O Cavaleiro das Sombras
Criado para o Castelo Drácula com Midjourney
“Uma coisa que humanos possuem e outras criaturas não: temos segredos.”. — Osamu Dazai
— Hugo de Payens era oriundo de uma família da baixa nobreza francesa sem muito prestígio, mas com fortes laços de parentesco com os Montbard – família à qual pertencia São Bernardo de Claraval. Em sua terra natal, era apenas um humilde vassalo do conde Hugo de Champanhe. Contudo, quando fez parte da Primeira Cruzada e chegou a Jerusalém, assim que o conde – seu suserano – voltou para o Condado de Champanhe, ele optou por ficar na Terra Santa. Logo organizou um grupo de nove cavaleiros que viriam a se tornar a Ordem do Templo de Jerusalém. O nome de oito cavaleiros desse seleto grupo era bastante conhecido, pois todos eles eram da França. No entanto, a identidade do nono cavaleiro permanece desconhecida até os dias de hoje, apesar de se especular que ele era originário de algum lugar do oriente chamado “Qeryoth”.
Disse o professor Aleksiéi a sua modorrenta turma de Ensino Médio numa enfadonha aula sobre as Cruzadas. Por mais que ele tentasse adicionar fatos curiosos ao conteúdo, aquela turma – excetuando um aluno ou outro que, vez por outra, fazia algum questionamento pertinente – parecia não se interessar muito pela História da Idade Média com seus cavaleiros, castelos e lutas sem sentido, que às vezes eram travadas por motivos torpes. As fantásticas estórias que permeavam o imaginário medieval sobre seres sombrios, criaturas das trevas e maquiavélicas bruxas com seus pactos demoníacos, não podiam constar em seus ensinamentos, pois de forma alguma condiziam com as diretrizes da escola que, além de ser uma instituição confessional, tinha uma filosofia prioritariamente cristã.
Além de sua dolorosa frustração para com o desinteresse de seus alunos, este douto professor ainda havia sofrido outro grande revés na vida, quando após alguns anos de pesquisa, conseguira publicar um livro sobre alguns intrigantes saberes antigos que supostamente estariam nas mãos de uma antiga sociedade secreta denominada de os “Guardiães da palavra”. Tão antiga quanto as pirâmides do Egito. Tais segredos, – se acaso fossem revelados ao mundo – poderiam mudar toda a estrutura de tudo aquilo que acreditamos sobre a nossa insignificante existência nessa terra. O livro foi praticamente um fracasso. Uma vez que não conseguiu uma editora que bancasse seu projeto, ele mesmo custeou do próprio bolso todos os gastos com a publicação da obra. Menos de cem exemplares foram vendidos e, talvez, menos da metade disso tenha sido lido na íntegra. Quase ninguém levou a sério suas pesquisas, tanto que se tornou alvo de chacotas pelos próprios colegas de trabalho, os quais o aconselharam a escrever ficção ou fantasia.
Em mais um daqueles dias, onde o indivíduo chega a imaginar que talvez tenha escolhido a profissão errada, professor Aleksiéi encerra sua aula com um sentimento de melancólica decepção. Todos os dias, antes de dar seu dia por encerrado naquela deprimente escola, – onde sua liberdade pedagógica era toldada por limites absurdamente dogmáticos – ele ainda tinha que passar pela odiosa sala dos professores para bater seu ponto de saída. Professor Aleksiéi achava que a sala dos professores era o lugar mais deprimente da Terra, um ponto de encontro de pessoas sem nenhum tipo de conteúdo interessante além daquilo que condizia com suas próprias disciplinas; além de estarem por demais decepcionadas com suas vidas particulares – ao ponto de utilizarem aquela sala como consultório de psicologia. Decerto que possuíam uma energia tão negativa que seria capaz de secar, em segundos, o mais viçoso galho de arruda.
Aquela era apenas mais uma sexta-feira como outra qualquer, assim que ele marcasse sua presença, garantindo mais um dia de trabalho em seu ordenado, logo se encaminharia para sua casa para mais um final de semana comum na vida de um professor quarentão, ainda solteiro. Estar sozinho não fôra uma opção, mas devido sua vida não ser muito atrativa para muitas mulheres que lhe cruzaram o caminho, continuava sozinho, rodeado de seus livros e suas misteriosas pesquisas. Após cumprir com suas obrigações burocráticas, estava ele descendo as escadarias da escola quando um homem de aparência bastante simpática lhe abordou já quase nos últimos degraus e logo lhe falou, com certa intimidade, como se já o conhecesse há tempos:
– Boa tarde, Professor Aleksiéi Mirandynsk. Posso ter um minuto de sua atenção?
Aquilo não era nada anormal na vida de um professor, pois era comum pais desesperados vir a ter com um docente ou outro, em busca de socorro para as deprimentes notas que certamente levariam seus filhos a uma reprovação final. Mas acontece que ainda era início do ano letivo. Mesmo assim, sem temer coisa alguma, respondeu àquele estranho cordialmente.
– Boa tarde. A quem devo a honra?
– Represento alguém muito importante que, assim que leu o seu livro, ficou muito admirado com seu trabalho e está bastante ansioso por conhecê-lo pessoalmente. Sua presença está sendo solicitada em sua casa. Esse nobre senhor deseja lhe fazer uma irrecusável proposta, ainda hoje mesmo. Caso queira me acompanhar, estou aqui na incumbência de levá-lo até ele.
Professor Aleksiéi sempre ouvira de sua saudosa mãe que jamais deveria conversar com estranhos, muito menos aceitar uma carona para qualquer lugar que fosse. No entanto, como poderia descobrir quem tanto admirava seu trabalho? E como poderia saber qual proposta seria essa se não entrasse no carro com aquele distinto senhor que, muito educadamente, o abordara na porta da escola em plena luz do dia com dezenas de pessoas olhando? Decidiu que correria esse risco. Apertou a mão que homem lhe estendia e disse que o acompanharia com muito prazer.
O carro que os aguardava na porta da escola era um Rolls-royce Phantom, tão preto como uma noite sem luar. Assim que entrou no veículo, professor Aleksiéi já se sentiu num outro ambiente, totalmente inalcançável para seus parcos ganhos. Ao se sentar num estofado tão liso e lustroso como a pele de uma foca, logo lhe fora servido uma refrescante limonada que ele sorveu em grandes goles, pois, além de estar deliciosa, ele estava bastante sedento. Professor Aleksiéi era do tipo de pessoa que ainda acreditava na idoneidade das pessoas e que, em momento algum, ficou temeroso por estar ingerindo uma bebida batizada, tanto que assim que entornou o que havia sido oferecido a ele, pediu um pouco mais. Dentro do veículo o clima estava amenamente fresco e havia um leve odor de almíscar no ar. Havia um fundo musical tocando num tom quase inaudível, – para ele pareceu ser Brahms ou Chopin. Devido a todas aquelas peculiaridades, ele logo imaginou que realmente seu admirador era um homem de muitas posses.
Os vidros escuros do carro davam um sentimento lúgubre ao interior do veículo que, somado ao agradável som da música e o leve deslizar das rodas do carro pela rodovia, logo trouxe certa sonolência àquele curioso passageiro. Professor Aleksiéi, em menos de cinco minutos, havia caído num sono profundo. Quando acordou, teve a impressão de que muito tempo havia se passado. Sentia um frio intenso que enregelava todo o seu corpo como se estivesse dentro de um freezer. Havia um gosto estranho na boca e por mais que tentasse abrir seus olhos ao máximo, não conseguia enxergar coisa alguma, pois estava rodeado de trevas profundas. Quando tentou se mover, percebeu que estava muito bem amarrado a uma cadeira.
Como não poderia ser diferente, começou a gritar desesperadamente por socorro. E só parou com sua ensandecida algazarra, quando alguém sussurrou próximo ao seu ouvido, com uma voz doce e bastante agradável.
– Silêncio, professor, assim poderá acordar até mesmo os mortos...
Percebendo que não estava sozinho, de certa forma ficou um pouco mais aliviado. Logo uma luz fora acesa acima do local onde estava. Devido às trevas de onde se encontrava até aquele momento, seus olhos demoraram um tempo para assimilar a luz e, quando o fez, não gostou nada do que viu. O lugar onde se encontrava parecia ser uma espécie de cripta ou algo do tipo. Havia várias esculturas estranhas pelas paredes, o que imediatamente o fez recordar o universo de Lovecraft, mas também era possível perceber, – mesmo com toda a penumbra que o rodeava – que também havia figuras conhecidas por ele, como: gárgulas, sereias, esfinges e vários outros seres míticos. O ambiente era frio e tinha um desagradável odor de coisas antigas há muito tempo guardadas, como se fosse um mausoléu. Assim que se ambientou ao lugar, percebeu logo à sua frente uma espécie de altar-mor onde havia um estranho ser sentado numa cadeira de espaldar alto como se fosse um suntuoso trono.
Essa sinistra figura sentada à sua frente, logo se dirigiu a ele, numa voz que mais parecia um clamor proveniente do fundo de uma profunda caverna.
– Aleksiéi Mirandynsk filho de Joseph Rosenberg e de Eugênia de Aguilar o que o senhor realmente sabe sobre essa tal seita que é mencionada em seu livro? Onde conseguiu informações sobre o nono cavaleiro da Primeira Cruzada?
– Que história é essa? Quem é você? Como pode saber o nome de solteira de minha mãe? – Apenas uma ou duas pessoas sabiam que sua mãe era de origem judia –. Não vou responder a nenhum tipo de pergunta até vocês me soltarem e me contarem exatamente onde eu estou? Porque estou preso aqui? O que vocês querem de mim?
A estranha figura olhou através dele, como se estivesse se dirigindo a alguém que estivesse a suas costas e parlamentou com essa pessoa numa língua muito estranha, que mais parecia o constante arranhar de giz numa lousa nova. Após um breve silêncio, a mesma figura que havia lhe falado anteriormente, lhe dirigiu a palavra novamente.
– O que escreveu no seu livro, sobre determinadas pessoas terem obscuros segredos da humanidade, foi apenas um breve vislumbre retirado de sua mente fértil, ou o senhor conseguiu algum documento ou relato que corroborasse essa hipótese?
– Eu já disse que não vou dizer uma única palavra, enquanto não me soltarem.
Nesse momento alguém ou alguma coisa pousou uma mão sobre seu ombro de uma forma bastante afetuosa. Talvez fosse a mesma pessoa que lhe sussurrara em seus ouvidos, sobre ele poder acordar os mortos, com todo sua gritaria. Logo ele constatou que não estava errado em sua suposição, pois essa mesma pessoa voltou a lhe falar, e ele logo reconheceu a voz.
– Professor, seja um pouco mais educado. Queremos apenas tentar lhe ajudar a esclarecer algumas de suas mais terríveis dúvidas. Se colaborar conosco, terá material suficiente para escrever uma das mais intrigantes obras literárias da história. Se nos ajudar naquilo que precisamos saber, certamente o senhor será um Dante Alighieri da era pós-moderna.
Após tentar inutilmente de todas as formas se soltar, e percebendo que lutar seria perda de tempo, decidiu que tentaria colaborar com aquelas sinistras pessoas, – ou seja lá o que fossem elas – respondendo seus estranhos questionamentos.
– Meu livro foi escrito baseado em inúmeras pesquisas que fiz ao longo da vida. Não consigo me lembrar de imediato onde consegui todas as informações que preenchem quase trezentas páginas de escrita. São muitas informações num único lugar.
– Não tenho interesse em tudo o que escreveu, pois sei que grande parte do seu livro não passa de um emaranhado de escrita prolixa. Meu interesse está apenas no capitulo 13, onde o senhor discorre sobre a Primeira Cruzada e a presença de um dos nove cavaleiros da Ordem do Templo, como sendo ele oriundo de Qeryoth. Diga-me professor, essas pesquisas que o senhor alega ter feito, onde conseguiu material para tantos assuntos diferentes? O senhor possui algum documento fidedigno sobre esse nebuloso cavaleiro em sua casa? Descobriu algum fato curioso sobre ele nas leituras que fez? Alguém o ajudou de alguma forma, nessas pesquisas?
Sabendo que seria inútil negar qualquer coisa naquele momento, pois logo imaginou que aquela estranha figura a sua frente pareciam saber de tudo, e aquilo que não soubesse, logo encontraria uma forma de descobrir. Decidiu então, que o melhor a se fazer era relatar onde havia conseguido a maioria das inverossímeis informações sobre o nono cavaleiro da Ordem do Templo. Jamais imaginou que um desconhecido cavaleiro, de origem incerta e destino mais obscuro ainda, pudesse gerar tanto interesse, por parte de alguém que parecia ser tão importante e poderoso. Segundo suas pesquisas, esse insignificante cavaleiro surgiu de lugar nenhum e logo saiu de Jerusalém com o término dessa Primeira Cruzada, pelo que parece, assim que conseguiu aquilo que desejava, desapareceu dos anais da História, como se nunca tivesse existido
– Fora numa antiga abadia que fica entre o norte da Espanha, a alguns quilômetros de Pamplona e o sul da França perto da cidade de Baiona. Numa secular construção que se encontra em ruínas atualmente, e está abandonada há muito tempo pela própria igreja Católica que apenas cercou o lugar com um imensa cerca eletrificada para evitar os vândalos de saquearem o lugar. Contudo, moradores do local me disseram que noutros tempos, ali se encontrava um antiga biblioteca com inúmeros documentos de suma importância para a igreja. A maioria desses documentos foram saqueados ou queimados pelas tropas de Napoleão ainda no século XIX, mas muitos dentre os quais mais importantes, haviam sido salvos por habitantes locais. Consegui as informações para o meu livro numa hospedaria em Santesteban próximo a abadia.
O dono do estabelecimento me forneceu as informações que eu precisava saber, e até mesmo, me permitiu ver alguns manuscritos medievais, – não que eu entendesse muitas coisas, pois estavam escritos num dialeto que jamais tinha visto em toda minha vida – que citavam a existência de uma secular sociedade que era detentora de inimagináveis conhecimentos sobre os mistérios da humanidade. Esses tais Guardiães da palavra saberiam dizer quem projetou as pirâmides, por que Stonehenge fora construído e a origem dos celestiais veículos avistados pelo profeta Ezequiel. Além é claro, quais segredos guardavam o templo de Salomão que tornara a Ordem dos Templários tão temidos até mesmo pela própria poderosa Igreja.
Dentre esses antigos documentos, havia uma espécie de diário de Hugo de Payens, que atestava a presença de um cavaleiro dentre os nove pares de França, que não era francês, mas de algum lugar vindo da antiga cidade de Qeryoth. Segundo esse diário, esse cavaleiro por não ser francês não fora aceito entre os cruzados de imediato, mas somente quando provou seu valor em batalha. Era um tipo de combatente diferente, pois preferia batalhar somente à noite, quando era visto pelos seus demais companheiros, numa fúria incontrolável, matando inúmeros oponentes como se tivesse a foca de cem homens. Era bastante temido pelos seus inimigos e até mesmo por seus próprios companheiros que o chamaram de cavaleiro das sombras, por ser visto pelejando apenas durante a noite. Segundo Hugo de Payens, sem a presença desse cavaleiro – que fora o primeiro a entrar nas ruínas do antigo Templo de Salomão – a cruzada teria sido um fracasso, mas com sua valorosa ajuda, logo a Cidade Santa fora reconquistada pelos fieis e eles puderam voltar para casa. O nono cavaleiro logo se separou do grupo, e até onde se tem notícias se dirigiu para as longínquas terras da Romênia e depois disso ninguém mais soube de seu paradeiro.
Assim que esse breve relato se deu por encerrado, um período de silêncio se fez e a luz logo se apagou e tudo se tornou trevas novamente. O ar ficou um pouco mais gelado e com um leve odor de hortelã com algum outro cheiro que ele não pode identificar qual era. Quando abriu os olhos novamente, era alta madrugada de sábado, teve a leve impressão que estava novamente amarrado, só que dessa vez percebeu que estava de pé, quando tentou se mover percebeu que algo debaixo de seus pés se movera bruscamente o deixando dependurado com algo lhe sufocando a garganta. Logo tudo se tornou escuro novamente.
Na tarde de segunda-feira a polícia encontrara o corpo de Professor Aleksiéi já em estado de decomposição, dependurado no ventilador de sua sala de estar...
Naquele mesmo final de semana fora noticiado que uma antiga hospedaria no norte da Espanha havia sido totalmente destruída por um terrível incêndio que consumira toda a construção. O proprietário da hospedaria juntamente com toda a sua família e alguns poucos hospedes também haviam perecido entre as chamas. Não havia testemunhas. A perícia inicial apontava para a provável hipótese de curto-circuito na rede elétrica que era bastante antiga.
Certamente, não era o melhor lugar do mundo para se estar. Contudo, também não se poderia dizer que era o pior antro de perdição já existente…