Palíndromo de carne
Ada Reinier. Esse era seu nome; os dois nomes formavam um palíndromo, graças ao bom Deus, ela repetia, como um mantra que afastava o caos..
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Ada Reinier. Esse era seu nome; os dois nomes formavam um palíndromo, graças ao bom Deus, ela repetia, como um mantra que afastava o caos. Não sabia por que, mas nascera com uma obsessão pela perfeição, pela simetria. Dito isso, ela sabia que jamais se casaria, pois teria que modificar seu nome.
Qualquer imperfeição era uma ferida que queimava seu pensamento até o limite. Quando se machucava, sempre feriria o outro lado. Um equilíbrio imposto, necessário para o silêncio em sua mente. Sentia um contentamento, uma espécie de prazer débil, ao observar os dois lados cicatrizando por igual.
Então, por que o médico se recusava a livrá-la desse fardo, negando-lhe a paz de um corpo simétrico, mesmo que mutilado? Ele não aceitara remover o outro seio, o perfeito, deixando-a aprisionada na imperfeição. A irregularidade a dilacerava mais que o bisturi. O médico cirurgião não entendia. Como podia manter sua sanidade enquanto sua própria carne a traía com uma assimetria que não conseguia suportar? Por que ele não aceitara fazer a mastectomia? Perguntava-se, já com a faca em riste.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?…
Leia mais em “Desafio Sombrio 2024”
Ando pelo único caminho que se atravessa na neblina cinza. Preciso chegar; devo estar atrasado. Inóspito. Inseguro. Lanço dúzias de preces e continuo…
A cama estava sem o lençol. O espelho estava quebrado. Na cômoda havia poucos pertences: apenas um hábito limpo, algumas roupas íntimas…
Mmoggun era um artesão que vivia em um vilarejo isolado, onde sua arte de esculpir máscaras era vista como uma habilidade quase mística…
Certa vez, na quinta série, adaptamos a brincadeira do copo para uma folha de papel. Nessa folha, escrevíamos o alfabeto no topo e as palavras…
Falos. Colecionava-os, de todos os tipos e tamanhos. Os primeiros, comprara em sex shops. Depois que se tornara médica legista, ficou mais…
O relógio batia nove horas, e José, diferente dos jovens de sua idade, preferia estar em seu quarto, testando algum software novo, descobrindo…
Na minha maldição de viver muitas vidas, ainda tenho a vã esperança de encontrar, além dela, todas as minhas almas amigas…
Sou acumulador destas saudades | que fazem coleção dentro de mim… | Eu guardo todas co’a maior vontade, | e ao peso que elas dão não dou um fim…
Entrevistador: Qual era sua relação com a vítima? | Amigo da vítima: Nos criamos juntos. Amigos de rua, de infância…
Buscando os lisos universitários | um passatempo que não muito exija, | retiram lá de cima do armário | um roto e velho tabuleiro ouija…
Essa massa purulenta | cuja dor e sofrimento | o meu peito, enquanto aguenta, | faz por ela um juramento, | tem por força de promessa…
Tudo começou com uma reminiscência. Caminhando pela rua, por alguma calçada que serviu de gatilho, voltei vinte anos atrás…
De bruços | amortalhado | escondo o rosto e | não rezo | há dias que me rendi | às horas | à persecução | desse uniforme humano…
De soslaio | en passant | caminho retrátil da vida | a vida | sensorialmente | num piscar de olhos |desembarque brusco | ato que rende e assalta…
— Alertei para ele não ir até lá... — disse Marcos, equilibrando seu corpo inebriado na banqueta, os cotovelos apoiados na bancada de madeira…
— Cara, acho que não está dando certo — falou Fabrício, observando o copo imóvel no centro da tábua. — Pois é. Não se mexe. Talvez devêssemos…
Tenho que acordar todos os dias às 7h da manhã. Mas levantar cedo nunca foi meu forte. Para que eu consiga, de fato, despertar até o horário…
Trabalhar era meu refúgio. | Eu via pessoas e conversava. | Me distraia, | Sorria... | Mas o mundo parou, | Silenciou | E diante de tanto horror, | Se trancou…
A grama arde | O ar sufoca | O canto dos pássaros foi silenciado. | As árvores, | Antes, imponentes e frutíferas,…
Pálida e fria como porcelana | Sentia-me como uma boneca. | Os olhos, antes cerrados, | Agora conseguiam observar tudo ao redor…
No canto ali do quarto| No escuro | Sentada e descalça, no chão frio | Observo as sombras que ninguém mais vê…
Quando o lockdown começou, muitos falavam sobre o fim dos tempos; como negar isso? Eu via apenas o nada lá fora, apenas fragmentos de uma…
Observo da janela o vazio lá fora; tudo está abandonado, assim como eu aqui dentro. O silêncio é preenchido apenas pelo sussurro do vento…
Na cidade pulsante de Nova Arcadia, onde o neon iluminava…
No coração de um lixão vasto e sombrio, onde o sol raramente penetrava a nuvem de lixo e decadência, vivia uma criança chamada Leo. Seu pai, um homem…
Ramalho era um homem praticamente invisível, não no sentido literal da palavra, mas na forma como ele caminhava pelo mundo sem chamar…
Samuel sempre foi um entusiasta da tecnologia. Desde pequeno, ele tinha um fascínio por tudo que conectava humanos…
Tia-avó Antônia era considerada "a tia legal”; adorava crianças, animais, coisas estranhas. Morou por muito tempo com a tia Vitória, irmã mais velha…
Alimária
Padres, trabalhadores, | médicos, cantores, | poetas, trovadores... | Ninguém os quis ouvir! | Lençóis negros são estendidos…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Padres, trabalhadores,
médicos, cantores,
poetas, trovadores...
Ninguém os quis ouvir!
Lençóis negros são estendidos
pelas ruas cinzentas.
Flores inexistentes
em túmulos indigentes.
A foice da caveira horrenda
contaminou os ares:
uma criança leva uma flor,
mas não lhe sobrou nada,
nem tempo para cheirá-la.
Bombas e tiros vomitados.
A mãe tenta ninar seu bebê.
Gritos de dor suprema.
Fome.
Dor.
Placenta.
Simplesmente não importa.
Se eu te pago amanhã,
você aí de perna morta.
Filhos morrem,
os pais, os assassinos.
Mercados vazios,
ele matou o próprio vizinho.
O primeiro item que acabou
foi o rolo higiênico,
meu senhor!
O que causou tudo isso...
Ah sim!
Ah foi!
A falta, a seca
de amor...
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?…
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Toda fotografia é uma imagem que carrega o espectral: a morte. O instante fotografado jamais será vivido novamente; assim jaz um tempo que passou…
Ando pelo único caminho que se atravessa na neblina cinza. Preciso chegar; devo estar atrasado. Inóspito. Inseguro. Lanço dúzias de preces e continuo…
A cama estava sem o lençol. O espelho estava quebrado. Na cômoda havia poucos pertences: apenas um hábito limpo, algumas roupas íntimas…
Mmoggun era um artesão que vivia em um vilarejo isolado, onde sua arte de esculpir máscaras era vista como uma habilidade quase mística…
Certa vez, na quinta série, adaptamos a brincadeira do copo para uma folha de papel. Nessa folha, escrevíamos o alfabeto no topo e as palavras…
Falos. Colecionava-os, de todos os tipos e tamanhos. Os primeiros, comprara em sex shops. Depois que se tornara médica legista, ficou mais…
O relógio batia nove horas, e José, diferente dos jovens de sua idade, preferia estar em seu quarto, testando algum software novo, descobrindo…
Na minha maldição de viver muitas vidas, ainda tenho a vã esperança de encontrar, além dela, todas as minhas almas amigas…
Sou acumulador destas saudades | que fazem coleção dentro de mim… | Eu guardo todas co’a maior vontade, | e ao peso que elas dão não dou um fim…
Entrevistador: Qual era sua relação com a vítima? | Amigo da vítima: Nos criamos juntos. Amigos de rua, de infância…
Buscando os lisos universitários | um passatempo que não muito exija, | retiram lá de cima do armário | um roto e velho tabuleiro ouija…
Essa massa purulenta | cuja dor e sofrimento | o meu peito, enquanto aguenta, | faz por ela um juramento, | tem por força de promessa…
Tudo começou com uma reminiscência. Caminhando pela rua, por alguma calçada que serviu de gatilho, voltei vinte anos atrás…
De bruços | amortalhado | escondo o rosto e | não rezo | há dias que me rendi | às horas | à persecução | desse uniforme humano…
De soslaio | en passant | caminho retrátil da vida | a vida | sensorialmente | num piscar de olhos |desembarque brusco | ato que rende e assalta…
— Alertei para ele não ir até lá... — disse Marcos, equilibrando seu corpo inebriado na banqueta, os cotovelos apoiados na bancada de madeira…
— Cara, acho que não está dando certo — falou Fabrício, observando o copo imóvel no centro da tábua. — Pois é. Não se mexe. Talvez devêssemos…
Tenho que acordar todos os dias às 7h da manhã. Mas levantar cedo nunca foi meu forte. Para que eu consiga, de fato, despertar até o horário…
Trabalhar era meu refúgio. | Eu via pessoas e conversava. | Me distraia, | Sorria... | Mas o mundo parou, | Silenciou | E diante de tanto horror, | Se trancou…
A grama arde | O ar sufoca | O canto dos pássaros foi silenciado. | As árvores, | Antes, imponentes e frutíferas,…
Pálida e fria como porcelana | Sentia-me como uma boneca. | Os olhos, antes cerrados, | Agora conseguiam observar tudo ao redor…
No canto ali do quarto| No escuro | Sentada e descalça, no chão frio | Observo as sombras que ninguém mais vê…
Quando o lockdown começou, muitos falavam sobre o fim dos tempos; como negar isso? Eu via apenas o nada lá fora, apenas fragmentos de uma…
Observo da janela o vazio lá fora; tudo está abandonado, assim como eu aqui dentro. O silêncio é preenchido apenas pelo sussurro do vento…
Na cidade pulsante de Nova Arcadia, onde o neon iluminava…
No coração de um lixão vasto e sombrio, onde o sol raramente penetrava a nuvem de lixo e decadência, vivia uma criança chamada Leo. Seu pai, um homem…
Ramalho era um homem praticamente invisível, não no sentido literal da palavra, mas na forma como ele caminhava pelo mundo sem chamar…
Samuel sempre foi um entusiasta da tecnologia. Desde pequeno, ele tinha um fascínio por tudo que conectava humanos…
Tia-avó Antônia era considerada "a tia legal”; adorava crianças, animais, coisas estranhas. Morou por muito tempo com a tia Vitória, irmã mais velha…
Relatório de Conformidade
Data: 19/10/2347 - Primeira era das máquinas | Período analisado: Último trimestre | Objetos analisados: Unidades fêmeas e Unidades…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Data: 19/10/2347 - Primeira era das máquinas
Período analisado: Último trimestre
Objetos analisados: Unidades fêmeas e Unidades machos da fazenda reprodutiva
Objetivos da análise:
Verificar se as unidades estão mantendo o comportamento esperado, dentro dos padrões implantados inicialmente.
Caso seja identificado algum comportamento fora dos padrões, eliminar unidade defeituosa.
Critérios analisados:
Aparência
Saúde
Comportamento
Providências em caso de desconformidade
Aparência
Unidades fêmeas
Tempo de operação médio: 18 anos
Modificações corporais: 100% das unidades possuem implantes artificiais, com distribuição conforme abaixo:
Mamas aumentadas: 80% das unidades
Nádegas aumentadas: 17% das unidades
Outros locais: 3% das unidades
Cor da pele: Branco ou amarelo (100% das unidades)
Cabelo: Comprimento longo com variações de cores. Padrão observado em 100% das unidades.
Análise de desconformidade: 0,3% das unidades apresentaram alterações estéticas fora do padrão no último trimestre.
Providência: Correção de implantes ou eliminação da unidade, sem prejuízo à operação geral.
Unidades machos
Tempo de operação médio: 22 anos
Modificações corporais: 100% das unidades possuem implantes artificiais, com foco principal no aumento do tamanho do falo (96% das unidades).
Cabelos: Substituídos imediatamente por perucas sintéticas em 100% dos casos de queda. A taxa de conformidade do implante capilar permanece em 99,7%.
Análise de desconformidade: 0,1% das unidades apresentaram falhas no implante capilar.
Providência: Substituição imediata ou eliminação da unidade.
Saúde
Estado geral: As unidades fêmeas e machos apresentam boa conformidade com os padrões de saúde estabelecidos.
97,5% das unidades estão em operação normal, sem necessidade de intervenções médicas significativas.
Desconformidade registrada: 2,5% das unidades exigiram manutenção médica por falhas menores. Um tipo de falha, raro mas notável, foi observado: certas unidades perderam a função de falar ou girar a cabeça, como se as articulações fossem endurecendo até a completa paralisia.
Nota adicional: A perda dessas funções antes essenciais parece estar ligada à ausência prolongada de interação social, o que sugere um lento declínio cognitivo e físico que se assemelha à deterioração de máquinas obsoletas.
Comportamento
Interação social: Nenhuma das unidades realiza interações sociais físicas ou verbais. A comunicação digital, via dispositivos pessoais, foi mantida conforme esperado, com 100% de adesão.
Atividade emocional: Análise das unidades não apresenta variações emocionais relevantes. Todas as interações são mediadas por inteligência artificial, eliminando a necessidade de estímulos emocionais.
Desvios de comportamento: Nenhum comportamento fora dos padrões foi detectado. As unidades permanecem conformes com a ausência de emoções espontâneas. Isso denota 100% de sucesso nas operações de unidades com defeitos irreversíveis. Falhas psicológicas, uma vez identificadas, se mostraram 100% impossíveis de conserto, sendo a eliminação a única solução viável.
Nota adicional: O desespero silencioso dessas unidades, embora não mensurável, é percebido como um subproduto aceitável da otimização da conformidade.
Providências em caso de desconformidade
Unidades com defeitos físicos: A taxa de eliminação e substituição de unidades com falhas estéticas ou comportamentais foi mantida em 0,2% neste trimestre.
Unidades com falhas críticas: Em caso de falhas severas, como comportamento imprevisível ou modificações não autorizadas, as unidades foram desativadas e retiradas do ciclo operacional em menos de 24 horas. Método de eliminação: incineração rápida e eficiente.
Nota adicional: O uso de jazigos foi eliminado como desnecessário. Unidades com defeitos não recebem nenhum tipo de resíduo biológico.
Providência de longo prazo: Avaliar a viabilidade de reduzir a necessidade de intervenções estéticas em 15% das unidades, devido à irrelevância de impacto nas interações sociais.
Avaliar também a viabilidade de modificação genética para acelerar a reprodução e diminuir o tempo de operação para 14 anos. Unidades mais frágeis, porém, mais fáceis de substituir.
Estudo sobre a implementação de máquinas incineradoras ambulantes para eliminar diretamente as unidades defeituosas sem a necessidade de busca e apreensão. Tal dispositivo pode identificar defeitos nas unidades e proceder à eliminação imediata.
Conclusão
As unidades da fazenda reprodutiva mantêm altos índices de conformidade. Comportamento, aparência e saúde estão dentro dos padrões preestabelecidos. Não foi detectada necessidade de ajustes no controle geral da operação. Vitória em relação ao trimestre anterior, pois não houve necessidade de lobotomização ou eliminação de unidades com comportamento violento ou suicida.
Nota adicional: A eficiência crescente no controle de falhas comportamentais demonstra o avanço na erradicação de qualquer traço de individualidade ou autonomia. O sistema está próximo de eliminar totalmente a noção de resistência entre as unidades biológicas.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?…
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Sou acumulador destas saudades | que fazem coleção dentro de mim… | Eu guardo todas co’a maior vontade, | e ao peso que elas dão não dou um fim…
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Buscando os lisos universitários | um passatempo que não muito exija, | retiram lá de cima do armário | um roto e velho tabuleiro ouija…
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Tenho que acordar todos os dias às 7h da manhã. Mas levantar cedo nunca foi meu forte. Para que eu consiga, de fato, despertar até o horário…
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Quando o lockdown começou, muitos falavam sobre o fim dos tempos; como negar isso? Eu via apenas o nada lá fora, apenas fragmentos de uma…
Observo da janela o vazio lá fora; tudo está abandonado, assim como eu aqui dentro. O silêncio é preenchido apenas pelo sussurro do vento…
Na cidade pulsante de Nova Arcadia, onde o neon iluminava…
No coração de um lixão vasto e sombrio, onde o sol raramente penetrava a nuvem de lixo e decadência, vivia uma criança chamada Leo. Seu pai, um homem…
Ramalho era um homem praticamente invisível, não no sentido literal da palavra, mas na forma como ele caminhava pelo mundo sem chamar…
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Elegia de Jack O’Lantern
Óh, desgraçada forma essa a minha, | Do meu destino não prevejo uma linha. | Pois a sete palmos do chão, | Jaz uma amada, morta…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Óh, desgraçada forma essa a minha,
Do meu destino não prevejo uma linha.
Pois a sete palmos do chão,
Jaz uma amada, morta por minha mão.
Óh, desafortunada forma essa a minha,
Envenenado, não por feitiço ou varinha.
Sofri quando me disseste: "me esqueça!"
Uma abóbora tenho, ao invés de cabeça.
Óh, formosa forma era a tua!
Apaixonei-me, pois a vi nua.
Seu sorriso, primavera pura,
Nunca estaria eu à tua altura.
Óh, gloriosa forma era a tua!
Passei a persegui-la nas ruas.
Rubras melenas aquecem o coração,
Amor, candura e tentação.
Óh, graciosa forma me seduz!
Teus passos, dança que me conduz.
Teu perfume, doce brisa ao luar,
Eras meu sonho, impossível de alcançar.
Óh, funesta decisão que obriguei-me a tomar:
Se não posso te ter, não há por que te deixar.
Se não posso a ti chegar, que você venha a mim,
E assim decidi pelo seu fim!
Óh, vergonhosa decisão, ponho-me a lamentar:
Desgraçado sou! Como pude te aniquilar?
Num ímpeto sombrio, tua vida tirei,
E agora, em silêncio, minha chama extinguirei.
Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa
Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?…
Leia mais em “Poesias”
Os gêmeos: retrato post-mortem
Pequenas almas, cujos olhos fechados | Eternizam-se no silêncio da imagem. | Dormem serenas, enquanto os lábios, | Com leves sorrisos…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Pequenas almas, cujos olhos fechados
Eternizam-se no silêncio da imagem.
Dormem serenas, enquanto os lábios,
Com leves sorrisos, congelam-se no tempo.
As cútis alvacentas, sem marcas de dor,
Refletem o indiferente flash da câmera,
Revelam as cicatrizes indeléveis
Do luto que coroa seus pais.
Que deus tirano também fechou os olhos?
Permitindo que as moscas vivam e os rodeiem,
Enquanto as flores ao redor, em silêncio,
Fenecem lentamente, resistindo à passagem?
Bebês, que cedo partem, são estrelas cadentes,
Enquanto a vida nas pétalas definha, devagar.
Suas lembranças, tão alegres e fugazes,
Já não existem mais, para o lamento de seus pais.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?…
Leia mais em “Desafio Sombrio 2024”
Toda fotografia é uma imagem que carrega o espectral: a morte. O instante fotografado jamais será vivido novamente; assim jaz um tempo que passou…
Ando pelo único caminho que se atravessa na neblina cinza. Preciso chegar; devo estar atrasado. Inóspito. Inseguro. Lanço dúzias de preces e continuo…
A cama estava sem o lençol. O espelho estava quebrado. Na cômoda havia poucos pertences: apenas um hábito limpo, algumas roupas íntimas…
Mmoggun era um artesão que vivia em um vilarejo isolado, onde sua arte de esculpir máscaras era vista como uma habilidade quase mística…
Certa vez, na quinta série, adaptamos a brincadeira do copo para uma folha de papel. Nessa folha, escrevíamos o alfabeto no topo e as palavras…
Falos. Colecionava-os, de todos os tipos e tamanhos. Os primeiros, comprara em sex shops. Depois que se tornara médica legista, ficou mais…
O relógio batia nove horas, e José, diferente dos jovens de sua idade, preferia estar em seu quarto, testando algum software novo, descobrindo…
Na minha maldição de viver muitas vidas, ainda tenho a vã esperança de encontrar, além dela, todas as minhas almas amigas…
Sou acumulador destas saudades | que fazem coleção dentro de mim… | Eu guardo todas co’a maior vontade, | e ao peso que elas dão não dou um fim…
Entrevistador: Qual era sua relação com a vítima? | Amigo da vítima: Nos criamos juntos. Amigos de rua, de infância…
Buscando os lisos universitários | um passatempo que não muito exija, | retiram lá de cima do armário | um roto e velho tabuleiro ouija…
Essa massa purulenta | cuja dor e sofrimento | o meu peito, enquanto aguenta, | faz por ela um juramento, | tem por força de promessa…
Tudo começou com uma reminiscência. Caminhando pela rua, por alguma calçada que serviu de gatilho, voltei vinte anos atrás…
De bruços | amortalhado | escondo o rosto e | não rezo | há dias que me rendi | às horas | à persecução | desse uniforme humano…
De soslaio | en passant | caminho retrátil da vida | a vida | sensorialmente | num piscar de olhos |desembarque brusco | ato que rende e assalta…
— Alertei para ele não ir até lá... — disse Marcos, equilibrando seu corpo inebriado na banqueta, os cotovelos apoiados na bancada de madeira…
— Cara, acho que não está dando certo — falou Fabrício, observando o copo imóvel no centro da tábua. — Pois é. Não se mexe. Talvez devêssemos…
Tenho que acordar todos os dias às 7h da manhã. Mas levantar cedo nunca foi meu forte. Para que eu consiga, de fato, despertar até o horário…
Trabalhar era meu refúgio. | Eu via pessoas e conversava. | Me distraia, | Sorria... | Mas o mundo parou, | Silenciou | E diante de tanto horror, | Se trancou…
A grama arde | O ar sufoca | O canto dos pássaros foi silenciado. | As árvores, | Antes, imponentes e frutíferas,…
Pálida e fria como porcelana | Sentia-me como uma boneca. | Os olhos, antes cerrados, | Agora conseguiam observar tudo ao redor…
No canto ali do quarto| No escuro | Sentada e descalça, no chão frio | Observo as sombras que ninguém mais vê…
Quando o lockdown começou, muitos falavam sobre o fim dos tempos; como negar isso? Eu via apenas o nada lá fora, apenas fragmentos de uma…
Observo da janela o vazio lá fora; tudo está abandonado, assim como eu aqui dentro. O silêncio é preenchido apenas pelo sussurro do vento…
Na cidade pulsante de Nova Arcadia, onde o neon iluminava…
No coração de um lixão vasto e sombrio, onde o sol raramente penetrava a nuvem de lixo e decadência, vivia uma criança chamada Leo. Seu pai, um homem…
Ramalho era um homem praticamente invisível, não no sentido literal da palavra, mas na forma como ele caminhava pelo mundo sem chamar…
Samuel sempre foi um entusiasta da tecnologia. Desde pequeno, ele tinha um fascínio por tudo que conectava humanos…
Tia-avó Antônia era considerada "a tia legal”; adorava crianças, animais, coisas estranhas. Morou por muito tempo com a tia Vitória, irmã mais velha…
Três e trinta e três
Oito anos após a morte de meu esposo. Coloco minha cabeça no travesseiro. Você não está mais ao meu lado, como sempre. É... já faz cinco, ou será que são…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Oito anos após a morte de meu esposo.
Coloco minha cabeça no travesseiro. Você não está mais ao meu lado, como sempre. É... já faz cinco, ou será que são sete anos? Eu não sei, mas o seu relógio despertador está ali, a dentadura, os óculos deixados de lado para dormir; tudo que você deixou está ali.
Oito anos e um dia após a morte de meu esposo.
Estranho... Hoje de manhã, quando acordei, o seu relógio despertador estava no chão. Estou certa de que ele vibra ao despertar e que estava próximo da beirada da mesa, mas não consigo me lembrar de tê-lo programado para isso.
Oito anos, um dia e 11 horas após a morte de meu esposo.
Eu me lembro de ter deixado o relógio despertador ligeiramente mais à direita hoje de manhã, quando o recoloquei na mesa.
Oito anos, um dia e meio após a morte de meu esposo.
Meia-noite. Acordei assustada durante um pesadelo. Pensei ter visto alguém na porta do quarto, parado e em pé. Não era nada, só o meu roupão pendurado no gancho.
Oito anos, um dia e quinze horas após a morte de meu esposo.
O despertador tocou às três horas da madrugada. Agora me lembro de tê-lo programado, mas era pra ter sido às três horas da tarde, e não agora. Me enganei.
Oito anos, um dia, quinze horas e cinco minutos depois da morte de meu esposo.
Sinto uma mão gélida afastar os cabelos que estão sobre a minha testa. Sinto uma fraquíssima, indelével corrente de ar, um toque frio na minha testa. Abro um olho. Devo estar sonhando.
Oito anos, um dia, quinze horas e dez minutos depois da morte de meu esposo.
Não consigo dormir. Sinto que não estou sozinha em meu próprio quarto. Começo a suar, está quente! A água... Vou tomá-la, ela sempre está aí. Do seu lado da cabeceira.
Oito anos, um dia, quinze horas, dez minutos e vinte segundos depois do assassinato de meu esposo.
Socorro! Minha garganta está fechando! Me solta... Tira as mãos do meu pescoço, querido, você não entende? Você tinha de morrer.
Oito anos, um dia, quinze horas, trinta e três minutos depois que matei meu esposo envenenado.
Está tudo escuro. Por que o despertador tocou? Abro os olhos e não vejo nada, apenas preto. Depois, nada...
3h33min
Óbito: Feminino, branca
Idade: Não informada
Causa provável do óbito: Intoxicação por medicamentos
Observações: Nenhum sinal de violência externa.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?…
Leia mais em “Desafio Sombrio 2024”
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Levante de Halloween
A escuridão se avoluma, | sob sua luz escaldante. | Hoje, a Lua é Sol, | e o Sol se veste de noite. | Brilha como o próprio Sol, | seu açoite é abrasante. | Minh ‘alma se acostuma…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
A escuridão se avoluma,
sob sua luz escaldante.
Hoje, a Lua é Sol,
e o Sol se veste de noite.
Brilha como o próprio Sol,
seu açoite é abrasante.
Minh’alma se acostuma,
mira ossos caminhantes.
São vultos em brasas!
Folhas de outono a queimar...
Abóboras laranjas,
velas a incendiar
Saem das sepulturas,
os mortos a vagar.
Suas formas, impuras,
vêm os vivos abocanhar.
Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa
Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?…
Leia mais em “Poesias”:
Ecos do brejo noturno
Caminho hesitante pelo brejo, onde infinitos sons se desprendem e se libertam na atmosfera densa. Consigo distinguir os sapos, que coaxam suas...
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
(Ler preferencialmente ao som de Moonlight Sonata de Beethoven)
Caminho hesitante pelo brejo, onde infinitos sons se desprendem e se libertam na atmosfera densa. Consigo distinguir os sapos, que coaxam suas lamúrias de maneira langorosa e melancólica. Pererecas frenéticas ecoam em uníssono, como se compusessem para uma orquestra infernal, emitindo sons curtos e nervosos. Eles se mesclam iniquamente ao ruído de outro animal. Este emite um único, espaçado e funéreo clangor, como se estivesse tocando uma trompa de forma insistente, uma canção de morte e horror que anuncia o meu fim cada vez mais próximo. Mais ao longe, outro grupo de anfíbios copula em meio a esses barulhos, numa intrincada profusão de toadas insidiosos. Sinto-me exausta de caminhar por dentre esta sonata impura. Sem realmente ouvir nada, meus passos parecem destoar desta composição funérea.
Oh, criaturas lúgubres de sangue frio! Não posso vê-las todas, mas sinto seus olhares úmidos sobre a minha pele, que se torna fria e eriçada. Meu coração acelera, ansioso e acovardado; o sinto arder em meu peito. O som ininterrupto, monótono e irritante destes anfíbios persiste. Com as pupilas dilatadas, busco desesperadamente adaptar-me à escuridão, tentando, ao mesmo tempo, evitar ver estes seres asquerosos e abjetos que aqui habitam. Algo se move sob a água; eu vi, tenho certeza. Ou talvez seja apenas o afundar das minhas botas na lama, perturbando um frágil equilíbrio que não quer ser incomodado, alertando sobre minha intrusão nesse ambiente inóspito e alterando a putrefação das folhas que se acumulam no chão.
Um cheiro de podridão e morte invade minhas narinas nauseadas, mas vejo inúmeras plantas verdejantes. Elas formam campos extensos e úmidos. No solo profundo e encharcado, suas raízes se entrelaçam e compartilham segredos de tempos imemoriais; juncos amaldiçoados se propagam até onde meus olhos não conseguem mais ver e balançam a favor do vento frio, desdenhosos e altivos. Até eles parecem me observar e formar um dueto penetrante de ares gélidos. Metade do meu corpo está mergulhado nesse pântano. Minhas sensações são incertas. Não sei se calço botas; meus ossos congelam a cada passo, e tenho que reunir todas as minguadas forças para desatolar meu estafado pé do profundo lodo. Raízes vivas e tenazes penetram meus poros, numa união pecaminosa, onde o verde mancha o meu sangue derramado.
Minha mente luta. Os braços já estão lacerados, mas ainda assim as mãos agarram a folhagem cortante, tentando usá-la para resgatar-me dessas sensações lodosas. Todos estes lamentos insistentes confundem minha mente. Será o coaxar dos anfíbios ou o cantar do vento por entre as folhas? Fazem-me querer deitar sobre o verde, a lama, os galhos, os ossos, a pele e o sangue, deixando que o tempo infinito cubra todo o meu frágil corpo com mais folhas podres e, finalmente, minhas carnes se afundem neste solo conspurcado.
É então que posso ouvir um cântico longínquo, vindo das profundezas desse pântano escuro, onde os fachos lunares mal penetram a densa névoa. Não se trata apenas da união de sons animalescos. São vozes que repetem o meu nome:
— Anika! Anika! Anika!
Não vêm da direita ou da esquerda. Surgem sob o meu corpo, que jaz deitado. Agora, com o ouvido encostado ao frio solo, posso ouvir o crescer lento e nocivo das raízes; ouço seus gemidos surdos. Sussurram o meu nome, atraindo-me para as suas moradas. Quantas vítimas ressoam misturadas ao silêncio das raízes crescendo por dentre as águas e atravessando seus corpos? Será que hoje ainda irei sonhar com lua? Que saudade tenho de seus raios prateados que não poderei mais sentir banhar a minha pele.
Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?…
Toda fotografia é uma imagem que carrega o espectral: a morte. O instante fotografado jamais será vivido novamente; assim jaz um tempo que passou…