma novidade – as novidades têm o incrível poder de sedução momentânea – logo se tornava obsoleto e até mesmo supérfluo para uma população que vivia sempre em crise e quase todo o tempo faminta. Já dizia o velho provérbio: “Entre comer e a diversão, é sábio o homem que, antes de rir, quer pão, pois o riso alegra o coração em fé, mas um saco vazio, mesmo que alegre e contente, jamais fica de pé.”

É notório que o universo do circo nunca promoveu ninguém à riqueza, talvez alguma fama um ou outro até que poderia adquirir facilmente, mas tornar-se abastado apenas com a arte, jamais. Contudo, pelo menos era uma forma de se ganhar o pão honestamente. Quando surgiram os primeiros circos — ou aquilo que poderia ser considerado como tal — não havia picadeiros ainda, com suas enormes barracas de lonas coloridas como há atualmente. Os espetáculos, quando aconteciam, eram em pequenos palcos improvisados sobre carroças, que também eram utilizadas como meio de transporte e fuga — se fosse necessário — para esses artistas ambulantes, que estavam sempre transitando de uma cidade para outra, na maioria das vezes fugindo da justiça dos inquisidores, que de forma violenta, perseguiam esse tipo de apresentação considerada profana e, por isso, sumariamente proibida pela Igreja. A perseguição não se dava apenas pelo simples fato de a Igreja considerar o riso como uma afronta às coisas sagradas e ao sofrimento de Cristo, mas também pelo tipo de pessoas que se associavam a essas trupes artísticas. Na maioria das vezes, esses grupos eram formados por ciganos; comerciantes e usurários; e pessoas com aparência ou comportamentos diferentes, tais como anões, indivíduos com algum tipo de deficiência ou anomalia e, por fim, por mulheres alegres e libertinas, que praticavam todo tipo de magia ou feitos extraordinários. Além, é claro, dos bastardos que, de certo modo, eram vistos como uma vergonha dentro do conceito do sagrado matrimônio. Pessoas de aparência grotesca eram um divertimento à parte para os curiosos, mas para a Igreja, era uma afronta expor tais pessoas, que haviam nascido diferentes da imagem e semelhança de Deus por expiação de algum castigo de seus pais. Em resumo, os integrantes de um circo eram considerados pela Igreja como sendo subversivos à sociedade por terem sido desfavorecidos por Deus. O universo lúdico do circo, tão agradável a todos, mas principalmente fantasioso às crianças, surge como uma arte perseguida e errante, condenada ao nomadismo quase constante e infinito.

Quando em seus princípios – ainda na Idade Média – como surge em um período estranho e bastante tenebroso, onde as transações comerciais utilizando-se de moedas era algo praticamente inexistente, uma vez que havia algum tipo de apresentação artística, sendo grande o espetáculo com vários artistas ou apenas um simples número qualquer executado por uma artista solo, se fosse bem apreciado pelo público – que nem sempre era muito grande – a forma de pagamento ou apenas um singelo agrado era feito em espécie, que poderia ser desde uma simples flor – sempre agradável aos olhos, mas inútil para saciar a fome – ou até mesmo frutas e legumes, que eram jogadas no palco. Se o número fosse realmente muito bom, às vezes o pagamento poderia ser em pequenos viveres tais como: peixes e aves. Essas prendas logo eram recolhidas para o preparo de alguma refeição, que depois de pronta era dividida de forma igual a todos do grupo. Pagamento em dinheiro era algo extremamente raro, até mesmo porque, para a grande maioria da população, toda e qualquer forma de transação comercial era feita a base de trocas. Se por um lado, o circo sobrevivia das benesses do público, recebendo calorosos aplausos e parcas oferendas. Por outro lado menos agradável é também dessa época o costume de jogar algo podre no palco e principalmente nos artistas, quando o publico, por ventura, se demonstrasse muito exigente e por algum motivo qualquer, não apreciasse a apresentação. Era como nesses casos em particular, todo o palco bem como até mesmo os artistas ficarem empesteados de ovos e tomates podres. Quando isso acontecia, logo o acampamento era rapidamente desramado e logo todo o grupo seguia para outra localidade distante. 

Séculos após o surgimento do circo, a situação em nada se aliviou, pois nos últimos tempos era constante esse tipo de descontentamento por parte do público europeu, cada vez mais esfomeado. Aqueles poucos privilegiados que não eram assolados pela crise, para ocupar o tempo ocioso, optavam por lotar os teatros que pululavam pelas cidades e, para tornar a situação um pouco mais desesperadora ainda, surge o cinema — considerado por muitos como uma mágica da era moderna. Para uma efervescente sociedade que já se acostumara com as extraordinárias invenções que surgiam quase todos os dias, o circo era algo ultrapassado e bastante repetitivo, e já não conseguia seduzir mais ninguém.

A efêmera Belle Époque, evidenciada pelo Impressionismo do final do século XIX, cedia lugar à obscura realidade das telas expressionistas do início do século XX e à galopante crise socioeconômica que se agravava cada vez mais. Era fácil perceber que os bons ventos da mudança já não mais sopravam pelas terras do velho mundo. Quem porventura quisesse continuar tentando sobreviver de qualquer tipo de arte — inclusive e principalmente de estilos obsoletos como o circo — deveria procurar outras terras onde a economia fosse um pouco menos frágil e o tipo de arte apresentada fosse quase ou totalmente desconhecida, ou pelo menos ainda apreciada em lugares onde as novidades tecnológicas da Europa fossem apenas uma distante e inverossímil promessa.

A América — a então denominada terra da oportunidade, independente de qual América fosse — parecia ser um lugar muito sedutor, segundo viajantes que tiveram a oportunidade de conhecê-la de perto. Descreviam-na como uma terra de belas mulheres e de homens fortes, onde o sol brilhava durante todo o ano e as riquezas estavam disponíveis a qualquer um que ousasse derramar o suor do rosto e em pouco tempo se tornasse abastado. Contudo, também era um sonho quase impossível para muitos, devido à distância entre esses dois mundos tão diferentes. Se o custo de uma viagem para a América já era bastante oneroso para um simples viajante, em se tratando de um circo inteiro, com todos os integrantes do grupo e seus pertences, além dos apetrechos necessários para um simples espetáculo, o valor era algo quase inimaginável, a menos que a providência divina abençoasse um mecenas disposto a custear a travessia de um circo inteiro sobre o Atlântico.

O sonho, que à primeira vista parecia praticamente inalcançável para aquele agonizante circo e seus miseráveis artistas, enfim se realizou. Depois de uma longa e angustiante viagem sobre aquele imenso oceano, finalmente desembarcaram nas exóticas e abafadas terras brasileiras. O navio que trouxera aquela sonhadora trupe para o Brasil partiu de Portugal em pleno inverno europeu e, ao chegar ao Hemisfério Sul, se deparou com o escaldante verão do Rio de Janeiro, que naquele momento ainda enfrentava uma terrível onda de calor. O dono do circo contava com uma calorosa e festiva recepção por parte do homem que, sob os encantos de Madame Staell, havia generosamente bancado todos os custos da viagem. Esta tinha sido a promessa feita ainda quando a vinda do circo para o Brasil tinha sido acertada. O então poderoso homem do governo — soube-se depois que era um senador bastante influente —, além de pagar antecipadamente todas as despesas da viagem, incluindo passagens, transporte de bens e objetos, além das refeições, também havia prometido um patrocínio em dinheiro por parte do governo brasileiro durante um ano. Essa verba seria mais do que suficiente para todo o circo e seus integrantes se manterem com certa dignidade, até que o circo ficasse conhecido pelos brasileiros e conseguisse se manter por conta própria. Contudo, o esperançoso Sr. Zacky e seus sonhadores companheiros não esperavam por uma traiçoeira intervenção do destino. Durante os dois longos meses que durou a viagem sobre o Atlântico, uma terrível febre infecciosa levou ao silêncio seu patrocinador e futuro anfitrião aqui em terras brasileiras.

Madame Staell foi a pessoa que tornou aquele sonho possível, conseguindo através de seus encantos e carícias convencer o senador Antônio Eugênio de Abreu — um sexagenário curioso e aventureiro — a custear todo o valor necessário a transferência do circo da Europa para as terras brasileiras. Essa encantadora mulher toda esperançosa e cheia sonhos imaginava que, uma vez em terras desconhecidas sobre a proteção de um poderoso pistolão do governo de uma jovem nação, poderia finalmente abandonar o circo de uma vez por todas. De alguma forma um tanto obscura, ela sentia — ou pressentia através de sua hipersensibilidade de cigana — que seus dias de reles vidente em troca de migalhas estavam terminando. Contudo, enquanto os artistas ainda sobre aquela imensidão de água sonhavam com dias melhores em terras distantes e desconhecidas por todos eles, as traiçoeiras Moiras tramavam em suas sinistras teias o destino de cada um deles. Enquanto uns ainda devaneavam com o paraíso, o corpo do então Senador, por sua vez era conduzido para a cidade onde todos se tornam iguais.

Quando chegaram, por fim, ao porto, a única recepção que tiveram foi de uma torrencial chuva que castigava o litoral há quase uma semana. — No Brasil uma terra tropical, as chuvas duram por dias e noites ininterruptas, como se as comportas do céu estivessem com algum defeito e não se fechassem por completo — Se por um lado a situação na Europa era quase insustentável, agora numa terra estranha e desconhecida, ficara pior ainda. Praticamente sem dinheiro algum, sem comida e nem ao menos onde pudessem ficar. Além da chuva que o céu derramava sem cessar, havia também a questão da língua falada por aqui — uma mistura de português com todo tipo de som que se pudesse imaginar — estranha para a maioria deles, exceto ao faquir do circo que era de origem portuguesa. Contudo, Vladmir — esse era o nome do faquir do circo — não era o tipo de pessoa que transmitia muita confiança, tal qual a imensa quantidade de velhacos que transitavam o tempo todo pelo cais e suas cercanias — talvez por essa insignificante peculiaridade, a comunicação entre Vladimir e os transeuntes do porto não foi tão difícil — e desde que surgiu a ideia de mudança de todo o circo para uma terra tão distante, Vladimir sempre se mostrou relutante em acompanhá-los em tão desvairada aventura. Alguns diziam que foi sua maculada imagem de trambiqueiro que o deixara sem credibilidade por todos os lugares em que havia passado ou talvez o amor platônico que ele nutria por Elizabeth, a belíssima assistente do mágico Norman, que o havia convencido. Mas sempre que alguém fazia alguma alusão a esse sentimento — evidente até para um cego — ele, logo insistia em negá-lo com veemência, dizendo que: “... as pessoas são sempre levianas por conveniência e quando querem cultivar na discórdia, confundem uma inocente admiração por algum outro sentimento qualquer...”. Por uma razão outra, fosse ela qual fosse, decidiu-se por fim, a acompanhar o Sr. Zacky e seu agonizante circo em mudança para as terras de além-mar. Sendo assim, ele mesmo também se lançara numa aventura em terras distantes que por fim selaria seu destino.

Vladimir Alvarez era o único faquir do circo e ocupava essa perigosa função há mais de cinco anos. Mesmo com todo esse tempo integrado ao grupo, ainda assim não havia conseguido conquistar a simpatia e a confiança da maioria dos artistas. Darquinha — o xodó de todos —, em particular, tinha pavor dele. Realmente, ele era um homem singular, de caráter espinhoso, seco de corpo e de espírito. Tinha as feições estranhas e, na altura de seus trinta e poucos anos, parecia ser muito mais velho devido à sua aparência cadavérica. Seu rosto era estranhamente afinado e sempre sedosamente escanhoado como a pele de um recém-nascido; tinha um fino e bem cuidado bigode preto bastante alongado, que contrastava com seus olhos claros e penetrantes. Suas mãos eram brancas e de uma agilidade assustadora; seu cabelo, negro como o mais escuro breu, era ondulado e caía sobre o pescoço fino, dando-lhe uma aparência bastante sinistra. Mesmo assim, sendo de confiança ou não, com toda aquela aparência maquiavélica, foi esse integrante da trupe que, com muita dificuldade e uma das joias de Madame Staell — certamente um dos presentes do Senador —, conseguiu alugar um terreno — soube-se depois que era público — próximo ao cais, onde mesmo debaixo de forte temporal, conseguiram armar um improvisado acampamento para se abrigarem daquele terrível aguaceiro durante aquela primeira noite em terras tupiniquins. Vladimir — ninguém sabe como — conseguiu também algumas verduras, alguns legumes, um pedaço de carne salgada e um pouco de farinha de mandioca. Além de uma garrafa de aguardente de cana, chamada por aqui de cachaça — bebida essa estranha a todos eles, mas que, devido à angustiante decepção pelo abandono em que se encontravam e ao frio que estavam sentindo, foi logo muito apreciada por todos que ousaram experimentá-la, apesar de que alguns disseram que queimava como o fogo do próprio Tártaro. As verduras e legumes, somadas à carne salgada, logo se transformaram numa bela sopa que foi engrossada com a farinha, tornando-se num apetitoso guisado. Improvisadamente protegidos da chuva e do relento, saciados pela sopa quente e alguns também acalentados pela cachaça, logo foram descansar como puderam, pois, além de estarem bastante decepcionados com toda aquela desesperadora situação, estavam também exaustos da viagem.

Assim que o dia amanheceu, o Sr. Zacky, acompanhado do mágico Norman, do faquir Vladimir – intérprete honorário – e da cigana Madame Staell – ávida por encontrar-se logo com o Senador –, foram em busca da sede do governo brasileiro para tentar encontrar seu benfeitor e saber o motivo pelo qual não foram recepcionados no cais. Para surpresa e decepção de todos, logo foram informados de que não poderiam ter uma entrevista com o Senador Antônio Eugênio de Abreu, pois esse tão liberal senhor havia falecido há mais de quarenta dias e que até mesmo sua viúva e filhos – ainda pequenos – tinham voltado à sua terra de origem, no longínquo estado de Goiás, no centro do Brasil, distante mais de duzentas léguas da capital. O desespero foi completo ao saber que nem o circo nem nenhum deles teriam mais nenhum patrocinador que pudesse lhes valer em particular ou pelo menos auxiliar o circo aqui no Brasil. Madame Staell era a mais desolada de todos, como se tivesse perdido um ente querido. Logo Vladimir entendeu, por uma conversa ou outra – ouvida em surdina pelo saguão onde estavam – enquanto aguardavam para serem atendidos por outra pessoa de posição, que o governo brasileiro era uma verdadeira balbúrdia. O salão, apinhado de toda espécie de gente, era malcheiroso e abafado ao extremo, com a pintura das paredes – que ainda resistia ao tempo – de um tom verde claro, melancólico e preguiçoso. Sobre uma imensa prateleira entupida de livros e toda sorte de papéis cobertos de poeira e teias de aranha, havia um relógio que condizia com a eficiência do que era executado ali naquele recinto. Esse relógio parecia não funcionar há muitos anos, fazendo jus à devassidão e inaptidão do lugar. A informação era que o presidente anterior havia morrido de gripe espanhola e o atual que assumira o governo tinha sérios problemas mentais. Mesmo sem entender o que a maioria dizia, o Sr. Zacky pôde compreender que ali na sede do governo, todos mandavam ao mesmo tempo, mas ninguém decidia nada. E por fim, quando ele decidiu tentar angariar algum tipo de benesse para o circo, nenhuma outra pessoa importante lhes deu muita atenção. Ficou logo subentendido que não haveria ajuda por parte do governo, e somente o que conseguiram com muita dificuldade e insistência foi uma licença para praticarem seu ofício em território brasileiro, desde que pagassem uma onerosa taxa ao erário, que – como sempre – estava com os cofres vazios naquele momento e não poderia liberar tal licença de forma gratuita.

O Brasil era uma república jovem, enfrentando uma crise institucional e econômica interminável, e por isso estava sem dinheiro em caixa. Havia descontentamento da população que gerava revoltas aqui e acolá, corrupção por todos os lados e uma tacanha política de "toma lá, dá cá". Se alguém porventura não tivesse nada a oferecer, era inútil buscar algum favor perante algum político. Sempre que alguém se fazia anunciar em qualquer gabinete em particular ou até mesmo numa repartição pública, a pergunta era sempre a mesma: "Está vindo da parte de quem? Ou quem o enviou?". Enfim, quem não tinha nada, também com nada continuaria, e assim seria para sempre.

Quando Vladimir tentou questionar o valor da licença, foi-lhe explicado de forma bastante grosseira e bastante convincente, que para exercer qualquer tipo de atividade no país, uma pequena e irrisória taxa deveria ser paga ao Estado, para custear os enormes e complexos gastos públicos. O Sr. Zacky se sentiu bastante frustrado ao saber que na República do Brasil, o indivíduo começava a pagar impostos bem antes de nascer e que continuaria pagando-os bem depois de sua morte. Realmente, a América era uma terra de oportunidades: um terreno fértil para velhacos e oportunistas. Quem era rico, ficava cada vez mais rico ainda e quem era pobre, tinha a oportunidade de ficar mais pobre a cada dia.

O dono do circo, acompanhado de seus fiéis companheiros, retornou cabisbaixo ao improvisado acampamento com uma licença numa mão e uma triste realidade na outra. Estavam sós, numa terra distante de tudo e desconhecida por todos. Voltar para a Europa naquele momento era impossível. Só havia uma única alternativa: fazer aquilo que sabiam fazer de melhor. Apresentar-se para quem quisesse pagar para ver e fugir da justiça assim que necessário. Todos concordaram que não havia outra coisa a ser feita, mesmo bastante decepcionados com sua má sorte, se lançaram a tentar montar o circo mesmo debaixo de chuva e com todo tipo de improviso. A mais acabrunhada dentre todos eles era Madame Staell, que viu seu horizonte pleno e claro ser obscurecido por negras e tenebrosas nuvens de uma tempestade que sua sensibilidade lhe prenunciava. Mesmo assim, desfez-se de mais uma de suas joias e alguns trocados de suas economias para poderem comprar alimentos, pregos, velas e aquilo que se fazia necessário para que o espetáculo pudesse acontecer. Sr. Zacky prometeu lhe restituir tudo aquilo que ela estava gastando, assim que o circo começasse a render algum trocado. Baseados numa inabalável fé, muito esforço e constante perseverança, dois dias depois da decepção com o governo brasileiro, após muito suor derramado misturado com a chuva que caía constantemente, assim que o céu decidiu dar uma trégua em todo aquele aguaceiro, aconteceu o primeiro espetáculo do Grande Circo Chittway no Brasil. O certo era que aquele improvisado circo, nem de longe poderia ser comparado ao que fora um dia em seus dias de glória, quando Sr. Zacky ainda era um garoto nas efervescentes cidades da Europa. Contudo, os artistas eram muito talentosos, os números bastante atrativos em si e a necessidade de sobrevivência era extrema. O resultado desse primeiro dia de espetáculo não foi muito lucrativo, mas suficiente para reaver uma das joias de Madame Staell — que lhe fora devolvida mediante o dobro do pagamento do valor penhorado — e uma apetitosa e farta refeição acompanhada com uma ou outra dose de cachaça. O animado espetáculo se repetiu por mais três vezes apenas naquele local — cada dia mais movimentado e rendoso — pois logo foi interrompido pela polícia, que muito rapidamente, assim que chegou ao local — certamente avisada por uma denúncia anônima — já foram de imediato exigindo a documentação que autorizava a prática daquele tipo de atividade ali na cidade. Esse documento, por sua vez, até que já existia de fato, apenas não havia sido pago ainda — e certamente não o seria nunca. Sr. Zacky, o proprietário do circo, um estrangeiro no país — bem como todos os outros integrantes daquela animada trupe — não tinha documentação alguma, nem mesmo para estarem residindo no país, muito menos para exercer qualquer tipo de atividade. Para obter esse tipo de alvará de funcionamento era necessário pagar as requeridas taxas, em seguida dar entrada na papelada necessária num cartório de tabelionato de notas — novidade republicana, que tornava qualquer trâmite simples em algo oneroso e demoradamente burocrático — e por fim homologar toda a documentação num destacamento policial. Nenhuma dessas etapas havia sido feita, e talvez jamais o fosse, pois, desde sempre era já o costume daquele circo — como tantos outros mundo afora — funcionar de forma clandestina.

Uma vez que, quando a polícia chegou ao local, era já quase noite, com o tempo fechado e escurecendo rapidamente, prenunciando que uma tempestade pudesse desabar a qualquer momento, o chefe daquele eficiente destacamento ordenou que toda e qualquer atividade fosse encerrada de imediato e que eles retornariam no dia seguinte logo pela manhã, a fim de resolver todos os trâmites legais necessários para que aquela atividade artística pudesse continuar acontecendo ali naquele local de forma correta. Contudo, antes de deixarem o acampamento, um dos policiais daquela muito competente companhia — talvez por mera curiosidade, ou quem sabe por pilhéria apenas, ou até mesmo por volúpia — desde que chegou ao acampamento, não tirava os olhos do convidativo decote do vestido da bela cigana, e logo desejou saber o que o destino lhe reservava, solicitando então que Madame Staell lhe tirasse a sorte lendo sua mão. O resultado desse ato se mostrou muito desastroso para ambos. Como o atirado patrulheiro não gostou do que ouviu e pelo olhar de desdém que a bela cigana lhe direcionava enquanto lia sua mão, talvez também por não entender direito o que a cigana havia lhe dito — Madame Sarah Staell era uma bela espanhola de pele clara e olhos negros questionadores, mas sensualmente discretos. Tinha longos cabelos negros caindo em cascata pelas suas esbeltas costas em belos cachos tão escuros como uma noite sem luar. Seu corpo, mesmo para uma idade já madura, mantinha ainda assim a firmeza de uma frondosa árvore florida com o frescor suave de suas flores em recente desabrochar. Por ser de uma região de Granada no sul da Espanha, falava um tipo de dialeto que às vezes misturava o castelhano com várias outras línguas do mundo árabe — pelo lado de seu pai que era egípcio — e o romani — pelo lado de sua mãe que era de Bukovina. Sua fala, às vezes, era tão inaudível que até mesmo seus companheiros mais antigos não conseguiam compreender corretamente. Quando foi solicitado que o faquir Vladimir traduzisse o que fora dito pela cigana, as coisas se complicaram um pouco mais. Vladimir — por ciúmes ou por trazer consigo um leve despeito pela cigana, que volta e meia, até mesmo de forma humilhante, repudiava suas investidas sobre ela — substituiu alguns termos e adicionou outros, que ela nem mesmo havia pronunciado.

Logo ficou entendido que algumas verdades jamais poderiam ser ditas de forma explícita a qualquer um, e que em alguns momentos específicos, algumas mentiras se faziam necessárias. O frustrado guarda, além de se recusar a pagar a mísera moeda exigida pelo místico serviço, presenteou Vladimir com um sopapo no peito e um doloroso pontapé nos fundilhos. E quando a cigana sorriu, mostrando os dentes cravejados de ouro, recebeu — por parte do agora ofendido patrulheiro — uma violenta estocada de sua carabina. Essa pancada no belo rosto de Madame Staell resultou em um negro hematoma que durou vários dias para desinchar e que logo evoluiu para uma inflamação em seu olho esquerdo, que tempos depois causaria a perda parcial de sua visão. Esse mesmo policial, inocente de seus abjetos atos — pois estava acostumado, desde sempre, a esse tipo de violência gratuita —, morreria três dias depois, em um sinistro acidente, vítima de sua própria arma, num tiro acidental que ele mesmo causara, quando, em companhia de dois outros soldados, estavam limpando e lubrificando suas carabinas. Sua arma, por alguma razão desconhecida, ainda estava carregada.

Na mesma noite desse último espetáculo, naquela cidade, após os ânimos terem se acalmado e a polícia ter deixado o improvisado acampamento com a promessa de um breve regresso, já conhecedores da truculência da polícia brasileira, decidiram por unanimidade que ali já não era um lugar seguro para exercerem seu ofício. Sob o auxílio e escolta de um dos espectadores, que muito se simpatizara tanto com os artistas em geral, mas principalmente com a contorcionista Cecile — uma polonesa que quase se virava do avesso e que, segundo quem pudesse afiançar com segurança, ou seja, já tivesse experimentado suas carícias, fazia diabruras no leito, deixando qualquer homem de cama por vários dias —, rapidamente desmontaram tudo em plena calada da noite e logo seguiram viagem para outra cidade não muito distante.

Na manhã seguinte, como havia amanhecido chovendo muito forte, a polícia que, além de distribuir gratuitamente — para quem merecesse ou não — tapas e pontapés, não era muito afeita ao trabalho duro, principalmente debaixo de chuva. Além disso, como também não contavam com a perspicácia daquele intrépido grupo e seu secular costume de "anoitecer e não amanhecer", somente retornaria ao acampamento logo bem depois do almoço, isso se o tempo estivesse melhor; caso contrário, só retornariam no dia seguinte. Aquele dia em questão era uma quinta-feira, e no dia seguinte, sexta-feira, era feriado. Como no Brasil, em dias de feriado prolongado, nada funciona — ou pelo menos quase nada —, só retornaram aonde o circo estava montado na segunda-feira, após o enterro do jovem policial que havia acidentalmente falecido na manhã do dia anterior. Contudo, quando lá chegaram, foram surpreendidos com o terreno completamente vazio, encontrando apenas a terra batida e breves resquícios de uma ocupação recente. Não havia nenhum sinal de circo funcionando sem autorização e muito menos de estrangeiros ilegais no local. Pesarosos pela perda de um companheiro, mas orgulhosos com o sentimento de dever cumprido, após buscarem por informações sobre o possível paradeiro do circo e seus integrantes em um botequim em frente ao terreno e sem conseguirem nenhuma pista segura, partiram em busca de outros fora da lei para combaterem. O dono do botequim, que havia alugado o terreno — que era público —, além de perder seus animados inquilinos, ficou também com o prejuízo de alguns tragos de cachaça e vários petiscos consumidos pelos policiais que decidiram fazer um brinde por mais um serviço prestado à população e pela memória de um fiel companheiro — obviamente que nem as bebidas e muito menos os petiscos foram pagos, segundo a polícia, era um grande privilégio a qualquer cidadão poder, de alguma forma, contribuir com a lei e a justiça.

O simpático e seduzido espectador, que os havia auxiliado a fugirem da polícia, custeando de seu próprio bolso o frete necessário para a mudança de todos os apetrechos e badulaques do circo, era filho único de um promissor e abastado fazendeiro do interior do estado, que sempre atendia a todos os caprichos de seu único herdeiro, uma vez que esse opulento e amoroso pai era um solitário viúvo. A pedido desse mesmo filho, ele conseguiu junto à Câmara Municipal uma licença de um ano para que o circo pudesse funcionar livremente na cidade, sem precisar pagar nenhum tipo de taxa, tributo, e nem mesmo o aluguel do terreno onde o circo seria montado. É certo que, apenas três meses depois, o circo já estava se mudando novamente, pois tudo aquilo que é novo pode ser bastante sedutor, mas com o tempo, logo se desgasta e fica velho. Assim, a novidade lúdica do circo, que no início encantou a todos, logo também ficou obsoleta e ninguém mais se interessou em pagar para ver os espetáculos. Até mesmo as contorcidas carícias da polonesa Cecile logo perderam o encanto, pois muito rapidamente se soube que a bela polonesa era do tipo de criatura insaciável. Tal como fazia com seu corpo no palco durante o espetáculo, para a alegria e espanto de todos, no leito não era diferente, contorcendo-se para todos os lados e para qualquer um que lhe causasse algum tipo de interesse. Sendo o apetite dessa polonesa bastante voraz, há quem diga que até mesmo o velho viúvo, pai de seu benfeitor, foi agraciado com um espetáculo particular, que deixou o pobre coitado de cama por vários dias.

Foi assim que, mesmo em terras brasileiras — considerada por grande parte dos habitantes do velho mundo como a terra da oportunidade — longe dos grandes teatros e das atrativas salas de cinema da Europa, o Grande Circo Chittway manteve seu status de eterno e incansável nômade. Perambulando agora pelas diversas e nada promissoras cidades do interior do Brasil, tentando sempre se manter distante das capitais e das perseguições da justiça, sempre a serviço do governo com sua insaciável sede de taxas e tributos.

A situação do circo e de seus integrantes aqui no Brasil não estava muito diferente daquela enfrentada na Europa nos últimos tempos. Certamente, o velho mundo estava sendo castigado com uma grande guerra no Norte, levando a economia europeia, que já enfrentava uma crise há tempos, a ficar ainda pior. No Brasil, mesmo com todas as dificuldades, havia uma vantagem satisfatória de não haver invernos rigorosos com violentas nevascas e o intenso frio que assolava a Europa todos os anos. No clima tropical, as apresentações do circo poderiam acontecer quase o tempo todo. Na maioria das cidades do interior, uma novidade como o circo tornava-se bastante atrativa, uma vez que nessas pequenas localidades ainda não havia chegado o cinema e nem ao menos contava com um simples teatro para o entretenimento de seus habitantes. Num país de grande extensão territorial como o Brasil, majoritariamente católico com sua rigorosa cultura coercitivamente religiosa, havia sempre festas e quermesses quase o ano todo em diversas e diferentes cidades pelo ermo sertão brasileiro. Nessas festas, que movimentavam toda a população da cidade e de suas cercanias, um espetáculo como o circo era sempre uma atração à parte.

Texto publicado na 5ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de maio de 2024. → Ler edição completa

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Brinquedo Macabro

Há quem diga que aqueles que atentam contra a própria vida nem sempre buscam pela morte, mas tão somente tentam acabar com a dor que os…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

“Então, o Senhor disse a Satanás: De onde vens? E respondeu Satanás ao Senhor e disse: De rodear a terra e passear por ela...”. — Jó 2:2

Há quem diga que aqueles que atentam contra a própria vida nem sempre buscam pela morte, mas tão somente tentam acabar com a dor que os atormenta e, em muitos casos, nem mesmo há uma dor, mas apenas um terrível desespero. Era alta madrugada quando um grande alvoroço se fez na rua, com o ensurdecedor som de sirenes e o inquietante matraquear dos vizinhos ávidos de curiosidades em saber sobre a desgraça alheia. Em menos de dez minutos todo o quarteirão estava tomado por carros de polícia, ambulâncias e até mesmo um caminhão do corpo de bombeiros. Além, é claro, de dezenas de desocupados bisbilhotando o que se passava.

Um homem no peitoril da janela de seu apartamento demonstrava estar vivendo momentos do mais completo pavor. O prédio, atrás de si, estava em chamas e o indivíduo, parecendo estar sem maiores opções, ameaçava pular a qualquer momento. Alguém dentre os bombeiros gesticulava para que ele mantivesse a calma, mas o homem sequer lhe dava atenção. Não havia escadas de incêndio no edifício. De alguma forma o homem não tivera outra opção a não ser se refugiar na janela de sua casa. Algo ou alguma coisa o impedira de acessar a escada de emergência do prédio, como os demais moradores assim o fizeram, parece que somente ele se encontrava naquela lastimável situação, até porque não havia muitos moradores naquela velha construção. 

Pelo alastrar das chamas, tudo levava a crer que o incêndio se iniciara em seu próprio apartamento. Seus vizinhos se questionavam onde estariam seus familiares, uma vez que ele vivia com sua esposa e as gêmeas — suas duas filhas de nove anos. Devido a muitos veículos estarem estacionados na rua em frente ao edifício, o acesso do caminhão dos bombeiros com a escada que pudesse chegar até o homem era quase impossível. Os bombeiros improvisaram uma espécie de cama elástica para que o homem pudesse pular mesmo que a altura em que ele se encontrava — quase doze metros — fosse bastante perigosa para aquele tipo de resgate, não havia outra opção.

Depois de um resgate emocionante, aquela estranha figura fora salva sem maiores ferimentos, apenas alguns arranhões e uma leva intoxicação pelo excesso de fumaça inalada por ele. No entanto, seu psicológico estava completamente abalado e ficou pior ainda quando uma vizinha sua o questionou sobre o paradeiro de sua esposa e de suas filhas. Nesse momento ele entrou num violento frenesi ao ponto de ser necessário cinco policiais para contê-lo. Naquele momento parte do mistério se esclarecia. Aquele homem assassinara sua família, colocara fogo em seu próprio apartamento, mas não tivera coragem de atentar contra sua própria vida. 

A balbúrdia que parecia estar se amainando teve uma forte reviravolta, e houve grande peleja por parte da força policial e dos bombeiros para conter a turba enfurecida que se lançava sobre aquele homem para que a justiça fosse feita ali mesmo de forma rápida e impiedosa. Com muita dificuldade o homem fora levado escoltado para a delegacia para prestar esclarecimentos. As chamas foram controladas, mas com grande prejuízo para a construção que, num primeiro momento, fora interditada pelos bombeiros e, muito possivelmente, seria condenado pela defesa civil, pois sua estrutura fora visivelmente abalada pelas chamas. Houve forte comoção popular quando os bombeiros retiraram do meio dos escombros um corpo adulto e dois pequenos corpos menores completamente carbonizados. Pelo estado em que os corpos se encontravam, a perícia teria grande trabalho para apontar a verdadeira causa das mortes daquelas infelizes vítimas. 

Era por volta das cinco horas da manhã quando aquele homem fora fichado na delegacia como, até então, o único suspeito de triplo assassinato, incêndio doloso e tentativa de suicídio. A delegacia que naquele momento deveria estar bastante tranquila, começou a ficar apinhada de jornalistas e curiosos em busca de informações sobre aquele terrível acontecido. Certamente a polícia teria muito trabalho para tentar desvendar aquele crime hediondo. Isso se tornou mais evidente quando o acusado negou veementemente sua culpabilidade para todos os crimes que lhe era imputado. No entanto, sua participação direta ou indireta nos crimes era inquestionável, uma vez que fora preso em delito flagrante. O acusado dispensou a presença de um advogado, mas exigia que um padre viesse a ter com ele e, somente depois de se confessar com uma autoridade eclesiástica, ele daria seu depoimento à polícia.

Por volta das sete horas da manhã, Padre Ozório, um paroquiano local que vez por outra prestava serviços de alento espiritual a um ou outro detento em crise espiritual, chegou à delegacia e foi até o acusado que dava claras demonstrações de um terrível pavor, mas nenhum tipo de arrependimento e nem o menor toque de remorso. O padre entrou na sala de interrogatório e, sabendo que o acusado, estando algemado à mesa de aço, e que de forma alguma traria algum tipo de ameaça à sua integridade física, e que tudo seria devidamente gravado tanto em áudio quanto em vídeo, solicitou aos agentes que lhe dessem um momento de privacidade com o acusado, para que ele pudesse, assim, sem nenhum tipo de coação, abrir seu coração e que sem receio algum lhe pudesse relatar a verdade dos fatos. 

O acusado que esteve de cabeça baixa quase o tempo todo, desde que chegara à delegacia, quando o padre adentrou a sala de interrogatório, levantou sua face ao clérigo e lhe cumprimentou com certo alívio, como se a presença de uma autoridade religiosa lhe trouxesse algum conforto. Pediu a benção ao padre e assim que este se sentou, solicitou-lhe que fosse paciente com ele e que ouvisse toda sua estória do início ao fim antes de declarar algum tipo de juízo. E assim, o acusado principiou...

Antes de qualquer coisa, quero que saiba, padre, que até a noite passada eu mesmo não acreditava em muitas coisas que não pudessem ser devidamente explicadas... Meu nome é Silas de Azevedo sou corretor de seguros — ou ao menos era até ontem à tarde — sou casado e tenho duas filhas...

Nesse momento ele se deu conta de tudo que havia ocorrido e começou a chorar copiosamente. Pela primeira vez o desespero pela morte de sua família lhe veio à superfície e ele teve outra crise emocional que demorou alguns minutos a ser controlada. Padre Ozório o observava em absoluto silêncio, deixando que ele mesmo retornasse a narrativa assim que conseguisse se controlar. Fato que o acusado fez de forma voluntária...

Eu era casado e, até ontem à noite, tinha duas filhas maravilhosas, mas o mal que eu mesmo trouxera para dentro de casa me tirou tudo aquilo que eu mais amava na vida. Não espero que o senhor possa acreditar no que vou contar padre. No entanto, preciso confessar o que realmente aconteceu para que eu possa dar um refrigério para minha alma. Minha filha mais jovem colecionava bonecas e nenhum presente lhe era mais agradável do que uma boneca nova para sua coleção, mesmo que o brinquedo não fosse novo de fábrica. Para falar a verdade ela tinha um apreço especial por brinquedos que já haviam pertencido a outras crianças. Melissa sempre dizia que tais bonecas vinham acompanhadas com as estórias de suas antigas donas. Por um lado, ela não estava de toda errada. Acontece que nem todas as estórias são de contos de fadas e ontem pude comprovar isso da pior maneira possível.

Em uma de minhas viagens, entrei numa loja de antiguidades e adquiri, por uma ninharia, uma bela boneca de fabricação artesanal. O brinquedo era comum como outro qualquer: corpo, cabelo, vestido e um sapatinho simples. No entanto, desde o momento que paguei o preço exigido pela boneca e a tive em minhas mãos, senti algo sombrio próximo a mim. Quando cheguei em casa com a nova boneca, Melissa ficou eufórica num primeiro momento, depois senti certa melancolia em seu semblante. Pensei ser apenas frustração devido ao brinquedo não estar tão conservado quantas as outras que eu sempre trazia. 

Durante o jantar tudo correu normalmente, sem nenhuma novidade, mas assim que a noite avançava, senti que havia algo de muito sinistro no ar, que parecia pesado e sombrio. Era por volta de onze da noite, quando as meninas já estavam recolhidas, que ouvi passos na cozinha e barulhos na gaveta dos talheres como se alguém bastante apressado estivesse escolhendo algo. No momento não me preocupei tanto, pois era comum minha esposa Cecília, vez por outra, preparar um bolo para o café da manhã. Por um momento o silêncio na cozinha se fez presente, mas logo dera lugar por sons imprecisos no quarto das meninas, foi quando me levantei para verificar o que poderia estar acontecendo. 

Para minha tristeza, minha amada Cecília acabara de assassinar nossas duas filhas, que dormiam inocentemente o sono dos justos. Quando caminhei em sua direção percebi que sua face havia mudado, pois, trazia a mesma aparência do rosto da boneca que eu havia comprado naquela mesma tarde. Parei no meio do quarto e chamei pelo seu nome, mas antes que eu pudesse tomar qualquer atitude, ela que naquele momento voltava a ter suas feições normais, deu um grito estridente ao ver o que tinha acabado de fazer. Olhou primeiro para as meninas, com um sentimento de profundo remorso e, depois, para a boneca que estava sobre uma cadeira. Após olhar para a boneca novamente, vi com meus próprios olhos suas feições mudarem novamente e, após ela dar uma estridente gargalhada, cortou sua própria garganta.

Percebi naquele momento que havia algo errado com a boneca, pois ao olhar em sua direção percebi que uma enorme sombra estava atrás da poltrona em que ela estava. Essa mesma sombra me olhava de forma debochada como se zombasse de mim. Tentei me aproximar de minhas filhas e também de minha esposa, mas percebi que não poderia fazer nada mais por nenhuma delas, decidi que daria um fim naquele maldito brinquedo. Contudo, ao me aproximar da boneca fui fortemente golpeado pela sombra, que naquele momento estava tomando feições de um ser dotado de um corpo físico. A visão daquele ser era tão terrível que não consigo descrevê-lo de uma forma fidedigna. Apenas sei que, nem mesmo em alguns livros ou em qualquer filme de terror que eu tenha assistido, eu jamais vira coisa tão horrenda quanto aquela.

Naquele momento decidi que tentaria destruir tanto a boneca, quanto aquela coisa, — que de alguma forma eu sabia que fazia parte daquele macabro brinquedo — colocando fogo em tudo. O resto da história o senhor já deve saber...

Terminando sua estória, ele levantou seu rosto para o padre e o que viu o deixou aterrorizado. Padre Ozório segurava a boneca em suas mãos e o fitava com olhos vermelhos como duas chamas vivas. A face do padre havia mudado e o que antes era o rosto de um homem de uns sessenta anos agora estava liso como a pele de uma foca e parecia ser emborrachado...

Texto publicado na 5ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de maio de 2024. → Ler edição completa

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Escrito por Henrique Siviero, -Contos Henrique Siviero Escrito por Henrique Siviero, -Contos Henrique Siviero

Okina Egao

Aconteceu em trinta e um, se não me engano, sei que foi antes da guerra isso que vou contar. Lembro-me bem, porque já naquele tempo chegava muita…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Aconteceu em trinta e um, se não me engano, sei que foi antes da guerra isso que vou contar. Lembro-me bem, porque já naquele tempo chegava muita gente vinda do Japão para São Paulo, algumas famílias de feições asiáticas traziam seus costumes e a tradição muito antiga dos japoneses. Existem até hoje bairros inteiros que conservam essa tradição. Naquela época muitos imigrantes se misturavam nas ruas e nas fábricas de São Paulo. Eu trabalhei na indústria quando jovem e vi muito bem isso tudo.

Tive amigos de todo jeito quando morei na capital, havia gente de toda a parte entre os meus conhecidos. Trabalhávamos na fábrica de latinhas, naquele calor da máquina que aquecia o metal para prensar as formas. Um desses amigos era um japonês de meia idade — denunciada pelo surgimento de alguns cabelos brancos — e recém-chegado do Japão; seu nome era Ishiro, possivelmente era. Não sei ao certo qual era seu nome porque logo os operários o chamavam por uma corruptela do outro idioma que era Ichinho. Aquele era um homem pequeno, baixo de altura e franzino de músculos, mas incrivelmente forte e tinha um rendimento impressionante na linha de produção. Tive uma breve amizade com ele, mas era difícil a aproximação, talvez muito se deva à sua dificuldade com o nosso idioma. O seu Ichinho era um sujeito recluso e pouco comunicativo, falava por palavras soltas que, quando juntadas, era necessário deduzir a mensagem pelo contexto. Além disso, era também naturalmente solitário, não estava sempre de bom humor, mas era uma pessoa muito amável quando possível.

Me lembro dos japoneses como gente muito hospitaleira, me vem na lembrança uma família que era vizinha do seu Ichinho, se instalaram numa casa perto de onde eu morava e, muitas vezes que passei por lá, passava horas conversando com eles, fazendo amizade e trocando costumes, assim aprendi um pouco da bela cultura asiática. Descobri que eles também tinham uma imagem de estranhamento daquele homem, achavam ele misterioso e recluso demais. Às vezes o Ichinho estava na casa deles, mas nunca os convidou para a própria, diziam que ele nunca acendia as luzes e a casa vizinha estava sempre escura.

Meu pequeno grupo de amigos gostava muito de pescar e caçar nos dias de folga. O trem era muito barato naquela época, comprávamos uma passagem até a alta paulista onde costumávamos ficar até uma semana ou mais, quando possível. Certa vez perguntei ao Ichinho se ele gostava de pescar, tive que explicar com gestos até ele entender, depois com um sorriso me respondeu “Peixe, eu gosta, eu pegava peixe Japão”. Convidei ele para uma de nossas aventuras nos rios da alta paulista, me surpreendi que de pronto ele aceitou, talvez tivesse, com o convite, encontrado o passatempo favorito do homem. 

Nos tornamos mais amigos desde então. Embora ele falasse daquele jeito de quem não domina a língua. Com o passar do tempo começamos a entender melhor as coisas que ele pretendia dizer. Descobrimos que Ichinho tinha deixado a família, todos eles saíram do Japão, mas foram para o norte, para o estado do Pará, só ele, aparentemente, tinha vindo para São Paulo, entre outras coisas ele também nos contou que foi militar e notamos que tinha uma habilidade de mira excepcional, muito útil nas nossas caçadas. Talvez pelo tempo que servira, ainda carregava consigo uma espada que agora servia como facão para abrir picadas no mato. Nós que só tínhamos facões baratos, de aço fraco, ficávamos admirados de ver o homem tirar aquela antiga espada japonesa da cinta e sair golpeando os galhos, cipós e arbustos da mata densa. Em questão de instantes a trilha se formava na nossa frente, tamanha capacidade de corte daquele artefato e habilidade de quem o empunhava. Já ouvi a palavra Katana para se referir às espadas japonesas, mas depois de muito tempo me esclareci que os vocábulos que ele emitia que pareciam algo como “oxaxi”, se referiam a wakizashi, que é um tipo menor de espada, um pouco mais curta que a Katana.

Seu Ichinho, nos momentos de lazer, era uma pessoa alegre, mas logo começava a transparecer para mim aquele tal lado misterioso que seus vizinhos se referiam. Esse comportamento estranho não aconteceu nas primeiras vezes que fomos até a alta paulista, mas com o passar do tempo percebi um padrão suspeito. Quando era noite, já quando a maioria estava dormindo, Ichinho desaparecia do acampamento, depois ouvia-se o estampido de um tiro no meio do mato, então ele reaparecia. Passaram-se algumas noites em que o mesmo se repetia. Certa vez o vi botar a cartucheira nas costas, junto com a espada, e se embrenhar fora da trilha. Outra vez, junto de uns amigos, o vimos voltar da escuridão carregando os mesmos apetrechos, alguém perguntou “E então, matou algum bicho?”. Ele respondeu “Não, escapou”. O que era muito estranho, nas caçadas nunca o vi errar um único disparo e, nas nossas competições de tiro por brincadeira, era capaz de acertar uma garrafa a quase cem metros, coisa que nenhum de nós conseguia.

Mas esta história estranha tem seu lado obscuro que só se justifica por causa de uma ocasião. Numa dessas caçadas, já era tarde da noite — uma noite escura onde até o mato estava silencioso. Estávamos perto do inverno, no mês de maio. Os bichos estavam quietos e as caçadas não renderam nem sequer uma pequena paca, mesmo os peixes no rio eram difíceis de fisgar. Acho que naquele mês só fomos à alta paulista pela diversão do acampamento, passar um breve final de semana. No sábado eu estava sozinho perto do fogo quando vi Ichinho sair da tenda armado com seus dois apetrechos. Acho que ele esperava que não haveria ninguém ainda acordado, mas sem querer eu o interceptei. Ele chegou junto do fogo e se sentou um momento. Naturalmente perguntei “Que vai fazer?”. Ele parecia bem mais sério que de costume, me respondeu “Matar bicho, não queria, mas precisa… Seguir eu, seguir eu… Eu não quero mais… Seguir eu, seguir eu… Precisar matar”. Ele estava trêmulo e parecia nervoso, o modo como falava era desolador e o mal português era ruim até para ele. Estranhei aquele comportamento, mas ele se levantou e se dirigiu para o mato, sumindo na escuridão.

Pensei por um momento, não entendi o que ele disse, mas imaginei que fosse um pedido para que eu o seguisse. Embrenhei-me na floresta atrás dele, não o encontrava, ele não carregou nenhuma lamparina consigo e sequer eu o fiz. Tudo estava escuro, andei alguns metros me afastando da fogueira. Ouvia ao redor de mim o mato retorcer, mas não sabia identificar de onde vinha, minha única referência era o fogo do acampamento que eu deixava cada vez mais longe, ia mudando a todo momento a direção do meu caminho perto da margem do rio, conforme achava que escutava algo andar naquela floresta. Em certa altura percebi que seguia dois ruídos diferentes, em lados opostos dos meus ouvidos, um se aproximava e outro se afastava. 

Ouvi o estampido de um tiro e nessa hora percebi algo se deslocar com uma velocidade incrível, um espectro pálido, que pensei que fosse um grande animal, correu rápido e perdi sua trajetória, que é bem verdade, não soube ao certo estimar tamanho ou qualquer outra coisa. Olhava por todos os lados enxergando muito pouco. Aquelas passadas no escuro, senti se aproximarem de mim, mas eram indiscerníveis para os meus sentidos, desejei ser uma coruja ou um morcego nessa hora. Quando a coisa parecia estar muito perto, já podendo me alcançar, ouvi um grito nas minhas costas. Um grito gutural e aberto, de quem empenha um golpe brutal. Assustei-me e repentinamente me virei, vi o homem com a espada desembainhada, aquele arco da lâmina reluzindo como um espelho era a única coisa discernível no escuro, dei um salto para trás caindo nas folhas de um arbusto e o pequeno japonês veio em minha direção, pensei que fosse me golpear, mas ele chutou algo no chão e depois abaixou a espada, percebi então que alguma coisa fugia fazendo um barulho horrível, já estava distante de nós, cruzou o mato e caiu nas águas daquele rio. 

Perto de mim o homem estava muito nervoso, chegou mais perto indagando.

Que você fazendo?! Que você fazendo?!

Segui você!” Respondi

Você não seguir eu, não seguir… Eu fui pegar bicho

Fiquei confuso na hora e perguntei:

Você não pediu pra eu seguir você?!

Não pediu!” disse, bravo.

Voltamos para o acampamento seguindo a trilha daquela luz da fogueira que deixamos, sentamo-nos novamente perto da brasa, curiosamente ninguém acordou, refleti que afora o tiro e o grito de Ichinho que aconteceu um tanto longe das tendas dos outros companheiros, aquele acontecimento todo foi bem silencioso, mas pareceu barulhento para mim, pois foi pavoroso. Meu coração ainda estava disparado e eu, sem entender nada, fiz um gesto pedindo alguma explicação.

Seu Ichinho não entendeu aquele gesto, ainda estava sério e encarava o fogo pensativo. Depois insisti, não me lembro que palavras usei, mas me lembro como ele me respondeu. Arreganhou os dentes cerrados, fazendo uma careta que mostrava até as gengivas, apontava para a boca e dizia. 

“Seguir eu, seguir eu… Como chama isso?”

Não compreendi de pronto o que ele quis dizer, mas como apontava para os dentes que mostrava, respondi “Sorriso”

“Sorriso grande… Seguir eu” ele disse.

Na manhã seguinte, pouco depois de recolher as coisas do acampamento e dobrar as tendas, fui andar na margem do rio, perto de onde me lembrava ter acontecido tudo aquilo na noite anterior. Poucos acreditam quando conto, mas ao ver marcado na terra da barranca o rastro do que eu imagino que foi a investida do golpe com a wakizashi, olhei ao redor pelo chão e encontrei algo absolutamente aterrador. Era uma mão humana, ou ao menos parecia um pouco humana, estava seca como a de um cadáver, pálida e tinha unhas negras compridas. Tomei aquele objeto com um lenço, só quando o ergui do chão é que percebi a natureza do que era. Há quem diga que foi o susto, isso bem justifica a minha atitude depois de segurar aquilo, mas juro que ainda acredito na minha versão primeira. Senti que os dedos se mexeram e então, rapidamente, arremessei aquilo no rio.

Não contei nada a ninguém, não quis criar nenhum problema ou causar desconfiança dos outros ao meu amigo japonês, acredito que naquela noite ele salvou a minha vida. Na semana seguinte soube que Ichinho pediu conta da fábrica, nunca mais o vi desde então. Seus vizinhos me entregaram uma carta que ele deixou com o meu nome. A carta era muito curta e muito simples, com aquele mal domínio da língua.

Fui embora, vou Pará ver família, ficar com eles agora. Eu poder. Obrigado amigo. Sorriso grande não seguir mais

Junto havia uma gravura, arrancada da página de um livro, quem sabe. No pedaço de papel, cercado de símbolos da escrita oriental que eu não entendo, tinha a imagem do que parecia ser uma máscara japonesa de samurai, mas tinha aspectos horrendos e assustadores, um rosto magro, com olhos penetrantes e o mais expressivo era aquela boca com os dentes à mostra e presas pontiagudas saltadas do canto. A mesma letra desajeitada do bilhete escreveu embaixo da gravura “Sorriso grande”.

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa
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A Casa da Travessa

A ingenuidade é algo bobo, mas com o passar dos dias, meses e anos, simplesmente se torna uma burrice. Escrevo aqui como se fosse um diário, já que me…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

A ingenuidade é algo bobo, mas com o passar dos dias, meses e anos, simplesmente se torna uma burrice. Escrevo aqui como se fosse um diário, já que me faltam páginas nos cadernos, usei-os com intensidade escrevendo cartas que findaram a mim em dias melancólicos. Escrevi muitas cartas e, em todas elas, meus anseios sobre a casa… é a tal casa que irei preservar não só nas lembranças, mas também na pele, todos os fragmentos mais dolorosos que vivenciei.

É inútil me ater aos detalhes quando, nas palavras de meu âmago, estarei apenas descrevendo cada momento que me fez desconfiar de minha sanidade. Estive à beira muitas vezes, não só da loucura, mas também da vida, da fé e esperança. 

Aqui então começo o meu pesar. 

Quando mais nova encontrei o que achava ser o amor da vida toda, na mente adolescente e cheia de floreios, é fácil acreditar que a vida tem belas cores em todas as fases. Não me influenciei só pelo amor, mas também pela falta dele em casa, um lar conturbado deixa a mente de qualquer um à beira do abismo e eu só queria fugir, não tinha idade suficiente para tal, então, na primeira oportunidade, eu só abri a porta e lá quis ficar. 

Nunca me esquecerei daquela casa. A casa da Travessa. No meio de tantas ruas e avenidas longas, numa viela de travessas eu me enfiei. Finalmente achei que um novo lar me traria bons sentimentos, só que as emoções ruins venceram e apagaram qualquer vestígio de algum dia ter visto aquela casa com belos olhos. 

Quando vivemos em uma casa que está em completo caos, temos o intuito de achar que o piso do vizinho é melhor. Mas que piso? Aquela casa estava em um ar de insalubridade por anos, ceras de velas nas paredes. Sujeira de muitos anos de uma mente insana que dominou o local sem a menor assistência. 

O ditado que a grama do vizinho nem sempre é o melhor, cabe bem neste parágrafo. Foi tudo apenas uma mera ilusão. O piso era encardido e nem com um ano de limpeza foi possível tirar todo aquele sebo que estava encarnado. 

Submeti-me ao fracasso desde que dei uma chance ao tal amor e lá fui eu perder meu primeiro desabrochar, minha flor já estava corrompida e a mente aturdida nas palavras do potoqueiro

Quando eu subia aquelas escadas, eu sentia como se fosse a maturidade batendo à minha porta. Era tão nova e tão bobinha, achava que a morte era apenas na velhice. Mal sabia que a minha mente estava morrendo a cada segundo naquela casa. 

A casa era uma tragédia por si só, o fundo mais imenso do profundo poço existente. Minha alma ficou assim desde que entrei pela primeira vez, eu demorei a perceber com as nuvens e arco-íris ilusório. As lembranças que tenho do começo da minha jornada nesta casa são de uma pessoa que eu jamais voltaria a tornar-me. 

Hoje sou o que sou, caminhando de mãos dadas com a esperança que vaga vez ou outra, e também sou as cicatrizes dessa época e, caro leitor, eu achei que jamais iria ficar bem. Não querendo ser motivacional neste desabafo, mas acredite, a vida ainda pode te surpreender. 

Você acredita em fantasmas? No sobrenatural? Na espiritualidade?

Afinal, o que é um conglomerado de perguntas que nos rodeiam com tantas respostas no mundo atual? O que as pessoas estão pensando? O que você pensa e o que eu estou pensando agora?

Vou compartilhar com você o que mais me assustou nessa vida. Foi quando eu senti aquele vulto, não apenas de forma etérea, senti o seu toque gélido em meu pescoço. Estava tentando dormir com a minha criança ao lado. Aquela folga que toda mãe aproveita me foi tirada deixando meus pelos eriçados o dia inteiro. Ainda bem que tenho a mente forte e, mesmo incrédula com o que avistei me empurrando e sufocando contra a cama, eu consegui me afastar. E olha que neste dia eu estava faminta…

Eu sei a dor da fome, sei o que é ouvir o estômago embrulhando diversas vezes por dia. Acostumei-me com isso e já sabia até a hora que ele iria roncar de novo. Talvez seja por isso que ASMRs não me agradam. Aqueles sons baixos me lembram da minha única companhia fora o meu filho. Ouvir o estômago roncar mais e mais naquela casa escura. 

Quando você entra numa casa que o cadeado não fecha, já suspeite logo. Algo normal não está ali dentro, e quando apenas uma lâmpada funciona, então saia correndo o quanto antes. Esse é o manual de sobrevivência cuja experiência posso te alertar. Não sou a voz da verdade, e ainda assim tudo que falo aqui é verídico. É duro ler algo que já foi macerado em uma pessoa quando você não costuma pensar em tais fatos. Nossa rotina às vezes não nos dá espaço para pensar no alheio e talvez seja por isso que mesmo em sociedade, às vezes nos sentimos tão sozinhos. 

Destrinchei alguns fragmentos da casa, e com tantos pensamentos me levando a esse desabafo, te digo que ouça meu conselho. Até um homem de fé que prega a palavra correu ao entrar na casa, ele disse que precisaria derrubar tudo e reconstruir. Quando se tem apenas uma refeição por dia, como se pode derrubar o seu maior pesadelo? É fácil falar vendo do lado de fora, sentindo apenas a energia uma vez por dentro. Aquele ambiente era o mais profano dos lugares. 

Você que gosta de casa assombrada, será que gostaria de sentir o horror que ela realmente proporciona? 

A casa da travessa foi o meu maior medo por anos, eu senti e vivi a morte quase todos os dias. Eu não risquei só as folhas deixando cartas pela casa, acabei riscando também o meu corpo, mas a tinta era de outra cor. Não deixo mais um pingo sequer dessa tinta me atormentar, já agonizando tudo que tinha pra viver quando morei na travessa. 

O declínio mora naquele lugar, a casa estava aos cacos e não só por ela ser daquele jeito, os membros passados não cuidaram bem e ela sentiu. Eu a julgo porque fui uma moradora que sofreu os traumas da casa, ela descontou em mim pensando que eu seria só mais uma, e eu superei as dores dela. 

Como que se abraça uma casa?

A Bíblia com as fotos furadas nos rostos e apenas uma foto normal. As palavras clamando por um nome daquele em quem acreditam, mesmo algo estando fora das leis divinas. 

A crença na existência se fez permanente naquela mente anterior. Eu fui apenas uma câmera para registrar tudo aquilo em alguns momentos, mesmo que minha lente estivesse embaçada e quebrada. 

Guardo em mim as emoções daquela época e te digo, caro leitor, não entre numa casa da travessa. Principalmente se ela tiver tudo que te falei. Sua mente pode não ser mais a mesma. Ou você supera ou você encerra sua doce vida. 

Não apague a única luz que tem dentro da casa. Ela pode ser a única fagulha que existe também em você. Se nem o eletricista conseguiu funcionar todas as luzes do ambiente, quem sou eu para apagar a única coisa que me restava. 

Um dia eu saí e o banheiro caiu, ainda bem que ninguém se machucou. Ouvir os detalhes da casa não morando mais lá, me faz sentir naqueles jogos de realidade virtual, porque eu senti tudo e as cicatrizes que hoje estão fechadas, não doem mais como antes. O único declínio que me cerca é o da minha mente se deixar levar pelas lembranças mais dolorosas da casa da Travessa.

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4. Jardim da Morte

Na penumbra de um jardim oculto, úmido e sombrio, onde não existe tempo, onde todas as coisas sempre estão perto de findar, porém nunca se extinguem…

Kay Steventon -  The Wheel of Fortune

Na penumbra de um jardim oculto, úmido e sombrio, onde não existe tempo, onde todas as coisas sempre estão perto de findar, porém nunca se extinguem; onde as flores eternamente exalam seu perfume como suspiros finais e os raios de uma lua cheia incomum derramam-se pálidos sobre a relva, uma mulher está sentada esperando. Os animais que lá estão já não podem ser diferenciados dos objetos que compõem aquele cenário, pouco se movem e mal fazem ruídos, parecem apenas aguardar, se ouve apenas o sussurro inquietante do vento, como se fosse um eco dos lamentos dos que se foram. Uma ceifadora, envolta com sua capa negra como uma mortalha, chega e se senta de frente à mulher em uma mesa de mármore gasta, com fissuras e imperfeições. A mulher, que aparenta estar habituada a toda aquela encenação, inicia a conversa:

— Vamos jogar xadrez desta vez?

A ceifadora responde com uma voz calma:

— Hoje não, deixarei você escolher.

A mulher, imersa em seus pensamentos, lembra-se que em vida era boa com cartas:

— Vamos jogar carteado dessa vez, nesse eu sou boa. — Murmura ela, com uma pontada de esperança de que dessa vez iria ganhar.

A ceifadora pega sua maleta, um artefato antigo coberto de runas estranhas, e tira um baralho tarô. As cartas, gastas pelo tempo, são embaralhadas com um ranger sinistro.

— Sério? Você vai ler meu futuro? — A mulher pergunta, com um riso nervoso. — Estou morta, não tenho um futuro.

— Apenas vamos jogar e ver o que pode acontecer. — Responde a ceifadora.

Com habilidade ela segura as cartas como se fosse um leque e olha para a mulher: — Tire uma carta, para que se dê início ao jogo.

A mulher olha a ceifadora com dúvida e pergunta:

— O que isso significa? Normalmente você é quem escolhe o jogo e é a mais falante e agora fica nesse silêncio e me pede para escolher uma carta? — A mulher dá mais um riso nervoso — Não era esse tipo de jogo que eu estava falando, há algo que eu preciso saber?

A ceifadora suspira e olha para a mulher:

— Há certas regras aqui no Sheol que não posso burlar, porém há outras que algumas pessoas que estão fora dele podem. E é isso que estou fazendo agora, fazendo um favor a um conhecido que pode burlar essas regras. Então apenas escolha a carta.

A mulher fita as cartas com uma mistura de temor e esperança. Sem saber muito bem o que esperar. A mulher tirou uma carta do leque e entregou à ceifadora que sorriu e mostrou a ela a carta.

— Ótimo, la roue de fortune. — Cantarola a ceifadora numa pronúncia perfeita e musical — A roda da fortuna.

— E isso significa que? — A mulher pergunta curiosa.

A ceifadora sorriu para ela, segurou as mãos da mulher e falou:

— Essa carta significa o ciclo da vida e com ela irei dar a você a oportunidade de ver a sua amada, pois eu sei que isso que passa pela sua cabeça o tempo inteiro, não é?

— Sim, isso passa pela minha cabeça sempre, falo sobre ela para você o tempo todo, mas se ela tiver que morrer para que isso ocorra eu prefiro não a ver.

A ceifadora falou: — Nesse momento ela está num local envolto em magia, num local de vivos, mortos e não tão mortos — a mulher arregalou os olhos — Calma, ela está viva e consciente, é claro — disse a ceifadora acalmando a mulher — Então será possível que vocês tenham um breve encontro, nesse exato momento, então aproveite.

— Eu tenho que ir? — A mulher fez uma careta.

— Oras, mas é claro, estou te dando a oportunidade de encontrar a sua amada em um lugar além dos véus da morte. Só aproveite, nem todos têm a chance de reencontrar os que perderam.

— Isso meio que parece uma pegadinha — diz a mulher ainda em dúvida.

— Oras, querida, apenas vamos, não há muito o que se fazer aqui no Sheol, um passeio fora irá ser bom para você, e não se preocupe, estarei por perto para te trazer de volta. — A ceifeira se levanta sorrindo e segura a mão da mulher — Então, vamos?

A mulher fecha os olhos e inspira profundamente e solta o ar por hábito: 

— Sim, vamos, não é sempre que algo diferente ocorre nesse lugar. 

E assim, uma porta roxa, adornada de arabescos prateados nas bordas envolta em uma névoa púrpura se materializou, a mulher e a ceifadora desaparecem daquele jardim incomum, deixando para trás apenas o eco de suas palavras e as cartas sobre a mesa.

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Amorphallus

Amarílis beijou o adorado esposo, apanhou o toucado e partiu. Era dia de consulta marcada, o doutor Cravino examinaria a dor que vinha a incomodando há tempos…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Amarílis beijou o adorado esposo, apanhou o toucado e partiu. Era dia de consulta marcada, o doutor Cravino examinaria a dor que vinha a incomodando há tempos, desde a infância para ser exata. Quando bebê, Amarílis quebrou a perna, imagine só um bebê com a pequena perna enfaixada, pois então, durante a vida, episódios como este ocorriam com espaços de seis anos, logo, aos quarenta, Amarílis era enfraquecida, torta e manca. Não fora por acaso que vivia quebrada, a mulher guardava um segredo, e este segredo a assombrava no sentido literal do vocábulo.

Ainda pequena, via fantasmas, embora os considerasse fantasmas, tinha ciência que caso fosse pedir proteção da mãe, a mesma os nomearia como demônios, pois era como acreditava, e a jovem Amarílis assustada o suficiente por ser assombrada por seres sobrenaturais, chamou-os pelo nome que sussurravam insistentemente antes de derrubá-la:

“Amorphalluss.’’

Os tais Amorphallus, eram medonhos em demasia para serem desprezados; eram esbranquiçados, de aparência cadavérica e translúcida, como envolvidos em um tecido de caimento enrugado e esticado, suas mãos, a maioria das vezes pousadas sobre o peito eram de aspecto humano, porém as extremidades eram avermelhadas em um tom rubro como se estivessem acabado de submergir de um lago sangrento, e de certa forma, por vezes pingavam o liquido avermelhado e viscoso o qual ao respingar sobre o chão transformava-se em pétalas de rosas, deixando um rastro por onde passavam.  Os olhos eram tristes e melancólicos, de aspecto leitoso e vazio, as bochechas ossudas constantemente tingiam-se de vermelho, como os de suas mãos, em círculos arredondados e simétricos.

Amarílis temia os Amorphallus, pois a perseguiam desde sempre, quanto mais madura, mais incomodada se sentia com o toque gelado de suas mãos a apalpá-la, torcerem seus mamilos, inserirem objetos pontiagudos em seus pés e mãos, e espetarem seu corpo com alfinetes. Quando não a tocavam, balbuciavam frases incompreensíveis, as quais compreendeu mais tarde, porém somente aos vinte cinco anos.

Por um tempo Amarílis fechou-se para a vida, pois não havia meios para disfarçar o incomodo, e ao ofender as criaturas invisíveis aos demais, ganhou o rótulo de louca, acuada e supersticiosa. Logo, já não a incomodava viver rodeada de Amorphallus inconvenientes, a mansidão a deixava mais bonita, disseram as criaturas uma certa vez, e rendida, aceitou a mansidão.

Mesmo solitária, à espera de uma condução colaborativa, era vista trajando mantos pesados sobre os ombros, bonnets enormes na cabeça, que a impedia de olhar para os lados e serviam com o propósito de esconder sua beleza, e por último saias enormes de cores sóbrias, para que as criaturas sobrenaturais não rastejassem por debaixo do tecido e enfiassem as longas unhas em sua carne. 

— Dói?

— Não.

Respondeu Amarílis, envergonhada pela quantidade de veias azuladas, as quais subiam por detrás de seus joelhos pálidos.

— Aqui?

— Não, porém sinto um estremecer no interior da perna e nos tornozelos.

— Hum...

A mulher mal finalizou sua resposta e um Amorphallus a encarou totalmente estático, porém, sentindo-se ignorado, o ser mal-intencionado abriu sua caixa toráxica de forma dramática a fim de apresentar o seu coração, muito parecido com o órgão humano, porém constituído de pétalas de rosas vermelhas. Doutor Cravino, alheio aos “problemas femininos’’ deixou o modesto leito em busca de uma compressa de gelo, a fim de aliviar a pressão do tornozelo de sua paciente.

— Onde sentes dor?

Questionou uma jovem no leito ao lado.

— Perna direita.

— Braço esquerdo.

— Desde menina...

— Desde bebê.

As duas damas se entreolharam em espanto, jamais tinham ouvido falar de uma situação como a delas, e logo em uníssono proferiram a razão de seus problemas:

— Amorphallus.

E com o simples pronunciar do nome, surgiram os seres de todas as partes, espalmando as mãos para cima e ascendendo a vela derretida que surgia de ambas as mãos sempre que as espalmavam. 

— Chamo-me Lacinta, trabalho como ama seca em um casarão de fazenda, e por lá apenas um Amorphallus surpreendeu-me. Singular até o monstrinho residente do casarão, porém nada desagradável comparado aos outros que vi até o momento.

— Sou passadeira, e chamo-me Amarílis – Respondeu Amarílis de forma amigável.

– Vejo Amorphallus por todos os lados, consigo os identificar mesmo escondidos.

— Gostam bastante de se esconder e de clamar piedade.

— Minha mãe jamais viu um.

— A minha também não.

— Porém, meu irmão....

— Como disse, Lacinta?

— Meu irmão enxerga Amorphallus.

— Céus! Imaginei que apenas mulheres os enxergavam...

— Creio que poucos homens o veem, porém de forma diferentes, no entanto igualmente arrepiantes e dramáticos. 

— O que os dele carregam no interior do peito?

— Um coração feito de penas de pássaros brancos e vermelhos. 

— Conte-me, a pior situação em que passou com um Amorphallus?

  Lacinta ponderou por um instante.

— Berraram ao meu ouvido, de modo que quase enlouqueci. Fizeram-me cometer fraude de assinatura e xingaram-me de nomes vulgares, acusaram-me injustamente e desapareceram por dias, deixando-me pensar que havia feito algo terrível e realmente merecia seus insultos. E os seus?

— Inferiorizaram algo que amava muito. 

— Tudo bem, não se aflija, quando casarmos desaparecerão para sempre, disse mam...

Lacinta interrompeu a frase deslizando os olhos amendoados para o círculo dourado ao redor do dedo de Amarílis.

— Não vão embora, não é mesmo?

 Exprimiu em preocupação.

— Jamais.

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Escrito por Sahra Melihssa, -Contos Sahra Melihssa Escrito por Sahra Melihssa, -Contos Sahra Melihssa

A Lenda de Ohropo e Sepulcro

Ohropo desperta ao entardecer e enquanto seus olhos se tumulam no precipício, um corvo de olhos pútridos crocita infeliz; a alma de Ohropo, em partes, obliterada…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Ohropo desperta ao entardecer e enquanto seus olhos se tumulam no precipício, um corvo de olhos pútridos crocita infeliz; a alma de Ohropo, em partes, obliterada, retorna ao seu corpo sob um manto negro e pesado — vertendo abismo. Deste modo, quando Ohropo olha em direção ao som violento, a noite está ofuscada e, murmurando, ela ascende em seu coração um temor inominável que, de súbito, outorga-lhe nítidas memórias hediondas. Instável, caminha pelas sombras, e lamuria. Compreende que seu destino inconcusso, na tarefa imorredoura de irrigar o mundo humano com seu aspecto soturno, é o sentido primevo da sua criação — e desta fatalidade ele não pode esgueirar-se, mesmo que resida, no seu mais íntimo ser, um pequeno esplendor de desejo cuja emersão advém em uma indagação longínqua, uma dúvida ínfima, um tão-somente “por quê?”.

— Qual horizonte teus pronos olhos à maldição perscrutam? — A voz que indaga possui um sibilo indistinto, de entonação lôbrega como o canto gregoriano. É Sepulcro. Ohropo volta-se devagar a Sepulcro que se orvalha na cinesia do frígido vento crepuscular; é bela como anjos lapidados pelas covas que a compõe. Ohropo nunca vira Sepulcro.

— Quem és tu? — Sonda Ohropo cuja voz é franzina em angústia.

— “Quem sois?” é o que consultas, pois que não me restrinjo a uma. — Responde Sepulcro, altiva.

Há custosa aflição à fronte de Ohropo cuja verve falecera no primeiro despertar ao entardecer, quando em seu cerne ainda habitava a si mesmo e quando suas mãos eram retratos pulcros de desgraça e sangue. Naqueles tempos, Ohropo vociferava, plangia, e nada mais.

— Vejo... És as mortes todas... — conclui, pelo que vê, através de seus olhos ainda semicerrados em ranzinza tragédia.

— Ora, que proseio contigo do além? Nada disso. Estou à vida como tu estás ao teu caminho, sempre fiel — ufana Sepulcro, elegantemente.

— Sempre fiel... — Ohropo repete, pois está confuso, algo no âmago da sua tétrica constituição oscila.

— Leva-me contigo, — implora Sepulcro — posso deixar menear teu fardo no interior de meu cálice que há de envolvê-lo em sua seiva sepulcral.

— Não posso... — Ohropo responde e suspira — Este fardo é horrendo, há de desolar todo o vosso encanto.

— Há nada que me ascenda o temor — teima Sepulcro.

— Impossível... — insiste Ohropo — Pavores são o soprar da aragem fria, e são o agora, o amanhã, o tudo o que é e há de ser.

Sepulcro sorri em revide.

Sua beleza revela uma reminiscência a Ohropo, símil ao que o oscila no cerne, o esplendor lúgubre de seu outrora tão cruel. A lágrima que vertera pela última vez há tanto tempo, renasce tímida, intolerável. Contudo um som execrável impede o alívio etéreo do broto da emoção, é a estrondosa sonância da foice de Exício. O corpo esquálido de Ohropo se consome ao desespero lutuoso, sua sentença ressurge do abismo entre ele e a inalcançável Sepulcro que, naquele átimo de tempo, fechou seus olhos santos e ideou um enlevo ao lado de Ohropo.

— Sepulcro! — Ouvem ambos, e tremulam, a voz é grave e trevosa, Exício a chama, feroz e austero; por isso Sepulcro vai ao seu encontro, pois a ele pertence, então desvanece. Ohropo senta-se sob a sua perdurável dor em solitude, frente d’onde outrora vira Sepulcro; e, sob um semblante medonho, ele espera até poder vê-la outra vez.

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa

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Maravilhoso Jardim da Morte

A morte convida-me delicada e insistentemente. Ela mostra-me um cenário onde será a sua recepção — e que aprazível! Ó sim, é. Ela me chama para um lugar onde…

Victor Malyushev

A morte convida-me delicada e insistentemente. Ela mostra-me um cenário onde será a sua recepção — e que aprazível! Ó sim, é. Ela me chama para um lugar onde será do jeito que eu quero, de um jeito que parece me apetecer. O lugar é mais leve do que este mundo. E a sua voz tem cada vez mais se aproximado dos meus ouvidos a cada dia. Falta apenas eu vê-la, a morte. É como se ela estivesse a poucos passos de mim, ou, até mesmo, à minha frente, apenas aguardando-me e estendendo-me a sua mão suave, fina, alva; translúcida ela é.

A morte que me chama não é áspera. Ela é paciente, tranquila e quase sem dor — é o que ela promete. Entretanto, no fundo, eu sei que passarei por um grande incômodo se, por acaso, eu aceitar o seu chamado. O prazer virá depois (depois do agonizar), quando eu estiver onde ela está, onde ela mostra-me ser o verdadeiro paraíso.

Correremos juntas num jardim frutífero, esverdeado,
farto de flores, borboletas e cantos de pássaros aos nossos ouvidos,
enquanto sorriremos felizes, enfim, de todo o sofrimento do mundo anterior.
O sorriso da morte é paciente e amável.
Seus olhos se fecham ao sorrir dos seus lábios.

Uma canção já podemos ouvir em todo o jardim da nova vida; vida essa que seria a tal morte para mim. Mas a morte mais vivida e real. Essa canção se repete em nossos ouvidos e nunca tem seu fim. Ela simplesmente começa e, ao terminar, se inicia mais uma vez, e novamente, e nunca se finda. Então, as nossas mãos unem-se — a minha mão e a mão da morte, e pulamos juntas, arrodeando todo o jardim, sorrindo, pulando e felizes uma com a outra, como se ali fosse um casamento, união, aliança.

Ouve? Escute o som das nossas gargalhadas. O som da gargalhada dela, e da minha, tão felizes. O vislumbre é real.

— Venha tão logo para este lado, querida aprendiz. — Ouço.

Será que é lá que estão todas as pessoas que eu amo e se foram? É lá que estão todos aqueles que ouviram o chamado da morte e o atenderam, não é mesmo? Eu sei que é...

O convite continua sendo feito. Ainda que eu nunca o aceite, ela sempre vai estender a sua mão doce e suavemente funesta para mim. Ainda que a minha resposta seja 'não' e que eu esteja apenas redigindo um texto simples e doloroso, ela, ela vai estar sempre esperando por mim, mostrando-me tudo em visão, do que eu poderei ter — enfim, o paraíso, e não deste mundo mais, o padecer.

O convite da morte para o maravilhoso jardim que ela oferece sempre vai existir. Ela sempre vai estar lá... e eu vou escutar a sua voz para sempre, insistente e eternamente dentro de mim.

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa
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O Cavaleiro das Sombras

— Hugo de Payens era oriundo de uma família da baixa nobreza francesa sem muito prestígio, mas com fortes laços de parentesco com os Montbard…

Criado para o Castelo Drácula com Midjourney

“Uma coisa que humanos possuem e outras criaturas não: temos segredos.”. — Osamu Dazai

— Hugo de Payens era oriundo de uma família da baixa nobreza francesa sem muito prestígio, mas com fortes laços de parentesco com os Montbard – família à qual pertencia São Bernardo de Claraval. Em sua terra natal, era apenas um humilde vassalo do conde Hugo de Champanhe. Contudo, quando fez parte da Primeira Cruzada e chegou a Jerusalém, assim que o conde – seu suserano – voltou para o Condado de Champanhe, ele optou por ficar na Terra Santa. Logo organizou um grupo de nove cavaleiros que viriam a se tornar a Ordem do Templo de Jerusalém. O nome de oito cavaleiros desse seleto grupo era bastante conhecido, pois todos eles eram da França. No entanto, a identidade do nono cavaleiro permanece desconhecida até os dias de hoje, apesar de se especular que ele era originário de algum lugar do oriente chamado “Qeryoth”.

Disse o professor Aleksiéi a sua modorrenta turma de Ensino Médio numa enfadonha aula sobre as Cruzadas. Por mais que ele tentasse adicionar fatos curiosos ao conteúdo, aquela turma – excetuando um aluno ou outro que, vez por outra, fazia algum questionamento pertinente – parecia não se interessar muito pela História da Idade Média com seus cavaleiros, castelos e lutas sem sentido, que às vezes eram travadas por motivos torpes. As fantásticas estórias que permeavam o imaginário medieval sobre seres sombrios, criaturas das trevas e maquiavélicas bruxas com seus pactos demoníacos, não podiam constar em seus ensinamentos, pois de forma alguma condiziam com as diretrizes da escola que, além de ser uma instituição confessional, tinha uma filosofia prioritariamente cristã.

Além de sua dolorosa frustração para com o desinteresse de seus alunos, este douto professor ainda havia sofrido outro grande revés na vida, quando após alguns anos de pesquisa, conseguira publicar um livro sobre alguns intrigantes saberes antigos que supostamente estariam nas mãos de uma antiga sociedade secreta denominada de os “Guardiães da palavra”. Tão antiga quanto as pirâmides do Egito. Tais segredos, – se acaso fossem revelados ao mundo – poderiam mudar toda a estrutura de tudo aquilo que acreditamos sobre a nossa insignificante existência nessa terra. O livro foi praticamente um fracasso. Uma vez que não conseguiu uma editora que bancasse seu projeto, ele mesmo custeou do próprio bolso todos os gastos com a publicação da obra. Menos de cem exemplares foram vendidos e, talvez, menos da metade disso tenha sido lido na íntegra. Quase ninguém levou a sério suas pesquisas, tanto que se tornou alvo de chacotas pelos próprios colegas de trabalho, os quais o aconselharam a escrever ficção ou fantasia.

Em mais um daqueles dias, onde o indivíduo chega a imaginar que talvez tenha escolhido a profissão errada, professor Aleksiéi encerra sua aula com um sentimento de melancólica decepção. Todos os dias, antes de dar seu dia por encerrado naquela deprimente escola, – onde sua liberdade pedagógica era toldada por limites absurdamente dogmáticos – ele ainda tinha que passar pela odiosa sala dos professores para bater seu ponto de saída. Professor Aleksiéi achava que a sala dos professores era o lugar mais deprimente da Terra, um ponto de encontro de pessoas sem nenhum tipo de conteúdo interessante além daquilo que condizia com suas próprias disciplinas; além de estarem por demais decepcionadas com suas vidas particulares – ao ponto de utilizarem aquela sala como consultório de psicologia. Decerto que possuíam uma energia tão negativa que seria capaz de secar, em segundos, o mais viçoso galho de arruda.

Aquela era apenas mais uma sexta-feira como outra qualquer, assim que ele marcasse sua presença, garantindo mais um dia de trabalho em seu ordenado, logo se encaminharia para sua casa para mais um final de semana comum na vida de um professor quarentão, ainda solteiro. Estar sozinho não fôra uma opção, mas devido sua vida não ser muito atrativa para muitas mulheres que lhe cruzaram o caminho, continuava sozinho, rodeado de seus livros e suas misteriosas pesquisas. Após cumprir com suas obrigações burocráticas, estava ele descendo as escadarias da escola quando um homem de aparência bastante simpática lhe abordou já quase nos últimos degraus e logo lhe falou, com certa intimidade, como se já o conhecesse há tempos:

– Boa tarde, Professor Aleksiéi Mirandynsk. Posso ter um minuto de sua atenção?

Aquilo não era nada anormal na vida de um professor, pois era comum pais desesperados vir a ter com um docente ou outro, em busca de socorro para as deprimentes notas que certamente levariam seus filhos a uma reprovação final. Mas acontece que ainda era início do ano letivo. Mesmo assim, sem temer coisa alguma, respondeu àquele estranho cordialmente.

– Boa tarde. A quem devo a honra?

– Represento alguém muito importante que, assim que leu o seu livro, ficou muito admirado com seu trabalho e está bastante ansioso por conhecê-lo pessoalmente. Sua presença está sendo solicitada em sua casa. Esse nobre senhor deseja lhe fazer uma irrecusável proposta, ainda hoje mesmo. Caso queira me acompanhar, estou aqui na incumbência de levá-lo até ele.

Professor Aleksiéi sempre ouvira de sua saudosa mãe que jamais deveria conversar com estranhos, muito menos aceitar uma carona para qualquer lugar que fosse. No entanto, como poderia descobrir quem tanto admirava seu trabalho? E como poderia saber qual proposta seria essa se não entrasse no carro com aquele distinto senhor que, muito educadamente, o abordara na porta da escola em plena luz do dia com dezenas de pessoas olhando? Decidiu que correria esse risco. Apertou a mão que homem lhe estendia e disse que o acompanharia com muito prazer.

O carro que os aguardava na porta da escola era um Rolls-royce Phantom, tão preto como uma noite sem luar. Assim que entrou no veículo, professor Aleksiéi já se sentiu num outro ambiente, totalmente inalcançável para seus parcos ganhos. Ao se sentar num estofado tão liso e lustroso como a pele de uma foca, logo lhe fora servido uma refrescante limonada que ele sorveu em grandes goles, pois, além de estar deliciosa, ele estava bastante sedento. Professor Aleksiéi era do tipo de pessoa que ainda acreditava na idoneidade das pessoas e que, em momento algum, ficou temeroso por estar ingerindo uma bebida batizada, tanto que assim que entornou o que havia sido oferecido a ele, pediu um pouco mais. Dentro do veículo o clima estava amenamente fresco e havia um leve odor de almíscar no ar. Havia um fundo musical tocando num tom quase inaudível, – para ele pareceu ser Brahms ou Chopin. Devido a todas aquelas peculiaridades, ele logo imaginou que realmente seu admirador era um homem de muitas posses.

Os vidros escuros do carro davam um sentimento lúgubre ao interior do veículo que, somado ao agradável som da música e o leve deslizar das rodas do carro pela rodovia, logo trouxe certa sonolência àquele curioso passageiro. Professor Aleksiéi, em menos de cinco minutos, havia caído num sono profundo. Quando acordou, teve a impressão de que muito tempo havia se passado. Sentia um frio intenso que enregelava todo o seu corpo como se estivesse dentro de um freezer. Havia um gosto estranho na boca e por mais que tentasse abrir seus olhos ao máximo, não conseguia enxergar coisa alguma, pois estava rodeado de trevas profundas. Quando tentou se mover, percebeu que estava muito bem amarrado a uma cadeira. 

Como não poderia ser diferente, começou a gritar desesperadamente por socorro. E só parou com sua ensandecida algazarra, quando alguém sussurrou próximo ao seu ouvido, com uma voz doce e bastante agradável.

– Silêncio, professor, assim poderá acordar até mesmo os mortos...

Percebendo que não estava sozinho, de certa forma ficou um pouco mais aliviado. Logo uma luz fora acesa acima do local onde estava. Devido às trevas de onde se encontrava até aquele momento, seus olhos demoraram um tempo para assimilar a luz e, quando o fez, não gostou nada do que viu. O lugar onde se encontrava parecia ser uma espécie de cripta ou algo do tipo. Havia várias esculturas estranhas pelas paredes, o que imediatamente o fez recordar o universo de Lovecraft, mas também era possível perceber, – mesmo com toda a penumbra que o rodeava – que também havia figuras conhecidas por ele, como: gárgulas, sereias, esfinges e vários outros seres míticos. O ambiente era frio e tinha um desagradável odor de coisas antigas há muito tempo guardadas, como se fosse um mausoléu. Assim que se ambientou ao lugar, percebeu logo à sua frente uma espécie de altar-mor onde havia um estranho ser sentado numa cadeira de espaldar alto como se fosse um suntuoso trono. 

Essa sinistra figura sentada à sua frente, logo se dirigiu a ele, numa voz que mais parecia um clamor proveniente do fundo de uma profunda caverna. 

– Aleksiéi Mirandynsk filho de Joseph Rosenberg e de Eugênia de Aguilar o que o senhor realmente sabe sobre essa tal seita que é mencionada em seu livro? Onde conseguiu informações sobre o nono cavaleiro da Primeira Cruzada?

– Que história é essa? Quem é você? Como pode saber o nome de solteira de minha mãe? – Apenas uma ou duas pessoas sabiam que sua mãe era de origem judia –. Não vou responder a nenhum tipo de pergunta até vocês me soltarem e me contarem exatamente onde eu estou? Porque estou preso aqui? O que vocês querem de mim?

A estranha figura olhou através dele, como se estivesse se dirigindo a alguém que estivesse a suas costas e parlamentou com essa pessoa numa língua muito estranha, que mais parecia o constante arranhar de giz numa lousa nova. Após um breve silêncio, a mesma figura que havia lhe falado anteriormente, lhe dirigiu a palavra novamente.

– O que escreveu no seu livro, sobre determinadas pessoas terem obscuros segredos da humanidade, foi apenas um breve vislumbre retirado de sua mente fértil, ou o senhor conseguiu algum documento ou relato que corroborasse essa hipótese?

 – Eu já disse que não vou dizer uma única palavra, enquanto não me soltarem. 

Nesse momento alguém ou alguma coisa pousou uma mão sobre seu ombro de uma forma bastante afetuosa. Talvez fosse a mesma pessoa que lhe sussurrara em seus ouvidos, sobre ele poder acordar os mortos, com todo sua gritaria. Logo ele constatou que não estava errado em sua suposição, pois essa mesma pessoa voltou a lhe falar, e ele logo reconheceu a voz.

– Professor, seja um pouco mais educado. Queremos apenas tentar lhe ajudar a esclarecer algumas de suas mais terríveis dúvidas. Se colaborar conosco, terá material suficiente para escrever uma das mais intrigantes obras literárias da história. Se nos ajudar naquilo que precisamos saber, certamente o senhor será um Dante Alighieri da era pós-moderna.

Após tentar inutilmente de todas as formas se soltar, e percebendo que lutar seria perda de tempo, decidiu que tentaria colaborar com aquelas sinistras pessoas, – ou seja lá o que fossem elas – respondendo seus estranhos questionamentos.

– Meu livro foi escrito baseado em inúmeras pesquisas que fiz ao longo da vida. Não consigo me lembrar de imediato onde consegui todas as informações que preenchem quase trezentas páginas de escrita. São muitas informações num único lugar.

– Não tenho interesse em tudo o que escreveu, pois sei que grande parte do seu livro não passa de um emaranhado de escrita prolixa. Meu interesse está apenas no capitulo 13, onde o senhor discorre sobre a Primeira Cruzada e a presença de um dos nove cavaleiros da Ordem do Templo, como sendo ele oriundo de Qeryoth. Diga-me professor, essas pesquisas que o senhor alega ter feito, onde conseguiu material para tantos assuntos diferentes? O senhor possui algum documento fidedigno sobre esse nebuloso cavaleiro em sua casa? Descobriu algum fato curioso sobre ele nas leituras que fez? Alguém o ajudou de alguma forma, nessas pesquisas?

Sabendo que seria inútil negar qualquer coisa naquele momento, pois logo imaginou que aquela estranha figura a sua frente pareciam saber de tudo, e aquilo que não soubesse, logo encontraria uma forma de descobrir. Decidiu então, que o melhor a se fazer era relatar onde havia conseguido a maioria das inverossímeis informações sobre o nono cavaleiro da Ordem do Templo. Jamais imaginou que um desconhecido cavaleiro, de origem incerta e destino mais obscuro ainda, pudesse gerar tanto interesse, por parte de alguém que parecia ser tão importante e poderoso. Segundo suas pesquisas, esse insignificante cavaleiro surgiu de lugar nenhum e logo saiu de Jerusalém com o término dessa Primeira Cruzada, pelo que parece, assim que conseguiu aquilo que desejava, desapareceu dos anais da História, como se nunca tivesse existido

– Fora numa antiga abadia que fica entre o norte da Espanha, a alguns quilômetros de Pamplona e o sul da França perto da cidade de Baiona. Numa secular construção que se encontra em ruínas atualmente, e está abandonada há muito tempo pela própria igreja Católica que apenas cercou o lugar com um imensa cerca eletrificada para evitar os vândalos de saquearem o lugar. Contudo, moradores do local me disseram que noutros tempos, ali se encontrava um antiga biblioteca com inúmeros documentos de suma importância para a igreja. A maioria desses documentos foram saqueados ou queimados pelas tropas de Napoleão ainda no século XIX, mas muitos dentre os quais mais importantes, haviam sido salvos por habitantes locais. Consegui as informações para o meu livro numa hospedaria em Santesteban próximo a abadia. 

O dono do estabelecimento me forneceu as informações que eu precisava saber, e até mesmo, me permitiu ver alguns manuscritos medievais, – não que eu entendesse muitas coisas, pois estavam escritos num dialeto que jamais tinha visto em toda minha vida – que citavam a existência de uma secular sociedade que era detentora de inimagináveis conhecimentos sobre os mistérios da humanidade. Esses tais Guardiães da palavra saberiam dizer quem projetou as pirâmides, por que Stonehenge fora construído e a origem dos celestiais veículos avistados pelo profeta Ezequiel. Além é claro, quais segredos guardavam o templo de Salomão que tornara a Ordem dos Templários tão temidos até mesmo pela própria poderosa Igreja. 

Dentre esses antigos documentos, havia uma espécie de diário de Hugo de Payens, que atestava a presença de um cavaleiro dentre os nove pares de França, que não era francês, mas de algum lugar vindo da antiga cidade de Qeryoth. Segundo esse diário, esse cavaleiro por não ser francês não fora aceito entre os cruzados de imediato, mas somente quando provou seu valor em batalha. Era um tipo de combatente diferente, pois preferia batalhar somente à noite, quando era visto pelos seus demais companheiros, numa fúria incontrolável, matando inúmeros oponentes como se tivesse a foca de cem homens. Era bastante temido pelos seus inimigos e até mesmo por seus próprios companheiros que o chamaram de cavaleiro das sombras, por ser visto pelejando apenas durante a noite. Segundo Hugo de Payens, sem a presença desse cavaleiro – que fora o primeiro a entrar nas ruínas do antigo Templo de Salomão – a cruzada teria sido um fracasso, mas com sua valorosa ajuda, logo a Cidade Santa fora reconquistada pelos fieis e eles puderam voltar para casa. O nono cavaleiro logo se separou do grupo, e até onde se tem notícias se dirigiu para as longínquas terras da Romênia e depois disso ninguém mais soube de seu paradeiro.

Assim que esse breve relato se deu por encerrado, um período de silêncio se fez e a luz logo se apagou e tudo se tornou trevas novamente. O ar ficou um pouco mais gelado e com um leve odor de hortelã com algum outro cheiro que ele não pode identificar qual era. Quando abriu os olhos novamente, era alta madrugada de sábado, teve a leve impressão que estava novamente amarrado, só que dessa vez percebeu que estava de pé, quando tentou se mover percebeu que algo debaixo de seus pés se movera bruscamente o deixando dependurado com algo lhe sufocando a garganta. Logo tudo se tornou escuro novamente.

Na tarde de segunda-feira a polícia encontrara o corpo de Professor Aleksiéi já em estado de decomposição, dependurado no ventilador de sua sala de estar...

Naquele mesmo final de semana fora noticiado que uma antiga hospedaria no norte da Espanha havia sido totalmente destruída por um terrível incêndio que consumira toda a construção. O proprietário da hospedaria juntamente com toda a sua família e alguns poucos hospedes também haviam perecido entre as chamas. Não havia testemunhas. A perícia inicial apontava para a provável hipótese de curto-circuito na rede elétrica que era bastante antiga.

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa

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Floresta

Dentro dos domínios pungentes da sanidade, me perco por inteiro. A eterna precipitação das cinzas assenta-se em camadas cada vez mais grossas sobre o solo,…

Imagem criada pelo autor com IA

Dentro dos domínios pungentes da sanidade, me perco por inteiro.

A eterna precipitação das cinzas assenta-se em camadas cada vez mais grossas sobre o solo, encobrindo qualquer vestígio de vida. Nesta floresta monocromática somente a eternidade e a amargura permanecem.

Negras, carbonizadas, jazem as árvores. Emissárias da degeneração infindável e moradia daqueles que desistem de buscar os limites da Floresta.

Em movimento, as cinzas não condensam, mas basta um único segundo inerte para sentir o ímpeto lúgubre da ruína que recai sobre tudo.

Aqui, firmo eu, meus pés, sitiado entre o intérmino vazio e o descorado solo que se compõe.

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Infortúnio

Emanoel, se sentindo desconfortável e até mesmo assustado, após deixá-los para trás seguiu seu caminho em direção ao rio onde estava montado…

Criado para o Castelo Drácula com Midjourney

HEREDITÁRIO — Parte I - GARDÊNIA — Capítulo III

Emanoel, se sentindo desconfortável e até mesmo assustado, após deixá-los para trás seguiu seu caminho em direção ao rio onde estava montado o acampamento. A tropa, juntamente com a boiada que estava sendo tocada, aguardavam já de forma impaciente a chuva dar uma trégua e as águas baixarem pelo menos um pouco para fazerem a travessia e logo seguirem em frente. Desde o momento que deixara Gardênia na desagradável companhia de seu sombrio pai, um sentimento completamente sinistro tomara conta de todo o seu ser. Uma desconfortável ansiedade sem motivos aparentes e uma incontrolável irascibilidade por tudo que via ao seu redor. Contudo, o pior de tudo era uma sombria sensação de estar sendo observado, ou até mesmo vigiado o tempo todo, por alguém ou alguma coisa. Sua mula se acalmara por completo, na verdade de uma forma até mesmo muito estranha, agindo como se fosse autômata. Aquilo tudo estava deixando-o inquieto, primeiro um animal até então dócil e tranquilo, havia se mostrado arredio e violento, demonstrando estar assustado com coisa alguma aparente, pelo menos assim ele pensava, pois nada de incomum havia sido visto por ele, a não ser o pai de Gardênia, apenas um homem negro alto de cartola na cabeça vestido com um traje comum de cores simples. E segundo porque, após o pai de Gardênia ter simplesmente lhe acariciado a face, estava demonstrando um estranho comportamento, parecendo estar indiferente a tudo ao seu redor.

Ao chegar ao acampamento, algo bastante estranho o incomodou, o cão que pertencia ao cozinheiro e que acompanhava aquela tropa desde filhote sempre ajudando na lida com o gado, acostumado a todos os peões desde sempre, estranhou o boiadeiro e o recebeu todo arrepiado latindo ferozmente e com um comportamento muito arredio, como se Emanoel fosse alguém estranho ou algum animal muito perigoso. O cozinheiro teve que ralhar firme para que o cão se acalmasse, o que de fato não aconteceu por completo, pois mesmo estando de longe, – de forma alguma ele se aproximava, nem do boiadeiro muito menos de sua mula – o cão todo arrepiado ficava sempre olhando na direção do boiadeiro, como se estivesse prestes a atacá-lo a qualquer momento. Como aquele entardecer estava muito agradável e o tempo estava um pouco firme com a chuva tendo estiado, Emanoel logo fora convidado pelos companheiros a se unirem a eles numa animada mesa de carteado, armada de forma improvisada debaixo de uma grande barraca que servia de cozinha e refeitório, tudo ao mesmo tempo. Mesmo como todo o mau humor destilado pelo cozinheiro, que professava uma religião que era contra todo e qualquer tipo de jogatina, o velho capataz e líder da tropa, autorizara aquela diversão, desde que não envolvesse nenhum tipo de apostas. Quando o cozinheiro tentou protestar, quanto aquele incomodo em seu local de trabalho improvisado, logo o capataz o convencera a ceder aquele local após servir o jantar.

– Essa espera prolongada às margens do rio acaba por inquietar até mesmo os corações mais tolerantes. Além do mais, um peão ocioso se torna um indivíduo até mesmo perigoso. Deixe-os se divertirem um pouco para ocuparem o tempo. Acredito que, em dois ou três dias, poderemos logo atravessar o rio e seguir nossa viagem.

O cozinheiro, com as entranhas ardendo num ódio profundo ao olhar na direção da tempestade que se avizinhava na direção da nascente, pensou consigo mesmo: “Além de autoritário para com todos, agora ficou caduco de vez! Com toda essa chuvarada ficaremos aqui acampados até criarmos lodo nos pés”. Mal sabia aquele jovem cozinheiro que, o tempo na vida de um homem não traz somente rugas em seu rosto e cabelos brancos, mas também uma notória sabedoria. Conhecimento adquirido através de longo tempo de minuciosa observação, tanto de fenômenos naturais, bem como do comportamento das pessoas em seu dia a dia. 

Mesmo com toda a relutância daquele religioso mestre cuca, logo a jogatina se iniciara. Emanoel, por sua vez, era um exímio jogador de cartas. Sua intimidade com os naipes do baralho era tão incrível ao ponto de até mesmo ser invejado por seus companheiros. O jogo em si era o truco, e como estar em parceria com Emanoel era vitoria garantida, houve até certo desentendimento entre os companheiros para saber quem seria seu parceiro. Como o capataz estava distante, confabularam entre si que o jogo deveria se realizar por meio de apostas a valer, em dinheiro vivo. No início, o jogo e as apostas se mostraram equilibradas, contudo, um sopro de azar fez com que, pela primeira vez, Emanoel e seu parceiro perdessem um montante de dinheiro superior a um mês de ordenado de cada um. Esse fato causou o término da jogatina com muita confusão e ofensas de ambas as partes, chegando ao ponto de sérias ameaças serem proferidas. O velho capataz, que naquele momento já estava recolhido em sua barraca que ficava um pouco afastada, fora chamado pelo cozinheiro para intervir na discussão que já estava bastante acalorada, tanto pelo jogo em si, quanto pelo efeito da cachaça que havia subido para a cabeça dos contendadores.

O velho e sábio capataz, que por sua vez também era avesso a qualquer tipo de jogatina, principalmente quando envolvesse dinheiro, assim que se aproximou da peonada que estava se digladiando verbalmente, quase já, chegando às vias de fato, logo deu a discussão por encerrada, inclusive com sérias promessas de demissão a todos que o desobedecessem novamente com apostas em bens ou dinheiro. Disse por fim. 

– É por essas e outras razões que há entre nós aqueles que repugnam esses divertimentos. Se eu ouvir qualquer outro comentário de uma estupidez como essa, até mesmo, somente para diversão a jogatina será proibida de vez em minha tropa. Mesmo contra minha vontade, permito essa indulgência a vocês, a fim de matar o tempo ocioso e de forma ingrata me retribuem com uma patuscada dessas.

Todos, sem exceção, abaixaram suas cabeças e ninguém ousou dizer mais nenhuma palavra. Como naquele exato momento começara a chover forte novamente, logo deram o jogo por encerrado e cada um se recolheu em sua respectiva barraca. Aqueles que ganharam, foram dormir bastante satisfeitos; os que perderam, além do prejuízo em dinheiro, também tiveram seu ego ferido, principalmente Emanoel, pois a derrota para ele era uma novidade bastante desagradável. Entretanto, de todos, o que ficou mais contente foi o cozinheiro que obteve sua barraca de volta, tranquila e no mais absoluto silêncio, onde ele pôde se deitar em sua rede e dormir sossegadamente enquanto a chuva caía de forma constante e violenta. Ali, deitado em sua rede, observando a chuva que caía de fora de sua barraca, o cozinheiro na profundidade de seu fundamentalismo religioso, ficou a imaginar que aquela chuva poderia se comparar a ira de Deus perante a iniquidade dos homens.

– Uma chuva como essa açoita sem piedade os homens que ousam enfrentá-la de frente. Tal como aqui agora, nas cidades por onde ela passa, o vento que traz consigo sopra sempre violento, assobiando de forma assustadora entre as árvores e os beirais dos telhados, derrubando tudo à sua frente e amedrontando mulheres e crianças pequenas... Envolto a esses pensamentos, logo adormeceu profundamente, trazendo a si a certeza soberba de ser um servo fiel e reto perante os olhos de Deus.

A tempestade daquela noite durou umas três horas ininterruptas, contudo, quando cessou, foi por completo. Na manhã seguinte o céu estava limpo e claro de um azul belíssimo, o sol estava radiante e brilhava como nunca, confirmando por suas previsões, o tempo estava firmando e dava mostras de um veranico momentâneo, sabendo disso, logo o capataz dera ordem aos peões que toda a boiada deveria ser passada em revista, se porventura alguma rês estivesse faltando ao rebanho, logo deveria ser encontrada viva ou morta. O rebanho deveria ser conferido de forma minuciosa, afinal, eles eram responsáveis por toda aquela boiada que deveria chegar ao seu destino com o mínimo de prejuízo possível, para isso eles estavam sendo muito bem remunerados.

Emanoel, obedecendo as ordens, logo foi selar sua mula e dar início à missão recebida, contudo, ao se aproximar do local onde sua mula sempre ficava, teve um desagradável dissabor ao verificar que havia algo de errado com o animal que se encontrava deitado com o corpo todo enrijecido, inclusive sua mandíbula estava cerrada. Emanoel tentou de todas as formas movê-la, mas a mula mantinha-se completamente inerte. Um dos peões, que era tão velho quanto o próprio capataz, fora chamado. Esse peão era uma espécie de curandeiro do grupo, acostumado a curar feridas e sarar moléstias tanto de peões, quanto de animais da tropa. Assim que foi requisitado, logo veio em socorro do pobre animal que, pelo olhar distante e sem brilho, dava mostras de estar se despedindo de sua vida de estrada. Por mais que se examinasse aquele animal, nenhum diagnóstico pôde ser estabelecido. Pois nada de anormal fora identificado, nem mesmo uma única ferida fora encontrada. Geralmente, quando não se encontra uma certeza para determinado assunto, surgem incontáveis conjecturas que logo eram descartadas por uma evidência ou outra. Até que, dentre a peonada, que já haviam encerrado seus estoques de opiniões, ouviu-se a voz do cozinheiro que disse de forma involuntária e distraída.

– Parece que foi algo encomendado, se eu não fosse o cristão fiel que sou, poderia até acreditar que foi feitiço. Gente ruim nesse mundo é o que não falta. Como dizem as Sagradas Escrituras, já estamos vivendo o fim dos tempos. É chegado a hora de nos arrependermos dos nossos pecados. 

O capataz daquela tropa se chamava Francisco Taveira, mas se apresentava pelo apelido de Chico fumaça, que ficou sendo conhecido por todos desde os tempos que era peão de rodeio e tivera grande êxito e fama em toda região por onde vivia. Chico fumaça tinha uma destreza ímpar no trato com animais de montaria. Firme como uma rocha no lombo do animal e leve como fumaça pairando no ar. Em sua juventude era um jovem magro como uma vara de pesca, seu físico franzino fazia conjunto com o sorriso sempre agudo e fácil, parecia estar o tempo todo contente com tudo ao seu redor. Não havia tristeza na vida do jovem Chico Fumaça, contudo a vida não é apenas de belas manhãs de primavera, há também as escuras noites de inverno. E como é natural na vida daqueles que têm o privilégio de envelhecer, Chico Fumaça que já passara pelas outras estações em sua vida, agora enfrentava o inverno. Embora não tivesse mais de sessenta anos completos, parecia vinte anos mais velho e já caminhando a passos largos na direção da cidade do descanso eterno. Estava cada vez mais calvo, de pele amarelada e demonstrando uma fraqueza plena até mesmo ao piscar os olhos que pareciam estar sempre febris devido a vermelhidão constante. Era difícil discernir se seus olhos eram daquela cor avermelhada devido aos goles de cachaça emborcados sempre que possível ou pela ardente e constante fumaça de seu cigarro de palha, continuamente pendurado num dos cantos da boca fina e desprovida de qualquer traço de involuntariedade. Muito diferente daquilo que fora um dia na juventude, nos últimos tempos Chico Fumaça parecia estar sempre cansado, com a respiração arfante a qualquer esforço. Era até doloroso para quem o conhecera outrora, ver aquela triste figura tentando a todo custo se demonstrar forte e impetuoso.

Os anos que carregava nas costas e as duras marcas de trabalho nas mãos o derrubara sem misericórdia alguma. Mesmo assim sua presença era firme e de uma seriedade inquestionável. Temido por alguns e respeitado por todos. Como sempre fora um peão estradeiro, já havia passado por aquela região outras diversas vezes. Conhecia grande parte dos moradores mais antigos que por ali sempre viveram. Inclusive conhecia muito bem a Pai Thomas. Percebendo a triste desolação de seu boiadeiro mais querido, por perder seu animal de trabalho, – que na verdade, também era de estimação, pois aquele moribundo animal pertencia a Emanoel desde que nascera. Aquele belo animal fora lhe doado ainda filhote, recém-nascido, pois ao nascer se demonstrou raquítico e adoentado; o dono, imaginando que o pobre animal padecesse de alguma moléstia e que talvez não sobrevivesse, e se por acaso assim o conseguisse, jamais seria um animal de estrada, quando muito talvez uma mula de carroça, decidiu, então, que o melhor a fazer era sacrificar o pobre animal, evitando assim uma vida de sofrimento. Como ele tinha que cuidar dos outros animais, não lhe sobraria tempo para se dedicar a um animal doente, afinal aquele era seu ganha-pão, de alguma coisa um homem tem de viver e, no seu caso, em particular precisava criar animais fortes e saudáveis para fornecer aos tropeiros assim que esses o precisassem. Emanoel num gesto de profunda piedade adotou o pequeno animalzinho e, com muito zelo e carinho, logo aquela mula se convalesceu de qualquer tipo de moléstia que porventura pudesse tê-la uma dia a acometido e logo se tornaria um animal esplendidamente belo e bastante robusto. Emanoel dera-lhe o nome de “menina” e nos últimos seis anos de trabalho era essa mula sua fiel companheira de estrada. Chico Fumaça trazendo consigo uma vasta experiência, e como presenciara a perda de inúmeros outros animais, durante anos em sua vida de peão estradeiro, ao ver a mula naquele estado disse de forma resoluta.

– Seu eu não estiver muito enganado em minha lembranças, e se ele ainda estiver vivo, pois a ultima vez que o vi, ele já estava bem chegado à idade, vive por essas bandas um velho benzedor conhecido pelo nome de Pai Thomas, que segundo dizem os desocupados, tem parte com o coisa ruim e quando lhe apetece, consegue levantar qualquer animal ou até mesmo gente com suas orações e beberagens. Só não sei se você ainda conseguirá encontrá-lo por essas bandas. Apenas posso garantir que esse preto velho é poderoso.

Um estranho arrepio tomou conta de todo o corpo de Emanoel e ele logo quis saber mais informações sobre esse tal de Pai Thomas. De alguma forma, algo dentro de si lhe dizia que esse benzedor, – que talvez realmente tivesse parte com o coisa ruim – fosse também o pai de Gardênia. Quando o velho capataz lhe relatara tudo aquilo que ele sabia sobre Pai Thomas, através dos burburinhos do populacho sobre seus estranhos poderes e os encantamentos que ele fazia, um frio intenso desceu violentamente pela sua espinha e seu estômago se embrulhou de imediato ao se lembrar do estranho e sinistro sorriso que Pai Thomas lhe transmitira por último ao se despedirem na tarde anterior. De alguma forma aquele estranho sorriso trazia em si sinais de uma sinistra covardia velada naqueles traços faciais. Aquele medo se intensificou ainda mais quando o cozinheiro, que outrora havia sido um tanto quanto libertino e frequentado lugares de procedência duvidosa, antes de sua conversão, dissera que também conhecia Pai Thomas por nome e por seus feitos que precediam sua presença. Sem saber do fatídico idílio entre Emanoel e a filha do citado feiticeiro, disse com inocentes palavras.

– Dizem que esse velho mago tem uma única filha concebida já em sua maturidade, e que é a criatura mais bela que já pisou nessa terra. Uma mulher misteriosamente encantadora. Morena de pele clara, com olhos azuis cintilantes e longos cabelos cacheados negros como uma noite sem luar. Mesmo com toda essa beleza, nenhum homem inteligente ousa se aproximar dela, temendo o pai que ela tem. Confesso, na verdade, que eu mesmo não conheço esse velho pessoalmente. Contudo o que já ouvi dizer por aí – de pessoas que não jogam conversa fora –, é que basta um único olhar de seu velho pai para fazer um homem barbado borrar as próprias calças. Sua bela filha também não tive a oportunidade de comprovar com meus próprios olhos, tudo aquilo que dito sobre ela. No entanto, verdade seja dita, há certa unanimidade sobre sua incomparável beleza que enfeitiça tanto homens, quanto mulheres. O que sei, de fato, é que seu nome é o mesmo de uma bela flor. E que até mesmo sua semelhança e fragrância a uma gardênia não é menos verdadeira.

O capataz disse logo em seguida que, respeitando os devidos exageros por parte do cozinheiro, o que diziam de Pai Thomas era parte verdade, e que realmente a beleza da jovem Gardênia era algo incomum. Isso ele mesmo poderia confirmar, pois a conhecia pessoalmente. Tanto ela bem como seu próprio pai, que em outra ocasião há tempos idos pôde comprovar de seus estranhos dons de cura. Por fim, disse a Emanoel que arriasse outro animal qualquer e que chamasse um companheiro para irem em busca do velho mago. E se assim o encontrassem, que solicitassem em seu nome, que ele logo viesse em socorro daquele pobre animal.

Emanoel naquele momento se encontrava entre a cruz e a espada. De um lado, não gostaria de perder sua companheira de tantos anos de estrada. Por outro lado, de forma alguma, e nem por nada desse mundo gostaria de reencontrar com o pai de Gardênia. Pois que a morte de sua mula pudesse se mostrar dolorosa para ele, enfrentar novamente o sombrio olhar do pai de Gardênia estava totalmente fora de questão. No fundo de sua alma, mesmo com toda a beleza e encanto que Gardênia pudesse ter em si, nem mesmo, com ela gostaria de se reencontrar outra vez. Desde o momento em que se separam na tarde anterior e cada seguiu o seu caminho, um grande arrependimento tomou conta de todo o seu ser, – logo ele, que tinha fama de homem mulherengo, e por onde passava sempre deixava um rastro de saudade e corações partidos, muita das vezes, até mesmo roubando a pureza de jovens inocentes ainda no frescor da juventude. Após ter se deitado com aquela encantadora mulher e ter satisfeito toda sua voraz volúpia, pela primeira vez, sentia certo remorso pelo seu ato, mesmo já sendo ela uma mulher feita com bem mais de vinte anos e pelo ato em si ter sido mutuamente desejado por ambos, ele não a forçara a nada, a bem da verdade, fora ela quem se jogara voluntariamente em seus braços.

Após várias opiniões sobre o real estado da moribunda mula, e se sentindo bastante oprimido pela situação em que se encontrava, Emanoel decidiu que o destino de sua nula estava selado e para acabar logo com o sofrimento do agonizante animal resolveu por sacrificá-la. Com essa torturante resolução, pedira a arma ao capataz, – para evitar possíveis contendas e algum indesejável incidente, o capataz não permitia armas em sua tropa, exceto a dele mesmo. Mané Fumaça, mesmo com o coração partido buscara em sua barraca o revólver de cano curto de calibre 38 e o entregara já carregado a Emanoel, que com um único tiro colocou um fim no sofrimento de sua amada “Menina”. Antes de dar seu último suspiro, sua mula ainda lhe direcionara um último olhar de súplica. Emanoel ficou mais angustiado ainda, por não saber o significado daquele lânguido olhar. Talvez fosse em agradecimento pelo tempo que compartilharam juntos e por ter sido ele quem lhe dera o golpe de misericórdia, ou quem sabe até mesmo de surpresa e espanto em saber que seu fiel companheiro estava lhe tirando a vida sem nenhum pudor. Emanoel nem de longe imaginava que aquele olhar de lástima era por ele, pois segundo dizem; “... todo ser vivo ao se deparar com a morte, também se encontra com a verdade...”. E naquela hora final, sua fiel companheira que havia presenciado o desagradável encontro dele com Pai Thomas, sabia do amargo cálice que ele teria de beber logo em breve. O certo é que Emanoel jamais conseguiria esquecer aquele olhar, e pelo restante de seus dias aquilo lhe seria um doloroso tormento.

O velho capataz, sentindo a angústia de seu companheiro, se aproximou de Emanoel e com a mão descansada em seu ombro disse de forma reconfortante:

– A vida é uma longa e tortuosa estrada, quase sempre, companheiros vão ficando pelo caminho, sejam eles homens ou animais, cada qual deve cumprir a sua sina sobre essa terra. Nada é para sempre e ninguém que caminha por essa terra é eterno.

Emanoel, com as palavras entaladas em sua garganta e os olhas rasos d’água, com muito esforço conseguiu reunir forças e com muita dificuldade conseguiu dizer:

– Ela não era um homem e nem mesmo um simples animal qualquer, ela era a minha “Menina”...

O restante daquele dia teve um sabor amargo para Emanoel, não fora somente a perda irreparável de sua mula que lhe oprimia o peito. A amargura que sentia era de tal forma opressora, como se ele tivesse se banhado no sangue de crianças inocentes. Até aquele dia, sempre que se deitava com uma mulher independente de quem fosse – jovem, velha, solteira ou até mesmo casada – sempre se vangloriava perante seus companheiros, como se aquilo fosse uma grande vantagem, poder abusar de forma leviana dos sentimentos de alguém. Porém, no caso de Gardênia, muito pelo contrário do que sempre fora, após saber a verdade de quem se tratava e também saber sobre quem era seu pai, fez com que ele se tornasse um homem vigilante com suas palavras e, de certo modo, até mesmo solitário naquele momento, pois sabia ele que aquele assunto em particular jamais poderia ser confidenciado a quem quer que fosse.

Naquele mesmo dia, Emanoel não quis almoçar e passou a tarde toda quieto e calado, deitado em sua rede acampado em sua barraca. Por ordem do capataz, sua mula fora jogada numa vala e coberta com terra numa espécie de enterro simbólico, também fora ordenado aos companheiros que deixassem Emanoel padecer seu luto sossegado. No final da tarde, quando as sombras da noite já estavam ocupando o lugar dos últimos lampejos de luz do dia, a brisa transformava-se num vento cálido e leve ali naquela margem de rio. Quando o jantar foi servido, o capataz de forma até meio ríspida, ordenou a Emanoel que se alimentasse, pois logo estaria na estrada novamente e de forma alguma permitiria ter um peão doente na comitiva. 

A comida simples era o famoso arroz de carreteiro, que consiste numa miscelânea de ingredientes disponíveis, cozidos todos numa mesma panela. A aparência não era das melhores, mas o sabor em si, era algo majestoso. O cozinheiro tinha as mãos abençoadas para o tempero e todos, sem exceção, muito apreciavam sua comida. Além de ter o dom para a culinária, esse mesmo cozinheiro era muito asseado e cuidadoso com sua improvisada cozinha, que na maioria das vezes era armada às pressas debaixo de uma barraca rústica. Para evitar qualquer tipo de acidente com a comida, mantinha continuamente um lenço sempre amarrado na cabeça, mesmo esta sendo raspada a cada quinze dias. Os alimentos eram guardados em potes sempre bem tampados e suas vasilhas eram muito limpas e brilhantes. Contudo, mesmo com todo esse zelo, naquela fatídica noite, foi justamente Emanoel, quando já estava terminando o seu jantar, quem encontrou um enorme fio de cabelo enrolado na comida. Além de bastante desagradável, o fato em si trazia consigo um intrigante mistério, pois aquele fio de cabelo era comprido, e ninguém usava cabelos grandes, todos os tinham os cabelos cortados sempre muito curtos, tosados pelo menos uma vez por mês pelo próprio cozinheiro que também fazia às vezes de barbeiro. 

Emanoel, bastante irritado com todas auguras daquele dia, logo foi se recolher sem dar boa noite a ninguém. De certo modo a má sorte tinha assumido o lugar de sua mula e agora estava sendo sua fiel e inseparável companheira. Havia naquele acampamento umas doze pequenas barracas, contando com a sua e da barraca um pouco maior que era usada como cozinha e refeitório. E foi justamente na sua barraca, – e em nenhuma outra – que de uma forma extraordinária, houve um ataque de formigas bem no meio da noite, quando todos já dormiam a sono pesado. Emanoel acordou com inúmeras formigas passeando por cima dele na rede e quando por fim conseguiu acender um fósforo, pode perceber que sua barraca estava infestada de formigas por todos os lados. Não havia sido picado nenhuma vez, mas a enorme quantidade de formigas fora o suficiente para assustá-lo a acordar todo o acampamento. O capataz fora o primeiro a vir em seu socorro, – pois tinha o sono leve – e assim que se inteirou do que estava havendo, logo também pôde identificar a espécie a qual as formigas pertenciam e disse em seguida:

– Não devemos nos alarmar, são formigas correição, estão apenas de passagem por aqui de mudança em busca de um novo ninho. Já estão todas indo embora.

Emanoel já estava se impacientando com toda aquela maré de azar e chegou a comentar, num pequeno gracejo, para tentar demonstrar tranquilidade.

– Do jeito que as coisas estão vou precisar mesmo me benzer. É muito azar para um homem só.

O cozinheiro sempre muito envolvido com questões místicas e sem plausíveis explicações, havia notado certa inquietude por parte de seu cão desde que Emanoel retornara de seu passeio na tarde do domingo e de rosto franzido e com muita seriedade dissera em resposta ao gracejo do boiadeiro.

– Talvez não seja apenas azar que esteja te rondando Emanoel! Pode ser que haja algo mais, talvez alguma força sombria esteja te perseguindo em cobrança a alguma divida que você tenha contraído ultimamente. Já ouvi dizer que certas dívidas se transformam em maldiçoes e que se não forem quebradas com muito jejum e fervorosas orações podem perseguir um homem até a beira da sepultura.

– Bobagens! Nada e nem ninguém anda na minha garupa se eu não permitir. Até mesmo minha própria sombra sofre para acompanhar um peão como eu. Não acredito nessas besteiras e, mesmo se acreditasse, não tenho medo de nada disso! Respondeu o boiadeiro ainda em tom de gracejo.

– Há uma grande diferença entre ter medo e ter cautela perante aquilo que nos é desconhecido. Disse o cozinheiro já se dirigindo à sua barraca.

Assim que as formigas se foram, tudo voltou ao normal, mesmo com o susto e o desconforto de acordar no meio da noite com todo aquele alvoroço, muito rapidamente todos voltaram a dormir. Menos Emanoel que ainda ficou bastante tempo com os pensamentos a torturá-lo e a sensação de estar sendo observado o tempo todo. A certa altura, teve a leve impressão de ouvir vozes estranhas próximas à sua barraca como se algumas mulheres estivessem discutindo, depois ouvira – ou tivera a impressão de estar ouvindo – uma criança chorando doridamente. Contudo fez um esforço enorme e, talvez depois de quase duas horas em busca do sono, conseguiu adormecer novamente. Estava dormindo a sono alto quando a corda que prendia sua rede se partiu e o jogou ao chão, mais uma vez acordou assustado com as costas ardendo em dor pela queda. Ao se levantar do chão percebeu que a aurora já despontava no horizonte e o dia já estava bem claro. Com o barulho de sua queda o capataz também se levantou e logo foi em busca de água para se lavar. Em menos de meia hora, todo o acampamento já havia despertado e um delicioso aroma de café pairava no ar. 

O sol logo subiu aos céus e trouxe luz e calor, e uma reconfortante sensação de estiagem tomou conta de tudo. Era por volta das dez horas da manhã quando o cheiro de comida já tomava conta do lugar, quando uma inesperada visita se fez presente no acampamento. Era Nhô Tunico acompanhado de seu filho Daniel, a quem Emanoel logo dera noticias que os conhecera na sua visita de domingo e sabia de quem se tratava. Nhô Tunico viera até o acampamento em busca de uma colocação para Daniel como peão junto àquela comitiva, insistindo perante o capataz, dizendo-lhe que o filho lhe atormentava a alma com a ideia de ser um peão estradeiro. Assim que chegaram ao acampamento, trazendo algumas prendas como agrado, foram logo recebidos com muita cortesia e hospitalidade por todos, mas principalmente por Emanoel em resposta a toda a gentileza com que fora tratado quando, em visita, estivera em sua casa. Após os votos de cortesia, logo a proposta foi apresentada ao velho capataz que quase de imediato recusou empregar o jovem ao grupo, alegando que a tropa já estava completa e a viagem até o Pantanal era longa e cheia de desafios para um peão ainda imberbe. Contudo, acabou mudando de ideia quando Emanoel interveio em favor do rapaz, pedindo ao capataz que desse uma chance ao rapaz, pelo menos até o restante da viagem, e se por acaso ele não servisse para a lida na estrada, seria devolvido ao pai na viagem de volta. Chico Fumaça, que já estava incomodado com o acabrunhamento de Emanoel por causa da perda de sua mula, decidira lhe conceder aquela indulgência. Daniel que já estava de posse de seus poucos pertences de viagem, assim que se despediu de seu pai, por ali mesmo foi ficando para já se ambientar logo com a rotina da comitiva. Emanoel assumiu o cargo de tutor de Daniel e logo o arrastou para junto de si, compartilhando inclusive sua barraca com ele.

Três dias se passaram sem cair nenhuma gota de chuva e logo as águas do rio minguaram ao ponto de uma travessia segura. Percebendo que a travessia era possível, logo o capataz dera a ordem, e a tropa com toda a boiada logo atravessaram o rio sem nenhum tipo de incidente. Daniel, que já estava bastante ambientado ao grupo, seguiu viagem rumo a uma terra conhecida por ele somente através de estórias de viajantes.

O retorno de Daniel para sua casa se deu quase cinco meses depois desse acontecimentos. O mesmo rapaz, que uma vez influenciado pelas encantadoras estórias que Emanoel alegremente havia contado naquele domingo em sua casa às vésperas de sua partida – dentre tantas outras de outros viajantes –, retornara para casa como o filho pródigo, arrependido e decepcionado por tudo o que presenciara na sua curta experiência como peão estradeiro. A vida na estrada se demonstrara para ele triste e desolada, todo o encanto se resumiu tão somente às estórias que ele mesmo pode comprovar que nem todas eram verdadeiras, apenas floreadas ao extremo para serem mais apetecíveis a quem estivesse ouvindo. No primeiro domingo após seu retorno para casa, uma visita se fez presente. Era a bela Gardênia, que por algum motivo, como se fosse possível, estava mais bela ainda. Todos perceberam que havia algo diferente nela, contudo ninguém quis comentar sobre o assunto. Gardênia estava ávida por noticias de Emanoel, mas por discrição e recato, não podia perguntar por ele e teve que lutar com sua angustiante curiosidade. Sua ansiedade logo se dissipou, Daniel como se desconfiasse de algo, decidiu por fim relatar o triste e lamentável fim do boiadeiro Emanoel, o famoso e intrépido Mané Faísca. Essa mesma história já havia sido relatada à sua família anteriormente, contudo quis ele contá-la a Gardênia em seus pormenores, como uma forma de justificativa ao seu retorno para casa e de sua precoce desistência da encantadora vida de peão estradeiro. Daniel nada sabia do idílio que ocorrera entre Emanoel e Gardênia na tarde daquele domingo logo após os dois terem saído de sua casa seguindo juntos pela estrada a fora, – muito menos, que ela carregava um filho dele em seu ventre – por isso não se absteve em contar a história como realmente acontecera, sem se preocupar em omitir nenhum detalhe. Olhando pela janela ao longe, como se quisesse ver algo bem distante, principiou...

– Alguns dias depois que atravessamos o rio e seguimos viagem, Emanoel sofreu um grave acidente e morreu no dia seguinte, ou melhor, foi morto. Antes de atravessarmos o rio, na verdade, antes mesmo que eu estivesse junto ao grupo, àquela mula que ele estava montado quando veio até nossa casa caiu doente com algum mal irremediável e teve que ser sacrificada. Para continuar a viagem, ele se viu obrigado a se utilizar de uma outra montaria. Dentre todos os animais disponíveis na tropa, – sabe lá Deus o motivo – ele escolheu o animal mais arredio que havia na comitiva. Palito era um burro velho, mas ainda muito ágil e robusto, e como quase ninguém ousava montá-lo, estava gordo e descansado. Emanoel, que era um peão destemido, sempre acostumado a domesticar os mais bravios dos animais decidiu que domaria aquele burro e dali para frente, seria ele a sua montaria principal. A escolha se deu por Palito e Menina serem crias da mesma égua, apenas em épocas diferentes, Palito era uns três anos mais velho do que Menina, mas muito parecido com ela em seu aspecto físico e totalmente diferente em seu psicológico. Palito era o tipo de criatura indomável.

Emanoel, como era acostumado a lidar com animais brutos, com suas esporas e um firme chicote, logo conseguiu se manter firme sobre o lombo do velho Palito, mesmo com violenta relutância do velho burro. Todas as manhãs era uma luta titânica para acalmar os ânimos daquele arredio muar que havia terminantemente declarado guerra a qualquer tipo de trabalho duro. Contudo, certa manhã, o burro se mostrou tranquilo e calmo, demonstrando ser a criatura mais dócil da tropa. Alguns dos peões até estranharam aquele comportamento, rendendo alguns elogios ao seu domador. Um deles chegou a dizer: “– Mané Faísca é realmente um peão sem comparação, traz na palma da mão o animal que ele quiser, seja de duas ou quatro patas, ele sempre o doma do jeito que quer”. Lembro-me que Emanoel deu uma piscadela e respondeu com um gracejo; “– são ossos do oficio –”. Realmente o elogio não era exagero por parte de nossos companheiros, eu tive o privilégio de presenciar sua perícia sobre uma montaria. Ele sentava-se na sela como se ali mesmo tivesse nascido; alto esguio e muito gracioso. Todos nós selamos nossas respectivas montarias e seguimos viagem, menos de duas horas de cavalgada depois, sem nenhum motivo aparente, o burro que Emanoel estava montado se assustou com algo à sua frente e começou a pular descontrolado de um lado para outro, num arremedo de ódio e violência como se tivesse algo monstruoso sobre seu lombo, e ele desesperadamente quisesse a todo custo se livrar de tão funesta carga.

Toda aquela cena foi aterrorizante, eu nunca havia presenciado algo como aquilo antes, parecia que aquele animal carregava o próprio diabo no lombo. Emanoel até que tentou de todas as formas acalmar o animal e se manter sobre ele, mas mesmo com toda a sua perícia e todo o esforço do mundo, não foram suficientes para conter a fúria do animal, que se mostrava enlouquecido até, e em dado momento daquela peleja, Emanoel foi violentamente lançado ao chão. Alguns companheiros começaram a rir, outros gritaram, mas logo se contiveram e logo vieram em seu socorro, após perceberem que Emanoel não se movia, nem mesmo para se afastar do burro que ainda dava pinotes e escoiceava tudo ao redor, como se ainda estivesse sendo montado por algo ou alguém e após mais alguns violentos pinotes saiu em disparada e não foi mais visto, como se estivesse correndo de algo terrível que só ele estava vendo. Toda aquela querela com o burro selou de vez o destino do famoso Mané Faísca, pois mesmo estando eles atravessando um prado de capim bastante espesso e macio, ele tivera o azar de cair sobre um seixo, que partira sua coluna. Quando o levantamos, ele já estava completamente inerte, era possível ouvir ossos partidos rangerem em contato uns com os outros. Ele estava desfalecido, mas ainda estava vivo, seu pulso estava fraco mas respirava com dificuldades. 

Por ordem do capataz, – que se mostrara bastante abalado com tudo aquilo – um acampamento fora rapidamente erguido ali próximo ao acidente debaixo das sombras de um enorme jatobazeiro. Emanoel fora colocado deitado numa cama improvisada com capim e coberta com o pelego, que pertencia ao capataz – o pelego do infeliz boiadeiro se fora junto como burro palito, que saiu em disparada sem destino certo e ainda não havia sido encontrado. Dois de nossos companheiros foram encaminhados a buscarem ajuda, voltaram já ao cair da noite com uma senhorinha benzedeira que morava a uns vinte quilômetros de onde estávamos. Aquela rude e simples senhora era o mais próximo de um médico que havia num raio de umas cem léguas. No entanto, aquela busca por socorro se mostrou infrutífera, pois assim que a benzedeira conferiu seus ferimentos, apenas confirmou aquilo que todos já imaginavam, Emanoel não sobreviveria por muito mais tempo e se porventura sobrevivesse, passaria o resto de seus dias preso a uma cama. Mesmo em completa agonia de morte, ele ainda conseguiu abrir seus olhos por umas duas ou três vezes. O capataz que esteve sempre presente ao seu lado naqueles angustiosos momentos, pode perceber que a alegre esperança que sempre emanava de seus olhos a cada início de viagem, havia se desfeito por completo, deixando-o com um olhar ao mesmo tempo sem brilho e desolado. Era a mesma expressão de um homem examinando o cadafalso onde logo seria enforcado.

O final da tarde daquele dia foi triste e melancólico a todos. Depois de vários dias de estio e sol forte, o céu mais uma vez se cobriu todo e dava mostras que a chuva retornaria, contudo foi algo que não aconteceu naquele dia. Já no finalzinho do dia, mesmo com um vento frio e constante, o sol resolveu se fazer presente numa pequena faixa de céu limpo no horizonte. A luz derramada obliquamente por aquele prado, onde nos encontrávamos naquele momento ganhara a cor de sangue na violenta descida de um sol poente. A desolação era completa entre todos nós. A gentil senhora, assim que determinou seu diagnóstico sobre o moribundo, dizendo que nada poderia ser feito por ele, logo foi acompanhada de volta a sua casa por um dos peões. Um simples repasto fora preparado pelo cozinheiro, mas quase ninguém comeu. Vez por outra o capataz tentava inutilmente servir água na boca de Emanoel. Chico Fumaça solicitou que uma fogueira fosse acesa próxima a barraca onde ela velava por seu peão mais querido, que jazia ali deitado na mais completa inércia. A maioria dos peões ficaram até bem tarde próximos à fogueira, contudo um por um logo foram se recolher como puderam. A noite se mostrou longa e bastante friorenta, Chico Fumaça foi o único que ficou o tempo todo ao lado de Emanoel, fumando seu velho cachimbo e vez por outra suspirando alto, demonstrando estar vivendo um terrível dilema.

No misterioso silêncio da noite uma dolorosa resolução fora tomada por aquele velho capataz que se esquecera por completo o que era: o terror; a alegria; a dor; a tristeza; ou até mesmo o que era o amor... Nada mais tinha significado para ele naquele momento, tudo era a mesma coisa. Pessoas como aquele velho peão de estrada não sentem mais muito de coisa alguma, já viveram tempo suficiente nesse purgatório que alguns teimosamente chamam de vida, que para alguns como ele mesmo, torna-se uma infindável provação. Talvez de todas as falhas humanas que um homem pode cometer, a pior delas é a piedade. Contudo, naquele momento inglório era a única coisa a se fazer. E pouco antes do desabrochar de uma nova manhã, quando todos ainda dormiam, um único tiro se fez ouvir naquele friorento prado. Todos acordaram assustados, mas logo entendera que aquele disparo era um ato de misericórdia, executado por alguém dotado de sabedoria e muita coragem, atendendo a um possível desejo de um amigo em momento de total desespero e da mais completa agonia. 

Quando a peonada começou a se reunir, onde o velho capataz velava por Emanoel, e percebendo o que havia sucedido, ninguém ousara dizer uma única palavra naquele momento. Chico Fumaça ainda de arma em punho, com os olhos lacrimejantes e com a voz carregada pela emoção e pelo remorso disse:

– Jamais me critiquem de forma leviana e acusatória. Ninguém deve me julgar pelo que acabei de fazer. Às vezes nessa vida somos obrigados a fazer certas coisas que são consideradas um crime para os homens e uma vergonha perante as Leis de Deus. Todos os homens carregam o homicídio em seu coração. E há algumas mortes que são necessárias para alívio de determinados sofrimentos. Tenham plena certeza, que há coisas nessa vida, bem piores que a morte...

Ninguém ousou dizer uma única palavra sequer. Emanoel recebeu todas as possíveis e improvisadas honrarias. Até mesmo um breve velório. Seu corpo foi enterrado aos pés daquele enorme jatobazeiro e uma rústica cruz confeccionada às pressas pelo cozinheiro fora fincada na cabeceira da sepultura. Foi também o próprio cozinheiro que de posse de sua inseparável Bíblia, se encarregou das improvisadas exéquias. Várias flores foram colocadas sobre a tumba e assim que a cerimônia foi encerrada Chico Fumaça colocou o laço do boiadeiro sobre a pequena cruz que tinha apenas seu nome escrito de forma improvisada: Emanoel Batista.

Naquele dia, a tropa ficou desprovida de dois peões. Emanoel que se fora para sempre para aquele lugar onde o sono é eterno, mas desprovido de sonhos, onde os olhos nunca mais enxergam a luz do sol. O negro Tiziu que era cunhado de Emanoel e ficara bastante abalado com tudo aquilo, fora incumbido da missão de retornar para a cidade de onde vieram a fim de notificar sua irmã Lourdinha, e agora viúva de Emanoel de seu falecimento. Emanoel era casado com uma sobrinha da esposa de Chico Fumaça e tinha três filhos com ela. A verdade era que Lourdinha, a esposa de Emanoel, perdera seu amado esposo e agora era uma viúva ainda jovem e bonita, – talvez viesse a se casar novamente –. Seus filhos haviam perdido o pai e ficaram órfãos, – logo cresceriam e teriam suas próprias famílias –, mas o que ninguém sabia era que Chico Fumaça havia perdido seu único e legitimo filho. Depois desta triste manhã, logo fora dado a ordem para seguirmos em frente o mais rápido possível, e assim o fizemos. Chegamos ao nosso destino dois meses depois e retornamos logo. Alguns ficaram para trás, lá mesmo na fazenda onde era nosso destino final, outros foram se dispersando pelo caminho de volta, pois antes mesmo de entregamos a boiada, o velho capataz já havia comunicado a todos que aquela seria a sua ultima viagem como boiadeiro. Assim que pagasse a cada um o valor combinado, estariam todos dispensados e livres para seguirem suas vidas como melhor lhes aprouvesse. Aquela tropa de tantos anos juntos, se desfizera como espumas ao vento e hoje só resta as estórias como essa que estou lhes contando.

Quando Gardênia soube da morte de Emanoel teve um mal estar, que a deixou quase sem ar, mas conseguiu a muito custo se conter e disfarçar suas emoções. Contudo ao se lembrar que ele era casado e mesmo assim abusou de sua confiança ela se recompôs ainda mais rápido. Chegou mesmo a cultivar certo ódio dentro de si, quando Daniel relatara também o que os peões comentavam sobre Mané Faísca quando o capataz estava longe. Alguns elogiavam sua destreza como peão e sua simpatia como companheiro de estrada, outros comentavam da infelicidade da jovem viúva e dos pequenos filhos órfãos agora deixados ao Deus dará. Um deles chegou a mencionar o fato de que o único defeito dele era não ter medo de nada, dizendo que: “... um homem que não conhece o medo carrega em sim um mal terrível, pois todos os homens devem conhecer o medo e tentar evitar certas coisas. Já ouvi dizer, não me lembro onde nem quando, mas se alguém olhar muito tempo para a escuridão hora ou outra as trevas acaba olhando de volta.” Certa vez, o cozinheiro que não era nada discreto e tinha certa antipatia pela preferência dispensada pelo capataz ao boiadeiro dissera por fim:

– Os filhos de Lourdinha pelo menos sabiam quem era o pai deles e tiveram o privilégio de algum contato com ele, mesmo que por vez ou outra ele estivesse distante por muito tempo. O pior são os outros filhos que Emanoel foi semeando pelas estradas por onde passou durante os últimos anos. Talvez alguns, – acredito eu – que ele mesmo, nunca nem o soube. Não é segredo para nenhum de nós, que o conhecia mais intimamente que Mané Faísca era um sujeito muito fogoso possuidor de um espírito inquieto e até onde se sabe jamais dispensou um rabo de saia, independente se era feia, bonita, casada ou solteira.

Daniel também relatou que foi a última vez que o nome de Emanoel fora citado entre a tropa, pois ao ouvir seus companheiros, de certo modo difamado a memória de seu falecido filho, o capataz parecendo estar profundamente ofendido principalmente com as palavras do cozinheiro e disse de forma firme e resoluta: 

– Acredito eu, com certeza plena, que temos muito mais o que fazer além de ficar nos preocupando com a vida alheia. Deixemos os mortos descansarem em paz e cuidemos de nossos devidos problemas, enquanto ainda estamos vivos, para que outrora, também não sejamos nós, motivos de falatórios sem aproveito, quando porventura já tivermos partido dessa vida.

Naquele dia Gardênia não quis aguardar pelo almoço, alegando não estar se sentindo muito bem, – fato esse que era verdadeiro, pois quando sentiu o cheiro da comida de Tia Jandira, seu estômago embrulhou-se por completo –. E mesmo com insistência de todos decidiu resolutamente voltar para sua casa. Antes de sair ainda perguntou a Daniel o que realmente o havia feito desistir da vida de tropeiro. O que Daniel respondeu com muita boa vontade.

– Além de tudo aquilo que presenciei com meus próprios olhos, o que foi determinante para minha decisão, foram as palavras do capataz proferidas perante a improvisada sepultura de Emanoel, que fora enterrado como um qualquer longe daqueles que o amavam e próximo a lugar nenhum.

– Um boiadeiro de estrada jamais deveria se casar e muito menos ter filhos, sendo que sua casa era uma estrada e a tropa sua verdadeira família. A esposa de um boiadeiro era uma viúva e seus filhos já eram órfãos de marido e pai ainda vivo. Um peão boiadeiro era como a poeira solta no ar...

Gardênia voltou para sua casa desconsolada, se sentindo a pessoa mais ultrajada dessa terra, pois trazia consigo no ventre o resultado da única tarde que passara na companhia daquele amável e sedutor boiadeiro que no resumir dos fatos se demonstrara ser um verdadeiro cafajeste, que nem mesmo a morte, que torna todas as pessoas em seres dignos e louváveis, conseguiu redimir lhe dar melhor apresentação. Até mesmo sua memória estava maculada. Caminhando sozinha pela mesma estrada que um dia, há não muito tempo atrás esteve ao lado de Emanoel, sentia-se a pior das criaturas, pois de certo modo trazia consigo a amargura da culpa por tudo aquilo. Naquele final de manhã, o sol estava castigando e queimava a pele. Sem chuvas há mais de dois meses, uma poeira fina da cor de sangue subia pela estrada quando o vento soprava enchendo os pulmões e ardendo os olhos. Gardênia de repente não soube distinguir se chorava pela poeira em seus olhos ou pelo sofrimento e angústia em seu coração e foi enfrentando todas aquelas sentimentalidades que chegou em casa com a decisão de relatar toda história que envolvia o boiadeiro a seu pai. Pai Thomas poderia parecer ser estranho e sombrio aos olhares alheios, mas era a única pessoa nesse mundo que, independente de qualquer coisa, sempre a protegera e em todas as ocasiões era seu dedicado e fiel companheiro.

Ao entrar em casa, seu pai a aguardava na sala, e logo percebeu que ela havia chorado muito. Sem nada dizer, deixou que ela lhe confidenciasse tudo que havia acontecido a ela e qual era sua real situação. Quando ele viu que ela havia desabafado o suficiente, Pai Thomas, após um longo e doloroso suspiro disse por fim.

– Minha querida filha, a quem tenho me dedicado tanto por todos esses anos, na verdade eu sempre soube de tudo, de alguma forma eu não sabia quando e nem onde tudo havia se passado, mas agora que você me disse que tudo ocorrera dentro daquela antiga capela, as coisas ficaram claras e somente agora consigo entender tudo. A respeito do boiadeiro, não se queixe mais, você nada teve haver com a morte dele, foi tudo obra do acaso, como você mesma me relatou foi um trágico acidente. Sobre a criança que carrega em seu ventre, eu também já sabia então também não se preocupe quanto a isso. Se consegui criar você sozinho, – quero que saibas que tenho bastante orgulho na bela e digna mulher em que você se transformou –, criar mais uma criança não será de todo impossível, ainda mais com sua ajuda e tenho a plena certeza que será uma ótima mãe, bem como és uma filha maravilhosa. A única coisa que lhe peço de todo o coração é que não ouse tentar me esconder mais nada novamente. Acredito que já ficou claro pra você, que nada fica oculto a mim por muito tempo. E quando a mentira ou uma inocente omissão parte de você é algo que muito me entristece, pois você é minha protegida. Gardênia, minha filha, você jamais deverá se esquecer que sou seu pai e só tenho você nesse mundo até agora, eu sempre estarei ao seu lado, haja o que houver, te protegendo e te dando apoio e conforto sempre que precisar...

Essa é a origem do único filho de Gardênia. Filho esse que era criado com todo zelo e dedicação possível. O fato de tão bela e recatada mulher se encontrar sozinha e sem marido, por parte, era também escolha dela mesma, após sofrer essas duas grandes decepções nos braços de dois homens que ao final não se mostraram tão diferentes um do outro na sua concepção. O primeiro se aproveitara de sua fraqueza física e o segundo de seus sentimentos. Desde a desilusão sofrida com o falecido boiadeiro Emanoel e principalmente depois do nascimento de seu filho, a própria Gardênia, sem nenhuma interferência de seu pai, decidira por ela mesma, se fechar completamente para o amor carnal, e que nenhum outro homem jamais a teria nos braços outra vez. Gardênia precisou sofrer duas grandes decepções para entender, pelo menos em partes, o porquê da vida solitária e acética de seu pai, que a todo custo se mantinha afastado de tudo e de todos. Desde que sua mãe morrera, seu pai jamais atravessara o umbral da porta de quem quer fosse por livre espontânea vontade a não ser para praticar aquilo que ele fazia de melhor. Tentar ajudar os outros nas questões espirituais.

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa

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Vinho

Novamente sinto o sabor pecaminoso em seus lábios vitrais. Como um beijo seco recebo em meu âmago a doçura ébria que somente teu…

Imagem criada pelo autor com IA

Novamente sinto o sabor pecaminoso em seus lábios vitrais. Como um beijo seco recebo em meu âmago a doçura ébria que somente teu corpo esguio pode fornecer. Meu corpo, por sua vez, é arrebatado pela serenidade, como se cada músculo, cada tecido, cada ínfima parte de meu ser deixasse cair ao chão o fardo que carregou por toda a vida.

Oh doce brandura, trajada em belo vestido tinto, basta somente um gole audacioso para que o armistício para com as adversidades tenha início.

Em sua metade já me deixei abater por sua insensatez. Em sua completude me entrego por inteiro aos seus desejos.

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa

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Criaturas da Noite

Em um mundo repleto de diferenças e subjetividades, nem todas as preferências são iguais. Para alguns, o despontar…

MidjourneyAI

Em um mundo repleto de diferenças e subjetividades, nem todas as preferências são iguais. Para alguns, o despontar de um novo dia, com a estonteante beleza da aurora trazendo luz e cores, representa um leque de possibilidades e um novo amanhecer promissor. Contudo, para outras criaturas, a chegada da luz de um novo dia pode significar dor, sofrimento ou até mesmo o fim — mesmo para aqueles já mortos.

Ewerton, antes mesmo do alvoroço dos galináceos iniciar nos distantes quintais ao longo da estrada, já estava de pé, preparando seu café em uma improvisada fogueira sob um frondoso e florido Flamboyant. Enquanto a água aquecia lentamente — após ter feito sua higiene pessoal matinal —, ele observava ao longe o despertar de um novo dia. A beleza das cores do amanhecer era hipnotizante, com nuances de amarelo e vermelho se alternando em um espetáculo mágico, capaz de fazer qualquer um se perder em seus próprios pensamentos, esquecendo-se completamente do mundo ao redor. Foi assim, perdido em devaneios, que ele não percebeu a aproximação de uma bela jovem vestida de negro, como uma dama da noite, que se aproximava sorrateiramente até o outeiro onde ele se encontrava.

A jovem, caminhando trôpega, tentava se manter de pé, aparentando estar embriagada — o que poderia ser considerado normal, dadas as vestes festivas que usava e o forte perfume que exalava. No entanto, Ewerton logo percebeu que não se tratava de mera embriaguez. A jovem estava gravemente ferida, com um dardo — possivelmente lançado acidentalmente por algum caçador — cravado no lado direito de seu ventre, de onde escorria um líquido viscoso e enegrecido com um odor acre, que sob a luz do dia, seria facilmente identificado como sangue. No entanto, no crepúsculo do amanhecer, era difícil discernir sua natureza. De imediato, soube-se apenas que era um ferimento grave e que ela necessitava de ajuda.

Educado a sempre ajudar os mais fracos e a proteger os indefesos, Ewerton prontamente se lançou ao socorro da jovem, que mal conseguia se manter de pé. Ao abraçá-la, sentiu um estranho arrepio, pois ela estava tão fria quanto uma manhã chuvosa de novembro. Suas faces pálidas e cadavéricas não mostravam o rubor da vida, um sinal claro do ferimento e da contínua perda de sangue, pensou ele. Com cuidado, a deitou em seu próprio leito — uma cama improvisada com os apetrechos de sua montaria —, onde ele próprio havia passado a noite sob as estrelas. Ao examinar mais de perto, percebeu que o ferimento era mais grave do que parecia e que, sem ajuda, ela não sobreviveria por muito tempo.

Antes de retirar o dardo, decidiu que deveria cauterizar a ferida para tentar estancar o sangramento. Após aquecer a lâmina de sua faca no fogo, com cuidado e firmeza, removeu o dardo do ferimento com um único movimento. A retirada da seta fez com que o líquido enegrecido escorresse ainda mais. Enquanto preparava a faca para a cauterização, ele analisou o estranho dardo, artesanalmente talhado, com uma ponta de prata e uma pequena incrustação de uma cruz de malta ao longo de sua haste. Após esse breve inventário, cauterizou a ferida com a faca aquecida. A jovem, saindo de seu estado letárgico, emitiu um urro lancinante e, com uma força descomunal, lançou-se sobre ele, derrubando-o ao chão.

Sem esperar por uma reação daquele tipo, ele que estava desprevenido, caiu de costas e logo percebeu que ela estava sobre ele com suas finas e delicadas mãos — que naquele momento não tão delicadas — agarradas ao seu pescoço num movimento de estrangulamento. Contudo, antes que qualquer outra coisa pudesse ter acontecido, a jovem levantou sua face em sentido ao horizonte e os traços de uma séria preocupação alterou suas feições. Antes que Ewerton pudesse esboçar qualquer reação ou dizer uma única palavra sequer, sentiu uma forte pancada na fronte e suas vistas se escureceram por completo fazendo com que ele perdesse tanto o sentido do tempo, bem como de tudo ao seu redor por alguns momentos, só voltando a si quando recebera em sua face um jorro de água fria que um estranho cavaleiro lhe aplicara.

Tonto e meio atordoado com tudo o que havia ocorrido, ele logo quis saber o que se passava naquela atípica manhã. Primeiro, uma jovem ferida em busca de ajuda; em seguida, a pancada que recebera, levando-o a um nocaute; e agora, quatro estranhos cavaleiros vestidos de forma bastante peculiar se apresentavam. Vestidos de preto da cabeça aos pés, ostentavam um estranho símbolo de uma cruz de malta no peito — a mesma marca presente no dardo — e, além de tudo, comportavam-se de maneira ainda mais estranha. Assim que foi despertado pela água fria, de maneira bastante hostil, um dos cavaleiros, segurando seu queixo com a mão protegida por uma manopla de aço — com a força de uma tenaz — inspecionou seu pescoço de todos os lados em busca de algum ferimento. Como nenhum arranhão foi encontrado, esse mesmo cavaleiro, com um olhar penetrante e traços sombrios, quase sussurrando, mas com uma entonação de liderança, disse aos seus companheiros:

– Por sorte ou pela proteção divina, quem sabe, esse daqui escapou ileso. Para seu próprio bem, é melhor que não se lembre de nada!

Virando-se uma vez mais para Ewerton, que ainda estava sendo firmemente segurado pelo queixo, dissera-lhe com voz firme em tom de soberania:

– Durma rapaz! Tudo não passou de um terrível pesadelo…

E mais uma vez Ewerton caiu na escuridão…

Já passava das dez da manhã, quando ele despertou. Sua cabeça doía absurdamente, como se ele estivesse enfrentando a pior ressaca de sua vida. Contudo, não se lembrava de ter bebido uma única gota na noite anterior. Fato que circunstância desmentiam em absoluto, pois sua camisa estava com cheiro de álcool e havia gosto de bebida em sua boca. Ainda um pouco zonzo, sentado em seu improvisado leito, tentou recolocar as ideias no lugar. Bem devagar, seus pensamentos foram se estabilizando e sua memória fora clareando aos poucos. Ao se recordar por completo de tudo que havia ocorrido com ele ainda de madrugada, rapidamente se colocou de pé e olhou ao redor em busca de algo que corroborasse o que havia acontecido. Para sua surpresa, tudo dava indícios que ele havia bebido tudo que podia e, pelo efeito da embriaguez, certamente havia tido aquele estranho pesadelo.

Próximo ao leito em que passara a noite havia uma garrafa de bebida completamente vazia, a fogueira — que ele aquecera a faca — estava apagada de tempos, e até mesmo a chaleira que deveria estar no fogo com a água para o preparo do café jazia pendurada entre suas coisas num dos galhos do Flamboyant. Após fazer uma busca minuciosa pelo dardo que retirara da ferida da jovem ou algum vestígio de sangue ao redor de um amplo perímetro ao longo da sombra da árvore e não encontrando nada, como já havia dormido embriagado por muitas outras vezes e também tido sonhos estranhos nessas noites ébrias, se deu por convencido que tudo não passara do fruto de uma mente bastante fértil. Ainda de pé, com a cabeça latejando nas têmporas, ficou por um tempo parado, olhando ao longo da estrada que ele já deveria estar trilhando desde as primeiras horas da manhã, decidiu pela enésima vez que deveria dar um tempo com a bebida — sua única companheira de noites insones –.

Rapidamente acendeu a fogueira, e sem demora preparou um café que logo fora saboreado com seu desjejum, um satisfatório pedaço de broa, com um naco de carne salgada. Com suas forças restabelecidas, selou seu cavalo — que naquela manhã estava bastante arredio e parecendo assustado — e saiu estrada a fora rumo ao seu destino, — uma cidade na qual ele era esperado para acompanhar uma boiada que seria levada para outro estado. Ewerton era peão estradeiro e vivia de tocar boiada de um lugar a outro. Tropeiro era seu ofício e as estradas seu ganha pão. Em mais de quinze anos na profissão, já conhecera muitos lugares diferentes. Contudo, naquela estrada em que se encontrava naquele momento, era a primeira vez que viajava, naquele ermo caminho, tudo era desconhecido. Cada curva, regato ou ponte era algo novo para se conhecer.

O dia claro de sol forte e brisa fresca possibilitou que a marcha tivesse um resultado bastante satisfatório, uma vez que ele já havia se alimentado bem e não precisou fazer nenhuma parada mais longa, exceto uma vez ou outra para se aliviar. Numa cavalgada continua, conseguiu vencer mais de oito léguas de estrada. Por volta das quatro da tarde, decidiu que deveria buscar um local mais apropriado para pernoitar, pois, logo à frente, uma forte tempestade se anunciava no horizonte e, debaixo de uma árvore ao relento, não seria apropriado passar a noite.

Não tinha seguido mais do que dois quilômetros, quando estando ele contornando uma curva bastante fechada após ter atravessado um belo regato de águas serenas e cristalinas, se deparou com um suntuoso casarão abandonado na beira da estrada. Era uma enorme construção em estilo colonial com traços de uma arquitetura bastante rebuscada. Suas feições — mesmo em ruínas, aparentando estar a bastante tempo abandonado — demonstravam que em seus tempos áureos havia sido um belo palacete. Talvez a residência de uma família muito importante, ou quem sabe uma pousada bastante movimentada na região. Porém, como tudo tem um fim, aquela bela casa estava encontrando o seu, nas garras do tempo, e se um dia fora habitada ou visitada por várias pessoas ilustres, naquele momento, certamente era moradia de várias criaturas que viviam nas sombras se escondendo na escuridão, e que naquela noite em particular, também lhe daria abrigo contra uma chuva que se anunciava de forma violenta e duradoura.

Muito cansado da viagem e das desventuras da noite anterior onde no mesmo sonho ele fora espancado duas vezes, Ewerton após apear e desarrear seu cavalo — deixando-o pastar livremente — decidiu adentrar o casarão e procurar uma forma de acender uma fogueira, tanto para lhe aquecer e espantar algum animal peçonhento bem como deixar o lugar mais iluminado. Por dentro o casarão não era de todo diferente ao seu externo. Tudo estava na mais completa ruína. O ambiente tinha um cheiro fétido de mofo e abandono. A poeira do tempo tomava conta do lugar. Havia alguns móveis abandonados, mas estavam velhos e comidos por traças, servindo apenas de suporte para as inúmeras teias de aranhas que infestavam o lugar. Temendo se deparar com alguma serpente ou algo do tipo, devido a escuridão interna que ocupava todos os cantos da casa, decidira ele, ficar no salão principal que contava com uma bela e grandiosa lareira. Rapidamente, utilizando-se de pedaços de alguns moveis velhos, logo conseguiu acender uma crepitante fogueira que trouxe luz e calor para aquele lúgubre ambiente.

Em um de seus embornais, ainda havia uma pequena garrafa com licor que ele logo abrira, emborcando alguns goles para acompanhar mais um pedaço de broa e alguns nacos de carne salgada, que naquela noite seria seu único jantar. Assim que terminou esse breve repasto, colocou mais alguns restos de cadeiras velhas no fogo e após de ter a certeza que num velho estofado de frente a lareira não havia nenhum animal peçonhento se escondendo em seu interior, se deitou e ficou ouvindo o crepitar das chamas na lareira e o ribombar dos trovões e da chuva que caia pesada no telhado, sem maiores preocupações, logo pegou no sono.

Acordou sobressaltado já tarde da noite com alguém lhe acariciando a face. Era uma bela donzela de olhos na cor de mel com longos cabelos ruivos na cor do entardecer. Ele jazia com a cabeça em seu colo e ela muito prestativamente lhe velava o sono. Num movimento rápido, se colocou de pé e logo percebeu que tudo ao seu redor havia mudado bruscamente. O casarão em ruínas cedera lugar a um suntuoso palacete cheio de luz e muito movimento, a mobília estava nova e brilhante, havia belíssimas cortinas nas janelas, o piso estava recoberto com finíssimos tapetes em alguns lugares. Havia inúmeras pessoas por todos os lados. Comendo, bebendo e se divertindo bastante como se uma animada festa estivesse ocorrendo ali naquela noite.

Belas e perfumadas mulheres de todas as idades, distintos cavalheiros com pose de serem homens bastante importantes se faziam presentes como convidados ilustres. Na lareira — que agora estava bela e limpa — ardia uma frondosa fogueira com toras de madeira perfumada dando ao local um agradável odor almiscarado. Num dos cantos do salão, um afinado piano alegrava o ambiente com notas musicais bastante animadas. Tudo era muito alegre e festivo como num sonho, até mesmo a chuva parecia ter dado uma trégua naquele momento. O barulho ao seu redor era de risos, animadas conversas e o harmonioso som do piano.

Um tanto embasbacado com tudo aquilo e ainda meio atordoado pelo sono, Ewerton foi conduzido até um recinto reservado. Lá, uma deslumbrante mulher, possivelmente na casa dos quarenta anos, conversava alegremente com um jovem ainda na flor da idade, que lhe fazia companhia. Esta mulher foi apresentada a ele como a Condessa do Araripe, viúva do nobre Conde do Araripe e proprietária daquela badalada pousada. Ela gerenciava o estabelecimento com a ajuda de suas três filhas e, naquela noite, seria sua anfitriã. A condessa era uma mulher de estatura alta, com longos cabelos cacheados tão negros quanto uma escura noite sem luar, que caíam em cascata pelas costas. Seus olhos brilhantes, da cor de esmeraldas, destacavam-se em seu rosto claro como a neve, e seus lábios na cor de carmim delineavam um sorriso que, embora inocente, denotava a seriedade e responsabilidade de quem governa um renomado estabelecimento e cuida de indefesas donzelas.

Assim que o distinto cavaleiro lhe foi apresentado, a condessa, que naquela noite trajava um longo vestido de veludo na cor verde como seus olhos, levantou-se e, após uma delicada reverência, ofereceu-lhe uma de suas mãos para que Ewerton a beijasse. Ao aproximar seu rosto da mão da condessa, ele pôde sentir o mesmo perfume que emanava da jovem ferida a quem ele havia prestado socorro — era o mesmo aroma de frescas flores de jasmim. Já bastante desconfiado de tudo aquilo, Ewerton se colocou ainda mais na defensiva, mas deixou que os eventos se desenrolassem para ver onde tudo aquilo iria culminar. A condessa então lhe ofereceu uma bebida, servida por outra de suas filhas — tão bela quanto a primeira –, uma jovem loira de olhos azuis como o céu em uma manhã de primavera. Com a bebida em mãos, mas ainda sem experimentá-la, ele refletiu por um instante, questionando-se se tudo aquilo não seria apenas mais um sonho. Para ter certeza dessa vez, e sem ser notado, para não parecer um lunático diante de tão belas mulheres, decidiu morder o lábio, de modo que a dor pudesse esclarecer suas dúvidas.

Talvez tenha sido esse seu maior erro, pois a mordida foi mais forte do que pretendia, resultando em um fino fio de sangue brotando de seus lábios. Esse brilhante fio escarlate se tornou sua perdição, pois, antes mesmo que pudesse reagir, logo se viu preso por braços que mais pareciam duas tenazes, enquanto a condessa se lançava sobre ele, abraçando-o como uma serpente. A bela face da condessa transformou-se em algo assustador e animalesco; os belos olhos, que antes eram de um verde estonteante, agora tinham a cor rubra do fogo mais ardente; seus dentes, longos e afiados, estavam prestes a banquetearem-se de sua carne. Ele já sentia o morno bafejar de sua boca em seu pescoço e uma língua pegajosa roçando sua pele como se estivesse saboreando-o. Ele tentou se libertar de todas as formas e, percebendo que era inútil se debater, fez a única coisa possível. Juntou o que restava de suas forças e, num átimo de desespero, soltou um grito tão alto e vigoroso que teve a certeza de que aquele ensurdecedor barulho despertaria qualquer coisa ao seu redor.

Por sorte ou mero acaso, seu grito de desespero lhe foi bastante promissor, pois quando imaginou que aquele seria o seu fim, ouviu uma voz doce próximo a ele, intercedendo a seu favor.

— Mãe! Solte-o! Tenho uma dívida de honra com esse cavalheiro! Foi ele, que ainda hoje pela manhã, veio em meu socorro. Se não fosse por ele, certamente os Cruzados teriam me capturado e talvez eu nem estivesse mais por aqui. Ele é digno de todo nosso respeito e proteção.

O abraço de morte que a condessa lhe aplicava se tornou num abraço de afeto e sincero agradecimento. As feições da condessa retornaram ao que era antes e ela mais uma vez estava encantadoramente bela outra vez. Ainda segurando Ewerton pela face, — que ainda tomado de pavor, sentia-se meio hipnotizado e sem reação — lhe beijou a testa e após deixar uma marca em sua face com uma de suas afiadas unhas, disse-lhe de forma muito afetuosa e maternal:

— Nada, nem ninguém em meus domínios tocara num único fio de cabelo seu! Nenhuma criatura da noite atentará contra sua integridade. De hoje em diante você será meu protegido!

A mesma jovem que ele ajudara pela manhã, agora tão bela quanto sua mãe — uma vez que as duas eram muito parecidas — também lhe dera um afetuoso abraço de agradecimento e logo após, soprou em sua face um pó esbranquiçado que mais uma vez o lançara no véu da escuridão. Ewerton acordara já bem tarde na manhã seguinte, com uma terrível dor de cabeça, — como na manhã anterior — ainda estava deitado no velho sofá de fronte a lareira que agora jazia apagada e mais uma vez fria e sem vida. Tudo no casarão estava igual ao momento em que ele ali adentrara; ruínas, abandono e sujeira por todos os lados. Mais que depressa, ajuntou suas coisas e logo deixou aquele assombroso ambiente. Já pelo lado de fora, na segurança da luz do sol, que naquela manhã brilhava radiante fez mais inventário de todos os acontecimentos e mais uma vez se fez convencer que tivera outro pesadelo horripilante. Seu cavalo, fora logo selado e mesmo sem preparar seu café, decidiu seguir viagem se afastando rapidamente daquele lugar.

Sobre sua sela, já a trote rápido, pegou um naco de carne para o desjejum, mas não conseguiu comê-lo devido ao sal que ofendia a ferida que ele tinha no lábio inferior…

Texto publicado na 3ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datada de março de 2024. → Ler edição completa

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Descuido da morte

Eu o vi afastado entre as aberturas de meus dedos afastados. As mãos sobre minha face ferida, apertadas com designo…

MidjourneyAI

Eu o vi afastado entre as aberturas de meus dedos afastados. As mãos sobre minha face ferida, apertadas com designo de proteger-me do terror que me acometia decorrente a circunstância de morte presente, já não me auxiliava.

A escuridão havia tomado todo o cômodo, aos prantos prostei sobre a esteira aguardando em silêncio, contendo os murmúrios e apelos preservados em minha garganta. Eu o matara, e como haveria de fazer o contrário diante da violência a qual vinha sofrendo anos a fio? Não fora intencional, muito menos arquitetado, embora aceitei veemente a oportunidade de apunhalá-lo segundos antes do ato.

 Nossos filhos jamais perdoariam meu ato desesperador, pois em suas cabeças pueris somos o mais puro e simplório retrato familiar genérico introduzida em nosso contexto social, embora, eu creio que a desumanidade esteja presente em todas as classes, no fim, somos todos idênticos.

‘‘Desumanidade’’

Marquei com o plasma sangrento em minha própria carne como lembrança. No decorrer de minha consciência, pousei as mãos sobre a chemise em descanso, e ressentida decidi dar um fim a figura masculina finada diante de meus olhos. Era bonito, senti pena, a beleza pouco é igualada dentro e fora da carcaça humana, tomo meu pai como exemplo, foi bonito e sabido, porém agressivo e infiel, receio que minha filha sinta necessidade de encontrar um par como o meu, assim como fiz, espelhando-me em minha mãe.

 No presente momento em que olhei para meu finado companheiro, e tomei em minhas mãos algo que pudesse limpá-lo e também minha casa, compreendi meu infeliz roteiro, sei que diferente de minha mãe reagi por instinto, instinto esse desconhecido, uma vez que não enxergava dentro de mim impulso algum responsável por este desfecho dramático.

Pois bem, tão logo o limpei vi o defunto voltar a corar, os lábios empalidecidos voltaram a dar-lhe a beleza e vitalidade, porém a costumeira expressão odiosa, a qual pesava-lhe na inclinação das sobrancelhas mesmo na morte, fora atenuada, dormia sereno, longe de pesadelos, e o cheiro da decomposição, a qual vinha deixando-me de certa forma satisfeita por comprovar meu livramento, havia desaparecido por completo.

Aproximei o rosto de seus lábios, os lábios que outrora despejaram provocações e beijaram-me com uma ferocidade atroz. Não tencionava beijá-lo, esse anseio já não me provocava há anos, tencionava apenas comprovar por meio de sua respiração a morte efetiva, porém o maldito voltou a respirar, embora suave, e as pálpebras tremeluziram em um sonho agitado.

Levei a mão aos lábios contendo o grito, pois percebia minha insanidade e refleti sobre a possibilidade de a morte não passar de uma idealização projetada em minha mente como consequência de sérias complicações em minhas faculdades mentais. Logo o choro e o desespero regressaram urgentes junto ao despertar de meu marido e a fixação de seus olhos aflitos.

O não mais falecido permaneceu sentado onde havia desencarnado, apertando os lábios como em um choro reprimido, mas não se atreveu a questionar os últimos acontecimentos, somente refletiu ao tomar ciência de sua localização. Quis apagá-lo outra vez, apanhar meus filhos na moradia vizinha e fugir da capital, todavia não o fiz, aguardei assombrada. Ele não tornou a agredir-me, embora demonstrasse agressividade na forma como ergueu o tronco e deixou a casa apressado.

Aguardei seu retorno acuada por detrás das cortinas, repetindo o procedimento habitual de quando nos deixava a fim de se aventurar entre tavernas e residências de messalinas portuguesas desfavorecidas. Antes do anoitecer do terceiro dia, Mario atravessou a porta abatido, questionou-me cauteloso a respeito de nossa família e emprego, o qual evidente não existia, uma vez que há tempos eu vinha sustentando a casa e seus vícios através da costura.

Confuso, respondeu de forma branda, quase não ouvi sua voz, o que me deu coragem para exaltar a minha, proferindo todo tipo de injuria, devolvendo a agressão verbal e corporal sofrida por anos, aguardando que revidasse e enfim findasse minha vida, visto que a sua não poderia ser tomada apesar de todo meu esforço.

Mario tornara-se impassível, mostrando-se eficiente em cuidar dos meninos e de nossa moradia. Por semanas fui testemunha de sua loucura, antes fora a encrenca encarnada, porém agora o equilíbrio tomava sua personalidade, transformando a leviandade em uma amarga lembrança. Mario e nossos filhos formaram uma amizade jamais cogitada por mim, diminuindo minha guarda em relação o pavor de dias remotos.

Certa manhã, eu o vi levantar discreto, e crendo na proeza de sua prudência vestiu-se e deixou a casa sorrateiro. Eu o segui em desconfiança, por pouco desacreditei na cena a qual se desenrolou a frente de meus olhos; Mário observava uma família através das janelas com um profundo ar melancólico. A dor em seu semblante desprendeu em mim uma afeição jamais sentida, embora houvesse chances de estar diante da residência onde se passara mais uma de suas infidelidades. Mário tornou a voltar para casa ao fim do dia, e como de costume aprontou parte do serviço no campo e acariciou os filhos com o mais profundo carinho de seu coração.

Os dias correram, e com o correr meu coração abriu-se outra vez para o amor, embora enfrentasse um dilema moral, afinal, como retornar a relacionar-me com um sujeito cujo desrespeito e agressividade uma vez operaram em cada um de seus atos? Como doeu, e dói refletir sobre o passado, leitor. Pouco ponderei minhas tomadas de decisões, não controlava os pensamentos involuntários sobre como proceder, havia somente duas opções: encobrir, e dessa forma alcançar a felicidade tão idealizada, ou o diagnosticar como louco e esgueirando-me como havia planejado há tempos. O que farias em meu lugar?

Eu permaneci ao seu lado, tornando a enxergar beleza em seus olhos e lábios, desprendida do medo e cativada como em nossa juventude. Acredito que esta história findará repleta de contrariedades e desagradará grande parte dos leitores, por este motivo relato minha experiência, para que saibam o quanto ainda me ressinto dos dias de horror experimentados outrora.

Mario conservava sua rotina ligada ao trabalho braçal, olhar as crianças e amar-me com ardor, porém, pela manhã, sorrateiramente partia em direção a casa desconhecida e a observava tristonho. Imaginei que o preço de ter uma vida feliz era aceitar este estranho passei matutino, no entanto, sentindo-me dona da coragem o confrontei, e meu confronto atraiu a família observada a qual esboçou dúvida sobre os protestos desenfreados próximos a sua residência.

Mário, sentiu necessidade de apaziguar apenas a preocupação da mulher recém-chegada, a penosa mulher de belos trajes e modos de uma verdadeira dama de elevada classe, causando em mim grande ressentimento. Em casa, a sós, meu esposo contornou a cozinha taciturno, quieto em busca de sossego, porém via-me no direito de ouvir a verdade e calcular por mim mesma os riscos de conhecer o preço da felicidade. Eu o confrontei, e a verdade pareceu-me dolorida e inverossímil, jamais compreenderei a eventualidade sucedida após o desencarnar do corpo de Mário meses atrás.

O homem ao lado vivia no íntimo de meu esposo, usava de seu corpo, articulava com sua voz e corria com seus pés, porém não era ele. O que ocorreu fora que após o desencarnar de Mário outra alma ocupara seu corpo de forma inesperada, a passagem não fora concluída e dessa forma o pobre homem, impossibilitado de retornar ao próprio corpo e aproveitar os carinhos de sua boa esposa e filhos privilegiados, obrigou-se a aceitar a nova vida, mantendo-se saudoso, dia após dias.

Após dialogarmos, decidimos aceitar sua nova chance, nossa nova chance, afinal, o descuido da morte presenteou a mim e minha família com o que jamais dispusemos, revogando nossa crença na bondade masculina e salvando minha filha da possibilidade de adentrar em um matrimônio como o meu, e passar adiante a desgraça das mulheres de nossa linhagem.

Texto publicado na 3ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datada de março de 2024. → Ler edição completa
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Escrito por Alex Miranda, -Contos Alex Miranda Escrito por Alex Miranda, -Contos Alex Miranda

Hereditário, Parte I — Gardênia, Capítulo II — Desilusão

Com o passar do tempo, — esse extraordinário deus, bem como o rio Lete que em suas límpidas e serenas águas…

MidjourneyAI

Com o passar do tempo, — esse extraordinário deus, bem como o rio Lete que em suas límpidas e serenas águas guarda todas as lembranças daqueles que saciam sua sede, também cicatriza todas as feridas e muito rapidamente lança várias lembranças para o abismo do esquecimento — Gardênia, aconselho de seu sábio e amoroso pai, colocou uma pedra sobre o assunto e seguiu com sua vida e logo se tornaria uma bela mulher, esbanjando charme e sensualidade, contudo por quase dez anos, ninguém nada soubera sobre qualquer tipo de relacionamento dela com quem quer que fosse. Quando alguém um pouco mais corajoso ou apenas mais um desavisado, se aproximava dela um pouco mais romanesco e demonstrando segundas intenções, ela logo o repelia. Entre o populacho — essa raia miúda que não tem muitas ocupações — surgiu inclusive alguns bochichos sobre o verdadeiro interesse de tão bela jovem, pois essa por sua vez, sempre preferia a companhia de outras mulheres, principalmente mulheres separadas, viúvas ou jovens solteiras como ela mesma o era.

Além de Gardênia trazer consigo a desconfiança sobre a verdadeira causa da morte do Coronel Guilhermino, e temer que aquele tipo de mal se repetisse a outra pessoa e repelisse qualquer um que se aproximasse dela, a maioria dos então possíveis pretendentes da região — que já não eram muitos — temiam profundamente os boatos sobre o pai dela e se mantinham há uma distância segura. Assim, essa bela e prendada jovem, após sua primeira e dolorosa experiência que se demonstrou bastante traumática de todas as formas, só veio a conhecer o carinho de um homem no leito com mais de vinte e cinco anos, quando seu corpo quase retornara ao estágio virginal novamente.

Seu único e verdadeiro caso de amor, ou pelo menos aquilo que se pode se chamar de amor — sentimento recíproco entre dois seres que ocorre de forma espontânea e com consentimento mútuo — se deu nos braços do boiadeiro Emanoel Batista, que estava de passagem pela região acompanhando uma tropa de boiadeiros, — da qual ele mesmo fazia parte — tocando uma enorme boiada em sentido ao Pantanal mato-grossense. O encontro entre Emanoel e Gardênia se deu por um simples deslize do acaso, pois o boiadeiro estava acampado às margens do Rio das Almas, aguardando as águas baixarem um pouco, pois como havia chovido muito e de forma inesperada nos últimos dias, a correnteza estava letalmente violenta, tanto para os animais, bem como para os peões. Tentar atravessar o rio naquelas condições era um risco que o velho e sábio capataz não estava atinado a correr. Sua ordem ao chegar às margens do rio havia sido direta e inquestionável:

— O acampamento deve ser armado às margens do rio e assim que as águas baixarem um pouco e a violência da correnteza se amainar, poderemos atravessar em segurança sem nenhum tipo de prejuízo ou lamentação posterior.

Depois de três dias acampados às margens daquele caudaloso rio, aguardando por uma travessia segura, como a chuva teimava em cair cada vez mais forte — houve um tempo que nessas ermas regiões era comum chover semanas inteiras sem a presença do sol nem por um momento se quer. Emanoel — conhecido entre seus companheiros como Mané Faísca, devido a sua fogosa personalidade e intrépida rapidez sobre o lombo de uma animal — como era uma dessas criaturas de espírito inquieto, que não conseguem ficar ociosas por muito tempo, decidiu dar algum tipo de ocupação a si mesmo, enquanto a natureza seguia vagarosamente seu eterno e incansável fluxo. Se por um lado a maioria dos boiadeiros daquela tropa se mantinham sossegados debaixo de suas improvisadas barracas, protegidos da chuva e do frio, dormindo em suas redes na maioria do tempo ou envolvidos em jogatinas entre uma refeição e outra, Mané Faísca por sua vez, após selar sua mula e comunicar ao capataz, decidiu conhecer a região de forma mais íntima, fazendo uma cortês visita aos moradores da região. Esse simpático boiadeiro sempre deixava rastros de sincera amizade por onde passava, as vezes até algo mais do que uma simples amizade.

Na terceira casa onde bateu palmas, logo foi alegremente recebido pelo proprietário, acompanhado de seu filho mais velho — nas outras duas casas anteriores, como só havia mulheres e crianças presentes, não fora convidado a entrar, pois era comum nessas regiões não receber visitas se o dono da casa não estivesse presente. Até mesmo a estrutura da casa era planejada e construída prevendo uma situação assim, caso o assunto fosse urgente, o visitante aguardaria a chegada do proprietário num local específico do lado de fora da casa denominado alpendre, — uma espécie de varanda na frente da casa, onde o visitante pudesse aguardar o tempo que fosse necessário acolhido do sol e da chuva, fosse o caso de uma espera tardia. Nesse terceiro casebre onde ele se anunciou, como toda a família estava presente naquele dia em questão, inclusive recebendo outra visitante, logo ele também foi convidado a apear de sua montaria e entrar na casa para se proteger da chuva que, naquele momento, caia fina e bastante friorenta, acompanhada de um vento calmo mais constante.

O dono da casa, seu Antônio Fidelis, um homem de aparência bastante peculiar, estava trajado com suas vestes domingueiras, pois justamente além de ser dia do domingo, coincidentemente havia outra visita em casa. Nhô Tunico, como era verdadeiramente conhecido por todos na região, era um homem roliço, já pelos cinquenta anos, — talvez até um pouco mais –, acompanhando seu físico avantajado, o rosto era rechonchudo e liso, reluzindo a sabonete barato, utilizado para retirar a barba. Tinha os olhos castanhos e umedecidos, como se estivesse prestes a chorar a qualquer momento, esses mesmos olhos eram caídos e distantes como se quisesse enxergar ao longe, talvez buscando longínquas lembranças de um tempo bastante ido. Esse gentil senhor, mesmo sendo um homem simples, mas bastante hospitaleiro, logo decidiu dar guarida ao recém-chegado, convidando-o a entrar em sua humilde casa, lhe oferecendo logo em seguida uma xícara de café bem quente que, de imediato, foi aceito pelo boiadeiro com gratidão e afetuosidade.

Emanoel ao adentrar na sala de Nhô Tunico se deparou com quase toda a família ali reunida. Demonstrando gentileza e polidez, correu a vista por todo o recinto, cumprimentando a todos de forma unanime independentemente da idade de cada um. Contudo, logo seus olhos matreiros de bom caçador, se depararam com a bela silhueta de Gardênia, que naquele exato momento, também adentrava na sala por outra porta, proporcionalmente oposta a que ele estava adentrando ao recinto. Como se fosse por objeto de magia do próprio destino, os olhares dos dois se cruzaram, entre tantos outros, e mesmo antes de serem apresentados, um ao outro, parece que já se conheciam intimamente de outros tempos idos. Algo inverossímil e extraordinário sucedeu a ambos ao mesmo tempo, pois de forma rápida e bastante tímida, na troca daqueles poucos e discretos olhares, parece que mil juras de amor foram proferidas um ao outro de forma cúmplice e verdadeira.

Nhô Tunico, como homem polido e bom anfitrião que sempre fora, após apresentar sua família ao forasteiro, logo lhe ofereceu uma toalha limpa, para que o visitante pudesse se secar. Também fora lhe oferecido uma confortável cadeira para que se acomodasse o melhor possível. Rapidamente, uma das filhas da casa trouxera-lhe uma fumegante xícara de café, com um cheiro bastante atrativo, e ao experimentar um gole, logo o boiadeiro pôde comprovar que o sabor fazia jus ao aroma.

Emanoel agradeceu polidamente a gentileza, mas sem muito entusiasmo, pois a mulher que lhe servira o café já não era tão jovem e muito menos dotada de algum tipo de simpatia. Tinha ela um aspecto taciturno e bastante carrancudo, — semblante este comum a pessoas frustradas e infelizes. Tratava-se da filha mais velha da casa, — ou pelo menos assim se fez parecer. Foi apresentada a ele como Maria Lisandra, mas também foi lhe oferecido a intimidade de ser tratada pelo seu apelido mais conhecido — Liana. Era uma mulher na altura de seus trinta e cinco anos, — talvez, quem sabe, até um pouco mais. Logo de primeira vista era possível perceber que era uma solteirona sem as mínimas pretensões ao matrimônio. Os motivos eram muito aparentes, mas o principal e mais notório talvez fosse o conformismo latente em sua face que, além de muito sombria, também era bastante queimada pelo sol. Seus cabelos eram curtos e lisos de uma cor amarelada como palha seca, suas mãos eram grandes e grosseiras ao extremo, como couro curtido, com dedos compridos e cheio de nódulos que se encerravam em unhas amarelecidas pelo uso contínuo do tabaco. Não havia o mínimo traço de sorriso em seus lábios secos e rachados. No geral, seus traços se resumiam numa masculinidade velada, talvez pelo árduo trabalho no campo que ela desempenhava tão bem como se fosse um homem rude, — dependendo do homem, até um pouco melhor. Ao fim não era bonita de fato. Por outro lado, sua feiura estava longe de assustar alguém, mas era o suficiente para afastar qualquer pretendente da região, ou de qualquer outro lugar que fosse. Pelo seu olhar duro e sombrio, demonstrava clara resiliência quanto ao seu destino, certo e imutável, de eterna beata, ao qual ela caminhava a passos largos e contínuos.

Após saborear seu café, Emanoel acendeu seu cigarro de palha e deu boas baforadas. Pois, como a maioria dos presentes na sala também já o tinha feito, sendo assim, não seria falta de educação alguma empestear o recinto com mais um pouco de fumaça. Aquela mesma sala se tratava de uma local amplo e bastante arejado com várias janelas, num total de quatro ao todo. Duas delas estavam fechadas devido ao vento e a chuva que não dava mostras de estiar tão logo, mas as outras três, que davam para uma varanda lateral, estavam abertas e ventilavam satisfatoriamente o ambiente. O piso era assoalhado, mas não tão bem cuidado como necessário, contudo, pelo menos estava limpo. Além de uma enorme mesa de madeira com umas doze cadeiras, tinha, também, dois sofás de couro oleado e duas outras cadeiras de balanço. Num dos cantos da sala, havia um guarda louça com diversas quinquilharias, dividindo espaço com poeira e uma ou outra teia de aranha pendurada aqui ou acolá. Entretanto, o que mais chamava a atenção no ambiente era um belíssimo oratório no canto oposto ao da porta lateral da sala, que ficava justamente na direção da nascente. No centro desse oratório havia um majestoso crucifixo de madeira, posicionado de forma estratégica, proporcionando o ato de que Jesus Cristo pudesse receber todas as manhãs o nascer do sol em seus braços abertos. Aos pés desse crucifixo brilhava bruxuleante uma tímida vela caseira que exalava um agradável perfume de canela ou almíscar talvez.

Nesta sala além de Nhô Tunico, — o dono da casa, obviamente —, também estavam presentes; Liana e os demais filhos do proprietário. O mais velho lhe foi apresentado pelo nome de Antonio Lisandro — nome que ele simplesmente odiava — dando preferência por ser tratado apenas como Naldo ou Mestre Naldo — como seus alunos o chamavam. Era uma criatura de aspecto um tanto quanto peculiar. Completamente o oposto ao de Liana, sua irmã. Trazia em si movimentos sensíveis demais para um homem do campo que eram corroborados pela sua sutil aparência. Tinha os cabelos sedosos e cacheados, levemente crescidos tampando sua nuca. Muito bem cuidados, tal qual os de uma donzela casamenteira. Seus olhos eram brilhantes e carregados de certa malícia, sua pele clara e macia demonstrava completa repugnância a exposição ao sol, fato esse confirmado por suas mãos finas e delicadas, que denotavam à primeira vista nunca terem tocado uma ferramenta grosseira. Seus dedos eram finos e alongados com unhas limpas e bem cuidadas. Por fim, tinha um sorriso fácil e solto que sempre deixava à mostra, dentes brancos como marfim. Muito diferente de sua irmã Liana, que além de cumprimentar Emanoel com muita má vontade, nada mais lhe dissera, ignorando-o por completo. Naldo, por sua vez, se demonstrava falante e muito curioso quanto a tudo que o visitante dizia. Talvez porque fizesse parte de sua profissão — ouvir e falar — que era de mestre-sala de pequenos jovens da região, — a maioria filhos de fazendeiros prósperos, que o contratavam para lhes ensinar a ler e a escrever, além de lhes apresentar o místico mundo da matemática com seus números e as complicadas operações aritméticas. Para quem, porventura se interessasse, Mestre Naldo também ensinava música, além do canto, o fino trato com os instrumentos de corda, como o violão, a viola e o bandolim, não somente a simplesmente tocar os instrumentos, bem como, delicadamente a afiná-los. Além das aulas práticas ele fazia questão de ensinar todas as questões que envolviam a teoria musical.

O boiadeiro acostumado a lidar com companheiros rústicos, à primeira vista, — com seu jeito um tanto quanto matuto e até mesmo ignorante perante a certas novidades –, tinha sido preconceituoso e até mesmo leviano para com a sensível aparência do rapaz, logo repreendeu seus pensamentos e se autocensurou , convencendo a si mesmo que talvez aquela estranha aparência delicada de Naldo — que estava sendo tão educado a atencioso para com ele — era devido a sua intimidade para com as crianças, que se sentiam mais à vontade próximo a alguém com uma aparência menos grotesca. Emanoel também logo entendeu que, devido as circunstâncias, estava comparando Naldo com sua irmã Liana e aquela referência pode claramente ter exercido uma errônea influência em seu crítico e precoce julgamento. Próximo a Liana qualquer um — mesmo um rude lenhador — poderia muito facilmente ser confundido com uma donzela.

Naldo era um tipo de pessoa de diálogo fácil a agradável, pois falava corretamente e tinha um vocabulário bastante rico, até mesmo com palavras estranhas ao uso comum no cotidiano de uma pessoa simples. Era um sujeito muito querido por todos que o conheciam. Num raio de muitos quilômetros era um dos raríssimos letrados daquela erma região. Quando se fazia necessário, era ele quem redigia cartas a quem precisasse enviar uma mensagem a quem estivesse distante, e depois era ele também quem lia alguma epístola recebida. Como era bastante requisitado na questão que abrangia o universo das letras, além de saber muito sobre a vida de quem sempre o procurava, para um documento qualquer ou um simples escrito também era muito respeitado por sua sabedoria e polida discrição, naquilo que tangia aos assuntos alheios.

Para completar o grupo ali presente naquele ambiente, além de Gardênia que também estava como visitante, bem como ele mesmo — apesar de que Gardênia era uma visita mais íntima, pois era confidente de Naldo, seu antigo professor e conselheiro. Também era muito amiga da filha do meio de Nhô Tunico, Lisandra Maria. Havia também na sala o jovem Daniel, um belo rapaz, e mais três outras crianças menores, brincando num canto mais afastado, com alguma coisa bastante divertida, pois estavam bem entretidos e riam quase o tempo todo. Emanoel, vez por outra, também ouvia bulhas de uma criança de colo em outro cômodo, nos fundos da casa, talvez fosse o caçula da família. Lisa e Daniel pareciam ter mais ou menos a mesma idade com diferença de no máximo dois anos talvez, sendo Lisa mais velha. Contudo, Emanoel ficou pasmo quando soube do curioso fato de que Liana e Naldo eram gêmeos, algo surpreendente e complicado de acreditar, pois ambos eram completamente antagônicos entre si, e não somente na aparência física, havia ainda a questão temporal. Liana parecia ser pelos menos uns dez anos mais velha do que Naldo.

Após ter tomado mais um gole de café — que lhe fora novamente oferecido — e de mais algumas baforadas com seu palheiro já ambientado com o lugar e tomado certa intimidade tanto com a casa bem como com seus habitantes, Emanoel iniciou uma agradável prosa com o dono da casa e todos ali presentes, fato esse que muito agradou Nhô Tunico que se mostrou bastante interessado na conversa do boiadeiro. A vida de peão estradeiro é sempre cheia de histórias e muitas aventuras, algumas até verdadeiras, outras nem tanto. Contudo, nem mesmo por isso, deixam de ser interessantes e curiosas. Dentre os presentes ali naquela sala, o mais interessado nessas estórias de estrada era o jovem Daniel, — que logo se soube –, tinha apenas dezenove anos, e sonhava mais que tudo nessa vida, deixar a casa paterna e conhecer o mundo e poder desfrutar de tudo que essa vida pudesse lhe oferecer. Desde que nascera nunca havia colocado os pés para fora de casa e se alguma vez assim o fizera, fora em companhia dos pais pelas cercanias, nunca além dos limites da região onde vivia desde sempre. O que conhecia sobre o mundo era através do que Naldo lhe falava pelos livros — e de uma ou outra viagem que este fizera até a capital — ou pelas estórias de um ou outro viajante que muito raramente fazia parada por sua casa. Por muitas noites ficava até tarde acordado olhando, pela janela de seu quarto, o longínquo horizonte, sempre devaneando que a qualquer momento se lançaria pelo mundo e que, por sua vez, seria ele quem contaria as histórias de terras distantes quando retornasse a casa paterna.

Daniel era um jovem muito sonhador que sempre vivia suspirando ais de tristeza ao observar um pôr do sol ou ao contemplar um céu estrelado, pensando na grandiosidade do mundo que se perdia de vista no horizonte, enquanto ele estava preso ali naquela humilde casa desde que nascera. Primeiro de baixo da proteção de sua mãe, quando ainda criança sempre agarrado a barra de sua saia e agora, já quase um homem adulto, ainda não conseguiu se desvencilhar da sombra do chapéu de seu pai. Esse, até então, frustrado jovem, era meio termo dos dois irmãos mais velhos. Mais alto e mais forte do que Naldo, contudo bem menos grosseiro do que Liana. Tinha os olhos de expressão tristonha e distante que demonstrava ansiedade e muita sede de aventuras. No rosto ainda juvenil, já trazia os traços de um homem adulto, pois um fino bigode ainda tímido estava sendo cultivado com muito esmero. Suas mãos eram fortes e demonstravam uma ânsia incontrolável de tomar as rédeas de seu próprio destino e logo se enveredar pelas estradas da vida. Por mais duras e grosseiras que suas mãos pudessem parecer, quando Naldo trouxe o violão de seu quarto e a ele o entregou, rogando-lhe que alegrasse ainda mais a casa com algumas canções, de imediato pôde ser percebido que havia inconteste suavidade no contato de seus dedos com as delicadas cordas daquele instrumento. Lisa rapidamente sentou-se ao seu lado e enquanto ele tocava com bastante maestria, ela o acompanhava com uma voz bastante melodiosa, num tom quase angelical, demonstrando perfeita sintonia entre ambos.

A chuva continuava de forma insistente, mesmo sendo apenas um leve chuvisqueiro, mas bastante frio e como a conversa e agora também a cantoria estava bastante agradável, o tempo foi passando depressa e o visitante estava cada vez mais à vontade e ainda mais ficou, quando lhe ofereceram o violão, e lhe perguntaram se porventura ele sabia tocar. Emanoel com muito jeito, se apropriou do instrumento e disse:

— Um boiadeiro que se preze tem que saber lidar com o gado e ter certa intimidade com um violão para alegrar as noites frias e vazias longe de casa.

De posse do violão, logo Emanoel demonstrou que sabia muito bem como se deve tratar um instrumento como aquele. Das pontas de seus dedos, doridos acordes foram tirados daquelas sonoras cordas, e como sua voz era um pouco grave, as canções foram muitos bem recebidas. Quando, muito rapidamente ele olhava para Gardênia, algo dentro de si lhe dizia que aquelas melodiosas canções estavam tocando no fundo do coração daquela bela mulher, teve até mesmo a sensação de tê-la visto suspirar uma vez ou outra. Emanoel sabia melhor do que ninguém que a música acalma e agrada até mesmo a mais rude das criaturas e, quando a canção é dedicada a alguém de alma doce e transparente, o resultado se torna algo ainda bem mais satisfatório.

Após várias estórias e inúmeras canções, logo aquele boiadeiro entendeu que deveria ser tempo de se despedir e seguir seu caminho. Mas quando, ousou demonstrar suas intenções, logo foi convencido do contrário, quase que por unanimidade a ficar um pouco mais e aguardar pelo almoço, — que já estava na verdade para ser servido, a qualquer momento. Emanoel um pouco sem jeito por tanta hospitalidade que lhe era despendida, até que tentou, com certa relutância, recusar o convite, mas para surpresa de todos, foi a bela Gardênia que, quebrando a timidez e o recato de uma mulher solteira, o convenceu a ficar, dizendo a ele com uma voz quase suplicante e toda cheia de charme.

— Ainda chove lá fora e como a prosa está muito agradável, não vejo motivos que o impeça de nos privilegiar um pouco mais com sua companhia e ficar para o almoço. Se o senhor nos agraciar com sua presença à mesa, além de ter a chance de experimentar o humilde tempero da casa, poderá provar também dos deliciosos licores que Tia Jandira prepara com frutos colhidos por ela mesma. Posso lhe garantir que não se arrependerá por ter esperado um pouco mais.

Com essas convincentes palavras que a bela Gardênia tão docemente lhe dirigiu, quase que, na verdade lhe convocando para o almoço, temendo ele fazer uma grosseira ofensa ao dono da casa, logo se viu na iminência de aceitar o convite, até porque, também já estava farto da repetida refeição de seu acampamento que, seguindo uma regra básica de comida de estrada, era quase sempre o mesmo cardápio. Feito com muito asseio, mas tudo junto e misturado — até porque a estrada não permite certos luxos. Assim que foi anunciado que ele ficaria para o almoço, logo foi aberta uma garrafa de licor de jenipapo que foi recebida por todos com bastante regozijo, até mesmo pelas crianças que, devido ao frio, foram também autorizadas a tomarem um pequeno trago cada uma. Quando Gardênia, dizendo-lhe que a espera seria bem recompensada, insistiu para que ele ficasse, de forma alguma ela faltou com a verdade. Realmente, o almoço valeu a pena a espera, pois estava divinamente apetitoso e bastante sortido.

Emanoel soube depois que aquele fantástico repasto, fora preparado por Jandira, uma espécie de serviçal da casa que a bem da verdade era uma prima em segundo grau da esposa de Nhô Tunico. Tia Jandira — como todos a chamavam — era uma mulher de pele escura e corpo avantajado e aspecto forte, mas com uma aparência agradavelmente bonacheira. Mesmo trazendo consigo uma grotesca corcunda e uma das pernas quase esquecida, tornando o seu caminhar uma atividade bastante estranha e ruidosa, não tinha uma aparência que pudesse causar espanto, pois tinha sempre um sincero sorriso na face de bochechas salientes e nariz adunco. Seus proeminentes lábios cobriam uma dentição perfeita de dentes brancos e fortes. Por fim, Tia Jandira era discreta ao extremo, até porque nunca fora escrava de suas palavras, mas sempre senhora de seu silêncio, desde sempre vivera sua singela vida no mais absoluto mutismo, sem nunca pronunciar qualquer tipo de tagarelice desnecessária, mas utilizando-se dos verbos somente em necessidade extrema. Tia Jandira, em troca da proteção e do abrigo que lhe era oferecido desde sempre, retribuía tão nobre gentileza se fazendo de serviçal doméstica, assumindo para si praticamente todo o serviço da casa. Ainda que, fazendo sempre de tudo um pouco, tudo o que fazia era executado com esmerada maestria. Sendo assim, o almoço daquele dia em questão, não o fora diferente — estava divino.

O cardápio era simples, mas bastante caprichado no tempero. Arroz branco — soltinho e bem cozido —, feijão refogado na banha de porco com bastante alho, mandioca cozida, banana frita, couve refogada, salada de rúcula com tomates e o prato principal: frango ao molho de açafrão com pimenta e cheiro verde. Aquela comida tipicamente caseira, com todas as suas peculiaridades, muito agradou ao paladar do boiadeiro. Uma vez tendo perdido a timidez, não se fez de rogado e repetiu o prato sem nenhuma cerimônia. De certo modo, houve uma ponta de arrependimento, por parte do visitante, em ter exagerado no almoço em si, pois assim que findou aquela refeição principal, logo em seguida foi servida uma farta sobremesa com vários tipos de doces e licores de fabricação caseira. Juntamente com a sobremesa foi disposto sobre a mesa outro fumegante bule de café recém-preparado e um belo queijo fresco.

Não apenas a comida em si, mas os doces e, também, as bebidas eram fruto do trabalho de Tia Jandira. Segundo Naldo, — que logo deixou explicito que naquela casa era quem mais a respeitava — Tia Jandira não sabia o significado da palavra preguiça, por isso, tudo era preparado por ela com alegria e muito boa vontade, sobretudo os licores, que ela preparava a base de cachaça artesanal — que ela mesma produzia — e frutos colhidos no faustoso pomar do quintal. Daniel, de uma forma jocosa relatou que, Tia Jandira enquanto preparava os licores experimentava um e outro, testando o teor de cachaça e vez por outra se animando além da conta. Qualquer um que não a conhecesse pessoalmente poderia jurar que a qualquer momento ela iria começar a cantarolar uma bela canção. Contudo aquela servil e humilde criatura levava sua vida de forma simples e desinteressada, relegando sua existência num completo e resiliente silêncio.

É costume — independente de qualquer coisa ou qualquer dia que seja — em qualquer residência de fazenda interiorana que se preze que o almoço seja servido logo bem cedo. E naquele dia não foi diferente, e antes mesmo das onze horas o barulho de talheres no fundo dos pratos se fez ouvir.

Ao meio-dia a prosa ainda continuava muito alegre e mais algumas canções foram ouvidas, mas mesmo entre música, estórias e um gole e outro de licor, assim que a chuva deu uma pequena trégua, Emanoel logo percebeu a oportunidade de não abusar da hospitalidade alheia e decidiu que era hora de partir. Aquele destemido e aventureiro boiadeiro, depois de ser agraciado com uma manhã tão agradável na companhia de tão amáveis e prestativas pessoas — fora lhe oferecido um belo queijo e uma garrafa de licor de Jenipapo como prenda em agradecimento pela visita — nem imaginava por alto que fosse que o destino estava traçando o trágico início do final de sua jornada por essa estrada, que todos chamam de vida. Emanoel estava se encaminhando de forma totalmente involuntária para a última curva de sua estrada.

Ainda que, naquele momento, a chuva tivesse dado uma trégua, o céu ainda se mantinha carregado com nuvens pesadas e escuras, dando a entender que a qualquer momento poderia chover forte novamente. Após despedir-se de todos os presentes com galhardia e polidez, Emanoel dirigiu-se ao local onde sua mula pastava sossegadamente. Caminhando tranquilamente e com os pensamentos em completa abstração, ele, que naquele momento, tinha o rosto afogueado pelo efeito dos vários cálices de licores saboreados com avidez exagerada, nem se deu conta de que alguém lhe dirigia a palavra timidamente às suas costas, seguindo-o timidamente. Quando percebeu que estava sendo solicitado, virou-se para responder ao chamado e logo se deparou com Gardênia — que durante quase toda a manhã não havia tirado os olhos dele, fato que o havia deixado muito animado — e que, ao perceber que havia conseguido sua atenção, perguntou-lhe de forma bastante meiga, quase suplicante:

— Será que haverá algum incômodo se eu o acompanhar pela estrada, uma vez que o caminho que seguiremos será o mesmo até certo ponto?

Para qualquer mulher solteira, um ato como aquele poderia se caracterizar como um escândalo, especialmente considerando a época e aquele ermo local. Contudo, no caso de Gardênia, não havia perigo algum; e se porventura houvesse, com plena certeza, esse perigo jamais seria para ela. Emanoel, por sua vez, ficou muito satisfeito com a companhia em si. De certo modo, ficou até surpreso com a forma como tudo se encaminhava. De forma muito cavalheiresca, ofereceu a garupa de sua mula a ela. Gardênia, no entanto, devido à sua conduta moral e irrepreensivelmente ilibada, agradeceu a gentileza, mas negou veementemente montar em sua mula junto a ele, e seguiu a pé ao seu lado.

Caminhando então juntos, ambos estavam a pé, pois ele, de forma solidária, também apeou de sua montaria e foi andando ao lado dela, arrastando sua mula atrás de si — fato esse que trouxe certo regozijo àquele imberbe muar, que de forma alguma quisera protestar. Foram caminhando próximos um ao outro e conversando animadamente sobre diversos assuntos da vida, como se já se conhecessem desde sempre. Toda a inibição que pudesse ter existido entre eles se desfez por completo nos vapores dos licores, consumidos por ambos, evidentemente que por parte dela de forma mais comedida, mas, mesmo assim — para alguém que não tinha o mais leve costume de consumir bebidas alcoólicas — ela estava com o corpo quente, sentindo o caminhar mais leve e os gestos mais soltos. Seu sorriso se desprendia com maior facilidade a cada gracejo dele. O assunto entre eles não tinha um tema específico; na verdade, era aberto e diversificado. Contudo, nenhum dos dois se atrevia a falar sobre si mesmos, mantendo uma aura de mistério sobre suas intimidades. Se por um lado, um não perguntava nada a respeito, o outro, por sua vez, não respondia tampouco.

Quando já estavam mais ou menos na metade do trajeto, onde cada um deveria seguir o seu caminho em direções diferentes, a chuva voltou a cair forte novamente, contudo, dessa vez, com fortes rajadas de vento e estrondosos trovões que balançavam o firmamento. Rapidamente o céu se cobriu de um negrume tenebroso, tornando o dia claro de, talvez, no máximo, umas duas horas da tarde ainda, em quase noite fechada. Logo, os dois caminhantes se viram obrigados a procurarem um abrigo. Por sorte, numa encruzilhada próxima, logo avistaram uma pequena capela de há muito tempo abandonada, mas ainda muito bem conservada pelo tempo. Há um velho ditado que diz: “…quando o morador abandona seu lar, logo a construção se desfaz. Contudo, em se tratando de uma construção sagrada, seu verdadeiro residente jamais se muda.”

Essa pitoresca construção ficava às margens da estrada e parecia ser um local bastante promissor para se abrigar de todo aquele aguaceiro que estava sendo despejado pelo céu e não dava mostras de se encerrar tão logo. Dentro da capela estava frio e muito escuro, entretanto estava seco e acolhedor. Com certa relutância, logo Emanoel conseguiu fazer uma fogueira com alguns pedaços de madeira que havia dentro da capela. Além de servir como lume, aquela pequena e improvisada fogueira serviria também para aquecer a bela jovem que tiritava de frio, pois estava ela completamente encharcada com a água da chuva. Suas roupas pingavam de tão molhadas, suas mãos estavam trêmulas, talvez de frio, ou quem sabe até mesmo por nervosismo, por se encontrar presa ali naquela capela, mais uma vez sozinha na presença de um homem.

Gardênia, naquele dia, trajava um belo vestido de algodão cru de tecido leve na cor bege claro, com delicados florais bordados à mão. Como estava molhado ao extremo, o tecido lhe colara ao corpo, deixando quase à mostra uma pele firme e macia. Devido ao frio, seus mamilos, ainda quase virginais, estavam acesos e deixavam uma sedutora protuberância no tecido molhado. Emanoel viu tudo aquilo com uma ardente volúpia que lhe queimava profundamente suas entranhas. Todavia, seu recato de homem sério e seu senso cavalheiresco lhe impediam de tirar alguma vantagem de uma donzela em que lhe confiara sua inocência, quando decidira acompanhá-lo por parte do caminho que ambos deveriam seguir na mesma direção.

A capela onde os dois estavam abrigados não era muito grande e, como a fogueira acesa ainda estava entre ambos, os dois se viram obrigados a ficarem muito próximos um ao outro. Emanoel, que sempre fora muito gentil e prestativo, ofereceu à Gardênia sua camisa que, estando por baixo de uma jaqueta de couro que ele trajava, havia se mantido seca, mesmo com toda a chuva que tiveram que enfrentar até conseguirem entrar ali naquela capela. Gardênia, por sua vez, obviamente tentou recusar a oferta, mas se viu obrigada a aceitar, por temer estar ofendendo tão nobre gesto de delicadeza e, logicamente, por estar realmente com bastante frio. Desde o primeiro momento que seus olhos se depararam com o corpo másculo do boiadeiro que adentrava a casa de Nhô Tunico naquele início de manhã, um estranho sentimento tomou conta de todo o seu ser. Um estranho arrepio correu-lhe por toda a sua espinha e um frio apoderou-se de seu ventre a ponto de ela pedir para que Daniel lhe servisse um gole de licor, para aquecer-se do frio.

O jovem e prestativo Daniel tinha-lhe muito apreço, pois havia uma grande amizade entre eles, e foi justamente devido a essa bela amizade que ele de forma muito cortês lhe servira uma satisfatória dose daquela perfumada e adocicada bebida. O licor, saído de uma garrafa recém-aberta, estava com o teor alcoólico bastante concentrado e quando Gardênia tomou aquela dose de um único gole, o efeito em sua garganta foi de imediato, aquecendo-a por completo, entretanto de nada adiantou contra as estranhas palpitações que estava sentindo naquele momento. Uma vez a cada mês, nas vésperas de suas regras, Gardênia sentia essas mesmas sensações estranhas, contudo logo eram controladas por um banho frio e um chá de camomila, mas agora, ali naquela capela, ela estava sentindo a mesma coisa. Sentia frio devido a estar bastante molhada, mas também sentia calor devido ao efeito dos licores consumidos de há pouco.

Sua cabeça estava zonza e de certa forma parecia que ela havia perdido o controle de suas emoções. Aquelas sensações, que lhe tiravam o sono vez por outra, estavam se tornando cada vez mais fortes ali naquele local e ficaram quase incontroláveis quando Emanoel despiu sua camisa e ficou com parte de seu corpo nu. Naquele momento, Gardênia que já sentia sua cabeça pesada, perdeu por completo o controle de suas atitudes e quando se levantou meio trôpega para receber a camisa que ele lhe entregava tão solicitamente, sentiu falharem as suas pernas. Emanoel ao perceber que ela poderia cair sobre a fogueira que estava imediatamente entre ambos, logo se lançou em seu socorro. Contudo, ao tentar ampará-la, o fez de forma muito desajeitada, pois foi surpreendido por não esperar por aquele incidente e, ao tentar segurá-la, involuntariamente uma de suas mãos se deparou com um seio rijo que se encaixou perfeitamente entre sua mão em forma de concha naquele momento. Gardênia, estando totalmente zonza e desequilibrada, caiu em seus braços.

No mesmo instante que ele, por um momento, chegou a imaginar que seria grosseiramente censurado por ela, Gardênia quase desfalecida em seus braços, languidamente ofereceu-lhe seus lábios e os dois se perderam completamente em um longo e ardente beijo. Ainda que, mesmo molhados e arrepiados devido ao frio, logo seus corpos se acenderam de tal maneira, como se a chama que emanava de dentro deles fosse proveniente das profundezas do próprio Tártaro.

Gardênia, a bem da verdade, nunca havia estado realmente nos braços de um homem, pois sua primeira e traumática experiência não passou de um ato de brutal selvageria, ela jamais havia sentido o verdadeiro calor de um corpo nu sobre o seu muito menos a volúpia de estar enlaçada a outro corpo por vontade própria. Por outro lado, Emanoel, mesmo sendo ainda bastante jovem, havia sido iniciado nas práticas do amor, nos braços de experimentadas matronas, pelos incontáveis prostíbulos que havia frequentando até então, pelas inúmeras cidades que, vez por outra, sua tropa acampava. Quando ele era ainda muito jovem, mas bastante vigoroso e ainda possuidor de poucas posses, sempre lhe sobravam as matronas já desprovidas de beleza e qualquer encanto aparente, muitas delas já em fins de carreira, que nem sempre lhe cobravam por seus préstimos, todavia o amavam com todo o fervor de suas lascivas almas, saboreando o frescor juvenil que emanava de seu corpo ainda em formação, mas, em troca, dando-lhe prazer gratuito e o ensinando os segredos mais íntimos da sedução.

Por ser conhecedor dos caminhos que levam ao prazer no leito, Emanoel assumiu logo o controle da situação. Gardênia totalmente entregue e sem controle algum sobre si mesma, se deixou conduzir sem relutância alguma, como se ela mesma desejasse aquilo mais que tudo na vida. A mesma camisa que deveria ter sido usada por ela para lhe proteger do frio foi jogada no chão daquela velha capela abandonada. Estando os dois já completamente nus, como chegaram ao mundo, logo o amor aconteceu. No início, Gardênia sentiu uma dor desconfortável, que logo cedeu lugar a algo que ela nunca sentira antes. O prazer por ela sentido era tão grande que, por breve momento, aquela penumbrosa e friorenta capela se iluminou por completo, como uma bela manhã de primavera. O deleite que ela estava sentindo era de tal forma inexplicável, ao ponto dela se esquecer de onde estava e até mesmo de quem ela era. Num pequeno lapso temporal teve um breve deslumbre do que poderia vir a ser o paraíso e de todas as delícias que ali, porventura, poderiam existir.

Emanoel após chegar ao êxtase, por um breve momento sentiu todo o seu corpo esmorecer e deitou-se ao lado de Gardênia sobre o piso frio e empoeirado daquela pequena capela. Ficaram ambos em silêncio por alguns minutos, ouvindo apenas o barulho da tempestade que caía de forma ainda bastante violenta pelo lado de fora, com estrondosos e retumbantes trovoadas que davam mostras que o firmamento desabaria sobre a terra a qualquer momento. Vez por outra o clarão dos relâmpagos iluminava a capela pelas frestas que havia, tanto nas paredes, bem como pelo telhado entre um lugar e outro. Quando aquele silêncio entre ambos já o estava incomodando, ele reuniu coragem para dizer algo, percebeu que Gardênia se deitava sobre ele e mais uma vez se encaixou em seu corpo. Sobre a luz bruxuleante da fogueira que já estava se extinguindo, pôde contemplar o belo corpo dela sobre ele, logo seu membro acordou para uma vez mais cumprir sua obrigação. Dessa vez foi Gardênia quem tomou o controle da situação, pois para o amor não há necessidade de experiência alguma, quando acontece de forma permissiva por ambos, a natureza age sozinha. E ela com delicados e sensuais movimentos cavalgando sobre ele, logo chegou ao êxtase novamente, dando lancinantes gemidos, e puxando seus cabelos num completo estupor de incontrolável prazer, assim o fez gozar novamente.

Emanoel, completamente saciado de prazer, se deu por satisfeito de tal forma que chegou a imaginar que, se sua vida terminasse ali, naquele momento, tranquilamente sem nenhum pesar na consciência se entregaria nos braços do anjo da morte. Mal sabia ele que aquilo aconteceria tragicamente muito em breve. Assim que se refizeram daquela deliciosa viagem ao mundo das delícias infinitas, logo se vestiram com suas devidas roupas e, quando intentaram iniciar um diálogo, perceberam que a chuva estava diminuindo e em poucos minutos cessou por completo, ao saírem do interior da capela puderam visualizar que o céu estava limpando e dava mostras que o tempo ficaria limpo pelo resto da tarde. Gardênia, após retomar o controle de todas as suas faculdades mentais e tomar conta de si mesma outra vez, se sentiu um pouco envergonhada com tudo aquilo, e um tanto quanto constrangida por ter se entregado daquela forma a um estranho e disse a Emanoel com uma voz que denotava certo arrependimento.

— Já está ficando tarde e meu pai certamente deve estar preocupado comigo, devemos retornar logo.

Emanoel, por sua vez, não disse nada e, assim que se desfez dos resquícios da fogueira que ainda fumegava timidamente, temendo que, se deixasse qualquer sinal de fogo dentro da capela, poderia haver um incêndio consumindo aquele abandonado lugar sagrado. Concordou com ela com gestos tímidos e logo retornaram a caminhada.

Devido a quantidade de chuva derramada até aquele momento, a estrada, que, na verdade, era apenas um caminho boiadeiro, feito pelo incessante trotar de animais de carga de um lado para o outro, estava muito lamacenta e escorregadia, ao ponto de Emanoel, calçado com botas de montaria e estar caminhando a pé arrastando sua mula atrás de si, teve que por duas vezes se dependurar nas rédeas do animal para não cair na lama. Gardênia, mesmo com seu semblante meio encabulado, talvez até arrependido, sorria timidamente com o sofrimento do boiadeiro em tentar manter-se de pé, enquanto a estrada caprichosamente insistia em lhe derrubar. Durante todo o restante do trajeto, seguiram ambos no mais absoluto silêncio. Ela demonstrava notório arrependimento e uma vergonha profunda. Ele, no entanto, mesmo estando saciado, trazia consigo uma crise de consciência, afinal, ela parecia ser uma moça direita e só se entregou a ele daquela maneira num momento de fraqueza, de certo modo ele aproveitara de sua inocência. Emanoel como era um homem casado e com três filhos para sustentar, nada tinha a oferecer a ela, e estava incomodado imaginando o que poderia dizer a ela se, na hora de seguirem direções diferentes, ela porventura lhe questionasse alguma coisa.

Caminharam por mais de meia hora, e o discurso de despedidas já estava pronto. Contudo, todo seu esforço em imaginar belas palavras de adeus, após tão agradável tarde junto a ela foi inútil, pois a ensaiada oratória não pôde ser proferida. Numa encruzilhada do caminho um pouco a frente, mesmo ainda ao longe, a silhueta de alguém pode ser identificada. Era um homem negro de estatura alta, que Gardênia logo reconheceu como sendo seu pai que certamente estaria vindo atrás dela. Gardênia contando com a vantagem da distância que havia entre eles e seu pai e tendo a certeza de que, de forma alguma, poderia ser ouvida por ele, disse de forma deliberada:

— Peço-lhe que tenha cuidado com suas palavras boiadeiro, meu pai é um homem muito sábio e perspicaz, diferente de qualquer pessoa que você possa ter conhecido na vida, certamente seria muito perigoso para sua segurança se ele viesse a desconfiar do que aconteceu entre nós esta tarde.

Ao se aproximarem do local onde seu pai estava a esperando de pé encostado junto a cerca, Gardênia logo foi apresentando o forasteiro a seu pai e dizendo em seguida que aquele gentil senhor lhe oferecera companhia e proteção pela estrada, uma vez que, bem como ela mesma, ele também era convidado de Nhô Tunico para o almoço. Sendo o caminho de ambos o mesmo até aquele local, ela decidira que aceitaria sua respeitosa companhia, para não ter de caminhar sozinha pela estrada durante todo aquele temporal. Emanoel mais que depressa, tirou seu chapéu e cumprimentou o pai dela. Com muita simpatia e respeito, contudo Pai Tomaz apenas lhe acenou com um leve gesto de cabeça, sem ao menos tirar sua cartola em resposta à cortesia recebida — cartola essa, muito bem-feita por ele mesmo, Pai Tomaz era o chapeleiro da região. A grande maioria de homens e mulheres da região usavam chapéus produzidos por ele, para todos essa era sua profissão oficial. Além do cumprimento frio e desprovido de simpatia, Pai Tomaz lançou ao boiadeiro um estranho olhar, medindo o rapaz de baixo acima como se estivesse tentando se lembrar de onde o conhecia. Emanoel se arrepiou por completo. Sua mula, até então, sempre muito pacata, deu um violento refugo levantando um forte e desesperado esturro, como se estivesse vendo algo sutilmente pavoroso, tão sinistro que, talvez, nem mesmo pertencesse a esse mundo.

Emanoel, que possuía aquele animal desde que ela nascera, nunca tinha presenciado aquele tipo de comportamento por parte dela, pois uma criatura que desde sempre fora extremamente dócil, naquele momento, sem nenhum motivo aparente se mostrava bastante assustada. Com gestos de afagos e ternas palavras, Emanoel logo conseguiu acalmá-la. Contudo, ainda assim, ela se mostrava impaciente e bastante arredia. Seu desconforto naquele lugar era bastante evidente, pois demonstrava claramente suas intenções de sair logo dali. Emanoel, por sua vez, também não tinha intenções diferentes, havia algo de muito macabro no ar, — tal como sua mula que sempre fora dócil até então —, de alguma forma ele o podia sentir. Se sentindo muito desconfortável, sem muito mais delongas, quisera ele logo se despedir, sem dizer quaisquer outras palavras que não fosse um simples adeus. Porém, antes mesmo de montar em sua mula e partir logo dali, teve a desagradável e arrepiante oportunidade de ouvir a voz do pai de Gardênia. Era um som bastante sereno, mas cortante como uma navalha. Sua voz cavernosa ao extremo era carregada com uma entonação que demonstrava claramente muita sabedoria, pois suas palavras eram proferidas de forma pausada e com perfeita dicção:

— O senhor demonstra estar bastante apressado cavalheiro. Talvez fosse melhor agir com menos celeridade. Diz um velho provérbio que, “… aquele que tem muita pressa na vida, logo se apressa a encontrar a morte…”.

Emanoel, com o corpo todo arrepiado, recebeu aquelas palavras, ditas de uma forma calma e num tom bastante ameno, como uma velada ameaça e, mais assustado ainda, ficou, quando Pai Thomaz deu alguns passos em sua direção olhando dentro de seus olhos e disse-lhe, acariciando a face de sua mula, que naquele momento ficou completamente inerte como se tivesse sido hipnotizada pela mais astuta das serpentes.

— O senhor, pelo que pude presenciar, parece ter muita destreza no trato com uma montaria, tomara que, também assim o seja, com sua própria vida! Porque, tal qual esse animal, que sem mais nem menos, de repente ficou arredio e violento, assim também é a vida, que quando menos se espera, muda de uma hora para outra e pode te jogar no chão. E algumas quedas, meu intrépido e destemido jovem, são de tal forma violentas, que se tornam quase que impossível de se levantar novamente. Agora que estou te vendo mais de perto estou me recordando de sua aparência e de onde eu o conheço. O senhor é mais conhecido como Mané Faísca o famoso peão de rodeio. Espero que o senhor possa também se lembrar de minha humilde pessoa, mesmo que já tenha passado algum tempo desde que travamos conhecimento um com o outro.

O já então assustado boiadeiro, ficou ainda mais desconfortável ao ouvir essas palavras, pois, por mais que se esforçasse ao extremo, não estava conseguindo se lembrar de onde pudesse ter conhecido tão estranha e sinistra criatura. A elegância de Pai Thomaz se fez presente uma vez mais, e logo lhe logrou sua dúvida ao dizer-lhe:

— Há uns cinco anos, talvez até um pouco mais, um cunhando seu, — acredito eu — veio à minha procura em busca de alguma beberagem que aliviasse uma moléstia que estava acometendo um de seus filhos. Pelo que me lembro na época, sua esposa estava de resguardo de uma menina muito viçosa que havia nascido naquela mesma semana. Pelo que me foi dito, a criança em questão, havia sido picado por uma serpente venenosa e agonizava em febre há mais de três dias. Mas o efeito da peçonha da serpente já estava passando e apenas lhe dei uma beberagem simples e ele logo se restabeleceu. Na mesma época, o senhor também se recuperava de uma forte gripe que havia pegado numa de suas viagens de tropa, por isso, estava em sua casa.

Emanoel disse que se lembrava do episódio em que seu filho mais velho havia sido ofendido por uma cobra jararaca e que um benzedor havia orado por ele e lhe curado da moléstia. Contudo, não estava conseguindo reconhecê-lo como o autor de tão nobre gesto, mas que de qualquer forma lhe era bastante grato por tamanha gentileza. Pai Thomaz em sinal de enorme senso de sociabilidade questionou-lhe sobre sua família. Sobre a saúde de sua senhora e o desenvolvimento de seus filhos. Perguntou-lhe também como a criança que ele atendera havia se recuperado após sua despedida. Ouvindo Pai Thomaz citar sua família e desejoso de saber novidades sobre sua esposa e filhos, Emanoel olhou para Gardênia de forma muito desconcertada e com as faces em completo rubor como se tivesse perante a mais ardente chama e, meio sem jeito, respondeu:

— Graças a Deus estão todos em paz. Realmente o senhor não se enganou quanto ao tempo que decorreu esse episódio, pois no último mês de maio minha filha Amélia completou cinco anos, mas ainda fomos contemplados com outro menino, somando um total de três filhos ao todo, o filho mais velho que o senhor conheceu juntamente com a recém-nascida e o meu caçula, nascido a menos de um mês pouco antes de minha partida. Ainda não tive o privilégio de estar muito tempo com ele. Como o senhor bem o sabe a vida de um pai de família não é muito fácil.

Ouvindo aquele desagradável diálogo entre seu pai e o até então encantador boiadeiro que havia conseguido seduzi-la com seu charme e sua música, Gardênia lhe desferiu um último olhar de adeus. Contudo, já não era mais aquele olhar lânguido que o havia enfeitiçado desde o primeiro momento em que o vira, e sim um olhar que demonstrava um ódio terrível e um profundo arrependimento. Com um sorriso bastante amarelo ela se esforçou ao extremo, mas não conseguiu disfarçar um involuntário suspiro, baixando os olhos levemente lacrimejados, perguntou a ele com a voz um pouco embargada pela decepção em saber a verdade sobre a vida dele.

— O senhor, em momento algum durante o dia de hoje mencionou que era um pai de família com mulher e filhos para cuidar.

— Com todo o respeito, minha gentil senhora, não me lembro de alguém ter me questionado nada a respeito de minha vida particular. Mas certamente, se alguém o tivesse feito, com todo o prazer teria uma resposta bastante satisfatória. Não vejo motivos que me levem a esconder que sou um homem sério e honrado pai de família.

— Senhorita, por gentileza. Ainda sou uma senhorita! Não sou compromissada com ninguém, excerto com minha própria honra e dignidade.

Respondeu ela, dizendo em seguida.

— Perdoe-me minha indiscrição. Apenas achei estranho que em momento algum o senhor tenha mencionado sua honrada família, mas o senhor tem razão, sua vida particular só ao senhor mesmo diz respeito. De qualquer forma, obrigada pela companhia pelo caminho, o senhor realmente foi muito gentil e bastante cavalheiro para comigo. Que Deus o proteja e o acompanhe em sua jornada.

Gardênia suspirou uma vez mais e olhou diretamente em seus olhos. Daquela vez o olhar daquela sedutora jovem tinha algo diferente, era um olhar de terrível ódio, mas também de um profundo remorso de alguém que olha para um condenado que caminha a passos largos para o cadafalso em seus últimos instantes de vida.

Emanoel, que havia ficado mais desconfortável ainda com toda aquela situação, decidiu que o melhor a se fazer era sair logo dali. Aproveitando a despedida de Gardênia, montou em sua mula, — que naquele momento estava novamente dócil e tranquila como sempre o fora —, e, após tirar seu chapéu e se despedir de forma meio desajeitada, seguiu seu caminho. Pai Thomaz, que de certo modo já sabia de todo o acontecido entre eles e vendo como sua filha havia ficado emocionalmente instável em saber que ele era um homem casado, — mas principalmente pela resposta indiferente que ele lhe dera quando ela o questionou sobre esse fato maliciosamente omitido, o acompanhou com o olhar, vendo-o se afastar. Gardênia, — mesmo com as entranhas ardendo pelo mais profundo ódio — ficou toda arrepiada vendo seu pai com a mão levantada, sussurrando alguma coisa ininteligível a ela, como se estivesse benzendo Emanoel pelas costas.

Após aquele estranho tipo de benção proferido por seu pai, iniciaram os dois a caminhada de volta em direção a sua casa. Gardênia caminhava ao lado de seu pai no mais absoluto silêncio, aguardando a qualquer momento que ele dissesse algo. Contudo, para seu desespero, Pai Tomaz estava calado e com o olhar distante, mirando o vazio, como se estivesse enxergando algo além das aparências. O mutismo de seu pai estava deixando-a bastante desconfortável. Em determinadas situações o silêncio se faz necessário, entretanto em outras ocasiões, pode ferir muito mais do que qualquer palavra que pode ser dita. Percebendo que ele nada diria, resolveu ela mesmo iniciar um breve diálogo e após escolher sabiamente as palavras disse:

— Logo após o almoço, assim que a chuva deu uma trégua, decidi voltar logo para casa, esse gentil senhor, de forma muito respeitosa, me ofereceu sua companhia, como nosso caminho seria o mesmo, pela boa educação que recebi do senhor meu pai, resolvi aceitar de muito bom grado. Contudo, mesmo caminhando com passo acelerado, ainda assim, a chuva nos alcançou quase em frente à antiga capela, onde o senhor um dia me disse que mamãe sempre rezava. Como o vento estava muito forte e os trovões estavam assustadores, decidimos que deveríamos nos abrigar dentro da capela e aguardar a chuva passar, ou pelo menos diminuir um pouco. Levando em consideração que raramente frequento lugares assim, aproveitei a ocasião para colocar minhas preces em dia, relembrando o que o senhor mesmo um dia me dissera, que mamãe também adorava demonstrar sua devoção no interior daquela simples capelinha.

Pai Tomaz, mesmo esboçando um misterioso sorriso amarelo, pareceu ter si dado por satisfeito, mas não deixou passar a oportunidade de expressar sua opinião sobre o que pensava sobre aquele gentil e prestativo cavalheiro.

— Homens como este rapaz, minha filha, são indivíduos persuasivos, charmosos e sedutores e na maioria das vezes, torna-se quase impossível perceber que atrás de sua fala macia e doce demonstrando muito boa vontade, se esconde um ser bastante lascivo e carregado de más intenções.

Gardênia sabia que ao mencionar o nome de sua mãe, rapidamente daria aquele impalatável assunto por encerrado. Astutamente ela aprendera que a simples menção de qualquer lembrança que rememorasse a memória de sua falecida mãe, — que ela mal conhecera, — era motivo para todo e qualquer assunto ser finalizado por completo. Qualquer assunto que se referisse a sua mãe era assaz doloroso para ele. Mesmo que aquele assunto tivesse sido momentaneamente encerrado, ainda assim, Gardênia continuou revestida de um ódio profundo, por ter sido tão facilmente enganada, mas, ao mesmo tempo, muito preocupada com o desenlace de toda aquela história. De certo modo, ela só teve um pouco de sossego quando os dois chegaram em casa, e naquele dia, seu pai não lhe dera nenhuma beberagem, assim como o fora quando, há muitos anos ela fora violentada pelo então falecido Coronel Guilhermino.

Após o acontecimento com o Coronel Guilhermino, — fato esse que, até onde é sabido, ninguém nunca ouviu nem mesmo comentários que pudessem delatar o acontecido entre ambos no riacho. O tempo foi logo passando, e entre uma conversa e outra, entre mulheres em suas intimidades, Gardênia ouviu dizer que para evitar uma gravidez indesejada, existem certas ervas medicinas, que ao serem preparadas de forma correta e ingeridas em tempo hábil, tem um efeito deliberativamente eficaz. Tempos depois de seu idílio com Emanoel, naquela chuvosa tarde, Gardênia entendeu com o peito arfando em remorso, que talvez tivesse sido melhor, que naquela mesma tarde, quando tudo aconteceu, ela tivesse logo relatado tudo a seu pai de um modo cúmplice e esclarecedor, pois resultado de sua infeliz negligência para com seu pai, foi algo drástico e determinante, tanto para Emanoel, — que se encontrou com o único e inevitável objetivo de cada ser vivo de forma triste e dolorosa, — bem como para ela mesma, que se viu obrigada a criar um filho sem pai, vez por outra tendo que enfrentar os olhares perscrutadores da raia miúda da região, que via aquela maternidade independente com certo ar de mistério e maledicência.

Assim que chegaram em casa, tanto ela, bem como seu próprio pai, cada um do seu modo, foram cuidar de seus afazeres cotidianos. Pai Thomaz foi para suas hortaliças com o intuito de ali terminar por aquela tarde entre suas ervas e se manter distante do olhar tristonho e quase arrependido de Gardênia. Ela por sua vez foi cuidar de seus afazeres domésticos, do jantar que logo foi preparado e servido em seguida. Sempre após a última refeição do dia, seu pai se sentava numa cadeira de balanço na varanda e ficava por um longo tempo fumando seu cachimbo, e tal como a própria fumaça baforada por ele, que ficava pairando sobre o ar de forma solta e preguiçosa, assim também era seus pensamentos e reflexões, que Gardênia nunca soubera quais eram. Seu pai sempre fora um homem taciturno e ensimesmado, contudo sempre muito carinhoso e atencioso para com ela. Ao mesmo tempo que era um pai bastante amável e sempre fiel naquilo que tange as funções de um progenitor, por outro lado, para com os outros demais, era um ser sombrio e desconfiado de tudo e de todos.

Gardênia, após servir o jantar e juntamente com seu pai comer, mesmo estando sem fome, para não demonstrar nenhum tipo de sentimentalidades fora do comum, tratou logo de organizar a cozinha, que deveria pernoitar limpa e organizada. Assim que findou seus afazeres, sentou-se também na varanda com uma costura no colo, e disfarçadamente enquanto fingia que cosia o tecido, vez por outra perdia o olhar ao longe na direção do rio, onde possivelmente estava o acampamento da tropa de Emanoel. A direção do rio por capricho do destino era a mesma do pôr do sol, que naquela tarde fora bastante melancólico, entre nuvens ralas, deixando faixas de vários tons diferentes, mesclando entre si, amarelo, laranja e vermelho acobreado. O crepúsculo rapidamente se desfez dando lugar a um céu parcialmente nublado, anunciando mais chuvas pela noite adentro, contudo, naquele momento, a parte do céu que estava parcialmente limpa apresentava várias estrelas que cintilavam ao longe, dando companhia a uma tímida lua nova, que se mostrava vez ou outra entre as nuvens soltas aqui e ali. Essa mesma lua também pairava sobre a direção do rio. Assim que a lua se despediu e foi iluminar outras regiões na direção do poente, Gardênia após pedir a benção a seu pai e também sua permissão, foi logo se recolher em seus aposentos. Antes de se deitar ainda abriu a janela de seu quarto, que dava para a direção contraria da varanda e o que viu deixou-a ainda mais melancólica. Se do lado do poente o céu estava parcialmente limpo e até mesmo estrelado, do lado do oriente a visão era aterradora. Escuras e pesadas nuvens se levantavam ameaçadoras, vez por outra iluminadas por terríveis relâmpagos que anunciavam uma forte tempestade que certamente não tardaria a cair sobre eles outra vez.

Apoiada sobre os cotovelos no umbral de sua janela, ficou bastante tempo observando o negrume da noite, e aquela noite em si, pareceu ser uma noite muito diferente e angustiante. Gardênia, de repente, começou a tremer todo o corpo, como se padecesse de uma febre terrível. Aquele estremecimento estranho não era do vento frio que soprava da direção da chuva que já se aproximava, muito menos por estar ela com trajes menores que sempre usava para dormir, mas de um sinistro frio que lhe vinha do fundo de sua alma. Um tremor cheio de maus presságios do triste e anunciado destino que se aproximava a violentos e apressados passos do desavisado boiadeiro. Naquele momento, ali na solidão de seu quarto, Gardênia em misto de ódio por tudo e pleno desespero, teve uma profunda vontade de chorar, de se apartar de tudo e de todos e de ir embora para muito longe dali, onde ninguém a conhecesse, nem muito menos sua história. Envolta a esses pensamentos torturantes na escuridão de sua alcova, após apagar o lume que parcamente iluminava o ambiente, após deitar-se em sua cama, logo adormeceu pesadamente…

Texto publicado na 3ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datada de março de 2024. → Ler edição completa

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Fogo Santo na Igreja

Minha querida A.: Penso em você constantemente, e isso tem me afastado de Deus, pois pensar em você é pecar…

“Porque o nosso Deus é um fogo consumidor.” Hebreus 12:29

3 de abril

Minha querida A.:

Penso em você constantemente, e isso tem me afastado de Deus, pois pensar em você é pecar contra ele. Tenho feito as peregrinações que eu disse a você que eu faria. Cada cidade que vou sempre tento alugar um local modesto perto de igrejas. Tenho feito bom uso do dinheiro que você me deu, além de alimentação, papeis e tinta, doações para os necessitados. Sei que você me alertou para usar esse dinheiro com sabedoria, mas alguns hábitos são mais fortes. Numa dessas peregrinações me instalei numa pequena cidade em busca de perdão, mas minha antiga natureza me impulsiona a frequentar as missas noturnas aos domingos e buscar perdão nos confessionários de madeira polida. Mesmo sendo uma criatura contrária à natureza, você sabe que ainda carrego os dogmas e rituais da fé católica. Desde a primeira missa que frequentei naquela pequena igreja pude perceber o caráter duvidoso do padre Marcos, cujas más intenções ele escondia por trás de uma fachada de humildade. Ao ter minha presença nas missas e no confessionário, uma mórbida curiosidade e desejo sobre mim, despertou nele. Fui em todos os dias possíveis da quaresma e o via me olhar com intenso interesse enquanto falava de jejum, arrependimento e penitência, naqueles dias de reflexão e respeito a paixão, a morte e ressurreição de nosso Cristo. Eu sentia o pecado latente nele por baixo daquelas vestes púrpuras. Observava seus olhares furtivos em minha direção enquanto lia a palavra, ou das vezes que eu participava da santa ceia e ele se deleitava ao me oferecer o corpo e o sangue de Cristo.

Me confessei com ele diversas vezes e o assunto sempre era você, e isso o cobria de curiosidade e ele me enchia de perguntas. Contei a ele como você é diferente de mim. Ama a liberdade e a natureza e acredita que a sua natureza é uma benção de entidades da floresta de onde veio. Disse que me apaixonei por você quando a vi há muitos anos em uma de suas visitas ao convento, numa das suas excursões, e sabia que estava pecando contra Deus só por admirá-la à distância. Falei da nossa primeira conversa, que descobri o quanto seu humor poderia ser profano, e mesmo escandalizada com algumas de suas palavras eu percebi que estava me afeiçoando de maneira proibida por uma criatura pecadora. Você recitou de cor 1 Coríntios 13, e fazendo eu me banhar em lágrimas e assim me apaixonar, você percebeu isso e quis compartilhar comigo a sua liberdade. Eu aceitei e logo após isso me arrependi, e você seguiu o seu caminho me prometendo que voltaria quando eu estivesse pronta. Depois disso não pude continuar fazendo parte das irmãs, pois elas perceberiam logo que eu estava afundada em pecado, e que as deixei com aperto no peito de quem deixa os membros favoritos de sua família. Segui minha peregrinação de expiação dos pecados. Me perdoe minha amada confessar essas coisas a ele. Não revelei mais do que deveria. De qualquer forma não faria diferença.

Eu tenho conhecimento da minha beleza, porém sempre me percebi com certa estranheza, mas usando as suas palavras, essa minha aparência suave, olhos doces, lábios rosados e a face mestiça com maçãs do rosto avermelhadas como se estivesse ruborizada o tempo inteiro, esse ar de inocência que te atraiu, também atraiu ele. Percebi o desejo do padre e isso me encheu de repulsa. Para mim um homem que escolheu amar a Cristo sobre todas as coisas cobiçar uma pessoa, seja ela mulher ou homem, e na pior das hipóteses crianças, é uma heresia imperdoável, ainda mais desejando a mim, uma criatura condenada por Deus! Se ele fosse mesmo um escolhido de Deus, já teria percebido que minha presença é maligna. Decidi confrontá-lo. No final da missa entreguei a ele um bilhete com essas mesmas palavras:

“Posso lhe contar com mais detalhes que ela fez comigo. Me encontre na igreja à meia-noite. — L.”

Então numa noite quase sem lua, marquei um encontro na igreja com Padre Marcos. Sobre a luz fraca das velas e o sutil odor de incenso me ajoelhei no genuflexório com meu terço em mãos e rezei. Pedi a Deus que minha impressão sobre o padre não estivesse correta e que ele não aparecesse ao encontro vendo naquele bilhete uma afronta a fé dele. Porém, mesmo atrasado, ele apareceu, tocou no meu ombro enquanto eu estava prostrada em oração e, quando olhei sua face, eu vi aquele sorriso repulsivo e herético de desejo. Impulsiva pulei sobre ele e o mordi, não havia planejado aquilo, eu juro, mas deixei minha natureza sombria tomar o controle da situação. Puxei seus cabelos para trás para ter um acesso melhor ao seu pescoço e mais uma vez cravei meus dentes, a ferida aberta bem grande, e o sangue saía como um fluxo intenso tingindo tudo ao redor, suguei e lambi todo aquele sangue. Mas minha natureza sombria não estava satisfeita apenas com aquilo. Olhei seu rosto em agonia, ele estava a ponto de perder os sentidos, sorri para ele e disse:

— Eu sou a sua salvação e, ainda que você morra, você viverá.

Repetindo o ritual que você havia realizado comigo, mordi meu braço com força e arranquei um pedaço da minha carne:

— Esta é minha carne. — Coloquei em sua boca e tive que usar dos dedos para conseguir fazer descer pela sua garganta, tapei sua boca com a minha mão e o fiz engolir. Quando vi a carne descer pela sua laringe, mordi novamente o braço para abrir mais a ferida e verter mais sangue:

— Esse é o meu sangue, para o perdão dos seus pecados.

Depois desse ritual, arranquei a grande cruz do altar, pedindo a Deus perdão, mas sem conseguir controlar meus atos, levei até ele e com a ajuda dos tecidos púrpuros que havia no púlpito e que cobriam as imagens dos santos, amarrei suas mãos e cintura na cruz, a base dela sobre o púlpito para que ficasse inclinada e invertida, ele não era digno de ser crucificado como Cristo, me afastei para olhar a minha obra com a companhia dos santos que agora não estavam mais cobertos. A cena era perfeita para a expiação de pecados. Abri as portas da igreja, pois o dia logo ia nascer. Os primeiros raios de sol já atravessavam os vitrais coloridos, queimavam aos poucos a pele do padre, seu grito ecoava pelas paredes sagradas da igreja, eram música para os meus ouvidos. Um odor de carne queimada se misturava ao cheiro sutil do incenso da igreja. Os gritos chamaram a atenção dos moradores da cidade que correram para a igreja e ficaram alarmados quando se depararam com a terrível cena.

O padre envolto em chamas, preso à cruz como um sacrifício profano de expiação de pecados. Enquanto isso eu me escondia no confessionário, observei com deleite a justiça sendo feita, enquanto pedia perdão a Deus por estar pecando contra a minha fé novamente. Eu juro, não era minha intenção fazer isso, pois de Deus é a vingança e a justiça, não minha. Depois de um tempo algumas coisas da igreja começaram a pegar fogo, aproveitei a algazarra para me esconder nos fundos até que fosse seguro sair. Fui para o quarto que eu tinha alugado, me lavei, fiz as malas e parti. A sociedade cuidou desse caso, estou surpresa de que os jornais o trataram como um suicídio, mesmo assim esse ato teve consequências. Soube através de um membro que você partiu para uma viagem de pesquisa de grande relevância. Deus é testemunha do quanto eu admiro seu trabalho e que eu não a incomodaria se não fosse algo de extrema importância. Rezo para que essa carta chegue a você em segurança onde quer que você esteja e que você possa interceder por mim em meu julgamento. 

Com amor L.

P.S. Você sempre está nas minhas orações.

Texto publicado na 3ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datada de março de 2024. → Ler edição completa

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Hereditário - Parte 1 - Gardênia

A brejeira e simpática criatura que arrastava seu único filho pelo braço, acompanhando aquele fúnebre cortejo, era a única filha…

MidjourneyAI

Capítulo 1 — Desalento

A brejeira e simpática criatura que arrastava seu único filho pelo braço, acompanhando aquele fúnebre cortejo, era a única filha do falecido, ali sendo transportado. Seu peculiar nome — Gardênia — era uma forma de homenagear a espécie de flor, preferida de sua saudosa mãe. Gardênia era uma mulher singular, dotada de uma beleza hipnotizante. Na altura de seus quarenta anos, muito facilmente, poderia ser confundida com uma jovem de no máximo uns vinte cinco, talvez até um pouco menos. Era ela uma dessas raríssimas criaturas, em que o tempo não tem efeito sobre si, e mesmo sendo uma mulher de meia idade, já com a sagrada experiência da maternidade, ainda assim trazia em si um semblante e o talhe bastante juvenil.

Gardênia herdara para si mesma os fortes traços negros africanizados do pai, unidos à doce sensibilidade caucasiana da mãe, numa única pessoa. A verdadeira união do exótico com o clássico. Sua singular beleza era o resultado de uma metamorfose do vigor da cor do pai com a delicadeza dos traços de sua mãe. Essa bela criatura era uma mulher alta, de vastos e longos cabelos negros, cacheados com grande definição, caídos por toda extensão de suas costas, trazia-os sempre soltos, livres como ela mesma o era. Sua pele era clara e dava a impressão de ser macia e sedosa como a pétala de uma rosa. Havia puxado os olhos da mãe, que eram de um azul cintilante, da mesma cor de um céu de primavera. Por onde passava — muito raramente, pois pouco se ausentava de casa desde que seu filho nascera — era sempre motivo de comentários. Por parte das mulheres — até mesmo, sendo muito invejada por algumas — que sempre elogiavam sua moral e refinada educação e por parte dos homens — por muitas vezes, sendo com ardor desejada pela maioria — porque era, de forma genuína, um ser de incomparável beleza.

Mesmo trazendo em si o milagre da maternidade, ainda assim conseguiu manter seu corpo com traços quase virginais. Tinha o ventre liso e baixo, um belo par de seios firmes e rijos de tamanho médio, contornando um colo gracioso que quase sempre estava à mostra, e que atraia olhares de curiosidade e voluptuoso desejo. Seu corpo muito bem definido, pernas graciosas e bem torneadas que davam certa leveza em seus movimentos, tornando o seu caminhar como algo muito parecido a um requintado bailado. Por fim, sua boca era um irrecusável convite para o pecado. Lábios carnudos delineados de forma perfeita, com dentes tão claros como o mais puro marfim, seu sorriso — muito raro nos últimos tempos — era a mais pura demonstração de sensibilidade e simpatia. Essa graciosa criatura, havia sido — obviamente de forma involuntária — a causa trágica da mais completa ruína de dois audaciosos homens, até então.

O primeiro deles foi o Coronel Guilhermino, um homem muito rico e bastante poderoso. Temido e respeitado até mesmo na longínqua capital, onde tinha forte influência política e mantinha rendosos investimentos em diversificados tipos de negociatas. Era ele dessa espécie de indivíduo, acostumados a humilhar os mais pobres e ser sempre condescendente com os mais ricos. Um tipo de homem que nada temia, pois, devido a sua posição socioeconômica, se achava acima da Lei. Na verdade, em seus domínios, e até mesmo por quase toda região onde vivera, desde que nascera, ele se achava a própria Lei. Em sua narcisística opinião sobre si mesmo, se via acima de tudo e de todos, pois suas ordens e vontades jamais eram questionadas, por quem quer que fosse — pelo menos não em sua presença –. Coronel Guilhermino era um homem áspero e de comportamento arredio com a aparência de um velho flagelado pela vida, com uma imensa cabeça calva, sempre coberta por um belo chapéu em estilo panamá, tinha uma desgrenhada barba arruivada, como se estivesse em chamas. Tinha o rosto ossudo, olhos negros aguçados e uma fina boca com dentes afilados e enegrecidos e sem lábios, feita para estar sempre franzida e jamais esboçar um único sorriso.

Certo dia, estando ele, fazendo um passeio a cavalo, numa tarde quente e muito abafada, — típica dos tórridos dias de final de setembro — avistou ao longe, uma bela jovem de pouco mais de quinze anos, se refrescando no rio, logo abaixo de onde ele se encontrava. De imediato, ficou enfeitiçado pelas perfeitas curvas do corpo da inocente jovem, que por acreditar que se encontrava sozinha, longe de olhares maliciosos, estava completamente despida, — como um dia havia chegado a esse mundo — e se refrescava sem despreocupação nas límpidas e serenas águas daquele pitoresco riacho. Coronel Guilhermino, que para muitos, se demonstrava deveras desinteressado aos encantos das mulheres, — tanto que nunca se casara — rendendo até mesmo, maldosos comentários entre os desocupados, quando viu aquela perfeita beldade em trajes de Eva, ali sozinha e muito desprotegida e estando ele também desacompanhado — como era costume seu, por se achar um ser intocável preferia, sempre, a companhia de si mesmo — decidiu que, aquele tipo de oportunidade era única na vida, e que jamais deveria ser desperdiçada por um homem como ele, que se achava acima dos demais.

Após, com sob sutileza mórbida, amarrar seu cavalo numa árvore, deixando-o numa sombra fresca, aproximou-se, sorrateiro como uma astuta serpente, para a margem do riacho, e quando a jovem pôde, por fim, perceber sua presença, já era tarde demais, pois aquele asqueroso homem já a retinha nos braços, obrigando-a a se deitar na areia da pequena e estreita praia do rio. A inocente e desprevenida jovem, bem que tentou se defender e a todo custo se desvencilhar das garras daquele malfeitor, mas foi, sob hórrida violência, contida com fortes bofetões que levou por toda a face, que acabou por cortar seu lábio superior. Toda essa ignominiosa selvageria, fez com que ela temesse pela própria vida, pois sabia que se defender era impossível e gritar por ajuda era inútil. Sabia ela que, não havia ninguém por perto, além deles dois. Na verdade, até então, ela se imaginava estar sozinha ali naquele refrescante e pacato lugar, por isso, muito inocentemente se encontrava nua e desinibida daquela forma.

Coronel Guilhermino, até então visto como um homem de respeito e ilibada moral, contando com a vantajosa situação de pavor estampada nos olhos daquela inocente jovem e a constante subserviência que todos despendiam a ele, usando de força bruta, roubou-lhe sua pureza, deixando-a deflorada e sangrando tanto na boca, — pelos bofetões sofridos — bem como em suas partes, devido a sua violência e vilania na prática daquele ato sem consentimento, por parte dela. Satisfeita sua pueril ignomínia, esse asqueroso ser após se afastar das margens do rio, ajeitando suas vestes, montou mais uma vez em seu cavalo e seguiu seu passeio num trote lento, como se nada tivesse acontecido. Gardênia encontrava-se intimamente ultrajada e com quase todo o corpo dolorido, devido a violência sofrida. Sentindo uma estranha sensação de nojo de si mesma devido ao contato daquele truculento e malcheiroso homem, entrou uma vez mais naquele rio e após se lavar por completo, e vendo seu sangue sendo levado pelas águas como sua própria honra havia sido lhe tirada, logo se cobriu com suas humildes vestes e retornou para sua casa com a face banhada em lágrimas e o lábio com um pequeno inchaço, além dos hematomas de marcas de mãos e dedos em seus braços. Ao chegar em casa, num primeiro momento estava resoluta em se manter em silêncio sobre o acontecido, mas bastou apenas um único olhar de seu pai, e logo ela lhe relatou toda a história. Contudo, de algum modo, parece que seu pai já sabia do acontecido — ela nunca soube explicar ao certo como aquilo se dava, mas de alguma forma, seu pai sabia de tudo o que acontecia a ela, mesmo antes dela lhe contar. Se não soubesse, pressentia e se não pressentisse, decerto modo, algo ou alguém lhe contava. O bem da verdade era que nada ficava em oculto a seu pai por muito tempo.

Pai Thomaz — como era conhecido — deu um profundo suspiro e após abraçar ternamente a filha foi até os fundos do quintal da casa e logo lhe preparou uma beberagem com algumas ervas medicinais bastante amargas. Enquanto ela bebia aquela estranha panaceia, ele, para tentar tranquilizá-la, disse por fim, com uma voz serena e num tom bem ameno, mas um tanto quanto ameaçador.

— Minha filha! O mal paira pelos caminhos se escondendo pelas sombras em busca de se alimentar da pureza de pessoas inocentes. Infelizmente vivemos num mundo muito hostil, cheio de maldades praticadas por pessoas covardes. Esse tipo de homem se acha acima da Lei, que eles mesmos criam para serem aplicadas em outros abaixo deles. Contudo, se esquecem de que existem outras Leis que regem as engrenagens desse mundo conhecido por nós e de outro muito além de nosso entendimento. O Universo foi criado em plena perfeição e as Leis que assim o regem são exatas e nunca falham, durante nossa insignificante passagem por essa terra, o tempo todo estamos adquirindo créditos e dívidas, independente de quem somos ou com demasiada soberbia pensamos ser, mais dia menos dia teremos que acertar as contas com o Infinito. Com certeza, minha filha, você não foi a primeira mulher que sofreu esse tipo de atrocidade nas mãos dele, mas saiba você, que será a última. É uma promessa que lhe faço, esqueça tudo isso e fique despreocupada, pois, essa última dívida que ele contraiu, lhe será cobrada muito em breve.

Naquele instante, um estranho arrepio correu todo o corpo de Gardênia, ao ouvir seu pai pronunciar essas palavras com tanta convicção, sentiu um gosto amargo em sua boca — e não era pela bebida que acabara de ingerir — que por um breve momento quase se esqueceu da violência sofrida. Aquele calafrio que lhe deixou toda arrepiada era um maléfico presságio, pois em menos de um mês, após aquele ignominioso acontecido, soube-se que, o até então todo poderoso e respeitado Coronel Guilhermino, havia contraído um estranho edema em suas partes, que logo evoluiu para uma fétida ferida. Essa pestilência que em questão de dias tomou conta de todo o seu corpo, logo o levou a óbito, mas não antes de lhe causar dores terríveis e um humilhante sofrimento.

Alguns poucos, que testemunharam o trágico sofrimento do importante Coronel, dizem que: No princípio, aquela indisposição não parecia nada de mais, talvez uma leve indigestão ou apenas um simples resfriado, mas após dois dias sem conseguir se levantar da cama, logo se percebeu que era algo um pouco mais sério. O quarto em que ele estava acamado era o mesmo em que ele vivia desde sempre, tinha um peculiar cheiro de mofo pelos cantos — comum a ambientes sem muita assepsia — e um saturado e pegajoso cheiro de suor — o coronel não era muito adepto ao banho — que logo se misturou ao cheiro de todo tipo de emplastos e cataplasmas que era lhe ministrado, apenas mais um ambiente comum como qualquer local onde estivesse um moribundo em restabelecimento. Contudo, com o passar dos dias e o agravamento daquela estranha moléstia, que de início eram apenas ínguas localizadas na virilha, logo se tornaram em pustulosos tumores que exalavam um terrível mau cheiro atraindo inúmeras moscas sobre suas feridas. Logo os vermes já estavam o devorando, mesmo estando ele ainda vivo e bastante consciente. Em poucos dias seu corpo estava completamente tomado por aquelas estranhas chagas, e o mau cheiro exalado de suas feridas era insuportável, a presença de pessoas próximas a ele era quase impossível, até mesmo para lavar suas pustulentas feridas, ou ao menos tanger as moscas que infestavam aquela insalubre alcova e que o atormentava todo o tempo. O odor de morte no ar era tão nítido e definido quanto o de uma putrefata carcaça jogada a beira de uma estrada.

O homem que durante quase toda a sua vida, se achava acima de tudo e de todos, findou seus dias como a mais vil das criaturas. Sempre acostumado a dar ordens a seus inúmeros serviçais e logo ser, com rapidez, atendido — jamais, sobre hipótese alguma ser questionado em nada —, em seus últimos dias de vida sobre essa terra, mal conseguia emitir algum tipo de som, que não fossem os terríveis gemidos ou profundos e lamentosos suspiros. Entre um delírio e outro, com muita dificuldade, tentava formar as palavras: “Filha, Pai e Thomaz”, — alguns dos presentes, até mesmo se perguntaram entre si, se ele por ventura não estaria solicitando a presença do sábio feiticeiro, mas ninguém ousava tomar nenhuma decisão sem uma ordem expressa do Coronel, — pois se ele nunca fora um homem muito religioso, nem mesmo nos ritos oficiais da igreja, quem diria acreditar em certas crendices do populacho, a bem da verdade era até mesmo um pouco cético perante aquilo que ele não tinha controle, — por isso Pai Thomaz não fora chamado. A dificuldade em se expressar por vias verbais de forma inteligível estava em sua mandíbula que se encontrava quase que, por completo, cerrada, fato esse que o impedia, não só de falar, mas também de se alimentar, bem como ingerir qualquer tipo de líquido, até mesmo um gole d’água, fazendo-o padecer de uma sede terrível. Sede essa, acentuada ainda mais, pela febre constante que o açoitava de corpo e alma. Seus lábios estavam bastante ressecados com profundas rachaduras minando sangue entre um ponto e outro, tornado sua boca um apetitoso banquete para as moscas, que se demonstravam diabolicamente insaciáveis.

Em seus últimos instantes de vida, já com o corpo todo rijo, completamente tomado pelos vermes e sem conseguir mover um só músculo, com apenas os olhos se movimentando num enlouquecido frenesi, como se ao girar os olhos de um lado para o outro conseguisse pelo menos tentar afastar o mal que o atormentava. Decerto não havia apenas angústia naquele olhar, mas também um sentimento de remorso era a expressão de alguém que sabia que havia cometido um terrível erro, não que, durante sua vida não houvesse cometido outros erros — alguns, até bem piores –. Contudo, dentre o imenso catálogo de erros cometidos por ele, numa longa vida de impiedoso déspota, aquele erro em si, havia sido cometido contra a pessoa errada. De algum modo ele sabia disso. Pois, desde a noite em que ousara abusar da inocência da filha de Pai Thomaz, pela primeira vez em sua vida Coronel Guilhermino percebeu quão grande era sua pequenez perante a grandiosidade do Universo. Naqueles últimos momentos de sua vida, aquela putrefata criatura teve plena certeza que o mal que lhe acometia era uma punição pelo seu ignominioso ato de leviandade contra aquela inocente jovem.

Além de todo desconforto e agonia que era visível e olfativa. Parece que aquele destemido moribundo — até então considerado um homem que não temia nada e nem ninguém nesse mundo — estava sendo atormentado por terríveis visões que só ele mesmo parecia enxergar. Alguns diziam que seus delírios eram devido a constante febre que o açoitava noite e dia. Contudo, qualquer um que o observasse por algum tempo, poderia jurar que, quando ele mirava seu olhar aos cantos escuros do quarto, era como se estivesse tendo visões terríveis. Pelo terror expresso em seu olhar era fácil imaginar, que se ele realmente estivesse vendo algo ou alguma coisa escondida nas penumbras daquela alcova, era certo que não se ratava de algo que caminhasse pela terra em plena luz do dia. Todo aquele sofrimento durou quase duas semanas completas. Contudo, se não existe felicidade eterna, sem dúvida não haveria sofrimento que perdurasse para sempre.

Segundo a sabedoria popular, nos últimos momentos de vida, a pessoa moribunda faz um breve resumo de sua vida e até mesmo o até então poderoso coronel também fez o seu, lembrando-se que, após cometer aquela terrível vilania, uma angústia terrível começou a atormentá-lo, era uma espécie de sentimento inquietante que nunca experimentara em toda sua vida, e foi logo depois de seu passeio vespertino naquela trágica tarde onde tudo acontecera, que logo à noite, depois de ter findado todos os seus afazeres diurnos, ao se deitar em seu leito para mais uma tranquila noite de repouso, sentiu que algo não estava de todo normal com seu corpo, principalmente em suas partes que comichavam de forma muito perturbadora, pensou ser apenas um leve mal estar e que na manhã seguinte tudo estaria bem de novo. Contudo, daquele leito não se levantou mais, nem mesmo para suas necessidades mais extremas. Coronel Guilhermino sempre fora um homem forte e muito orgulhoso, qualquer um que visse no estado que ele estava reduzido, teria a plena certeza de que poderosas forças das trevas agiam sobre ele, até porque uma pestilência como aquela, de forma alguma poderia ser algo natural era tudo muito sombrio e maléfico. As poucas testemunhas que tiveram a infelicidade de presenciar aquela terrível moléstia ficaram a se questionar:

— “Que tipo de ofensa ou blasfêmia, teria o coronel feito ou proferido contra os céus para merecer um fim trágico como aquele?”.

Não foi possível, nem mesmo fazer um velório para as exéquias necessárias, pois além do mau cheiro o estado em que se encontrava o corpo do coronel, fez com que os que estavam ali presentes, decidissem por unanimidade que ele deveria ser enterrado o mais rápido possível, antes que os vermes o devorassem por completo. Coronel Guilhermino foi enterrado como um animal vadio, sem nenhum tipo de cerimônia. Nenhuma palavra fora dita nem ao menos uma simples oração fora proferida. Aqueles que assistiam o improvisado enterro, apenas balançavam a cabeça em negativa sem poder acreditar naquelas inverossímeis cenas que seus olhos presenciavam.

Depois desse trágico idílio entre o Coronel Guilhermino e a jovem inocente Gardênia, ela que já era uma pessoa um tanto quanto reclusa demais, se tornou assim, um pouco ainda mais. Certo é que, ninguém nunca soube verdadeiramente do acontecido entre eles, apenas um boato solto aqui e outro acolá, até mesmo porque, tudo que se referia a Pai Thomaz, não era coisa de se dizer por aí a esmo. Se por um lado o moribundo coronel, além das palavras soltas proferidas em delírio, não teve a oportunidade de mencionar o assunto com ninguém — nem mesmo para se confessar em busca de um possível perdão para um amargo arrependimento —, Gardênia tão pouco, exceto com seu próprio pai, fato esse, que fez com que ela se arrependesse com amargor, pois trazia consigo em seu íntimo, certo pesar, pela trágica e sofrível morte de seu algoz. Certeza plena ela não tinha — como tudo de obscuro que se relacionava a seu pai — mas, algo dentro de si lhe dizia que a morte do coronel era fruto de algum tipo de feitiço ou algo parecido feito por seu pai, que de forma alguma — como ele mesmo havia prometido a ela — não deixaria barato a ofensa por ela sofrida.

Os momentos de terror que ela, — uma inocente jovem, criada pelo pai sem a presença de uma figura feminina desde a mais tenra infância — sofrera nas mãos daquela asquerosa criatura, tornara-se um traumático sentimento de aversão para com todos os homens. Por muitos anos, fechou-se para qualquer tipo de afeição restando-lhe apenas um sentimento de completo desalento…

Texto publicado na 2ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2024. → Ler edição completa

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