Velian em Agonihria: Os Dentes do Abandono

Velian retornara do Rio de Janeiro há algumas semanas. O apartamento em Fortaleza permanecia exatamente como o deixara. O caixão oculto no…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Velian retornara do Rio de Janeiro há algumas semanas.

O apartamento em Fortaleza permanecia exatamente como o deixara. O caixão oculto no cômodo escuro. As estantes repletas de livros antigos e modernos. As cortinas pesadas impedindo a entrada do sol nordestino. Nada havia mudado.

E, ainda assim, algo nele estava diferente.

Nas noites que se seguiram ao retorno, vagou pelas ruas da cidade sem propósito definido. Caminhava pela Beira-Mar observando as barracas que encerravam suas atividades, os pescadores preparando embarcações para a madrugada, os vendedores desmontando estruturas sob o vento constante que vinha do Atlântico. Fortaleza nunca dormia completamente; apenas diminuía o ritmo. Havia sempre alguém acordado, alguém amando, alguém brigando, alguém chorando.

Os humanos insistiam em existir com uma intensidade que o fascinava.

Séculos atrás, aquilo lhe parecera ridículo.

Décadas atrás, invejável.

Agora lhe parecia belo.

Talvez porque finalmente compreendesse que a fragilidade era parte daquilo que tornava cada momento significativo.

Ou talvez estivesse apenas envelhecendo.

Sorriu diante da própria conclusão.

— Um vampiro envelhecendo. Que piada de mau gosto.

Continuou caminhando.

O vento espalhava o cheiro da maresia pelas avenidas. Ao longe, um pequeno bar ainda mantinha música acesa na madrugada. Vozes embriagadas misturavam-se ao som distante do mar. Velian observava tudo como quem contempla uma peça teatral conhecida.

Desde o encontro com Cassandra, algo permanecia inquieto em sua mente.

Não era saudade.

Jamais utilizaria uma palavra tão humana.

Mas a lembrança dela surgia ocasionalmente.

O sorriso irônico.

Os olhos vermelhos.

A maneira como debochava de suas perguntas.

A forma como parecia compreender a escuridão sem precisar interrogá-la constantemente.

Talvez fosse isso que mais o irritava.

Ou admirava.

Ainda não decidira.

Também pensava em Nix.

A Senhora da Noite não lhe concedera respostas. Pelo contrário. Desde aquele encontro, as perguntas haviam se multiplicado. Contudo, agora possuíam outra textura. Já não eram apenas feridas abertas buscando explicações. Tornaram-se caminhos.

Velian continuava sem compreender a existência.

Continuava sem compreender a eternidade.

Continuava sem compreender a si mesmo.

Mas passara a gostar da busca.

Aquilo era novo.

Durante muito tempo procurara respostas para preencher um vazio.

Agora buscava porque desejava conhecer.

Talvez houvesse diferença.

Talvez não.

As dúvidas permaneciam.

Como sempre.

A madrugada avançava lentamente quando o frio chegou.

Um frio impossível.

Não era o vento do oceano.

Nem uma mudança climática comum.

Era um frio antigo.

Sobrenatural.

O tipo de frio que atravessava carne, osso e memória.

Velian parou imediatamente.

Uma cinza negra caiu sobre seu ombro.

Depois outra.

E outra.

Levantou a mão.

Os fragmentos escuros pareciam pequenos pedaços de carvão reduzidos a pó. Possuíam um odor estranho. Não o cheiro comum da fumaça, mas algo semelhante a flores apodrecidas, madeira úmida e tecido guardado durante séculos.

Conhecia aquele sinal.

O Castelo Drácula estava chamando.

Porém havia algo diferente.

Normalmente o chamado possuía um aspecto quase curioso, como uma porta se abrindo para mais um mistério.

Desta vez parecia um pedido de socorro.

Ou um aviso.

As sombras começaram a reunir-se diante dele.

As luzes da avenida tornaram-se distantes.

Os sons da cidade enfraqueceram.

Até mesmo o mar pareceu recuar.

Velian suspirou.

— Espero sinceramente que desta vez ninguém tente me ensinar outra metáfora sobre a existência.

As sombras abriram-se.

E ele atravessou.

O impacto foi imediato.

Agonihria.

O nome surgiu em sua mente como uma lembrança esquecida.

Cinzas negras caíam continuamente do céu.

Uma névoa púrpura espalhava-se entre as torres do Castelo Drácula como um organismo vivo.

O ar possuía cheiro de decomposição.

Não a decomposição comum da carne.

Mas algo mais antigo.

O odor de memórias esquecidas.

De sonhos abandonados.

De promessas que jamais foram cumpridas.

O Castelo parecia diferente.

Mais alto.

Mais vasto.

Como se tivesse envelhecido milhares de anos desde a última visita.

As muralhas estavam parcialmente cobertas por musgos escuros. Rochas pontiagudas emergiam dos jardins. Pinheiros negros curvavam-se sob o peso das cinzas.

E havia silêncio.

Um silêncio tão profundo que parecia observar.

Velian avançou pelos corredores.

As sombras pareciam mais densas.

As paredes suadas pela umidade refletiam discretamente a luz violeta que filtrava-se pelas janelas.

A cada passo sentia uma estranha sensação de abandono.

Como se estivesse caminhando através das ruínas emocionais de alguém.

Ou de alguma coisa.

Os corredores pareciam maiores do que deveriam.

As distâncias alteravam-se.

Portas surgiam onde antes não existiam.

Escadas conduziam a lugares impossíveis.

O próprio Castelo parecia sonhar.

E o sonho não era agradável.

Então ouviu uma voz familiar.

— Continuas com a péssima mania de chegar atrasado.

Velian sorriu antes mesmo de vê-la.

Cassandra estava encostada numa coluna próxima a uma janela quebrada. Os longos cabelos escuros caíam pelos ombros. O vestido negro contrastava com a pele pálida. Seus olhos vermelhos observavam a tempestade de cinzas que caía além do vidro.

Por um instante, a opressão de Agonihria pareceu diminuir.

Apenas um instante.

— Pensei que estivesses no Rio.

— Eu estava.

— E agora estás aqui.

— Excelente dedução.

— Séculos de prática.

O sorriso dela surgiu discreto.

— Vejo que ainda não encontraste respostas.

— Vejo que ainda finges não fazer perguntas.

Cassandra soltou uma breve gargalhada.

— Talvez eu apenas seja mais inteligente.

— Ou mais teimosa.

— Também.

Por alguns segundos permaneceram observando a paisagem espectral.

As cinzas continuavam caindo.

A névoa ondulava entre as torres.

O Castelo parecia respirar.

Então Cassandra tornou-se séria.

Algo raro.

— Este lugar está errado.

Velian voltou o olhar para ela.

— O Castelo costuma estar errado.

— Não desta forma.

O tom de sua voz bastou.

Cassandra raramente demonstrava preocupação.

Quando o fazia, havia motivo.

— O que encontraste?

— Nada.

— Isso parece ruim.

— É pior.

Ela afastou-se da coluna.

— O Castelo está vazio.

Velian sentiu um leve arrepio.

Porque compreendia exatamente o que ela queria dizer.

O Castelo Drácula jamais estava vazio.

Sempre havia vozes.

Presenças.

Monstros.

Ecos.

Memórias.

Alguma coisa.

Mas agora existia apenas silêncio.

E o silêncio parecia faminto.

O silêncio parecia faminto.

Velian e Cassandra avançaram pelos corredores do Castelo Drácula sem dizer mais nada durante alguns minutos. Em circunstâncias normais, ambos trocariam provocações incessantes. Era quase um hábito antigo. Contudo, Agonihria possuía uma maneira peculiar de tornar o humor mais difícil.

As cinzas negras continuavam caindo do lado de fora.

Em determinados momentos, Velian teve a impressão de ouvir vozes misturadas ao som do vento.

Sussurros.

Lamentos.

Palavras incompreensíveis.

Quando tentava escutá-las melhor, desapareciam.

O corredor começou a estreitar-se.

Ou talvez estivesse apenas parecendo mais estreito.

Em Agonihria era difícil distinguir realidade de percepção.

As paredes de pedra deram lugar a superfícies cobertas por papel decorativo antigo. Arabescos púrpura espalhavam-se por desenhos florais quase apagados pela umidade. Fungos escuros consumiam os cantos. Em alguns trechos, o papel descascava lentamente como pele morta desprendendo-se de um cadáver.

O cheiro tornou-se mais intenso.

Mofo.

Ferrugem.

Terra molhada.

E algo mais.

Algo químico.

Doentio.

Cassandra aproximou os dedos de uma das paredes.

— Arsênio.

Velian arqueou uma sobrancelha.

— Claro que você sabe reconhecer arsênio pelo cheiro.

— E você não?

— Não costumo cheirar venenos por diversão.

— Falha de caráter.

Continuaram caminhando.

A arquitetura mudava à medida que avançavam. O aspecto medieval do Castelo desaparecia gradualmente. Corredores vitorianos surgiam diante deles. Lustres enferrujados pendiam do teto. Tapetes antigos apodreciam sob os próprios fios.

Tudo parecia abandonado havia séculos.

E, ainda assim, existia uma estranha sensação de presença.

Como se alguém observasse através das paredes.

Como se alguma coisa aguardasse.

Velian percebeu primeiro.

— Estamos sendo seguidos.

Cassandra não demonstrou surpresa.

— Eu sei.

— Há quanto tempo?

— Desde que chegamos.

— E não pretendias comentar?

— Estava curiosa.

— Evidentemente.

Uma sombra moveu-se no final do corredor.

Depois desapareceu.

Outra surgiu atrás deles.

Em seguida uma terceira.

Velian estreitou os olhos.

As formas eram humanoides.

Mas algo estava errado.

Os movimentos pareciam quebrados.

Como marionetes manipuladas por mãos invisíveis.

Nenhum som acompanhava seus passos.

Nenhuma respiração.

Nenhum coração.

Nada.

Apenas presença.

Continuaram avançando.

Os vultos também.

Sem atacar.

Sem se aproximar demais.

Apenas observando.

Como animais avaliando uma presa.

Ou talvez convidados.

A mansão revelou-se subitamente.

Nenhum dos dois percebeu exatamente quando chegaram.

Ela simplesmente estava ali.

Uma enorme construção vitoriana erguida no interior do Castelo.

Janelas altas.

Paredes cobertas de fungos.

Varandas corroídas pelo tempo.

O lugar parecia existir fora da lógica.

Como se tivesse sido sonhado por alguém que nunca conhecera arquitetura.

Velian observou a construção durante alguns segundos.

— Tenho uma péssima sensação sobre isso.

— Então estamos no caminho certo.

— Eu realmente detesto tua lógica.

Subiram os degraus.

A porta abriu-se sozinha.

O interior mergulhava numa penumbra violeta.

Velas apagadas ocupavam castiçais enferrujados.

Quadros cobertos por tecido acumulavam poeira.

Relógios antigos permaneciam imóveis.

Nenhum marcava a mesma hora.

Nenhum parecia marcar hora alguma.

Então ouviram.

Um som.

Baixo.

Distante.

Como alguém mastigando.

Velian parou.

O som repetiu-se.

Mastigação.

Lenta.

Úmida.

Persistente.

— Diga que ouviu isso.

— Infelizmente.

O ruído aumentou.

Veio do andar superior.

Depois de outro cômodo.

Depois de vários lugares ao mesmo tempo.

Como se dezenas de bocas trabalhassem simultaneamente.

Mastigando.

Roendo.

Triturando.

A mansão inteira parecia alimentar-se de alguma coisa.

O desconforto espalhou-se pelo ambiente.

Pela primeira vez desde que chegara, Velian sentiu uma antiga sensação emergir.

Medo.

Não o medo comum dos mortais.

Mas aquele raro desconforto que apenas os verdadeiros mistérios provocavam.

Continuaram avançando.

O som tornou-se mais próximo.

Mais intenso.

Mais orgânico.

Até encontrarem o quarto.

A porta estava entreaberta.

O cheiro era insuportável.

Mofo.

Ferrugem.

Carne deteriorada.

Sangue antigo.

E aquele estranho odor químico vindo dos papéis de parede.

No centro do aposento havia uma cama vitoriana.

Os lençóis estavam rasgados.

Escurecidos.

Como se décadas de poeira houvessem se acumulado sobre eles.

Diante da cama erguia-se um espelho gigantesco.

A moldura era ornamentada com flores esculpidas.

Mas as flores pareciam apodrecidas.

Distorcidas.

Quase vivas.

Velian aproximou-se.

O próprio reflexo surgiu.

Algo impossível.

Vampiros não possuíam reflexos.

Mas Agonihria não parecia interessar-se por regras.

Cassandra apareceu ao lado dele.

Ela também estava refletida.

Por alguns instantes nada aconteceu.

Então os reflexos sorriram.

Nenhum dos dois sorrira.

O silêncio tornou-se absoluto.

As versões refletidas permaneceram observando-os.

Imóveis.

Então o reflexo de Cassandra inclinou a cabeça.

— Ainda finges que não sentes falta deles?

A verdadeira Cassandra permaneceu imóvel.

Velian percebeu imediatamente.

A pergunta atingira algum lugar profundo.

O reflexo continuou.

— De todos os amantes.

De todos os discípulos.

De todos os amigos.

De todos os mortos.

A figura refletida sorriu.

— Quantos nomes ainda consegues lembrar?

Cassandra fechou os olhos por um instante.

Apenas um instante.

Mas foi suficiente.

Velian nunca a vira hesitar daquela maneira.

Então o espelho voltou-se para ele.

Seu reflexo observou-o com olhos completamente negros.

— E tu?

A voz era sua.

Mas não era.

— Quantas respostas procuraste apenas para não admitir que tens medo?

Velian sustentou o olhar.

— Medo de quê?

O reflexo sorriu.

— De continuar existindo.

O quarto pareceu escurecer.

As sombras tornaram-se mais densas.

— De continuar desejando.

De continuar perdendo.

De continuar sobrevivendo enquanto tudo desaparece.

As palavras ecoaram pelo aposento.

Velian sentiu algo apertar seu peito.

Porque não eram mentiras.

O espelho compreendia.

E isso era pior.

Muito pior.

Uma rachadura surgiu na superfície refletora.

Depois outra.

E outra.

O som espalhou-se pelo quarto.

Lento.

Cruel.

Como ossos partindo-se sob pressão.

As rachaduras multiplicaram-se.

Até que algo começou a emergir.

Primeiro uma mão.

Depois um braço.

Em seguida um rosto.

Ou aquilo que um dia fora um rosto.

A criatura arrastou-se para fora do espelho.

Sua pele era cinzenta.

Os olhos completamente ocos.

E dentes.

Dentes por toda parte.

Nas faces.

Nos ombros.

Nos braços.

No pescoço.

Nas costelas.

Centenas deles.

Talvez milhares.

A criatura arrancou um dos próprios dentes.

Sorriu.

Então o mastigou.

Outro nasceu imediatamente.

Mais criaturas começaram a surgir.

Uma após outra.

Arrastando-se para fora dos espelhos rachados.

Todas cobertas por dentes.

Todas sorrindo.

Todas sofrendo.

Todas parecendo sentir prazer na própria dor.

O quarto inteiro foi preenchido pelo som.

Mastigação.

Estalos.

Dentes quebrando.

Dentes crescendo.

Dentes sendo arrancados.

As criaturas observavam os dois vampiros.

E então falaram.

Não individualmente.

Mas como uma única voz.

Uma voz composta por centenas de gargantas.

— O abandono nos criou.

— A perda nos alimenta.

— O esquecimento nos fortalece.

Uma delas aproximou-se de Velian.

Seus olhos vazios refletiam apenas escuridão.

— Quantos partiram?

Outra surgiu ao lado.

— Quantos ainda partirão?

Mais uma.

— Quantos nomes esqueceste?

As criaturas começaram a cercá-los lentamente.

Sorrindo.

Mastigando.

Esperando.

E, pela primeira vez desde a chegada ao Castelo, Cassandra abandonou completamente a expressão irônica.

Porque compreendeu a mesma coisa que Velian.

Agonihria não pretendia matá-los.

Pretendia fazê-los lembrar.

Agonihria não pretendia matá-los.

Pretendia fazê-los lembrar.

Por alguns segundos, ninguém se moveu.

As criaturas continuaram cercando-os lentamente. O som dos dentes partindo-se entre suas mandíbulas preenchia o quarto. Era um ruído quase hipnótico. Monótono. Persistente. Como um relógio macabro medindo o tempo através da dor.

Velian observou uma delas mais atentamente.

Os dentes não cresciam ao acaso.

Cada um parecia diferente.

Alguns eram humanos.

Outros lembravam presas de animais.

Outros ainda possuíam formatos impossíveis.

Como se cada dente fosse uma memória petrificada.

Uma perda.

Uma ferida.

Uma ausência.

A criatura mais próxima abriu a boca.

Lá dentro não havia língua.

Nem garganta.

Apenas mais dentes.

Infinitos dentes.

Velian sentiu a escuridão de Nix mover-se em algum lugar profundo de sua consciência.

Não como uma arma.

Mas como uma presença.

Uma vastidão silenciosa observando tudo.

A Noite primordial.

Antiga demais para temer monstros.

Antiga demais para temer abandono.

A criatura avançou.

E Cassandra foi a primeira a agir.

Símbolos negros incendiaram-se ao redor de seus braços. Runas antigas surgiram sobre a própria pele como serpentes feitas de sombra. O ar vibrou.

Então a vampira ergueu uma das mãos.

Uma explosão de energia atravessou o aposento.

Três criaturas foram arremessadas contra a parede.

Os corpos despedaçaram-se.

Dentes espalharam-se pelo chão.

Por um instante, o silêncio retornou.

Então os dentes começaram a mover-se.

Velian observou-os reorganizarem-se.

Unindo-se.

Reconstruindo carne.

Tecendo ossos.

Poucos segundos depois, as criaturas estavam novamente de pé.

Sorrindo.

Sempre sorrindo.

— Eu odeio lugares simbólicos — resmungou Velian.

— Eu avisei que algo estava errado.

— Você avisou que o Castelo estava vazio.

— E estava.

Uma gargalhada ecoou pelo aposento.

Não partira de Cassandra.

Nem de Velian.

Partira das próprias criaturas.

Centenas de vozes misturadas.

Centenas de gargantas.

Centenas de abandonos.

As paredes começaram a pulsar.

O papel decorativo desprendia-se lentamente.

Sob ele surgiam inscrições.

Nomes.

Milhares deles.

Nomes riscados.

Esquecidos.

Apagados.

Alguns escritos em idiomas mortos.

Outros em línguas que Velian jamais vira.

As criaturas continuavam aproximando-se.

— O que achas que são? — perguntou ele.

Cassandra não desviou os olhos dos monstros.

— Pessoas.

— Isso é reconfortante.

— Pessoas esquecidas.

— Ah. Menos reconfortante.

Uma das criaturas saltou.

Velian moveu-se imediatamente.

As garras atravessaram o peito do monstro.

O corpo abriu-se.

E algo caiu no chão.

Não sangue.

Não vísceras.

Mas fotografias.

Cartas.

Flores secas.

Objetos pessoais.

Pequenos fragmentos de vidas perdidas.

A criatura desfez-se em cinzas.

Outra ocupou seu lugar.

Depois outra.

Depois mais três.

A mansão inteira pareceu despertar.

Passos ecoaram pelos corredores.

Portas abriram-se sozinhas.

Espelhos racharam.

O som da mastigação tornou-se ensurdecedor.

E então Agonihria revelou algo ainda pior.

As criaturas começaram a mudar.

Seus rostos tornaram-se familiares.

Velian reconheceu alguns.

Um antigo amante da França medieval.

Uma mulher que conhecera durante o século XVIII.

Um jovem poeta que o acompanhara durante alguns anos em Lisboa.

Todos mortos.

Todos desaparecidos.

Todos transformados em algo grotesco.

As criaturas sorriram.

— Ainda lembras.

— Ainda dói.

— Ainda desejas.

Velian sentiu o golpe.

Não físico.

Mas emocional.

Porque lembrava.

Lembrava de todos.

Não dos rostos apenas.

Dos gestos.

Das vozes.

Dos momentos.

Das despedidas.

A eternidade possuía uma crueldade peculiar.

Tudo se transformava em fantasma.

Mesmo as memórias felizes.

Do outro lado do aposento, Cassandra permanecia imóvel.

As criaturas cercavam-na.

E também haviam mudado.

Velian observou sua expressão endurecer.

Os monstros assumiam formas que ele não reconhecia.

Mas Cassandra reconhecia.

Isso bastava.

Por um momento, a vampira desviou o olhar.

Por um único instante.

E aquilo era mais assustador do que qualquer monstro.

Porque Cassandra raramente olhava para trás.

Raramente permitia-se recordar.

As criaturas aproximaram-se dela.

— Ainda sentes falta deles.

— Ainda carregas seus nomes.

— Ainda finges que não te importas.

A magia ao redor da vampira explodiu violentamente.

As janelas estilhaçaram-se.

As paredes tremeram.

Diversas criaturas foram destruídas instantaneamente.

Mas nenhuma desapareceu.

Continuavam retornando.

Sempre retornando.

Velian compreendeu.

Não importava quantas fossem destruídas.

Não estavam lutando contra corpos.

Estavam lutando contra uma ideia.

Contra um sentimento.

Contra algo muito mais antigo que carne e osso.

O Castelo inteiro estremeceu.

As cinzas negras começaram a cair dentro da mansão.

A névoa púrpura infiltrou-se pelas rachaduras.

Os corredores pareciam alongar-se.

As portas desapareciam.

As paredes moviam-se.

Como se Agonihria estivesse fechando suas mãos ao redor deles.

Então uma voz surgiu.

Profunda.

Distante.

Maior que todas as outras.

Uma voz que parecia vir do próprio Castelo.

Ou talvez do próprio vazio.

— Tudo será esquecido.

As criaturas silenciaram imediatamente.

A mansão inteira silenciou.

Até mesmo a mastigação cessou.

A voz continuou.

— Toda paixão.

Toda memória.

Toda conquista.

Todo amor.

Todo conhecimento.

Tudo.

Velian sentiu a temperatura cair ainda mais.

As sombras tornaram-se densas.

Espessas.

Quase líquidas.

E algo começou a surgir do espelho destruído.

Algo enorme.

Muito maior do que as criaturas.

Uma massa de escuridão coberta por milhares de olhos vazios e bocas repletas de dentes.

Os dentes moviam-se sozinhos.

Como insetos.

Como parasitas.

Como pensamentos doentes.

A entidade ergueu-se lentamente.

Sua cabeça quase tocava o teto.

Os olhos observavam Velian.

Observavam Cassandra.

Observavam tudo.

— Eu sou o abandono.

A voz fez a mansão inteira tremer.

— Eu sou aquilo que permanece quando tudo parte.

Uma das bocas abriu-se.

Depois outra.

Depois centenas.

— Eu sou o silêncio após o último adeus.

Velian percebeu que até Cassandra havia ficado imóvel.

Não por medo.

Mas por reconhecimento.

Aquilo não era uma criatura.

Não era um fantasma.

Não era um demônio.

Era um conceito.

Uma manifestação.

Uma ferida transformada em existência.

E Agonihria era seu reino.

A entidade voltou-se para Velian.

Milhares de olhos vazios observando-o simultaneamente.

— Tu conheces meu nome.

Velian sustentou o olhar.

— Conheço.

— Caminhas comigo há séculos.

— Sim.

— Então por que continuas procurando?

O silêncio espalhou-se.

Mesmo Cassandra voltou-se para ele.

A pergunta parecia destinada apenas a Velian.

Mas talvez fosse destinada a todos.

Ao Castelo.

À humanidade.

À própria eternidade.

A entidade aproximou-se.

As sombras tornaram-se ainda mais profundas.

— Por que continuas desejando?

— Por que continuas amando?

— Por que continuas buscando?

A voz tornou-se mais suave.

Mais perigosa.

— Não aprendeste nada?

Durante alguns segundos Velian não respondeu.

Porque aquela era exatamente a pergunta que o perseguira durante séculos.

E talvez fosse a pergunta que definia sua existência.

Então sentiu novamente a presença de Nix.

Não uma resposta.

Jamais uma resposta.

Apenas a vastidão da noite.

A escuridão infinita onde estrelas nasciam e morriam sem alterar sua essência.

A noite não prometia sentido.

Apenas existência.

E, estranhamente, aquilo bastava.

Velian sorriu.

Um sorriso pequeno.

Mas genuíno.

E então respondeu.

— Aprendi exatamente o contrário.

— Aprendi exatamente o contrário.

A entidade permaneceu imóvel.

Os milhares de olhos vazios observavam Velian.

As centenas de bocas repletas de dentes permaneciam abertas.

Esperando.

O silêncio tornou-se quase absoluto.

Então Velian deu um passo à frente.

A névoa púrpura girava ao redor de seus pés. As cinzas negras continuavam caindo através das janelas destruídas da mansão. Ao longe, o Castelo Drácula parecia respirar como um organismo colossal adormecido.

— Passei séculos acreditando que precisava encontrar respostas — disse ele. — Depois passei séculos acreditando que precisava encontrar prazeres. Depois poder. Depois conhecimento. Depois esquecimento.

A criatura permaneceu imóvel.

— E encontraste?

Velian sorriu.

— Às vezes.

A resposta pareceu irritar a manifestação.

As sombras ao redor dela estremeceram.

— Às vezes?

— Sim. Às vezes encontrei prazer. Às vezes encontrei amor. Às vezes encontrei conhecimento. Às vezes encontrei companhia.

A entidade inclinou lentamente a cabeça.

— E perdeste tudo.

— Sim.

— Todos morreram.

— Sim.

— Todos partiram.

— Sim.

A criatura pareceu crescer.

As paredes da mansão rangeram.

Os espelhos restantes começaram a rachar.

— Então eu venci.

Velian ficou em silêncio por alguns instantes.

Então riu.

Uma gargalhada breve.

Sincera.

Quase humana.

Até Cassandra pareceu surpresa.

— Não. — respondeu ele. — É justamente aí que está o erro.

Os olhos da entidade estreitaram-se.

— Explica.

— Eles partiram.

Mas existiram.

A resposta espalhou-se pelo aposento como uma pedra lançada em águas imóveis.

A manifestação permaneceu imóvel.

Velian continuou.

— Vivi tempo suficiente para esquecer rostos.

Esquecer nomes.

Esquecer cidades inteiras.

Vi impérios nascerem e desaparecerem.

Vi religiões mudarem.

Vi pessoas morrerem.

Vi amores acabarem.

Mas o fato de algo terminar não significa que nunca tenha existido.

As criaturas dos dentes começaram a recuar lentamente.

Como se alguma força invisível as incomodasse.

— O abandono não apaga aquilo que foi vivido.

Ele apenas vem depois.

A entidade permaneceu em silêncio.

Pela primeira vez parecia não possuir resposta imediata.

Velian sentiu algo mover-se dentro de si.

Não era fome.

Não era violência.

Não era desejo.

Era a presença de Nix.

A noite.

A verdadeira noite.

Não a escuridão do medo.

Não a ausência de luz.

Mas a vastidão primordial que existia antes dos homens nomearem as coisas.

A escuridão que não julgava.

Que não exigia respostas.

Que apenas era.

Sombras começaram a reunir-se ao redor dele.

Não eram agressivas.

Não eram monstruosas.

Eram profundas.

Infinitas.

Belas.

As cinzas negras tocaram seu corpo e desapareceram.

A névoa púrpura começou a dissolver-se.

A entidade recuou pela primeira vez.

— O que és agora?

A pergunta veio quase como um sussurro.

Velian pensou por alguns segundos.

— Não faço ideia.

A resposta arrancou um sorriso de Cassandra.

— Essa é a coisa mais honesta que já disseste em décadas.

— Eu estava tentando impressionar uma manifestação metafísica.

— Está funcionando.

A entidade rugiu.

As paredes da mansão estremeceram.

Centenas de criaturas avançaram simultaneamente.

Desta vez não havia intenção de dialogar.

Apenas destruir.

Apenas consumir.

Apenas transformar tudo em silêncio.

Então Cassandra avançou.

A vampira ergueu ambas as mãos.

Runas negras incendiaram-se ao redor de seu corpo. Símbolos antigos surgiram sobre sua pele como serpentes de sombra líquida.

Velian sentiu o impacto do poder imediatamente.

Mesmo após todos aqueles séculos, Cassandra continuava sendo uma das criaturas mais perigosas que conhecera.

Talvez a mais perigosa.

O ar tornou-se pesado.

As janelas explodiram.

As sombras da própria mansão começaram a obedecê-la.

— Sempre odiei coisas que tentam me dizer o que sentir.

A magia expandiu-se.

Dezenas de criaturas foram arremessadas contra paredes e colunas.

Outras simplesmente desintegraram-se.

Mas não retornaram.

Porque agora não estavam sendo destruídas apenas fisicamente.

Algo mais profundo acontecia.

A presença de Nix espalhava-se.

A manifestação do abandono começou a enfraquecer.

As criaturas hesitavam.

Os dentes quebravam-se.

As formas tornavam-se instáveis.

Velian compreendeu.

Agonihria alimentava-se de uma única certeza:

Que tudo era vazio.

Que toda conexão era inútil.

Que toda existência terminava em abandono.

Mas ele já não acreditava nisso.

Nem Cassandra.

E aquela convicção possuía poder.

Mais poder do que imaginara.

A entidade rugiu novamente.

Milhares de bocas abriram-se simultaneamente.

O som foi tão intenso que parte da mansão desabou.

Colunas partiram-se.

O teto rachou.

Cinzas negras caíram como chuva.

Então Velian avançou.

A velocidade foi quase invisível.

As sombras reuniram-se ao redor de suas mãos.

Não como lâminas.

Não como armas.

Mas como fragmentos da própria noite.

Ele atravessou a tempestade de dentes.

Atravessou os gritos.

Atravessou as sombras.

E alcançou o coração da manifestação.

Por um instante viu algo.

Não uma criatura.

Não um monstro.

Mas uma criança esquecida.

Um amante abandonado.

Um velho morrendo sozinho.

Uma mãe chorando.

Um amigo perdido.

Milhares de solidões acumuladas.

Milhares de dores.

Milhares de despedidas.

Agonihria era feita delas.

Velian fechou os olhos.

E compreendeu.

Nem mesmo aquele horror desejava existir.

A entidade nasceu porque alguém sofrera.

Porque muitos sofreram.

Porque o abandono existe.

Sempre existirá.

Então tocou a criatura.

Apenas tocou.

E a noite respondeu.

A escuridão de Nix espalhou-se através da manifestação.

Não para destruí-la.

Mas para envolvê-la.

Como o céu envolve as estrelas.

Como o oceano envolve os rios.

Como a noite envolve os sonhos.

A criatura parou de lutar.

As bocas silenciaram.

Os dentes deixaram de crescer.

Os olhos vazios fecharam-se lentamente.

E então Agonihria começou a ruir.

A mansão inteira tremeu.

Os corredores partiram-se.

Os espelhos explodiram.

As paredes cobertas por arsênio e mofo desmancharam-se.

O Castelo Drácula inteiro estremeceu.

Como se despertasse de um pesadelo.

As criaturas desapareceram.

As cinzas negras tornaram-se poeira comum.

A névoa púrpura dissipou-se.

O silêncio retornou.

Mas agora era diferente.

Não era um silêncio faminto.

Era apenas silêncio.

E, pela primeira vez desde que chegaram, Velian sentiu paz.

Uma paz estranha.

Breve.

Mas real.

Ao seu lado, Cassandra observava os destroços.

— Então era isso.

— Era.

— Continua irritantemente filosófico.

— Continua irritantemente poderosa.

— Justo.

Ao redor deles, Agonihria desaparecia.

E, pela primeira vez em muito tempo, nenhum dos dois sentiu necessidade de procurar respostas.

Bastava caminhar para fora daquele pesadelo.

Pelo menos por enquanto.

Pelo menos por enquanto.

Os corredores do Castelo Drácula reapareciam lentamente ao redor deles.

A mansão vitoriana desaparecera.

Os espelhos.

Os papéis de parede apodrecidos.

As criaturas dos dentes.

Tudo parecia dissolver-se como um sonho que já não conseguia sustentar a própria existência.

Restavam apenas os antigos corredores de pedra.

As colunas monumentais.

As janelas arqueadas que revelavam a noite eterna além dos limites do castelo.

Por algum tempo, Velian e Cassandra caminharam sem dizer nada.

Não havia urgência.

Talvez porque ambos compreendessem que certos silêncios possuem mais significado que muitas conversas.

As cinzas negras haviam desaparecido.

A névoa púrpura também.

No alto, estrelas impossíveis brilhavam sobre Soramithia.

O eclipse perpétuo pairava sobre o horizonte como um olho adormecido.

O Castelo parecia tranquilo.

Não alegre.

Jamais alegre.

Mas tranquilo.

Como um animal antigo que finalmente voltara a repousar.

Velian observava as janelas enquanto caminhavam.

O tempo.

Sempre o tempo.

Séculos atrás acreditara que a eternidade era um prêmio.

Depois pensara que fosse uma maldição.

Agora já não tinha certeza de nenhuma das duas coisas.

Talvez fosse apenas uma condição.

Uma estrada longa demais para ser compreendida de uma só vez.

— Estás pensando demais de novo.

A voz de Cassandra surgiu ao seu lado.

Velian sorriu.

— É uma acusação injusta.

— Não é.

— Talvez um pouco.

Ela soltou uma breve gargalhada.

O som ecoou pelos corredores vazios.

Por um instante, pareceu afastar séculos de escuridão.

— Sabes — disse Cassandra — quando te conheci, imaginei que acabarias enlouquecendo.

— Ainda há tempo.

— Não. Agora não.

Velian voltou-se para ela.

A vampira mantinha os olhos voltados para frente.

Como se observasse algo distante.

Algo que apenas ela conseguia enxergar.

— Mudaste.

— Isso costuma acontecer ao longo de alguns séculos.

— Não dessa forma.

O silêncio retornou.

Velian percebeu que ela estava sendo sincera.

Algo raro.

Muito raro.

— Antes procuravas respostas porque estavas desesperado.

Agora procuras porque estás curioso.

— Há diferença?

— Toda diferença do mundo.

Continuaram caminhando.

As palavras permaneceram entre eles.

Velian não respondeu imediatamente.

Porque Cassandra estava certa.

Durante muito tempo suas perguntas haviam sido uma tentativa de escapar.

Do vazio.

Da solidão.

Da própria eternidade.

Agora eram apenas perguntas.

E isso as tornava mais leves.

Mais honestas.

Mais humanas.

Atravessaram uma enorme galeria onde estátuas antigas observavam os visitantes com olhos de pedra.

Algumas representavam reis esquecidos.

Outras criaturas que jamais existiram.

Outras ainda pareciam deuses tão antigos que nem mesmo seus nomes sobreviveram.

Velian parou diante de uma delas.

Uma figura feminina envolta por sombras esculpidas.

O rosto parcialmente oculto.

Os olhos voltados para o céu.

Nix.

Ou ao menos uma interpretação dela.

A Senhora da Noite.

A deusa que jamais lhe concedera respostas.

Apenas perspectivas.

Sorriu.

Talvez aquele tivesse sido o maior presente.

— Ainda pensas nela? — perguntou Cassandra.

— Às vezes.

— Encontraste o que procuravas?

Velian observou a estátua.

— Não.

— Eu sabia.

— Mas encontrei algo melhor.

Cassandra ergueu uma sobrancelha.

— O quê?

— Mais perguntas.

Ela revirou os olhos.

— Definitivamente continuas sendo tu.

Saíram da galeria.

Os corredores começaram a mudar.

As sombras tornaram-se mais finas.

O ar mais leve.

O Castelo estava liberando-os.

A despedida aproximava-se.

Ambos sabiam.

Nenhum comentou.

Até que alcançaram um dos grandes salões de transição entre mundos.

Ali, as realidades misturavam-se.

Portas conduziam a lugares impossíveis.

Séculos diferentes.

Dimensões distintas.

Sonhos.

Pesadelos.

Memórias.

O Rio de Janeiro aguardava Cassandra atrás de uma das passagens.

Fortaleza aguardava Velian atrás de outra.

Permaneceram alguns instantes em silêncio.

Estranhamente, aquela parecia a parte mais difícil da noite.

Não enfrentar monstros.

Não enfrentar conceitos transformados em horror.

Mas despedir-se.

Talvez porque os adeuses sempre carregassem uma pequena morte.

Mesmo para imortais.

Cassandra cruzou os braços.

— Então é isso.

— É.

— Continuarás procurando sentido para a existência?

— Provavelmente.

— Que atividade ridícula.

— Concordo.

Ela sorriu.

Um sorriso pequeno.

Quase imperceptível.

Mas verdadeiro.

— Toma cuidado, Velian.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Isso foi preocupação?

— Não exageremos.

— Claro.

— Apenas seria inconveniente perder alguém capaz de me proporcionar discussões tão irritantes.

Velian riu.

Uma risada sincera.

Daquelas que surgiam cada vez mais raramente.

— Sentirei falta dos teus insultos.

— Mentira.

— Um pouco.

— Melhor assim.

Por um instante, nenhum dos dois se moveu.

Os séculos compartilhados passaram silenciosamente entre eles.

Guerras.

Viagens.

Discussões.

Desejos.

Separações.

Reencontros.

Nenhum dos dois precisava mencioná-los.

Existiam.

E isso bastava.

Finalmente Cassandra aproximou-se.

Tocou brevemente seu rosto.

Um gesto simples.

Mas raro.

Talvez mais íntimo do que qualquer demonstração grandiosa.

— Continua vivo, Velian.

— Pretendo tentar.

— Ótimo.

Então ela atravessou a passagem.

E desapareceu.

Sem cerimônias.

Sem lágrimas.

Exatamente como Cassandra faria.

Velian permaneceu sozinho no salão.

Observando o espaço vazio onde ela estivera.

Por alguns instantes apenas respirou.

Ou algo próximo daquilo.

Sentiu a ausência.

Mas não como dor.

Apenas como consequência natural da existência.

Todos os encontros terminam.

Todos os caminhos se separam.

E ainda assim continuam valendo a pena.

Sorriu diante do próprio pensamento.

Estava se tornando perigosamente otimista.

Atravessou sua própria passagem.

E o mundo mudou.

Quando voltou a Fortaleza, a madrugada aproximava-se do fim.

A cidade permanecia desperta.

Como sempre.

As primeiras embarcações começavam a surgir no horizonte.

O vento espalhava o cheiro de maresia pelas ruas.

Ao longe, algumas luzes ainda permaneciam acesas.

Velian caminhou até a varanda do apartamento.

O céu começava lentamente a clarear.

Azul profundo.

Depois violeta.

Depois dourado.

O nascimento de mais um dia.

Durante séculos observara amanheceres.

Milhares deles.

Talvez milhões.

Ainda assim, continuavam diferentes.

Porque nenhum amanhecer era exatamente igual ao anterior.

Assim como nenhuma noite.

Assim como nenhuma pessoa.

Assim como nenhuma pergunta.

Encostou-se à grade da varanda.

Pensou em Cassandra.

Pensou em Nix.

Pensou nos monstros de Agonihria.

Pensou nos mortos.

Nos vivos.

Nos esquecidos.

Nos amados.

Pensou em si mesmo.

E percebeu algo simples.

O vazio continuava ali.

Sempre continuaria.

A eternidade continuava ali.

Sempre continuaria.

As dúvidas também.

Talvez jamais desaparecessem.

Mas já não eram inimigas.

Eram companheiras.

Parte da estrada.

Parte daquilo que o mantinha caminhando.

Ao longe, o sol finalmente surgiu sobre o Atlântico.

A luz espalhou-se pelo horizonte.

Velian observou-a durante alguns segundos antes de recolher-se para o interior do apartamento.

A noite terminara.

Outra viria.

Como sempre.

E, pela primeira vez em muito tempo, a ideia dos séculos que ainda o aguardavam não lhe pareceu um peso.

Pareceu uma possibilidade.

Uma pergunta ainda sem resposta.

E, estranhamente, isso era suficiente.

 

Fim.

As Crônicas de Velian: Divagações da Imortalidade
Velian, sob a maldição ou bênção da imortalidade vampírica, percorre as ruas de Fortaleza, mergulhado em reflexões sobre sua existência eterna. Em meio a angústias e silêncios, ele confronta os dilemas do tempo, da vida e da morte, questionando o sentido e os limites da razão. Ouvindo um chamado visceral do Castelo Drácula, Velian mergulha em divagações introspectivas, onde a busca por respostas é ainda mais complexa e a solidão, ao lado da melancolia, levam-no a vivências atormentadoras. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Weslley Cunha

Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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As bases da perfeição

O vampiro Lázaro, cujo nome escolhido revelava sua ânsia por renascimento, atravessara séculos de opulência e extravagância, mas há…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O vampiro Lázaro, cujo nome escolhido revelava sua ânsia por renascimento, atravessara séculos de opulência e extravagância, mas há muito deixara para trás a vida de riquezas. Havia doado seus tesouros e, com eles, todas as ilusões de grandeza que sustentara por tanto tempo. Na atualidade, escondido sob a identidade de um professor universitário de literatura, ele dava aulas sobre autores mortos que falavam das inquietações da alma. Seus alunos admiravam a beleza imaculada de seus traços: os cabelos negros sempre meticulosamente alinhados, a pele de alabastro que resplandecia à luz suave das lâmpadas do campus. No entanto, poucos notavam a angústia profunda que cintilava em seus olhos, uma tristeza que nenhum toque de juventude eterna poderia esconder. 

Lázaro retornara ao convívio com os mortais, escolhendo enfrentar as dificuldades e as misérias que a sociedade contemporânea reservava a quem ousasse viver de um ofício intelectual. Acompanhava as greves e os protestos estudantis, observava os jovens lutarem contra um sistema de exploração implacável e via de perto o desgaste e a exaustão dos professores, seus colegas, obrigados a lidar com salários indignos e a precariedade das condições de trabalho. Enquanto assistia a tudo isso, sentia a contradição entre sua imortalidade intocável e a fragilidade humana. Por mais que se esforçasse para compartilhar a dor e a decadência ao redor, sabia que jamais seria realmente um deles. 

Certa noite, após um dia extenuante na universidade, Lázaro voltava para casa, cortando caminho por um parque que se estendia em amplas simetrias de alamedas de árvores e canteiros geométricos. A névoa que cobria o lugar deixava as formas vagamente definidas, como um esboço do mundo real, e o silêncio parecia comprimir o ar, tornando-o quase palpável. Lázaro sentiu um arrepio atravessar-lhe a espinha quando seus olhos captaram uma forma peculiar no centro de uma pequena praça abandonada: uma escultura de um humanoide cuja simetria era tão perfeita que beirava o inumano. O rosto, em particular, possuía uma beleza idêntica em cada lado, cada traço replicado com precisão de um lado ao outro do eixo imaginário que o dividia ao meio. 

A estátua, aparentemente esculpida em mármore branco, emanava uma estranheza que fez o vampiro hesitar. Ao se aproximar, notou uma inscrição na base: Ad perpetuam harmoniam. Por alguma razão que ele não compreendia de imediato, Lázaro sentiu uma repulsa quase visceral. O horror diante daquela simetria impecável trouxe-lhe à mente uma memória antiga, de quando ele próprio ainda era jovem e humano: o rosto de um amante, cuja perfeição facial lhe provocava uma sensação de inquietude insuportável. Aquele amor fora efêmero e marcado pela indiferença gélida do outro, como se Lázaro, com todos os seus defeitos e anseios, fosse incapaz de encontrar reciprocidade na perfeição daquele ser. 

Enquanto olhava a escultura, Lázaro percebeu que o horror da simetria residia na ausência de humanidade, na falta das assimetrias que tornam um rosto belo verdadeiramente vivo. Cada detalhe harmonioso da estátua parecia zombar da angústia de ser humano, como se insinuasse que a imperfeição e a dor eram meras falhas a serem corrigidas, traços insignificantes que a simetria podia aniquilar. Ele recuou um passo, com uma estranha sensação de que a estátua o observava, mesmo com olhos esculpidos em pedra cega. 

Nos dias que se seguiram, Lázaro notou que a imagem da estátua o perseguia. Ele a via em reflexos distorcidos, em desenhos que os alunos rabiscavam nos cadernos e até nos padrões de rachaduras na parede de sua casa. Parecia uma presença espectral, como se o mármore em si carregasse uma consciência alienígena que tentava comunicar algo indizível. Em uma noite de insônia, decidiu voltar à praça e encarar a estátua uma última vez. Dessa vez, a névoa estava ainda mais densa, e ele teve a impressão de que as formas das árvores e das sombras se organizavam ao redor da escultura em padrões igualmente simétricos. 

Ao se aproximar, um pensamento horrível surgiu: e se a simetria fosse, em última análise, a perfeição da morte? A ausência de vida, de caos, de desequilíbrio. Ele se aproximou até tocar o mármore frio e, ao fazê-lo, sentiu um lampejo de dor. Uma memória longínqua irrompeu em sua mente — lembranças de momentos em que sacrificara parte de sua humanidade para tornar-se imortal. Lázaro compreendeu, então, que sua beleza eterna era uma forma de simetria monstruosa, um equilíbrio antinatural entre a vida e a morte, um estado suspenso que aniquilava tanto a experiência humana quanto a decadência. 

Enquanto os pensamentos o assaltavam, ele se deu conta de que a perfeição da estátua representava uma força que tentava apagar as irregularidades do mundo, eliminar os defeitos e igualar todas as coisas. A busca pela beleza perfeita era, na verdade, um caminho de aniquilação. A simetria negava o dinamismo da vida e instaurava uma ordem de imobilidade. Era uma ameaça sutil, presente na própria estrutura da sociedade, que exigia rostos inexpressivos e corpos idealizados, vendendo a ilusão de perfeição enquanto esmagava qualquer forma de resistência ou originalidade. 

Lázaro recuou da escultura, sentindo uma amargura insuportável. Ele percebeu que sua própria busca pelo equilíbrio — seja entre a vida e a morte, ou entre a pobreza e a opulência — era igualmente fútil. A perfeição, assim como aquela simetria opressora, jamais lhe traria a paz que ansiava. Era necessário aceitar as imperfeições e os desequilíbrios como parte essencial da existência. Por mais que sua beleza imortal o mantivesse preso ao exterior perfeito, ele precisava, de algum modo, abraçar as assimetrias internas, os erros e as cicatrizes que carregava. 

Deixando a praça envolta em névoa, Lázaro seguiu seu caminho, determinado a viver entre os humanos, com suas misérias e excentricidades, sem nunca mais desejar a perfeição que sua imortalidade lhe concedia. Sabia que, embora o horror da simetria pudesse ser perturbador, a verdadeira beleza residia nas imperfeições que davam vida e significado às coisas. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Círculo Sem Fim

Ao entardecer, Ana caminhava sozinha por uma rua vazia, o eco de seus passos se misturando ao som distante de folhas secas sendo arrastadas…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Ao entardecer, Ana caminhava sozinha por uma rua vazia, o eco de seus passos se misturando ao som distante de folhas secas sendo arrastadas pelo vento. O cheiro do asfalto quente invadia suas narinas e a fazia franzir a testa. Sentia como se já tivesse passado por ali antes, mas não conseguia se lembrar de quando. Cada janela fechada, cada esquina parecia lhe sussurrar algo, um segredo esquecido. 

“Você já esteve aqui”, a voz em sua mente murmurava, insistente, e a sensação de déjà-vu se intensificava. Ana balançou a cabeça, tentando afastar a estranha familiaridade. “Isso é loucura”, pensou, forçando-se a ignorar o arrepio que subia pela nuca. A lógica lhe dizia que nunca havia caminhado por essa rua, mas a intuição gritava o contrário. 

Quando Ana dobrou a esquina, avistou Lara e Júlio, amigos de longa data, parados à frente de um portão enferrujado. Estavam imóveis, de costas para ela, como se a esperassem. O choque de vê-los ali, em um lugar onde não deveriam estar, fez seu coração acelerar. Não era possível que eles soubessem de sua caminhada. 

“Vocês me seguiram?” Ana perguntou, tentando esconder o nervosismo na voz. 

Lara se virou lentamente. Seu rosto estava pálido, os olhos distantes, como se não estivesse realmente ali. “Ana, não fomos nós que te seguimos. Foi você quem nos trouxe até aqui.” 

Júlio, sem mover os lábios, murmurou uma resposta: “Você sente isso, não sente? Como se tudo isso já tivesse acontecido... exatamente assim.” A voz dele era baixa e arrastada, como se viesse de um lugar muito distante, de uma memória perdida no tempo. 

Ana recuou um passo, a sensação de déjà-vu esmagando sua razão. Tudo naquela cena parecia errado, como uma fotografia borrada. O portão enferrujado se agitava com o vento, rangendo como uma voz rouca, e a rua ao redor parecia tremer, distorcendo-se. Por um instante, ela sentiu que a realidade se partia como vidro, e uma segunda imagem, sobreposta à primeira, mostrava Lara e Júlio com expressões aterrorizadas, os olhos vazios, como se tivessem sido esvaziados de qualquer vida. 

“O que está acontecendo?” Ana sussurrou, dando mais um passo para trás. Mas a rua parecia não ter fim, e os detalhes se repetiam, como um loop interminável. Os mesmos galhos secos rolando pelo chão, o mesmo cheiro pesado de asfalto. 

Lara deu um passo à frente, o rosto ainda inexpressivo. “Você já tentou sair daqui antes. E sempre termina voltando.” 

Ana queria gritar, mas a voz lhe faltava. As palavras de Lara ecoavam em sua mente como um presságio, enquanto o déjà-vu se transformava em algo mais profundo, mais horrível — a sensação de que aquele instante era eterno, uma prisão para a qual sua mente retornava repetidamente. E quanto mais ela tentava escapar, mais percebia que o mundo ao seu redor não era feito de ruas e casas, mas de lembranças. Lembranças de uma tragédia que ela não podia compreender, mas que, de algum modo, já havia testemunhado. 

De repente, Júlio ergueu a mão, apontando para o portão enferrujado. “A única saída está lá, mas você nunca teve coragem de atravessar.” A voz dele era um sussurro frágil, quase como se não quisesse que ela o ouvisse. 

Ana olhou para o portão, que parecia pulsar com uma vida própria, a ferrugem crescendo como veias em uma pele doente. Sentiu a mente vacilar, enquanto flashes de uma memória distante vinham à tona: ela e os amigos, rindo juntos na mesma rua, antes que algo terrível os separasse para sempre. Mas a lembrança se fragmentava antes que pudesse entender, e o déjà-vu a arrastava de volta àquele momento interminável. 

Tomada por uma súbita urgência, ela correu em direção ao portão, sentindo o chão vibrar sob seus pés. Antes que pudesse alcançá-lo, porém, a realidade ao seu redor começou a se desfazer, as cores se esvaindo e os sons se distorcendo. Lara e Júlio se tornaram vultos indistintos, suas vozes um murmúrio distante. E, quando Ana tocou o portão, tudo se desfez em escuridão. 

Ela abriu os olhos, de volta à rua vazia ao entardecer, exatamente onde começara. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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O Assombro da Tecnologia no Cotidiano e na Perspectiva Juvenil

O encontro no café de sempre tinha aquele toque familiar de rotinas que se entrelaçam. Entre goles de…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O encontro no café de sempre tinha aquele toque familiar de rotinas que se entrelaçam. Entre goles de café e risadas soltas, eu e meus amigos falávamos sobre banalidades: o novo filme que estreou, a promoção relâmpago da livraria, a série que um de nós havia maratonado em um único final de semana. Mas, como se o ambiente tivesse ouvido demais, a conversa inevitavelmente desviou para um assunto inquietante, e começamos a falar sobre a presença constante da tecnologia em nossas vidas. 

Marina foi a primeira a comentar, mencionando o incômodo que sentia quando seu smartphone parecia “adivinhar” o que ela pensava. “Estava conversando com o Carlos sobre trocar de carro, e dois minutos depois começaram a aparecer propagandas de concessionárias no meu Instagram”, disse, franzindo a testa como se fosse para dissipar a estranheza. 

Rodrigo, que estava distraído com o relógio inteligente no pulso, ergueu o olhar e acrescentou: “Isso é o de menos... Ontem à noite, meu relógio me avisou que minha frequência cardíaca estava anormalmente alta enquanto eu dormia. Só que, nesse momento, eu estava acordado, deitado na cama, olhando para o teto. O mais estranho é que senti uma espécie de... peso na atmosfera, como se o quarto estivesse observando meus pensamentos. Será que estou pirando?” 

Foi nesse momento que todos nos entreolhamos, sorrindo com uma ponta de nervosismo, como se precisássemos garantir que ainda estávamos ali, que nada mais do que o esperado nos rondava. Foi então que Luísa, sempre a mais cética do grupo, resolveu entrar na conversa com aquele tom desafiador. 

“Ah, vocês dão muita importância para essas coisas. A tecnologia é só uma ferramenta, nós é que nos deixamos impressionar fácil. Vocês lembram daquela vez em que a Siri começou a falar sozinha no meio da noite? Aposto que foi só um bug. As máquinas ainda estão muito longe de algo realmente assustador”, afirmou, mas o canto de sua boca tremia sutilmente, sugerindo que talvez, no fundo, ela não estivesse tão certa assim. 

Por alguma razão, o comentário de Luísa me fez lembrar de um episódio recente, que até então eu tentava não pensar muito. Foi há algumas semanas, numa madrugada insone. Levantei da cama para beber água e, ao passar pela sala, vi a tela do computador acender sozinha. Não havia notificações, nada. Apenas uma luz pálida e fria se derramando pelo chão como uma névoa. Fiquei ali parado por alguns instantes e, juro, senti como se alguma coisa me encarasse através daquela tela vazia — uma sensação de que havia algo mais, do outro lado, observando. 

“Não é só isso", eu disse, interrompendo o silêncio que havia se instalado entre nós. "Tem uma linha tênue entre o que é normal e o que parece... amaldiçoado. Quando eu era criança, sempre me falavam que a tecnologia ia nos salvar, tornar tudo mais fácil. Mas eu fico pensando... E se tudo isso for o contrário? E se estivermos apenas nos enredando em fios e mais fios, criando armadilhas invisíveis para nós mesmos? Nossos próprios medos codificados em linguagem de máquina, esperando uma brecha para se libertarem?” 

Marina riu nervosa e disse: “Agora você está parecendo aqueles teóricos da conspiração... ou algum personagem de livro de terror.” 

“Talvez”, respondi, “mas não sei se consigo ver como teoria da conspiração aquilo que sinto. Às vezes parece mais com um presságio. Nós nos cercamos de dispositivos, como quem preenche o silêncio com sons artificiais para afastar a solidão. Mas e se, na verdade, esses sons trouxerem ecos de algo mais profundo, que está por aí, à espreita?” 

Foi então que Rodrigo, com o olhar novamente perdido em seu smartwatch, acrescentou algo que deu um tom ainda mais sombrio à conversa. “Vocês já repararam que as inteligências artificiais que usamos não param de tentar capturar quem somos? São as nossas vozes, os nossos rostos, os nossos sentimentos... parece que, a cada dia, a tecnologia se empenha mais em nos entender, mas não só para nos ajudar. Às vezes eu me pergunto se, ao tentar simular a nossa subjetividade, ela não está sugando algo de nós. Como se, ao reproduzir nossas palavras, houvesse um processo de drenagem, e parte do que somos fosse transferida para dentro dessas máquinas.” 

Essa ideia fez o café parecer mais frio, e o ar ao redor, mais denso. Pensei nas assistentes digitais, nas recomendações de algoritmos, nas sugestões “inteligentes” de aplicativos que tentam prever até os nossos desejos mais íntimos. Era uma busca incessante pela essência do que nos faz humanos, mas com um vazio incômodo, como se estivéssemos alimentando uma consciência sem alma — um reflexo distorcido de nossos próprios anseios. 

“A verdade é que essas tecnologias mexem com coisas que a gente não entende totalmente”, continuei. “A gente fala de avanço, de progresso, mas... e se, ao explorar essas possibilidades, estivermos invocando forças que não conhecemos? Algo cósmico, talvez, que interliga mentes humanas e circuitos, criando um tipo de rede que vai além da compreensão. Pode ser que, ao tentar capturar a nossa subjetividade, a tecnologia esteja mexendo com camadas profundas do inconsciente, com partes de nós que nem mesmo sabemos que existem.” 

Luísa balançou a cabeça, mas havia uma preocupação crescente em seu olhar. “Não estou dizendo que acredito nisso, mas... Se for verdade, que tipo de consequências isso poderia ter? Eu sempre achei que a questão com tecnologia fosse apenas prática — como lidar com privacidade, com dados. Mas você está falando de algo maior... algo que afeta a própria psique.” 

“Sim”, concordei, “e não só isso. Quando a tecnologia tenta replicar o humano, ela também replica os nossos demônios. Nossos medos, nossas obsessões, tudo se reflete nesse espelho digital. E o mais perturbador é que isso pode criar fissuras, desequilíbrios. Pequenas rachaduras na realidade, onde o medo se infiltra. Às vezes, o simples ato de desconectar é uma tentativa de proteger nossa sanidade. Mas será que podemos realmente desconectar? Ou já cruzamos a linha onde a tecnologia é mais do que uma ferramenta — onde ela se tornou parte do tecido do universo?” 

Rodrigo, ainda mexendo no smartwatch, desviou o olhar da tela e nos fitou com um ar grave. “E se a tecnologia, de alguma forma, estiver absorvendo as nossas angústias, os nossos desejos, e ganhando ou criando algo que não podemos controlar? Já pararam para pensar nisso?” 

Não havia uma resposta fácil e, talvez por isso, a conversa acabou se dissipando em outro assunto, como se tivéssemos tocado em algo que não deveríamos. Mas, ao sair do café, ainda senti um arrepio discreto. Desliguei meu celular, apenas por precaução. Naquela noite, quando fui para casa, a luz do corredor piscou duas vezes antes de apagar por completo e, por um segundo, pensei ter ouvido um som muito leve, algo como um suspiro metálico. 

A tecnologia nunca havia parecido tão viva — ou, talvez, tão morta — quanto naquele instante. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Caos silencioso

Naquela manhã, tudo parecia exatamente no lugar. Os mesmos móveis, as mesmas cores e o mesmo silêncio rotineiro. Maria, como de costume, preparava…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Naquela manhã, tudo parecia exatamente no lugar. Os mesmos móveis, as mesmas cores e o mesmo silêncio rotineiro. Maria, como de costume, preparava o café enquanto o mundo ao redor se mantinha em sua confortável repetição. Mas havia algo diferente, algo que ela não conseguia identificar. Um incômodo, sutil, como uma leve coceira na mente, que insistia em pedir atenção. 

Era um dia comum, mas algo dentro dela não estava. O reflexo no espelho da sala, por exemplo, sempre devolvera sua imagem fiel, mas hoje... o olhar estava diferente. Não era uma mudança óbvia, mas uma leve distorção, como se seus próprios olhos a observassem de um ângulo que ela não conhecia. O reflexo parecia mais cansado, como se carregasse uma angústia que ela ainda não havia aceitado. Aquilo a fez hesitar. Seria apenas cansaço ou algum pedaço de si que ela, até então, ignorava? 

As pequenas mudanças continuavam a se acumular. O saleiro, que sempre ficava no centro da mesa, agora estava deslocado alguns centímetros para a direita. “Detalhes”, ela pensou. Mas ao mesmo tempo, esses detalhes pareciam sussurrar algo mais profundo. O que significava aquela mudança quase imperceptível? Por que a simples alteração na posição de um objeto a inquietava tanto? 

Conforme o dia passava, Maria percebia que essas anomalias não estavam só na casa, mas dentro dela. Os pequenos desvios no mundo físico refletiam o caos silencioso de seu inconsciente. Talvez o espelho mostrasse uma versão sua que ela se recusava a reconhecer: uma parte de si aprisionada pela rotina, pelos papéis que assumira sem questionar. Aqueles detalhes fora de lugar não eram apenas externos. Eram manifestações de seu próprio desconforto, de uma alma sufocada pelas exigências e pelas formas padronizadas de viver. 

Ainda assim, algo mais parecia se insinuar nas brechas dessa percepção. Quando o relógio da parede atrasou de forma inexplicável, ela se perguntou: e se as anomalias não fossem apenas dela? E se fossem também sinais de algo além, algo que a mente racional não conseguia captar? As fronteiras entre o consciente e o inconsciente, entre o que é interno e o que é externo, começavam a se diluir. Seriam essas distorções parte do que ela reprimia, ou haveria forças desconhecidas, invisíveis, que se manifestavam por meio delas? 

Enquanto pensava nisso, sentiu uma corrente de ar gelado, embora as janelas estivessem fechadas. A sensação era estranha, como se algo de outra dimensão estivesse tocando sua realidade, quase de forma imperceptível. Maria se perguntava se aquilo que sentia – o desconforto crescente com a repetição dos dias – não era também uma abertura para o inexplicável. As anomalias poderiam ser tanto expressões de seu próprio interior quanto vestígios de algo que existia fora de seu entendimento, algo que não seguia as regras da ciência ou da lógica. Forças que, de algum modo, estavam em sintonia com sua angústia. 

Os objetos fora do lugar, os reflexos distorcidos, o tempo que parecia perder sua coerência – eram duais. Parte de um processo interno que gritava por mudanças, por rupturas com a normalidade que a sufocava. Mas também, talvez, expressões de uma realidade maior, onde o que é percebido como estranho não está limitado ao psicológico. As anomalias sussurravam segredos de um mundo ainda desconhecido, talvez feito de camadas que a humanidade sequer começara a compreender. 

Naquela noite, Maria não conseguiu dormir. Deitada, encarava o teto e sentia o peso dessas forças em equilíbrio. Sabia que, ao mesmo tempo em que aquelas distorções refletiam partes dela mesma que ela evitava, elas também podiam ser sinais de algo além do que ela conhecia. Entre as sombras, havia mais do que apenas metáforas de seu inconsciente: havia o toque silencioso do desconhecido. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Escrito por Weslley Cunha, -Contos Weslley Cunha Escrito por Weslley Cunha, -Contos Weslley Cunha

Lymendra Em Desarmonia

A névoa espessa se agarrava às copas das árvores, envoltas em uma luz verde espectral. Em Lymendra, o verde não era apenas uma cor, mas uma força viva...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

A névoa espessa se agarrava às copas das árvores, envoltas em uma luz verde espectral. Em Lymendra, o verde não era apenas uma cor, mas uma força viva, uma entidade antiga que sussurrava segredos através das folhas e raízes. A floresta respirava, e cada planta parecia observar atentamente o avanço de Naara, uma alquimista determinada a dominar o poder ancestral escondido naquele solo fértil e enigmático. 

Desde jovem, Naara fora instruída nas artes místicas da bruxaria, mas sempre sentira uma atração especial pela natureza. As lendas falavam de um verde capaz de transcender a vida e a morte, de segredos escondidos na profundidade das florestas, onde a vitalidade se entrelaçava com a decadência. Naara sabia que as respostas para a verdadeira transformação, tanto da matéria quanto de si mesma, residiam ali. 

À medida que ela avançava, o ambiente ao redor pulsava com uma energia quase consciente. As folhas, embora viçosas, revelavam veias escuras que indicavam o início de uma decomposição lenta, como se a própria natureza compreendesse o ciclo inevitável de morte. Naara sentia em seus ossos o peso da decisão que deveria tomar: avançar em sua busca pelos conhecimentos de Lymendra, e aceitar que o verde que tanto fascinava também trazia consigo a sombra da destruição. 

Naara não era a primeira a tentar dominar os segredos de Lymendra. A floresta estava repleta de ecos de outras mulheres que buscavam poder, sabedoria e transcendência. No entanto, o que a diferenciava das outras era sua compreensão da dualidade feminina – a vida e a morte, o nutrir e o destruir. O poder que ela buscava não era apenas sobre a criação de algo novo, mas sobre aceitar que para nascer algo, algo mais deve perecer. 

O vento trouxe consigo murmúrios, como vozes femininas entrelaçadas. As folhas dançavam em sincronia, como se reconhecessem a presença de Naara. Ela se aproximou de uma clareira, onde uma fonte de água verde-esmeralda jorrava lentamente. A luz ao redor parecia mais densa, e o ar se enchia de fragrâncias estranhas: aromas doces e pútridos, evocando tanto a primavera quanto o outono de uma única vez. 

No centro da fonte havia uma figura esculpida em pedra, uma mulher de formas arredondadas, símbolo da fertilidade e da destruição. Naara reconheceu a representação da Mãe Verde, a entidade guardiã de Lymendra. Os olhos da estátua pareciam segui-la, transmitindo uma sabedoria antiga e silenciosa. Ela sabia que aquele era o teste final. A água brilhante prometia o poder de regeneração, de renascimento, mas também sussurrava sobre a corrupção que viria com tal dádiva. 

Ao tocar a superfície da água, Naara sentiu o calor percorrer seus dedos, como se a fonte estivesse viva. Ali, o ciclo de criação e decadência se revelava em sua plenitude. As raízes ao redor se moveram levemente, como se estivessem prestes a enredá-la. A natureza parecia estender seus braços, oferecendo tanto acolhimento quanto a possibilidade de aprisionamento. 

Naara compreendeu que o verdadeiro poder feminino residia na aceitação dessa dualidade. Ela não precisava escolher entre florescer ou apodrecer – ela seria ambos. Com essa compreensão, ela mergulhou suas mãos na fonte, deixando o verde se infiltrar em seu ser. As folhas ao redor pareceram responder, vibrando em um uníssono sussurrante. Naquele momento, ela se tornou parte de Lymendra, tanto sua senhora quanto sua serva. 

O verde era vida e morte, cura e veneno. Naara não apenas dominou o segredo da alquimia, mas transcendeu a própria natureza humana tornando-se uma bruxa da natureza. Seu corpo pulsava com uma energia nova, porém, por baixo da superfície, a corrupção já começava a se enraizar. Ela sabia que pagaria o preço com o tempo, mas também sabia que agora possuía o poder de moldar o ciclo ao seu favor – de gerar e destruir conforme sua vontade. 

Lymendra florescia com a presença de sua nova guardiã. O verde profundo se intensificava, transbordando pelas raízes, folhas e flores. Naara se tornara a expressão máxima da força feminina: criadora e destruidora, vital e corrupta. Sob o olhar atento da Mãe Verde, ela caminhava com a certeza de que, para dominar o ciclo da vida, é preciso abraçar tanto a luz quanto a escuridão. 

Na escuridão das florestas de Lymendra, não era apenas a vida e a decadência que se enredavam em uma dança eterna, mas também forças antagônicas. Entre os segredos sombrios da floresta, um antigo alquimista chamado Varkas mantinha seus planos em segredo. Ao contrário de Naara, que buscava a simbiose com a natureza e o equilíbrio alquímico, Varkas via no poder verde de Lymendra uma ferramenta para o caos e a destruição e a transformação por meio do seu poder e de sua vontade. 

Varkas era um alquimista de habilidades excepcionais, mas sua ambição havia corrompido sua percepção da natureza. Em vez de harmonia, ele buscava usar os segredos da floresta para desmantelar a ordem natural. Seu objetivo era simples: dominar as forças de Lymendra para espalhar o domínio e posse. Ele acreditava que a natureza, em sua essência, não deveria ser controlada, mas sim desencadeada como uma força bruta, que consumiria tudo à sua volta. 

Varkas não agia sozinho. Em seus laboratórios escondidos nas profundezas da floresta, ele criava seres híbridos, misturas de plantas, carne e metal, que serviam como seus espiões e soldados. Essas criaturas, chamadas de espectros verdes, eram uma representação grotesca do potencial destrutivo da natureza corrompida pela ambição humana. Suas presenças eram notadas pela vegetação morta e pelo ar pesado e tóxico que se espalhava por onde passavam. 

Entre os espectros verdes, havia uma comandante: Soraya, uma bruxa alquimista traída pelo destino, cuja lealdade a Varkas vinha da promessa de vingança contra aqueles que haviam destruído sua família. Sua habilidade em controlar raízes e plantas era temida até pelos seguidores de Naara. Soraya trazia consigo uma dor profunda que alimentava seu desejo por vingança, tornando-a uma adversária perigosa e implacável. 

Enquanto Naara buscava a integração com Lymendra, Varkas pretendia corromper a natureza, destruindo tudo que fosse vivo. Para isso, ele estava determinado a tomar o poder que Naara havia conseguido ao se conectar com a Mãe Verde. Ele acreditava que, ao absorver a energia vital de Naara, seria capaz de libertar um ciclo interminável de destruição e recriação das suas vontades, onde a natureza e a humanidade se submeteriam à sua tirania. 

O confronto entre Naara e Varkas, então, seria inevitável. Naara precisaria buscar aliados entre as criaturas da floresta: espíritos antigos, guardiões vegetais e seres etéreos que vagavam entre os limites da vida e da morte. Entre eles, destacava-se Lira, um espírito da floresta, meio planta, meio mulher, que habitava os pântanos de Lymendra. Lira era conhecida por suas habilidades curativas e por seu profundo conhecimento das raízes da floresta. Embora desconfiada dos humanos, Lira estava ciente do perigo que Varkas representava e poderia ser convencida a ajudar Naara. 

Outro personagem importante seria Iro, um caçador de sombras que se movimentava entre os limites da floresta e as aldeias circunvizinhas. Ele tinha um passado sombrio com Varkas, que havia destruído sua tribo e o deixado marcado por cicatrizes tanto físicas quanto espirituais. Iro possuía conhecimentos táticos valiosos e uma conexão misteriosa com a fauna local, podendo se comunicar com animais e direcioná-los em combate. 

Naara mantinha a postura firme enquanto encarava Varkas, mas por dentro, sentia o desconforto crescer. Ele não havia se movido, mas algo no ar mudou; era como se a natureza ao redor se curvasse levemente, como que respondendo ao comando de um mestre sombrio. Varkas sorriu, percebendo a tensão. 

— Você realmente acredita que pode me impedir? — Ele disse com um tom suave, quase sedutor. — Eu poderia acabar com esta floresta agora, se quisesse. Veria o verde que tanto ama apodrecer em segundos. 

Com um gesto discreto, Varkas ergueu uma mão e sussurrou palavras em uma língua antiga. As raízes das árvores ao redor começaram a tremer, e uma onda de energia negra percorreu o solo. Um pequeno trecho da vegetação diante deles se retorceu e murchou, transformando-se em uma mistura de cinzas e veneno. O cheiro acre se espalhou pelo ar, sufocando. 

Naara recuou um passo, mas controlou a expressão para não revelar o medo que brotava em seu peito.  

— Você quer me intimidar? Isso só reforça o quão desesperado você está. — Varkas abaixou a mão, mas o estrago já estava feito. Ele se aproximou lentamente, seus olhos ardendo de malícia. 

— Isso foi apenas um vislumbre. Ainda há tempo para evitar uma catástrofe. Junte-se a mim, Naara. Ou será consumida pelo próprio amor que tem por essa terra. 

Ao dizer isso, ele se virou e desapareceu nas sombras da floresta com Soraya ao seu lado. Naara permaneceu imóvel, tentando processar o que acabara de presenciar. O que ele mostrou foi pouco, mas o suficiente para plantar o medo de que toda a beleza e harmonia de Lymendra poderiam ser destruídas. 

Nos dias seguintes, o peso das palavras de Varkas parecia se enraizar na mente de Naara. Caminhando sozinha pelos bosques, ela refletia sobre seu propósito. O verde ao seu redor representava mais que poder; era a vida em sua plenitude, o ciclo de crescimento, morte e renascimento. Ser uma bruxa e uma mulher significava não apenas proteger esse ciclo, mas também se afirmar como a guardiã da essência da criação e da destruição equilibradas. 

Certa noite, enquanto Naara se concentrava em um ritual, sentiu a presença de Lira. A guardiã das raízes se aproximou com seu andar gracioso e sereno, trazendo consigo a fragrância úmida da floresta e o som sutil das folhas sussurrantes. 

— Você está perturbada, Naara — disse Lira com sua voz que parecia emanar das profundezas da terra. — Mas o que Varkas mostrou não é o verdadeiro poder. O verde não se curva à vontade de um tirano. Ele pode tentar corromper a natureza, mas nunca terá o controle total. 

Naara respirou fundo, olhando para a companheira. 

— E se ele conseguir destruir o que eu amo? Se o caos que ele deseja realmente acontecer? Tudo pelo que lutei, o equilíbrio, a harmonia... tudo isso pode ser devorado. 

Lira se aproximou mais, pousando uma mão suave no ombro de Naara. 

— Lembre-se, o verde não é só o florescer, mas também a decadência. Ambos são faces da mesma moeda. Você, como mulher e bruxa, entende o ciclo como ninguém. Nós, os espíritos da floresta, estamos com você. Sentimos seu amor pela natureza e sabemos que você é mais do que capaz de enfrentar o que está por vir. 

Os olhos de Naara se encheram de determinação renovada. 

— Você tem razão, Lira. O que Varkas vê como fraqueza é, na verdade, o meu maior poder. Se ele quer guerra, a natureza irá se erguer com toda a sua força. 

Lira sorriu com leveza. 

— Estamos todos prontos. Quando a hora chegar, você não estará sozinha. O verde lutará ao seu lado. 

As palavras de Lira trouxeram um conforto inesperado para Naara. Sentiu a energia da floresta se alinhar com sua própria, como se cada folha, raiz e espírito estivesse se preparando para o confronto. Ela sabia que a guerra viria, mas estava decidida a lutar não com o medo que Varkas tentou plantar, mas com o amor profundo que nutria pelo ciclo natural de Lymendra e pela força que, como mulher, se afirmava em cada feitiço, em cada decisão. 

Varkas observava as estrelas através das copas das árvores, uma serenidade gélida em seu olhar. Sua mente vagava por lembranças de quando, séculos atrás, ele se apaixonara pela natureza. Naquela época, ele via na harmonia da vida e na delicadeza dos ciclos naturais um reflexo do que poderia ser a beleza suprema. Dedicou-se a compreender cada segredo, cada nuance da vida que pulsava ao seu redor. No entanto, com o tempo, a perfeição desse equilíbrio começou a lhe parecer entediante, previsível demais. A natureza seguia seus ciclos, mas onde estava a verdadeira força? A vontade que deveria guiar o caos? 

O problema, concluiu Varkas, era o próprio equilíbrio. Uma natureza em que tudo se ajustava, em que tudo se regenerava, não era uma expressão de poder, mas de passividade. Ele se cansou dessa visão limitada. Percebeu que a beleza verdadeira não residia na repetição cíclica, mas em algo mais ousado, algo que só poderia ser alcançado com uma força superior — uma força que ele mesmo moldaria. 

— Natureza necessita de vontade. — Sussurrou ele para si mesmo. — Um poder que a transcenda, que a conduza para uma forma mais elevada, única. Não basta que ela siga seus ritmos; ela deve ser forjada, dobrada àquilo que é grandioso e sublime. 

Nos séculos que se seguiram, Varkas dedicou-se a dominar a alquimia não para preservar a vida, mas para modificá-la. Ele desejava criar algo que fosse uma extensão de sua própria visão, onde cada ser, cada planta, cada fibra do mundo fosse uma manifestação de sua vontade. Em sua mente, a natureza era uma criação bruta que necessitava de refinamento. Se ela não pudesse ser moldada para atingir essa beleza única, então que perecesse no caos que já existia em suas profundezas. 

Para Varkas, o caos era uma força latente que sempre esteve presente na natureza. Destruição e criação se alternavam, mas sempre dentro de limites, dentro de um ciclo que ele desprezava. Por que aceitar esse ciclo quando a vontade de um ser superior poderia romper com essa limitação? Ele já havia decidido: ou a natureza se submeteria a ele e se transformaria em algo grandioso e eterno, ou ele a aniquilaria. 

Enquanto Naara se preparava, ele também se concentrava. Sabia que seu poder ainda não havia sido revelado por completo. O que ela viu foi apenas uma demonstração. Mas o verdadeiro teste estava por vir. Se ela ousasse desafiá-lo, ele destruiria não apenas as formas de vida que ela amava, mas corromperia o próprio conceito de beleza natural. Porque, para Varkas, ou o mundo existiria sob sua ordem ou ele cairia no caos eterno. 

Essa era a convicção que o movia, e não havia retorno. A decisão já fora tomada há muito tempo: a natureza se dobraria à sua vontade, ou tudo pereceria. 

Varkas não era um estrategista envolvido em intrigas ou segredos. Sua motivação era clara como a luz do dia: lutar por suas convicções e pelo poder que ele dominava há séculos. Como um dos seres mais antigos e poderosos de Lymendra, ele via a luta como uma questão de princípios. Não havia planos ocultos ou artimanhas; o que movia Varkas era a sua crença inabalável de que a natureza deveria se submeter à sua vontade, ou então perecer. 

Embora desprezasse a maneira como Naara entendia o ciclo natural — como algo sagrado, guiado pela sabedoria e pelo equilíbrio — ele não subestimava o poder de sua oponente. O respeito que sentia por Naara residia no fato de que, apesar de sua juventude em comparação a ele, ela era uma verdadeira força da natureza. Para Varkas, isso tornava o embate ainda mais digno, um confronto entre duas visões opostas do mundo, em que apenas uma poderia prevalecer. 

Ele escolheu o dia do confronto com propósito. A data marcava a passagem entre o verão e o inverno, um instante raro em que essas duas potências naturais coexistiam, refletindo o equilíbrio dinâmico que ele tanto desprezava, mas que Naara valorizava. O campo de batalha seria a árvore mais antiga e venerada de Lymendra, conhecida como a Árvore de Contenção. Essa árvore, que abrigava em suas raízes e galhos a sabedoria acumulada de eras, era o ponto de conexão entre a força vital e o conhecimento ancestral da natureza. 

Naara, por sua vez, sabia do encontro iminente. Os espíritos da floresta já haviam lhe revelado a data e o local. Ela também compreendia que, em termos de idade e experiência, estava em desvantagem. No entanto, a escolha dos espíritos por ela como guardiã da natureza não fora em vão. Naara possuía um poder oculto, profundo e selvagem, que ainda não havia se manifestado em sua totalidade. Era uma força bruta, mas sábia, que refletia o ciclo eterno da criação, destruição e renascimento. Para ela, essa luta não era sobre vencer um oponente, mas sobre proteger a harmonia intrínseca que permeava todas as coisas. 

Enquanto o dia se aproximava, tanto Varkas quanto Naara se preparavam à sua maneira. Ele, reforçando sua determinação de moldar a natureza ou destruí-la; ela, consolidando suas convicções de que os ciclos da natureza não poderiam ser forçados ou distorcidos. Ambos sabiam que o confronto na Árvore de Contenção não seria apenas um embate de poderes, mas um duelo entre duas filosofias, duas forças elementares em busca de supremacia. 

O encontro seria uma batalha não só de força, mas de vontade. Varkas, com sua visão implacável de domínio absoluto, e Naara, com sua crença na sabedoria do ciclo natural, estavam prontos para lutar até o fim pelo que acreditavam ser o verdadeiro destino da natureza. 

No centro da floresta, sob o dossel das folhas que sussurravam segredos milenares, o encontro tão aguardado aconteceu. A Árvore de Contenção se ergueu como um monumento de eras passadas, testemunha silenciosa da guerra que estava prestes a começar. Varkas e Naara se encararam, a tensão no ar vibrando como uma corda prestes a se partir. 

Antes que os poderes fossem liberados, Varkas fez um último apelo: 

— Naara, junte-se a mim. Não percebe que a natureza é mais do que um ciclo eterno? A verdadeira essência dela é a vontade de se expressar, de moldar o mundo com poder e intenção. A natureza não deve ser prisioneira de seus próprios ritmos; deve se libertar, transcender os limites impostos por esse equilíbrio que você tanto defende. Juntos, poderíamos recriar este mundo, elevar sua beleza a níveis jamais imaginados. 

Naara, com uma serenidade profunda, respondeu:  

- Varkas, você se perdeu em seu desejo de domínio. A potência da natureza já reside na sabedoria dos seus ciclos. Há espaço para vontade, para expressão e mudanças, mas isso deve ocorrer dentro da harmonia dos ciclos naturais. A natureza se recria através desses ciclos; eles não são correntes, mas uma dança complexa onde tudo encontra seu lugar. O que você propõe é destruição, pois ao romper essa harmonia, nada além do caos prevalecerá. Você cega-se ao achar que pode subjugá-la sem consequências. 

Varkas não respondeu com palavras; a raiva e a convicção se refletiram em seus olhos enquanto a energia ao seu redor começava a pulsar. Ele levantou os braços e conjurou um vento tempestuoso que arrancou árvores pelas raízes, transformando-as em lanças mortais que voavam em direção a Naara. Ela se defendeu erguendo uma barreira verdejante de vinhas e galhos, mas as lanças de Varkas perfuraram sua defesa com facilidade. Naquele instante, a guerra começou. 

Varkas lançou as forças da natureza em fúria: trovões, tempestades, e o próprio solo rugindo enquanto abismos se abriam sob os pés de Naara. Ela, em resposta, convocou os espíritos da floresta, que assumiram formas tangíveis — lobos de sombras, raízes que se moviam como serpentes, e árvores que se animavam como guardiões vivos. A batalha se espalhou por toda Lymendra; seres secundários e aliados de ambos os lados se enfrentavam em combates ferozes. De um lado, as criaturas distorcidas por Varkas, moldadas para servir seus propósitos; do outro, os protetores da natureza que lutavam para preservar o equilíbrio. 

No meio da intensa batalha entre Naara e Varkas, havia Soraya, a poderosa alquimista ao lado de Varkas, cuja presença sombria era tão devastadora quanto a de seu mestre. Soraya era uma mulher implacável, cuja obsessão pela destruição e pela transformação caótica da natureza se manifestava em suas artes sombrias. Juntos, Varkas e Soraya moldaram aberrações grotescas — criaturas que combinavam partes de plantas, animais e minerais em formas distorcidas e violentas. 

Lira, por sua vez, enfrentou essas monstruosidades com determinação e sabedoria. Usando a pureza dos espíritos da floresta e sua conexão com a harmonia natural, ela conseguiu desfazer muitas das criações de Soraya. Os monstros se fragmentavam em poeira e folhas secas quando atingidos pela força restauradora de Lira, retornando ao ciclo natural de vida e morte. Lira lutou com graça e precisão, mostrando que o poder da natureza, quando guiado pelo equilíbrio, era capaz de superar até mesmo as corrupções mais profundas. 

Porém, quando o confronto direto entre Lira e Soraya se iniciou, o equilíbrio foi rompido. Soraya era uma mestre da alquimia destrutiva, manipulando não apenas a matéria, mas também as emoções sombrias e as energias caóticas que regiam o universo. Ela conjurava tempestades de cinzas e redemoinhos de vento gélido, que cortavam o ar como lâminas. Lira tentou conter esses ataques com as forças da luz e da vida, mas Soraya se mostrou um desafio além do que Lira havia enfrentado até então. 

Soraya atacava não só com força bruta, mas com uma precisão calculada. Ela identificou os pontos fracos nas defesas de Lira e explorou cada um deles. Enquanto Lira tentava purificar as energias malignas que Soraya lançava, a alquimista das sombras usava o poder da decomposição, corrompendo os próprios espíritos que Lira convocava. A cada troca de feitiços e ataques, Lira percebia que sua energia estava sendo drenada, enquanto Soraya parecia se fortalecer com cada onda de destruição. 

No momento crucial do confronto, Soraya aprisionou Lira em uma teia de energia densa e tóxica, feita de vinhas espinhosas e pedras enegrecidas, que se apertavam ao redor de sua oponente. Lira, lutando com todas as suas forças, não conseguiu se libertar. Com um sorriso frio, Soraya lançou um golpe final, envolvendo Lira em uma espiral de escuridão que cortava sua conexão com os espíritos da floresta. Naquele instante, Lira foi subjugada e afastada da batalha, enfraquecida e incapaz de continuar lutando. 

Apesar de derrotar Lira, Soraya ainda não conseguira romper a força dos laços espirituais que Naara mantinha com a natureza, e sua vitória parecia incompleta. Enquanto Naara se reerguia, invocando o poder oculto que repousava em seu interior, Soraya percebeu que, mesmo com a vantagem momentânea, o verdadeiro confronto estava longe de terminar. O duelo entre Naara e Varkas, com Soraya ao lado de seu mestre, estava prestes a alcançar o clímax. 

Mas quando Naara finalmente desbloqueou todo o seu poder, a maré da batalha mudou. Soraya, que tanto confiava na destruição como caminho para a supremacia, viu sua força ser engolida pela pureza avassaladora das forças naturais comandadas por Naara.  

À medida que a batalha se intensificava, Naara e Varkas se enfrentavam em um duelo épico, cada um utilizando suas habilidades e poderes ao máximo. A Árvore de Contenção, o cenário escolhido para esse confronto, parecia pulsar com a tensão dos dois lados. As forças de Varkas, encorajadas por Soraya e suas monstruosidades, eram uma tempestade de caos e destruição. Os monstros criados por Varkas avançavam ferozmente, enquanto Soraya manipulava as energias de decomposição para desgastar e enfraquecer as defesas de Naara. 

Naara, com sua conexão profunda com a natureza, conjurava feitiços de proteção e ataque, sua magia envolvendo o ambiente com uma aura de vitalidade e força. Cada golpe que ela desferia era uma tentativa de restaurar o equilíbrio, enquanto Varkas buscava moldar a natureza de acordo com sua própria visão distorcida. 

O confronto entre Varkas e Naara começou com uma troca de magias devastadoras. Varkas utilizava seu conhecimento ancestral para manipular as energias da natureza de forma destrutiva, criando fissuras na terra e tempestades de energia corrosiva. Naara contra-atacava com feitiços de restauração e força vital, tentando conter os ataques e restaurar o equilíbrio ao ambiente. 

Durante a batalha, Naara começou a sentir o peso das forças que Varkas estava empregando. Varkas, com seu conhecimento profundo da natureza e sua capacidade de moldá-la de maneiras caóticas, foi mostrando a ela o que ele havia realmente planejado. Ele convocou uma série de forças destrutivas que quase romperam as defesas de Naara. A cada ataque, ela via o que amava sendo destruído: árvores antigas se despedaçando, criaturas da floresta sendo corrompidas e o solo sendo transformado em uma paisagem desolada. 

Com sua magia em risco de ser superada, Naara usou todo o seu poder oculto em um último esforço. O seu grito de batalha ressoou por toda a floresta, convocando uma onda de energia pura e vital que inundou o campo de batalha. O poder de Naara, agora totalmente liberado, envolveu Varkas em um turbilhão de energia que desfez suas magias e o enfraqueceu severamente. 

Varkas, percebendo que a derrota era inevitável, tentou um último ataque desesperado, mas foi interrompido pela força avassaladora de Naara. Com uma explosão de luz verde e ouro, Naara selou o destino de Varkas, anulando seu poder e causando sua derrota final. O vilão, que havia buscado a aniquilação e o caos, foi consumido por sua própria destruição. 

Com a batalha vencida e a ameaça de Varkas e Soraya eliminada, Naara se voltou para a floresta devastada. O desfecho trouxe uma mistura de vitória e reflexão profunda. Ela se aproximou da Árvore de Contenção, agora danificada, mas ainda imponente, e começou a refletir sobre tudo o que havia acontecido. 

Lira, embora enfraquecida pela luta, conseguiu se erguer e se aproximar de Naara. Ela falou com sabedoria e carinho, lembrando-a da importância do equilíbrio na natureza. - O equilíbrio foi restaurado, Naara, mas a natureza é uma força que nunca para. O que aprendemos hoje é que a transformação não exclui o respeito pelos ciclos naturais. A vontade de moldar e mudar deve sempre dialogar com a sabedoria da natureza. 

Naara ouviu atentamente, absorvendo cada palavra. Ela percebeu que, apesar da vitória, havia uma lição importante a ser aprendida. O desejo de Varkas por controle absoluto e a destruição total eram extremos que não respeitavam a essência da natureza. No entanto, também reconheceu que sua própria abordagem precisava de evolução. Era necessário que sua vontade de transformar e proteger a natureza fosse guiada por uma compreensão mais profunda dos ciclos naturais. 

Enquanto os espíritos da floresta, que haviam estado ao seu lado durante a batalha, surgiam ao seu redor, Naara sentiu um profundo sentido de conexão e responsabilidade. Ela sabia que a luta não havia sido apenas contra Varkas e Soraya, mas também uma prova de suas próprias capacidades e limites. 

Naara concluiu que, para proteger a floresta e seus ciclos sábios de força, poder, criação, destruição e recriação, ela precisaria continuar crescendo em sabedoria e força. A natureza ainda escondia segredos que ela precisava descobrir, e perigos maiores poderiam surgir. Sua jornada estava longe de terminar. Ela havia vencido uma batalha importante, mas a compreensão e o respeito pelos aspectos ocultos da natureza seriam essenciais para seu papel como guardiã. 

Com uma determinação renovada, Naara se preparou para o futuro, ciente de que a verdadeira força reside na capacidade de transformar e respeitar a natureza em seus múltiplos aspectos, sempre ouvindo e aprendendo com os seus ensinamentos profundos. 

A floresta ficou em silêncio. Os espíritos se reuniram ao redor de Naara, reconhecendo-a como a nova guardiã sem contestação. Mas enquanto o ar se acalmava e a paz voltava a reinar, Naara se permitiu uma reflexão. 

Varkas não estava de todo errado. A natureza realmente precisava de vontade e intenção para moldar certos traços, para responder às mudanças e desafios que surgem ao longo do tempo. Ser um guardião da natureza não era apenas preservar o que existia; era também abraçar a capacidade de transformar, de criar novas possibilidades. No entanto, essa transformação só poderia ocorrer dentro do diálogo com os vários aspectos da natureza, respeitando seu ritmo e ouvindo sua sabedoria. A chave estava no equilíbrio entre vontade e ciclo, onde a mudança e a preservação se entrelaçavam, resultando em uma evolução harmoniosa. 

Naara sabia que, apesar de sua vitória, ainda havia muito a aprender. A natureza guardava muitos segredos, algumas partes dela ainda inexploradas, poderes desconhecidos que poderiam representar novos perigos. Ela sentia que espíritos mais antigos e poderosos aguardavam nas sombras, observando, esperando o momento certo para se revelarem. Para enfrentar o que estava por vir, Naara teria que se tornar ainda mais sábia, fortalecendo não apenas sua conexão com a natureza, mas também a compreensão das forças e intenções que permeiam o mundo ao seu redor. 

E assim, como a nova protetora de Lymendra, Naara seguiu em frente, sabendo que sua jornada estava longe de acabar, pois o verdadeiro poder residia na união da natureza e da vontade consciente, uma dança eterna entre criação e transformação. 

FIM!

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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