Descuido da morte
MidjourneyAI
Eu o vi afastado entre as aberturas de meus dedos afastados. As mãos sobre minha face ferida, apertadas com designo de proteger-me do terror que me acometia decorrente a circunstância de morte presente, já não me auxiliava.
A escuridão havia tomado todo o cômodo, aos prantos prostei sobre a esteira aguardando em silêncio, contendo os murmúrios e apelos preservados em minha garganta. Eu o matara, e como haveria de fazer o contrário diante da violência a qual vinha sofrendo anos a fio? Não fora intencional, muito menos arquitetado, embora aceitei veemente a oportunidade de apunhalá-lo segundos antes do ato.
Nossos filhos jamais perdoariam meu ato desesperador, pois em suas cabeças pueris somos o mais puro e simplório retrato familiar genérico introduzida em nosso contexto social, embora, eu creio que a desumanidade esteja presente em todas as classes, no fim, somos todos idênticos.
‘‘Desumanidade’’
Marquei com o plasma sangrento em minha própria carne como lembrança. No decorrer de minha consciência, pousei as mãos sobre a chemise em descanso, e ressentida decidi dar um fim a figura masculina finada diante de meus olhos. Era bonito, senti pena, a beleza pouco é igualada dentro e fora da carcaça humana, tomo meu pai como exemplo, foi bonito e sabido, porém agressivo e infiel, receio que minha filha sinta necessidade de encontrar um par como o meu, assim como fiz, espelhando-me em minha mãe.
No presente momento em que olhei para meu finado companheiro, e tomei em minhas mãos algo que pudesse limpá-lo e também minha casa, compreendi meu infeliz roteiro, sei que diferente de minha mãe reagi por instinto, instinto esse desconhecido, uma vez que não enxergava dentro de mim impulso algum responsável por este desfecho dramático.
Pois bem, tão logo o limpei vi o defunto voltar a corar, os lábios empalidecidos voltaram a dar-lhe a beleza e vitalidade, porém a costumeira expressão odiosa, a qual pesava-lhe na inclinação das sobrancelhas mesmo na morte, fora atenuada, dormia sereno, longe de pesadelos, e o cheiro da decomposição, a qual vinha deixando-me de certa forma satisfeita por comprovar meu livramento, havia desaparecido por completo.
Aproximei o rosto de seus lábios, os lábios que outrora despejaram provocações e beijaram-me com uma ferocidade atroz. Não tencionava beijá-lo, esse anseio já não me provocava há anos, tencionava apenas comprovar por meio de sua respiração a morte efetiva, porém o maldito voltou a respirar, embora suave, e as pálpebras tremeluziram em um sonho agitado.
Levei a mão aos lábios contendo o grito, pois percebia minha insanidade e refleti sobre a possibilidade de a morte não passar de uma idealização projetada em minha mente como consequência de sérias complicações em minhas faculdades mentais. Logo o choro e o desespero regressaram urgentes junto ao despertar de meu marido e a fixação de seus olhos aflitos.
O não mais falecido permaneceu sentado onde havia desencarnado, apertando os lábios como em um choro reprimido, mas não se atreveu a questionar os últimos acontecimentos, somente refletiu ao tomar ciência de sua localização. Quis apagá-lo outra vez, apanhar meus filhos na moradia vizinha e fugir da capital, todavia não o fiz, aguardei assombrada. Ele não tornou a agredir-me, embora demonstrasse agressividade na forma como ergueu o tronco e deixou a casa apressado.
Aguardei seu retorno acuada por detrás das cortinas, repetindo o procedimento habitual de quando nos deixava a fim de se aventurar entre tavernas e residências de messalinas portuguesas desfavorecidas. Antes do anoitecer do terceiro dia, Mario atravessou a porta abatido, questionou-me cauteloso a respeito de nossa família e emprego, o qual evidente não existia, uma vez que há tempos eu vinha sustentando a casa e seus vícios através da costura.
Confuso, respondeu de forma branda, quase não ouvi sua voz, o que me deu coragem para exaltar a minha, proferindo todo tipo de injuria, devolvendo a agressão verbal e corporal sofrida por anos, aguardando que revidasse e enfim findasse minha vida, visto que a sua não poderia ser tomada apesar de todo meu esforço.
Mario tornara-se impassível, mostrando-se eficiente em cuidar dos meninos e de nossa moradia. Por semanas fui testemunha de sua loucura, antes fora a encrenca encarnada, porém agora o equilíbrio tomava sua personalidade, transformando a leviandade em uma amarga lembrança. Mario e nossos filhos formaram uma amizade jamais cogitada por mim, diminuindo minha guarda em relação o pavor de dias remotos.
Certa manhã, eu o vi levantar discreto, e crendo na proeza de sua prudência vestiu-se e deixou a casa sorrateiro. Eu o segui em desconfiança, por pouco desacreditei na cena a qual se desenrolou a frente de meus olhos; Mário observava uma família através das janelas com um profundo ar melancólico. A dor em seu semblante desprendeu em mim uma afeição jamais sentida, embora houvesse chances de estar diante da residência onde se passara mais uma de suas infidelidades. Mário tornou a voltar para casa ao fim do dia, e como de costume aprontou parte do serviço no campo e acariciou os filhos com o mais profundo carinho de seu coração.
Os dias correram, e com o correr meu coração abriu-se outra vez para o amor, embora enfrentasse um dilema moral, afinal, como retornar a relacionar-me com um sujeito cujo desrespeito e agressividade uma vez operaram em cada um de seus atos? Como doeu, e dói refletir sobre o passado, leitor. Pouco ponderei minhas tomadas de decisões, não controlava os pensamentos involuntários sobre como proceder, havia somente duas opções: encobrir, e dessa forma alcançar a felicidade tão idealizada, ou o diagnosticar como louco e esgueirando-me como havia planejado há tempos. O que farias em meu lugar?
Eu permaneci ao seu lado, tornando a enxergar beleza em seus olhos e lábios, desprendida do medo e cativada como em nossa juventude. Acredito que esta história findará repleta de contrariedades e desagradará grande parte dos leitores, por este motivo relato minha experiência, para que saibam o quanto ainda me ressinto dos dias de horror experimentados outrora.
Mario conservava sua rotina ligada ao trabalho braçal, olhar as crianças e amar-me com ardor, porém, pela manhã, sorrateiramente partia em direção a casa desconhecida e a observava tristonho. Imaginei que o preço de ter uma vida feliz era aceitar este estranho passei matutino, no entanto, sentindo-me dona da coragem o confrontei, e meu confronto atraiu a família observada a qual esboçou dúvida sobre os protestos desenfreados próximos a sua residência.
Mário, sentiu necessidade de apaziguar apenas a preocupação da mulher recém-chegada, a penosa mulher de belos trajes e modos de uma verdadeira dama de elevada classe, causando em mim grande ressentimento. Em casa, a sós, meu esposo contornou a cozinha taciturno, quieto em busca de sossego, porém via-me no direito de ouvir a verdade e calcular por mim mesma os riscos de conhecer o preço da felicidade. Eu o confrontei, e a verdade pareceu-me dolorida e inverossímil, jamais compreenderei a eventualidade sucedida após o desencarnar do corpo de Mário meses atrás.
O homem ao lado vivia no íntimo de meu esposo, usava de seu corpo, articulava com sua voz e corria com seus pés, porém não era ele. O que ocorreu fora que após o desencarnar de Mário outra alma ocupara seu corpo de forma inesperada, a passagem não fora concluída e dessa forma o pobre homem, impossibilitado de retornar ao próprio corpo e aproveitar os carinhos de sua boa esposa e filhos privilegiados, obrigou-se a aceitar a nova vida, mantendo-se saudoso, dia após dias.
Após dialogarmos, decidimos aceitar sua nova chance, nossa nova chance, afinal, o descuido da morte presenteou a mim e minha família com o que jamais dispusemos, revogando nossa crença na bondade masculina e salvando minha filha da possibilidade de adentrar em um matrimônio como o meu, e passar adiante a desgraça das mulheres de nossa linhagem.
Conheci o trabalho da artista através do Instagram e logo identifiquei a inspiração difundida em seus traços. A narrativa gotejada do contato da...