Hermético

Tudo começou com uma reminiscência. Caminhando pela rua, por alguma calçada que serviu de gatilho, voltei vinte anos atrás…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Tudo começou com uma reminiscência. Caminhando pela rua, por alguma calçada que serviu de gatilho, voltei vinte anos atrás. Tempo bom aquele em que brincava, em que o dia de amanhã não me preocupava. Pulando como simples criança, lembrei da brincadeira de saltar linhas, evitando pisar nas demarcações que formavam ângulos nas lajotas da cidade. Por algum motivo incontornável, levei a sério a missão que retornava: não podia mais calçar as retas. 

Assim voltei para casa, atento a cada passo, sem deixar nem mesmo um centímetro da ponta dos pés avançar sobre as cruzadas formas, podendo apenas me deslocar pousando por inteiro a planta dos pés nas plataformas lisas. 

Subir as escadas do condomínio me impôs igual atitude — desviar de toda borda; porém, algo me afligiu: pular de dois em dois degraus mostrou-se nova ordem. A praxe era me adaptar a essa súbita necessidade, sem duvidar nem pôr em descrédito a seriedade do que agora me controlava. Rapidamente, essa maneira de subir os degraus me levou à porta de casa, onde me pus a pensar: até onde irá isso? 

Lá dentro, agora automatizado meu comportamento de pisar no interior das formas geométricas do piso, forcejando até ficar na ponta dos pés em alguns momentos, comecei a organizar minhas coisas. Mochilas, pratos, livros, canetas... Tudo à minha frente foi realocado de maneira a parecer em ordem, numa sequência lógica para mim e para os meus olhos. Satisfeito com a sistematização dos itens — que avançara para um jeito de deixar as coisas verticais o mais verticalmente possível e as horizontais o mais horizontalmente possível —, sentei-me para refletir, no meio do sofá. 

Parado, mas consciente, observei a disposição de minha casa e até onde haviam chegado as últimas consequências de uma brincadeira levada a sério. Aquilo era, no fim das contas, nada mais do que o que meu dia a dia solicitava: a padronização do ser, a ordem social ampliada ao arranjo individual dos objetos. Faltava, para uma completa satisfação do mundo e de mim mesmo, alcançar agora a ordenação microscópica do organismo, daquele universo unicamente alcançável por minha ação... 

Sem pensar duas vezes — o que já era impossível — tratei de fechar meus olhos para o mundo, seguido de minha respiração, buscando uma completa unidade... 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

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As bases da perfeição

O vampiro Lázaro, cujo nome escolhido revelava sua ânsia por renascimento, atravessara séculos de opulência e extravagância, mas há…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O vampiro Lázaro, cujo nome escolhido revelava sua ânsia por renascimento, atravessara séculos de opulência e extravagância, mas há muito deixara para trás a vida de riquezas. Havia doado seus tesouros e, com eles, todas as ilusões de grandeza que sustentara por tanto tempo. Na atualidade, escondido sob a identidade de um professor universitário de literatura, ele dava aulas sobre autores mortos que falavam das inquietações da alma. Seus alunos admiravam a beleza imaculada de seus traços: os cabelos negros sempre meticulosamente alinhados, a pele de alabastro que resplandecia à luz suave das lâmpadas do campus. No entanto, poucos notavam a angústia profunda que cintilava em seus olhos, uma tristeza que nenhum toque de juventude eterna poderia esconder. 

Lázaro retornara ao convívio com os mortais, escolhendo enfrentar as dificuldades e as misérias que a sociedade contemporânea reservava a quem ousasse viver de um ofício intelectual. Acompanhava as greves e os protestos estudantis, observava os jovens lutarem contra um sistema de exploração implacável e via de perto o desgaste e a exaustão dos professores, seus colegas, obrigados a lidar com salários indignos e a precariedade das condições de trabalho. Enquanto assistia a tudo isso, sentia a contradição entre sua imortalidade intocável e a fragilidade humana. Por mais que se esforçasse para compartilhar a dor e a decadência ao redor, sabia que jamais seria realmente um deles. 

Certa noite, após um dia extenuante na universidade, Lázaro voltava para casa, cortando caminho por um parque que se estendia em amplas simetrias de alamedas de árvores e canteiros geométricos. A névoa que cobria o lugar deixava as formas vagamente definidas, como um esboço do mundo real, e o silêncio parecia comprimir o ar, tornando-o quase palpável. Lázaro sentiu um arrepio atravessar-lhe a espinha quando seus olhos captaram uma forma peculiar no centro de uma pequena praça abandonada: uma escultura de um humanoide cuja simetria era tão perfeita que beirava o inumano. O rosto, em particular, possuía uma beleza idêntica em cada lado, cada traço replicado com precisão de um lado ao outro do eixo imaginário que o dividia ao meio. 

A estátua, aparentemente esculpida em mármore branco, emanava uma estranheza que fez o vampiro hesitar. Ao se aproximar, notou uma inscrição na base: Ad perpetuam harmoniam. Por alguma razão que ele não compreendia de imediato, Lázaro sentiu uma repulsa quase visceral. O horror diante daquela simetria impecável trouxe-lhe à mente uma memória antiga, de quando ele próprio ainda era jovem e humano: o rosto de um amante, cuja perfeição facial lhe provocava uma sensação de inquietude insuportável. Aquele amor fora efêmero e marcado pela indiferença gélida do outro, como se Lázaro, com todos os seus defeitos e anseios, fosse incapaz de encontrar reciprocidade na perfeição daquele ser. 

Enquanto olhava a escultura, Lázaro percebeu que o horror da simetria residia na ausência de humanidade, na falta das assimetrias que tornam um rosto belo verdadeiramente vivo. Cada detalhe harmonioso da estátua parecia zombar da angústia de ser humano, como se insinuasse que a imperfeição e a dor eram meras falhas a serem corrigidas, traços insignificantes que a simetria podia aniquilar. Ele recuou um passo, com uma estranha sensação de que a estátua o observava, mesmo com olhos esculpidos em pedra cega. 

Nos dias que se seguiram, Lázaro notou que a imagem da estátua o perseguia. Ele a via em reflexos distorcidos, em desenhos que os alunos rabiscavam nos cadernos e até nos padrões de rachaduras na parede de sua casa. Parecia uma presença espectral, como se o mármore em si carregasse uma consciência alienígena que tentava comunicar algo indizível. Em uma noite de insônia, decidiu voltar à praça e encarar a estátua uma última vez. Dessa vez, a névoa estava ainda mais densa, e ele teve a impressão de que as formas das árvores e das sombras se organizavam ao redor da escultura em padrões igualmente simétricos. 

Ao se aproximar, um pensamento horrível surgiu: e se a simetria fosse, em última análise, a perfeição da morte? A ausência de vida, de caos, de desequilíbrio. Ele se aproximou até tocar o mármore frio e, ao fazê-lo, sentiu um lampejo de dor. Uma memória longínqua irrompeu em sua mente — lembranças de momentos em que sacrificara parte de sua humanidade para tornar-se imortal. Lázaro compreendeu, então, que sua beleza eterna era uma forma de simetria monstruosa, um equilíbrio antinatural entre a vida e a morte, um estado suspenso que aniquilava tanto a experiência humana quanto a decadência. 

Enquanto os pensamentos o assaltavam, ele se deu conta de que a perfeição da estátua representava uma força que tentava apagar as irregularidades do mundo, eliminar os defeitos e igualar todas as coisas. A busca pela beleza perfeita era, na verdade, um caminho de aniquilação. A simetria negava o dinamismo da vida e instaurava uma ordem de imobilidade. Era uma ameaça sutil, presente na própria estrutura da sociedade, que exigia rostos inexpressivos e corpos idealizados, vendendo a ilusão de perfeição enquanto esmagava qualquer forma de resistência ou originalidade. 

Lázaro recuou da escultura, sentindo uma amargura insuportável. Ele percebeu que sua própria busca pelo equilíbrio — seja entre a vida e a morte, ou entre a pobreza e a opulência — era igualmente fútil. A perfeição, assim como aquela simetria opressora, jamais lhe traria a paz que ansiava. Era necessário aceitar as imperfeições e os desequilíbrios como parte essencial da existência. Por mais que sua beleza imortal o mantivesse preso ao exterior perfeito, ele precisava, de algum modo, abraçar as assimetrias internas, os erros e as cicatrizes que carregava. 

Deixando a praça envolta em névoa, Lázaro seguiu seu caminho, determinado a viver entre os humanos, com suas misérias e excentricidades, sem nunca mais desejar a perfeição que sua imortalidade lhe concedia. Sabia que, embora o horror da simetria pudesse ser perturbador, a verdadeira beleza residia nas imperfeições que davam vida e significado às coisas. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Palíndromo de carne

Ada Reinier. Esse era seu nome; os dois nomes formavam um palíndromo, graças ao bom Deus, ela repetia, como um mantra que afastava o caos..

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Ada Reinier. Esse era seu nome; os dois nomes formavam um palíndromo, graças ao bom Deus, ela repetia, como um mantra que afastava o caos. Não sabia por que, mas nascera com uma obsessão pela perfeição, pela simetria. Dito isso, ela sabia que jamais se casaria, pois teria que modificar seu nome. 

Qualquer imperfeição era uma ferida que queimava seu pensamento até o limite. Quando se machucava, sempre feriria o outro lado. Um equilíbrio imposto, necessário para o silêncio em sua mente. Sentia um contentamento, uma espécie de prazer débil, ao observar os dois lados cicatrizando por igual. 

Então, por que o médico se recusava a livrá-la desse fardo, negando-lhe a paz de um corpo simétrico, mesmo que mutilado? Ele não aceitara remover o outro seio, o perfeito, deixando-a aprisionada na imperfeição. A irregularidade a dilacerava mais que o bisturi. O médico cirurgião não entendia. Como podia manter sua sanidade enquanto sua própria carne a traía com uma assimetria que não conseguia suportar? Por que ele não aceitara fazer a mastectomia? Perguntava-se, já com a faca em riste. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Morte em Simetria

Em cada traço há um lamento, | a navalha corta sem compaixão. | Simetria, o cruel tormento, | que exige sangue em profusão. | O rosto aberto…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Em cada traço há um lamento,
a navalha corta sem compaixão.
Simetria, o cruel tormento,
que exige sangue em profusão.

O rosto aberto em duas partes,
olhos vazios e frios de horror.
A carne dividida em formas exatas,
molda-se ao toque do escultor.

Cada pedaço, lado a lado,
repousa em total perfeição.
Mas no corpo morto, destroçado,
há apenas o reflexo da escuridão.

O corpo é belo, exato e preciso,
mas o preço é alto, paga-se em dor.
A simetria é um fardo indeciso,
que arrasta a vida para o terror.

E assim, no espelho, o reflexo sorri,
perfeito, inerte, sem emoção.
Pois a simetria que aqui flori,
só vive na morte e na podridão.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Caosanguesimetria

Nas vastas planícies do cosmos em flor, | Ergam-se torres de beleza e amor. | Cantos de formas, de ângulos e luz, | Onde a simetria é a musa que seduz…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Nas vastas planícies do cosmos em flor,
Ergam-se torres de beleza e amor.
Cantos de formas, de ângulos e luz,
Onde a simetria é a musa que seduz.

No início, um caos, uma dança sem fim,
Matérias dispersas, um universo em maremoto.
Mas eis que surge a mão do destino,
em cada fração, um padrão divino.

A flor que se abre com pétalas em par,
O reflexo no lago, a imagem a brilhar,
Cada onda que quebra, cada estrela no céu,
São versos que entoam a canção do belo.

Em antigos templos, nas pirâmides do Egito,
Simetria sagrada, um toque de infinito.
Arquitetos de sonho, em pedra e em barro,
Ergam seus planos, buscando o amparo.

Na dança dos corpos, a harmonia se faz,
Os passos entrelaçados, a gravidade em paz.
E na matemática pura, o número se revela,
Fibonacci, Euler, na trama tão bela.

A simetria é eco, é reflexão do ser,
Na arte, na ciência, na vida a florescer.
Cada lado que espelha, um mundo em expansão,
No equilíbrio perfeito, a essência a brilho, revelação.

Ó simetria, rainha da ordem e do caos,
Teus mistérios se escondem nos mais simples laços.
Na frágil beleza do que é igual e diverso,
Encontras em cada alma o sentido do verso.

Que nunca faltem os olhos a te admirarem
Pois na dança do mundo, tu és a montanha
Um épico infinito, um canto a soar,
Simetria, sublime, estais a sangrar

No abismo onde a forma se desliza,
Simetria, com seu olhar fixo e frio,
Desvela a crueldade da ordem precisa,
Um espelho que reflete o vazio.

Caminho entre sombras, onde ecos se embalam,
A beleza se enreda em dor sutil,
E nas linhas retas, os destinos se calam,
Um pulso, um corte — um fôlego febril.

Oh, o sangue, o vermelho, a cor da verdade,
Escorre pelas veias da vida, um lamento.
Fractais de angústia em sua intensidade,
Na dança do horror, o corpo é tormento.

Corações em compasso, pulsos que se entrelaçam,
Mas a simetria traiçoeira os aprisiona,
Como flores cortadas que nunca se abraçam,
E o aroma da vida, em dor, se entona.

Nessa geometria, o caos é escondido,
Cada canto exato, um grito em surdina.
Rostos que se repetem, um destino ferido,
A face do homem, a própria ruína.

Eis que as formas dançam, um balé de entraves,
Na rigidez da trama, onde tudo se encerra.
E o sangue, serpente, entre mil cicatrizes,
Canta a melodia da dor que não erra.

Ah, simetria, monstruosidade disfarçada,
Teus traços nos marcam, em cada respiração.
O horror de existir, em beleza implacada,
É a vida que sangra, em cada pulsação.

Caminho perdido entre ângulos e sombras,
A verdade se oculta, em seu manto cruel.
E no eco do sangue, a vida que assombra,
Ressoa a eternidade de um amor que não é.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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