Gênesis II

Após ler e discernir melhor sobre a suposta origem do que sou hoje, tomei fôlego e segui adiante em mais um capítulo do livro de capa de dragão…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Após ler e discernir melhor sobre a suposta origem do que sou hoje, tomei fôlego e segui adiante em mais um capítulo do livro de capa de dragão; este capítulo se intitulava “Caim Magnus”. Era mais uma narrativa de Igor Dracul sobre o que acontecera com Vlad após o encontro com o vulto grotesco na alcova.

Caim Magnus

Após os muitos dias e muitas noites em que Vlad Tepes havia estado trancafiado no intento que tivesse boa recuperação, ele se levantara no décimo quarto dia com um vigor como se nunca houvesse ficado acamado e beirando à morte. Ele mandara me chamar através de um dos criados de seu Castelo  e prontamente eu adentrara seu quarto a fim de atender prontamente ao chamado do meu Senhor. Vlad ainda permanecia com a aparência pálida, tal qual um cadáver. O primeiro pedido que ele me fizera era para ajudar a enterrar o corpo de um moribundo que estava escondido dentro do seu guarda-roupas; ele pedira ao criado que fora me chamar no meio da madrugada do dia anterior, para que trouxesse um dos presos turcos que se encontravam na prisão local de guerra, que se localizava dentro do castelo, e fizera do homem sua primeira refeição. O cadáver se encontrava murcho; talvez o homem fosse mais alto ou mais gordo do que o estado ao qual se encontrava no post mortem. Estarrecido, não sabia por onde começar a perguntar ao meu Senhor o que acontecera afinal na noite passada, e ele já presumindo que isso fosse acontecer, não me deu tempo para pensar muito; me pediu para ajudá-lo a enterrar o corpo no terreno ao lado do castelo. Após voltar para o seu quarto, Tepes me entregara em mãos este livro que escrevo (e, antes que alguém — que possa estar lendo — questione, as páginas do capítulo anterior foram adicionadas posteriormente. Note a costura da folha em cor diferente do resto das páginas originais que vieram no miolo deste livro), para que deixasse o registro por escrito sobre o que acontecera na fatídica noite em que ele e Mihnea estiveram na alcova.

O Conde me confessara que, durante os dias em que se encontrava em coma, a criatura que lhe sorvera o sangue e as forças naquela noite, fizera uma espécie de contato mental. A partir deste contato telepático, a criatura tenebrosa contara sua história e o porquê de ter escolhido Vlad para passar tamanha maldição que lhe pertencia adiante. Dos diálogos que Vlad me fizera registrar aqui, iniciarei com o mais marcante:

— Sua alma é minha, e, em troca de poder, você agora é das trevas.

Segundo Tepes, após ter caído ao chão, imediatamente o ser maligno se conectou com sua mente continuando o diálogo:

— És meu filho e Dela. És a ponte entre o esquecimento e o renascimento. Teu sangue clama pelo abismo, e o abismo respondeu.

E sem resposta de Vlad, que se mantinha em silêncio, a fim de manter sua vida e um pouco da sanidade preservada, o monstro então continuava a contar sua saga:

— Após milênios caminhando entre os mortais e vendo os Primevos corromperem minha maldição, enfraquecido pela tristeza e pela sede de um silêncio eterno, me retirei do mundo. Meus últimos seguidores, pertencentes a uma seita esquecida, selaram meu corpo adormecido em um caixão de ébano, cravejado com símbolos sumérios e hebraicos, banhado em prata lunar, e me carregaram pelo deserto e pelas montanhas do Império Turco-Otomano, buscando o local mais distante da luz — a sua terra Natal: A Valáquia. Ali, entre as florestas antigas e as fortalezas de pedra, eles me enterraram em uma cripta sob o solo amaldiçoado, confiando que o mundo me esqueceria…

Vlad, ainda incrédulo com a história que a criatura lhe contava, tentava se manter mentalmente em silêncio, porém o vulto continuava a narrar sua crônica pessoal:

— Séculos se passaram e chegamos ao século XV. O conflito entre o Império Otomano e a resistência valaquiana atingiu níveis épicos. Você, jovem príncipe Vlad Tepes, cruel estrategista e herdeiro de uma linhagem marcada por sangue e pacto, enfrentou o avanço turco com uma brutalidade que faria até os demônios hesitarem. Em uma batalha particularmente sangrenta, milhares morreram sobre a colina onde eu jazia. O sangue dos mortos da batalha penetrou a terra. O solo gritou. E eu despertei.

Tepes gritou mentalmente com o vulto:

— Você está louco!

O espectro continuou a dialogar:

— Você é feito de medo, homem. Mas aprendeu a usá-lo. É morte vestida de carne. E ainda assim… está vivo.

O Conde passa a encarar o vulto com desdém:

— Vivo o bastante para ver os deuses calarem. E você? Que abismo o pariu?

O monstro se dirige a Vlad, ainda sem hostilidade:

— O abismo é meu espelho. Eu fui o primeiro a matar. O primeiro a ser amaldiçoado.

E você… É meu reflexo quebrado.

Vlad, com certo receio, afirma:

— Você é Caim. O mito… a maldição viva.

A criatura sorri com melancolia e responde:

— Não mito. Não lenda. Apenas memória rejeitada. E você, Vlad, é mais do que príncipe. Tem olhos de condenado… Mas sua alma se recusa a morrer.

Vlad, ainda temeroso, responde:

— Já enterrei todos os deuses em que acreditei. Não procuro redenção.

Caim então retruca:

— Nem eu ofereço. Mas vejo em você a mesma fome que Yahweh não soube curar.

Lilith lhe sussurrou, não foi?

Tepes, então surpreso, respondeu:*

— Como sabes desse nome?

O espectro demoníaco interpelou:*

— Porque ela foi minha mestra. E agora, sussurra a você como sussurrou a mim.

Entenda, você não é um homem comum. É o elo perdido… é o filho que o tempo prometeu.

Vlad questiona, seriamente, firme:*

— E o que você quer de mim?

Caim responde:

— Nada. Mas o mundo… o mundo vai desejar seu sangue. E eu? Eu vim apenas ver o que a dor esculpiu em meu nome…

Lilith - A Deusa Negra

Vlad permaneceu em silêncio, como se paralisado por uma visão maior. Por meio do uso de magia, Caim, como testemunha de um tempo anterior ao tempo, mudara o cenário na mente de Tepes.

Com a voz solene, quase que religiosa, o Amaldiçoado disse:

— Antes do Éden. Antes de a terra ser dividida, ela caminhava entre os Deuses. Lilith… filha de Anu, o Senhor dos Céus. Irmã das estrelas, mãe das serpentes, Centelha viva do abismo primordial. Mas Yahweh, o ciumento, quis moldar o mundo à sua imagem. Roubo disfarçado de criação. E aprisionou Lilith em carne… E transformou Deusa em mulher.

A visão se forma na mente de Vlad: Lilith, resplandecente e imortal, envolta em luzes negras, é arrastada ao barro e moldada como esposa. Ela se ergue no Éden ao lado de Adão, mas seus olhos jamais se curvaram.

O espectro grotesco continuara a narrativa:

— Ele a deu a Adão como prêmio. Mas ela não se dobrou. Ela não nasceu da costela. Ela era anterior a ele. E então Lilith disse:

— Não fui feita para me deitar abaixo do pó, nem para que o barro me comande. Sou anterior à tua imagem, Yahweh. Eu me recuso.

Caim tomara para si a crônica e continuara:

— E foi expulsa, expulsa do Éden, da luz, da memória dos homens. Mas, ao cair… ela não quebrou. Ela despertou.

Em seguida, projetada na mente de Tepes, apareceu a imagem de Lilith em exílio, nua sobre a areia escaldante do mundo antes dos homens. Porém, ao invés de definhar, ela se ergueu em fúria. O sangue dos deuses voltou a queimar nela. Os pássaros caíram do céu. As águas se agitaram, a terra se contorceu.

Caim retomara a narrativa:

— Quando o silêncio dos céus tentou esquecê-la, ela gritou. E o grito rasgou o véu entre os mundos.

Em seguida, Tepes teve a visão de Lilith erguendo os braços. Atrás dela, havia um eclipse. A lua sangrou. Sua voz subiu aos céus, amaldiçoando o trono divino.

Lilith interpelou em tom desafiante:

— Ó Yahweh, você que criou o homem do barro e se envaideceu… Um dos seus filhos se voltará contra você, e dele nascerá uma prole que não morrerá. Sede será seu nome e sangue será sua língua. Eles não adorarão sua luz, eles andarão pela noite; minha herança. E lembrarão que eu fui a primeira a dizer não.

A visão de Vlad se quebrara. Caim estava de joelhos, como quem reviveu um trauma antigo. Vlad o encarou em silêncio, olhos arregalados, e afirmou:

— Você é a praga viva, Caim. O cumprimento da maldição.

Caim respondera sussurrando:

— Eu sou a lâmina da promessa, o filho do pó que ousou erguer-se contra o céu. Ela me fez como resposta ao castigo. E agora, Vlad… você é o próximo capítulo.

E então eu percebi que havia adormecido em parte da narrativa de outro capítulo do livro de capa de dragão, e já não sabia distinguir o que fora escrito e o que fora sonhado. Mas em mim havia a certeza de que algo havia despertado: a chama viva primordial de Lilith.


Escrito por:
Thais Gomes

Thais Gomes é apaixonada pelo universo Gótico da Literatura, sua formação é em Letras Português/Espanhol e sua obra mais recente, ainda está sendo produzida, é Contos Vampirescos, uma releitura de muitos personagens do Drácula de Bram Stoker. Inspirada em clássicos como Edgar Allan Poe, Lord Byron, Álvares de Azevedo, e contemporâneos como André Vianco e Eduardo Spör; a autora explora o universo da literatura... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Gênesis I

Segui as noites na companhia de Ameritt, sempre auxiliando em tudo que ela precisasse que fosse feito para abastecer e alimentar os hóspedes do castelo…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Segui as noites na companhia de Ameritt, sempre auxiliando em tudo que ela precisasse que fosse feito para abastecer e alimentar os hóspedes do castelo. A quantidade de alimento — na maior parte das vezes o caldo esverdeado — era sazonal. O caldo vermelho normalmente era preparado em uma panela média, duas vezes ao dia. Certamente, além de mim e do homem de cabelos negros, eu não sabia ao certo quantos mais se alimentavam daquilo, pois tão pouco eu tinha acesso aos outros andares do castelo e não conhecia os outros que habitavam por ali. Por um médio período, que já não sei precisar, minhas únicas funções eram preparar a comida, ler pergaminhos em outros idiomas, entender a fisiologia e os componentes que formavam os insetos servidos no caldo esverdeado. 

Certa vez, antes de ir até a câmara mais isolada do porão do castelo, onde haviam alocado meu caixão, senti uma forte curiosidade em adentrar uma das câmaras que ficavam entre a cozinha-laboratório de Ameritt e minha câmara isolada; algo me instigava a entrar ali. Por duas vezes, antes de ir dormir, pouco antes que chegasse o amanhecer, me vi tentado a abrir o tal aposento, até que, na terceira vez, não resisti e proferi as palavras: “Apertum Loculum”, a fim de tentar abrir a porta local. Para minha grande surpresa, a porta se abriu, e eu me vi sem reação; já não sabia se deveria entrar no local ou fugir dali, intuindo que poderia ser perigoso estar em uma câmara que vivia trancafiada. 

Naquele momento, minha curiosidade havia me vencido, e eu, por fim, adentrei a câmara. Era um cômodo completamente diferente dos que eu já havia tido acesso dentro do castelo; eu estava dentro de uma espécie de biblioteca que reunia diversos pergaminhos e livros, e a dimensão daquela habitação nem se comparava com a biblioteca que havia no navio, nem com a minibiblioteca onde eu estudava latim, grego e a anatomia dos insetos — que era anexa à cozinha-laboratório de Ameritt —, pois era muito maior. 

Dentre os muitos livros que a biblioteca possuía, um em específico, de capa dura na cor cinza escuro, quase preto, com um dragão vermelho como símbolo na capa e com mais de quinhentas páginas, me chamou muita atenção. No canto direito, havia escrito: Genesis. O livro não quis se abrir por vontade própria; tive que mencionar “Apertum Loculum” para conseguir acessá-lo. Assim que a primeira página se abriu, percebi que ali se identificava um mapa; ao lê-lo, consegui reconhecer as regiões com os nomes: Transilvânia, Valáquia e Moldávia. A região da Moldávia parecia ter uma cor diferente das outras duas (hoje sei que as outras duas regiões, junto com mais seis regiões conquistadas no período do Império Romano e Otomano, compreendem a totalidade do mapa da Romênia atual). Eu não era um indivíduo que lia muito no período em que vivi minha vida mortal; começar a ter o hábito da leitura era algo novo para mim. O fato de ser uma aberração, e com isso ter adquirido poderes para absorver rapidamente a leitura, me trouxe uma sensação maior de satisfação por esse novo hábito, confesso, pois antes me faltava paciência e foco. 

À medida que eu saboreava uma a uma as páginas do livro de capa de dragão, parecia que eu lia uma história que me conectava à minha; algo do que eu lia fazia sentido para as minhas origens vampirescas. A parte textual do livro era escrita em primeira pessoa, como se fosse uma espécie de diário, e começava assim: 

 Brasnov, de 1448 a 1476 
O primeiro de nós 

Após a morte de Vlad Tepes, o Príncipe Empalador, em 1476, devido à traição por cobiça ao trono da Valáquia por seu próprio irmão, Radu, eu, Igor Dracul, seu primo, recebi o título de Conde Dracul pelo próprio Vlad em seu leito de morte. Após receber seu anel do dragão como último presente, o que firmava meu pacto de confiança com o Empalador — pacto este que Vlad não tinha confiança em estabelecer com o próprio filho, Mihnea —, uma vez que o filho tinha caráter duvidoso e, além disso, não era iniciado na Ordem do Dragão, como eu e seu pai, Vlad III. 

Além de todos esses fatores, eu era comandante das tropas de Vlad, seu amigo confidente e o único que presenciara e guardara em segredo dois fatos que mais tarde comprovariam a lenda que nomeava Vlad como Conde Drácula, ‘O Demônio da Transilvânia’. 

Vlad e eu pertencíamos à Casa de Basarab (Câmara dos Drăculești) e, devido à escassez de homens vivos na família, fomos os únicos iniciados na Ordem do Dragão que permaneciam vivos. Os povos valaquianos e transilvanos da época disputavam territórios invadidos e tomados pelos otomanos, e muitos homens haviam morrido na guerra. 

Vlad realmente tomou a última decisão de sua vida de forma pensada em seus últimos minutos, após a batalha no mosteiro de Voronet, onde os turcos descobriram que o Empalador e seu exército se escondiam (invadiram em uma manhã de verão para capturar e decapitar o líder que mais havia empalado soldados otomanos e saxões). 

Antes da morte de Tepes, por algum motivo que a maioria da população valaquiana, amigos próximos e familiares não entendiam, Vlad deixou de circular pelas manhãs e inícios de tarde. O Empalador passou a ter hábitos noturnos desde que se mudara para o mosteiro, e somente eu cheguei perto de descobrir o verdadeiro motivo. 

Em uma noite invernal do ano de 1458, Vlad convocou-me, a seu filho Mihnea e a mais dois soldados de sua guarda pessoal para irem a uma grande floresta, abaixo do Monte Cárpatos. Ao chegarmos perto de uma gruta, Tepes pediu a todos os quatro que o acompanhavam que esperassem do lado de fora enquanto ele explorava a alcova sozinho. Passado um tempo, os quatro cavaleiros que o aguardavam ouviram um grito agonizante ecoando da gruta; entreolharam-se no mesmo instante. Assustado, resolvi adentrar o buraco assombrado e, ao invadir o local, logo senti uma presença macabra que vinha de um vulto grotesco, que parecia esvair-se para dentro do chão da gruta, dizendo em uma voz de barítono: 

— Sua alma é minha, e, em troca de poder, você agora é das trevas. 

No mesmo momento em que identifiquei o corpo de Vlad caído ao chão, percebi que Mihnea estava na caverna em estado de choque, sem entender o que havia acontecido ali. Corri até meu senhor imediatamente e verifiquei se ele ainda estava vivo. Os dois soldados entraram na gruta em seguida e ajudaram a socorrer Vlad Tepes. O Empalador ainda vivia, mas estava fraco e pálido; no lado esquerdo do pescoço surgiram duas marcas de onde esvaía sangue. Um dos dedos da mão direita estava queimado e, da parte que o ligava à mão, nascia uma crosta vermelha, ainda com sinais de fumaça no local, como se tivessem tostado um dos dedos de Tepes. 

À medida que os dois soldados se adiantavam para levar o corpo de Vlad para fora da caverna maldita, Mihnea continuava parado na gruta, sem fazer qualquer movimento. 

Enquanto os outros dois cavaleiros ajustavam Tepes em um dos cavalos, percebi a ausência de Mihnea e lembrei que o filho de Vlad permanecia na alcova. Ao avistar o rapaz, ainda perplexo na caverna, o chamei, mas não obtive resposta. Resolvi sacudi-lo aos gritos e, ainda assim, não obtive reação. Então, decidi estapeá-lo, berrando, e, ao despertar do transe com tal violência, o garoto questionou: 

— Lorde Igor, o que aconteceu? 

Em resposta, lhe disse: 

— Nada que devamos lembrar. Vamos embora deste lugar sombrio. Meu senhor, seu pai, precisa de maiores cuidados. 

Ao chegarem aos aposentos do mosteiro com Vlad, os quatro cavaleiros logo propagaram os rumores de que o corpo do Empalador chegara sem vida. Alguns criados suspeitaram que poderia ser algum tipo de peste; outros imaginavam que seu senhor houvesse caído em uma emboscada feita pelos turcos enquanto caçava cervos à noite, mas a verdade somente eu sabia. 

Durante muitos dias e muitas noites, Vlad permaneceu trancafiado em seu quarto. Nos primeiros dias, ficou acamado, pois ainda não havia recuperado parte de suas forças. Sua pele permanecia incolor, e a ferida que cicatrizava em seu dedo queimado agora parecia metal — como se da casca do ferimento surgisse uma capa de cobre. No entanto, a ferida no pescoço permanecia, como se houvessem sido feitos dois pequenos buracos negros, como se o sangue de Tepes estivesse apodrecido ao ser mordido por uma serpente do mal. Vlad já não possuía mais alma. 

Após ler e refletir sobre as palavras escritas por Igor Dracul, lembrei-me da fatídica viagem que fiz naquele navio assombrado até aqui. O que mais me chamou a atenção até agora foi que o tal anel, que parecia ter surgido como uma espécie de herança no dedo necrosado de Vlad Tepes, era o mesmo que o senhor que me guiava e criara portava: um anel de cor avermelhada, parecendo ser de cobre, com uma insígnia de dragão no centro. Seria, o meu senhor, aquele descrito nas palavras do livro de capa de dragão, ou será que Vlad Tepes despertara mais uma vez de algum tipo de torpor e agora nos espreitava e comandava no castelo? De uma coisa eu tinha certeza até então: o senhor que portava o anel e fora meu criador era o atual Drácula, dono do navio e de tudo o mais. 

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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Apertum Loculum

O homem ao qual me assemelhava não pronunciava sequer uma palavra, e também senti que ele não era dali; não me parecia que dividíamos a...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O homem ao qual me assemelhava não pronunciava sequer uma palavra, e também senti que ele não era dali; não me parecia que dividíamos a mesma pátria, não parecia ser um lusitano, mas tampouco eu me assemelhava ao povo da região em que nasci. Meus cabelos eram da cor do cobre e minha pele não curtia o sol, assim como acontecia com a maioria da população local. Sempre me queixava, no verão, da vermelhidão que surgia nas maçãs do meu rosto. Essas queixas foram sumindo com o passar do tempo, já que eu não me expunha mais ao sol com a mesma frequência; minha pele se assemelhava à branquitude arroxeada da pele dos cadáveres. Naquela ocasião, o homem continuava a me ordenar em pensamento, e eu não tinha como recusar suas ordens; tinha que segui-lo. Ao anoitecer, nos retiramos da tumba do cemitério e caminhamos até o Porto da Figueira da Foz, numa velocidade que nenhum mero mortal seria capaz de acompanhar. 

Chegando à localidade, percebi que um grande navio estava atracado no cais. Era um navio diferenciado, nunca havia visto nada semelhante em toda a minha vida; o navio era de uma cor que alternava entre o cinza chumbo e o verde musgo, e nele havia um nome estampado em branco: “Ilona”. O homem de cabelos negros me ordenou que entrasse no navio, e, mesmo temendo ser barrado por estar maltrapilho, como um pedinte da região, nada aconteceu quando cruzei do cais para a entrada do navio. Reparei que os marujos que guardavam o navio eram tão esquisitos quanto eu e a figura do homem de cabelos escuros. No navio, sequer nos comunicávamos verbalmente; as ordens chegavam por pensamentos. No entanto, eu não conseguia decifrar o que era dito pelo homem misterioso e pelos marujos, só pude acompanhar o aceno de cabeça que faziam e a liberação dos espaços que o homem me guiava a acessar junto com ele. 

Cheguei a um compartimento luxuoso do navio, que ficava no segundo andar. O local era grande, forrado em madeira e veludo, e, dentro dessa espécie de quarto, havia três caixões. A maioria dos caixões era ornada com plantas, roseiras vermelhas com muitos espinhos. O homem misterioso pronunciou duas palavras em um idioma antigo, que pelo pouco conhecimento linguístico que eu tinha, me pareceu latim. Então, os três caixões se abriram prontamente após o homem pronunciar as palavras mágicas, e ele ordenou, em pensamento, que eu escolhesse um dos três caixões para passar o turno diurno. Segui minha intuição e me deitei no caixão que estava no meio do quarto. 

Após me deitar, quase que imediatamente, uma poça de terra começou a me cobrir. Tentei fugir, receoso de que aquilo me soterrasse, porém, o homem invadiu minha mente e me intuiu de que aquilo era para o meu próprio bem. Caí em sono profundo logo após a terra me cobrir, deixando apenas meu rosto exposto. Na noite seguinte, despertei renovado, como se tivesse nascido de novo. O homem me convidou mentalmente para um banquete que aconteceria em outro cômodo do navio. Ao chegar ao que imaginei ser uma espécie de sala de jantar, também ornada com veludo vermelho e madeira, percebi que havia panelas e utensílios de jantar nos aguardando. Por um momento, pensei que, se servissem comida comum, eu não teria fome. Quase como se adivinhasse meus pensamentos, um dos serviçais do navio começou a destampar as panelas, e observei que nelas havia uma espécie de caldos avermelhados que banhavam partes que pareciam ser membros de corpos humanos. Apenas em uma única panela, que parecia ser de barro, serviam um caldo verde que parecia banhar todo tipo de espécie de insetos. 

Conosco à mesa estavam o homem de cabelos escuros, um dos marujos, que parecia ser o capitão do navio, e outro marujo de aparência semelhante. Ninguém conversava enquanto éramos servidos por um dos serviçais. Eu e o homem misterioso nos alimentávamos do caldo avermelhado e dos membros humanos, enquanto os outros dois marujos se serviam do caldo verde da panela de barro, recheado de variados insetos. Após a refeição, tentei ir a outras partes do navio para apreciar a vista, mas não por muito tempo. Fui interrompido em meu livre-arbítrio pelas ordens que meu Senhor infiltrava em minha mente, inclusive ordenando-me que me alimentasse novamente na sala de jantar. Ele também me intuiu a conhecer uma espécie de biblioteca e a ler alguns tomos de pergaminhos que me ensinavam a língua que eu ouvira quando ele pronunciou as palavras para abrir meu caixão, possivelmente o latim. Ao dormir, o homem de cabelos negros me acompanhou até o quarto onde estava o caixão em que eu dormira na noite anterior e, desta vez, calmamente, ele pronunciou para que eu entendesse: "Apertum Loculum!". Imediatamente, o caixão do meio se abriu, e eu repeti o mesmo ritual de adormecer com a terra me cobrindo, como no dia anterior. 

Por sete dias (ou sete noites), minha rotina seguiu quase a mesma: duas boas refeições do caldo avermelhado (que agora eu já tinha mais certeza ser composto de sangue humano e de partes de membros de corpos humanos), ler tomos de pergaminhos em línguas diversas, como o latim e o grego, e abrir autonomamente o caixão que escolhi como cama, o qual me revitalizava a cada alvorecer. Na noite do sétimo dia, atracamos em uma espécie de cais, porém de porte reduzido em comparação ao de Porto da Figueira da Foz. Imaginei estar em um local bem distante de Portugal, mas não soube mensurar o quão longe, apenas pelos dias que se passaram. O homem misterioso me intuíra durante toda a viagem a desenvolver novas habilidades, uma delas sendo o conhecimento de novos idiomas. No entanto, ele nunca explicava por que eu precisaria dessas habilidades (exceto a função de abrir meu próprio caixão para garantir meu merecido descanso diário). Ao chegarmos, deparei-me com uma placa que indicava o nome “Constanta”. Apesar de todo o aprendizado em novas línguas, aquele nome não fazia sentido para mim. 

Após desembarcarmos, quatro dos serviçais do navio trouxeram o que identifiquei como o caixão que eu havia escolhido para dormir, além de outro, e os despacharam na carruagem que nos aguardava. Na carruagem, um homem de aparência muito semelhante à dos marujos e serviçais do navio já nos esperava. O homem de cabelos negros mais uma vez verbalizou: “Apertum Loculum!”, e a porta da carruagem se abriu sozinha. Adentramos a carruagem e seguimos pela estrada afora por volta de quatro horas, até que paramos próximo ao que eu havia lido como “Pitești”. Paramos em frente a um grande, sombrio e pomposo castelo. 

Rodeamos o castelo, e o homem de cabelos negros decidiu que entraríamos pelos fundos. Lá havia um portão de ouro envelhecido, ornado pela mesma roseira vermelha com espinhos que adornava o meu caixão e o do homem misterioso. O portão parecia ser feito do mesmo tipo de madeira, e sobre ele pousavam borboletas de marfim. Embora o portão parecesse belo, também emanava um ar sombrio, que combinava com a atmosfera do castelo. Era iluminado apenas por um lampião. Ao adentrar o portão, por ordem mental do meu Senhor, após ele pronunciar a expressão "Apertum Loculum!" e o portão se abrir sozinho, percebi que havia várias entradas que pareciam dar acesso a calabouços. Seguimos por um caminho reto e entramos na última entrada. 

O homem me deixou em um local que parecia ser uma grande cozinha. Após alguns minutos, ele desapareceu, mas não me ordenou nada, e eu me senti à vontade naquele ambiente solitário. 

Minha curiosidade se aguçou ao observar que, ao mesmo tempo que o local parecia uma cozinha, também lembrava um laboratório exótico. Havia ali panelas, artefatos de cozinha, tubos de ensaio, uma tabela na parede descrevendo várias espécies de insetos — muitos deles besouros e afins —, além de muitas ervas penduradas. Logo depois, surgiu pela entrada uma mulher que parecia ser uma anciã, com vestes pretas e vermelhas e um castiçal na mão, para iluminar melhor o ambiente, visto que havia apenas dois castiçais no espaço. Dada a grandeza do local, eles não eram suficientes para iluminá-lo devidamente, caso ela fosse a pessoa designada a trabalhar ali. 

De todo o trajeto, do cemitério em Coimbra até ali, Ameritt foi a única pessoa com quem dialoguei. Não entendia por que o homem e seus serviçais não faziam contato verbal, mas com Ameritt foi diferente. Ela logo entrou na cozinha, se apresentou e perguntou como eu me chamava. Ao me apresentar, ela me apelidou, chamando-me de "Filipe-besin". Além do diálogo que me faltava, o senso de humor, que também já não me restava, veio à tona naquele momento, e imediatamente um sorriso surgiu no meu rosto ao ouvir a forma como a anciã pronunciava "Filipe-besin". 

Em uma rápida conversa, ela me explicou que sua função ali era preparar o alimento de todos os hóspedes e serviçais do castelo. No entanto, assim como no navio, notei que os hóspedes, assim como eu e o homem misterioso, se alimentavam do caldo avermelhado e de membros de corpos humanos. De fato, em um dos calabouços havia uma espécie de câmara frigorífica onde muitos corpos mortais congelados eram armazenados, e Ameritt tinha acesso a esse local. 

Ao longo dos dias, o homem de cabelos negros me ordenou que eu deveria ajudar Ameritt naquele local a preparar o alimento e, além disso, deveria fornecer um pouco do meu próprio sangue à anciã todos os dias, para que ela pudesse misturá-lo ao caldo esverdeado preparado com os variados besouros. E assim seguimos por dias incontáveis. Ameritt também me levou a uma espécie de biblioteca onde guardava os livros que forneciam parte do seu conhecimento para o preparo de comida, de algumas medicações, chás variados, entre outras poções mágicas. Ela também me disse que não era exatamente como eu havia me tornado, mas que todos ali estavam unidos por “sangue”, e que já estava em idade avançada, sem saber até quando conseguiria servir ao nosso Senhor, o homem misterioso de cabelos negros. Por isso, ela precisava passar seus conhecimentos adiante, tendo em vista que garantir o preparo do alimento dos que viviam no castelo era, de fato, uma das coisas mais importantes para todos ali. 

E assim segui com uma nova função e aprendizado junto de minha estimada Ameritt, que tanto me ensinou. 

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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