Criaturas Obscuras, Selo HOR, Escrito por Valesca Afrodite, -Contos Valesca Afrodite Gomes Criaturas Obscuras, Selo HOR, Escrito por Valesca Afrodite, -Contos Valesca Afrodite Gomes

O Velório que Nunca Acaba

Era, sem dúvida, o melhor velório a que eu já tinha ido, não pela comida, mesmo que o bolo de ossos moídos fosse bastante crocante e os brigadeiros…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Era, sem dúvida, o melhor velório a que eu já tinha ido, não pela comida, mesmo que o bolo de ossos moídos fosse bastante crocante e os brigadeiros tivessem aquele sabor único de infância traumática. Não, o encanto, ou melhor, o diabo estava nos detalhes: ninguém ali precisava se preocupar em morrer de novo, mas convenhamos que é um alívio danado quando já se está morto. O salão principal parecia ter sido decorado por um coveiro muito entediado. Balões inflados com pulmões humanos balançavam no teto, emitindo estalos úmidos sempre que se tocavam. As velas, dispostas em fileiras, não derretiam em cera, mas em camadas de pele liquefeita que pingavam sobre toalhas bordadas com crucifixos invertidos. A cada gota que caía, os convidados riam como se presenciassem uma situação muito engraçada.

No centro da sala erguia-se o bolo: três andares de ossos moídos envernizados em glacê amarelado, de onde brotavam velas azuladas. Quando o primeiro pedaço foi cortado, não saiu recheio, mas um murmúrio coletivo, vozes dos mortos pedindo que ninguém os comesse. Os convidados, é claro, devoraram as fatias como crianças famintas. Um detalhe digno de nota: o cheiro era insuportável, mas ninguém parecia se importar. Pelo contrário, havia quem respirasse fundo, como se inalasse um perfume francês. Na vitrola tocava risadas de crianças desaparecidas, era uma trilha sonora que deixava qualquer chá de bebê no chinelo. De tempos em tempos, um dos balões estourava, cuspindo um sopro gelado de ar que, suspeito eu, fosse o último de alguém que não fez nenhuma falta.

Eu me lembrava de ter chegado, mas não lembrava de ter saído em algum momento, aliás, ninguém ali lembrava, éramos todos convidados, e o castelo não permitia que a festa acabasse. No auge da celebração, quando alguém abria a caixa com o coração pulsante, eu ria, ria porque não sabia de quem era aquele coração, mas tinha certeza de que não era o meu, ou talvez fosse, e o castelo apenas o tivesse me emprestado por mais uma rodada. A reunião prosseguiu com brindes em taças cheias de um vinho espesso demais para ser vinho. Um bruxo ao meu lado, com humor mórbido, cochichou:

— É da safra de 1897, o ano em que Drácula foi publicado, dizem que fermentaram com mais do que uvas.

Ri, nervosa, até perceber que algo se movia dentro do líquido. A cada brinde, a cada corte de bolo, eu pensava: “Este é o melhor velório de todos os tempos.” E era mesmo. Onde mais se poderia estar morto, estar vivo, e ainda assim se sentir um convidado de honra?

Foi então que o defunto da noite entrou, ele surgiu do nada, como se tivesse sido cuspido pelo próprio chão do salão. Vestia um terno antiquado, gasto e ligeiramente úmido, como se ainda carregasse a terra da cova em seus ombros. O rosto era pálido, com olheiras bem fundas. Um sorriso exagerado, costurado nos cantos por pontos malfeitos, se abria de orelha a orelha, revelando dentes amarelados e um hálito de formol. Os olhos muito escuros piscavam a todo momento, às vezes vivos, às vezes mortos, refletindo o brilho azulado das velas de pele liquefeita. No peito, uma flor murcha brotava de um alfinete, e a cada movimento seu, caíam pequenos fragmentos de terra, como se a cova o chamasse de volta, mas ele, teimoso, preferisse ficar para mais uma apresentação.

— Bem-vindos ao meu velório, queridos! Boa noite, plateia, ou seria boa morte? Enfim, tanto faz, não é, aqui ninguém sai vivo mesmo.

A plateia ria.

— Deixem-me apresentar, sou o defunto da festa, literalmente. E devo dizer que nunca estive tão animado. Quem diria que morrer era o segredo para finalmente dar uma festa que preste? Vamos aos destaques do cardápio? — Ele falava e apontava para a grande mesa. — O bolo foi feito com ossos moídos, muito crocante, nutritivo e cheio de cálcio. Cada fatia vem com um brinde exclusivo, o sussurro de um morto aleatório. É tipo o brinde do kinder ovo, mas com mais trauma. Já os brigadeiros...ah, esses são especiais. Você morde e, ou sai um verme, ou uma lembrança horrível da sua infância. Eu experimentei três e agora sei que minha mãe realmente preferia meu irmão.

A plateia gargalhava com cada comentário que ele fazia sobre o cardápio.

— A lembrancinha da noite? Uma caixa com um coração ainda pulsando, mas relaxem, ninguém sabe de quem é, mas pode ser seu, pode ser meu. A decoração também merece aplausos, vocês não acham? Velas que derretem como pele liquefeita, e não em cera. Sustentável? Sim, vegano? Nem tanto, mas quem liga, não é?

Mais gargalhadas histéricas.

— Balões feitos de pulmões inflados, se estourarem perto de você, considere-se beijado pelo além. E a música, claro, vem de uma vitrola amaldiçoada que em vez de melodias, toca risadas de crianças desaparecidas, muito mais autêntico que sertanejo universitário, vocês concordam?

E mais gargalhadas histéricas.

— Agora, o ponto alto, temos escritores fantasmas que escrevem melhor mortos do que quando estavam vivos, vampiros bêbados de sangue ralo batizado com água benta, sim, isso mesmo que vocês ouviram, porque sangue fresco já virou mainstream e leitores que entraram no castelo e nunca mais saíram. Ah, e eu, claro, seu anfitrião preferido ou não, que não pode ser expulso, afinal, eu fui enterrado aqui.

A plateia morria de rir.

— E o Castelo, esse grande sacana, adora brincar de mestre de cerimônias, ele tranca as portas, sopra brisas geladas e sempre me lembra: “Mais um ano está chegando, prepare o ritual.” E eu respondo: “Pode vir, Castelo, só não esqueça do open bar.” E o mais incrível é que a festa nunca acaba. A cada vez que você pensa que terminou, alguém novo chega e tudo recomeça. É como um Natal em família, só que divertido.

Mais e mais risadas.

— Por isso eu digo, com toda a certeza de um cadáver satisfeito: Este é o melhor velório que já existiu, porque, afinal, não se pode matar o que já está morto e agora, vamos brindar de novo. — gritou o defunto. — Quem tiver cálice, levante, quem não tiver, pode usar o crânio do vizinho. Moléstia eterna!

A multidão explodiu em aplausos e risadas histéricas, outros levantaram seus cálices e seus crânios. Então, como sempre, a festa recomeçou. A primeira convidada entrou, perplexa, reparando nas decorações bizarras, e todos aplaudiram como se fosse a atração principal e eu, com meu cálice de vinho que tinha gosto de sangue ralo, levantei-me para brindar:

— Um brinde à eternidade da festa, porque não se pode matar o que já está morto.

Todos riram de forma histérica, insana, até que o bolo voltasse a ser cortado e os murmúrios dos mortos se repetissem, como no primeiro dia, pois era, afinal, o melhor velório que nunca terminou.


Escrito por:
Valesca Afrodite

Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Balão festivo, alegra o entardecer! | Refulge níveo e vai no sopro-vento; | Menina que o observa a perceber | Que o escuro vem estranho e nevoento…

Balão festivo, alegra o entardecer!
Refulge níveo e vai no sopro-vento;
Menina que o observa a perceber
Que o escuro vem estranho e nevoento…

É tarde, e labirinta-se a floresta!
Um breu de orvalho e morte foi criado…
Menina amedrontada, que lhe resta:
Voltar por onde lembra ter passado…

Tão fácil decisão, vês? — Entretanto
Que tolo pensamento ela tivera!
A face deformada ao seu espanto!

Medonho ente tão pútrido à sua espera…
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E o olhar de mil… mil jardas… concebera.


Escrito por:
Sahra Melihssa

Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura macabra, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com o belo, o fantástico, o científico e o botânico. » leia mais
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Cântico da Luxúria Noturna

Ó noite sem mácula, mãe da luxúria e do pecado, | abre o teu ventre de trevas sobre meu corpo acorrentado, | pois não há cárcere que baste…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Ó noite sem mácula, mãe da luxúria e do pecado,
abre o teu ventre de trevas sobre meu corpo acorrentado,
pois não há cárcere que baste, não há corrente que contenha
o desejo que em mim nasce e em minha própria dor se banha.

Sou mais que presa: sou riso e sou gozo,
sou vício que arde em um gesto piedoso
da mão que me fere pensando em punir-me,
mas encontra na carne apenas o convite de possuir-me.

Ó caçador, frágil em tua ânsia de domínio,
não percebes que és servo de meu desatino?
Quanto mais tu me prendes, mais livre me torno,
e quanto mais me negas, mais em teu peito retorno.

Na vertigem do êxtase, os grilhões são coroas,
as feridas são flores, e as sombras, pessoas.
De meus lábios escorre um riso soturno,
que faz da agonia um cântico noturno.

Ah! O aço que corta não é espada, é um beijo,
e a mordaça que cala me entrega ao desejo,
cada nó da corda é um caminho secreto
para o altar oculto de um amor inquieto.

E tu, que acreditas deter a minha essência,
aprendes no rito da mais dura ciência
que o prazer é abismo e a dor é vertente,
e que em mim o suplício floresce contente.

Sou vampira, sou chama, sou veneno, sou delírio,
sou templo erguido sobre o meu próprio martírio,
sou carne que arde, sou uma sombra que brilha,
sou gozo que nasce de minha própria partilha.

E quando enfim tombares, rendido aos meus pés,
ouvirás ao fundo belos hinos, sons cruéis,
e em meio ao crepúsculo, rubro e profano,
serei tua amante, teu inferno e teu engano.

Assim é o êxtase: um precipício em chamas,
um véu que devora, um abismo que inflama,
na noite absoluta, sou riso sacrílego e dor,
sou litania profana, sou luxúria e sou terror.


Escrito por:
Cláudio Borba

Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura... » leia mais
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Vem, faça o que desejas me fazer…
Amor, quero sentir bem mais profundo…
Febril saliva, leva-me a tremer…
Tesão vertendo a cada um só segundo…

É assim que gosto: quente e ensandecido!
Colida-o intumescido em meu sorriso
Enquanto almejo o engasgue pervertido,
Perfeita em só perder o meu juízo;

Anseio por sentir-te mais e mais…
Um jogo apenas sob um frio outubro
Secreto e vil prazer: paixões linguais…

Tão rígido, meu bem, és-me um delubro…
E rezo de joelhos: traz orgasmos!
Intenso os teus e meus ardor-espasmos…
A marca de tuas mãos, meu corpo rubro.


Escrito por:
Sahra Melihssa

Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura macabra, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com o belo, o fantástico, o científico e o botânico. » leia mais
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Memórias Afogadas

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Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Este lúgubre castelo com certeza é o lar de muitas histórias, de muitos seres e muitas memórias. São tantos segredos aqui guardados, mas o meu, acredito que seja o mais apaixonado, envolto pelo sangue e pela culpa. Jamais esquecerei a noite mórbida e intensa em que cravei meus dentes em tua pele doce pela primeira vez, soube ali que jamais iria desejar outro alguém e, mesmo assim, parece que te perdi.

Lembro-me bem da primeira vez que te vi passar por uma fenda estranha, como se cortasse o mundo, nossos olhares se tocaram pela primeira vez. Eu te segui pela noite magenta e meu coração não suportou, apaixonando-se perdidamente por cada pedaço de ti, mesmo sem uma única palavra ser pronunciada. Eu não gostaria que tivéssemos um fim, mas como maldita criatura noturna que sou, minha natureza destrutiva precisava frustrar o amor transcendental que nos habitou.

Recosto a nuca na borda da enorme piscina, febril, como se meu corpo nu já não fosse meu, mas parte da água. As cores estonteantes oscilam entre roxo e rosa, tingindo o ar de vertigem, enquanto uma névoa branca desliza sobre o espelho líquido.

Dentro da piscina, observo as estátuas de mármore nuas ao redor. Vejo que elas não são apenas pedra. Seus olhos me seguem, suas bocas se curvam em sorrisos largos, trocando cochichos que ecoam baixos, incompreensíveis. Uma delas me encara com firmeza, parece-se contigo. Elas me veem derramar lágrimas de sangue por ti.

Ela continua a me olhar. A silhueta, os cabelos, as feições e todas as tuas características em um corpo pétreo e marmorizado ainda me encaram. Ela me lembra tanto de você! Do fundo da piscina, pétalas cintilantes sobem dançando silenciosamente. Minha respiração torna-se arrastada enquanto troco olhares com a tua estátua tão perto, tão fria e tão dura quanto nossa separação. Soluço em lágrimas.

Nos cenários de nossas mais fortes memórias de lubricidade, eu me encontro a todo momento desejando retornar no tempo. Sem ti, eu desejo que minha eternidade acabe. Estou em um transe ao flutuar, ouvindo apenas o leve som do movimento aquático. Tentando esquecer as feridas de meu coração morto e as duras memórias do teu amor e da tua paixão que deixei para trás. Estas castigantes lembranças de nosso envolvimento tomam conta de minha mente, fazendo-me lembrar de cada toque, de cada beijo e cada ato carnal que cometemos em nossos corpos tão libidinosamente. Eu desejava ser parte de ti, me unir a ti eternamente em um mesmo corpo como Salmacis e Hermafrodito.

Gostaria de me afogar nestas águas quentes na tentativa de que elas me fizessem esquecer a fúria de meu desejo insaciável por ti e cada lembrança tortuosa que acaricia minha melancólica libido na falta de ti. Eu anseio pela tua presença junto à minha, experienciar a sutileza e o torpor da tua pele, a maciez de teu rosto e o sabor danoso de teus lábios. As lembranças me consomem nestas águas:

Devaneio ao lembrar de como é sentir-te em meu íntimo: a ferocidade de teu toque por entre minhas pernas, sob a cama, fizeste-me liberar sons que antes estavam cativos em minha garganta, gritos abafados em frenesi delirante, ardentes de desejo. O calor da tua boca contra meu íntimo arrancava de mim espasmos, eu completamente incapaz de conter os gemidos que escapavam como súplicas entrecortadas. E tua língua, que me devorava, sem trégua, firme e voraz, roubando cada fragmento do meu controle, dominando-me. Eu me abria em arrepios sob tua fome, e cada investida me fazia implorar, ainda que em silêncio vacilante, por mais! O mundo se desfazia no nosso ritmo frenético e no gosto febril do prazer que nos consumia.

Nestas águas púrpuras observo os reflexos inebriantes das estátuas e permito que minhas lágrimas de sangue se misturem à tua intensidade, enquanto tento esquecer a dor. Mas… é impossível. Minha devoção é tua. Minha devoção às tuas mãos, que tocaram meu corpo com sofreguidão e torpor, conduzindo-me ao ápice dos prazeres lascivos de tua carne ardente. Recordo-me da minha respiração ofegante sobre teu rosto, de teus olhares devassos que devorariam minha alma, se eu ainda a tivesse. Aos poucos, desprendo a nuca da borda da piscina e deixo meu corpo deslizar para o fundo, como se a água me reclamasse.

O que mais eu poderia fazer? Deixei-me levar pelo medo novamente, afundando minha mente em pensamentos abruptos, frutos do meu fatídico apego evitativo. Eu te amo sem razão, sem medida, desde o instante em que nossos olhos se cruzaram sob a lua, com a constelação de Órion ao lado de Sírius e Júpiter. Amei-te profundamente até mesmo antes desses momentos, só nunca tive coragem de proferir as palavras quando ainda havia tempo.

Perder-te dói como se meu coração tivesse, enfim, apodrecido ao relento do tempo que nos separa. Amo-te tanto que nem mesmo estas águas de paixões infames conseguem me preencher. Meu corpo e minha alma, meu coração e minha mente sempre pertencerão a ti. Aqui, nestas águas, afundo-me e perco-me no fundo, como se nelas pudesse dissolver a dor insuportável por te perder.

As lembranças de nossos corpos entrelaçados, à luz trêmula da vela fúcsia, ainda dançam em minha mente e me seduzem sem trégua. Ouço tua voz em meu ouvido, clamando por meu nome, inflamando-se de prazer ao perder-se nos meus gemidos de luxúria. Ainda sinto a pressão de tuas mãos em meus pulsos, prendendo-me a ti, amarrando-me à força de um laço que transcendia o físico. Selamos um feitiço de libido, onde nos aprisionamos mutuamente, enquanto a vela ardia.

Desejo mais do que tudo sentir teu corpo contra o meu e ver teus longos cabelos soltos estirados sobre meu peito enquanto clamo pelo teu beijo devorador que me envenena de eterno prazer. Enquanto estamos distantes, eu não consigo ter olhos para outros lábios e ter uma chama sinuosa de paixão como a nossa em outros corpos depravados.

Desejo tanto que a água finde meu sofrer, esqueci-me do tempo observando o fundo da piscina e a vaga luz violeta que cintila aqui embaixo. O transe se desfez quando algo me puxou de volta: abrupto, revoltoso. Lutei em vão contra aquela força que me arrancava do silêncio líquido.

Quando retornei a mim, encontrei-te à beira da piscina. Não era exatamente você, mas uma figura de mármore, tão semelhante, tão cruel na lembrança. Mãos frias afastaram meus cabelos para trás de minhas orelhas, como tantas vezes fizeste. Lábios pétreos roçaram os meus, duros a princípio, mas logo se desfazendo em um calor febril. Os braços de pedra enlaçaram-se ao redor de minha cintura, colando o corpo marmorizado, ao meu, deixando-me sem ação. Um delírio tomou conta de mim quando as mãos frias desceram, aproximando-se do meu íntimo, e o beijo danoso, inescapável. Nenhum outro corpo poderia ocupar teu lugar, mas no mármore finalmente me afoguei por ti.


Escrito por:
Júlia Trevas

Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
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Por dentro do Castelo no qual vivo
Perdi-me em seus recintos escultóricos:
Envolto em branco mármore, cativo
Por linhas de um amor sem fim, pletórico…

Projeto de algum criador lascivo,
No espaço vi também seu traço eufórico:
De pé, com grossos veios sugestivos,
Não menos do que seis pilares dóricos…

À vista de silente estatuária,
Supus minha presença solitária
Naquele imenso átrio em que adentrei…

Sentindo-me contente e assombrado,
Jurei ter visto eu mesmo mergulhado
Num banho de prazer que ali sonhei…


Escrito por:
Wallace Azambuja

Wallace Azambuja vive em Porto Alegre e estuda Letras na UFRGS. Sua paixão por sonetos é intensa e sua maior produção literária atual está voltada à escrita deste clássico formato poético. Atraído pelo mistério e profundidade da Literatura Gótica, o autor participou do Desafio Sombrio 2023, onde mostrou seu talento para o estilo obscuro e, também... » leia mais
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(Tatutograma)

Velha vontade vigora
veneno visceral, viola.
Vagueio vigiando vidas,
vazias, vulgares, viciosas.

Vejo você vagueando
volúpia volta voando.
Venero vossa virilidade,
vinculo vontade-vulgaridade.

Vejo varão viçoso,
vulcão volátil, vultoso.
Volume viril vicejante,
vulva viscosa, vibrante.


Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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25. Cada um, porém, é tentado pelo seu próprio desejo, sendo por este arrastado e seduzido

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Diário de Rute Fasano

Data incerta - Achei que havíamos conseguido escapar por um momento da lembrança do castelo. Que naquele vilarejo, mesmo que estranho, conseguimos respirar um pouco. Pelo menos por uma noite, só uma, poderíamos nos sentar e assistir algo que não tivesse relação com o castelo. Quase acreditei que teríamos tempo. A peça era sobre nós, era sobre o castelo, cada palavra, cada movimento, cada pensamento como se tivesse sido arrancado dos nossos ossos e costurados com precisão ali naquele maldito palco, com aquele final que parecia fora do roteiro, um tanto improvisado talvez. Quando a peça acabou eu não senti alívio, mas um calafrio subir minhas costas como aqueles que eu sentia no castelo e já faziam parte da minha rotina lá. Quando cobri Mara com o manto para sairmos do teatro, senti olhos nos observarem mais intensamente do que qualquer outros ali.

Roupas escuras e presença quase fantasmagórica, mas havia algo mais, olhos treinados e corpos que sabiam matar e fazer isso com perfeição. Elas não estavam ali para aplaudir, estavam ali por ela, por Mara, que agora estava inteira. E antes que eu ou Mara pudéssemos reagir, fomos cercadas, um golpe seco, um cheiro de ferro e tudo escureceu. Acordei em uma cela de concreto úmido, tubulações vibrantes e luzes mortiças, Mara estava ao meu lado, sentada.

— Elas são da ordem — ela disse quando me viu acordar — Eu fiz parte disso, antes do castelo.

Depois de horas de espera fomos arrastadas até uma sala cheia de símbolos estranhos e um cheiro forte de ozônio. A ordem me olhava com desprezo, quantas mulheres haviam ali? Quinze, vinte? Eu não saberia dizer. Eu ouvi o plano delas, eliminar o elemento estranho, ela é descartável, um peso morto, um risco, então uma delas puxou uma faca e veio até mim, senti a morte chegando, a presença daquela mulher que vinha em minha direção era como a presença mortal, mas Mara se colocou entre nós, com uma fúria igual a de uma fera encurralada ela lutou com as mãos nuas com a motivação de quem já matou mil vezes e poderia matar muitos mais. E a beleza de Mara furiosa era aterradora, essa é a palavra que melhor descreve a sua aparência, com aquela pele de um tom quente, um âmbar escuro, sobrancelhas e olhos escuros muito intensos e ferinos, nariz levemente aquilino e lábios cheios, marcados e cerrados, olhá-la tão de perto, tão real, despertava em mim aquela sensação de quando se vê de frente a um grande felino selvagem, belo e mortal, e não se sabe se o acaricia como um pequeno gato ou se corre sabendo que não irá tão longe. Ela quebrou ossos, rasgou carne e assim que conseguiram contê-la, ela gritou:

— Se matarem ela, morremos as duas.

O silêncio foi total, todas elas olharam para Mara.

— Estamos ligadas — ela disse arfando — por uma magia do castelo, por algo que eu não entendo, mas que é real, se uma de nós morrer a outra morre também.

E contra minha vontade e a vontade da ordem eu entrei num plano que colocaria mais dificuldade em minha vida. A base da ordem, pelo que soube depois, era em um templo abandonado protegido por símbolos e amuletos que escondem a presença delas de outros membros da ordem. O mesmo amuleto foi dado a nós, um fragmento de obsidiana envolto com prata com uma runa estranha. E agora faço parte disso, uma ex-cientista cética amarrada ao destino de uma assassina de uma seita estranha. E o pior de tudo era que parte de mim agora quer saber até onde essa loucura vai. Uma reunião foi convocada, a qual Mara fez questão que eu estivesse presente, pois agora eu fazia parte disso, ela mantinha um olhar firme. A líder da ordem, que se apresentou como irmã Iridia, uma mulher de feições duras e olhos sem emoções, nos conduziu até um salão, com paredes de pedra, cadeiras e mesas grandes de madeira, castiçais com velas na cor magenta e algumas flores vermelhas aqui e ali. As outras mulheres estavam bem posicionadas ao redor dela em silêncio. Todas elas com capuzes baixos paradas como soldados esperando uma ordem, mas que não ocultavam totalmente seus rostos. Eram mulheres de idades e corpos diferentes.

Iridia falou com uma voz clara e calma.

— O castelo está morrendo e quando ele morre, não apenas ele perece, mas morre também aquilo que o sustenta e ele sustenta, todas as histórias que contêm dor e revelação, os livros que contêm vida, e os espíritos que ainda não foram lembrados pelo nome certo. Se ele morrer, o tempo aqui se contorce e leva tudo com ele. Devemos impedir que a antiga ordem faça isso acontecer.

Ela caminhou em círculo, os pés nus tocando as pedras frias daquele templo com uma familiaridade.

— Nossa função, como sempre, é garantir que o ciclo não se complete. Que os que chegam aprendam, que os que resistem escrevam e vocês — ela olhou para nós — estão presas a isso.

— Presas? — Mara sussurrou, como se a palavra tivesse um gosto ruim na boca.

— O castelo não permite que saiam, ainda não — Iridia respondeu — …vocês devem nos ajudar a fazer o castelo sobreviver.

— Mas como? — perguntei sentindo a pergunta me doer a garganta.

— Com tudo o que vocês têm, culpa, ódio, amor, luto, medo, desejo, e também com a matéria sombria presente no castelo.

Mara cruzou os braços, estava inquieta e percebi que ela observava cada membro da ordem com um olhar avaliador. Até que seus olhos pararam em uma delas, uma mulher de postura altiva, ombros largos e maxilar marcado.

— Eu lembro que o propósito da ordem nunca foi interromper o ciclo, e também achei que somente mulheres faziam parte da ordem — ela disse isso sem malícia, mas com a franqueza quase ríspida que era típica dela. — não sabia que tinham começado a aceitar homens agora.

Houve por um momento um silêncio constrangedor, a mulher ergueu o queixo e respondeu sem alterar o seu tom de voz.

— Eu sou uma mulher e a ordem nunca aceita homens.

O olhar de Mara hesitou por um breve momento, talvez de surpresa ou talvez vergonha, não sei ao certo, mas a mulher não esperou que ela se desculpasse ou se consertasse e continuou:

— O que a ordem aceita são mulheres que estão dispostas a sangrar de verdade. Não o gênero imposto, o nome que nós próprias enterramos não importa, mas o nome que escolhemos usar para renascer para a ordem.

Mara murmurou algo que não entendi e seu rosto se contorceu de raiva. Então, depois dessa interrupção Irina retomou:

— A ordem se ramificou e uma parte dela entende que certos ciclos não devem ser encerrados, então se desejam sobreviver, vocês terão de lutar e escrever, mas não basta contar o que viram, vocês precisam contar o que sentem, o que temem. A história só vive se for honesta e o castelo só respira se for alimentado com o que vocês não querem lembrar.

Depois de toda a conversa Iridia disse às outras que estavam liberadas e pediu que eu e Mara esperássemos no salão para poder jantar e depois nos levaria a nossos aposentos para que pudéssemos descansar. Nos sentamos em uma grande mesa com diversas comidas e bebidas, as freiras, pois era o que elas pareciam para mim, caminhavam pelo salão como sombras, descalças, sem fazer barulhos com seus movimentos leves. Diferente de horas antes que estavam vestidas todas de cores escuras, agora vestiam vestidos leves que roçavam nas coxas, deixando escapar vislumbres de pele sob as luzes trêmulas das velas na cor magenta que iluminavam aquele salão. Não havia aquela disciplina que observei antes, aqui agora elas riam entre si, bebiam vinho em longos goles e algumas trocavam beijos demorados, mas discretos, diante de todas, mãos que deslizavam por tecidos frouxos, como se aquele comportamento fosse parte da ordem. Aquele magenta profundo das velas, era uma cor que me lembrava carne, feridas, dor, prazer. Eu observava aquilo no começo incomodada, mas aos poucos me aceitando como parte daquilo. Mara crispava os lábios, seu semblante sério e sua rigidez era um contraste estranho com aquele ambiente e entendi que ela pertencia a um tempo que a ordem não era assim.

— Isso não é devoção — ela murmurou baixo para que só eu a ouvisse. — isso é fraqueza. A ordem é feita de silêncio, lâminas, dor e jejum. E agora o que vejo diante de mim? Uma geração que reza através de beijos e carícias e matam com o que? Perfume de flores venenosas? O propósito da ordem é manter o ciclo e destruir aqueles que o interrompem…

Ela reclamou por bastante tempo e falou mais do que eu já a tinha ouvido falar e com suas queixas eu descobri que a ordem era como uma seita que mantinha o ciclo natural da vida intacto e que destruía tudo e todos que quisessem ultrapassar o ciclo natural, isso incluía Drácula, mas a ordem que víamos agora e que, não por escolha, fazíamos agora parte, queria manter o castelo vivo. Seu olhar endurecido e sua irritação por aquela nova ordem me incomodou mais que a cena diante de nós e me senti um pouco culpada, pois em segredo eu invejava aquelas mulheres, a forma como riam sem medo, como se permitiam tocar e serem tocadas, como se o mundo fosse apenas aquela noite e o único mandamento que seguiam fosse o de se deixar sentir. E eu senti, contra a minha vontade, uma chama lenta se acender dentro de mim. O cheiro do vinho e das peles suadas misturavam-se ao cheiro de ozônio daquele lugar. O som dos sussurros, dos risos contidos e dos lábios encontrando beijos, me faziam recordar Hadassa, minha amante perdida, aquela cuja ausência ainda me doía o peito.

Naquele instante percebi que a sensualidade não vinha apenas dos corpos das freiras, estava em tudo na cor das velas, no templo, nas flores, na comida, no vinho, no ar saturado com cheiro de ozônio, luxúria e morte que me faziam sentir um sabor forte na boca, um sabor que depois de leves movimentos da língua se desfaz e traz com ele pequenas mortes. A sensualidade estava também em mim e ao meu lado, Mara não percebia que o seu desprezo por tudo aquilo não faria mudar nada naquele lugar. E talvez essa fosse a intenção do local, a intenção dessa ordem, nos fazer sentir até doer. Acabamos de comer e fomos levadas por Iridia a um pequeno quarto com colchões improvisados, Iridia nos deixou nos lembrando que no outro dia tínhamos mais a conversar. Me deitei naquele colchão improvisado e tentei encontrar algum descanso, mas o sono fugia de mim. Mara estava deitada em outro colchão ao meu lado ainda desperta e percebi como estava impaciente pela forma que batia os dedos na faca que tinha sobre si, faca essa que não sei onde ela tinha conseguido, ela estava impaciente como se estivesse à espera de um inimigo invisível que precisasse atacar.

Ela se ajeitou no colchão, com os olhos ainda fixos no teto, seu silêncio pesava como de costume, cortante e incômodo como a lâmina que agora carregava consigo. E imagino que cada riso, cada beijo das freiras era um insulto, uma afronta à disciplina que ela tinha. Porém dentro de mim, algo se movimentava, eu via um pecado bem-vindo onde ela via fraqueza e esse contraste me devorava por dentro. E comecei a pensar nas velas que queimavam lentamente, nas freiras que se acariciavam sem pressa, que bebiam sem pudor, que faziam Mara desviar o olhar furiosa, mas eu não conseguia desviar o olhar, meus olhos me traíam e quanto mais eu tentava afastá-los mais eles se voltavam. E o desejo e culpa se confundiam em mim, tanto que fizeram meu peito começar a doer só de imaginar. Virei meu rosto discretamente para Mara, seu perfil duro e impiedoso, mas também belo, mais belo ainda agora em carne e ossos, parecia tão alheia ao que talvez eu estivesse sentindo e pensando, ou talvez soubesse e por isso se mantinha em silêncio. Eu sentia que eu estava cedendo ao abismo, enquanto Mara construía uma muralha entre nós e nada continuava sendo dito, e eu queria dizer algo ou que algo fosse dito, e percebi que o desejo faz doer mais quando não se encontra as palavras certas.

Adormeci sem perceber, como se estivesse sendo engolida pelo abismo que eu já queria ceder, quando abri os olhos já não estava mais no quarto, meu corpo nu aquecido por uma água de cor fúcsia-brilhante, paredes que pareciam como carne viva e acima de mim um teto escuro com flores carmim que pingavam sangue naquela grande piscina com água quente. As freiras estavam lá, mas seus rostos eram véus escuros sem feições, e mesmo assim me olhavam, suas mãos estavam estendidas em minha direção delicadas e suaves e quando tocavam minha pele eram frias como ferro, beijavam-se ao meu redor com seus rostos sem feições, riam baixo e cada riso era como uma lâmina penetrando meus ouvidos. Mara emergiu do centro da piscina, vestida de branco, tecido molhado colado ao corpo, o vestido salpicado com o sangue que pingava do teto, ela não falava, não sorria, apenas me olhava e eu não sabia dizer se aquilo era uma censura ou um convite. Eu tentei ir até ela, mas meus braços e pernas estavam presos por raízes cheias de espinhos que se cravaram em minha carne causando feridas que sangravam demais. As freiras acariciavam minhas feridas com gestos delicados e cada toque trazia dor e êxtase ao mesmo tempo.

Quando finalmente consegui me soltar das raízes e das freiras, cheguei perto de Mara e quando toquei sua pele quente, ela dissolveu em pó e dela surgiu um esqueleto perfeito, como o que eu vi quando Drácula a reconstruiu no palco. O esqueleto sorriu um sorriso insano e se cobriu de sangue, que fez a piscina transbordar e sua água fúcsia ficar em um vermelho vivo. Do fundo ouvi palmas, lentas e pesadas e quando olhei em direção a elas vi Drácula sentado na plateia do meu sonho, sorrindo, como se fosse um crítico que estivesse observando e analisando cada detalhe da peça. Foi nesse instante que acordei com o coração disparado e o corpo suado. Mara dormia no colchão ao meu lado de costas para mim e dentro de mim eu desejava que aquilo fosse apenas um sonho e não um presságio.

Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Valesca Afrodite

Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Meu sexo é uma romã. Exposta. Aberta. Rósea.
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Escrito por:
Clawdia Chauchat

Escritora sensual e erótica. » Instagram da autora
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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A Transcendência do Silêncio

O silêncio é um corpo que respira no escuro, | pele de sombra colada à alma da noite. | Ele pulsa como ferida não dita, | como promessa trancada em lábios de ferro…

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Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

I – O Silêncio

O silêncio é um corpo que respira no escuro,
pele de sombra colada à alma da noite.
Ele pulsa como ferida não dita,
como promessa trancada em lábios de ferro.

Há nele o peso de cem catedrais desertas,
onde cada eco é oração abortada.
O desejo se deita nele, invisível,
como fera à espreita no ventre da escuridão.

Nenhuma palavra se atreve a nascer,
mas os olhos gritam em febre clandestina.
Entre duas bocas suspensas,
o ar é um véu que treme, mas não se rompe.

O silêncio é punhal e é véu,
é cruz e é carne.
Não consola, não acolhe,
apenas incendeia o que tenta ocultar.

A respiração é oração contida,
rosário de gemidos que se negam a existir.
Mas o corpo, traidor da alma,
curva-se ao chamado de sua própria vertigem.

Quem toca o silêncio abre portais,
como quem pisa em solo sagrado profanado.
A quietude é apenas disfarce,
máscara da fúria que quer ser revelada.

O instante é prelúdio,
e o prelúdio já é queda.
Não há inocência no mutismo:
há apenas desejo coagulado.

Quando o silêncio enfim se rompe,
não há volta.
O grito é nascimento e sentença,
e quem o pronuncia já não se pertence.


II – O Sangue

O sangue é a língua do êxtase.
Ele escorre como vinho sacrílego,
rubro sagrado que consagra o instante
em que dor e prazer se entrelaçam.

Cada gota é pacto selado,
palavra gravada em carne viva.
É comunhão obscura
onde dois se tornam um abismo único.

A mordida é rito e coroação,
incisiva coroa feita de dentes e vertigem.
Ela não fere: ela liberta,
abre a porta para o gozo sem nome.

O rubro é banquete dos amantes da noite,
melodia de artérias em festa secreta.
Não há saciedade, apenas mais sede,
e cada sorvo é eternidade roubada.

Vampiros sabem: o sangue é oráculo.
Ele canta segredos nas veias,
ele revela a nudez da alma
no instante em que se mistura ao desejo.

Não há corpo sem ferida.
Não há prazer sem cicatriz.
A dor é oferenda,
e o êxtase, sua colheita.

Quando o rubro desce pela língua,
é mais que carne é universo.
O beijo sangrento é sacramento,
e a eternidade se escreve em veias abertas.

O sangue não mente.
Ele é a assinatura do prazer.
Quem o prova jamais retorna,
pois já pertence ao abismo.


III – A Luxúria

O corpo é templo profanado.
Cada curva, altar; cada sombra, labirinto.
A luxúria dança em sua nave,
chama que devora, mas não se extingue.

O prazer nasce na ruína.
Gemidos quebram muros internos,
suor é chuva que batiza o pecado,
e a carne se faz escritura viva.

O desejo não pede, exige.
Ele ordena como tirano amado,
e o súdito, em delírio,
oferece a própria ruína como trono.

Cada toque é incêndio.
Cada suspiro, queda.
Não há ternura:
há apenas a fome dos que sabem da morte.

O gozo não consola,
ele fere, ele abre, ele consome.
Mas a ferida é cântico,
e o cântico é mais doce que salvação.

A luxúria é caminho sem volta.
Um labirinto sem saída,
onde quem entra nunca retorna
pois aprende a amar a própria perdição.

O corpo não é cárcere:
é catedral em ruínas
onde anjos caídos ainda rezam
em idioma de gemidos.

Luxúria é divindade noturna.
Não julga, não absolve.
Apenas recebe como altar insaciável
todas as oferendas da carne ardente.


IV – A Transcendência

Após o gozo, não há descanso.
Há queda mais funda.
Há voo invertido
de quem toca o inferno para ver o divino.

O êxtase é um dos Deuses sem rosto,
que exige adoração em lágrimas.
Não é amor, não é pecado:
é a fusão febril dos dois.

O coração, crucificado,
pulsa como altar em chamas.
Cada batida é prece e maldição,
cada suspiro, ascensão pelo abismo.

Não há céu depois da vertigem,
apenas outro mergulho.
O prazer é espiral infinita,
onde cada fim já anuncia novo começo.
Quem goza morre.
Quem morre renasce no desejo.
Esta é a lei secreta:
morrer sempre mais para viver sempre mais.

A transcendência não é luz.
É treva que acolhe como mãe,
é sombra que alimenta,
é eternidade que se confunde com delírio.

O corpo exausto despenca,
mas a alma desperta em febre.
Descobre que o abismo é também escada,
que a vertigem é também voo.

O êxtase não se esgota.
Ele recomeça em cada olhar,
em cada silêncio, em cada gota de sangue.
O eterno é isto: morrer e renascer no desejo em silêncio.


Escrito por:
Marcolongo Ricardo

Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
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Amor Etéreo

Dentro de mim reside uma chama acesa, | Habita a obscuridade de meu coração, terreno arenoso. | Ela perpassa meus pensamentos e apazigua meus sofrimentos…

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Dentro de mim reside uma chama acesa,
Habita a obscuridade de meu coração, terreno arenoso.
Ela perpassa meus pensamentos e apazigua meus sofrimentos,
Desnuda meu peito inflamado, melancólico.
Etérea, me consome.

Ela crepita com cálida ternura,
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Guarda em mim seu doce incenso,
O aroma aveludado dos vinhos:
Amor marcado em mim eternamente.


Escrito por:
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Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
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Delírio Febril

Enquanto guardo minha obsessão em meu íntimo, um pensamento sorrateiro surgiu, causando-me calafrios: será que mais alguém achou o temível livro?…

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Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Enquanto guardo minha obsessão em meu íntimo, um pensamento sorrateiro surgiu, causando-me calafrios: será que mais alguém achou o temível livro? Abro a porta, olho em volta e, aparentemente, não há ninguém. Perambulando, encontro um dos muitos corredores existentes; conforme atravesso, lembro do encontro interessantíssimo que tive com o professor Monm, uma figura distinta. Dificilmente esqueceria o brilho em seus olhos, pois ele é semelhante ao meu... gostaria muito de ser uma de suas alunas, tenho certeza de que seu conhecimento seria de valor inestimável para mim. Espero que o Castelo proporcione nosso reencontro.

Ao final do corredor, encontro o grandioso salão, palco de uma noite memorável. Foi exatamente aqui onde ocorreu o primeiro baile de máscaras. As lembranças que pareciam estar adormecidas despertam com mais intensidade. Imediatamente, vislumbrei o vazio se materializar através de memórias fantasmagóricas.

Com clareza, vi o lugar sendo ocupado por mulheres e homens em trajes de gala, ostentando suas exuberantes máscaras. Reverberava em meu ouvido as funestas notas da peça Toccata and Fugue (música tocada pelo quarteto naquela ocasião). Contemplo os vultos em longos vestidos rodopiando em tonalidades diferentes, sem contar aquele vertiginoso encontro com aquela criatura lúgubre de olhos azuis, tão enigmáticos quanto a vastidão do universo.

Defronte para o silêncio, sussurro seu nome com a delicadeza de quem assopra a chama de uma vela: “Nickollas”. Meus caninos sobressaltam; não consegui disfarçar o desejo sombrio. Fito a janela onde ele me levou naquela noite para observar a túrgida lua — lembro de como a veia em seu pulso resplandecia à penumbra do luar e do excitante som ao rasgá-lo.

Mas algo me trouxe à tona: um brilho arcano de tonalidade magenta surgia pelos arredores do Castelo. Conforme ia se aproximando, clareava o recinto. O que será isto? Assustada, vou até a janela e a atravesso. O frescor da brisa toca minha tez ávida (não lembro a última vez que saí do Castelo).

Era impressionante a dimensão da névoa. Via-se pouquíssimo do firmamento, assim como a vasta e verdejante vegetação composta por exuberantes carvalhos com suas belas folhas, altas faias, baixos arbustos e, pelo chão, gramíneas cresciam desenfreadamente. Avisto uma esguia trilha que se estendia mata adentro; decido segui-la.

Nos primeiros passos, um frescor inexplicável invade meus pulmões, como se ali tivesse caído uma forte chuva. Tive a nítida sensação de que a vegetação se movia, como se estivesse respirando. Abaixo e inspiro aquele cheiro melancólico; então, enterro meus dedos sob aquele solo úmido, deixo escapar um gemido inaudível, acompanhado de intenso salivar. Retiro-os ainda úmidos (isso foi intenso) e sigo em frente.

A bruma que outrora era magenta adquiriu tons em escarlate e também ficou mais densa. Após muito caminhar, tenho um vislumbre espetacular: perante a mim, erguia-se um arco esculpido em mármore branco, de altura considerável. Os galhos das faias abraçaram aquela estrutura com afinco.

Estava perplexa com este lugar. Será que acessei outra realidade? Um brilho longínquo surgia dentro da mata. Munida de curiosidade e excitação, atravesso e, mais alguns passos à frente, encontro uma ampla piscina. Parece ser profunda, sua borda feita do mesmo material do arco. As águas eram serenas e sombrias, de mesmo tom da névoa, porém a cor escarlate era predominante.

Um incontrolável desejo de mergulhar se apoderou de mim. Estava prestes a realizar tal ato quando ouço passos em meio à névoa. Sem dúvidas, uma visão espantosa, semelhante a uma aparição fantasmagórica, movia-se com espantosa graça. Parou em frente à borda; então, tive um vislumbre estupendo.

Uma figura feminina, de altura média, sua pele lívida, semelhante a uma boneca de porcelana, dona de uma beleza arrebatadora. Seus olhos eram um excitante enigma o qual adoraria desvendar. As sobrancelhas eram arqueadas, o nariz afilado, emoldurando aquele rosto, longos cabelos negros com duas mechas brancas, chegando na altura dos quadris.

Usava um vestido translúcido; havia rendas francesas tanto na barra como no provocativo decote, ressaltando ainda mais os esplendorosos e firmes seios. Caminhava naquela névoa, tal qual uma bailarina.

Mesmo sem saber a natureza daquela aparição, anseio ardentemente possuí-la. Assisto-a andar pela borda com muita destreza. Em certo momento, ela mergulha a ponta do seu pé direito na água, espalhando gotículas vermelhas no ar, maculando o vestido, assim como a borda. Vi nascer de seus lábios um sorriso tão enigmático quanto o da Mona Lisa.

É impressionante o poder que ela exerce sobre mim. Seus gestos suaves afloram meu lado selvagem, atiçando uma luxúria quase obscena. Um desejo ancestral floresce do meu âmago; nunca pensei que fosse sentir tais sentimentos.

Desenvolvo uma certa obsessão, beirando ao voyeurismo. É excitante pensar na possibilidade dela estar me vendo... Depois de andar, ela senta com elegância e toca suavemente as águas com os dedos indicador e médio em movimentos circulares, criando calmas ondas. Hipnotizada, contemplo seu reflexo distorcido; então, escuto um sussurro vindo da criatura:

— Me chamo Olívian d’Nehr — finalmente pude ouvi-la. Sua voz era doce e irresistível, como o licor das maçãs sangrentas.

O movimento circular se intensificou, deixando a água cada vez mais agitada. Aquele som fez meu corpo contorcer em espasmos libidinosos. Das minhas entranhas escapam gemidos, até que os movimentos cessam (mas as águas permaneceram inquietas, assim como meu âmago). Em seguida, fitou-me e sorriu, enquanto meu colo pulsava em descompasso. Das águas, ergueu os dedos e me chamou silenciosamente; assim o fiz, caminhei ao seu encontro, sem questionar.

Olívian estava de pé, parada. Seus cabelos bailavam com muita leveza ao som dos ventos. Então, fechou os olhos e despiu-se. Fui acometida por um estado febril intenso; abracei a volúpia com fervor. Neste momento, éramos como Adão e Eva na imensidão do Éden e estávamos prestes a morder o fruto proibido. Gostaria de ter pincéis, tintas e um quadro para eternizá-la; seria uma pintura digna de filas quilométricas, sua beleza era assustadora.

Me despi com uma certa rapidez. Vi seus olhos castanhos escuros brilharem diante do meu corpo nu. Finalmente, estou face a face. Sua respiração tranquila, porém quente, toca meu rosto. Ela tinha as mesmas expressões da pintura “Deusa Vênus” feita pelo talentoso pintor italiano, Sandro Botticelli.

— É um prazer inefável conhecê-la, Olívian — as palavras foram silenciadas pelo desejo. Meneou a cabeça cordialmente, seguido do sorriso enigmático. Ouço novamente mais um sussurro: — Acompanhe-me.

Caminhamos por algum tempo até que avistamos uma frondosa árvore a qual me era familiar. Reconheceria aqueles frutos até de olhos vendados. Daquela árvore vinham as afrodisíacas maçãs sangrentas. Olívian pegou uma das inúmeras maçãs, olhou ardentemente em meus olhos e mordeu com avidez, espalhando pelo ar gotículas. A espessa seiva também serpenteou por entre dedos, mãos, queixo, pescoço, passando por entre o colo, cessando em suas pernas.

Ela me oferece a maçã; mordo com vontade, sinto novamente aquele gosto sombrio, porém inesquecível. Deixo a maçã escapar de minhas mãos. Banhadas pela bruma e pelo tênue luar, nossos corpos ardentes se entrelaçam, tornando-se um só. Sob o úmido chão, me entrego ao oceano de prazeres e libertinagem inimagináveis.

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Rose, uma jovem de espírito sensível, adentra o Castelo Drácula em busca de respostas para os mistérios que a cercam. Lá, ela se depara com um livro encadernado em pele humana, cujas páginas parecem proteger verdades inomináveis. À medida que mergulha nas profundezas do castelo, Rose enfrenta visões perturbadoras e enigmas que desafiam sua sanidade. Em sua jornada, ela descobre que a verdade pode ser mais sombria do que jamais imaginou, e que o conhecimento tem um preço que talvez não esteja disposta a pagar. » Leia todos os capítulos.

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Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Magenta. Mil batidas imortais,
A música ressoando devagar
Enquanto os nossos corpos imorais
Transgridem a luxúria a se afogar;

Teu mar de éter tão níveo: minha boca!
Adorno-o n’um translúcido de mel
E, vês? Como preenches mi’alma oca?
Teus olhos são-me acúleos — meu cruel!

Promessa tremeluz ardentemente,
Se posso confessar-te que teu gosto
É lúbrica ambrosia incoerente,

Trazendo bel vertigem — doce gozo
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Magenta — cor do amor sempre disposto.


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Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura macabra, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com o belo, o fantástico, o científico e o botânico. » leia mais
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Num branco esvoaçante entrelaçada;
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Pisando em corredores, à tardinha,
Sem muito o que fazer, atarefada
Somente com ideias… Uma vida
De sonhos, num palácio baseada…

Às noites, quando quentes, imagino
Também você num quarto, se despindo
De todos adereços… e, na cama,

Seu corpo me dizendo ser bem-vindo
Meu tempo de prazer com essa dama
Que vejo semideusa em mundo antigo…


Escrito por:
Wallace Azambuja

Wallace Azambuja vive em Porto Alegre e estuda Letras na UFRGS. Sua paixão por sonetos é intensa e sua maior produção literária atual está voltada à escrita deste clássico formato poético. Atraído pelo mistério e profundidade da Literatura Gótica, o autor participou do Desafio Sombrio 2023, onde mostrou seu talento para o estilo obscuro e, também... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Balthazar Crown – O Chamado do Castelo

A pena deslizou pelo papel como uma adaga na carne. Cada frase, um corte. Cada palavra, um espasmo de dor. No último ponto, a personagem se extinguiu…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

A pena deslizou pelo papel como uma adaga na carne. Cada frase, um corte. Cada palavra, um espasmo de dor. No último ponto, a personagem se extinguiu — abandonada em um fim de agonia, sem consolo, sem salvação.

Balthazar repousou a pena. O silêncio que se seguiu era denso, como se o próprio ar lamentasse. Então veio a recompensa: um calor súbito percorreu suas veias, reacendendo-lhe a vitalidade; a pele pálida brilhou com frescor juvenil; os músculos se retesaram com a firmeza de quem jamais conheceu decadência.

E então vinha o deleite. Não simples vigor, mas um arrebatamento febril, comparável ao êxtase da carne. Cada fibra de seu corpo vibrava como se mãos invisíveis o percorressem. O calor que lhe incendiava o peito não era apenas vida — era gozo, puro e incontido.

A imortalidade lhe trouxera a dádiva de provar todos os sabores da carne e, ao mesmo tempo, o fardo de que nenhum sabor permanecia por muito tempo. Mulheres, homens, corpos cis e trans, ativa ou passivamente — a eternidade lhe dera palco para todas as formas de prazer.

E, ainda assim, o tédio era sua sombra inseparável. Até o êxtase, quando repetido, tornava-se um abismo de monotonia. Talvez fosse por isso que a dor de seus personagens o excitasse tanto: era a única novidade capaz de incendiar-lhe a alma já cansada.

Ergueu-se da cadeira, esguio, elegante, com o porte ereto de um príncipe amaldiçoado. Atravessou o aposento até uma mesa lateral, onde repousava uma taça de cristal. Serviu-se de vinho vermelho-escuro, tão denso que lembrava sangue coagulado.

Elevou a taça na penumbra e brindou com a ausência invisível. — Mais um, minha silenciosa companheira. Mais um que se extingue para que eu continue. Tu não me tomas, mas jamais me deixas. Brindemos, pois, à eternidade que me cobra sempre em sofrimento alheio.

O cristal soou no vazio, e nenhum eco respondeu.

Foi então que o ar se quebrou. Não em som, mas em essência. O vinho tremeu dentro da taça, as velas se curvaram todas em uníssono, e um frio atroz se ergueu das pedras do chão, escalando-lhe os ossos como serpentes geladas.

Balthazar não piscou. Observava. Notou que as chamas não vacilavam ao acaso, mas oscilavam num mesmo compasso. Notou que o frio vinha em pulsos, intervalados como batidas de coração. Notou, sobretudo, que não estava só.

Uma presença sutil, quase imperceptível, pairava no ar. Algo invisível o estudava, respirava junto às suas palavras, como se o chamasse para atravessar os limites do aposento. O ar pulsava, pesado, e o frio que subia pelos ossos parecia guiar seus passos para um destino além da realidade conhecida.

A sombra diante dele não possuía forma fixa. Oscilava, dobrava-se, esticava-se. Em certos instantes lembrava um véu flutuando; em outros, curvas insinuantes, bocas que suspiravam, rostos deformados — talvez ecos das vítimas que enterrara em suas narrativas. O aposento inteiro cheirava a livros úmidos e a perfume noturno, como se cada palavra escrita por suas mãos tivesse se dissolvido no ar para compor aquele espectro.

Um homem comum teria recuado, mas Balthazar sorriu. — Ah… então és tu quem me observa quando escrevo.

Os olhos treinados dele conseguiram captar um espectro. Era parecido com as manifestações espectrais de seus personagens, que surgiam diante de si após escrever seus finais trágicos e dolorosos. Mas tinha algo a mais. Uma atração quase irresistível. Era como se a pena que repousava em seu bolso o puxasse na direção dela, como se o próprio ar o acariciasse.

Um passo na direção da presença e o chão dissolveu-se. As paredes tombaram como cortinas rasgadas. E ele caiu — não em queda, mas em transição. Quando abriu os olhos, o mundo era outro.

À sua frente erguia-se uma fortaleza impossível, construída à beira de um penhasco sem fim. Suas torres góticas se retorciam em direção ao céu, mas o céu era um vazio sem estrelas, um firmamento oco que não conhecia sol nem lua. As muralhas respiravam em silêncio, como se cada pedra fosse parte de um corpo vivo.

E os jardins… Infinitos. Labirintos de flores negras e árvores que se curvavam em ângulos proibidos, multiplicando-se como reflexos em espelhos partidos. As estátuas, espalhadas em meio à vegetação, fitavam-no com olhos que se moviam quando não eram vistos. Algumas possuíam corpos nus entrelaçados, contorcidos em êxtase petrificado. Pétalas úmidas brilhavam como se estivessem molhadas de lágrimas — ou de suor.

Balthazar caminhou até a beira do abismo. O vento inexistente não lhe tocava o sobretudo, mas ainda assim ele se abriu, como asas prontas a alçar voo. Seus olhos azul-acinzentados refletiam o nada infinito.

Ergueu a taça de vinho que ainda segurava. O líquido permanecia intacto, como se tivesse atravessado os mundos com ele.

— Eis teu palco, morte. — Ele sorriu com cinismo. — Ainda não ousas tocar-me, mas ainda assim me segues. Que teatro sem tempo é este, que aguarda pela minha pena?

O silêncio respondeu, profundo, eterno.

Mas então, outra voz se ergueu — não vinda do vento, mas da própria essência do abismo. Era doce e terrível, como sinos fúnebres ao longe, e carregava um perfume que lembrava tanto o velório quanto o leito.

— Chamam-no de Castelo do Drácula. — A figura surgiu diante dele, moldada em beleza impossível. Seus cabelos eram véus de treva, sua pele, mármore iluminado por uma luz sem fonte, e seus olhos, dois poços nos quais todos os séculos afundavam. — Um lugar fora do tempo, fora do espaço. Se chegou até aqui, é porque já o aguardavam. Mas não cabe a mim lhe explicar mais.

Balthazar sorriu com ironia suave, erguendo a taça na direção dela.

— E por que não vens comigo? Foste minha única companheira verdadeira por todas essas décadas.

Os lábios da Morte se curvaram, entre riso e desdém.

— Seria deveras interessante, Balthazar. Mas não fui convidada. Você sim. O que começa aqui, no receptáculo que se alimenta das tuas palavras, é apenas o primeiro capítulo.

O vento inexistente silvou como gargalhada. A Morte sorriu pela última vez — gesto que era tanto consolo quanto sentença — e então se desfez no ar, como névoa tragada pelo próprio vazio. Nenhum passo, nenhum som: apenas deixou de estar, tão abrupta quanto surgira.

Balthazar, sozinho outra vez, voltou-se para os portões colossais do Castelo. O vinho ainda repousava intacto em sua taça, e seu reflexo nas paredes vivas parecia observá-lo com expectativa. Ele respirou fundo, bebeu o líquido em um gole só, e uma centelha de júbilo percorreu-lhe o olhar.

— Está certo, então. A eternidade já estava ficando entediante. Aqui inicio um novo capítulo na minha história.

E caminhou, sem pressa, como quem escreve as próprias páginas com o simples peso de seus passos, sem saber ainda todos os segredos que aguardavam por ele no coração do Castelo Drácula.


Escrito por:
Hel J. L. Costa

Hel J. L. Costa é escritor, poeta e editor da Editora Helden. Sétimo filho, nascido em Ribeirão das Neves (MG), em 1985, encontrou na escrita uma vocação desde a adolescência. Dedica-se a obras de fantasia, terror e temas sobrenaturais. Participa de diversas antologias e é autor do romance A Donzela e o Vampiro, disponível na Amazon. » leia mais...
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Promessa & Desejo

Caminhava nas ruas escuras de Verttica. Nenhuma luz natural... uma aurora sem pálido sol. O minimalismo geométrico da metrópole, cingido num orvalho de solidão prateada…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Caminhava nas ruas escuras de Verttica. Nenhuma luz natural... uma aurora sem pálido sol. O minimalismo geométrico da metrópole, cingido num orvalho de solidão prateada, era melancólico e belo. Apreciava, de modo soturno, o brilho de látex, os vidros espelhados e o asfalto de basalto. Olhava para cima, para o céu de rocha ígnea, o interior do Monte Elbrus — imponente, observando-me de volta tal como um abismo o faria.

Com fascínio e certa angústia — a qual eu me negava a ver —, cheguei à Pirâmide Mater. Iniciava-se mais um dia de trabalho, como todos os anteriores. Pelo menos, naquela sala, eu podia observar o que restou do planeta: a lividez do gelo, o céu coberto de poeira biotecnológica. Às vezes a neblina negro-cinérea… às vezes a neve umbrosa e, em raras oportunidades, a chuva — do mesmo tom e gosto amargo de zëttir.

Após validar minha íris, fui instruída a seguir para os escritórios térreos — uma mudança estrutural repentina, por segurança. A Pirâmide Mater era obscura, pontiaguda. No seu interior, um labirinto burocrático e militar garantia a proteção de Verttica, mesmo que isso custasse algumas vidas humanas. Sinceramente, eu já estava acostumada com esta verdade, e todo o meu ofício naquele lugar dependia de uma concentração ímpar — portanto, gastá-la questionando o imutável era tolice. Estar em Verttica era um privilégio, a única zona habitável, com qualidade de vida, em toda a Rússia e, talvez, em todo o mundo.

Seção 13, última sala. Sem janelas. Não demorou para que eu me sentisse sufocada. Levantei-me após uma hora de trabalho e caminhei pelos corredores próximos. Eu só precisava de um pouco de ar, ainda que contaminado por biotecnologia — ousei pensar que seria melhor se estivesse mesmo infectado.

Os corredores estavam vazios, em sua maioria. Meu corpo começava a tremer e meu coração acelerava. “Uma janela... só uma saída... preciso de um tempo” — eu pensava. Perdi-me rapidamente, adentrando em portas que nunca ultrapassara — mesmo as mais restritas, embora reconhecessem e aprovassem minha íris. Talvez, pelo meu cargo, não me fosse impedido o acesso, entretanto, por que não? Havia algo de errado na Pirâmide Mater naquele dia, era evidente.

Consumida por um pânico pressuroso, corri para mais uma porta naquele labirinto e, então, eu o vi. Estava atrás de grades de ferro e prata. Usava um sobretudo de vinil e roupas de couro. Uma carcaça de zër cobria seu rosto, formando uma pirâmide assimétrica. Era um homem alto e forte — estranho para um externado. Aqueles que vivem fora de Verttica não deveriam ser fracos? Eu nunca havia visto um..., mas sabia que existiam e eram divididos em “selvagens” e “ocultos”. Aproximei-me... tive a impressão de que ele me observava.

A carcaça de zër era fascinante! As criaturas que dominam o mundo, o perigo iminente, a fonte da biotecnologia e ali, na minha frente, lapidada em geometria assimétrica, cobrindo um rosto humano como se fosse só mais uma pele de urso. O sujeito teria matado a criatura? Como poderia? Elas possuíam uma agressividade descomedida, eram imensas e de uma força inigualável! Eu estava impressionada...

“Oi...” — murmurei. Sua cabeça se movia, sempre acompanhando meus movimentos. Meu coração ainda acelerado. “Você matou um zër?” — ousei perguntar. Um tenso silêncio emergiu.

“Talvez...” — ouvi. Voz grossa e amedrontadora, decerto modificada para não ser reconhecida. Fremi e senti o arrepio correr pelos meus braços.

“Como é lá fora?” — Aproximei-me da grade, eu não estava raciocinando direito. Mesmo sem face, o homem estranhava meu comportamento, eu sentia. “Posso tocar?” — estiquei-me para dentro da sela, minhas mãos trêmulas.

“Pupilas dilatadas... mãos trêmulas... incapaz de identificar o perigo... você está em vianttre...” — proferiu como um demônio. Vianttre: Síndrome do confinamento de Verttica — eu estudei sobre isso ainda na graduação, entretanto, tomávamos pílulas diárias para manter a sanidade e jamais imaginei que sentiria aquilo; jurei que saberia identificar no primeiro sintoma.

“Deixe-me tocar...” — insisti, perturbada. O homem se aproximou, silencioso. Abaixou ligeiramente sua cabeça. Toquei na pirâmide assimétrica.

Frígida. De textura obscura. Perturbadora! Senti-me eufórica, uma risada súbita partiu de mim. Era impossível manter o controle. De modo célere, meus olhos lacrimejaram e senti algo descer pelas minhas narinas. Era sangue. Aquilo me levou a um pavor mórbido e eu ri mais do que antes. Uma profunda sensação histérica — e pensamentos de morte súbita. Minhas pernas fraquejaram, sentei-me no chão. A visão embaçava, enegrecia.

“Seu coração vai parar, você precisa chamar ajuda...” — ele disse, seu tom selvagem tal como sua aparência macabra. Nunca um habitante de Verttica se importaria com o colapso de um desconhecido. Menos um — eles diriam. Não querem superlotação na megalópole perfeita. Senti uma pontada aguda de dor no tórax, minha capacidade pulmonar estava reduzida.

Vi o homem colocar sua cabeça entre as grades, retorcendo a pirâmide assimétrica, entortando as colunas o suficiente para que ele pudesse passar. Aquela carcaça de zër continuava extrema em força e poder, mesmo sendo apenas uma carcaça.

No chão, a risada perdurava, mas eu estava agora deitada e já quase não enxergava. Lembro-me bem, eu vi com muita dificuldade. Ele sobre mim, e uma agulha perfurando meu pescoço. Retomei a consciência e a sanidade quase que em segundos posteriores, embora com a sequela da tremulação. Fitei o selvagem, senti medo profundo — entretanto, ele havia me salvado. Ficamos em silêncio. Tentei pensar em tudo o que eu poderia perguntar, porém, um nervosismo impedia-me de pensar com clareza.

“Se você podia fugir, por que esperava na cela?” — questionei, quase como um alívio por conseguir proferir alguma coisa.

“Aceito seu agradecimento...” — ironizou. “Uma vez dentro da Pirâmide Mater, não há como sair. Você sabe disso. A menos que sua íris seja verificada.” — ele tinha razão. Estava fadado à morte. Selvagens são considerados contaminados.

“Você tinha um antídoto consigo? Como?” — perguntei, confusa. Ele ficou em silêncio, observando. Levantei-me devagar, algo nele me instigava. Talvez o mistério de seu rosto, porventura sua força em destruir um zër. Ou apenas por ter sido salva, sentindo-me importante para alguém, ainda que para um completo anônimo.

Retirei a renda que escondia meu rosto — e soltei meus cabelos presos pela norma de Verttica. Eu queria que ele confiasse em mim, então fiquei vulnerável. Rendas negras, couro, vinil ou látex cobrindo o corpo, o rosto; cabelos presos e peças geométricas: tudo isso para confundir os inimigos externos. Essa era a lei de Verttica. Zërs não conseguem enxergar, entendem materiais enegrecidos como sombras e geometrias como perigo. Eu escolhia a renda, pois achava bonita — embora não fosse perfeitamente eficaz.

O homem aproximou sua grande mão de meus cabelos soltos, tocando-os devagar. Parecia nunca ter visto uma mulher de cabelos soltos. Pensei que o exterior, porventura, tivesse regras semelhantes à Verttica. Meu corpo ainda tremia e, estranhamente, eu senti desejo e intensa excitação com a aproximação do sujeito. Uma overdose de vianttre e, depois, libido? Eu não conseguia compreender aquela anomalia. Ninguém em Verttica tinha o direito de explorar a sexualidade, tampouco de senti-la. As pílulas regulavam os hormônios para manter o controle. Era preciso. A sexualidade leva à depravação e à violência..., contudo, eu me sentia viva enquanto aquela sensação se prolongava.

“Estou desejando você” — afirmei. Eu não sabia o que fazer com aquilo, achei sensato mencionar, embora, pensei em seguida, o selvagem não entenderia.

“Meu antídoto tira a letargia de todos os controles emocionais que Verttica impõe sobre seus residentes através de doping.” — explicou, tocando, em lentidão, meu pescoço. “Inclusive e, principalmente, o controle sexual...”

“Isso... não é verdade... Verttica nos protege...” — O toque dele... Eu precisava de mais...

“Sente-se protegida?” — ele questionou, seu tom de voz parecia mais monstruoso. Eu não pude responder... Abaixei a cabeça, fitando a porta de saída. Eu poderia fugir. Eu sabia que ele era uma ameaça. Quão abruptas as sensações se destravam no corpo... capazes de dilacerar toda a racionalidade. Eu não iria desistir ou retroceder...

“Pessoas externas sentem desejo diariamente?” — olhei-o.

“Talvez... o externo é precário, mas o sexo nos revigora. Pelo que posso notar, você nunca experimentou essa adrenalina. Sabe na teoria como funciona, mas claramente não sabe o que fazer com o que está sentindo.” — debochou.

“Por que não sei?” — senti meu ego ferido.

“Ninguém anuncia a um desconhecido que está com tesão por ele.” — afirmou, assertivo. “Ainda mais estando dentro de uma sala, desprotegida. E sendo uma mulher, ou seja, fraca.”

“Não sou fraca” — afirmei e, imediatamente, ele me pegou, prendendo-me em seus braços, impedindo-me de me mover. Ele estava quente e ficar tão próxima dele fez minha respiração tornar-se ofegante.

“Talvez para um homem residente de Verttica você não seja fraca. Mas para um externo, você é presa fácil.” — murmurou. Ficamos em silêncio.

Agradava-me sentir tamanho êxtase que, decerto, nascia do meu ventre. Eu estava enlouquecida por ele, tomada por um enlevo demoníaco. Era surreal, tamanha a intensidade. Eu sabia que mulheres poderiam procriar se realizassem o ato sexual e, claro, se ainda tivessem seus úteros. Eu não tinha medo dessa consequência, pois, em razão da rejeição de anestesia, minha cirurgia de remoção de útero era impossível, consequentemente, minha medicação controlada impedia a ovulação natural, tornando-me infértil. Todas as mulheres, ou quase todas, em Verttica, passavam por essa cirurgia. O Domínio — poder governamental — sabia o que fazia para amenizar a superpopulação em tempos de baixo recurso.

“Faça-me sentir mais... e eu te ajudo a ir embora daqui.” — prometi, ainda presa em seus braços. “Mas é preciso ser rápido...” — exigi.

“Prefiro devagar...” — murmurou, imerso em um flerte provocativo. “Pela sua sede, o rápido não vai te satisfazer” — afirmou, soltando-me.

“Não preciso me satisfazer... preciso sentir...” — ficamos em silêncio. Meu desejo estava me deixando sem juízo, pois até mesmo quando nos calávamos, eu sentia imersiva excitação.

O homem levou suas mãos à pirâmide assimétrica sobre sua cabeça e rosto, retirando-a. Meu coração disparou... eu iria vê-lo? Em seguida, livrou-se da placa de aço em seu pescoço e, por último, da balaclava de couro. E então... sim... eu vi seu semblante. O contorno de seu maxilar... seus cabelos castanhos e ondulados... um homem de beleza inexplicável, com algumas cicatrizes na pele, barba curta no rosto, olhos negros como uma breummita e... o brilho prateado na pupila. Ele estava mesmo infectado pela poeira biotecnológica. Aquele lume argênteo eu conhecia bem.

A volúpia, estranhamente, aumentara. No limiar do incontrolável — como se nada importasse. O possível perigo me atraía incondicionalmente. Manter-se distante de um infectado era uma das primeiras leis de Verttica. Entretanto, minhas emoções desequilibradas dificultavam minha servidão ao Domínio.

Ele se aproximou, como um caçador furtivo, desfazendo qualquer tênue possibilidade de retrocesso da minha decisão. Suas mãos envolveram minha cintura, seu perfume como ópio. Senti sua força. Um receio contornou toda a volúpia — fazendo em mim um verdadeiro amálgama de contradições sensoriais. Tudo vibrava, cada centímetro de aproximação era suficiente para a tremulação, mesmo a razão insistindo em me alertar das consequências daquela aproximação. Eu não a ouvia — cedi pela alucinante lascívia... era como estar embriagada. Eu sentia a presença daquele homem... carregada de atração.

“Vou te fazer sentir...” — ele sussurrou... o seu sussurro me inundava... sua voz real era grave para temer... grave para amar... um tom viril que me deixava em silencioso delírio.

Quando seus lábios tocaram os meus, tudo se dissolveu. O ar rareou, o calor ascendeu como uma febre capaz de alucinar. Uma vivacidade afrodisíaca percorreu-me por dentro, desgovernando quaisquer possíveis ações da minha parte. Fiquei submissa à cinesia daquele homem e sua mão envolveu-me a nuca com uma firmeza terna. Seu toque tinha um nível íntimo, como se já nos conhecêssemos há anos. O que aquilo significava?

A língua dele buscou a minha, lenta e profunda, deixando um rastro mentolado, talvez férreo, que contrastava com a sordidez daquilo que nos incendiava. O beijo prolongou-se até perder forma, narcótico e absoluto, misturando respiração e gemido. Quando suas mãos alcançaram meus seios, o mundo, a minha vida, o controle total, a externalidade em decadência — tudo, completamente, findou. O calor foi o que restou, e um som fugido da alma, lamúria de fervor.

Ele despiu-me com calma — mas havia pressa na sua vontade. Eu não estava sozinha no desvario da cobiça impúdica! Aquele lume prateado não negava. Seu toque inicial em meus cabelos, não fora desprovido de intenção. Percorreu-me com um olhar que também me penetrava, sem sequer mover-se. Eu via o desejo contido pulsar sob o vinil que o cobria, e ele percebeu para onde eu dedicava minha atenção. Não precisou de palavra: ele sabia bem o que eu queria. Eu o desejava com uma urgência insana, com a fome de quem quer ultrapassar todos os limites.

Com uma única mão, ele desativou as travas das correntes, abriu o zíper de aço e se libertou da proteção. A cada movimento, com sua habilidade excepcional, algo em mim se dissolvia. O som metálico reverberava na sala, e uma ansiedade pavorosa percorria-me, vibrando entre o medo e o desejo. Quando o vi — rijo, pulsante — toda a minha lógica restante se amorteceu. Restou apenas o frenesi, um torpor que me deixava entre o fascínio e a entrega. Era estranho... eu queria sentir o sabor... o peso... queria tantas coisas que não sei nomear. Por um instante, acreditei que aquela união era fisicamente impossível.

“Não... não acho...” — hesitei, e a dúvida soou como um convite.

“Pode doer um pouco... pode sangrar... mas...” — a respiração dele tornou-se arfante, e o som, por si só, me excitava. “Vou fazer devagar, até que você se acostume.” A voz, antes grave e ameaçadora, tornara-se afetuosa na curva sutil do seu proferir. Devagar... — essa palavra me escaldava.

Ele me tomou pelos quadris e me colocou sobre a mesa. O computador caiu, estrondando no chão. Houve silêncio depois...

Se eu pudesse voltar àquele instante, o teria beijado — eu, na atitude que devia, beijá-lo para parar o tempo. Assim eu faria... e beijaria também a sua rigidez imponente... tocando e sorvendo com meus lábios abrasados...

Quando o senti — a ponta roçando, o calor, o deslizamento... úmido, tão lento quanto a queda de um anjo ao inferno. Trepidei.

“Não... não acho que... cabe...” — Meu ar faltava, meu coração palpitava frenético outra vez. Não era possível que seu membro me penetrasse... era vultoso, talvez demais, entretanto, eu jamais havia visto um, então eu não saberia mensurar com precisão. Senti sua mão em meu queixo, ele me fez fitar seus olhos de luz prateada.

“Feche os olhos” — ordenou. Obedeci.

O avanço lento — muito lento — de sua entrada em mim. Na escuridão trêmula das minhas pálpebras. O corpo se abria à força e, ao mesmo tempo, pedia mais. Devagar... Ele gemia... Dor e calor misturavam-se até que já não soubesse distingui-los. O tempo pareceu se suspender, de fato, o ar ficou denso. Era uma sensação esplendorosa, uma vertigem que fazia esvair o medo e deixava apenas a satisfação. Cada fibra do meu corpo reagia, cada pensamento explodia como uma centelha. Senti arrepiar-se a tez, o sangue ferver, uma corrente subir pela espinha. Era humano… e, pela primeira vez, eu me sentia humana.

Quando percebi que ele estava todo dentro de mim, abri os olhos — precisava ver para acreditar que eu não estava sonhando.

“Está tudo bem?” — ele perguntou, murmurando. A dor já diminuía.

“S-sim...” — respondi em êxtase, ébria.

“Agora vem a parte boa...” — sussurrou em meu ouvido. O homem começou um movimento... entrando e saindo... penetrando, intenso e mais rígido. Eu não... aquilo era apenas impossível... todas aquelas sensações múltiplas. Não havia prazer maior. Nunca houve, nunca haverá. Eu gemia... ele gemia... e mantinha um ritmo perfeito. Meus olhos reviravam, minhas unhas cravavam-se em suas costas, mesmo e ainda que sua roupa fosse reforçada. Suas mãos coordenavam tudo e as minhas estavam indomáveis, capazes de feri-lo sem que eu pudesse perceber.

“Diz... seu nome...” — ele sussurrou. Meus olhos não conseguiam se manter abertos, nem fechados. Abracei-o, com os braços em volta de seu pescoço. Seu perfume invadiu-me... eu poderia morrer naquele momento.

“Nyum...” — proferi com dificuldade... “E você?” — toquei seu peito, mas não conseguia retirar sua proteção. Queria mais de sua pele.

“Logan...” — respondeu, aumentando o ritmo. “Ainda quer... que seja rápido?” — Seu gemido estava deliciosamente austero.

“Não quero... mas... tem que ser assim...” — Logan me segurou pelas pernas, penetrando-me em pé, apenas subindo e descendo com meu corpo. Lembro-me... e reminiscências da sensação se revivem no meu ser. Ia tão fundo. Parecia tocar um ponto específico que me deixava mais molhada, dando-me a sensação de que eu não ia suportar. Algo parecia crescer, um ápice de deleite... eu estava sempre em um “quase”... um “quase” que me levava à loucura. E Logan, tão viril, deixando-me mais ávida e ardente.

“Nyum...” — murmurou meu nome e aquilo me arrebatou. Bem no pé do ouvido, segurando-me intenso... possuindo-me tão firme...

“Preciso cumprir... minha promessa... Logan...” — relembrei... era necessário que parássemos.

“Essa... hum... é uma boa hora... para morrer....” — afirmara enquanto apertava minhas coxas, mantendo o ritmo do seu teso aprofundar. Uma troca de pensamentos... uma sincronicidade de sensações... ambos morreríamos felizes..., porém, a morte não merecia nosso orgasmo final.

“Não... não é...” — Eu desejava mais dele... almejava tê-lo todas as noites. Logan pôs-me na mesa outra vez. Retirou suas luvas.

Mãos... rústicas... veias salientes... força e brutalidade.

Segurou minha cintura e, violento, penetrou ainda mais forte e rápido. Minhas forças se esvaíam. Meu corpo em descontrole total.

Gritei seu nome, implorei para que não parasse... eu sentia que algo aconteceria... nas minhas entranhas... nas artérias, no pulmão... no útero... em todos os órgãos... algo viria, tórrido e indômito... e, de fato, aconteceu.

Tive uma convulsão — era o que me parecia. Espasmos pelo meu corpo, uma carga de energia elétrica em meu sexo. Uma overdose perigosa de enlevo. Uma exultação que atravessava meu crânio, energizando minhas células, fervilhando minha alma. E, no mesmo momento, senti o éter adentrar-me... tão febril... em um jato fugaz — selando o fim.

Logan gemeu intenso, segurando firme o meu pescoço, beijando-me em seguida.

Senti-me mais fraca do que antes... deitei-me em seus braços e ele saiu de dentro de mim, deixando seu sêmen escapar, escorrendo por minhas pernas. Manteve-me em seus braços e sentamo-nos no chão, exaustos. Eu não estava satisfeita, mas sentia-me realizada... cansada e... feliz. As sensações amainaram... a loucura abrandou.

“Eu vou... te tirar daqui...” — sussurrei, respirando seu perfume, tocando seu suor com a ponta dos meus dedos. Ele sorriu, cético, num crime de beleza masculina.

“Hum... eu prefiro ficar...” — afirmou, elevando meu rosto, olhando-me nos olhos.


Escrito por:
Sahra Melihssa

Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura macabra, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com o belo, o fantástico, o científico e o botânico. » leia mais
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Coroação de Sangue

Cordas mordem sua pele como dentes impacientes, | marcando trilhas vermelhas | onde o sangue ameaça florescer. | Ela sorri, um eco rouco de prazer, | entre gemidos contidos…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Cordas mordem sua pele como dentes impacientes,
marcando trilhas vermelhas
onde o sangue ameaça florescer.
Ela sorri, um eco rouco de prazer,
entre gemidos contidos.

Ele pensa ter vencido,
mas seu aperto apenas inflama a sede dela.
Cada nó é um convite proibido,
cada puxão,
desperta a besta.

Ela arqueia o corpo, oferece o pescoço,
deixando o pulso latejante,
altar e sacrifício.
Ela gosta do jogo, de fingir-se domada,
mas sob as amarras,
urge, é ameaça.

Um fio de sangue escorre lento,
perfume metálico,
urro intenso.
Seus olhos brilham rubros,
gargalha no escuro.

Por dentro, é explosão,
é desejo.
Dedos longos e ossudos,
presas sedentas.
É bicho, é monstro,
realeza.

Quando as cordas são rompidas,
não é libertação, é coroação.
Ela é a fome, é o êxtase,
é vítima, é carrasca.
É a morte, é o gozo,
ela é a noite que não se enjaula,
e ele, agora,
não passa de carne.


Escrito por:
Luiz E. Tassini

Luiz Tassini é mineiro, de Belo Horizonte, mas mora em São Paulo. É apaixonado por horror, suspense e sci fi. Já escreveu de poemas a crônicas, foi colunista em blogs e, atualmente, se aventura nos contos. Participou de diversas antologias, em diferentes editoras. Produz conteúdo sobre Horror no @eitaquehorror, no Instagram. Trabalha também com revisão, preparação e revisão de textos, tradução e leitura crítica. É pai de dois meninos, uma gata, uma cachorra, é marido e veterinário. » leia mais...
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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LXXXIII

Gotas sutis de rubra e negra cor, — Axioma das almas notívagas | Pretensiosos corações abnóxios, | inerte a razão ante a escuridão | Em habitação tão inócua de tua mente…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Gotas sutis de rubra e negra cor, — Axioma das almas notívagas
Pretensiosos corações abnóxios,
inerte a razão ante a escuridão
Em habitação tão inócua de tua mente

Abjura sua íntima intenção, — Secretos e carnais anseios
Abrasamento inquietante das emoções
travessa criatura da noite

No interior de seu ergástulo, —Desnude sua alma ante a alva
O febril estado, os lábios trêmulos e a palpitação
Embriagando-se de ambrosia, — Da paixão com afronésia
o toque frio de imortal amor

Por filáucia mortal, — Transbordam palavras de cântaros de malícia
Fascina os ouvidos imprudentes,
Oh, estes alucinam avidamente o toque
Crônica de amores, — Refugio na noite magenta
Lucífugos corações relatam em seiva umbrífera
Revelações intricadas em folha tão pura,
nela a verdadeira anamnese do fim.


Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Encontros tórridos com Eco reinventada

Contornei as curvas do belo corpo. Sem a urgência de término, acompanhava como observadora silente, o surgir dos poros, as moitas que adornavam o…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Por Alana Mortensen

Contornei as curvas do belo corpo.

Sem a urgência de término, acompanhava como observadora silente, o surgir dos poros, as moitas que adornavam o sexo e rosto pueril, os dentes alinhados, sem a brancura excessiva resultado de tratamentos estéticos. A textura e odor das flores era o que mais me aprazia — podia sentir o frescor agradável tocar minhas narinas. Os efeitos que a iluminação e perspectiva suscitavam em sua tez reforçavam o cenário onírico.

O balanço gentil do rio acalmava quaisquer perturbações. Técnica ou efeitos do Castelo na tela?

O líquido carmim, que aspergi em seu colo, realçava a beleza delicada, primal e arredia. O processo contínuo e minucioso acalmou as elucubrações daquele dia, mas garras de perturbação insistiam em se engalfinhar na obra. O êxtase era obtido sem pressa.

Éramos peças postas de forma estratégica no tabuleiro-tela.

Aquela figura suave parecia desfilar na tela, meus pincéis já sabiam acompanhar seus intentos. Desnudava-me de meus preconceitos, deslizando por entre caprichos de Eco. A forma corpórea perdia-se entre as névoas magentas; a superfície assemelhava-se a espelho d'água. Contemplava a mim?

“Venha, não tenha medo... medo... edoo... edoo”, a voz vacilante, afogada pelas águas que abarcavam suas pernas; o olhar fixado, como quem não esmorece diante de nada; a mão estendida, convidativa, exercendo influência sobre mim. Tal qual fora a minha chegada a este Castelo, fui persuadida a adentrar aquele mundo rubro-desbotado. As águas do meu interior fervilharam ao tocar a mão fria, mas macia.

Meu quarto transformou-se no cenário irretocável, irreal e plástico. Eco escancarou a porta, cujo olho-mágico era a tela. Hipnotizada, deixei-me conduzir por seus encantos, sem conseguir emitir som, pois voz não fazia parte daquele momento pictórico. Deslizamos sobre a relva úmida, recordando sensações há tempos adormecidas.

Já tiveste contato verdadeiramente íntimo com alguém, a ponto de não precisar estimular as terminações nervosas da flor que desabrocha na adolescência, mas mesmo assim, sentir-se em estado de êxtase? Conseguiria afirmar que isso é possível?

Decorreram-se horas ou dias, isso não tem importância, o tempo já me é alheio. Após esses primeiros contatos, físicos ou metafísicos, chegamos ao seu lugar de refúgio, um reservatório com águas calmas e rubras, vigiado por oito colunas, com seus capitéis dóricos suntuosos, dispostos como voyeurs das nossas tórridas aventuras. Minhas mãos percorriam ágeis, agora sem pincéis, as curvas de Eco. Sentia-me fadigada, mas não conseguia interromper o ciclo retroalimentado pelo deleite extraído e provocado.

Continuei nessa posição até sentir uma pressão no tornozelo, que logo transformou-se em agonia. Recobrei meus sentidos e percebi que Lisa cravara suas presas com afinco. Por que não gritara?

— Não era Eco, mas uma criatura maléfica. Chamei reiteradas vezes... Esta foi a forma de trazê-la de volta. Ela minaria suas forças até você ... — respondeu, hesitante, e adivinhando meus pensamentos.

Meu braço ainda exibia a marca do beijo-toque, feito ferro em brasa, que a tinta fresca imprimiu em mim. Eu não saíra daquele quarto e, agora sabia, algo maléfico viera ao meu encontro.

As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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Escrito por Marcos Mancini, -Poesias, Ultrarromantismo Castelo Drácula Escrito por Marcos Mancini, -Poesias, Ultrarromantismo Castelo Drácula

Intumescer

Kaire, tríplice eclipse, ao deleite do meu psique! | Que teu trovão d’alma irrompa, que o clamor de abysmo | soem em meus ossos como se o próprio firmamento…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Kaire, tríplice eclipse, ao deleite do meu psique!
Que teu trovão d’alma irrompa, que o clamor de abysmo
soem em meus ossos como se o próprio firmamento
rasgasse em vísceras de treva, tua sensualidade abraça-me.
Bruxa de orbes cerúleos, amo-te como Gomez Addams.
Abysmal senhora das neblinas e mãe de todos os corvos,
sois meu cálice sanguíneo, sois minha queda, sois meu êxtase.

Em pergaminhos de carne me transfiguro,
folhas que voam em ventania noctívaga,
lágrimas de tinta que copulam com o vácuo.
Eis tu, minha senhora do arcano,
colhes minhas sílabas como se fossem
feridas sagradas em liturgia profana.
Eu que senti no osso do gozo, na culpa,
bálsamo na chaga, a dor é sacramento, e o éter-pecado, altar.

Vede o híbrido ser brandindo ao sexo sobre minha fronte,
desfazendo ídolos em pó e silêncio.
Um anjo corrompido pelo sangue do desejo,
um vampiro sexual,
um lupino que rasga com seu uivo de tesão,
até que apenas tua língua reste,
serpente rubra que me crava, que me possui,
até que não mais eu seja eu,
mas sim um delírio, epifania-mania, carne de tua carne,
espírito tragado pelo teu hálito de tempestade.

Ouvi teu uivo no ventre meu,
clamando sangue, clamando carne, clamando vertigem.
Uivo convosco, Senhora, minha treva plasmática, osmose dos desejos,
uivo contra Céus e contra Deuses, até que a lua, navalha da vida,
talhe nossos corpos em girassóis de pranto. Teu pompoarismo dissolveria meu rosto em teu espelho, tempo derretido a escorrer em teu belíssimo, formoso seio.
Ejaculo para ti a energia, ejaculo para ti minha persona, meu perispírito da noite,
ampulheta onde o instante é gozo e o gozo, eternidade.

Se a vida é labirinto, pois que seja, quero-te obcecadamente.
Eu, andarilho desnudo, me lanço às paredes em chamas,
não buscando saída, mas a coruja da resposta, o guardião da combustão. Incinero-me quando acordo pela manhã e o sol me toca a pele, mas não posso sentir o teu toque. Isso é maldição, isso sangra minha sanidade e meu coração se tomba ao trono do Drácula.

Pois o chão não existe,
apenas o céu me sustenta,
e este céu és minha cara senhoria das sombras.
Teu riso é raio, tua lágrima, oceano,
tua carne, relâmpago que me parte em duas metades.

Não desejo salvação, mas perdição absoluta.
Quero que teu feitiço me devore em chama,
que tua boca seja a guilhotina onde findo,
que teu ventre seja o sacrário onde renasço,
que teu sangue escorra em minha língua como letania de fogo.

Quando tudo em pó se fizer,
quando não houver senão cinza e gemido,
quando o verbo for silêncio e o silêncio for verbo,
então — ó Senhora, ó Bruxa, ó Maré dos Mundos —
seremos nada, seremos tudo, carne e sangue e poesia e êxtase.
Aceita: és minha e de ti me alimentarei, diária sucção de tua geradora de vidas,
e ti receberá minha língua profana e o leite de minha energia sexual em tua face.


Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
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