Tornar-se espectro

Toda fotografia é uma imagem que carrega o espectral: a morte. O instante fotografado jamais será vivido novamente; assim jaz um tempo que passou…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

“Imaginariamente, a Fotografia (aquela de que tenho a intenção) representa esse momento muito sutil em que, para dizer a verdade, não sou nem um sujeito nem um objeto, mas antes um sujeito que se sente tornar-se objeto: vivo então uma microexperiência da morte (do parêntese): torno-me verdadeiramente espectro.” 

Roland Barthes, em Câmara Clara, página 27. 

Toda fotografia é uma imagem que carrega o espectral: a morte. O instante fotografado jamais será vivido novamente; assim jaz um tempo que passou, um tempo qualquer. Como o verde do capim, o tempo exato do fim do solstício de tal ano, o passeio com as antigas crianças, etc. 

Nesse momento único — o foco —, o fotógrafo, representando o seu olhar delirante de coveiro, enquadra e aprisiona o flagrante: o erro da pose, o silvo do vento no vestido comprido da senhora, a alegria de êxtase do casal e o retrato pálido pendurado na lápide. No caixão, a perfeita sincronia da candura de um corpo frio em profundo sono; eterno, deita-se em pose de mãos cruzadas em agradecimento, pois quer sua última fase serena. 

Assim como em Roland Barthes, a imagem fotografada é carregada de sentidos; o material revelado se desgasta, o papel corrói, mancha, se perde. A contribuição do tempo é feroz e dizima as esperanças de saudades dos familiares e dos personagens, que envelhecem como o papel, mas de maneira diferente: a carne apodrece e morre, a fotografia é a própria morte — ficando banguela, rasurada, rasgada, acariciada e pingada de lágrimas. Seus dias estão contados desde o momento inicial do clique. A fotografia já é o espectro. 

Na câmara escura de outrora, buscava-se a beleza no breu. Na Câmara Clara, Roland Barthes encontrou a essência, o cheiro da reprodução analógica que se perpetua na era digital: o jazigo dos vivos, o enclausuramento da finitude. A procriação do sepulcro. O mantenedor da reprodução do padecimento. 

Sendo assim carcomida, como o corpo do morto no meio do álbum que a mãe balança no colo — aquele cemitério de gentes e paisagens que já se foram — toda fotografia é um fato post-mortem

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Anomaly

Ando pelo único caminho que se atravessa na neblina cinza. Preciso chegar; devo estar atrasado. Inóspito. Inseguro. Lanço dúzias de preces e continuo…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Ando pelo único caminho que se atravessa na neblina cinza. Preciso chegar; devo estar atrasado. Inóspito. Inseguro. Lanço dúzias de preces e continuo. Caminho sem fim, sem trégua, nessa estrada que se apresenta tão conhecida, mas, sem memória, não posso. Estou sonâmbulo. Não sei se amanheceu ou se é noite ainda. 

Abre-se uma clareira, repentina, ofuscando o olhar. Surgem árvores, mas ainda estou ofuscado; ramos sobem pelas minhas pernas, parecem dedilhar, mas não há dedos, não há apalpadelas. Envolvido, inseguro diante da segurança. A prensa amaciada pelas folhas grandes que sobem pela minha boca. Grito de socorro calado, como uma mão que tapa os lábios; sufoco. 

Não é normal. Nada disso é normal. Apreensivo. Tudo ao redor começa a clarear. Não estou mais sufocado. Vejo tudo como câmera de cinema, minha visão de sétima arte: transeuntes ao redor com suas vidas normais e as sacolas cheias de pão, casais se beijando na porta da despedida, o cheiro de café e os cachorros nos postes, rasgando as bolsas de lixo. Mas ninguém me vê, nem toma nota; ambos passam com raiva, com gestos, alegria e desconfiança, mas ninguém parece me observar. Enquanto isso, tento sair da armadilha, implorar por aqueles seres humanos normais. Em vão. O bizarro me doma. 

Perdendo as forças, exausto. Perecendo. Entregue totalmente àquilo que a natureza pode fazer aos homens; a mim. Perdido em um íntimo profundo e escuro, como entre as paredes do quarto. 

Agora estou sentado na cama, sem ar. Suado como um porco pronto para o abate. Acendo meu cigarro. Ainda são três horas da madrugada. Devo um banho e passar um café. Logo mais terei de enfrentar a rotina. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Acácia

A cama estava sem o lençol. O espelho estava quebrado. Na cômoda havia poucos pertences: apenas um hábito limpo, algumas roupas íntimas…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Prólogo 

A cama estava sem o lençol. O espelho estava quebrado. Na cômoda havia poucos pertences: apenas um hábito limpo, algumas roupas íntimas e uma Bíblia. Lá fora, um sabiá assoviava, como se nada demais tivesse ocorrido. Na parede, apenas os indícios de que um grande crucifixo estivera pendurado ali por muito tempo, pois o sol desbotara a tinta da parede ao redor. 

Irmã Acácia estava de joelhos num dos cantos do quarto. Havia muito sangue, mas o sangramento já parara, e ninguém soube explicar como o cadáver permanecera daquele jeito. Assim que ela perdesse a consciência, o que não deve ter demorado muito, seu corpo deveria ter desabado para frente ou para um dos lados. Mas parara intacto: uma das mãos segurava firmemente um caco de espelho enorme; ele estava introduzido até a metade em seu ventre avolumado. Ao que parecia, ela tinha golpeado a própria barriga várias vezes e sangrado até a morte. Outro detalhe inexplicável era que ela olhava para cima; os olhos abertos tinham uma expressão de alegria e alívio. 

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Agora 

Irmã Acácia estava sentada em uma das últimas fileiras de cadeiras da capela. Eram cadeiras de plástico simples, bem diferentes dos pesados bancos de madeira de algumas igrejas que ela tinha frequentado. Ela já não suportava mais, cruzava e descruzava as pernas impaciente. 

Irmã Acácia era uma noviça; portanto, habitava o convento havia três anos e meio. Já estava muito acostumada com a rotina do convento, porém. Havia dias em que as obrigações que eram impostas a todas eram difíceis de serem cem por cento cumpridas. Era isso que a perturbava naquele exato momento: achava que conseguiria curar-se pela fé; no entanto, por mais que seguisse todos os ritos e costumes da congregação, não conseguia se sentir plenamente liberta do seu vício. 

Já havia feito grandes avanços, com muita perseverança, longos períodos de recolhimento, reflexão e busca de comunhão com Deus. Conseguira deixar o seu passado para trás, um passado que não fizera questão de esconder das irmãs; porém, não gostava de falar sobre, de modo que somente a madre superiora Maranhão sabia dessa mácula em seu passado. Acácia achava isso muito bom, pois, apesar de todas as irmãs serem pessoas muito boas, não se sentia à vontade para revelar que fugira de onde morava porque estava jurada de morte por outra mulher. Ela havia cometido o pecado de ter se deitado com o esposo dela várias vezes, mas ela só tinha descoberto a última. 

Por isso, era muito grata à madre Maranhão por tê-la acolhido naquele momento de dificuldade. Não tinha dinheiro nem onde dormir, e ela a recebera, mesmo sabendo do seu segredo sujo. Em um mês, estava habituada e pediu para ingressar na ordem; assim, garantiria uma vida digna, um teto e conseguiria se curar da ninfomania. Madre Maranhão permitira; ela enxergava o futuro e não o passado das pessoas. Mas, agora, ela não sabia como explicar a ela o que estava acontecendo com seu corpo. Na verdade, nem ela sabia; parecia muito com uma gravidez, pois tinha todos os sintomas; porém, estava há meses sem deitar-se com alguém, a última vez fora antes da fuga para o convento. 

A última coisa mais sexual que fizera, se é que fizera, fora um sonho que tivera três meses atrás; fora tão real que seu corpo chegara ao clímax mesmo dormindo. O problema é que aquele sonho reacendera a chama do pecado. Para refrear seus impulsos, passou a aliviar-se antes de dormir, acariciava-se com as próprias mãos. Não tardou, e sua menstruação atrasou, e, como se as duas coisas estivessem misteriosamente interligadas, sua sede por prazer voltava aos poucos, mas cada vez mais voraz. 

Os dedos já não a satisfaziam tanto quanto ela queria. Sua fome, ela ponderava, era incomensurável. Até que um dia, desesperada por mais sensações e explosões orgásticas mais intensas, começara a roçar-se com o terço. Ora esfregava rapidamente, de fora a fora; ora apreciava sentir conta por conta massageando o seu clitóris. Uma noite, fez tanto daquilo que a delicada pele, que antes era rosa, tornara-se de um intenso e dolorido vermelhão. 

Aquele ato, que fazia na solidão do seu quarto, às escondidas, rapidamente transformara-se no ponto alto do seu dia. Era a sua válvula de escape e ninguém precisava saber. Durante, era muito prazeroso, mas depois sentia-se imunda. Em meio a todas aquelas mulheres tão castas, tão puras, tão perfeitas, tão santas... Acácia flagrava-se pensando, todas as vezes após o ato, que aquele não era o seu lugar. Mas por fim, qual lugar seria? 

De início, achou que o atraso menstrual pudesse ser uma espécie de menopausa precoce, mas os sintomas eram outros, não batiam. Ela tinha enjoos matinais, estava começando a ir ao banheiro com maior frequência.... Tudo o que estava sentindo correspondia à gravidez. Até que a sua barriga começou a crescer cada vez mais, assim como as suas vontades lascivas. Se pegava reparando na beleza dos padres, imaginava-se deitando-se com eles, para logo em seguida rezar vinte ave marias buscando a absolvição daquele pecado. Para esconder a barriga, enquanto não descobria como contar tudo isso à Madre Maranhão, cortou o lençol de sua cama em tiras e as amarrou em torno dela bem apertado. Sabia que era uma solução temporária. 

Agora, o que ela estava sentindo, tinha mais urgência de ser resolvido. Cruzava e descruzava as pernas impaciente, a noviça sentada ao seu lado estava começando a se incomodar com isso. Suor escorria às bicas, por sua testa, pescoço, costas e barriga. Sentia algo se movendo dentro do seu ventre. Era algo, mas não era um bebê, porque tinha acesso aos seus pensamentos; os mais vergonhosos. 

Parecia que, naquele momento, aquilo esticava braços e dedos por dentro dela, acariciando-se, fazendo movimentos de vai e vem dentro de sua vagina. "Incomodo?" "Ah, não, continua!" — Sentiu o canal aquecer e umidificar-se; não conseguia parar, ela não tinha controle sobre aquilo nem sobre seus desejos. Em sua mente, começou a ouvi-lo. "Vamos para o quarto! Ora, vamos, eu sei que você é só uma puta querendo gozar. Vamos? Você não é uma noviça de verdade, está se escondendo aqui, em meio a essas cordeirinhas. Não adianta esconder, estou dentro de você, estou aqui sentindo você molhar-se de tesão." 

"Para!", ela ordenou com os seus pensamentos. "Não paro!", a coisa gritou em resposta, rasgando a sua vagina por dentro com grandes garras, ao que parecia. Em seguida, ela sentiu a coisa se movimentar de maneira diferente, era como se estivesse fechando as mãos. Sentiu os punhos girando, cada nó das mãos provocando seus sentidos; parecia que era senhora de sua mente, pois sabia que aquilo a agradava. Ainda mais que não era apenas uma, mas sim duas deliciosíssimas mãos dentro da sua boceta. Então, a coisa parou repentinamente, também em sua mente; nada se ouvia. 

"Justo agora, quando eu ia gozar? Calma, Acácia, não dá para você fazer isso no meio de uma capela, no meio de uma missa; até para você isso é pecado demais." 

Acácia levantou-se, as faixas amarradas em sua barriga a faziam sentir um calor triplicado pelo teto da capela baixo e um número grande de pessoas afuniladas ali. Para a noviça ao seu lado, falou que ia ao banheiro, mas estava passando mal — isso ela não falou. Ao chegar ao banheiro, às pressas, foi direto para uma das patentes e vomitou. Ao abrir os olhos, ela não vê o próprio vômito, e sim uma piscina de esperma; ela sabia, porque tinha o gosto e o cheiro característicos. A visão a fez sentir uma nova e forte onda de enjoo. Novamente um jato. Ousou olhar novamente, viu que havia vomitado muito sangue, algumas partes grossas, coalhadas. 

Conseguiu levantar-se, mesmo cambaleante, e não voltou para a missa. Apressou-se em chegar ao quarto. Desabou sobre a cama; deitada de costas, virou-se em direção ao crucifixo, fechou os olhos para não olhar para Jesus. Procurou o terço e não encontrou. "Droga, esqueci o terço na capela." 

"Ah, sua vagabunda, esqueceu o consolo de freira, é? Que tal usar a cruz?" 

"Não!" 

"Vamos, sua rameira, admita que o que você quer é enfiar ele até o talo. Admita que você se sente atraída pela escuridão e pela dor!" 

"Não! Não! Sai da minha cabeça!" 

"Vamos, Acácia... você sabe que precisa disso. Precisa sentir o prazer, o fogo que te consome por dentro. Só assim você poderá me libertar completamente." 

"Não... eu não posso fazer isso. Não aqui, não agora. Eu quero ser salva. Eu quero..." Acácia lutava para organizar os pensamentos, mas a presença da coisa se adensava em sua mente, como um nevoeiro. 

"Salvação?", a coisa zombava, com uma risada sombria. "Você já abriu mão disso há muito tempo... Todas as noites que você se deitou com o marido de outra. Todas as vezes que você transou com qualquer drogado que encontrasse por aí, disposta a compartilhar a droga que viesse. E depois aqui no convento? É só questão de tempo até você se deitar com algum padre, afinal, uma hora ou outra você iria achar um tão devasso quanto você, está cheio de pedófilos saindo nos jornais. E todas as noites que você tocou o terço contra sua carne, todos os suspiros abafados, todo o suor que molhou esses lençóis... você escolheu o caminho da perdição, acha que ainda há tempo para mudar a sua essência?" 

"Pare com isso! Eu só estava tentando... aliviar essa dor... essa fome. Não é culpa minha. Eu estava... estava..." Sua voz tremia, hesitante, mas a entidade se aproveitava de cada fraqueza, alimentando-se dela. 

"A culpa é sua, sim. E é essa culpa que me fortalece. Cada vez que você sucumbe ao desejo, eu me alimento. E eu cresço, Acácia... dentro de você. Já não sente isso? O peso, o calor, o desejo cada vez mais incontrolável? Essa fome que nunca passa?" 

Ela engoliu em seco, e suas mãos tremiam. "Então... tudo isso... é você?" 

"Eu sou parte de você, Acácia. Sou o que sempre esteve escondido nas sombras da sua alma. Mas, para que eu nasça, preciso que você se entregue completamente. Preciso do seu arrependimento, da sua vergonha... para me fortalecer até o momento certo." 

"Nasça? O que quer dizer com isso? Eu... eu pensei que..." Suas palavras vacilavam; um calafrio descia por sua espinha ao entender as intenções daquela presença. 

"Isso mesmo", a coisa respondeu, seu tom transbordando desprezo e satisfação. "Você não passa de um meio. Quando você finalmente ceder, quando aceitar o que realmente deseja, estarei pronto para tomar o seu lugar. E você... bem, seu corpo será apenas o portal que me trará à liberdade." 

Acácia sentiu uma pressão intensa em seu ventre, quase como se algo se contorcesse para sair. A entidade continuou sussurrando, zombando. "Eu precisava de uma noviça... de alguém que já estivesse quebrada, que não resistisse. E quando você chegou, cheia de desejos sujos, escondendo-se de tudo, foi como uma bênção... e como eu cresci desde então." 

"Não... não sou apenas um meio. Sou mais forte do que isso!", Acácia protestou, embora a convicção em sua voz fosse escassa. 

"Ah, mas é exatamente isso que você é, minha querida. E, agora, não há mais retorno. Sua fé? Seu arrependimento? Já não são mais que migalhas de uma alma entregue. Continue... me alimente. Ceda uma última vez ao prazer que você busca... e eu nascerei." 

Ela sentiu o corpo enrijecer, mas o desejo continuava ardendo. A coisa dentro dela pulsava, crescendo, comprimindo-se, pronta para rasgar sua carne e tomar forma. Os pensamentos em sua mente já não eram apenas seus. A coisa estava em tudo, sussurrando e, agora, quase ordenando. Acácia fechou os olhos, sua respiração ofegante. A coisa deu uma última risada, triunfante: "Não lute, Acácia. Sua resistência... é o que eu mais desejo destruir. Liberte-se, e me liberte junto de você." 

Em seu íntimo, a noviça sabia que ela não era uma má pessoa. Temia que aquele mal, se ela permitisse, se espalhasse pelo convento. Faria mal a suas únicas amigas, ao lugar que a acolheu. Então usou tudo o que restava de suas forças para se levantar.  

“Não vou deixar que você faça isso! Eu vou gritar, eu vou chamar a madre Maranhão!” 

Ao ouvir isso, a entidade a fez levitar, evitando que ela corresse em direção à porta, e a jogou contra o espelho do quarto com muita violência. 

“Era isso que eu queria!” Acácia pensou. Agarrou o maior caco de vidro que conseguiu e começou a golpear a coisa dentro de sua barriga. Partiu feliz e aliviada, por estar liberta da espiral viciosa que era a sua própria vida e, também, por libertar o convento daquele mal.  

Um último pensamento começava a formar-se em sua mente: 

“O céu é.…” 

Alguns minutos depois, irmã Maranhão batia a sua porta e, não obtendo resposta, abriu-a, estava destrancada. Mais tarde, as irmãs procuraram o crucifixo, mas em vão, ele não fora encontrado em parte alguma do quarto. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Semblantes

Mmoggun era um artesão que vivia em um vilarejo isolado, onde sua arte de esculpir máscaras era vista como uma habilidade quase mística…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Algum dia, algum mês, algum ano do século XIX 

Mmoggun era um artesão que vivia em um vilarejo isolado, onde sua arte de esculpir máscaras era vista como uma habilidade quase mística. Ele conseguia capturar expressões humanas com tanta precisão que era impossível distinguir entre uma máscara e um rosto.  

Mmoggun era um homem estranho, com olhos fundos, uma voz baixa que sempre parecia sussurrar para si enquanto trabalhava. Tinha poucos amigos e quase ninguém o visitava. Na verdade, as pessoas o evitavam, elas temiam que ele escondesse algo mais sombrio em seu talento. 

Obcecado pela perfeição, Mmoggun, decidiu que as máscaras que criava já não era suficientes. A madeira não conseguia capturar as emoções humanas na mesma profundidade que as feições vivas conseguiam, algo que somente a carne e a pele continham. 

Foi então que uma peste caiu sobre o vilarejo, e as pessoas começaram a morrer. Com a morte se espalhando, Mmoggun viu naquela situação a oportunidade de encontrar a expressão perfeita, capturando o momento exato entre a vida e a morte. Passou a visitar os doentes, esculpindo suas máscaras enquanto os observava em seus últimos momentos. 

Ele soube da morte de um amigo próximo, a única pessoa que se importava com ele, e isso o mudou profundamente. Seu amigo, Tomás, morrera após dias de agonia. Ao chegar em sua casa, Mmoggun se ajoelhou ao lado do leito, esculpindo o semblante de morte de seu amigo. 

Foi nesse instante que o artesão sentiu que aquele ato o mudara. Sentiu um vazio que nenhuma máscara do mundo poderia preencher. Desesperado, ofereceu uma oração sombria aos deuses antigos, às almas esquecidas que habitavam as florestas e as sombras, pedindo que o ajudassem a capturar a verdadeira essência do medo e da morte. Ele ofereceu sua alma, seu corpo e tudo o que possuía. 

Algo respondeu ao seu chamado. 

Um vento maligno soprou pelo vilarejo, e uma figura encapuzada visitou Mmoggun. Era uma alma ancestral, uma criatura que vivia nas sombras que havia escutado seu desejo. O ser ofereceu a ele o poder de capturar o medo eterno, mas o advertiu: 

— Se você aceitar, mortal, jamais poderá abandonar a sua busca, jamais poderá escapar dessa fome que o consome. Irá se tornar um caçador, incapaz de parar enquanto houver uma face que possa exibir um novo tipo de horror. 

MMoggun aceitou sem hesitar. 

Quando amanhece, ele já não era mais humano. Sua pele esticou, seu rosto se alongou, sua voz se tornou um sussurro gélido e vazio. Ele adquiriu o poder de capturar o semblante de suas vítimas, arrancando suas faces e usando-as como máscaras.  

Ao longo dos séculos, ele passou a visitar vilarejos, oferecendo presentes amaldiçoados aos seus escolhidos. Mmoggun se tornou uma criatura temida e sua história nunca foi esquecida. 

Tempos atuais 

Uma noite, em um inverno particularmente rígido, um jovem recém-chegado à cidade, Rafael, encontrou um presente. Ele acabara de se mudar, atraído pela calmaria do interior. Estava organizando sua mudança quando notou uma caixa preta à sua porta. A madeira escura da caixa parecia absorver a luz da lua, e o intrincado entalhe de runas desconhecidas a transformava em algo hipnótico. 

Ao abrir a caixa, Rafael encontrou um espelho de mão, com uma moldura prateada desgastada que, ainda assim, brilhava de forma inexplicável. Ao tocar o espelho, sentiu um frio subir por sua espinha, mas a curiosidade venceu o desconforto. Ele se olhou no espelho e, por um momento, teve a estranha sensação de que sua própria expressão o encarava. Algo nele parecia errado. Contudo, sem saber, esse olhar desconfortável era exatamente o que Mmoggun desejava: uma curiosidade misturada com um início de receio. 

Nas noites seguintes, outros presentes foram surgindo. Uma velha caixa de música, e um colar de pedra vermelha. Cada objeto era uma armadilha, um elo a mais que conectava Rafael ao domínio de Mmoggun. Fascinado pelos presentes, o jovem passava horas a sós com eles, perdendo-se no mistério de cada peça, sentindo-se hipnotizado pela aura sinistra que os envolvia. 

Foi quando ouviu o sussurro. 

— Mmoggun… mmoggun… 

O som vinha do nada, parecendo falar diretamente ao seu ouvido, suave, mas gélido. Rafael tentou ignorar, mas a cada noite o sussurro se tornava mais próximo e insistente. Ele já começava a sentir que era observado quando, numa noite, o sussurro se materializou em uma figura. 

Mmoggun estava parado na porta de seu quarto. Um vulto encoberto por um manto negro, alto e deformado, com olhos que eram buracos fundos, famintos por alguma emoção que apenas a visão de um rosto aterrorizado poderia saciar. Rafael, fascinado e assustado, ficou imóvel. Era como se um peso invisível o pressionasse contra o chão. 

A criatura estendeu a mão, de ossos longos e mostrou-lhe algo: uma última oferta. Era uma pequena escultura de madeira representando um rosto humano contorcido em uma expressão de medo. Rafael, dominado por uma atração inexplicável, tomou a peça e, ao segurá-la, sentiu o toque gelado de Mmoggun em sua pele, como uma promessa silenciosa de sua morte. 

Mmoggun avançou então, aproximando-se com uma lentidão aterradora, e com o rosto encoberto pelas sombras, tocou a face de Rafael. O jovem sentiu seu próprio rosto começar a pulsar sob a pressão daquela mão inumana, cada linha de sua expressão sendo medida, analisada, desejada. E antes que pudesse reagir, Mmoggun enfiou as garras na pele de seu rosto e começou a arrancá-lo, centímetro por centímetro, enquanto Rafael, paralisado, assistia ao próprio reflexo no espelho a se desfigurar. 

Enquanto o rosto era arrancado, Rafael sentiu o medo tomar conta de sua expressão, transformando-o em uma máscara viva de pavor absoluto. Era a imagem que Mmoggun desejava. Ele absorvia cada detalhe da agonia de sua vítima, a boca entreaberta num grito sufocado, os olhos arregalados em terror. 

Quando finalmente Mmoggun se vestiu com o rosto recém-roubado, seu sorriso era uma cópia vazia do que antes fora de Rafael. Ele admirou a máscara de carne no espelho, um prazer sombrio, e desapareceu na noite, carregando consigo mais uma expressão única de horror para atrair novas presas. 

Nos dias que se seguiram, a cidade foi tomada por um pavor silencioso. Pessoas relataram avistar Rafael vagando pela floresta, mas sabiam que algo nele estava errado. Aquela expressão aterrorizada que carregava não era a de um homem vivo, mas a de uma vítima aprisionada na última imagem de seu medo. Ninguém ousava falar sobre isso, mas todos entendiam que, uma vez marcado pelos presentes de Mmoggun, não havia como escapar de seu destino. 

E ao final de cada noite, o mesmo sussurro continuava a rondar as casas, mais próximo, mais persistente: 

— Mmoggun… mmoggun… 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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O nome nas sombras: um relato verídico

Certa vez, na quinta série, adaptamos a brincadeira do copo para uma folha de papel. Nessa folha, escrevíamos o alfabeto no topo e as palavras…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Queridos leitores, este relato obscuro mescla um fato sombrio, vivenciado nas lôbregas veredas da vida humana, e tons de criatividade e fantasia. Durante a leitura, permita-se imaginar o que seria verídico e o que não seria. Tendemos a acreditar que o mais absurdo é, decerto, o mais improvável de ser real, no entanto, podemos estar profundamente errados. Aprecie a leitura! — Sara Melissa de Azevedo

Certa vez, na quinta série, adaptamos a brincadeira do copo para uma folha de papel. Nessa folha, escrevíamos o alfabeto no topo e as palavras "entrada" e "saída" embaixo. Era para o espírito entrar e sair, e responder às perguntas guiando um lápis ou caneta sobre o papel. Todos os meus colegas estavam fazendo aquilo na brincadeira, mas eu resolvi levar a sério. E o que eu não contava era que algo que estivesse por ali decidisse me responder. 

Perguntei qual era o seu nome, e a caneta que eu segurava começou a se mover em direção às letras N e E. Quando percebi o que estava acontecendo, o medo tomou conta de mim. Assustada, tirei a caneta do papel antes que terminasse de soletrar. Amassei a folha e joguei na lixeira da sala, decidida a esquecer que aquilo acontecera. Mas não foi bem isso que aconteceu comigo… 

No fim da tarde, enquanto caminhava para casa, comecei a sentir algo estranho. Meus passos estavam pesados, como se uma mão invisível pressionasse meus ombros. Talvez eu estivesse impressionada com o que acontecera na sala de aula, ou talvez, como dizemos no Brasil, eu realmente estivesse com um "encosto": um espírito grudado em mim, como uma sombra. 

Na primeira noite, adormeci com um cansaço diferente, um peso, como se uma presença não me deixasse relaxar. Mesmo enquanto dormia, uma parte de mim parecia estar alerta. Tive um sonho — se é que posso chamar de sonho. Estava em um lugar que não consigo lembrar direito, um cenário cinzento e sem tempo, como se estivesse presa entre o sono e a vigília. Havia uma xícara de chá à minha frente, mas não havia rosto, nem vozes, só uma sensação de que algo estava errado. Do nada, a xícara começou a girar. O líquido, que eu não sabia se estava quente ou frio, queimou minha mão. Luzes começaram a piscar ao meu redor, e a xícara, antes comum, agora parecia ameaçadora, dominada por uma força invisível, prestes a ser arremessada contra mim. 

Acordei ofegante, e, embora pudesse parecer só um sonho bobo, o medo que senti foi real. Eu era apenas uma criança, mas sentia um terror profundo que não conseguia explicar. 

Nos dias que se seguiram, a sensação de uma presença ao meu lado só aumentou. Mesmo sozinha, eu não me sentia só. Uma energia densa e sufocante parecia me acompanhar, emanando algo ruim, como se todo o meu corpo estivesse em estado de alerta, ansiando por uma fuga impossível. Não havia nada visível, mas ainda assim era impossível ignorar que, de alguma forma, eu não estava sozinha. Mesmo sabendo disso, tentei levar minha rotina como se nada estivesse acontecendo. Mas ia para a aula acompanhada e observada por aquela presença, enquanto meus pensamentos me lembravam disso obsessivamente. De noite, já em casa, eu continuava a sentir a energia pesada e maléfica ao meu redor. A hora de dormir se tornou o momento mais temido do dia; além de demorar para pegar no sono, cada segundo acordada no escuro era uma tortura. Eu torcia para não ver nada ali, para não ter mais um pesadelo, mas sabia que o sono me trairia, e os sonhos estavam fora do meu controle. 

Me recordo de cada pesadelo que tive nesse período, prova do quanto essa experiência me marcou. O primeiro foi o da xícara. Depois, os sonhos se tornaram cada vez mais sinistros, como se aquela presença quisesse testar meus limites. Sonhei que o amplo quintal da minha casa não existia mais; em seu lugar, havia um cemitério sem grama, frio e desolado, com uma cova em especial que me fazia estremecer — a da minha mãe. Eu a visitava em cada sonho, embora soubesse que não poderia me comunicar com ela. Era um terror profundo, silencioso, mas sem saída. E então, uma noite, uma caixinha de música brotou da terra, iluminada por uma luz esverdeada, e dela saía uma melodia tétrica, desafinada, como se quisesse arrancar algo da minha alma. Acordei assustada, mas estranhamente aliviada por ter escapado antes que aquela música me fizesse mal, como a xícara fizera. 

Mas o encosto parecia decidido a me atormentar. Os dias seguiam com uma angústia que me consumia lentamente, e as noites se tornaram uma batalha sem fim. Por mais que tentasse resistir, o medo era implacável. Em uma dessas noites, depois de mais um pesadelo, acordei com a sensação de que havia vencido, de que finalmente tinha escapado. Foi então que senti uma pressão gélida em meu tornozelo, e algo, ou alguém, me puxou com violência. Eu tinha certeza de que não fora um espasmo involuntário; havia algo ou alguém ali, e não estava para brincadeira.  

Nos dias que se seguiram, era como se o próprio nome dele ecoasse na minha mente: N e E... Neiton, Neila… que diferença fazia? A presença se tornava mais ameaçadora a cada noite, me puxando para o pavor absoluto. 

Então, em uma dessas noites, após sentir o pé sendo puxado diversas vezes, eu estava tremendo igual a uma vara verde debaixo das cobertas, o corpo inteiro em alerta. Finalmente, num impulso, criei coragem e me levantei. Na época, meus avós, a quem eu tratava como pais, dormiam no mesmo quarto, então era só chegar na cama deles e contar.  

Eu achava que meus avós não acreditariam na história, que achariam que era tudo imaginação infantil e isso também me assustava, pois eu contava com a experiência, amor e sabedoria deles para resolver o meu problema.  

Finalmente uma luz na escuridão, ao contrário do que eu achava o meu avô me acolheu e me escutou e a minha avó fez o mesmo. Ficaram impressionados com o tanto que eu, literalmente, tremia de medo. Para o meu espanto, meu avô me contou que um dos meus tios, o mais velho, também já passara por algo semelhante. Disse que à época, eles usavam travesseiros com penas de ganso, e que tiveram de abrir um, dentro dele havia uma coroa de penas emboladas que estava machucando o meu tio.  Eu perguntei, se eles sabiam como me ajudar a me livrar daquilo.  

Então meu avô me levou em uma espécie de benzedeira, uma mulher que tinha conhecimento sobre aquilo. Ela morava próximo de nossa casa, no mesmo bairro. Quando entrei na casa dela, me senti bem, coisa que não sentia a semanas. Ela sabia sobre a minha mãe falecida, mesmo sem nunca ter me visto! Em cima da porta da sala dela, tinha um chumaço de ervas amarradas, na época eu não fazia ideia do que era, hoje imagino que era alguma magia para proteção.  

A mulher ensinou-me algumas orações para eu fazer para o meu anjo da guarda. Ensinou-me que eu deveria acender uma vela para ele em meu quarto, rodeada de açúcar, e rezar para ele. Eu segui todas as orientações à risca e também, por conta própria, comecei a rezar o terço. Havia noites em que a chama da pequenina vela ficava altíssima, cerca de um metro. Aquilo me impressionava, mas eu não sentia medo. Também fomos a um cemitério, acendemos uma vela no cruzeiro para o espírito obsessor que me acompanhava, aproveitamos e também acendemos uma vela para o espírito da minha mãe. Com o tempo o meu temor e as minhas preocupações cessaram. Meu esposo diz que tudo foi fruto da minha mente infantil da época, mas só eu sei o que presenciei e senti naquele tempo. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Déjà-vu em forma de haicai

Um haicai de Aryane Braun

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Sei que em outras vidas,
eu já te vi.
Quantas vezes, sob tua espada, pereci.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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A Colecionadora

Falos. Colecionava-os, de todos os tipos e tamanhos. Os primeiros, comprara em sex shops. Depois que se tornara médica legista, ficou mais…

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Falos. Colecionava-os, de todos os tipos e tamanhos. Os primeiros, comprara em sex shops. Depois que se tornara médica legista, ficou mais fácil conseguir exemplares reais. Mas, ainda assim, os conservados em formol não a satisfizeram por muito tempo — não tinham o viço e o vigor de um retirado de um corpo quente. 

Estava excitada com a possibilidade de ter um novo e diferenciado item para sua coleção. A experiência anterior, com um doador vivo, falhara completamente; o exemplar não durara tanto quanto o desejado, suas técnicas de taxidermia ainda eram imperfeitas. Além do mais, o doador sangrara muito — tentara estancar o sangramento, mas ele se movia demais, tentando fugir, e acabou por sangrar até a morte. Deu muito trabalho para se livrar do corpo. 

Só precisava acalmar o novo doador. Terminou de preparar a seringa para a anestesia local e disse: 

— Calma, Armandinho, tenho certeza de que farei melhor uso do que você. Não se preocupe, vou cauterizar depois, sou médica, você não vai morrer… Mas te aconselho a seguir as minhas recomendações: não se mova, não grite. Ah, sim, você não pode gritar, né? O que achou do tamanho desse que está em sua boca? Depois que retirarmos o seu, poderemos comparar qual é o maior. Qual você acha que é? O seu ou o dele? 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Ben

O relógio batia nove horas, e José, diferente dos jovens de sua idade, preferia estar em seu quarto, testando algum software novo, descobrindo…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O relógio batia nove horas, e José, diferente dos jovens de sua idade, preferia estar em seu quarto, testando algum software novo, descobrindo novos sites ou apenas jogando jogos vintage em seu emulador. Gostava também de ouvir música em seu toca-discos; essa atmosfera dos anos noventa lhe agradava muito. Antes de se sentar em sua cadeira, ele liga o toca-discos. Seus dedos passeiam sobre os plásticos que protegem cada vinil e, finalmente, escolhe o álbum: Violator, da banda Depeche Mode. É um de seus álbuns favoritos. Os primeiros acordes de "World in My Eyes" ecoam no quarto. Acompanhado de sua caneca transbordando de café, José inicia sua noite. Primeiro, checa seu e-mail, que está transbordando de spam, entre outros e-mails indesejáveis. Quando estava selecionando-os, algo chamou sua atenção. 

No passado, sua curiosidade o levou a lugares peculiares, e desta vez não foi diferente. O e-mail em questão era, no mínimo, suspeito. Ele elevou a caneca aos lábios e inspirou os aromas de baunilha, canela e notas de chocolate. Sorveu e colocou o café ao lado do mouse, sobre a mesa de madeira. 

Ele havia ouvido dezenas de casos sobre e-mails estranhos, que mais se assemelhavam a alguma creepypasta, de tão fantasiosos que eram. Essas histórias geralmente eram encontradas em algum fórum do Reddit, ou acabavam em um tópico escondido do 4chan, com o intuito de viralizar ou assustar. 

Ele estava prestes a clicar quando sentiu as garras gélidas e pontiagudas do medo cravarem-se em sua nuca, roubando os contornos leves de seu rosto, assim como a mansidão tão presente em seus olhos azuis. Sua expressão adquiriu feições de pavor, e a ponta suada dos dedos escorregava sobre o mouse. Olhou em volta; tudo estava igual: o abajur emanava a luz azulada ao lado esquerdo de sua cama, as roupas continuavam sobre a cama, o café também estava lá. Piscou os olhos e retomou sua atenção para a tela do computador. Havia algo naquele estranho e-mail. Primeiro, seu remetente parecia ser criptografado; não havia nada escrito, apenas um link. Ele passou a mão na testa; as primeiras gotas de suor começaram a aparecer. “Não deve ser nada”, pensou ele. Enquanto isso, "Personal Jesus" tocava na vitrola. Bebeu mais um pouco de café e clicou. Uma aba foi aberta, e ele imediatamente reconheceu: era um site chamado CleverBot, um chatterbot criado pelo veterano em IA Rollo Carpenter, que já havia desenvolvido outros aplicativos para a web. 

José estava eufórico, pois havia um mistério envolvendo o CleverBot. Uma creepypasta, temida por muitos, dizia que, através deste chatterbot, o usuário poderia se comunicar com “Ben”, um garotinho que amava jogar Zelda e que havia morrido sob circunstâncias misteriosas, com sua alma presa em uma fita do jogo. Cético, José inicia uma conversa com perguntas triviais, interagindo com a máquina. Estava se divertindo bastante, mas, de repente, as perguntas começaram a soar estranhas. Seus olhos estavam fixos na tela, e ele decidiu desafiar o aplicativo. Começou a digitar: “Onde está o Ben?”, mas antes de enviar, houve uma resposta. 

— Se fosse você, não faria isso. 

— Não faria o quê? 

— Talvez você encontre algo de que não goste. 

— Eu não iria procurar nada. 

— Eu sei que sim; não adianta negar. 

Imediatamente, uma sensação perturbadora de estar sendo observado o envolveu. Pensou: "Isto está ficando bizarro, melhor fazer outra coisa". Porém, algo o prendia ali. 

— Deve ser algum tipo de brincadeira. Adeus. 

— Não vá, José; estava começando a me divertir. 

— Como você sabe meu nome? 

— Ora, eu sei de tudo. 

— Nunca deveria ter aberto aquele e-mail. 

— Tarde demais para arrependimentos. 

— Aliás, eu adorei a luminária azul. 

Suas mãos tremiam. Ele saiu do computador, olhou em volta, ligou a luz, fechou as janelas e a porta. 

— Sabe, José, gosto muito de Depeche Mode. Inclusive, “Waiting for the Night” é uma das minhas preferidas. 

Uma atmosfera terrível pairava naquele quarto. José estava amedrontado, andando de um lado para o outro. Uma pavorosa sensação de sufocamento o acompanhava, como se fosse um obsessor. Sentiu uma dor pungente brotar de seu peito, gritou até não poder mais e, antes de sucumbir, leu a última frase no computador. 

— A propósito, me chamo BEN.

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Desafio Sombrio 2024, Escrito por Valesca Afrodite, -Contos Valesca Afrodite Gomes Desafio Sombrio 2024, Escrito por Valesca Afrodite, -Contos Valesca Afrodite Gomes

Minha bela coleção de almas amigas

Na minha maldição de viver muitas vidas, ainda tenho a vã esperança de encontrar, além dela, todas as minhas almas amigas…

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Na minha maldição de viver muitas vidas, ainda tenho a vã esperança de encontrar, além dela, todas as minhas almas amigas. E, enquanto esse momento frívolo não chega, adquiri um hábito que todos olham com estranheza: essa mania de colecionar lembranças. Dizem ser mórbido, e talvez até seja mesmo, mas o que eles sabem sobre corações mortos? Sobre a fria solidão dos séculos? Toda a minha coleção, que repousa em minha casa, em molduras gastas, em velhos baús, em álbuns, são as únicas coisas capazes de fazer o meu coração morto chegar perto de bater. Minha coleção favorita: minhas fotografias post-mortem, memórias fiéis das minhas almas amigas que um dia caminharam comigo, compartilharam seus risos, sua vida e seus gostos tão duvidosos quanto a própria eternidade.

Doralice, que sonhava com o mar, sentia como se a maré pudesse alcançá-la mesmo nas terras mais áridas. Júlia, que murmurava consigo mesma versos melancólicos com uma doce tristeza, que quase me faziam querer ser mortal e experimentar a efemeridade. Endora, a ousada, que dançava como se fosse sempre a última dança; ela tinha fome pela vida. Vitória, o farol em meio à tempestade, aquela que não se abalava; e, mesmo agora, sua imagem ao meu lado na fotografia mostra em seus olhos mortos a força que ela tinha. E minha amada Lara, que, ainda viva, ainda espera com um coração que bate com um anseio por algo que não se explica; enquanto o tempo passa, ela mantém minhas lembranças vivas.

Cada vez que uma dessas almas amigas se vai, eu morro um pouco mais em minha não vida. E, em meu luto, preciso de descanso, pois a eternidade às vezes me esgota. Então eu repouso, mas não o repouso do fim, apenas um sonho breve em meu sepulcro silencioso, onde espero, mais uma vez, a chance de despertar e passar momentos na companhia de minhas almas amigas.

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O colecionador

Sou acumulador destas saudades | que fazem coleção dentro de mim… | Eu guardo todas co’a maior vontade, | e ao peso que elas dão não dou um fim…

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Sou acumulador destas saudades
que fazem coleção dentro de mim…
Eu guardo todas co’a maior vontade,
e ao peso que elas dão não dou um fim.

Algumas sem razão, de antiga idade,
não têm mais serventia e, outrossim,
compõem com as outras um destaque
que faz eu me orgulhar do meu jardim.

Usando de outras mais, de outras menos,
dão todas, de algum modo, o seu exemplo
às vezes, se alguém pede que as exiba…

É quando eu alivio o enorme peso
de nunca dividir o meu apreço
por coisas que ninguém pensa que exista…

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Uma entrevista do “caso Mmoggun”

Entrevistador: Qual era sua relação com a vítima? | Amigo da vítima: Nos criamos juntos. Amigos de rua, de infância… 

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Entrevistador: Qual era sua relação com a vítima? 

Amigo da vítima: Nos criamos juntos. Amigos de rua, de infância… 

Entrevistador: Estavam sempre juntos? 

Amigo da vítima: Lógico que não. Conversávamos, trocávamos mensagens, dia a dia… 

Entrevistador: No dia do crime, estiveram juntos? 

Amigo da vítima: Pela manhã eu o vi. Estava bastante abatido. 

Entrevistador: Abatido? Como assim? 

Amigo da vítima: Não parecia bem. Tinha olheiras, caminhava devagar, parecia perdido… 

Entrevistador: Interessante… Chegou a conversar com ele? 

Amigo da vítima: Interessante nada… Ele estava visivelmente triste, tenso, alguma coisa já anunciava algo errado… E não, não conversamos. Quando me aproximei e tentei falar mais alto, vi que ele não me escutava. Ele pareceu se assustar com a minha presença, começando até a caminhar mais rápido. 

Entrevistador: E para onde ele foi? 

Amigo da vítima: Não sei dizer, apenas vi quando partiu apressado, arrastando e tropeçando os pés na calçada. Ouvi ele dizer algo, mas não entendi. 

Entrevistador: Ele conversava contigo? 

Amigo da vítima: Não diretamente. Parecia, na verdade, que sussurrava para alguém ao lado… Diria até que conversava com algo invisível… É estranho dizer isso, mas foi o que vi. 

Entrevistador: Bastante estranho… Então quer dizer que não viu qual era o destino dele após isso? 

Amigo da vítima: Não… Só sei que ele seguiu pela calçada e dobrou a esquina. Parecia saber aonde ia, pois erguia de maneira determinada o olhar na direção que seguia. 

Entrevistador: Depois disso, você só o viu em casa, quando descobriram a tragédia? 

Amigo da vítima: Sim… Fui chamado pelos policiais que chegaram. Queriam saber se eu ouvira algo… 

Entrevistador: E você? 

Amigo da vítima: Disse que não, que somente mais cedo havia presenciado aquele estranho comportamento dele, saindo pela rua e não respondendo ao meu chamado. 

Entrevistador: Os policiais não perguntaram mais nada? 

Amigo da vítima: Eu disse a eles o que sabia; falei um pouco das últimas vezes que tivemos contato… 

Entrevistador: Se importa de me dizer qual foi seu relato? 

Amigo da vítima: Não… Acho que quanto mais pessoas souberem, melhor será para uma futura investigação… até para a prevenção de outros casos… 

Entrevistador: Prevenção do quê? 

Amigo da vítima: Do crime! Pois o que aconteceu com meu amigo foi um crime. 

Entrevistador: Quais os motivos para dizer isso, com tanta convicção? 

Amigo da vítima: Meu amigo foi vítima de alguém que conheceu pela internet. Semanas antes do ocorrido, ele me falava que tinha finalmente tido sucesso no app de encontros. Não me dizia muito sobre quem era ou como se dava a interação; tudo o que me revelava era um enorme otimismo e algumas provas de que, dessa vez, daria certo… 

Entrevistador: Que provas eram essas? 

Amigo da vítima: Ele me dizia que estava recebendo presentes, alguns mimos da pessoa com quem interagia. Não me mostrou nenhum deles, pois, segundo ele, essa pessoa do outro lado solicitava total privacidade; era uma espécie de trato: ele não deveria falar para mais ninguém sobre o que recebia… 

Entrevistador: Um tanto ingênuo seu amigo… Então nenhum desses presentes ele exibiu para você? 

Amigo da vítima: Não. Tudo o que consegui dele foi saber como os recebia. 

Entrevistador: E como era? 

Amigo da vítima: Era uma espécie de código. Na calada da noite, quando a rua estivesse vazia, sem barulho algum, essa pessoa dizia para ele aguardar do lado de dentro da casa, apenas colocando o ouvido na porta para ouvir sua chegada. Os horários eram quase sempre perto da meia-noite... Por isso as olheiras, penso, e o cansaço com que o via nos últimos dias... 

Entrevistador: E a chegada dessa pessoa era acompanhada de algo? Não havia interação entre eles? 

Amigo da vítima: Não. Meu amigo disse que ouvia apenas os passos vindos de fora, depois uma espécie de palavreado que até agora não consigo rememorar: gugum, logum, nogum… sempre terminava com esse "um"... 

Entrevistador: Gugum, nogum... O que isso significa? 

Amigo da vítima: Não sei. Ele também não sabia dizer. Os presentes também, um completo mistério. 

Entrevistador: Quais eram? 

Amigo da vítima: Ele não me dizia. Era proibido, estava completamente de acordo com o sigilo solicitado por quem os trazia... 

Entrevistador: Entendo... Aí você só o viu na rua na véspera do crime? 

Amigo da vítima: Não, antes eu ainda tinha contato com ele, mas isso foi rareando cada vez mais. Acho — tenho convicção — que as sucessivas madrugadas à espera desses presentes, dessa visita misteriosa, deixaram meu amigo cansado e extremamente alucinado. 

Entrevistador: Ele pareceu piorar? Ficou doente? 

Amigo da vítima: No mínimo. Suas respostas não eram mais objetivas; ele me respondia com desdém. Se eu perguntava como estava, ou como ia sua relação com aquela pessoa do app, ele me grunhia algo, quase parecido com aqueles nomes que sussurravam do lado de fora da porta... 

Entrevistador: Aquele "nhugum, nogum"...? 

Amigo da vítima: Isso... Chego a imaginar que possa ter sido um feitiço. 

Entrevistador: Então você acha que seu amigo foi vítima dessa pessoa com quem interagia pelo app, que lhe trazia presentes altas horas da noite e que, de alguma forma, acabou entrando em sua casa e fazendo aquilo com ele? 

Amigo da vítima: É minha única suspeita. Ele não tinha inimigos, dívidas, nada que pudesse ter levado alguém a invadir sua casa e o deformar daquele modo bizarro. Você viu as imagens? 

Entrevistador: Sim. O crime foi tão divulgado que as imagens chegaram até mim. Ele parecia simplesmente sem olhos, nariz, boca. Sua expressão facial, por completo, havia sido removida, deixando o rosto liso, como se uma cicatrização assim fosse possível... 

Amigo da vítima: Meu amigo não merecia isso. 

Entrevistador: Meus pêsames. 

Amigo da vítima: Agora é torcer para que descubram algo, que cheguem à identidade dessa criminosa, que tirou a vida dele e... fez aquilo com ele. 

Entrevistador: Vamos torcer. Irei tentar contatar mais gente envolvida nas investigações. Me diga se lembrar de algo que possa ter passado em branco durante a entrevista. 

Amigo da vítima: Direi, sim. Espero que eu não seja a próxima vítima. Ando escutando vozes pela casa à noite... e juro que parecem as mesmas que saíam da boca do meu amigo, naquele estado abatido dele. 

Entrevistador: O nogum... logum? 

Amigo da vítima: Isso, nogum... mogun... acho que era isso… 

Entrevistador: Bizarro... Tome cuidado! 

Amigo da vítima: Pode deixar. 

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Contato

Buscando os lisos universitários | um passatempo que não muito exija, | retiram lá de cima do armário | um roto e velho tabuleiro ouija…

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Buscando os lisos universitários
um passatempo que não muito exija,
retiram lá de cima do armário
um roto e velho tabuleiro ouija…

Colocam, sem conter a estranheza,
em meio à roda de sentados corpos,
o alfabeto todo sobre a mesa,
e os dedos apoiados num só copo...

Momentos de silêncio… Inicia
a troca de olhares: quem faria
a corajosa, inaugural questão…?

o M é indicado… O e R…
depois o T… o E… não mais alegres,
Aos gritos, todos fogem da sessão!

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Coração de poeta

Essa massa purulenta | cuja dor e sofrimento | o meu peito, enquanto aguenta, | faz por ela um juramento, | tem por força de promessa…

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Essa massa purulenta
cuja dor e sofrimento
o meu peito, enquanto aguenta,
faz por ela um juramento,
tem por força de promessa
um sinal de que tem cura:
algo indica, mesmo infesta,
pois mais quero — e mais perfura.

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Hermético

Tudo começou com uma reminiscência. Caminhando pela rua, por alguma calçada que serviu de gatilho, voltei vinte anos atrás…

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Tudo começou com uma reminiscência. Caminhando pela rua, por alguma calçada que serviu de gatilho, voltei vinte anos atrás. Tempo bom aquele em que brincava, em que o dia de amanhã não me preocupava. Pulando como simples criança, lembrei da brincadeira de saltar linhas, evitando pisar nas demarcações que formavam ângulos nas lajotas da cidade. Por algum motivo incontornável, levei a sério a missão que retornava: não podia mais calçar as retas. 

Assim voltei para casa, atento a cada passo, sem deixar nem mesmo um centímetro da ponta dos pés avançar sobre as cruzadas formas, podendo apenas me deslocar pousando por inteiro a planta dos pés nas plataformas lisas. 

Subir as escadas do condomínio me impôs igual atitude — desviar de toda borda; porém, algo me afligiu: pular de dois em dois degraus mostrou-se nova ordem. A praxe era me adaptar a essa súbita necessidade, sem duvidar nem pôr em descrédito a seriedade do que agora me controlava. Rapidamente, essa maneira de subir os degraus me levou à porta de casa, onde me pus a pensar: até onde irá isso? 

Lá dentro, agora automatizado meu comportamento de pisar no interior das formas geométricas do piso, forcejando até ficar na ponta dos pés em alguns momentos, comecei a organizar minhas coisas. Mochilas, pratos, livros, canetas... Tudo à minha frente foi realocado de maneira a parecer em ordem, numa sequência lógica para mim e para os meus olhos. Satisfeito com a sistematização dos itens — que avançara para um jeito de deixar as coisas verticais o mais verticalmente possível e as horizontais o mais horizontalmente possível —, sentei-me para refletir, no meio do sofá. 

Parado, mas consciente, observei a disposição de minha casa e até onde haviam chegado as últimas consequências de uma brincadeira levada a sério. Aquilo era, no fim das contas, nada mais do que o que meu dia a dia solicitava: a padronização do ser, a ordem social ampliada ao arranjo individual dos objetos. Faltava, para uma completa satisfação do mundo e de mim mesmo, alcançar agora a ordenação microscópica do organismo, daquele universo unicamente alcançável por minha ação... 

Sem pensar duas vezes — o que já era impossível — tratei de fechar meus olhos para o mundo, seguido de minha respiração, buscando uma completa unidade... 

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Manequim

De bruços | amortalhado | escondo o rosto e | não rezo | há dias que me rendi | às horas | à persecução | desse uniforme humano…

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De bruços
amortalhado
escondo o rosto e
não rezo

há dias que me rendi
às horas
à persecução
desse uniforme humano

em sua pose
santificado
ele é quem me acorda
ele é quem me atesta 

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Déjà-vu

De soslaio | en passant | caminho retrátil da vida | a vida | sensorialmente | num piscar de olhos |desembarque brusco | ato que rende e assalta…

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De soslaio  
           en passant
caminho retrátil da vida 

a vida
           sensorialmente
num piscar de olhos

desembarque brusco
ato que rende e assalta
o trem cronológico dos fatos 
espécie de horror
ao lado

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O Lago

— Alertei para ele não ir até lá... — disse Marcos, equilibrando seu corpo inebriado na banqueta, os cotovelos apoiados na bancada de madeira…

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— Alertei para ele não ir até lá... — disse Marcos, equilibrando seu corpo inebriado na banqueta, os cotovelos apoiados na bancada de madeira, lutando para não cair. Sua voz, inaudível, soou um tanto fantasmagórica enquanto contemplava o vazio através de seus olhos verdes. 

— Até hoje sou assombrado por aquele horrendo entardecer... — Após proferir tais palavras, um silêncio perturbador reinou naquele bar. 

Enquanto isso, Carlos, que lustrava a bancada, ouvia com temor cada sílaba, pois aquele terrível acontecimento ainda lhe causava calafrios. 

— Por Deus, Marcos, temos visitantes na vila; é melhor não abrir a boca, entendeu? Todos nós avisamos sobre os perigos daquele lago, e mesmo assim... ele sorriu e foi ao encontro daquelas turvas águas. Ele tinha um ego maior que o temível Kraken — concluiu ele, servindo outra dose para Marcos. 

Nesse momento, alguém com passos leves se aproxima e ouve parte da conversa. A princípio, eles ignoram, mas o cumprimento do visitante faz os homens despertarem daquele estado letárgico. 

Nesta época do ano, a vila recebe muitos turistas por conta de um festival tradicional de frutos do mar, com os mais diferentes pratos, gerando muita renda para o comércio local. As águas cristalinas da praia eram belíssimas, o céu sempre azul-marinho, e o sol radiante era um espetáculo para os olhos. 

Após as formalidades, o visitante entrou e pediu uma cerveja. Carlos o serviu, e o homem, que dizia ser um pesquisador, explicou que estava ali para escrever uma matéria para uma revista. 

— Mas que belo lugar este, não é? — disse Pedro, o visitante. — Desculpem minha curiosidade, mas ouvi boa parte da conversa, e... os fatos narrados são verdadeiros? Digo, é uma história bastante assustadora. 

Os homens se entreolharam com temor antes de responder. 

— Aquele lago é amaldiçoado — iniciou Marcos, em um tom que falhava, como se revelasse algum segredo macabro. 

— Crescemos ouvindo histórias sobre o lago. Diziam que, uma vez que você entra nas turvas águas, nunca mais será o mesmo. Acontecem mudanças físicas que tenho pavor em mencionar. 

— Que mudanças? — perguntou Pedro, intrigado. 

— Após três dias — disse Carlos, sussurrando — a pele se transforma, adquirindo um aspecto viscoso. Com o avançar dos dias, a pele desaparece por completo, e em seu lugar, escamas surgem dos poros. E então um cheiro pútrido e desagradável começa a ser sentido em certas horas... e os olhos... — Neste momento, um terrível arrepio percorreu os três. — Meu Deus, os olhos... ficam vazios, mortos, e o corpo se torna uma espécie de aglomerado acinzentado. 

Absorto, Pedro escutou com muita atenção e pensou consigo mesmo: “Será que tal relato é verdadeiro? Mas por que razão esses humildes homens haveriam de mentir? Suas feições vestem o verdadeiro horror.” 

Ainda espantado, Pedro disse: 

— Eu já ouvi muitas histórias estranhas nesta vida, mas nada se compara a esta. Se me permitem, será que eu poderia escrever uma matéria? 

Os homens tremiam e olhavam ao redor enquanto engoliam as lembranças com o álcool. 

— Acho que sim — um deles falou, enquanto o outro admirava o copo vazio com um olhar perdido. Pedro insistiu, e eles aceitaram. Mas antes de se despedirem, Carlos falou: 

— Se você tem amor à sua vida, vá embora o quanto antes. Sei que é dia de festa por aqui, mas aconselho você a ir. 

Pedro caminhava pela rua com aquela história na cabeça quando uma forte brisa tocou seu rosto, desarrumando seus cabelos pretos e trazendo consigo um odor pútrido, igual ao que acabara de ouvir. Procurou seu carro e acelerou o mais rápido possível.

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Ninguém Vai Embora

— Cara, acho que não está dando certo — falou Fabrício, observando o copo imóvel no centro da tábua. — Pois é. Não se mexe. Talvez devêssemos…

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— Cara, acho que não está dando certo — falou Fabrício, observando o copo imóvel no centro da tábua. 

— Pois é. Não se mexe. Talvez devêssemos tentar outra coisa — concordou Renato. 

Paulo, Ricardo, Renato e Fabrício estavam ali pela primeira vez, reunidos para tentar invocar espíritos com um tabuleiro improvisado e um copo. 

— Ah, eu falei que era uma má ideia. Não tem graça nenhuma. Vamos parar com essa besteira — disse Ricardo, afastando-se um pouco, visivelmente incomodado. 

Paulo, mais teimoso, segurou o amigo pelo braço. 

— Espera. Olha o copo — a voz saiu baixa e trêmula. — A porra do copo está se mexendo. 

O copo deslizou lentamente sobre o tabuleiro, como se uma força invisível o empurrasse. O silêncio caiu sobre os quatro amigos, e um calafrio percorreu a espinha de cada um. 

— Vamos fazer uma pergunta? — sugeriu Fabrício, hesitante, olhando para os outros. 

— Vai lá, você começou essa merda — disse Renato, encarando Fabrício, tentando parecer corajoso, mas seu rosto denunciava o medo. 

Fabrício respirou fundo, engolindo em seco antes de formular a primeira pergunta. A resposta veio, letra por letra, formando palavras sobre o tabuleiro. Eles seguiram com outras perguntas, fascinados e, ao mesmo tempo, aterrorizados. 

Horas se passaram até que Paulo sugeriu o fim do jogo. 

— Já está tarde, pessoal. Vamos mandar o espírito embora. 

— Concordo — disse Fabrício, olhando nervosamente ao redor. — Vamos perguntar se ele quer ir. 

Ele posicionou a mão sobre o copo e fez a pergunta. O copo moveu-se lentamente até o "NÃO". 

— Ele não quer ir, não — Ricardo riu, tentando disfarçar o nervosismo. 

— Por que você não quer que a gente vá? — insistiu Paulo, agora sem tirar os olhos do tabuleiro. 

O copo começou a deslizar novamente, letra por letra, formando uma nova frase: N-I-N-G-U-E-M V-A-I E-M-B-O-R-A. 

Os quatro se entreolharam, sem saber o que fazer. 

— Puta merda, o que ele quer de nós? — perguntou Renato, a voz quase em um sussurro. 

Eles repetiram a pergunta, e a resposta veio rápida e fria: M-E S-I-N-T-O S-O-Z-I-N-H-O O-N-D-E E-S-T-O-U P-R-E-C-I-S-O D-E C-O-M-P-A-N-H-I-A. 

Ricardo levantou-se de repente, puxando a mão para longe do tabuleiro. 

— Eu vou embora. Isso está me assustando de verdade — anunciou, afastando-se. 

Mas, no instante em que deu um passo, a porta da sala bateu com força, fechando-se sozinha. O som ecoou pelo cômodo, e todos viraram na direção da porta, horrorizados. O copo voltou a se mover: N-I-N-G-U-E-M S-A-I. E-U J-A F-A-L-E-I. 

Ricardo soltou um grito abafado, com as mãos tremendo. 

— Eu sabia, eu sabia que isso ia dar merda! 

— Calma... — Paulo tentou controlar o grupo, embora ele próprio estivesse à beira do pânico. — Vamos perguntar o que ele quer. Talvez exista um jeito de a gente sair. 

— Como podemos sair daqui? — Renato se inclinou sobre a mesa, esperando uma resposta. 

O copo moveu-se novamente, a resposta deslizando lentamente entre as letras: S-O-M-E-N-T-E C-O-M I-G-O. 

Paulo arregalou os olhos. 

— O que isso quer dizer? Ir com ele? Pra onde? 

A resposta veio mais rápido, com uma fluidez perturbadora, como se o espírito estivesse ganhando força: P-A-R-A O-N-D-E E-U E-S-T-O-U. 

Renato praguejou baixinho, afastando-se enquanto olhava ao redor com desespero. 

— Esse filho da puta está pensando o quê? — gritou, desafiador. 

No instante em que as palavras deixaram seus lábios, seus olhos se arregalaram, fixos em um canto escuro da sala. Ele apontou com o dedo trêmulo, incapaz de falar. 

— Renato, o que foi? — Fabrício engasgou, os olhos arregalados. 

No canto escuro da sala, uma figura nebulosa, um vulto denso e ameaçador, começou a se formar. Algo sombrio e sem forma, mas terrivelmente real. Todos encararam o vulto, sem conseguir desviar o olhar, enquanto ele se aproximava, lentamente, como uma sombra rastejando. 

Então, uma batida aguda e insistente soou. O telefone tocava na sala ao lado, rompendo o silêncio mortal que preenchia o cômodo. Na casa ao lado, a mãe de Ricardo atendeu. 

— Alô? 

— Oi, Ana. Como você está? Os meninos ainda estão na casa? 

Ela sorriu. 

— Sim, estão aqui, trancados na sala de jogos. Vou chamá-los para você. Um instante. 

Desligou o telefone e caminhou rapidamente até a sala de jogos. Ao abrir a porta, um grito horrorizado escapou de sua boca. 

Quatro corpos jaziam no chão, rostos congelados em expressões de puro terror. Olhos arregalados, bocas abertas em gritos silenciosos, como se, naqueles últimos instantes, eles tivessem encontrado algo além do compreensível, algo que sequer a morte os libertaria. Naquele tabuleiro amaldiçoado, quatro vidas agora compartilhavam a infelicidade eterna com algo que jamais deveria ter sido perturbado. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

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5 Minutos

Tenho que acordar todos os dias às 7h da manhã. Mas levantar cedo nunca foi meu forte. Para que eu consiga, de fato, despertar até o horário…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Tenho que acordar todos os dias às 7h da manhã. Mas levantar cedo nunca foi meu forte. Para que eu consiga, de fato, despertar até o horário em que devo sair da cama, programo meu celular para despertar de 5 em 5 minutos. Ele começa às 5h e termina às 7h05, quando já estou 5 minutos atrasada.

Minha mãe sempre briga comigo porque acha que isso é coisa de maluco. Mas faço isso há tanto tempo que, se programar o alarme apenas uma vez, tenho certeza de que nem o ouço. Por isso, meus pais sempre reclamam: “Fica um barulho chato de 5 em 5 minutos até que você resolva desligar”, blá, blá, blá. Até alguns vizinhos já vieram reclamar, mas tente alguma vez, dá super certo!

Uma amiga da faculdade duvida da minha teoria. Mas é tão certa quanto um mais um é igual a dois. Para provar a ela, propus um desafio. Na sexta-feira, às 8h, teremos prova de Cálculo, mas na véspera irei a uma balada com meu namorado e devo retornar por volta das 3h. Chegarei no horário e sem sono!

Primeira parte do desafio cumprida. Bebi um pouco a mais, confesso. Mas é só tomar uma ducha rápida e dormir. Celular programado — em poucas horas, provarei que tenho razão no meu método.

"BIP BIP BIP!"

— De primeira! Dessa vez, acordei no primeiro alarme, mal posso acreditar! E ainda por cima, sem sono; vou até desativar o próximo... PUTA QUE PARIU!

Não poderia ser. Não poderia! Justo hoje! Como eu não ouvi? Eu sempre ouço! Transtornada, meus pensamentos não paravam. Já eram 8 HORAS! Nunca isso havia me acontecido. Vesti a primeira roupa que encontrei, coloquei meus chinelos mesmo, escovei os dentes, puxei a mochila e saí correndo de casa.

Cheguei na porta da sala de aula faltando 5 minutos para as 9h. Perdi a prova.

— Perdeu a aposta! — Minha amiga passou por mim com tom de deboche. Ignorei e entrei para não perder a aula seguinte.

— Cibele! Cibele!

Ouvi chamarem meu nome ao longe, mas foi só quando me sacudiram que despertei.

— Julia! O que foi?

— O que foi pergunto eu. Sua teoria literalmente caiu por terra. Você perdeu a prova e dormiu em todas as outras aulas.

Olhei para meu celular: eram 12h05. Levantei assustada.

— Não pode ser!

— Claro que pode! Só você para acreditar que abusar da função soneca é algo que realmente funciona!

Estava tão perplexa que o sarcasmo da minha amiga nem me afetou. Eu já havia feito a mesma coisa por diversas vezes, e sempre funcionou.

Com o passar dos dias, não conseguia mais compreender o que de fato estava acontecendo. Mesmo acordada, bastava me dar um leve sono para que horas se passassem. Mas sempre o número 5 estava presente. Às vezes não me dava conta de que havia adormecido; olhava para meu celular, e o relógio parecia ter enlouquecido. Até que se passaram 5 dias, 5 semanas...

O tempo escapava de mim como se eu vivesse em um eterno e maldito modo soneca. Um bocejo que fosse era o suficiente para o ativar. Troquei de celular, tentei relógio, despertador analógico, até mesmo não manter mais nada perto de mim. Sem sucesso.

Há 5 minutos saí do consultório médico. Tenho algum tipo de problema que ainda está sendo investigado. A previsão é que resultados satisfatórios sejam encontrados em torno de 5 anos. Hoje desperto há exatamente 5 dias para que se completassem os 5 anos previstos para algum progresso no tratamento de minha enfermidade. Mas despertei apenas a tempo de ver que desligavam os aparelhos que me mantinham viva.

— Hora da morte: 5h55.

"Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiii..."

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

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Abram a porta

Trabalhar era meu refúgio. | Eu via pessoas e conversava. | Me distraia, | Sorria... | Mas o mundo parou, | Silenciou | E diante de tanto horror, | Se trancou…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Trabalhar era meu refúgio.
Eu via pessoas e conversava.
Me distraia, 
Sorria...

Mas o mundo parou,
Silenciou
E diante de tanto horror,
Se trancou.

Mas o que eu faria
Ali sozinha,
Com o que mais temia:
A velha da minha tia.

Há tempos acamada,
Face que me aterrorizava
Voz cavernosa,
Chorosa e pegajosa.

Presa nesse pesadelo de vida,
Acompanhando pela Tv
Tantas vidas perdidas
Sem ao menos uma despedida.

Sem trabalhar,
Tendo que dela cuidar,
Lamentava ensandecida.

Enfim a epifania!
Uma vida moribunda
Pela minha,
Pela sua.

O Diabo deveria aceitar
Ficar com ela e nos salvar
Precisamos abrir as portas.

Tal qual não foi minha surpresa,
Quando no dia seguinte,
Sentada à mesa,
Minha tia estava a fumar?

Por um golpe do destino,
Seu fantasma agora era inquilino
Do que deveria ser meu lar.

O inferno estava lotado.
Não houve barganha,
Nenhum trato.

E até que o mundo padeça
Ou se recupere, não tenho certeza
Pode ser que eu enlouqueça
E esta vida passe a aceitar.

Enquanto isso não acontece
Ela está aqui a me torturar
Uma alma que, por muito tempo, esteve calada,
Agora me despeja toda sua raiva.

Sem ter para onde ir,
Esperando a porta abrir
Inalo fumaça de um fantasma.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

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