Anotação

Preciso ser rápido! Acabo de ter um sonho, daqueles… E bem sei que, por ser um sonho, a tendência é não me lembrar de mais nada daqui pra frente…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Preciso ser rápido! Acabo de ter um sonho, daqueles… E bem sei que, por ser um sonho, a tendência é não me lembrar de mais nada daqui pra frente, daqui a algumas horas. Por isso, acho inadiável anotar aqui mais uma das experiências inquietantes que venho tendo no castelo… 

Na noite anterior, antes de me deitar, nada de mais me sobressaltou. Desde aquela “festividade laranja” — quando observei, incrédulo, junto a Ameritt, o esvoaçar de abóboras pelo espaço do castelo — estou ainda mais “seguro”... acostumado às diferentes surpresas que o ambiente aqui venha me apresentar. Quanto muito, se bem me lembro, somente fui agitado pela recorrente tensão vinda dos corredores, dessa aparente, sensível suspeita de que algo sempre ronda e parece colocar-se por detrás da porta, como se para ouvir ou ter certeza de minha presença… 

Para não perder o fio da reflexão, escreverei agora sobre este sonho, essa coisa inédita e aterradora que me aconteceu… 

***

Estava eu numa paisagem bucólica, algo campestre — verdadeiro contraponto às paredes e ângulos retos de uma cidade ou mesmo da frieza obscura existente aqui no Castelo. 

Sozinho, sem sinal algum de outra presença que não a minha, via-me naquela sensação única de estar e não estar em posse dos meus voluntários movimentos. Olhando para os lados, desejava mesmo intentar saber até onde iam os limites da planície observável; quando dava por mim, lá estava, saltando como jamais poderia na realidade, quase como se me teletransportasse… 

O sonho parecia comum, daqueles que, quando menos esperasse, me despertaria e fugiria, para sempre, da lembrança. Porém, o que se seguiu foi o completo oposto. 

Diante de mim, logo após ter terminado aquele percurso mágico, instantâneo, deparei-me com uma natureza diferente: flores e ramos de uma vegetação densa, de cor arroxeada, tomavam conta do horizonte à frente e da minha vista. Aquilo não tinha fim; era de uma amplidão desconcertante e visualmente desproporcional ao vazio que eu havia percorrido até então. 

Sem poder ignorar a estranha atração da paisagem, pus-me logo a caminho. Lembro de ter chegado com a mesma rapidez aos limites daquele roxo jardim. 

As plantas, ali (quando pude confirmar que eram mesmo de natureza vegetal), tinham altura considerável, e, quanto mais mergulhava em direção ao centro da peculiar paisagem, mais eu desaparecia, percebendo claramente que a saída de tal labirinto se tornava cada vez mais difícil. 

Nesse momento do sonho, eu já imaginava ter o poder de me retirar dele, assim como sempre procedo em minhas horas de sono. No entanto, deu-se o contrário: completamente consciente, podendo até me dizer num estado súbito de vigília, vi-me como nunca antes em pleno poder de meus sentidos naquela vegetação — estando, também, plenamente ciente de que estava sonhando. 

Não posso dizer com absoluta certeza que meus gritos tenham ecoado pelas paredes do Castelo, no momento em que gritei desesperadamente naquele sonho… Caso alguém tenha passado pelo lado de fora do meu cômodo ou mesmo tenha parado por um tempo lá embaixo, pelo jardim, talvez sim… isso é algo que não tenho mesmo como saber. 

Motivo houve de tamanho susto.  

Convictamente consciente de mim, do meu corpo e do risco que sentia estar correndo, ver aquele chão tremendo, como se fosse abrir sob meus pés, e aquelas mãos enormes, titânicas, se erguerem no horizonte que meus olhos ainda podiam enxergar, fez com que eu me colocasse, como nunca antes, no lugar de um inexpressivo inseto... de um piolho, cujo medo e desespero mostram-se semelhantes ao humano quando em presença de um desconhecido ser maior do que nós. 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Um convite especial

Voltei a me encontrar com Ameritt, a convite dela e por motivos que ela mesma garantiu me mostrar. Estava em meu quarto, ocupado com a leitura e busca…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Voltei a me encontrar com Ameritt, a convite dela e por motivos que ela mesma garantiu me mostrar. Estava em meu quarto, ocupado com a leitura e busca por inspirações (as exigências de escrita não param!), quando percebi o sinal que ela enviou. Na beirada de minha janela — onde o que se vê não passa de um horizonte quieto e quase vazio, bordejado de mata —, seu curioso besouro batia as asas, fazendo um barulho que prontamente me tirou a concentração… 

De modo apressado e curioso, larguei o livro que folheava e me pus na direção da janela; chegando lá, o prometido: Ameritt, com toda sua peculiar maneira, me exibia uma abóbora, uma imensa abóbora sobre sua cabeça. Chegando a segurar um riso, olhei para ela e acenei, garantindo com isso que iria acompanhá-la, como havia prometido em nosso último encontro. 

Qual não foi a estranheza de me ver seguindo um pequeno inseto, aparentemente ciente de sua missão, me guiando pelas descidas do castelo e quase me obrigando a pedir que esperasse… Sujeitei-me àquilo com a aceitação já típica das experiências tidas aqui. 

Chegando ao pórtico de entrada do casarão, diante do jardim amplo e tomado de plantas, outra surpresa. De tamanhos variados e até maiores do que a abóbora exibida sobre a cabeça de Ameritt, o espaço estava tomado por elas, com uma iluminação que só poderia ser feita por algum artefato no interior de suas rotundas massas. Aquela visão era um espetáculo, como minha imobilidade e estupefação puderam confirmar… 

Ultrapassei aquele labirinto de abóboras enquanto tentava não perder a visão do besouro de Ameritt. Por um minuto, lembro que sumira de vez da minha perspectiva aquele apressado inseto. Estando já anoitecendo, tudo o que pude fazer foi tentar localizar em meio ao brilho laranja dos legumes (ou frutas?) o ponto preto e vacilante do alado bichinho. Pensando mesmo em desistir da perseguição, estava a ponto de gritar para minha anfitriã, avisando de minha situação, quando me dei conta do ridículo: eu bem sabia onde ela morava, vivia… 

*

Ameritt me recebeu com a simpatia de sempre. Servindo-me pratos, doces, receitas que eu não fazia ideia se deveria ou não simplesmente aceitar, fui me dar conta de seus sabores quando já tinha repetido a porção de três ou quatro refeições... 

A percepção de estar daquela maneira, sentado junto a ela numa sala relativamente escura e cercado de objetos que meus olhos não conseguiam captar, me deixou levemente preocupado. Não que eu suspeitasse das intenções de Ameritt, até então uma queridíssima descoberta, gentilmente aberta para minhas perguntas e respostas; acontece que, da forma com que eu “automaticamente” cheguei ao seu recinto, sentindo-me no mínimo tomado por alguma estranheza, naquele momento minhas primeiras impressões de dúvida e até receio voltaram à tona. 

Eu ainda não sabia nada do que se escondia por trás daquela fortaleza de pedras, a verdadeira face do que governava os acontecimentos ali... Pronto para me levantar e pedir para ir embora (confesso que certo pavor ia me preenchendo, ao passo que a satisfação pela comida desaparecia aos poucos), Ameritt deu a volta na mesa e pareceu adivinhar minha apreensão. 

Pedindo-me “calma”, fui sorvido por sua voz lenta e acolhedora — de certa maneira, doce como os quitutes que eu provara. Sem enxergar seus olhos, que eu já havia notado serem de um brilho enigmático e atraente, tudo o que pude prever era minha total integridade sob os braços daquela que me recebera em sua sala, estando ali à mercê do que suas mãos pretendiam ou não me fazer... 

*

— Conte-me, Wallacebesin... O que faz aqui no Castelo?... 

Tudo o que lembro, tudo o que me vem à mente ao recordar essa pergunta de Ameritt, gira em volta de minha pertença ao Castelo, desde minha chegada até a súbita tensão ao me servir dos pratos misteriosos daquela anfitriã... 

Comecei falando de meus textos, meus poemas e sonetos, que volta e meia eram instigados a serem escritos por conta da atmosfera do lugar. Depois, falei dos outros habitantes do Castelo, pessoas que eu via, mas com quem raramente trocava alguma relação (exceto os comentários deixados como notas em seus originais escritos). Não pude contornar o assunto do Baile, aquela dança misteriosa com a também obscura dama que me acompanhara na noite... Até o episódio do ataque, aquela provável ocasião ainda em xeque na minha cabeça... 

— Tudo isso acontecendo em menos de um ano, Wallacebesin? 

Um ano?! Quase um ano que tudo aquilo havia ocupado de minha jornada! O choque com aquela pergunta foi como um puxão para a realidade. Jamais eu havia me dado conta de que, ao fazer parte daquele ambiente de experimentação artística e fenômenos extraordinários, também o calendário era sujeito a seus insondáveis efeitos... 

Talvez eu tenha desmaiado, ficado fora de mim por alguns segundos, enquanto tentava processar aquela insuspeitada informação trazida por Ameritt. Ela própria (se minha memória não me prega alguma peça neste momento em que escrevo) — estou certo de que tenha me envolvido com seus braços e me “trazido de volta”, usando de algum artifício, com toda a certeza, de sua lavra. 

Erguendo-me da cadeira, guardo uma imagem de vê-la me guiando em direção à janela de sua humilde e misteriosa sala. Ali, com o céu completamente aberto e limpo, ela me pediu que olhasse, aceitasse os fatos (que os acontecimentos anteriores, por mais absurdos que fossem, se explicariam) e que não duvidasse, a partir de agora, do que minha visão deparava... 

— Quase um ano de sua estadia aqui, Wallacebesin... e esta é a primeira vez que vê isso... 

Isso que ela indicava, com toda a calma do mundo: a abóbada celeste, naquela noite inquietante, sendo visitada por abóboras flutuantes, decorando o céu ao redor do Castelo de um laranja espectral... 

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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Exploração

Pela primeira vez, em muitos dias, resolvi caminhar pelo ambiente exterior do castelo. Estranhamente animado, de alguma forma seguro após...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Pela primeira vez, em muitos dias, resolvi caminhar pelo ambiente exterior do castelo. Estranhamente animado, de alguma forma seguro após me deter na leitura e refletir sobre os escritos que chegam à minha mão (oriundos de quem me informa, involuntariamente, acerca do ambiente lá fora), me fiz levantar e partir desabalado pelas escadas do recinto.  

Também penso que não tenho muito com o que me preocupar. De acordo com minhas próprias conclusões — e já tendo passado por experiências suprafantásticas aqui —, o simples fato de ser recebido de portas abertas, e sendo dispostas para mim toda sorte de atmosfera e meios para dar vazão ao meu estro criador, devo interpretar como convites para uma venturosa exploração… 

Sobre aquele ainda marcante episódio fantasmagórico, em que me vi envolto nos braços de uma figura quase espectral, devo assumir que não me percebo mais completamente refém de algum sintoma… Pelo contrário, passado um longo período desde aquele ocorrido, parece até que fui vítima de algum delírio, alguma febre suscitada por demais imaginar o que se passa por aqui. É como se tivesse sonhado: ainda com memórias do acontecido, mas com dificuldades para expressar o fato… Se aquela mulher foi ou não, de fato, uma criação da minha mente, só me resta esperar… 

Agora, o que me chamou bastante atenção durante essa minha fuga do lugar-comum, e que não posso negar que tenha seu pé na realidade, foi aquele capcioso silêncio… Melhor dizendo (para mais objetivamente me referir ao testemunho e não enganar meus próprios sentidos), notei uma quietude não observada antes, ao passar em frente a algumas salas cujos ocupantes eu já havia visto. Estranhei, pois considerava ali, atrás daquelas portas, a razão de tantos poemas, contos e outras criações que brotam e dão vida a esse castelo. Passando diante daqueles cômodos (que certamente serviam à intimidade dessas mentes criadoras), logo compreendi suas ausências, um vazio preenchido, agora, unicamente por suas obras, simbolicamente deixadas como lembranças de sua visita aqui… 

Ameritt… Esse o nome daquela simpática senhora. Descendo as escadas do castelo, contornando o jardim que, da minha janela, eu sempre perscrutava com certo receio, apreensivo de ver algo inaudito, topei com ela. De costas para a parede, diante do que parecia alguma porta de acesso para algum lugar, tinha em suas mãos um besouro…  

Estranho amigo. Vendo-me prender o olhar nela, pareceu proposital seu gesto de esticar os braços e fazer aquele inseto ir e vir, como se fosse domesticado. Achando-me talvez interessado em sua peça, ofereceu-me as mãos, algo que fiz naturalmente — por certo que depois de considerá-la alguém sem suspeitas. 

Pois Ameritt, até então uma quieta senhora, eu já havia visto em outras ocasiões. Nas minhas andanças pelos corredores; saindo do quarto e indo em direção à sala principal; nas visitas à biblioteca, onde muitos dos textos são deixados… Via sempre a presença dela, aqui e ali fazendo um serviço de caseira, como o de alguém responsável pela organização do castelo — que, devo confessar, está sempre impecável, limpo e benquisto para qualquer dos sentidos. 

Ainda que “deslizando” por ambientes pouco ou mais escuros, sua sombra nunca foi a de alguém devidamente ameaçadora, mas a de uma mulher reservada, que, desde minha chegada aqui, já tinha por potencial relação. 

Aquele momento em que deixei seu besourinho subir em meus braços, começando a comichar e dar a sensação de algo risível, pareceu-me então uma prova de minhas suspeitas. Seu sorriso aberto, a luz alegre emanando de seus belos olhos — um anúncio de exuberante jovialidade, ainda existente —, aquele cruzar de braços como de quem convida para uma conversação… e então meu nome, saído de sua boca: 

Wallacebesin… 

Minha surpresa com aquelas palavras (de onde ela sabia meu nome, com tanta segurança?) não foi maior do que a agradável sensação de parecer chamado de benzinho, vocativo tão macio e saudoso de minha terra…  

Trocadas impressões, palpites do clima, gostos pessoais de cada um, logo nos descobrimos partilhar do amor natural, essa espécie de apreço pela fugacidade sensível da vida, a adoração das coisas inapreensíveis pelo tempo. Nossa conversa, como a de gente há muito conhecida, sem se preocupar com passado ou futuro, receios ou intenções, tomou parte tamanha daquela minha fuga, que mal percebia ter escurecido o céu ao meu redor. Do recanto em que nos via, apenas a parede se destacava, já iluminada pela lua sempre imperiosa da paisagem… 

Ensaiando uma despedida, ao tocar gentilmente nas mãos de minha companheira de assunto, fui surpreendido por seu convite: queria saber se não aceitava uma refeição em suas dependências — escondida por aquela porta, atrás de sua forma esguia e acolhedora… 

Sem querer parecer desconfiado, preferindo manter as impressões de alguém realmente admirado por descobrir uma parceira de conversa e, por que não, amiga, disse-lhe que ficava para uma próxima, tendo agora de me recolher para, sob um pequeno impulso, tentar terminar de escrever uma composição… 

Assim, então, foi passado esse meu pequeno deslocamento: curto em extensão, enorme de surpresa. O “até mais” dito por mim para Ameritt, estou convicto, foi recebido como promessa. Tenho agora a esperança de, por meio dessa gentil senhora, descobrir as minúcias desse lugar, mesmo suas origens… Da próxima vez, caso a encontre, não recusarei igual convite. Se temo algo, apenas é a existência de não somente besouros entre seus amigos animais… 

O carácter nada intimidador, aprazível daquela senhora, mostra-me também o aspecto cada vez mais determinante desse castelo, a confirmação de que tudo tende a ser, quase sempre, bastante diferente do imaginado — devendo ser, para tal descobrimento, explorado… 

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa
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Dúvidas

Desde o fatídico dia… ou melhor dizendo, desde a fatídica noite, aquela em que fui atacado, envolvido pela estranha e irrecusável aproximação da…

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Desde o fatídico dia… ou melhor dizendo, desde a fatídica noite, aquela em que fui atacado, envolvido pela estranha e irrecusável aproximação da misteriosa vampira, me vejo recluso, incapaz de mover um pé sem que duvide das minhas forças, do meu livre-arbítrio que, suponho, fora totalmente sujeito, desde então, à influência daquela mulher e sua força…

Nada de muito grave aconteceu fisicamente comigo, desde então; porém, sabendo ter sido “corrompido”, inoculado em mim algum veneno que, se não mortal, pelo menos indicador parece de que não sou mais o mesmo, sinto a necessidade de me privar de movimentos, de sair pelo Castelo e, quem sabe, me deparar com “ameaças” afins…

Pois certamente que aquele ataque, na forma de uma desconcertante mulher, não deve ter sido uma exclusiva demonstração do ambiente misterioso com que me deparo aqui…

Há poucos dias, revirando os papéis que abundam pelas mesas do lugar (a escrita compartilhada de outros convivas do Castelo), li coisas que me deixaram profundamente preocupado. A primeira e mais inquietante descoberta (será um fato?) é a presença, segundo alguns, de uma vila chamada “Séttimor”. Não que a existência de lugares vizinhos a esse ambiente seja algo excepcional; antes de chegar aqui, bem lembro, avistei casas, espécies de cabanas e alguns moradores que, ao que tudo indicava, nada tinham de anormais; porém, essa tal vila “Séttimor”, nos textos com os quais tive contato, era descrita como lar de pessoas sem rosto(!), de pessoas que, sem possuírem expressão facial, demonstravam, inquietantemente, comportamento benigno…

Qual não foi minha surpresa ao parar com essa leitura e, numa pequena reflexão, me perguntar se aquele povoado que avistei ao me aproximar do Castelo, em minha chegada aqui, não era esse descoberto e discutido em uma das crônicas…

Por certo que os outros frequentadores desse recinto sabem mais do que eu… A pergunta é se, estando aqui, estou sujeito aos mesmos fenômenos que essas pessoas já devem ter visto ou presenciado, se não como protagonistas de algo mais obscuro, além de meu entendimento, pelo menos como coadjuvantes de alguma ação — até mesmo sofrido aquilo que eu, completamente rendido, testemunhei e do qual fui alvo, agora sem saber das futuras consequências… 

Como lidar com tal testemunho, tal possibilidade de realidade fantástica ao redor desse local onde atualmente habito e que, comprovadamente, está aberto à visitação de outras enigmáticas vidas? Que segurança tenho de me manter vivo, dono de minhas vontades e sonhos, estando rodeado por forças muito além da simples compreensão natural? Mesmo sendo elas, segundo as provas lidas por mim, ainda distantes das paredes do meu quarto — e, assim espero, dos muros do Castelo —, o que já experienciei por conta própria aqui dentro (o Baile, o ataque) há muito que já me dotou da certeza de que aquele eu inicialmente chegado aqui, com vistas apenas a fazer parte de uma sociedade de práticas artísticas, não é mais o mesmo…

Texto publicado na 8ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de agosto de 2024. → Ler edição completa
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À Espreita

Aconteceu que minhas dúvidas foram sanadas; meus receios confirmados, em parte… Aquela tensão que me corroía e me deixava em vigília por noites…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Aconteceu que minhas dúvidas foram sanadas; meus receios confirmados, em parte… Aquela tensão que me corroía e me deixava em vigília por noites e noites, após chegado aqui no Castelo, dissipou-se da maneira mais simbólica e carnal que poderia esperar… Chegaria a hora ter de escrever sobre isso.

Inclusive, neste momento em que o faço, já não sei bem se respondo por mim ou por outro eu, outra persona que suspeito haver nascido no ambiente sobrenatural desse lugar…

Ao adentrar no espetacular pórtico que me recebera de portas abertas, com suas dependências acolhedoras e convivas até então, de certa forma, simpáticos (ainda que ariscos, falando mais por meio de suas histórias habilmente desenvolvidas e reveladoras de suas origens do que no tête-à-tête), como já registrado, diversas manifestações estranhas e, devo dizer, fantásticas me fizeram de testemunha — quando não um ator nesses acontecimentos, diretamente envolvido com as singulares pessoas… O último desses foi algo cabal; acima de tudo, definidor do que agora devo classificar esse recinto: infestuoso.

Pois de maneira nada além do natural, voluntária foi com que me vi “vítima” — já nem sei se assim devo me dizer — da manifestação orquestrada por uma agente das sombras desse Castelo. Como se completamente entregue às suas forças, vi-me envolvido e invadido por sua influência, por algo da mais obscura e encantadora categoria…

Estava retornando de uma das minhas caminhadas — após me deter por alguns minutos na vista avassaladora que temos aqui de cima, diretamente para a Lua e o panorama quase que expressionista do horizonte —, quando voltei para o meu quarto. Eu sabia que havia passado sozinho toda a noite (algo estranho de se dizer, mas sincero de minha parte, pois há momentos mais que outros em que nada mesmo parece acercar-se de nós além de nossos pensamentos), sem nenhuma companhia exceto os livros e esboço de ideias para alguma escrita, quando me virava para fechar a porta e dar uma última olhada para o corredor...

(Devo anotar que não duvido de que essas nossas escritas, poemas, contos e crônicas — principalmente essas últimas — passam pelo crivo de alguma leitura mais atenta, de alguém que a faz e, após isso, inteira-se melhor das atitudes e pensamentos dos habitantes do Castelo…)

Ao me deter no final do corredor, foi que a vi… Espectral, longuíssima, numa veste branca iluminada (ao menos parecia branca), coroada pelos raios de luz daquela Lua fantasmagórica no céu lá fora… Os cabelos negros, longuíssimos… (se bem enxergava, do alcance da barra daquele vestido) E seu rosto… fixo, teso, em direção a mim…

Eu escrevera “longuíssimos… quão precisa essa palavra para traduzir o que eu via… Os olhos dela, seu rosto… ainda que impreciso daquela distância, eu percebia me olharem, fixos em mim, numa atração estranhamenteatraente… impossível de me desvencilhar. Quando o mais natural seria entrar abruptamente por aquela porta, me fechar com chave no quarto e apelar (por que não?), por socorro, eu agia como se esperasse a aproximação dela…

Então, segundos, talvez minutos naquela troca de impressões, como se calculássemos nossos próximos movimentos, eu a vi chegar perto de mim. Estranho que minha memória agora não consiga precisar se de fato eu enxergava seus pés ou mesmo uma flutuação dela até onde eu estava…, mas prefiro acreditar que tenha sido, sim, um movimento de alguém de carne e osso — meu ceticismo, até onde eu puder, colocarei à frente de qualquer decisão mais radical, ainda que este Castelo, sem dúvidas, demonstre algo bastante além das manifestações naturais…

E lá estava ela… a poucos metros, depois tão próxima que esbocei um contato — respondido pelo que parecia um sorriso… Um esgar de confiança, de alguém que, certamente, por mais maldosa que fosse, eu não teria como evitar… Fosse minha morte, minha danação prestes a acontecer naquele momento, e eu estaria entregue, completamente à mercê do que quer que seguisse…

E como não?! Pudesse transmitir por palavras aquele enlevo, aquela aura obscura, porém sedutora, enigmática em toda sua forma desinibida diante de meu olhar estarrecido… Minha expressão era de desespero… mas do tipo que já não via saída, então contando com a benesse do tempo para que nada de grave resultasse daquilo, que aquela invasora mostrasse alguma piedade entre seu manifestado poder… 

Suas mãos estenderam-se em direção às minhas… Quando fui agarrá-las, não foi o toque delas que as sentiu, mas meu pescoço! Temi ali por minha vida; senti ali o resultado incontornável de toda essa história de vampiros, do Conde até então figurante… Ela era, com certeza, daquele universo, uma de suas forças intransigentes, surdas a qualquer súplica desesperada, sedenta pelo meu sangue!...

Tudo o que depois lembro de ter acontecido foi sentir o toque daquele aguilhão; devo ter erguido meu pescoço, ansioso para que aquilo acabasse logo, temeroso apenas da dor, de alguma febre demoníaca, do tipo que me fizesse contorcer em ais e angústia por alguma maldição completa, sem chances de escapatória…

Acontece que acordei sem dores. Ainda que carregue as marcas do fatídico encontro (um jogo de camas manchado em rubor), trago comigo ainda mais dúvidas: o que será daqui para frente? Encontrarei de novo essa figura ostentosa, dona de um encantamento misterioso e terrivelmente sedutor? E as consequências daquela mordida… causaram ou causarão em mim algum efeito?

Não sei mesmo o que esperar…

 

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Texto publicado na 7ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de julho de 2024. → Ler edição completa
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Baile das Sombras

Não duvido de mais nada… Deixei de duvidar há bastante tempo, e minha estadia neste Castelo, desde os primeiros momentos em que pisei com os pés aqui…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Não duvido de mais nada… Deixei de duvidar há bastante tempo, e minha estadia neste Castelo, desde os primeiros momentos em que pisei com os pés aqui, me comprova ser totalmente compreensível uma abertura dessas para o mundo-outro, o outro-mundo… whatever

Jamais sabemos o que pode estar nos esperando ao dobrarmos num corredor, ao abrir uma porta… De uma hora para outra, podemos cair num buraco do qual nem tivéramos notícias antes, ou então sermos puxados para algum recanto que também mal imaginávamos poder existir… Isso tudo tenho dado como possível de acontecer desde os últimos acontecimentos…

Finalizei minhas mais recentes anotações ao me deparar com batidas na minha porta… No quarto em que estava (concentrando-me em colocar no papel minhas impressões advindas dos fenômenos ocorridos nesse lugar), só podia pensar ser algum coabitante, outra presença, talvez, decidida a estabelecer contato e, quem sabe, me convidando para alguma conversa — coisa dificilmente vista no ambiente, devo ressaltar, longe de parecer desejada pelos presentes, ainda arredios pela recente chegada…

Aconteceu que não havia ninguém… vivalma alguma, no limiar de meu quarto, para me dizer o que quer fosse. O que eu entrevi ao olhar para os dois lados do corredor foi somente uma carta, quase sob os meus pés, mas chamativa o suficiente para me fazer pensar no porquê da pessoa que a deixara ali não ficar para me entregar em mãos… Situação no mínimo enigmática.

E qual não foi minha reação ao ver o remetente da carta: Drácula! Sim, o próprio, era quem aparentemente assinava... Ao menos, era o que eu não podia duvidar, tendo passado por todas aquelas situações vivenciadas até então, com fumaça nos corredores, presenças semifantasmagóricas no local…

Era um convite, me convocando para um baile no salão principal do Castelo; havia até a indicação de roupa formal para o “evento”, a qual eu encontraria, já à disposição, no armário do meu quarto. Ou seja: pensei estar passando por algo planejado antes mesmo de minha chegada! (em algum filme eu devo ter visto isso: convidados chegando inesperadamente, encontrando-se com outros desconhecidos, todos eles sendo, de uma hora para outra, chamados para igual confraternização… O jeito como isso acabava que não lembro de ser sempre boa coisa).

Enfim… me vesti, da maneira que achava mais confortável (pois, de fato, não sendo muito chegado a festejos, gosto no mínimo de me arrumar de modo que me sinta satisfeito dentro de alguma roupa de ocasião), e dei outra olhada naquele cartão deixado no sopé da porta. Li mais uma vez a parte em que dizia estar programado o fim do baile pontualmente às 3h da manhã… Ora! mais essa! Chegando às sete da noite, o desfecho seria nesse horário da madrugada, que, pelo que eu saiba, tem simbologias fortes e dizem ser o momento de maior ocorrência de fenômenos paranormais… Juro que estava empolgado, mas lá, no fundo, temendo algo do desconhecido

Tudo no mesmo dia, tudo ocorrendo como se eu fizesse parte de algum jogo, fora do meu controle… Minha apreensão era do tamanho da minha curiosidade; ainda que não fossem muito claras as intenções para aquele convite, eu não tinha como não sentir certa “honra”, certa disposição positiva para fazer presença nesse baile que, a meu ver, tinha tudo para ser como eu imaginava: um salão suntuoso, repleto de mesas, lustres enormes, cristais… Mas entre todas essas divagações acerca do que haveria ou não no evento, o que mais me inquietava era saber sobre os outros convidados… Quem estaria lá? Será que outros membros do Castelo? Gente de fora?... Por conta disso, finalizei o trato do meu traje e parti, rumo ao salão principal.

Minha chegada ao salão foi do jeito mais peculiar que podia imaginar. Aproximando-me da majestosa entrada, ela parecia abrir de maneira voluntária, sem força aparente que a manipulasse… E qual não foi minha surpresa ao ver o que acontecia lá dentro: uma centena, quiçá milhares de pessoas (o que se via era uma nuvem de cabeças, de vestimentas e máscaras, impossibilitando meu olhar de enxergar a parede oposta de onde eu estava), a maioria trajada em vestes escuras, de rosto coberto, encarando umas às outras, de maneira que adivinhei casais confabulando entre si, amizades sendo feitas… Em razão do uso solicitado de máscaras, senti-me aliviado, pois, de outro modo, alguém teria certamente visto meu semblante impressionado e, também, assustado diante de toda a pompa…

Enquanto ensaiava uns tímidos passos em direção à mesa mais próxima, onde percebia um recoberto prato de refeições, fui interrompido… Uma mulher, um pouco maior que eu, completamente envolta em sua luxuosa indumentária (tão escura que fazia eu perder a perspectiva de seu corpo, perto de mim), estendia-me uma das mãos… Minha presença ali, que já parecia involuntária, agora estava totalmente ao dispor dos estímulos exteriores; sendo assim, sem demora, tudo o que lembro foi estender meu braço e me deixar guiar por aquela dama — sem saber seu nome, seu rosto, sem um pingo de consciência sobre quem me arrastava agora para o meio do salão…

Vou escrevendo na medida em que me recordo dos últimos acontecimentos no baile; pois, estranhamente, depois de me ver guiado por essa mulher, as imagens que me vêm à memória são de uma completa estranheza (pelo menos, da maneira com que me lembro).

Abrindo espaço entre as pessoas que nos rodeavam — todas de máscara, com taças na mão, misteriosamente encarando-nos dos pés à cabeça, sem esboçar outra reação —, fui percebendo que estava começando a soar uma música, sutilmente chegando de algum canto do salão e ambientando o lugar. Escondendo meu rosto por trás daquela máscara, mas ainda assim receoso de levantar o olhar e me deparar com algo além das minhas capacidades humanas, minha companheira desconhecida subitamente estacou o passo. Arranjando-me uma das minhas mãos ao redor de suas costas, com a outra eu maquinalmente suspendendo uma das mãos dela (recordo neste instante o contato com seus dedos, graciosos e gélidos dedos), nós iniciamos a dança…

Não tendo ideia alguma de onde eu poderia ter aprendido aquilo, simplesmente lembro de conseguir acompanhar minha parceira da noite. Seus leves movimentos de quadril e pernas, no ritmo da música que tocava, eram seguidos dos meus, nada estabanados, todos dando um prosseguimento digno e, diria, primoroso ao ritmo da dança. 

A todo momento, quando nossos olhares pareciam se alinhar, eu tentava observar em meio àquela máscara dourada os olhos de minha enigmática companheira. Rapidamente, sempre que isso eu ansiava, ela baixava o olhar, e logo em seguida me envolvia em sua espiralada dança. Também a música, nesses momentos, parecia conspirar contra a minha vontade de adivinhar a identidade de quem me acompanhava, e sucessivos foram os períodos em que uma agitação tomava conta do salão, impossibilitando de vez qualquer iniciativa de estabelecer contato visual ou vocabular com ela…

A noite foi passada assim, literalmente assim… dançando, girando, contemplando os pares que surgiam ao redor de nós e se abraçavam, repetindo os movimentos de nossa dupla… ninguém, absolutamente ninguém eu pude perceber fazer outra coisa que não fosse dançar, rodopiar naquele salão e contribuir com o brilho de sua máscara dourada para o reflexo quase entorpecedor de luzes e mais luzes…

Tenho a absoluta certeza de que, desde o primeiro minuto em que coloquei os pés dentro daquele baile, nada mais fiz a não ser me ver dominado pela decisão daquela estranha e atraente mulher de me guiar para a dança. Levado como fui por suas mãos — aquele toque que ainda agora sinto roçar em meus braços, preenchendo meu corpo com frígida sensação —, somente lembro de ficarmos juntos, perdidos nas horas em que acontecia o evento e sem nos preocuparmos com mais nada. Nem mesmo a comida, que quase eu descobrira ao adentrar no salão, eu pude saber qual era… Cardápio nenhum passou por meus olhos e boca… Absolutamente nada foi o que eu fiz e descobri — além de me ver capaz de empreender alguns passos de dança, bailando junto de alguém cujo nome não tenho ciência, e me deparar sobre a minha cama, nesse meu quarto do Castelo Drácula (que leva o ilustre nome de quem assinava o convite, mas de quem não tenho lembranças de ter avistado durante a noite), após o que parecia soar como um aviso de que havíamos chegado, talvez, às 3 horas da manhã, horário final da festa…

Texto publicado na 5ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de maio de 2024. → Ler edição completa
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