9 - Toda dádiva reclama seu tributo

Diário de Sibila von Lichenstein. (Sem data - que dia é hoje?) A partida de Arale deixou um vazio em meu interior. Era curioso — talvez até contraditório…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Diário de Sibila von Lichenstein

(Sem data - que dia é hoje?)

A partida de Arale deixou um vazio em meu interior. Era curioso — talvez até contraditório — que ela, tão claramente não humana, tenha sido a primeira criatura a me tratar como igual neste mundo. Porque aquele braço, e os apetrechos que manejava com tanta maestria, não pareciam pertencer a este tempo, nem a este plano. Nunca vira algo semelhante, e essa estranheza me dizia, sem palavras, que Arale não era feita da mesma matéria que eu. E, talvez por isso mesmo, soubesse: Arale, assim como eu, também não pertencia a lugar algum. Pois tanto ela quanto eu ansiávamos por algo — não algo que pudesse ser tocado com as mãos, mas algo que preenchesse de dentro para fora. E não saber exatamente o que era essa coisa tornava o buraco ainda maior. Sua companhia nos últimos dias me fez recordar os tempos em que passava as tardes na faculdade, auxiliando minha amiga Eleanor, que era assistente de laboratório. Amigos verdadeiros como Eleanor são raros — e Arale dera sinais de que, se o destino e nossos anseios não tivessem nos afastado, seríamos grandes amigas.

Apesar de ela ter me guiado até aqui, cuidado de mim, dividido sua comida e quase dado a própria vida para me salvar — e por mais grata que eu esteja por isso — ainda assim, sinto-me extenuada.

Acho que nunca irei me perdoar por ter atraído Eleanor para as garras de Frankenstein, por mais que, à época, eu não soubesse das verdadeiras intenções dele.

Ao mirar-me no reflexo de uma poça esta manhã, percebi que os hematomas que o fantasma de Eleanor — ou o que quer que tenha sido aquilo — deixara em meu pescoço se alastravam agora pelo colo. Algumas ervas que Arale me ensinou a macerar estavam retardando esse efeito, mas algo me dizia que eu não tinha muito tempo. À medida que a mancha crescia, menos vontade eu tinha de viver. Menos necessário se tornava o ato de falar. Urgia a vontade de sobreviver, se movimentar. Mas agora, diferente de muitas outras vezes, eu sabia para onde estava indo.

Resgatava forças das profundezas do meu ser para continuar caminhando. Minhas roupas ainda estavam úmidas do orvalho da manhã recém-anunciada. Além do ardor do hematoma — que queimava como fogo sorrateiro em meu peito — todo o meu corpo gritava por descanso. Eu estava cansada. Mas seguiria em frente. Ou melhor: para cima.

As parcas indicações diziam que Séttimor estava logo ali. Mas, para alcançá-la, era preciso seguir por uma trilha estreita de terra que serpenteava ao redor de uma montanha alta, feita de formações rochosas tão escuras quanto o ébano. Ao menos, era o que dizia o mapa desenhado na página arrancada do livro de botânica. O terreno começava a se elevar gradualmente, e continuei subindo até encontrar o início de uma trilha estreita que parecia seguir para o alto da montanha. No início da trilha, uma placa de madeira desgastada em formato de seta, pregada sobre um cepo, apontava para cima. Tive de passar os dedos sobre ela para ler as palavras quase apagadas pelas intempéries: “Vila de Séttimor”. Segui pela trilha, animada por estar no caminho certo.

Ao contornar uma das curvas, rastreando o chão em busca da erva do descanso, não ouvia som algum — apenas o vento, cada vez mais cortante. Eu sabia que estava só. Procurava não olhar muito para cima; mantinha os olhos no chão pedregoso, até que decidi parar para descansar aos pés de uma conífera enorme. Minhas roupas não eram para aquele clima frio e úmido, e a temperatura caía à medida que eu subia. Então o frio se apoderou de mim, invasivo e cortante. Percebi que não deveria ter parado. Aquele frio me lembrou do dia em que a lareira se apagou após a morte de meu pai. Eu estava deitada sobre o corpo gélido dele havia horas, mas só começara a sentir frio quando o fogo se apagara.

Era inverno, e era necessário que a lareira fosse constantemente abastecida para nos manter aquecidos. Mas meu pai sucumbira à peste — e eu, com ele. Nada vagava pela minha mente, a não ser o desejo de morrer. Lembro-me do corpo dele perdendo o calor, e com esse calor se esvaía também toda a garantia de que eu estava segura no mundo. Eu não comera, não me levantara para urinar, não dormira... Tinha a impressão de que já não estava mais viva. Quem cuidaria de mim? Recordo-me apenas da sucessão de claros e escuros através do vidro embaçado da janela, marcando a solidão que durou dias.

Foi então que ele apareceu. Primeiro, batendo à porta e espreitando pelo vidro da janela de nossa humilde cabana. Como eu não fizera menção de me mover ou responder, abriu a porta, que estava desimpedida.

— Santo Deus, finalmente a encontrei! Estava preocupado. Você simplesmente não veio mais ao trabalho. Perguntei de você para os alunos e professores, mas ninguém sabia dizer. Parece que não é muito sociável com os outros, não é, menina? Venha... me dê a mão. Deixe-me ver o que posso fazer pelo seu pai.

Eu já conhecia o doutor, mas nunca imaginara que ele viria atrás de mim. Pois, antes de me levar para morar com ele, eu não era estudante de medicina — era apenas assistente de laboratório. Minha função era limpar os corpos doados para estudo e cuidar da manutenção dos laboratórios da faculdade de medicina. Mais especificamente, era assistente do Dr. Frankenstein. Ele não se acertara com nenhum outro, e isso, para mim, era formidável, porque me permitia perguntar, observar e aprender. Mesmo que a universidade não permitisse alunas — apenas homens podiam se matricular — eu alimentava a ilusão de estar mais próxima do meu sonho. Mas era apenas isso: uma ilusão. Eu nunca seria aceita como estudante. Eu era uma mulher pobre e fraca, filha de um simples camponês.

Talvez seja por isso que aceitei a oferta de Viktor, morar em sua casa, sob a desculpa de que seria sua assistente particular em projetos pessoais que não envolviam suas atividades na faculdade. Em troca, eu poderia continuar sendo sua assistente na faculdade e assistir a todas as suas aulas, contanto que ficasse quieta e perguntasse apenas ao final. A morte de meu querido pai fora traumática, mas foi o que me catapultara. Em alguns meses, eu não era apenas assistente dele. Graças ao prestígio e após entrevistas com os professores donos das bancas do alto conselho da universidade, eu me tornei a primeira aluna mulher do curso. 

Foi nesse mesmo período que Viktor passou a me chamar com frequência ao seu consultório, sempre com o pretexto de revisar gráficos e anotações de galvanismo. 

— Sibila, minha querida, conseguiu terminar de revisar os gráficos de ontem?

— Ainda não, Dr. Frankenstein. Fiquei até o término da minha aula e depois fui para casa, fiquei estudando até tarde. Mas prometo que hoje terminarei.

— Eu já não te avisei de que o trabalho aqui do laboratório precisa estar em dia, Sibila? — perguntou com a cabeça baixa, mas os olhos azuis cravados em meus olhos.

Eu me virei, tentando disfarçar a minha preocupação.

— É claro, doutor! Me perdoe, acho que posso deixar de assistir a minha última aula, para vir até aqui e revisar. 

— Mas por que não revisa agora, já que está aqui, minha cara? —

 Aproximou-se sorrateiro, e falou próximo a mim, baixo e em tom professoral: — Entendo que dê valor aos seus estudos, mas espero que entenda também que nenhuma mão que nos estende algo, sairá vazia... Tudo tem um preço, ainda que não seja dinheiro. Por exemplo... 

Senti seus dedos deslizarem da base do meu pescoço para o topo da nunca, enquanto fazia isso, terminou de falar:

— Eu dou a faculdade destaque com minhas pesquisas inovadoras no campo da medicina. O galvanismo pode ter aberto as portas, mas serei eu, o primeiro médico a fazer o ser humano a... Bem, não preciso falar sobre minhas pesquisas, você as conhece bem. O que queria dizer é que dei prestigio a essa casa de ensino e em troca pude cobrar favores, como exigir que a faculdade oficializasse o que já fazíamos, oficializando-a como minha aluna. Ou acha que, se você viesse bater à porta deles, como uma camponesa órfã de pai e de mãe, eles te dariam ouvidos? Eles sequer abririam as portas para te receber.  Portanto, você deve se dedicar aos estudos, mas não se esqueça de que também me deve algo, certo minha pequena? — Agora a mesma mão que passeara pelo meu pescoço, enlaçando as pontas dos dedos nos cabelos finos e quentes da minha nuca, agora tentavam enlaçar a minha cintura.

Afastei-me um pouco assustada, mas mantive o rosto e o meu tom sério:

— Claro, doutor. Eu irei me dedicar.

Ele sorriu satisfeito. Olhou por cima das lentes dos óculos, o olhar cortante como gelo:

— Claro, querida, tenho certeza de que não vai me decepcionar, não é mesmo?

Seria aquele o primeiro sinal? Será que eu deveria ter percebido que Viktor era muito mais do que apenas um professor bondoso tentando ajudar uma órfã, filha de um velho conhecido seu? Naquele dia eu não percebi nada, eu nem sabia porque aquele toque me incomodara tanto. Mas, de alguma maneira, ele fizera os sinais de alerta do meu corpo tocarem: pelos eriçados, o coração acelerado, a respiração no limiar de se descontrolar, não fosse o meu foco nos gráficos de galvanismo.

— Quando terminar, cara aluna, venha para casa. Aguardarei você para o jantar. 

Viktor saiu, não sem antes me lançar um olhar de contentamento. Sorri de volta,  mais por educação do que por vontade. Eu sabia que não podia desagradá-lo; qualquer deslize poderia colocar em risco o meu futuro promissor na medicina. Após terminar de analisar os gráficos e deixar os resultados sobre a mesa do seu escritório, atravessei os corredores em direção à saída.

No corredor, dois retratos enormes dominavam as paredes: Bismarck e Humboldt, erigidos quase como ícones de devoção. Diante deles, dois alunos discutiam as teorias mais modernas. Lembro-me de ouvir as palavras galvanismo e eletricidade, mas, à medida que me aproximava, percebi que a conversa rapidamente se inclinava para a política, que definitivamente não era o meu foco. Eu não compreendia como aqueles homens jovens e privilegiados poderiam alegra-se tanto com a perspectiva que a guerra trazia, eles se consideravam os “soldados do conhecimento”. A meu ver: tolos. De qualquer forma, quem era eu para mudar alguma coisa nesse mundo, se nem senhora da minha própria realidade eu era? Eu sabia bem como me viam: uma mera trabalhadora, igual a tantas outras…

Ao longo dos outros corredores, as vozes se multiplicavam e ecoavam contra o mármore frio das paredes. Jovens exaltavam a promessa de uma Alemanha unificada sob a força de Bismarck, outros comentavam sobre as campanhas militares iminentes, como se a guerra fosse apenas mais um experimento inevitável. Entre eles, alguns exaltavam os avanços da medicina e chamavam Viktor de “o futuro da ciência prussiana”. Eu caminhava em silêncio, absorvendo cada palavra como quem ouve o cântico de um templo ao qual nunca pertenceria. 

Um galho caiu próximo de mim, me despertando do transe em que as lembranças sobre Viktor me colocavam. Estava exausta, mas parar, naquele frio significava morte. Não precisava ser estudante de medicina para saber disso, eu precisava levantar. Então, para colocar o corpo em movimento, decidi colocar a mente para funcionar primeiro. Coloquei o meu diário sobre as minhas coxas e comecei a escrever. Eu ia escrevendo e transmitia as palavras de meu íntimo para o papel, as letras saíam trêmulas, mas não vacilantes:

“Hoje, pensei em Viktor novamente. Me surpreendi ao sentir falta dele. Antes dele, eu era uma camponesa órfã e desempregada. Depois dele, eu era a assistente estudante de medicina do Dr. Frankenstein. Eu era a mulher, dentre tantos homens, eu era a grande escolhida, o mais novo prodígio que se sobressaíram aos olhos dele. Assim eles diziam, mas eu sabia que era só órfã e útil. Hoje eu sei, ele se achava um deus e eu era seu sacrifício.”

As Últimas Rosas Vivas de Séttimor
Mergulhe em um mundo suspenso entre a morte e o delírio. Sibila desperta em um castelo cercado por campos de lavanda e vozes sussurrantes, sem saber como chegou ali, tem apenas a certeza de que matou Viktor Frankenstein. Mas naquela terra onde o tempo se desfaz e os mortos sussurram, certezas são as primeiras a apodrecer. Inspirado no universo de Frankenstein, este romance gótico reinventa personagens clássicos que desafiaram a morte e pagaram o preço. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Aryane Braun

Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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O Velório que Nunca Acaba

Era, sem dúvida, o melhor velório a que eu já tinha ido, não pela comida, mesmo que o bolo de ossos moídos fosse bastante crocante e os brigadeiros…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Era, sem dúvida, o melhor velório a que eu já tinha ido, não pela comida, mesmo que o bolo de ossos moídos fosse bastante crocante e os brigadeiros tivessem aquele sabor único de infância traumática. Não, o encanto, ou melhor, o diabo estava nos detalhes: ninguém ali precisava se preocupar em morrer de novo, mas convenhamos que é um alívio danado quando já se está morto. O salão principal parecia ter sido decorado por um coveiro muito entediado. Balões inflados com pulmões humanos balançavam no teto, emitindo estalos úmidos sempre que se tocavam. As velas, dispostas em fileiras, não derretiam em cera, mas em camadas de pele liquefeita que pingavam sobre toalhas bordadas com crucifixos invertidos. A cada gota que caía, os convidados riam como se presenciassem uma situação muito engraçada.

No centro da sala erguia-se o bolo: três andares de ossos moídos envernizados em glacê amarelado, de onde brotavam velas azuladas. Quando o primeiro pedaço foi cortado, não saiu recheio, mas um murmúrio coletivo, vozes dos mortos pedindo que ninguém os comesse. Os convidados, é claro, devoraram as fatias como crianças famintas. Um detalhe digno de nota: o cheiro era insuportável, mas ninguém parecia se importar. Pelo contrário, havia quem respirasse fundo, como se inalasse um perfume francês. Na vitrola tocava risadas de crianças desaparecidas, era uma trilha sonora que deixava qualquer chá de bebê no chinelo. De tempos em tempos, um dos balões estourava, cuspindo um sopro gelado de ar que, suspeito eu, fosse o último de alguém que não fez nenhuma falta.

Eu me lembrava de ter chegado, mas não lembrava de ter saído em algum momento, aliás, ninguém ali lembrava, éramos todos convidados, e o castelo não permitia que a festa acabasse. No auge da celebração, quando alguém abria a caixa com o coração pulsante, eu ria, ria porque não sabia de quem era aquele coração, mas tinha certeza de que não era o meu, ou talvez fosse, e o castelo apenas o tivesse me emprestado por mais uma rodada. A reunião prosseguiu com brindes em taças cheias de um vinho espesso demais para ser vinho. Um bruxo ao meu lado, com humor mórbido, cochichou:

— É da safra de 1897, o ano em que Drácula foi publicado, dizem que fermentaram com mais do que uvas.

Ri, nervosa, até perceber que algo se movia dentro do líquido. A cada brinde, a cada corte de bolo, eu pensava: “Este é o melhor velório de todos os tempos.” E era mesmo. Onde mais se poderia estar morto, estar vivo, e ainda assim se sentir um convidado de honra?

Foi então que o defunto da noite entrou, ele surgiu do nada, como se tivesse sido cuspido pelo próprio chão do salão. Vestia um terno antiquado, gasto e ligeiramente úmido, como se ainda carregasse a terra da cova em seus ombros. O rosto era pálido, com olheiras bem fundas. Um sorriso exagerado, costurado nos cantos por pontos malfeitos, se abria de orelha a orelha, revelando dentes amarelados e um hálito de formol. Os olhos muito escuros piscavam a todo momento, às vezes vivos, às vezes mortos, refletindo o brilho azulado das velas de pele liquefeita. No peito, uma flor murcha brotava de um alfinete, e a cada movimento seu, caíam pequenos fragmentos de terra, como se a cova o chamasse de volta, mas ele, teimoso, preferisse ficar para mais uma apresentação.

— Bem-vindos ao meu velório, queridos! Boa noite, plateia, ou seria boa morte? Enfim, tanto faz, não é, aqui ninguém sai vivo mesmo.

A plateia ria.

— Deixem-me apresentar, sou o defunto da festa, literalmente. E devo dizer que nunca estive tão animado. Quem diria que morrer era o segredo para finalmente dar uma festa que preste? Vamos aos destaques do cardápio? — Ele falava e apontava para a grande mesa. — O bolo foi feito com ossos moídos, muito crocante, nutritivo e cheio de cálcio. Cada fatia vem com um brinde exclusivo, o sussurro de um morto aleatório. É tipo o brinde do kinder ovo, mas com mais trauma. Já os brigadeiros...ah, esses são especiais. Você morde e, ou sai um verme, ou uma lembrança horrível da sua infância. Eu experimentei três e agora sei que minha mãe realmente preferia meu irmão.

A plateia gargalhava com cada comentário que ele fazia sobre o cardápio.

— A lembrancinha da noite? Uma caixa com um coração ainda pulsando, mas relaxem, ninguém sabe de quem é, mas pode ser seu, pode ser meu. A decoração também merece aplausos, vocês não acham? Velas que derretem como pele liquefeita, e não em cera. Sustentável? Sim, vegano? Nem tanto, mas quem liga, não é?

Mais gargalhadas histéricas.

— Balões feitos de pulmões inflados, se estourarem perto de você, considere-se beijado pelo além. E a música, claro, vem de uma vitrola amaldiçoada que em vez de melodias, toca risadas de crianças desaparecidas, muito mais autêntico que sertanejo universitário, vocês concordam?

E mais gargalhadas histéricas.

— Agora, o ponto alto, temos escritores fantasmas que escrevem melhor mortos do que quando estavam vivos, vampiros bêbados de sangue ralo batizado com água benta, sim, isso mesmo que vocês ouviram, porque sangue fresco já virou mainstream e leitores que entraram no castelo e nunca mais saíram. Ah, e eu, claro, seu anfitrião preferido ou não, que não pode ser expulso, afinal, eu fui enterrado aqui.

A plateia morria de rir.

— E o Castelo, esse grande sacana, adora brincar de mestre de cerimônias, ele tranca as portas, sopra brisas geladas e sempre me lembra: “Mais um ano está chegando, prepare o ritual.” E eu respondo: “Pode vir, Castelo, só não esqueça do open bar.” E o mais incrível é que a festa nunca acaba. A cada vez que você pensa que terminou, alguém novo chega e tudo recomeça. É como um Natal em família, só que divertido.

Mais e mais risadas.

— Por isso eu digo, com toda a certeza de um cadáver satisfeito: Este é o melhor velório que já existiu, porque, afinal, não se pode matar o que já está morto e agora, vamos brindar de novo. — gritou o defunto. — Quem tiver cálice, levante, quem não tiver, pode usar o crânio do vizinho. Moléstia eterna!

A multidão explodiu em aplausos e risadas histéricas, outros levantaram seus cálices e seus crânios. Então, como sempre, a festa recomeçou. A primeira convidada entrou, perplexa, reparando nas decorações bizarras, e todos aplaudiram como se fosse a atração principal e eu, com meu cálice de vinho que tinha gosto de sangue ralo, levantei-me para brindar:

— Um brinde à eternidade da festa, porque não se pode matar o que já está morto.

Todos riram de forma histérica, insana, até que o bolo voltasse a ser cortado e os murmúrios dos mortos se repetissem, como no primeiro dia, pois era, afinal, o melhor velório que nunca terminou.


Escrito por:
Valesca Afrodite

Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
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Cântico da Luxúria Noturna

Ó noite sem mácula, mãe da luxúria e do pecado, | abre o teu ventre de trevas sobre meu corpo acorrentado, | pois não há cárcere que baste…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Ó noite sem mácula, mãe da luxúria e do pecado,
abre o teu ventre de trevas sobre meu corpo acorrentado,
pois não há cárcere que baste, não há corrente que contenha
o desejo que em mim nasce e em minha própria dor se banha.

Sou mais que presa: sou riso e sou gozo,
sou vício que arde em um gesto piedoso
da mão que me fere pensando em punir-me,
mas encontra na carne apenas o convite de possuir-me.

Ó caçador, frágil em tua ânsia de domínio,
não percebes que és servo de meu desatino?
Quanto mais tu me prendes, mais livre me torno,
e quanto mais me negas, mais em teu peito retorno.

Na vertigem do êxtase, os grilhões são coroas,
as feridas são flores, e as sombras, pessoas.
De meus lábios escorre um riso soturno,
que faz da agonia um cântico noturno.

Ah! O aço que corta não é espada, é um beijo,
e a mordaça que cala me entrega ao desejo,
cada nó da corda é um caminho secreto
para o altar oculto de um amor inquieto.

E tu, que acreditas deter a minha essência,
aprendes no rito da mais dura ciência
que o prazer é abismo e a dor é vertente,
e que em mim o suplício floresce contente.

Sou vampira, sou chama, sou veneno, sou delírio,
sou templo erguido sobre o meu próprio martírio,
sou carne que arde, sou uma sombra que brilha,
sou gozo que nasce de minha própria partilha.

E quando enfim tombares, rendido aos meus pés,
ouvirás ao fundo belos hinos, sons cruéis,
e em meio ao crepúsculo, rubro e profano,
serei tua amante, teu inferno e teu engano.

Assim é o êxtase: um precipício em chamas,
um véu que devora, um abismo que inflama,
na noite absoluta, sou riso sacrílego e dor,
sou litania profana, sou luxúria e sou terror.


Escrito por:
Cláudio Borba

Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura... » leia mais
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Memórias Afogadas

Este lúgubre castelo com certeza é o lar de muitas histórias, de muitos seres e muitas memórias. São tantos segredos aqui guardados, mas o meu…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Este lúgubre castelo com certeza é o lar de muitas histórias, de muitos seres e muitas memórias. São tantos segredos aqui guardados, mas o meu, acredito que seja o mais apaixonado, envolto pelo sangue e pela culpa. Jamais esquecerei a noite mórbida e intensa em que cravei meus dentes em tua pele doce pela primeira vez, soube ali que jamais iria desejar outro alguém e, mesmo assim, parece que te perdi.

Lembro-me bem da primeira vez que te vi passar por uma fenda estranha, como se cortasse o mundo, nossos olhares se tocaram pela primeira vez. Eu te segui pela noite magenta e meu coração não suportou, apaixonando-se perdidamente por cada pedaço de ti, mesmo sem uma única palavra ser pronunciada. Eu não gostaria que tivéssemos um fim, mas como maldita criatura noturna que sou, minha natureza destrutiva precisava frustrar o amor transcendental que nos habitou.

Recosto a nuca na borda da enorme piscina, febril, como se meu corpo nu já não fosse meu, mas parte da água. As cores estonteantes oscilam entre roxo e rosa, tingindo o ar de vertigem, enquanto uma névoa branca desliza sobre o espelho líquido.

Dentro da piscina, observo as estátuas de mármore nuas ao redor. Vejo que elas não são apenas pedra. Seus olhos me seguem, suas bocas se curvam em sorrisos largos, trocando cochichos que ecoam baixos, incompreensíveis. Uma delas me encara com firmeza, parece-se contigo. Elas me veem derramar lágrimas de sangue por ti.

Ela continua a me olhar. A silhueta, os cabelos, as feições e todas as tuas características em um corpo pétreo e marmorizado ainda me encaram. Ela me lembra tanto de você! Do fundo da piscina, pétalas cintilantes sobem dançando silenciosamente. Minha respiração torna-se arrastada enquanto troco olhares com a tua estátua tão perto, tão fria e tão dura quanto nossa separação. Soluço em lágrimas.

Nos cenários de nossas mais fortes memórias de lubricidade, eu me encontro a todo momento desejando retornar no tempo. Sem ti, eu desejo que minha eternidade acabe. Estou em um transe ao flutuar, ouvindo apenas o leve som do movimento aquático. Tentando esquecer as feridas de meu coração morto e as duras memórias do teu amor e da tua paixão que deixei para trás. Estas castigantes lembranças de nosso envolvimento tomam conta de minha mente, fazendo-me lembrar de cada toque, de cada beijo e cada ato carnal que cometemos em nossos corpos tão libidinosamente. Eu desejava ser parte de ti, me unir a ti eternamente em um mesmo corpo como Salmacis e Hermafrodito.

Gostaria de me afogar nestas águas quentes na tentativa de que elas me fizessem esquecer a fúria de meu desejo insaciável por ti e cada lembrança tortuosa que acaricia minha melancólica libido na falta de ti. Eu anseio pela tua presença junto à minha, experienciar a sutileza e o torpor da tua pele, a maciez de teu rosto e o sabor danoso de teus lábios. As lembranças me consomem nestas águas:

Devaneio ao lembrar de como é sentir-te em meu íntimo: a ferocidade de teu toque por entre minhas pernas, sob a cama, fizeste-me liberar sons que antes estavam cativos em minha garganta, gritos abafados em frenesi delirante, ardentes de desejo. O calor da tua boca contra meu íntimo arrancava de mim espasmos, eu completamente incapaz de conter os gemidos que escapavam como súplicas entrecortadas. E tua língua, que me devorava, sem trégua, firme e voraz, roubando cada fragmento do meu controle, dominando-me. Eu me abria em arrepios sob tua fome, e cada investida me fazia implorar, ainda que em silêncio vacilante, por mais! O mundo se desfazia no nosso ritmo frenético e no gosto febril do prazer que nos consumia.

Nestas águas púrpuras observo os reflexos inebriantes das estátuas e permito que minhas lágrimas de sangue se misturem à tua intensidade, enquanto tento esquecer a dor. Mas… é impossível. Minha devoção é tua. Minha devoção às tuas mãos, que tocaram meu corpo com sofreguidão e torpor, conduzindo-me ao ápice dos prazeres lascivos de tua carne ardente. Recordo-me da minha respiração ofegante sobre teu rosto, de teus olhares devassos que devorariam minha alma, se eu ainda a tivesse. Aos poucos, desprendo a nuca da borda da piscina e deixo meu corpo deslizar para o fundo, como se a água me reclamasse.

O que mais eu poderia fazer? Deixei-me levar pelo medo novamente, afundando minha mente em pensamentos abruptos, frutos do meu fatídico apego evitativo. Eu te amo sem razão, sem medida, desde o instante em que nossos olhos se cruzaram sob a lua, com a constelação de Órion ao lado de Sírius e Júpiter. Amei-te profundamente até mesmo antes desses momentos, só nunca tive coragem de proferir as palavras quando ainda havia tempo.

Perder-te dói como se meu coração tivesse, enfim, apodrecido ao relento do tempo que nos separa. Amo-te tanto que nem mesmo estas águas de paixões infames conseguem me preencher. Meu corpo e minha alma, meu coração e minha mente sempre pertencerão a ti. Aqui, nestas águas, afundo-me e perco-me no fundo, como se nelas pudesse dissolver a dor insuportável por te perder.

As lembranças de nossos corpos entrelaçados, à luz trêmula da vela fúcsia, ainda dançam em minha mente e me seduzem sem trégua. Ouço tua voz em meu ouvido, clamando por meu nome, inflamando-se de prazer ao perder-se nos meus gemidos de luxúria. Ainda sinto a pressão de tuas mãos em meus pulsos, prendendo-me a ti, amarrando-me à força de um laço que transcendia o físico. Selamos um feitiço de libido, onde nos aprisionamos mutuamente, enquanto a vela ardia.

Desejo mais do que tudo sentir teu corpo contra o meu e ver teus longos cabelos soltos estirados sobre meu peito enquanto clamo pelo teu beijo devorador que me envenena de eterno prazer. Enquanto estamos distantes, eu não consigo ter olhos para outros lábios e ter uma chama sinuosa de paixão como a nossa em outros corpos depravados.

Desejo tanto que a água finde meu sofrer, esqueci-me do tempo observando o fundo da piscina e a vaga luz violeta que cintila aqui embaixo. O transe se desfez quando algo me puxou de volta: abrupto, revoltoso. Lutei em vão contra aquela força que me arrancava do silêncio líquido.

Quando retornei a mim, encontrei-te à beira da piscina. Não era exatamente você, mas uma figura de mármore, tão semelhante, tão cruel na lembrança. Mãos frias afastaram meus cabelos para trás de minhas orelhas, como tantas vezes fizeste. Lábios pétreos roçaram os meus, duros a princípio, mas logo se desfazendo em um calor febril. Os braços de pedra enlaçaram-se ao redor de minha cintura, colando o corpo marmorizado, ao meu, deixando-me sem ação. Um delírio tomou conta de mim quando as mãos frias desceram, aproximando-se do meu íntimo, e o beijo danoso, inescapável. Nenhum outro corpo poderia ocupar teu lugar, mas no mármore finalmente me afoguei por ti.


Escrito por:
Júlia Trevas

Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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A Sala

Por dentro do Castelo no qual vivo | Perdi-me em seus recintos escultóricos: | Envolto em branco mármore, cativo | Por linhas de um amor sem fim, pletórico…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Por dentro do Castelo no qual vivo
Perdi-me em seus recintos escultóricos:
Envolto em branco mármore, cativo
Por linhas de um amor sem fim, pletórico…

Projeto de algum criador lascivo,
No espaço vi também seu traço eufórico:
De pé, com grossos veios sugestivos,
Não menos do que seis pilares dóricos…

À vista de silente estatuária,
Supus minha presença solitária
Naquele imenso átrio em que adentrei…

Sentindo-me contente e assombrado,
Jurei ter visto eu mesmo mergulhado
Num banho de prazer que ali sonhei…


Escrito por:
Wallace Azambuja

Wallace Azambuja vive em Porto Alegre e estuda Letras na UFRGS. Sua paixão por sonetos é intensa e sua maior produção literária atual está voltada à escrita deste clássico formato poético. Atraído pelo mistério e profundidade da Literatura Gótica, o autor participou do Desafio Sombrio 2023, onde mostrou seu talento para o estilo obscuro e, também... » leia mais
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Versejo Voluptuoso

Velha vontade vigora | veneno visceral, viola. | Vagueio vigiando vidas, | vazias, vulgares, viciosas…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

(Tatutograma)

Velha vontade vigora
veneno visceral, viola.
Vagueio vigiando vidas,
vazias, vulgares, viciosas.

Vejo você vagueando
volúpia volta voando.
Venero vossa virilidade,
vinculo vontade-vulgaridade.

Vejo varão viçoso,
vulcão volátil, vultoso.
Volume viril vicejante,
vulva viscosa, vibrante.


Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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25. Cada um, porém, é tentado pelo seu próprio desejo, sendo por este arrastado e seduzido

Data incerta - Achei que havíamos conseguido escapar por um momento da lembrança do castelo. Que naquele vilarejo, mesmo que estranho…

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Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Diário de Rute Fasano

Data incerta - Achei que havíamos conseguido escapar por um momento da lembrança do castelo. Que naquele vilarejo, mesmo que estranho, conseguimos respirar um pouco. Pelo menos por uma noite, só uma, poderíamos nos sentar e assistir algo que não tivesse relação com o castelo. Quase acreditei que teríamos tempo. A peça era sobre nós, era sobre o castelo, cada palavra, cada movimento, cada pensamento como se tivesse sido arrancado dos nossos ossos e costurados com precisão ali naquele maldito palco, com aquele final que parecia fora do roteiro, um tanto improvisado talvez. Quando a peça acabou eu não senti alívio, mas um calafrio subir minhas costas como aqueles que eu sentia no castelo e já faziam parte da minha rotina lá. Quando cobri Mara com o manto para sairmos do teatro, senti olhos nos observarem mais intensamente do que qualquer outros ali.

Roupas escuras e presença quase fantasmagórica, mas havia algo mais, olhos treinados e corpos que sabiam matar e fazer isso com perfeição. Elas não estavam ali para aplaudir, estavam ali por ela, por Mara, que agora estava inteira. E antes que eu ou Mara pudéssemos reagir, fomos cercadas, um golpe seco, um cheiro de ferro e tudo escureceu. Acordei em uma cela de concreto úmido, tubulações vibrantes e luzes mortiças, Mara estava ao meu lado, sentada.

— Elas são da ordem — ela disse quando me viu acordar — Eu fiz parte disso, antes do castelo.

Depois de horas de espera fomos arrastadas até uma sala cheia de símbolos estranhos e um cheiro forte de ozônio. A ordem me olhava com desprezo, quantas mulheres haviam ali? Quinze, vinte? Eu não saberia dizer. Eu ouvi o plano delas, eliminar o elemento estranho, ela é descartável, um peso morto, um risco, então uma delas puxou uma faca e veio até mim, senti a morte chegando, a presença daquela mulher que vinha em minha direção era como a presença mortal, mas Mara se colocou entre nós, com uma fúria igual a de uma fera encurralada ela lutou com as mãos nuas com a motivação de quem já matou mil vezes e poderia matar muitos mais. E a beleza de Mara furiosa era aterradora, essa é a palavra que melhor descreve a sua aparência, com aquela pele de um tom quente, um âmbar escuro, sobrancelhas e olhos escuros muito intensos e ferinos, nariz levemente aquilino e lábios cheios, marcados e cerrados, olhá-la tão de perto, tão real, despertava em mim aquela sensação de quando se vê de frente a um grande felino selvagem, belo e mortal, e não se sabe se o acaricia como um pequeno gato ou se corre sabendo que não irá tão longe. Ela quebrou ossos, rasgou carne e assim que conseguiram contê-la, ela gritou:

— Se matarem ela, morremos as duas.

O silêncio foi total, todas elas olharam para Mara.

— Estamos ligadas — ela disse arfando — por uma magia do castelo, por algo que eu não entendo, mas que é real, se uma de nós morrer a outra morre também.

E contra minha vontade e a vontade da ordem eu entrei num plano que colocaria mais dificuldade em minha vida. A base da ordem, pelo que soube depois, era em um templo abandonado protegido por símbolos e amuletos que escondem a presença delas de outros membros da ordem. O mesmo amuleto foi dado a nós, um fragmento de obsidiana envolto com prata com uma runa estranha. E agora faço parte disso, uma ex-cientista cética amarrada ao destino de uma assassina de uma seita estranha. E o pior de tudo era que parte de mim agora quer saber até onde essa loucura vai. Uma reunião foi convocada, a qual Mara fez questão que eu estivesse presente, pois agora eu fazia parte disso, ela mantinha um olhar firme. A líder da ordem, que se apresentou como irmã Iridia, uma mulher de feições duras e olhos sem emoções, nos conduziu até um salão, com paredes de pedra, cadeiras e mesas grandes de madeira, castiçais com velas na cor magenta e algumas flores vermelhas aqui e ali. As outras mulheres estavam bem posicionadas ao redor dela em silêncio. Todas elas com capuzes baixos paradas como soldados esperando uma ordem, mas que não ocultavam totalmente seus rostos. Eram mulheres de idades e corpos diferentes.

Iridia falou com uma voz clara e calma.

— O castelo está morrendo e quando ele morre, não apenas ele perece, mas morre também aquilo que o sustenta e ele sustenta, todas as histórias que contêm dor e revelação, os livros que contêm vida, e os espíritos que ainda não foram lembrados pelo nome certo. Se ele morrer, o tempo aqui se contorce e leva tudo com ele. Devemos impedir que a antiga ordem faça isso acontecer.

Ela caminhou em círculo, os pés nus tocando as pedras frias daquele templo com uma familiaridade.

— Nossa função, como sempre, é garantir que o ciclo não se complete. Que os que chegam aprendam, que os que resistem escrevam e vocês — ela olhou para nós — estão presas a isso.

— Presas? — Mara sussurrou, como se a palavra tivesse um gosto ruim na boca.

— O castelo não permite que saiam, ainda não — Iridia respondeu — …vocês devem nos ajudar a fazer o castelo sobreviver.

— Mas como? — perguntei sentindo a pergunta me doer a garganta.

— Com tudo o que vocês têm, culpa, ódio, amor, luto, medo, desejo, e também com a matéria sombria presente no castelo.

Mara cruzou os braços, estava inquieta e percebi que ela observava cada membro da ordem com um olhar avaliador. Até que seus olhos pararam em uma delas, uma mulher de postura altiva, ombros largos e maxilar marcado.

— Eu lembro que o propósito da ordem nunca foi interromper o ciclo, e também achei que somente mulheres faziam parte da ordem — ela disse isso sem malícia, mas com a franqueza quase ríspida que era típica dela. — não sabia que tinham começado a aceitar homens agora.

Houve por um momento um silêncio constrangedor, a mulher ergueu o queixo e respondeu sem alterar o seu tom de voz.

— Eu sou uma mulher e a ordem nunca aceita homens.

O olhar de Mara hesitou por um breve momento, talvez de surpresa ou talvez vergonha, não sei ao certo, mas a mulher não esperou que ela se desculpasse ou se consertasse e continuou:

— O que a ordem aceita são mulheres que estão dispostas a sangrar de verdade. Não o gênero imposto, o nome que nós próprias enterramos não importa, mas o nome que escolhemos usar para renascer para a ordem.

Mara murmurou algo que não entendi e seu rosto se contorceu de raiva. Então, depois dessa interrupção Irina retomou:

— A ordem se ramificou e uma parte dela entende que certos ciclos não devem ser encerrados, então se desejam sobreviver, vocês terão de lutar e escrever, mas não basta contar o que viram, vocês precisam contar o que sentem, o que temem. A história só vive se for honesta e o castelo só respira se for alimentado com o que vocês não querem lembrar.

Depois de toda a conversa Iridia disse às outras que estavam liberadas e pediu que eu e Mara esperássemos no salão para poder jantar e depois nos levaria a nossos aposentos para que pudéssemos descansar. Nos sentamos em uma grande mesa com diversas comidas e bebidas, as freiras, pois era o que elas pareciam para mim, caminhavam pelo salão como sombras, descalças, sem fazer barulhos com seus movimentos leves. Diferente de horas antes que estavam vestidas todas de cores escuras, agora vestiam vestidos leves que roçavam nas coxas, deixando escapar vislumbres de pele sob as luzes trêmulas das velas na cor magenta que iluminavam aquele salão. Não havia aquela disciplina que observei antes, aqui agora elas riam entre si, bebiam vinho em longos goles e algumas trocavam beijos demorados, mas discretos, diante de todas, mãos que deslizavam por tecidos frouxos, como se aquele comportamento fosse parte da ordem. Aquele magenta profundo das velas, era uma cor que me lembrava carne, feridas, dor, prazer. Eu observava aquilo no começo incomodada, mas aos poucos me aceitando como parte daquilo. Mara crispava os lábios, seu semblante sério e sua rigidez era um contraste estranho com aquele ambiente e entendi que ela pertencia a um tempo que a ordem não era assim.

— Isso não é devoção — ela murmurou baixo para que só eu a ouvisse. — isso é fraqueza. A ordem é feita de silêncio, lâminas, dor e jejum. E agora o que vejo diante de mim? Uma geração que reza através de beijos e carícias e matam com o que? Perfume de flores venenosas? O propósito da ordem é manter o ciclo e destruir aqueles que o interrompem…

Ela reclamou por bastante tempo e falou mais do que eu já a tinha ouvido falar e com suas queixas eu descobri que a ordem era como uma seita que mantinha o ciclo natural da vida intacto e que destruía tudo e todos que quisessem ultrapassar o ciclo natural, isso incluía Drácula, mas a ordem que víamos agora e que, não por escolha, fazíamos agora parte, queria manter o castelo vivo. Seu olhar endurecido e sua irritação por aquela nova ordem me incomodou mais que a cena diante de nós e me senti um pouco culpada, pois em segredo eu invejava aquelas mulheres, a forma como riam sem medo, como se permitiam tocar e serem tocadas, como se o mundo fosse apenas aquela noite e o único mandamento que seguiam fosse o de se deixar sentir. E eu senti, contra a minha vontade, uma chama lenta se acender dentro de mim. O cheiro do vinho e das peles suadas misturavam-se ao cheiro de ozônio daquele lugar. O som dos sussurros, dos risos contidos e dos lábios encontrando beijos, me faziam recordar Hadassa, minha amante perdida, aquela cuja ausência ainda me doía o peito.

Naquele instante percebi que a sensualidade não vinha apenas dos corpos das freiras, estava em tudo na cor das velas, no templo, nas flores, na comida, no vinho, no ar saturado com cheiro de ozônio, luxúria e morte que me faziam sentir um sabor forte na boca, um sabor que depois de leves movimentos da língua se desfaz e traz com ele pequenas mortes. A sensualidade estava também em mim e ao meu lado, Mara não percebia que o seu desprezo por tudo aquilo não faria mudar nada naquele lugar. E talvez essa fosse a intenção do local, a intenção dessa ordem, nos fazer sentir até doer. Acabamos de comer e fomos levadas por Iridia a um pequeno quarto com colchões improvisados, Iridia nos deixou nos lembrando que no outro dia tínhamos mais a conversar. Me deitei naquele colchão improvisado e tentei encontrar algum descanso, mas o sono fugia de mim. Mara estava deitada em outro colchão ao meu lado ainda desperta e percebi como estava impaciente pela forma que batia os dedos na faca que tinha sobre si, faca essa que não sei onde ela tinha conseguido, ela estava impaciente como se estivesse à espera de um inimigo invisível que precisasse atacar.

Ela se ajeitou no colchão, com os olhos ainda fixos no teto, seu silêncio pesava como de costume, cortante e incômodo como a lâmina que agora carregava consigo. E imagino que cada riso, cada beijo das freiras era um insulto, uma afronta à disciplina que ela tinha. Porém dentro de mim, algo se movimentava, eu via um pecado bem-vindo onde ela via fraqueza e esse contraste me devorava por dentro. E comecei a pensar nas velas que queimavam lentamente, nas freiras que se acariciavam sem pressa, que bebiam sem pudor, que faziam Mara desviar o olhar furiosa, mas eu não conseguia desviar o olhar, meus olhos me traíam e quanto mais eu tentava afastá-los mais eles se voltavam. E o desejo e culpa se confundiam em mim, tanto que fizeram meu peito começar a doer só de imaginar. Virei meu rosto discretamente para Mara, seu perfil duro e impiedoso, mas também belo, mais belo ainda agora em carne e ossos, parecia tão alheia ao que talvez eu estivesse sentindo e pensando, ou talvez soubesse e por isso se mantinha em silêncio. Eu sentia que eu estava cedendo ao abismo, enquanto Mara construía uma muralha entre nós e nada continuava sendo dito, e eu queria dizer algo ou que algo fosse dito, e percebi que o desejo faz doer mais quando não se encontra as palavras certas.

Adormeci sem perceber, como se estivesse sendo engolida pelo abismo que eu já queria ceder, quando abri os olhos já não estava mais no quarto, meu corpo nu aquecido por uma água de cor fúcsia-brilhante, paredes que pareciam como carne viva e acima de mim um teto escuro com flores carmim que pingavam sangue naquela grande piscina com água quente. As freiras estavam lá, mas seus rostos eram véus escuros sem feições, e mesmo assim me olhavam, suas mãos estavam estendidas em minha direção delicadas e suaves e quando tocavam minha pele eram frias como ferro, beijavam-se ao meu redor com seus rostos sem feições, riam baixo e cada riso era como uma lâmina penetrando meus ouvidos. Mara emergiu do centro da piscina, vestida de branco, tecido molhado colado ao corpo, o vestido salpicado com o sangue que pingava do teto, ela não falava, não sorria, apenas me olhava e eu não sabia dizer se aquilo era uma censura ou um convite. Eu tentei ir até ela, mas meus braços e pernas estavam presos por raízes cheias de espinhos que se cravaram em minha carne causando feridas que sangravam demais. As freiras acariciavam minhas feridas com gestos delicados e cada toque trazia dor e êxtase ao mesmo tempo.

Quando finalmente consegui me soltar das raízes e das freiras, cheguei perto de Mara e quando toquei sua pele quente, ela dissolveu em pó e dela surgiu um esqueleto perfeito, como o que eu vi quando Drácula a reconstruiu no palco. O esqueleto sorriu um sorriso insano e se cobriu de sangue, que fez a piscina transbordar e sua água fúcsia ficar em um vermelho vivo. Do fundo ouvi palmas, lentas e pesadas e quando olhei em direção a elas vi Drácula sentado na plateia do meu sonho, sorrindo, como se fosse um crítico que estivesse observando e analisando cada detalhe da peça. Foi nesse instante que acordei com o coração disparado e o corpo suado. Mara dormia no colchão ao meu lado de costas para mim e dentro de mim eu desejava que aquilo fosse apenas um sonho e não um presságio.

Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Valesca Afrodite

Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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A Transcendência do Silêncio

O silêncio é um corpo que respira no escuro, | pele de sombra colada à alma da noite. | Ele pulsa como ferida não dita, | como promessa trancada em lábios de ferro…

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Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

I – O Silêncio

O silêncio é um corpo que respira no escuro,
pele de sombra colada à alma da noite.
Ele pulsa como ferida não dita,
como promessa trancada em lábios de ferro.

Há nele o peso de cem catedrais desertas,
onde cada eco é oração abortada.
O desejo se deita nele, invisível,
como fera à espreita no ventre da escuridão.

Nenhuma palavra se atreve a nascer,
mas os olhos gritam em febre clandestina.
Entre duas bocas suspensas,
o ar é um véu que treme, mas não se rompe.

O silêncio é punhal e é véu,
é cruz e é carne.
Não consola, não acolhe,
apenas incendeia o que tenta ocultar.

A respiração é oração contida,
rosário de gemidos que se negam a existir.
Mas o corpo, traidor da alma,
curva-se ao chamado de sua própria vertigem.

Quem toca o silêncio abre portais,
como quem pisa em solo sagrado profanado.
A quietude é apenas disfarce,
máscara da fúria que quer ser revelada.

O instante é prelúdio,
e o prelúdio já é queda.
Não há inocência no mutismo:
há apenas desejo coagulado.

Quando o silêncio enfim se rompe,
não há volta.
O grito é nascimento e sentença,
e quem o pronuncia já não se pertence.


II – O Sangue

O sangue é a língua do êxtase.
Ele escorre como vinho sacrílego,
rubro sagrado que consagra o instante
em que dor e prazer se entrelaçam.

Cada gota é pacto selado,
palavra gravada em carne viva.
É comunhão obscura
onde dois se tornam um abismo único.

A mordida é rito e coroação,
incisiva coroa feita de dentes e vertigem.
Ela não fere: ela liberta,
abre a porta para o gozo sem nome.

O rubro é banquete dos amantes da noite,
melodia de artérias em festa secreta.
Não há saciedade, apenas mais sede,
e cada sorvo é eternidade roubada.

Vampiros sabem: o sangue é oráculo.
Ele canta segredos nas veias,
ele revela a nudez da alma
no instante em que se mistura ao desejo.

Não há corpo sem ferida.
Não há prazer sem cicatriz.
A dor é oferenda,
e o êxtase, sua colheita.

Quando o rubro desce pela língua,
é mais que carne é universo.
O beijo sangrento é sacramento,
e a eternidade se escreve em veias abertas.

O sangue não mente.
Ele é a assinatura do prazer.
Quem o prova jamais retorna,
pois já pertence ao abismo.


III – A Luxúria

O corpo é templo profanado.
Cada curva, altar; cada sombra, labirinto.
A luxúria dança em sua nave,
chama que devora, mas não se extingue.

O prazer nasce na ruína.
Gemidos quebram muros internos,
suor é chuva que batiza o pecado,
e a carne se faz escritura viva.

O desejo não pede, exige.
Ele ordena como tirano amado,
e o súdito, em delírio,
oferece a própria ruína como trono.

Cada toque é incêndio.
Cada suspiro, queda.
Não há ternura:
há apenas a fome dos que sabem da morte.

O gozo não consola,
ele fere, ele abre, ele consome.
Mas a ferida é cântico,
e o cântico é mais doce que salvação.

A luxúria é caminho sem volta.
Um labirinto sem saída,
onde quem entra nunca retorna
pois aprende a amar a própria perdição.

O corpo não é cárcere:
é catedral em ruínas
onde anjos caídos ainda rezam
em idioma de gemidos.

Luxúria é divindade noturna.
Não julga, não absolve.
Apenas recebe como altar insaciável
todas as oferendas da carne ardente.


IV – A Transcendência

Após o gozo, não há descanso.
Há queda mais funda.
Há voo invertido
de quem toca o inferno para ver o divino.

O êxtase é um dos Deuses sem rosto,
que exige adoração em lágrimas.
Não é amor, não é pecado:
é a fusão febril dos dois.

O coração, crucificado,
pulsa como altar em chamas.
Cada batida é prece e maldição,
cada suspiro, ascensão pelo abismo.

Não há céu depois da vertigem,
apenas outro mergulho.
O prazer é espiral infinita,
onde cada fim já anuncia novo começo.
Quem goza morre.
Quem morre renasce no desejo.
Esta é a lei secreta:
morrer sempre mais para viver sempre mais.

A transcendência não é luz.
É treva que acolhe como mãe,
é sombra que alimenta,
é eternidade que se confunde com delírio.

O corpo exausto despenca,
mas a alma desperta em febre.
Descobre que o abismo é também escada,
que a vertigem é também voo.

O êxtase não se esgota.
Ele recomeça em cada olhar,
em cada silêncio, em cada gota de sangue.
O eterno é isto: morrer e renascer no desejo em silêncio.


Escrito por:
Marcolongo Ricardo

Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
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Amor Etéreo

Dentro de mim reside uma chama acesa, | Habita a obscuridade de meu coração, terreno arenoso. | Ela perpassa meus pensamentos e apazigua meus sofrimentos…

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Dentro de mim reside uma chama acesa,
Habita a obscuridade de meu coração, terreno arenoso.
Ela perpassa meus pensamentos e apazigua meus sofrimentos,
Desnuda meu peito inflamado, melancólico.
Etérea, me consome.

Ela crepita com cálida ternura,
Aproximando-me de seu ardor inebriante!
Guarda em mim seu doce incenso,
O aroma aveludado dos vinhos:
Amor marcado em mim eternamente.


Escrito por:
Júlia Trevas

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Delírio Febril

Enquanto guardo minha obsessão em meu íntimo, um pensamento sorrateiro surgiu, causando-me calafrios: será que mais alguém achou o temível livro?…

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Enquanto guardo minha obsessão em meu íntimo, um pensamento sorrateiro surgiu, causando-me calafrios: será que mais alguém achou o temível livro? Abro a porta, olho em volta e, aparentemente, não há ninguém. Perambulando, encontro um dos muitos corredores existentes; conforme atravesso, lembro do encontro interessantíssimo que tive com o professor Monm, uma figura distinta. Dificilmente esqueceria o brilho em seus olhos, pois ele é semelhante ao meu... gostaria muito de ser uma de suas alunas, tenho certeza de que seu conhecimento seria de valor inestimável para mim. Espero que o Castelo proporcione nosso reencontro.

Ao final do corredor, encontro o grandioso salão, palco de uma noite memorável. Foi exatamente aqui onde ocorreu o primeiro baile de máscaras. As lembranças que pareciam estar adormecidas despertam com mais intensidade. Imediatamente, vislumbrei o vazio se materializar através de memórias fantasmagóricas.

Com clareza, vi o lugar sendo ocupado por mulheres e homens em trajes de gala, ostentando suas exuberantes máscaras. Reverberava em meu ouvido as funestas notas da peça Toccata and Fugue (música tocada pelo quarteto naquela ocasião). Contemplo os vultos em longos vestidos rodopiando em tonalidades diferentes, sem contar aquele vertiginoso encontro com aquela criatura lúgubre de olhos azuis, tão enigmáticos quanto a vastidão do universo.

Defronte para o silêncio, sussurro seu nome com a delicadeza de quem assopra a chama de uma vela: “Nickollas”. Meus caninos sobressaltam; não consegui disfarçar o desejo sombrio. Fito a janela onde ele me levou naquela noite para observar a túrgida lua — lembro de como a veia em seu pulso resplandecia à penumbra do luar e do excitante som ao rasgá-lo.

Mas algo me trouxe à tona: um brilho arcano de tonalidade magenta surgia pelos arredores do Castelo. Conforme ia se aproximando, clareava o recinto. O que será isto? Assustada, vou até a janela e a atravesso. O frescor da brisa toca minha tez ávida (não lembro a última vez que saí do Castelo).

Era impressionante a dimensão da névoa. Via-se pouquíssimo do firmamento, assim como a vasta e verdejante vegetação composta por exuberantes carvalhos com suas belas folhas, altas faias, baixos arbustos e, pelo chão, gramíneas cresciam desenfreadamente. Avisto uma esguia trilha que se estendia mata adentro; decido segui-la.

Nos primeiros passos, um frescor inexplicável invade meus pulmões, como se ali tivesse caído uma forte chuva. Tive a nítida sensação de que a vegetação se movia, como se estivesse respirando. Abaixo e inspiro aquele cheiro melancólico; então, enterro meus dedos sob aquele solo úmido, deixo escapar um gemido inaudível, acompanhado de intenso salivar. Retiro-os ainda úmidos (isso foi intenso) e sigo em frente.

A bruma que outrora era magenta adquiriu tons em escarlate e também ficou mais densa. Após muito caminhar, tenho um vislumbre espetacular: perante a mim, erguia-se um arco esculpido em mármore branco, de altura considerável. Os galhos das faias abraçaram aquela estrutura com afinco.

Estava perplexa com este lugar. Será que acessei outra realidade? Um brilho longínquo surgia dentro da mata. Munida de curiosidade e excitação, atravesso e, mais alguns passos à frente, encontro uma ampla piscina. Parece ser profunda, sua borda feita do mesmo material do arco. As águas eram serenas e sombrias, de mesmo tom da névoa, porém a cor escarlate era predominante.

Um incontrolável desejo de mergulhar se apoderou de mim. Estava prestes a realizar tal ato quando ouço passos em meio à névoa. Sem dúvidas, uma visão espantosa, semelhante a uma aparição fantasmagórica, movia-se com espantosa graça. Parou em frente à borda; então, tive um vislumbre estupendo.

Uma figura feminina, de altura média, sua pele lívida, semelhante a uma boneca de porcelana, dona de uma beleza arrebatadora. Seus olhos eram um excitante enigma o qual adoraria desvendar. As sobrancelhas eram arqueadas, o nariz afilado, emoldurando aquele rosto, longos cabelos negros com duas mechas brancas, chegando na altura dos quadris.

Usava um vestido translúcido; havia rendas francesas tanto na barra como no provocativo decote, ressaltando ainda mais os esplendorosos e firmes seios. Caminhava naquela névoa, tal qual uma bailarina.

Mesmo sem saber a natureza daquela aparição, anseio ardentemente possuí-la. Assisto-a andar pela borda com muita destreza. Em certo momento, ela mergulha a ponta do seu pé direito na água, espalhando gotículas vermelhas no ar, maculando o vestido, assim como a borda. Vi nascer de seus lábios um sorriso tão enigmático quanto o da Mona Lisa.

É impressionante o poder que ela exerce sobre mim. Seus gestos suaves afloram meu lado selvagem, atiçando uma luxúria quase obscena. Um desejo ancestral floresce do meu âmago; nunca pensei que fosse sentir tais sentimentos.

Desenvolvo uma certa obsessão, beirando ao voyeurismo. É excitante pensar na possibilidade dela estar me vendo... Depois de andar, ela senta com elegância e toca suavemente as águas com os dedos indicador e médio em movimentos circulares, criando calmas ondas. Hipnotizada, contemplo seu reflexo distorcido; então, escuto um sussurro vindo da criatura:

— Me chamo Olívian d’Nehr — finalmente pude ouvi-la. Sua voz era doce e irresistível, como o licor das maçãs sangrentas.

O movimento circular se intensificou, deixando a água cada vez mais agitada. Aquele som fez meu corpo contorcer em espasmos libidinosos. Das minhas entranhas escapam gemidos, até que os movimentos cessam (mas as águas permaneceram inquietas, assim como meu âmago). Em seguida, fitou-me e sorriu, enquanto meu colo pulsava em descompasso. Das águas, ergueu os dedos e me chamou silenciosamente; assim o fiz, caminhei ao seu encontro, sem questionar.

Olívian estava de pé, parada. Seus cabelos bailavam com muita leveza ao som dos ventos. Então, fechou os olhos e despiu-se. Fui acometida por um estado febril intenso; abracei a volúpia com fervor. Neste momento, éramos como Adão e Eva na imensidão do Éden e estávamos prestes a morder o fruto proibido. Gostaria de ter pincéis, tintas e um quadro para eternizá-la; seria uma pintura digna de filas quilométricas, sua beleza era assustadora.

Me despi com uma certa rapidez. Vi seus olhos castanhos escuros brilharem diante do meu corpo nu. Finalmente, estou face a face. Sua respiração tranquila, porém quente, toca meu rosto. Ela tinha as mesmas expressões da pintura “Deusa Vênus” feita pelo talentoso pintor italiano, Sandro Botticelli.

— É um prazer inefável conhecê-la, Olívian — as palavras foram silenciadas pelo desejo. Meneou a cabeça cordialmente, seguido do sorriso enigmático. Ouço novamente mais um sussurro: — Acompanhe-me.

Caminhamos por algum tempo até que avistamos uma frondosa árvore a qual me era familiar. Reconheceria aqueles frutos até de olhos vendados. Daquela árvore vinham as afrodisíacas maçãs sangrentas. Olívian pegou uma das inúmeras maçãs, olhou ardentemente em meus olhos e mordeu com avidez, espalhando pelo ar gotículas. A espessa seiva também serpenteou por entre dedos, mãos, queixo, pescoço, passando por entre o colo, cessando em suas pernas.

Ela me oferece a maçã; mordo com vontade, sinto novamente aquele gosto sombrio, porém inesquecível. Deixo a maçã escapar de minhas mãos. Banhadas pela bruma e pelo tênue luar, nossos corpos ardentes se entrelaçam, tornando-se um só. Sob o úmido chão, me entrego ao oceano de prazeres e libertinagem inimagináveis.

Noctígeno
Rose, uma jovem de espírito sensível, adentra o Castelo Drácula em busca de respostas para os mistérios que a cercam. Lá, ela se depara com um livro encadernado em pele humana, cujas páginas parecem proteger verdades inomináveis. À medida que mergulha nas profundezas do castelo, Rose enfrenta visões perturbadoras e enigmas que desafiam sua sanidade. Em sua jornada, ela descobre que a verdade pode ser mais sombria do que jamais imaginou, e que o conhecimento tem um preço que talvez não esteja disposta a pagar. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Pablo Henrique

Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Túnica

Me pego a imaginar, já faz uns dias, | Você trajada em vestes antiquadas: | Num branco esvoaçante entrelaçada; | Cabelo solto ao vento… Qual rainha…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Me pego a imaginar, já faz uns dias,
Você trajada em vestes antiquadas:
Num branco esvoaçante entrelaçada;
Cabelo solto ao vento… Qual rainha

Pisando em corredores, à tardinha,
Sem muito o que fazer, atarefada
Somente com ideias… Uma vida
De sonhos, num palácio baseada…

Às noites, quando quentes, imagino
Também você num quarto, se despindo
De todos adereços… e, na cama,

Seu corpo me dizendo ser bem-vindo
Meu tempo de prazer com essa dama
Que vejo semideusa em mundo antigo…


Escrito por:
Wallace Azambuja

Wallace Azambuja vive em Porto Alegre e estuda Letras na UFRGS. Sua paixão por sonetos é intensa e sua maior produção literária atual está voltada à escrita deste clássico formato poético. Atraído pelo mistério e profundidade da Literatura Gótica, o autor participou do Desafio Sombrio 2023, onde mostrou seu talento para o estilo obscuro e, também... » leia mais
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Balthazar Crown – O Chamado do Castelo

A pena deslizou pelo papel como uma adaga na carne. Cada frase, um corte. Cada palavra, um espasmo de dor. No último ponto, a personagem se extinguiu…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

A pena deslizou pelo papel como uma adaga na carne. Cada frase, um corte. Cada palavra, um espasmo de dor. No último ponto, a personagem se extinguiu — abandonada em um fim de agonia, sem consolo, sem salvação.

Balthazar repousou a pena. O silêncio que se seguiu era denso, como se o próprio ar lamentasse. Então veio a recompensa: um calor súbito percorreu suas veias, reacendendo-lhe a vitalidade; a pele pálida brilhou com frescor juvenil; os músculos se retesaram com a firmeza de quem jamais conheceu decadência.

E então vinha o deleite. Não simples vigor, mas um arrebatamento febril, comparável ao êxtase da carne. Cada fibra de seu corpo vibrava como se mãos invisíveis o percorressem. O calor que lhe incendiava o peito não era apenas vida — era gozo, puro e incontido.

A imortalidade lhe trouxera a dádiva de provar todos os sabores da carne e, ao mesmo tempo, o fardo de que nenhum sabor permanecia por muito tempo. Mulheres, homens, corpos cis e trans, ativa ou passivamente — a eternidade lhe dera palco para todas as formas de prazer.

E, ainda assim, o tédio era sua sombra inseparável. Até o êxtase, quando repetido, tornava-se um abismo de monotonia. Talvez fosse por isso que a dor de seus personagens o excitasse tanto: era a única novidade capaz de incendiar-lhe a alma já cansada.

Ergueu-se da cadeira, esguio, elegante, com o porte ereto de um príncipe amaldiçoado. Atravessou o aposento até uma mesa lateral, onde repousava uma taça de cristal. Serviu-se de vinho vermelho-escuro, tão denso que lembrava sangue coagulado.

Elevou a taça na penumbra e brindou com a ausência invisível. — Mais um, minha silenciosa companheira. Mais um que se extingue para que eu continue. Tu não me tomas, mas jamais me deixas. Brindemos, pois, à eternidade que me cobra sempre em sofrimento alheio.

O cristal soou no vazio, e nenhum eco respondeu.

Foi então que o ar se quebrou. Não em som, mas em essência. O vinho tremeu dentro da taça, as velas se curvaram todas em uníssono, e um frio atroz se ergueu das pedras do chão, escalando-lhe os ossos como serpentes geladas.

Balthazar não piscou. Observava. Notou que as chamas não vacilavam ao acaso, mas oscilavam num mesmo compasso. Notou que o frio vinha em pulsos, intervalados como batidas de coração. Notou, sobretudo, que não estava só.

Uma presença sutil, quase imperceptível, pairava no ar. Algo invisível o estudava, respirava junto às suas palavras, como se o chamasse para atravessar os limites do aposento. O ar pulsava, pesado, e o frio que subia pelos ossos parecia guiar seus passos para um destino além da realidade conhecida.

A sombra diante dele não possuía forma fixa. Oscilava, dobrava-se, esticava-se. Em certos instantes lembrava um véu flutuando; em outros, curvas insinuantes, bocas que suspiravam, rostos deformados — talvez ecos das vítimas que enterrara em suas narrativas. O aposento inteiro cheirava a livros úmidos e a perfume noturno, como se cada palavra escrita por suas mãos tivesse se dissolvido no ar para compor aquele espectro.

Um homem comum teria recuado, mas Balthazar sorriu. — Ah… então és tu quem me observa quando escrevo.

Os olhos treinados dele conseguiram captar um espectro. Era parecido com as manifestações espectrais de seus personagens, que surgiam diante de si após escrever seus finais trágicos e dolorosos. Mas tinha algo a mais. Uma atração quase irresistível. Era como se a pena que repousava em seu bolso o puxasse na direção dela, como se o próprio ar o acariciasse.

Um passo na direção da presença e o chão dissolveu-se. As paredes tombaram como cortinas rasgadas. E ele caiu — não em queda, mas em transição. Quando abriu os olhos, o mundo era outro.

À sua frente erguia-se uma fortaleza impossível, construída à beira de um penhasco sem fim. Suas torres góticas se retorciam em direção ao céu, mas o céu era um vazio sem estrelas, um firmamento oco que não conhecia sol nem lua. As muralhas respiravam em silêncio, como se cada pedra fosse parte de um corpo vivo.

E os jardins… Infinitos. Labirintos de flores negras e árvores que se curvavam em ângulos proibidos, multiplicando-se como reflexos em espelhos partidos. As estátuas, espalhadas em meio à vegetação, fitavam-no com olhos que se moviam quando não eram vistos. Algumas possuíam corpos nus entrelaçados, contorcidos em êxtase petrificado. Pétalas úmidas brilhavam como se estivessem molhadas de lágrimas — ou de suor.

Balthazar caminhou até a beira do abismo. O vento inexistente não lhe tocava o sobretudo, mas ainda assim ele se abriu, como asas prontas a alçar voo. Seus olhos azul-acinzentados refletiam o nada infinito.

Ergueu a taça de vinho que ainda segurava. O líquido permanecia intacto, como se tivesse atravessado os mundos com ele.

— Eis teu palco, morte. — Ele sorriu com cinismo. — Ainda não ousas tocar-me, mas ainda assim me segues. Que teatro sem tempo é este, que aguarda pela minha pena?

O silêncio respondeu, profundo, eterno.

Mas então, outra voz se ergueu — não vinda do vento, mas da própria essência do abismo. Era doce e terrível, como sinos fúnebres ao longe, e carregava um perfume que lembrava tanto o velório quanto o leito.

— Chamam-no de Castelo do Drácula. — A figura surgiu diante dele, moldada em beleza impossível. Seus cabelos eram véus de treva, sua pele, mármore iluminado por uma luz sem fonte, e seus olhos, dois poços nos quais todos os séculos afundavam. — Um lugar fora do tempo, fora do espaço. Se chegou até aqui, é porque já o aguardavam. Mas não cabe a mim lhe explicar mais.

Balthazar sorriu com ironia suave, erguendo a taça na direção dela.

— E por que não vens comigo? Foste minha única companheira verdadeira por todas essas décadas.

Os lábios da Morte se curvaram, entre riso e desdém.

— Seria deveras interessante, Balthazar. Mas não fui convidada. Você sim. O que começa aqui, no receptáculo que se alimenta das tuas palavras, é apenas o primeiro capítulo.

O vento inexistente silvou como gargalhada. A Morte sorriu pela última vez — gesto que era tanto consolo quanto sentença — e então se desfez no ar, como névoa tragada pelo próprio vazio. Nenhum passo, nenhum som: apenas deixou de estar, tão abrupta quanto surgira.

Balthazar, sozinho outra vez, voltou-se para os portões colossais do Castelo. O vinho ainda repousava intacto em sua taça, e seu reflexo nas paredes vivas parecia observá-lo com expectativa. Ele respirou fundo, bebeu o líquido em um gole só, e uma centelha de júbilo percorreu-lhe o olhar.

— Está certo, então. A eternidade já estava ficando entediante. Aqui inicio um novo capítulo na minha história.

E caminhou, sem pressa, como quem escreve as próprias páginas com o simples peso de seus passos, sem saber ainda todos os segredos que aguardavam por ele no coração do Castelo Drácula.


Escrito por:
Hel J. L. Costa

Hel J. L. Costa é escritor, poeta e editor da Editora Helden. Sétimo filho, nascido em Ribeirão das Neves (MG), em 1985, encontrou na escrita uma vocação desde a adolescência. Dedica-se a obras de fantasia, terror e temas sobrenaturais. Participa de diversas antologias e é autor do romance A Donzela e o Vampiro, disponível na Amazon. » leia mais...
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Coroação de Sangue

Cordas mordem sua pele como dentes impacientes, | marcando trilhas vermelhas | onde o sangue ameaça florescer. | Ela sorri, um eco rouco de prazer, | entre gemidos contidos…

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Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Cordas mordem sua pele como dentes impacientes,
marcando trilhas vermelhas
onde o sangue ameaça florescer.
Ela sorri, um eco rouco de prazer,
entre gemidos contidos.

Ele pensa ter vencido,
mas seu aperto apenas inflama a sede dela.
Cada nó é um convite proibido,
cada puxão,
desperta a besta.

Ela arqueia o corpo, oferece o pescoço,
deixando o pulso latejante,
altar e sacrifício.
Ela gosta do jogo, de fingir-se domada,
mas sob as amarras,
urge, é ameaça.

Um fio de sangue escorre lento,
perfume metálico,
urro intenso.
Seus olhos brilham rubros,
gargalha no escuro.

Por dentro, é explosão,
é desejo.
Dedos longos e ossudos,
presas sedentas.
É bicho, é monstro,
realeza.

Quando as cordas são rompidas,
não é libertação, é coroação.
Ela é a fome, é o êxtase,
é vítima, é carrasca.
É a morte, é o gozo,
ela é a noite que não se enjaula,
e ele, agora,
não passa de carne.


Escrito por:
Luiz E. Tassini

Luiz Tassini é mineiro, de Belo Horizonte, mas mora em São Paulo. É apaixonado por horror, suspense e sci fi. Já escreveu de poemas a crônicas, foi colunista em blogs e, atualmente, se aventura nos contos. Participou de diversas antologias, em diferentes editoras. Produz conteúdo sobre Horror no @eitaquehorror, no Instagram. Trabalha também com revisão, preparação e revisão de textos, tradução e leitura crítica. É pai de dois meninos, uma gata, uma cachorra, é marido e veterinário. » leia mais...
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LXXXIII

Gotas sutis de rubra e negra cor, — Axioma das almas notívagas | Pretensiosos corações abnóxios, | inerte a razão ante a escuridão | Em habitação tão inócua de tua mente…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Gotas sutis de rubra e negra cor, — Axioma das almas notívagas
Pretensiosos corações abnóxios,
inerte a razão ante a escuridão
Em habitação tão inócua de tua mente

Abjura sua íntima intenção, — Secretos e carnais anseios
Abrasamento inquietante das emoções
travessa criatura da noite

No interior de seu ergástulo, —Desnude sua alma ante a alva
O febril estado, os lábios trêmulos e a palpitação
Embriagando-se de ambrosia, — Da paixão com afronésia
o toque frio de imortal amor

Por filáucia mortal, — Transbordam palavras de cântaros de malícia
Fascina os ouvidos imprudentes,
Oh, estes alucinam avidamente o toque
Crônica de amores, — Refugio na noite magenta
Lucífugos corações relatam em seiva umbrífera
Revelações intricadas em folha tão pura,
nela a verdadeira anamnese do fim.


Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
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Encontros tórridos com Eco reinventada

Contornei as curvas do belo corpo. Sem a urgência de término, acompanhava como observadora silente, o surgir dos poros, as moitas que adornavam o…

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Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Por Alana Mortensen

Contornei as curvas do belo corpo.

Sem a urgência de término, acompanhava como observadora silente, o surgir dos poros, as moitas que adornavam o sexo e rosto pueril, os dentes alinhados, sem a brancura excessiva resultado de tratamentos estéticos. A textura e odor das flores era o que mais me aprazia — podia sentir o frescor agradável tocar minhas narinas. Os efeitos que a iluminação e perspectiva suscitavam em sua tez reforçavam o cenário onírico.

O balanço gentil do rio acalmava quaisquer perturbações. Técnica ou efeitos do Castelo na tela?

O líquido carmim, que aspergi em seu colo, realçava a beleza delicada, primal e arredia. O processo contínuo e minucioso acalmou as elucubrações daquele dia, mas garras de perturbação insistiam em se engalfinhar na obra. O êxtase era obtido sem pressa.

Éramos peças postas de forma estratégica no tabuleiro-tela.

Aquela figura suave parecia desfilar na tela, meus pincéis já sabiam acompanhar seus intentos. Desnudava-me de meus preconceitos, deslizando por entre caprichos de Eco. A forma corpórea perdia-se entre as névoas magentas; a superfície assemelhava-se a espelho d'água. Contemplava a mim?

“Venha, não tenha medo... medo... edoo... edoo”, a voz vacilante, afogada pelas águas que abarcavam suas pernas; o olhar fixado, como quem não esmorece diante de nada; a mão estendida, convidativa, exercendo influência sobre mim. Tal qual fora a minha chegada a este Castelo, fui persuadida a adentrar aquele mundo rubro-desbotado. As águas do meu interior fervilharam ao tocar a mão fria, mas macia.

Meu quarto transformou-se no cenário irretocável, irreal e plástico. Eco escancarou a porta, cujo olho-mágico era a tela. Hipnotizada, deixei-me conduzir por seus encantos, sem conseguir emitir som, pois voz não fazia parte daquele momento pictórico. Deslizamos sobre a relva úmida, recordando sensações há tempos adormecidas.

Já tiveste contato verdadeiramente íntimo com alguém, a ponto de não precisar estimular as terminações nervosas da flor que desabrocha na adolescência, mas mesmo assim, sentir-se em estado de êxtase? Conseguiria afirmar que isso é possível?

Decorreram-se horas ou dias, isso não tem importância, o tempo já me é alheio. Após esses primeiros contatos, físicos ou metafísicos, chegamos ao seu lugar de refúgio, um reservatório com águas calmas e rubras, vigiado por oito colunas, com seus capitéis dóricos suntuosos, dispostos como voyeurs das nossas tórridas aventuras. Minhas mãos percorriam ágeis, agora sem pincéis, as curvas de Eco. Sentia-me fadigada, mas não conseguia interromper o ciclo retroalimentado pelo deleite extraído e provocado.

Continuei nessa posição até sentir uma pressão no tornozelo, que logo transformou-se em agonia. Recobrei meus sentidos e percebi que Lisa cravara suas presas com afinco. Por que não gritara?

— Não era Eco, mas uma criatura maléfica. Chamei reiteradas vezes... Esta foi a forma de trazê-la de volta. Ela minaria suas forças até você ... — respondeu, hesitante, e adivinhando meus pensamentos.

Meu braço ainda exibia a marca do beijo-toque, feito ferro em brasa, que a tinta fresca imprimiu em mim. Eu não saíra daquele quarto e, agora sabia, algo maléfico viera ao meu encontro.

As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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Intumescer

Kaire, tríplice eclipse, ao deleite do meu psique! | Que teu trovão d’alma irrompa, que o clamor de abysmo | soem em meus ossos como se o próprio firmamento…

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Kaire, tríplice eclipse, ao deleite do meu psique!
Que teu trovão d’alma irrompa, que o clamor de abysmo
soem em meus ossos como se o próprio firmamento
rasgasse em vísceras de treva, tua sensualidade abraça-me.
Bruxa de orbes cerúleos, amo-te como Gomez Addams.
Abysmal senhora das neblinas e mãe de todos os corvos,
sois meu cálice sanguíneo, sois minha queda, sois meu êxtase.

Em pergaminhos de carne me transfiguro,
folhas que voam em ventania noctívaga,
lágrimas de tinta que copulam com o vácuo.
Eis tu, minha senhora do arcano,
colhes minhas sílabas como se fossem
feridas sagradas em liturgia profana.
Eu que senti no osso do gozo, na culpa,
bálsamo na chaga, a dor é sacramento, e o éter-pecado, altar.

Vede o híbrido ser brandindo ao sexo sobre minha fronte,
desfazendo ídolos em pó e silêncio.
Um anjo corrompido pelo sangue do desejo,
um vampiro sexual,
um lupino que rasga com seu uivo de tesão,
até que apenas tua língua reste,
serpente rubra que me crava, que me possui,
até que não mais eu seja eu,
mas sim um delírio, epifania-mania, carne de tua carne,
espírito tragado pelo teu hálito de tempestade.

Ouvi teu uivo no ventre meu,
clamando sangue, clamando carne, clamando vertigem.
Uivo convosco, Senhora, minha treva plasmática, osmose dos desejos,
uivo contra Céus e contra Deuses, até que a lua, navalha da vida,
talhe nossos corpos em girassóis de pranto. Teu pompoarismo dissolveria meu rosto em teu espelho, tempo derretido a escorrer em teu belíssimo, formoso seio.
Ejaculo para ti a energia, ejaculo para ti minha persona, meu perispírito da noite,
ampulheta onde o instante é gozo e o gozo, eternidade.

Se a vida é labirinto, pois que seja, quero-te obcecadamente.
Eu, andarilho desnudo, me lanço às paredes em chamas,
não buscando saída, mas a coruja da resposta, o guardião da combustão. Incinero-me quando acordo pela manhã e o sol me toca a pele, mas não posso sentir o teu toque. Isso é maldição, isso sangra minha sanidade e meu coração se tomba ao trono do Drácula.

Pois o chão não existe,
apenas o céu me sustenta,
e este céu és minha cara senhoria das sombras.
Teu riso é raio, tua lágrima, oceano,
tua carne, relâmpago que me parte em duas metades.

Não desejo salvação, mas perdição absoluta.
Quero que teu feitiço me devore em chama,
que tua boca seja a guilhotina onde findo,
que teu ventre seja o sacrário onde renasço,
que teu sangue escorra em minha língua como letania de fogo.

Quando tudo em pó se fizer,
quando não houver senão cinza e gemido,
quando o verbo for silêncio e o silêncio for verbo,
então — ó Senhora, ó Bruxa, ó Maré dos Mundos —
seremos nada, seremos tudo, carne e sangue e poesia e êxtase.
Aceita: és minha e de ti me alimentarei, diária sucção de tua geradora de vidas,
e ti receberá minha língua profana e o leite de minha energia sexual em tua face.


Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
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LXXXII

O silêncio, a angústia, assim como o inaperto | em jornada abstrusa | pela dissoluta existência. | Aqui entre a absolvição e a condenação…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

O silêncio, a angústia, assim como o inaperto
em jornada abstrusa
pela dissoluta existência.
Aqui entre a absolvição e a condenação

Gotas para aluir a alma
aturdir toda sanidade
O ensejo ao caos interior

Ramos secos de inocência, — O luar lânguido no firmamento
Uma frincha para espíritos livres,
para campos de flores de quimeras.
Os jardins perdidos de seu interior

Astros celestes absortos no infinito, — Crianças da noite
embebidas em tantos pensamentos
Ah, a matiz negra, —Revoltoso mar de seu interior.


Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Ékstasis

Transcenda, desloca-te... Para um estado de intensa alegria, prazer, admiração ou arrebatamento, no qual a pessoa se sente transportada para fora de si mesma…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Transcenda, desloca-te...

Para um estado de intensa alegria, prazer, admiração ou arrebatamento, no qual a pessoa se sente transportada para fora de si mesma, do mundo sensível e da rotina diária, seja por exaltação mística, seja por sentimentos intensos.

Histanai, Histanai, Histanai.

Eu sinto o vento gélido batendo nas janelas da minha alma.

Eu sinto o frio da maresia molhando as fechaduras do meu espírito.

O verbo da areia, a noite chega, e com ela suas línguas de estrelas em que cravejo no seio da feitiçaria o sopro do mar em combustão pela alquimia inexplicável deste êxtase vulcânico, sou uma lâmpada na orelha que falta em Van Gogh, sou uma mariposa sendo incinerada em um quadro de Dali que derrete em sua paixão violenta e louca, e rugi para a madrugada até me tornar um animal despedaçado pelas próprias unhas, de tanto arranhar-me a face e masturbar-me pela poesia de sangue que consagra este voluptuoso obcecado desejo de cópula frenética à matinal sucção do clitóris da pintura que emana a chama na noite, e torno-me a chama na noite e o olho triste da máscara rachada no para-brisa que bate violento enquanto a neve cai e se cocriam amor dentro daquele carro cósmico.

E não culpo minha fraqueza, sem poder dar palavras à minha sombra que se incinera em dezenas de páginas de papel que sobrevoam a minha mente em combustão por teu desejo, por desejar-te minha, misteriosa musa, chama gêmea de meu ser em entropia, que fico doente nesse sino que emana ecos de tesão, gritos de trovão, quero lamber-te a carne magística, oráculo da natureza viva, lábaro da minha consciência melada, e domá-la em minha cama de pregos e rosas, e fazê-la impura e pura, liberta e enclausurada, viva, alucinada, minha escrava sexual, e enlouquecer-te, despetrificando esta física em faíscas e brasas, em um rugido na animalesca vontade de rasgar-te, e em teu véu me acidifico, em tua fissura, ao vosso pompoarismo me comprimir e me engasgar, de tanto me saciar em teu fluído que a preciosa vulva escorre, pois minha penetração poética é um invólucro da ideia e da ação, um terror doloroso e saboroso.

Jamais senti algo tão excitante que entorpecesse todos os meus sentidos, diariamente, constantemente, despertaste meu demônio sexual e devo conceder a ele todos os desejos e vontades e ordens pois as correntes do desejo estão em seus pulsos, minhas telepáticas mãos pressionam seu pescoço enquanto enxergo a luxúria em seus olhos de safira.

Uma sádica redenção seria o máximo de meu êxtase, quero sentir em meu tímpano abismático a sinfonia de seus gemidos eclodindo em meu mastro endurecido como carvalho, lhe entrego a torrencial da via láctea quero que se lambuze com o que eu ordenar e seu corpo entregue e nua de alma-mente, conectada, acoplada ao meu órgão sexual giraremos pela loucura desenfreada de meus desejos em conexão com todos os espirais cósmicos de nossa alma é capaz de atingir, o supra-sumo dos chakras, a kundalini acasalando com Ouroboros, a verticalização de nosso animus e anima em uma vertigem de fusão, como uma radiação nuclear, uma supernova de poesia e magia, ao sagrado masculino e ao sagrado feminino, fractais sexuais do verdadeiro poder.

É assim que me sinto, na pele, no osso, no meu átimo, quando lhe imagino nua, quando lhe imagino o gosto de teu beijo, quando lhe lambo por inteira em meus sonhos quando enxergo seu sutiã caído ao chão, quando retiras tua calcinha delicadamente com esses pés de rainha das trevas e então meu lupino íncubo incorpora e o amor fático encontra sua súcubo gulosa em meu membro fálico.

Somos o choque do caos e a loucura,

o sangue e o êxtase, o arrepio e o verbo.

Um trovão ecoa dentro do peito — não o céu, mas o coração em combustão.

Sou a carne que se rasga para deixar sair a chuva.

Não escrevo versos, sou dissolvido neles,

sou a tinta que não dorme, o rio que desagua no mar de teus olhos feiticeira de íris azuis, abismo salgado, onde o meu naufrágio se converte em êxtase.

Meu coração frenético pulsa, minha razão ri em silêncio no meu ombro: a metamorfose já começou, meu corpo se converte em páginas — voam, sangram, rasgam o vento —

cada folha um gemido, cada palavra um osso, bruxa, recolhes minhas sílabas como quem colhe cicatrizes.

Sou livro desmembrado, arremessado à noite, fazendo amor com a névoa como quem deseja a penetração selvagem do invisível e minha sanidade sussurra: a fome é o gozo mais puro,

e eu, dilacerado, aceito, suplico, que tua boca seja a guilhotina do meu pecado, que teu sangue escorra na minha língua como evangelho herético.

Erguei o digno martelo, e em minha fronte despedaça os ídolos:

sou além-homem perdido, mas em teus lábios encontro a vontade de potência transformada em saliva, em carne que lateja, em espírito que arde.

A voz de meu desejo uiva em meu ventre:

"sangue! carne! olhos! êxtase!"

Eu grito contigo, grito contra Deus, contra o nada, contra mim mesmo, até que o grito se converta em silêncio, um silêncio tão vasto que apenas Van Gogh poderia pintar, um silêncio de girassóis rasgados pela navalha da lua.

Dali derrete minha face na ampulheta da paixão, sou tempo líquido, escorrendo pelo teu corpo, formando lagos onde teu reflexo dança, ali me perco, me encontro, me desfaço, me torno.

Quero ser o instante em que teu olhar fere a madrugada com a lâmina azul da loucura,

quero ser o arrepio que transpassa tua coluna, o arrebatamento visceral que rasga a pele e chega à medula, até que não haja distinção entre o que é teu e o que é meu.

Vida-labirinto, caminho nu pelas paredes de fogo, queimando-me em cada curva, em cada espelho, sabendo que o chão não existe — apenas o céu me sustenta, o céu és tu, feiticeira, céu de tempestade, ventre de relâmpagos, tua risada é raio, tua lágrima é maré.

Não busco redenção.

Quero a perdição absoluta, a fusão da carne e do espírito,

quero beber teu riso como vinho negro, quero me abrir em tuas mãos como um corte,

quero ser devorado pelo teu feitiço até que reste apenas cinza e orgasmo,

palavra e silêncio, poeta e sombra,

eu e tu — ou melhor, o nada — porque no nada, amor, somos infinitos.


Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
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O Conto do Corretor de Imóveis: o Diário de Bordo do Demônio

O pergaminho estava manchado de ferrugem e mofo, as bordas esfarelando como casca de árvore antiga, uma relíquia resgatada do fundo de um túmulo…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

O pergaminho estava manchado de ferrugem e mofo, as bordas esfarelando como casca de árvore antiga, uma relíquia resgatada do fundo de um túmulo úmido ou da sarjeta de algum arquivo esquecido. Atribuído à letra de Jonathan Harker, este texto, no entanto, não constava em nenhuma das edições conhecidas de suas memórias; um fragmento arrancado, talvez, ou censurado pela prudência dos seus editores, que julgaram seu conteúdo demasiado profano ou perturbador para a sensibilidade vitoriana.

O texto inicia-se assim, com a letra trêmula, por vezes quase ilegível, denunciando o tremor febril da mão que o escreveu:

Castelo do Conde Drácula, Noite Sem Lua

Tenho vivido dias que não ouso mais contar em números, pois a contagem se tornou um luxo que a minha mente não pode mais pagar. Não sei se é segunda-feira ou se já se arrasta o oco e frio domingo. Aqui, o tempo não flui; ele é devorado pelas paredes de pedra, digerido no silêncio espectral. A única marca do calendário é a ascensão da lua, que o Conde observa com uma paciência glacial, e as minhas tarefas, que se tornam mais bizarras e exigentes a cada noite que se afunda nas brumas da Transilvânia.

O Conde exige mais de mim. Não mais apenas as escrituras ou os negócios de Hillingham – um pretexto lamentável para me atrair para este calabouço de séculos. Agora, ele me interroga sobre tudo o que Londres esconde em suas entranhas modernas. Ele me esvazia, não de sangue, mas de informação.

Esta noite, fui novamente conduzido à sua biblioteca. Não é apenas vasta; é viva. Seus pilares de madeira escura elevam-se até um teto arqueado, onde sombras dançam, e as estantes se perdem na escuridão, repletas de tomos amarelados e cheiro de adormecimento. Os livros respiram poeira antiga e exalam um ar pesado, de mofo e conhecimento proibido, um aroma que parece alimentar o próprio Conde. A luz de poucas velas, presas em castiçais de prata maciça e retorcida, mal ilumina o centro da mesa, lançando um brilho covarde sobre mapas desdobrados e cadernos de anotações.

— Senhor Harker — disse ele, e a sua voz, grave e ligeiramente anasalada, carregava o som de pedras sendo arrastadas, ou talvez, do gelo quebrado de uma montanha. Ele se aproximou de mim com aquele hálito gélido que parece sorver o calor do ambiente, quase como se fosse uma nevasca localizada, e que parecia apagar a pequena chama das velas.

— Fale-me do vosso mundo. Do vosso... progresso.

Ele não se sentou. Permaneceu de pé, alto e ameaçador, a silhueta projetada pelas velas criando uma figura grotesca e distorcida contra a parede de pedra. Seus olhos brilhavam não como os de um estudante ávido, mas de um predador que fareja a artéria pulsante da modernidade. Havia uma impaciência cruel em sua postura, como um animal enjaulado observando o campo aberto.

Respondi-lhe, tentando manter a compostura, vestindo a máscara da cortesia profissional, embora soubesse que era um corretor de almas, e não de imóveis.

— Vossa Senhoria já possui uma coleção vasta. De que tipo de progresso deseja saber? De arte? De engenharia naval? De... mineração?

Ele sorriu. Um sorriso que não era humano. A linha fina de seus lábios se esticou, revelando uma frieza atemporal.

— Não da arte que é estática, nem dos navios que são lentos. Quero saber das vossas máquinas que falam sem voz. Daquelas que permitem que dois homens separados por milhas se escutem como se estivessem lado a lado, ou que lançam a notícia de um terremoto na Índia sobre uma mesa de café em Fleet Street antes que a terra se acalme.

Percebi, com um horror que gelou a medula dos meus ossos, que ele falava do telefone e do telégrafo. Não era a magia que o assustava, mas a velocidade.

— Sim, Conde. O Telefone. Uma invenção relativamente recente, mas já se espalha pelas cidades, criando uma teia de comunicação que... que encurta distâncias.

— Fascinante — interrompeu ele, a palavra dita com a mesma reverência que se daria a um ritual macabro. Ele passou os dedos longos, cujas unhas pareciam lâminas afiadas e polidas, sobre um atlas aberto, cujas páginas datavam de séculos, como se estivesse tocando um corpo vivo, ou talvez, um mapa de veias.

— Vozes que viajam por fios. Fios que penetram paredes, atravessam ruas, ignoram a escuridão e as fronteiras. Um sistema de veias invisíveis que corre sob a cidade, pulsando com a vida de outros. A própria alma do progresso — e então, ele inclinou-se, o olhar fixo e penetrante. — Um sistema de veias que ninguém vê.

Suas palavras soaram não como uma curiosidade acadêmica, mas como um diagnóstico preciso: não era interesse, era fome. A fome de um ser que depende do isolamento para caçar, e que via o seu campo de caça encolher a cada novo cabo estendido.

Fui obrigado, nas noites seguintes, a desenhar mapas. O Conde me forçava a traçar o labirinto. Usei tinta e carvão para delinear o traçado dos cabos telegráficos que percorriam toda a Europa, atravessando montanhas e mares, para finalmente desembocar no coração de Londres, na central de Holborn. Cada linha era uma artéria que ele desejava cortar, cada estação de retransmissão, um ponto vulnerável.

Mas não era apenas a comunicação.

Mostrei-lhe o labirinto dos esgotos que sustentava a cidade, a infraestrutura complexa que eliminava a sujeira e permitia que a elite esquecesse o subsolo. Mostrei-lhe o metrô, o Underground Railway, aquela serpente de ferro que corria sob os alicerces, vibrando e escavando o ventre de Londres, carregando milhares de almas a velocidades inconcebíveis para a sua época. E o sistema de jornais que, em poucas horas, lançava uma notícia fresa, uma advertência, uma descrição em cada mesa de café e em cada lar, unindo a cidade numa consciência coletiva e instantânea.

Ele absorvia cada detalhe com uma avidez silenciosa e voraz. Era a sua lição de casa. Ele tomava as minhas anotações, copiava-as com sua caligrafia elegante e arcaica, memorizava os nomes das centrais, das estações, dos engenheiros. Ele estava estudando o organismo.

— O vosso Van Helsing — disse ele certa noite, pronunciando o nome como quem mastiga veneno ou uma relíquia sacra. Estávamos na sala principal, onde a luz da lareira criava mais sombras do que calor, e onde ele costumava me reter até as primeiras horas do amanhecer, quando o medo se tornava quase insuportável. — Ele não me teme apenas com cruzes ou estacas. Ele teme a vossa rapidez. A velocidade da palavra.

Ele se levantou, caminhando até a janela, onde a neblina rastejava no pátio exterior.

— Os telegramas que unem caçadores separados. O correio que voa mais rápido que cavalos. Aquele seu telefone que o avisa de uma vítima antes que o sol se ponha. É essa a vossa verdadeira armadura, Harker. A vossa rede.

Seus olhos arderam em um vermelho profundo, a cor de uma brasa na escuridão, e a frieza de sua voz se intensificou, assumindo a solenidade de uma promessa de destruição.

— Para derrotar-vos, devo tornar-me mais veloz que a própria mensagem. Devo me infiltrar no vosso sistema de veias, e drená-lo de vida, de comunicação, de certeza.

Nesse instante, a revelação atingiu-me com a força de um soco no estômago, tirando o pouco ar que ainda me restava. Ele não queria Londres apenas por suas casas senhoriais, nem por suas vítimas, cujos pescoços representavam apenas o combustível necessário para sua travessia. Ele queria Londres por sua rede. Sua trama subterrânea de fios, túneis e informações. Ele planejava um ataque não apenas físico, mas logístico.

Ele era o Demônio, o Corretor de Imóveis, e o maior negócio que ele planejava fechar era a aquisição da infraestrutura do mundo moderno. Ele estava vindo para a civilização, mas não para se esconder nas sombras; estava vindo para aprender a desligá-la.

Mais tarde, encontrei-me sozinho em meu quarto, um pequeno cubículo frio onde a única companhia era o ranger das traves velhas no telhado e o silêncio opressor. Escrevi com o coração em chamas, a pena riscando o pergaminho com uma urgência desesperada. A cada palavra, sentia-me mais próximo da loucura, mas a necessidade de registrar a verdade era mais forte que o instinto de autoconservação.

— Ele não estava aprendendo a viver entre nós. Estava aprendendo a nos desligar. A nos desconectar. A nos isolar, célula por célula.

E assim, termino este registro, sem saber se verei a luz do dia, ou se Londres, minha pátria, minha cidade-máquina pulsante, verá a luz alguma vez mais. Pois temo que, quando Drácula caminhar em nossas ruas — e a ideia me faz sentir náuseas de terror —, não será o sangue que ele drenará primeiro. Será o mundo invisível das conexões que nos mantém unidos, que nos permite gritar por socorro através de milhas, que nos torna um organismo. Ele fará de Londres uma ilha, e então, um deserto de ecos. Ele cortará os fios, e a escuridão será absoluta.

Este fragmento encerra abruptamente, a última palavra distorcida, como se a pena tivesse sido arrancada bruscamente da mão de Harker. Não há continuação. O que resta é apenas o silêncio de uma página em branco, como se as palavras seguintes, o ápice do terror, jamais tivessem conseguido escapar da escuridão para a luz do registro.


Escrito por:
Bruno Reallyme

Bruno Silva, conhecido como Bruno Reallyme, é um escritor com deficiência visual que encontrou na escrita a extensão de seu olhar sobre o mundo. Com formação em Ciências Econômicas, Contábeis e Gestão, ele navega por diversos gêneros, como poesia, romance, suspense e terror. Sua escrita busca a autenticidade e a identidade profunda do "reallyme" — "realmente eu" —, revelando em cada palavra um universo sensível, crítico e apaixonado por narrativas. » leia mais...
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