Sonuras de Áurea Lihran: Seth

Orquídeas negras tecem a ninguém, | Silêncio aveludado no jardim, | Apresso-me temendo vir alguém | Desperto pelo horror do olor carmim;…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Orquídeas negras tecem a ninguém,
Silêncio aveludado no jardim,
Apresso-me temendo vir alguém
Desperto pelo horror do olor carmim;

Perfiz todo o balcedo estéril e vi
A névoa cinerária se achegando,
Tão tácita espargia — eu m’envolvi…
Sua lôbrega humidade circundando;

Desvelo, cinza e triste vilarejo,
Porém, ao meu espanto, flama à vela
E o som d’um tragimorbo realejo…

Vertigem brusca, bagas de Glïzehla
Nas mãos de humana tez, viril demônio,
Semblante tão terrífico em adônio — 
Não temas teu Arcanjo, bel donzela”.

Texto publicado na 7ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de julho de 2024. → Ler edição completa

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Promessa de Solstício

Amado, esta invernia quando vem, | Na tua serenidade apaziguante, | Almejo o aconchego que nos tem | Somente em nosso leito lacrimante;…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Amado, esta invernia quando vem,
Na tua serenidade apaziguante,
Almejo o aconchego que nos tem
Somente em nosso leito lacrimante;

No peito teu deitar-me aquecida
E penso: a eternidade fulgurante
Protege nosso amor e faz da vida
Promessa de um só vínculo constante;

Tu me és tenro perfume de memórias
Em tanto formidáveis, por cuidado,
És lume, amor, p’ra toda a nossa história…

Segredas-me que estás propositado
A ouvir-me parolando as minhas juras,
Zelando, assim, sereno a mi’a candura…
Promete sempre estar, pois, ao meu lado?

Texto publicado na 7ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de julho de 2024. → Ler edição completa

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Mártir

Exangue, sua antiga força agora | Distante está de todo o heroísmo… | Mas vê-se, no bater d’última hora, | Seu corpo combater o derrotismo:…

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Exangue, sua antiga força agora
Distante está de todo o heroísmo…
Mas vê-se, no bater d’última hora,
Seu corpo combater o derrotismo:

Os olhos — duas órbitas pra fora —
Erguidos, qual chorassem, comovidos…
Seus braços, envolvendo toda a glória,
Num gesto de abraçar algo invisível…

A dor de humana ação parece pouca
Perante o rosto altivo, quase indene,
Lavando com seu sangue o turvo chão…

De onde faz-se ouvir, de boca em boca:
Sem dúvida nenhuma dentro dele
Pulsava a cor vermelha da paixão
.

Texto publicado na 7ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de julho de 2024. → Ler edição completa
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Nevoeiro

A névoa densa cobre toda a estrada, | mal se distinguem formas no caminho. | Todas as plantas, todos altos pinhos | se camuflam na vista limitada…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

A névoa densa cobre toda a estrada,
mal se distinguem formas no caminho.
Todas as plantas, todos altos pinhos
se camuflam na vista limitada.

A cada passo, a cerração pesada
as têmporas perfura como espinho.
Vem-me a noção de estar aqui sozinho,
envolto inteiramente pelo Nada.

Emerge em meio à bruma um grande muro:
vê-se um portal a serpejar, escuro,
o fim da névoa negra que transponho…

Ei-lo: o portal que a vida antiga cessa,
o vórtice feral que me arremessa
a outro pesadelo, a outro sonho!

Texto publicado na 7ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de julho de 2024. → Ler edição completa

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Desertum

Sofro com a aptidão dos dedos desconhecidos sobre as cordas de sonoridade grave em busca do acerto da melodia, teu ressoar, próximo a mim, tange…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Sofro com a aptidão dos dedos desconhecidos sobre as cordas de sonoridade grave em busca do acerto da melodia, teu ressoar, próximo a mim, tange simultaneamente às contrações de meu compasso cíclico.

Pulso ao teu vibrar melódico de corda friccionada, e o estímulo percorre através de meus ramos e fibras.

Atravessa meu esconderijo e agride minhas cavidades, lacrimejando os olhos da velha que me possui.

 Tal qual cera derretida ardente; cintilante faísca ritmada em compasso ao meu ritmo regular. 

É-me indiferente, bem sei, pois, distanciado estou, acobertado por detrás da caixa torácica, resguardado posterior às vértebras dorsais. 

Confinado, em constante ofício, atuando, bombeando e irrigando.

somente em mim; músculo estriado cardíaco. 

Tu és livre, ademais orquestrado, amado e guarnecido.

Ermos, somos estranhos, velhos conhecidos.

Texto publicado na 7ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de julho de 2024. → Ler edição completa

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Senda de passos brancos (fragmento)

A longa estrada ao Vale se inicia | na noite descorada — lama e geada. | O primeiro dos cantos acompanha | a névoa fina, o fim da madrugada…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

A longa estrada ao Vale se inicia
na noite descorada — lama e geada.
O primeiro dos cantos acompanha
a névoa fina, o fim da madrugada,
o vento frio, cortante, umedecido.
Rebanhos já despertam pelos campos
rodeando lagos, evitando as sombras
de altos pinheiros feitas pelos postes
antigos e vencidos pelo escuro.
Ao longe, aquele bosque…
E cobrem o caminho tantas árvores,
disformes estas, sempre tão fechadas,
mas elas pouco ocultam, tão somente
galhos partidos, folhas ressecadas
e sonhos esquecidos.

Ainda além da via do Castelo,
cercada por metálicos ruídos,
ergue-se a Catedral, e a sua alvura
reflete em si os raios d'alvorada
em róseos dedos já reavivada.
Os brônzeos sinos soam piamente
pela cidade frígida, vazia,
e ecoa pelas torres uma angústia
de vãs lembranças, de esperanças mortas
há tempos pela vida.
Altíssima entre as nuvens da manhã
a cruz se mostra, mesmo enferrujada.
No tempo antigo, quando foi alçada,
quanto luzia, quanto serenava
o espírito infeliz…!

Texto publicado na 7ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de julho de 2024. → Ler edição completa

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Pesadelo

Desperto numa rústica tapera… | Com passos range a paliçada antiga; | ventos colidem contra a porta, e as vigas | reverberam gemidos de quimera…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Desperto numa rústica tapera… 
Com passos range a paliçada antiga; 
ventos colidem contra a porta, e as vigas 
reverberam gemidos de quimera. 

Ouço pelo ar gelado: os sons da fera 
mais aparentam fúnebres cantigas 
compostas pelas hostes inimigas
de bruxas e xamãs, há muitas eras. 

Contemplo pela mísera ventana 
a mata que contorna esta cabana — 
ao longe aquele vulto apavorante! 

Uma anciã do Volga, a pele nua, 
argêntea como a lucidez da Lua, 
caliginosa, ainda que brilhante!

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Rotineiro

Condenados aos trilhos de ferro, com olhares cansados, | Cabelos bagunçados | Dentre almas sem esperança | Viajando em enganoso momento de bonança…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Condenados aos trilhos de ferro, com olhares cansados,
Cabelos bagunçados
Dentre almas sem esperança
Viajando em enganoso momento de bonança.

Entorpecedor sono que amortece os sentidos
Desejos que se tornam, então, omitidos
Amor que neste chão jaz sepultado
Como produto do próprio resultado

Paixões que nascem e morrem a cada nascer da luz
Aos mais jovens corações seduz
A troca de olhares breves, omissos
Toque que, aqui, se faça inciso

Telas luminosas que entretêm o sentido.
Desprezo, em suma, contido.
Barras frias, corpos amontoados,
A caminho daquilo que foram condenados.

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