Onírico

Vim para essa instituição ainda adolescente; a construção era sólida e grandiosa — mesmo sendo um prédio relativamente novo, ele trazia elementos da…

Arte de Henry Fuseli, edição de Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Vim para essa instituição ainda adolescente; a construção era sólida e grandiosa — mesmo sendo um prédio relativamente novo, ele trazia elementos da arquitetura vitoriana. Despedi-me de meus pais com o remorso corroendo meu peito, mas sabendo que eles tentaram de tudo, e no final acabei compreendendo a decisão deles. Fui recebido por uma equipe formada por dois médicos, três enfermeiros e um auxiliar; eles me levaram para conhecer as instalações (que, aliás, não eram lá essas coisas), mas isso não me importava, contanto que eu melhorasse dessa terrível condição. O prédio, por dentro, parecia ter parado no tempo; o forte odor de desinfetante com pano sujo pairava pelo ar, presente em cada cômodo.

Subimos um grande lance de escadas — não sei explicar, mas senti-me observado. No fim dos degraus, vi um grande portão de ferro com severas marcas de corrosão; após atravessá-lo, deparei-me com um colossal e alto corredor, mal iluminado por luzes amareladas oscilantes. O piso de ladrilhos azuis perdera a cor, assim como a meia parede de azulejos verdes. Conforme caminhava, vi outros pacientes em seus leitos; gritos e risadas se misturavam, causando calafrios — outras portas permaneciam fechadas — até que paramos. Vi então a maciça porta de madeira onde resquícios de tinta branca resistiam ao inexorável tempo; olhei mais acima e vi o número 106, em ferro, no centro dela. Uma minúscula janela de vidro, impregnada com décadas de sujeira — algumas manchas eram marrons escuras, semelhantes a sangue —, esse pensamento me assombrou.

A porta rangeu; meus olhos passearam pelo cômodo. À esquerda, próximo à porta, encontrava-se uma mesa com duas cadeiras, ambas brancas. À minha frente havia uma claustrofóbica janela gradeada e, abaixo dela, uma cama robusta de ferro decorada com faixas de contenção fixas na lateral. Caminhei até a janela, onde contemplei um belo jardim com árvores frutíferas, gramas podadas e alguns bancos dispostos. Desejei respirar o ar puro…

Por mais que aqui houvesse pessoas transitando o tempo todo, este lugar exalava desesperança — semelhante ao umbral onde incontáveis almas padecem em eterna agonia, esperando para serem salvas. Esse pensamento trouxe uma sensação perturbadora: será que um dia sairei daqui?

Uma leve vertigem apoderou-se de mim; do alto da minha testa surgiram tímidas gotículas que logo formariam uma nascente. Conseguia ouvir os batimentos em descompasso. Antes do inevitável desmaio, os enfermeiros me puseram na cama; devido à minha agitação, deram-me um calmante via oral e disseram que havia guardas lá fora para uma possível necessidade. Assim que eles saíram, acenei para os guardas — mas as amarras me causaram calafrios. Esperava adormecer o quanto antes; não demorou para o sono vir.

Em algum momento daquela noite, acordei agitado. Não vi ninguém lá fora; gritei por socorro, mas minha voz se perdia no vazio. Continuei tentando. Minha respiração falhava como se houvesse um peso em meu peito — como na pintura Pesadelo, de Henry Fuseli. Fechei os olhos e fiz o exercício de respiração; no passado, funcionava.

Respirei novamente e gritei do fundo das minhas entranhas. Para minha sorte, os guardas retornaram e, com agilidade, seguraram meu corpo que se debatia com violência; em poucos minutos, o restante da equipe havia chegado. Durante os primeiros socorros, presenciei algo medonho: uma sombra disforme surgia por trás da porta, espalhando uma horrífica luz arroxeada. Não poderia ser… seria a mesma figura que tanto me assombrara na infância? Neste momento, uma certa frase ecoou em minha mente: "Está tudo bem, Pedro — foi apenas um pesadelo. Vamos rezar para que tudo fique bem, certo, filho?"

Desta vez, o horror era verossímil demais para ser um pesadelo. O nefasto brilho ocupou todo o cômodo até que a figura adentrou o recinto: era esguia, corcovada, cinzenta, quase translúcida, mas também opaca. No rosto, dois enormes e enegrecidos olhos que pareciam devorar minha alma, e um sorriso medonho repleto de dentes afiados. O medo ancestral abraçou meu trêmulo corpo. Rapidamente os enfermeiros colocaram as amarras para conter os espasmos; os gritos tornaram-se guturais. Relatei o que estava vendo e eles se entreolharam, balançando a cabeça em negação. Lá fora, uma sirene tocava constantemente.

Percebi mãos em meu pescoço — havia a chance de alguma lesão. A cama gemia; os gritos se misturavam com frases desconexas; pupilas dilatadas em frenesi.

— Ele está perdendo a consciência — inicie a massagem cardíaca. Vamos, rápido, não podemos perdê-lo — um dos enfermeiros falou.

A massagem pareceu funcionar. Pela visão periférica, vi-a se aproximar e pousar os olhos nos meus; a agulha perfurou minha pálida pele — o líquido ardeu em minhas veias. Rapidamente o medicamento fez efeito; minhas pálpebras pesaram. Entretanto, a maldita figura permanecia ali, assim como aquela tenebrosa cor.


Escrito por:
Pablo Henrique

Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
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Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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Chamas Da Inocência

Numa existência plena de concisas leis universais onde o sol nasce para todos, ainda assim há aqueles que são cobertos pelas sombras do infortúnio…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

"Deixem vir a mim as criançinhas e não as impeçam;

pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas"

Mateus 19,14

 

Numa existência plena de concisas leis universais onde o sol nasce para todos, ainda assim há aqueles que são cobertos pelas sombras do infortúnio e jamais podem usufruir por completo das benesses que a roda da fortuna possa lhes oferecer. No ciclo natural das coisas e acontecimentos, onde tudo nessa existência demonstra-se ser efêmero e transitório, não há tristeza eterna e muito menos alegria que perdure para sempre, e por mais difícil que seja a situação que alguém possa estar enfrentando, em algum outro lugar alguém talvez esteja numa tribulação um pouco mais desesperadora. Para tais indivíduos a alegria e a bonança são dadas em pequenas partes intercaladas de tristezas e decepções.

Maria de Lourdes – que pela sua compleição franzina, desde que nascera era denominada Lourdinha – se encaixava perfeitamente dentre tais desafortunados. Sua vida fora um completo conjunto de absurdas decepções e infortúnios. Depois de uma infância de grandes privações e carregada da mais completa falta de perspectivas, antes mesmo de completar seus quinze anos, – ela que, apesar dos pesares, era dotada de uma beleza ímpar, uma verdadeira flor em desabroche – fora acometida pela varíola e por dias afins, caminhou no vale da sombra da morte. Essa pestilência não recolheu seu corpo para a cidade do silêncio, onde todos são inocentes, mas lhe deixara profundas marcas que levaria consigo por toda sua insignificante existência.

Proveniente de uma família simples e humilde onde a necessidade sempre se fazia presente, seu tratamento constara apenas de ervas e benzimentos.  Com muita persistência e força de vontade, por fim a varíola se fora, mas levara consigo toda a beleza que Lourdinha possuíra até então. Sua pele antes macia e sedosa como uma pétala da mais fina rosa, ficara manchada e cheia de horrendas cicatrizes. Depois de sofrer mais esse terrível golpe do destino, essa frustrada criatura, que não conhecera a felicidade em sua plenitude, adquirira em seus olhos uma expressão tristonha e distante, que demonstrava uma profunda sensação de escárnio pelas vicissitudes da vida. Sempre que se olhava no espelho – fato que ela tentava evitar ao máximo – sentia-se como a mais desafortunada das criaturas.

Pela sua origem pobre e com uma aparência não tão agradável aos olhos de um possível pretendente, seu primeiro e único relacionamento fora com um desconhecido de olhos claros e cabelos na cor do entardecer, que por uma única vez, numa noite de bebedeira, onde ambos estavam completamente tomados pelos misteriosos fetiches da ebriedade se perderam nos braços um do outro. O desconhecido – a qual nem mesmo seu nome verdadeiro, Lourdinha soubera ao certo – da mesma maneira que surgira também se fora, sem deixar rastro nem vestígio, deixando para Lourdinha não somente as lembranças de voluptuosos momentos, que por mais que pudessem ter sido de uma frustrante efemeridade, ainda assim trazia em si uma profunda intensidade. Noite que proporcionara a ela, a oportunidade única, de conhecer nos braços de um desconhecido os misteriosos caminhos do inexplicável deleite da mais ensandecida paixão.

Essa única noite de prazer daria a Maria de Lourdes motivos para que jamais se esquecesse de tão voluptuosa passagem em sua existência. Pois o fruto de seu inconsequente deleite se materializara numa bela criança de olhos primaveris e cabelos na cor de ardentes labaredas. Essa graciosa criatura de sorriso fácil e olhar inocente recebera o nome de Lorena e a todos encantava. Para Lourdinha era seu porto seguro, onde depois de um dia de tenebrosas tempestades no árduo trabalho diário – limpando lares alheios – ao fim do dia, ela aportava para uma noite de deleitoso descanso. Para seus avós – já velhos e doentes, que cuidavam dela, durante o dia, enquanto Lourdinha trazia o sofrido sustento para o lar – era ela uma verdadeira dádiva. Lorena era uma criança criada a pão de ló, sempre bajulada por todos. Sempre carregada de muito amor e zelosa atenção. Por mais que lhe viesse a faltar luxo e o conforto, ainda assim tinha todo afeto e carinho que um ser poderia desejar.

Numa família onde a sorte jamais fizera morada, e nem mesmo a roda da fortuna dera um único giro sequer, aquelas duas senis e gentis criaturas dependiam totalmente do suado esforço da pobre Lourdinha para sobreviverem. Verdade seja dita, que eles cuidavam muito bem da graciosa Lorena, enquanto a mãe passava o dia no trabalho. No entanto, o parco ordenado de uma única pessoa para sustentar uma casa, onde havia uma criança dependente de cuidados dos mais diversos e duas outras pessoas em idade já bastante avançada, desprovidas de qualquer outra renda que fosse, era uma tarefa bastante hercúlea. Se o sustento básico já era difícil, uma moradia decente era apenas um sonho distante.

Os pais de Lourdinha, que além de velhos e doentes, também não eram detentores de nenhum tipo de posse de maior valor, que pudessem lhe valer num momento de extrema necessidade, sobrevivendo apenas do trabalho da filha e da providência divina. Sendo assim, viviam aquelas quatro desafortunadas criaturas numa improvisada casa – se por acaso, aquele estranho pardieiro pudesse ser denominado casa – feita de restos de tapumes de construção e um carcomido pedaço de lona de caminhão. Era um tipo de construção tão sinistra que mais parecia uma armadilha, pronta a tolher a vida de seus humildes moradores a qualquer momento.

O piso de terra batida, por mais que recebesse todo asseio possível, insistia em manter-se sujo todo o tempo. Como havia apenas um único espaço sem separação entre cômodos, a privacidade era praticamente inexistente. Ambiente quente e abafado sem nenhuma janela, praticamente sem ventilação alguma. Durante as chuvas – devido ao improvisado telhado – molhava mais dentro de casa do que pelo lado de fora. Se por acaso fosse uma tempestade violenta com relâmpagos e grande ventania era um verdadeiro “Deus nos acuda”. No período de extremo calor a casa se tornava um verdadeiro forno, devido a sua baixa e desajustada estrutura, tornando a permanência em seu interior algo quase que impossível. O saneamento básico era inexistente e a iluminação elétrica era um objetivo ainda não alcançado, fato que tornava o uso de velas ou candeeiros uma necessidade constante, quando a noite chegava.

Devido a uma vida de sofrimentos diversos e incontáveis frustrações, sem nenhuma perspectiva de dias melhores – ou talvez até mesmo, por não terem outra coisa com que ocuparem o tempo ocioso – os pais de Lourdinha encontraram determinado conforto numa comunidade pentecostal que frequentavam fielmente quase todas as noites. Sendo assíduos tanto na fervorosa fé, bem como na constante presença sempre que havia celebrações. Lorena já com cinco anos, dotada de saúde e disposição na mesma proporção que dispunha de energia e inquietude, sendo uma criança que nas palavras do avô – o bondoso Senhor Eusébio – “era fogo na roupa”, e devido a essa sua incrível qualidade de não conseguir manter-se em pleno sossego por muito tempo, nem sempre acompanhava os avós aos cultos na pequenina e improvisada igreja, que não distava muito longe de sua casa.

Em várias ocasiões em que Lourdinha demorava a chegar do trabalho – sendo essas ocasiões quase uma constante – Lorena ficava aos cuidados de uma vizinha que tinha uma filha da mesma idade que ela. Sendo ambas inseparáveis amigas. Essa vizinha que tal qual a própria Lourdinha, também não tinha marido se chamava Claudete – por todos conhecida como Detinha – mesmo sendo uma competente costureira era tão pobre e necessitada quanto eles mesmos e justamente por estarem no mesmo patamar de contínuo sofrimento se dava muito bem, tanto com aquele casal de idosos bem como com a própria Lourdinha que na maneira do possível tentava a todo o custo ser-lhe bastante prestativa, arranjando-lhe trabalho de costura pelas casas onde ela prestava serviços como faxineira.

Por mais difícil que a vida possa parecer, há certa peculiaridade nesse tipo de pessoas que deve ser louvada acima de tudo. Mesmo passando por todos os tipos de necessidades possíveis, ainda assim são pessoas fraternas e bastante generosas. Ainda que não tenha nada ou quase nada, o pouco que possuem dividem entre si. Mesmo vivendo em casebres dignos da mais profunda piedade, ainda assim, fazem de suas humildes moradas, lares calorosamente acolhedores, recebendo debaixo de seu teto, qualquer um que precise de um seio familiar em momentos de profundo abandono.

Há um velho provérbio que diz: “... não há nada de tão ruim que não possa piorar...” Certo dia, depois de um estafante dia de trabalho, sabendo que seus pais estariam na igreja e Lorena estando aos cuidados de Detinha, decidiu Lourdinha que ao chegar do trabalho tomaria um refrescante banho e logo se deitaria para um merecido descanso. Naquela época em questão o trabalho se tornava cada dia mais pesado e cansativo. Ela que estava tendo crises de insônia, após se queixar no trabalho de tal situação, havia conseguido através de uma de suas empregadoras alguns comprimidos que lhe proporcionariam noites mais tranquilas. Esse medicamento fora lhe entregue com a séria recomendação que deveria ser utilizado comedidamente e jamais misturado com qualquer tipo de bebida alcoólica que fosse.

Lourdinha – uma filha muito obediente e mãe bastante exemplar – muito raramente se dava ao luxo de tomar algum tipo de bebida alcoólica. Quando o fazia era na companhia de Detinha em algum evento especial; como algum aniversário de algum deles, nas festas de fim de ano ou coisa que o valha. Naquele dia em si, como o tempo estava bastante quente e abafado, estando ela faxinando a casa de uma velha cigana – cartomante conhecida e muito eficiente em sua mística arte – a convite de sua empregadora que era uma constante amante do copo, acabara por ingerir um gole ou outro de uma refrescante cerveja, que lhe fora muito insistentemente oferecida. Ao chegar em casa, assim que tomou seu demorado banho, devido ao cansaço do dia e os efeitos da bebida decidiu tomar pela primeira vez, dois dos relaxantes comprimidos que tanto conforto lhe trazia para suas insones noites de cansaço e profunda crise existencial. Assim que se deitou logo caiu em sono profundo e dormiu sossegadamente o sono dos justos.

Enquanto seus avós estavam numa acalorada celebração, onde o pregador ponderava sobre as benesses de uma vida de fiel servidão a Deus e obediência aos ensinamentos das Escrituras Sagradas, Lorena brincava sossegadamente com sua inseparável companheira de aventuras. Assim que o dia já cedera lugar a uma quente e abafada noite, Detinha logo preparara o parco e simples jantar, e em seguida decidira dar por encerrado alguns ajustes no vestido de uma de suas clientes, que exigia pressa no trabalho. Estando as meninas brincando de casinha no único e pequeno quarto da casa, perceberam que aquela brincadeira estava um tanto quanto sem graça, pois lhes faltavam alguns objetos considerados essenciais, para completarem aquela diversão. Tomada pela euforia e senso de aventuras, Lorena conseguira convencer sua amiga a irem até sua casa para buscarem alguns itens para continuarem com a brincadeira.

Detinha estando por demais ocupada, nem mesmo percebera que as meninas haviam saído e voltado logo em seguida. Acompanhada de sua amiga, Lorena entrara em sua casa e muito rapidamente após acender o toco de uma vela, logo recolhera todas as coisas que foram buscar e de forma bastante afoita logo retornaram a fim de continuarem com sua diversão. Uma vez que, estando a casa tomada pelas trevas, a luz da pequena vela não fora suficiente para perceberem que Lourdinha dormia sossegadamente em sua cama num dos cantos escuros da casa. Talvez devido a inocência, ou até mesmo por mero esquecimento a vela fora deixada acesa sobre uma pequena mesa encostada numa das paredes da casa. Em menos de meia hora, após essa negligente e despretensiosa façanha, Detinha sentira que o calor havia aumentado bastante e logo pôde perceber que seu quintal, fronteiriço a casa de sua inocente e infeliz amiga estava tão claro como o dia. Havia também um curioso barulho de fortes estalos preenchendo o silêncio da noite, ao olhar pela janela, finalmente deu por si que aquilo era incêndio.

A casa de Lourdinha ardia em tenebrosas chamas. Vizinhos logo se aglomeraram ao redor, mas muito pouco poderia ser feito além de evitar que o fogo se espalhasse pelos demais barracos. Lorena acompanhada da inseparável amiga e do filho mais velho de Detinha foram correndo até a igreja em busca de seus avós. Ao chegarem na porta do humilde templo, coincidentemente o pregador falava do fogo consolador que queima os pecados do mundo, Lorena que era conhecida por todos e fora a primeira a adentrar a pequena igreja fora logo gritando:

– Fogo! Foooogo...

– Justamente minha filha, é o fogo do Senhor que nos consola! Respondeu o pregador bastante afoito com sua mensagem.

Lorena desesperada ao extremo com a face banhada em lágrimas, não podendo controlar as emoções gritou bem alto:

– Não, pastor, é fogo mesmo e está queimando nossa casa.

Menos de dez minutos depois, todos os membros daquela pequena igreja – que naquela noite assistiam à celebração – estavam perante a imensa fogueira que outrora fora a casa onde Lorena vivia com sua mãe e seus avós. Seu Eusébio – velho e doente – tivera que ser amparado pelos vizinhos. Sua esposa – Dona Olinda – era um pranto só, entre lágrimas e soluços, dissera:

– Já não tínhamos nada! E o nada que possuíamos agora se foi entre as chamas...

Em menos de uma hora a pequena casa se tornou um monte de cinzas ainda fumegantes. O desespero fora tão grande que ninguém dera por fé que Lourdinha ainda não havia chegado do trabalho. Somente algum tempo depois, após os ânimos se acalmarem um pouco, que Detinha percebera que havia passado muito da hora que a amiga comumente chegava. Aquela noite fora triste e desoladora, a casa havia sido reduzida a cinzas, as horas passavam e Lourdinha nada de chegar. Depois de um tempo que parecera durar quase uma eternidade, a noite fora esvanecendo e dando lugar às primeiras luzes da manhã. Assim que a claridade se fizera presente, Detinha fora avisada por um dos vizinhos – daqueles tais, que se levantam antes do amanhecer e são dotados de curiosidade plena – que, chamando-a de lado, lhe dissera quase em surdina que havia os restos de um corpo carbonizado entre as cinzas...


Escrito por:
Alex Miranda

Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
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PIGMEUS

Quando eu era criança, ainda na longínqua década de 1980, o temor que eu tinha da noite era algo tão terrível que quando o entardecer se aproximava…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

“Devemos temer unicamente o que pode de fato nos causar dano, e o simples temor não pode fazer mal”. — Dante Alighieri

Quando eu era criança, ainda na longínqua década de 1980, o temor que eu tinha da noite era algo tão terrível que quando o entardecer se aproximava eu tinha crises de pânico que me tiravam até mesmo o apetite, independente de qual fosse o cardápio do jantar. As nuances das cores do amarelo e do vermelho dos raios de sol que se intercalavam entre si formando vários tons de alaranjado que hoje em dia eu vejo como uma prova inquestionável da existência de um Ser superior, que a cada entardecer nos presenteia com uma cena cada dia mais esplêndida, na minha inocência de criança era o prelúdio para mais um período de profundo sofrimento. O final de um dia e início de mais uma noite de profundo terror noturno.

Até hoje não sei explicar, – talvez nunca o saiba – o porquê eu tinha tanto pavor da noite. Às vezes imagino – em momentos de profunda reflexão – que esse incontrolável terror, pode ter sido causado pelas coisas que só eu conseguia ver, vagando pelas sombras da noite. Por mais que tentasse mostrar aos meus pais onde estavam e como tais criaturas eram, eles jamais acreditavam em mim. Sabendo que tentar convencê-los era algo inútil, decidi que deveria convencer a mim mesmo, que minha mãe – exemplo de doçura e sabedoria – estava certa, quando ela sempre me dizia que: monstros, assombrações, entidades e todas essas coisas do tipo, não existiam no mundo real. Que tudo era fruto de uma mente fértil que chegava a criar tais criaturas.

Mamãe, para tentar aplacar minhas crises de pânico, quando eu acordava toda a casa com meus gritos de terror, – e certamente, se minha voz tivesse a força igual ao medo que eu sentia meus gritos também acordariam toda a vizinhança – ela muito carinhosamente me dizia: – Seus olhos vêem aquilo que sua mente quer ver. Sabendo do amor que minha querida mãe nutria por mim, eu tentava de todas as formas me acalmar e me convencer que tudo o que via era fruto de minha imaginação. Contudo, eu sabia que todas aquelas criaturas eram reais, mas como ninguém mais as via, eu temendo me passar por uma pessoa mentalmente perturbada, decidi que eu deveria me silenciar quanto às minhas visões, e não tocar mais no assunto.

Certa vez, visitamos uma conhecida família, que perdera o pai para uma doença desconhecida. Um homem saudável ao extremo e forte como uma rocha, que da noite para o dia, contraiu uma infecção misteriosa que em questão de dias o levou à morte. Segundo essa jovem, a doença que matara seu pai, fora tão terrível que muitos de seus amigos e conhecidos, – até mesmo parentes mais próximos – não ousavam nem mesmo se aproximar dele em seus últimos momentos, pois os vermes já o estavam devorando, mesmo estando ele, ainda vivo. Dissera ela que, em suas últimas horas de vida, seu pai, sofrendo extraordinários ataques de pânico, aos gritos, implorava a todo o momento para que iluminassem o quarto – mesmo estando dia claro – pois, segundo ele havia terríveis criaturas o espreitando nas sombras.

Na volta para casa, minha mãe me questionou se eu havia prestado atenção no que nossa anfitriã havia nos contado. Quando eu dissera que sim, ela me alertou sobre o perigo daquilo que achamos que vemos escondidas pelos cantos sombrios. Suas palavras jamais foram esquecidas:

– Filho, não duvido de nada do que me dizes, mas não é porque eu acredito em você que os outros também deverão fazê-lo. Além de ser sua mãe, eu mesma também acredito que entre o Céu e a Terra existam muitas coisas estranhas e ainda incompreendidas pela mente humana, mas evite na medida do possível comentar com qualquer outra pessoa essas visões, para que não o tenham como um louco. Ver o que os outros não vêem o torna perigoso.

Depois da estória que ouvi, sobre um homem já experimentado em anos e que prezava do respeito de toda uma cidade, ter terminado seus dias tributado como louco, e pelos incansáveis conselhos de minha mãe decidi, que deveria silenciar as vozes e afastar aquilo que me atormentava nas trevas da noite. A última visão que tive, foi na vida adulta, quando eu já estava namorando. Foi algo assustadoramente constrangedor.

De visita a casa dos pais de minha namorada, – a primeira e última – assim que chegamos, estando todos sentados na varanda, fui educadamente cumprimentar a todos os seus parentes presentes no momento. Sem exceção de idade, um por um eu fiz questão de me apresentar e apertar a mão em um fino gesto de galhardia. Fui gentil com todos, inclusive com uma sorridente senhora que estava sentada numa confortável cadeira de balanço. Quando a cumprimentei com todo respeito e atenção que se deve ter a uma pessoa idosa, logo percebi que todos me olharam de forma assustada. Minha namorada, muito constrangida, logo me chamou num canto em particular e demonstrando estar um tanto quanto irritada, disse:

 – O que pensa que está fazendo? Quer que meus pais pensem que o namorado da filha deles é um louco, um maníaco pervertido que fala com cadeiras vazias. Saiba, que quando eu disse para minha mãe qual era sua profissão – Professor de Filosofia – ela de imediato me questionou, se você não era daquele tipo de pessoa perturbada, que passa o tempo todo sob o efeito de substâncias entorpecentes...

Pedi sinceras desculpas, e disse que eu estava um pouco cansado, e que talvez eu pudesse estar confundindo a realidade, devido ao estresse causado pelo meu trabalho. Mas, assim que entramos na sala de estar, logo na parede de frente à porta de entrada, havia um enorme retrato da senhora a quem eu havia cumprimentado há pouco. Quando questionei minha namorada de quem se tratava a imagem do retrato, ela suspirando profundamente, me disse que era sua querida avó, a quem ela tanto estimava, mas que havia falecido há mais de cinco anos...

Na velha sabedoria de botequim, há um antigo provérbio que diz que os semelhantes se reconhecem apenas pelo olhar. Numa quente e abafada noite de meados de dezembro, após um estafante dia de trabalho, estava eu sentado numa velha banqueta, encostado num polido e gordurento balcão de um sossegado bar no centro da cidade, saboreando uma cerveja estupidamente gelada ao som de Belchior, quando um senhor se aproximou de onde eu estava e logo foi puxando assunto. Sem nenhuma cerimônia foi se apresentando e iniciou uma conversa por conta própria, – sem saber se eu gostaria de ouvi-lo, ou não – primeiro; falando do calor, da falta de chuvas, do custo de vida e por fim das dificuldades de se conseguir bons companheiros de trabalho. Como eu estava muito cansado e de cabeça quente, devido aos dias finais do ano letivo, fiquei apenas o escutando, e vez por outra interagia com ele de forma monossilábica.

Quando ele percebeu que tinha minha atenção, logo me questionou sobre minha profissão e se eu estaria ocupado nas duas próximas semanas. Respondi que era professor de Filosofia, mas que a partir da quarta-feira da semana seguinte estaria de recesso pelos próximos quarenta dias até o fim de janeiro. Sem titubear por nenhum segundo, me fez uma proposta de trabalho, que de forma alguma poderia ser recusada. Disse-me que era carpinteiro de telhados artesanais e que estava à procura de um ajudante, que lhe pudesse auxiliar por duas semanas, pois seu antigo ajudante havia sofrido um pequeno acidente e estaria indisponível por uns dois meses, talvez até um pouco mais – soube depois, que estava em coma profundo. Jamais trabalharia outra vez –.

O trabalho era no interior, numa fazenda afastada da cidade. Um lugar sossegado e bastante pitoresco para uns dias de descanso de uma vida atribulada de cidade grande. Fez-me uma oferta financeira bastante razoável, para quem não tinha nenhuma experiência com este tipo de ofício, e logo quisera me pagar metade do valor oferecido de forma adiantada. Após acertarmos os detalhes, ficou decidido que na quarta-feira seguinte, partiríamos para a tal fazenda onde ficaríamos até o término do trabalho.

 Chegado o dia marcado, partimos bem cedo e antes do almoço já estávamos em nosso destino. Após nos instalarmos na casa onde ficaríamos alojados, depois de um improvisado repasto, ele disse-me que, meu dia seria devidamente pago e que eu poderia fazer o que bem entendesse naquela tarde. Ele por sua vez gostaria de descansar da viagem, e que se fosse possível, que eu não o incomodasse em seu sono vespertino. Aproveitei a tarde para ler, um dos livros que eu havia levado comigo – A outra volta do parafuso de Henry James, se não me falha a memória. Ele dormiu a tarde toda, só despertando no ocaso um pouco antes do início da noite. Após tomar um demorado banho, preparou nosso jantar, – galinha ao molho de pimenta – que fora servido acompanhado com um saboroso vinho tinto. – Lembrei-me de Jonathan Harker hospedado no Hotel Royal em Bistritz –.

Após o jantar ficamos conversando até tarde da noite. Ele me pormenorizou sobre seu passado, fatos que rememoravam sua infância mais remota. Acontecimentos de uma época em que eu ainda nem tinha nascido. – era ele um senhor de mais de sessenta anos – Percebi que ele tentava a todo custo me manter acordado com suas estórias, para lhe fazer companhia – uma espécie de Sherazade tupiniquim – Consegui me manter desperto até umas duas horas da madrugada, mas logo fui vencido pelo sono e pelo cansaço e acabei adormecendo na cadeira onde estava sentado, sendo despertado logo em seguida com gritos de pavor e desespero. Naquela noite não dormi mais do que meia hora ao todo, somando os pequenos cochilos que vez por outra me venciam, mas sendo logo despertado em seguida de forma abrupta.

Por três noites a fio, tudo se repetiu como na primeira noite. Eu já estava a ponto de um ataque de nervos. Por mais que eu tentasse de todas as formas, não conseguia dormir durante o dia. Ele por sua vez, iniciava sua jornada de trabalho às primeiras horas da alvorada e após o almoço, dormia quase toda a tarde, também me dispensando de meus afazeres. Depois de me certificar que aquele seu estranho comportamento estaria ligado diretamente ao mesmo terror noturno que eu enfrentara quando criança, decidi que eu talvez pudesse ajudá-lo. Sem deixar que ele percebesse, coloquei em sua bebida – que era de uso quase contínuo – dois dos comprimidos que tomava havia muitos anos para poder dormir uma noite de sono tranquila, sem ser incomodado por visões noturnas. O medicamento era controlado e bastava uma única dose para derrubar um cavalo. Como eu estava muito cansado, quis ser pragmático e lhe dar logo uma dose que eu sabia que seria mais do que suficiente para lhe proporcionar um pouco de paz.

Naquela noite nos recolhemos antes das oito da noite, pouco após o jantar ser servido. Aquele amedrontado senhor, meio que desmaiara em sua poltrona, com muito sacrifício consegui levá-lo para sua cama, – que até então só era usada durante o dia. Exausto como estava, logo adormeci pesadamente, sendo despertado por lamentosos gemidos de alguém que padecia um terrível sofrimento. Como há tempos, havia conseguido vencer meus temores noturnos, consegui me acostumar a dormir com a luz apagada, e naquela noite estávamos na completa escuridão. Quando olhei para a direção de onde vinha os gemidos, percebi que havia uma dezena de pequenos olhos amarelados ao redor da cama de meu companheiro, que por algum motivo parecia estar preso à cama sem poder se mover. Rapidamente acendi a luz e logo todos os olhos sumiram na mesma velocidade que a luz fora acesa.

Aquele senhor entrara numa espécie de catatonismo crônico, não conseguindo mais responder à realidade que o cercava. Num comportamento completamente ensandecido, mesmo estando com todas as juntas de seus membros inertes, ficava tentando se debater, como se unindo forças para se levantar e correr o mais rápido que pudesse e repetindo o tempo todo:

– Pigmeus! Pigmeus! Pigmeus...


Escrito por:
Alex Miranda

Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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A Harmonia do Acaso

Existem dias em que todas as forças do Universo se unem para que o acaso possa acontecer de uma forma que nada, nem ninguém possa desconfiar…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

“Vós que aqui entrais, abandonai toda a esperança”. — Dante Alighieri

Existem dias em que todas as forças do Universo se unem para que o acaso possa acontecer de uma forma que nada, nem ninguém possa desconfiar que uma Força maior talvez tenha interferido no destino de alguém. Os fatos ocorrem de forma sincronizada, uma simples ação desencadeando outra e mais outra até que algo inevitável aconteça. Naquela madrugada, após chegar em casa às três horas, depois de mais uma noite de bebedeira, Antônio jamais esperaria que o dia seguinte lhe traria dissabores inomináveis. Como lhe era de costume, chegou em casa, procurou algo para comer, descalçou os sapatos e, ainda mastigando um pedaço de queijo velho – de há muito tempo abandonado na geladeira – jogou-se na cama do jeito que estava e logo caiu no sono, sem se preocupar que a vida teria que continuar dali a algumas horas.

Acordou assustado com o telefone tocando e com o barulho de uma buzina de um caminhão que havia acabado de dobrar a esquina. A casa em que morava – um apartamento de dois quartos no segundo andar de um sobrado antigo – situava-se numa esquina bastante movimentada àquelas horas da manhã. Aquele barulho lhe arrancara de seu sono pesado e o trouxera de volta à sua dura realidade. Ainda meio zonzo pelo susto, ao olhar para o rádio-relógio – que ele esquecera de programar o alarme – na cômoda ao lado da cama, logo se colocou de pé num sobressalto. Estava bastante atrasado para o trabalho. O relógio marcava 08h35, e ele já deveria estar na loja desde as 08h00. Assim que olhou para o telefone e viu que o número identificado era do asilo onde sua mãe estava há mais de dois anos, o ignorou por completo, pensando consigo mesmo: – Na hora do almoço, ligo de volta para saber do que se trata.

Em menos de dez minutos já havia tomado banho e se barbeado. Foi até a cozinha em busca de algo para comer e, como nada de agradável para uma manhã de ressaca fora encontrado, tomou apenas um copo de leite frio. Já vestido com seu uniforme, foi mais uma vez ao banheiro para escovar os dentes e, sem mais delongas, se encaminhar rapidamente para o trabalho. Ao retirar o creme dental do tubo, talvez devido à pressa em que estava, ou mesmo por falta de perícia, conseguiu sujar toda sua camisa – de cor preta – com uma considerável quantidade daquela pasta branca. Por mais que tentasse, não conseguiu, de forma alguma, deixá-la apresentável. A única solução fora usar a mesma camisa do dia anterior – amarrotada, suja de suor, fedendo a cigarro e a todo tipo de odor que um botequim pode oferecer.

Aquele era um dia que ele, de forma alguma, poderia faltar ao trabalho. Um grande artista da música pop iria pessoalmente até a loja buscar um violão estilizado, que havia sido encomendado há dias. No dia da encomenda do tal instrumento, após aquele momento de trocas de gentilezas entre vendedor e cliente – onde certa intimidade se estabelece –, Antônio se aproveitou daquela oportunidade única – que ele há muito tempo aguardava – e, sabendo de quem se tratava, logo relatou sobre sua paixão pela música e também falou sobre suas composições, que certamente, na voz de um grande intérprete, talvez poderiam se transformar em hits de sucesso. Solicitou então àquele artista que, assim que voltasse à loja – se fosse de seu interesse e sem compromisso algum –, pudesse dar uma olhada rápida em suas composições e, quem sabe assim, encontrar alguma canção que lhe interessasse.

Antônio era um homem talentoso e bastante sonhador. Um indivíduo muito trabalhador, mas também muito irresponsável com suas finanças e bastante negligente consigo mesmo. Já na casa dos trinta anos – tal como sua própria mãe, agora abandonada num asilo – ainda não havia se casado e muito menos conseguido algum tipo de sucesso na vida. Filho de uma professora aposentada, que o concebera já madura em anos, quando já contava com quarenta anos. Essa professora – Tia Adélia – uma bela solteirona que havia dispensado várias oportunidades de casamento em sua juventude, preferindo investir seu tempo e disposição em sua carreira pedagógica, certo dia, num baile de carnaval, sob efeito de uma bebida um pouco mais forte, se deixou levar pelos encantos de um sedutor caminhoneiro que estava de passagem pela cidade. O resultado dessa ébria noite de carnaval viria se apresentar ao mundo nove meses depois, na figura de um belo e saudável menino que receberia o nome de Antônio Augusto.

Como não conhecera seu pai – que certamente morrera sem saber da existência de um filho –, fora criado pelo avô – que também se chamava Antônio – que tentou, dentro de suas possibilidades, lhe dar uma boa educação. Seu Antônio tinha, em parceria com seu irmão Jaime, uma serraria na pequena cidade onde moravam. Foi nessa serraria que Antônio Augusto – chamado Toninho – passou sua infância e adolescência aprendendo todo tipo de coisa: tudo o que prestava e também aquilo que não seria de nenhum proveito.

Esse seu tio-avô, Jaime, era a pior espécie de pessoa que poderia servir de exemplo para uma criança. Não era muito achegado ao trabalho duro, bebia como um louco e fumava feito uma chaminé. Era mulherengo ao extremo e tinha meia dúzia de filhos – nenhum deles reconhecido por ele – espalhados por toda a cercania com diversas mulheres diferentes, mulheres essas de índole e caráter bastante duvidosos. Contudo, não há nada no Universo de que não se retire algum proveito. Tio Jaime, por mais que possa parecer ser um indivíduo completamente imprestável, mesmo tendo ensinado o jovem Toninho os diversos segredos da malandragem, também fora o responsável por encaminhá-lo ao mundo da música, ensinando-o a tocar diversos instrumentos musicais. Tio Jaime era um exímio instrumentista e lhe ensinara tudo o que sabia.

Sua mãe se aposentara no mesmo ano em que ele completara 18 anos. Nessa época, seu avô já havia falecido há dois anos; sua avó morreria no ano seguinte, ficando apenas ele e sua mãe morando numa casa enorme. A serraria fora vendida assim que Seu Antônio falecera. Tio Jaime sobrevivia de sua parca aposentadoria e de um ou outro trocado que recebia de algum aluno que o procurava para aprender a tocar algum instrumento musical, mas também viria a falecer em pouco tempo, após uma vida carregada de lascívia e devassidão.

Como Tia Adélia não via muito futuro para o filho numa cidade pequena, decidira se mudar com ele para a cidade grande. Antônio Augusto – que deixara o apelido de Toninho para trás – tentara de todas as formas seguir carreira como artista. Contudo, não obtendo a sorte e a oportunidade necessárias ao estrelato, se firmara como vendedor numa loja de instrumentos musicais, onde trabalhava há mais de dez anos. Sem o tempo necessário e com pouca paciência para com sua mãe, que na senilidade se tornara irascível e taciturna ao extremo, decidira por interná-la num asilo, onde, para desencargo de sua própria consciência, dizia para si mesmo que ela seria muito bem cuidada por profissionais especializados nessa função.

Aquele dia – que não havia começado muito bem – tinha tudo para ser um grande dia. Ele não deixaria que ninharias o abatessem. Vestiu a camisa do dia anterior – mesmo não estando na melhor das condições –, pegou seu crachá e suas chaves e desceu correndo as escadas para ir para seu trabalho. Sabia que o tão esperado artista só estaria na loja após as dez da manhã. Para isso, ele ainda tinha tempo. A questão era que seus atrasos estavam ficando corriqueiros demais, e a nova gerência da loja já o havia advertido naquela mesma semana quanto a tal situação. Quando chegou ao portão de saída de sua casa, lembrou que estava se esquecendo do item mais importante daquele dia – seu caderno de composições. Talvez fosse a coisa mais importante de toda a sua vida. Por isso mesmo, voltou correndo até seu apartamento e, já de posse de tão importante objeto, desceu mais uma vez as escadas que levavam até a saída. No escuro corredor das escadas, sentiu uma estranha presença perto de si e, ao cruzar o portão de saída, teve a sensação de ter visto um vulto passando por ele. Bastante eufórico com as promessas daquele dia e totalmente absorto em seus pensamentos, atravessou a rua sem olhar para os lados e, quando o fez, a única coisa que viu foi uma enorme mancha verde vindo sobre ele. Num último momento, ouviu um estrondoso barulho que misturava sons de buzina, freadas de pneus e uma forte pancada. De repente, havia apenas o silêncio, e tudo ficara completamente escuro...

... Quando conseguiu, por fim, abrir os olhos, estava num lugar estranho, onde parecia estar anoitecendo, mas não conseguia ver os traços de um entardecer, muito menos o menor sinal de um céu estrelado. Ao olhar para cima, o que viu foi a escuridão de um céu que parecia estar nublado, pronto para descarregar uma tempestade a qualquer momento, mas não havia o menor sinal de chuva. O tempo estava quente e abafado, não havia uma única brisa soprando. Havia um fétido odor de coisa podre pelo ar, como se houvesse um esgoto a céu aberto ali por perto e vários velórios acontecendo ao mesmo tempo, com seus vapores de defunto, velas e flores murchando. Levantou-se e logo quis saber onde estava, mas as pessoas que passavam por ele, caminhando a esmo, agiam de forma estranha, não diziam coisa com coisa. Pareciam estar bêbadas, caminhando trôpegas e falando coisas sem nenhum nexo. Alguns pareciam estar em profundo remorso, pois batiam no próprio peito numa inconsolável lamentação.

Decidiu que o melhor a fazer era tentar encontrar alguém que conhecia, para saber que lugar era aquele e, principalmente, tentar entender o que estava fazendo ali, uma vez que deveria estar na loja para encontrar a pessoa que poderia realizar o grande sonho de sua vida. Caminhou sem destino certo por quase uma hora, sem encontrar ninguém que pudesse lhe dar uma explicação plausível; todos que encontrava pelo caminho pareciam estar muito envolvidos em seus próprios problemas. Ninguém interagia com ninguém, era um verdadeiro “cada um por si e Deus por todos”. Contudo, de algum modo, ele teve a estranha sensação de que Deus não estava presente naquele lugar. Sentindo-se cansado e com um gosto estranho de sangue na boca, com o corpo todo dolorido, como se tivesse sido violentamente espancado, não conseguia de forma alguma se lembrar de como chegara ali. Suas pernas estavam doendo pela caminhada, mas não sentia sede, e até mesmo a fome que o açoitava ao se levantar naquela manhã o havia abandonado. Numa das mãos ainda trazia consigo as chaves de casa, que ele não havia colocado nos bolsos, e na outra carregava seu caderno de composições.

A rua pela qual ele caminhava parecia não ter fim, como se estivesse caminhando em círculos, mas, por mais que andasse, não passava pelo mesmo lugar mais de uma vez, como se estivesse numa cidade infinita. Percebeu que, nas casas, as luzes estavam apagadas e todas as portas – de casas, lojas, botequins etc. – estavam fechadas. Havia pessoas de todas as formas e tipos, as mais diversas, pelas ruas. Todas caminhavam de um lado para o outro, tristes e cabisbaixas, e, quando ele tentava interagir com alguém, cumprimentando-as ou lhes perguntando algo, ninguém lhe dava atenção. Depois de certo tempo, que lhe pareceu ser quase uma eternidade, teve a impressão de ter visto, caminhando em sua direção, sua antiga professora do jardim.

Tia Cecília fora sua professora quando ele ainda tinha sete anos, mas, pelo que se lembrava, ela havia morrido há alguns anos num trágico acidente de carro que colhera tanto a vida dela quanto a do marido e de seu único filho – bastardo, diziam as más línguas. Pelo que soubera, eles estavam voltando de uma festa, onde tanto ela como o marido haviam bebido muito e decidiram que o menos ébrio pegaria a direção. O resultado de álcool e direção fora desastroso. Tia Cecília passou por ele como se fosse um completo estranho e nem ao menos lhe respondeu quando ele a cumprimentou, chamando-a pelo nome. Antônio pensou que havia se confundido. Continuou caminhando e, ao dobrar uma esquina, se deparou com seu Tio Jaime, que esse sim o reconhecera. Pois foi Tio Jaime quem lhe direcionou a palavra, questionando o que ele estava fazendo naquele lugar. Muito satisfeito por ter encontrado um rosto conhecido, mas bastante assustado por saber que era alguém que havia falecido há muitos anos, logo questionou seu tio sobre o que significava tudo aquilo, o que, com certa relutância, lhe fora explicado.

— Este lugar tem vários nomes, filho: Hades, Purgatório, Inferno... Aqui nós o chamamos de Umbral. Território desprovido de todo e qualquer sentimento de piedade, não há fraternidade aqui presente, ninguém parece se importar com a dor do outro. Cada um purgando seus próprios pecados, nesse infinito vai e vem de transeuntes ensimesmados. Vez por outra, aparecem por aqui umas pessoas vestidas de branco, transcendendo uma estranha luz azulada, que escolhem alguns dentre os que caminham e os levam consigo. Para onde, ninguém sabe, até porque os que são levados não retornam para contar, e quem os leva nunca diz nada para os que aqui ficam.

O que sei é que muitos, como eu mesmo, ficam bastante tempo por aqui. Após muita reflexão – e tempo para refletir é o que não falta por aqui – cheguei à conclusão de que o tempo passado aqui depende de como foi sua vida no mundo dos vivos. Pois alguns são rapidamente resgatados pelos seres de luz. Quando alguma criança chega, algum ser de luz já está à sua espera e ela é imediatamente levada. É estranho você chegar no mesmo dia em que sua mãe também passou por aqui. Vocês estavam juntos? Tiveram algum acidente?

Naquele momento, Antônio teve um sobressalto e, todo assustado e trêmulo, disse:

— Como assim? Que história é essa? Minha mãe está ou esteve aqui?

Tio Jaime, após um longo suspiro – ou pelo menos algo que pudesse se assemelhar a tal –, respondeu:

— Cheio de perguntas como todo mundo! Sua mãe passou por aqui mais cedo, um pouco antes de você chegar. Mas, como tinha um coração puro e inocente como uma criança, logo foi resgatada por um dos seres que já aguardava. Ela não chegou a me reconhecer como você o fez. Porém, eu a reconheci de imediato e, como estava próximo a ela, pude ouvi-la quando questionou ao ser que a aguardava: “O que seria de você sem ela para protegê-lo?”. O ser, muito gentilmente, respondeu que você ainda teria bastante tempo para endireitar suas veredas...

De repente, uma forte luz que banhava sua face lhe cegou os olhos momentaneamente, e o barulho de uma buzina quase o deixou surdo. Mas o que mais lhe incomodava naquele momento era o irritante som do telefone que tocava insistentemente. Antônio despertou de um terrível pesadelo, seu estômago estava embrulhado e sua cabeça doía terrivelmente. Ao perceber que o telefone não lhe daria paz, decidiu atendê-lo. Era do asilo onde sua mãe estava internada.

— Senhor Antônio Augusto de Albuquerque?

— Sim! Sou eu.

— Infelizmente, não tenho uma boa notícia para o senhor...

Revisão de Sahra Melihssa

Escrito por:
Alex Miranda

Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
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Selo HOR, Escrito por Ricardo Zanella, -Contos Ricardo Zanella Selo HOR, Escrito por Ricardo Zanella, -Contos Ricardo Zanella

De como Solas governa Zélis

Seis mil anos antes da invasão do Abismo, um arquidemônio já sombreava o plano terrestre com suas asas. O continente-reino de Zélis era o menor do mundo…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Seis mil anos antes da invasão do Abismo, um arquidemônio já sombreava o plano terrestre com suas asas.

O continente-reino de Zélis era o menor do mundo de Palais. O rei Mietaz, da casa Andros, governava naquelas circunstâncias.

O rei, idoso e muito afeiçoado, tinha somente uma filha, a única herdeira de seu reino. A donzela Eneza, porém, já frágil de constituição, contraiu uma doença desconhecida. A notícia abalou o carinhoso rei e seu semblante nunca mais se recompôs.

A enfermidade acamou a princesa: um flagelo cruel, com febres constantes, bolhas pútridas e delírios que, segundo fanáticos, eram possessões. A doença não concedia sequer o benefício da morte.

Eneza sofreu por longos meses; o desesperado rei não encontrava físicos nem doutores que tivessem a causa ou a cura.

Mietaz, num gesto humilhante, enviou cartas e emissários a todos os continentes e reis de Palais. Mas nenhum nobre, nenhum médico, dispunha de solução.

A fagulha de esperança surgiu após um ano de sofrimento. Um visitante chegou à corte.

Forrasis era o nome dele. Pálido, alto, cortês e eloquente; apresentava-se como um diplomata enviado por Sarakh de Alfara.

Mietaz conhecia a fama do rei Alfaro. Sarakh era chamado de “o Prístino”, pois vivera mais de um milênio, sustentado por meios herméticos e controversos. Forrasis sugeria esses meios.

As audiências entre ele e Mietaz tornaram-se frequentes e sempre privadas. Os altos nobres estranharam a ausência do conselho real de Zélis. Mas o rei dizia que se tratava apenas de diplomacia externa.

O secretismo possuía nefastos motivos: o diplomata prenunciou a morte de Eneza e a anarquia de Zélis caso o rei recusasse sua proposta.

O rei, mais desesperado que nunca, aceitaria quase antes de ouvir. A proposta era simples e profana: conjurar o mestre dos segredos, Solas, arquidemônio do Abismo, por meio da demonurgia conduzida por Forrasis.

Naturalmente, Mietaz hesitou. Um arquidemônio como curandeiro? Mas Forrasis garantia: o Abismo já havia curado outros. Sarakh recorrera à alquimeria abissal para se manter vivo e fizera de Alfara uma potência com tal ciência.

Mietaz resistiu por alguns dias. Mas Eneza era sua filha. Sua vida sustentava não apenas o coração do rei, mas também a sucessão de Zélis. Era isso, ao menos, que murmurava para si mesmo, e bastou para que cedesse.

Forrasis logo produziu um símbolo distorcido, um ídolo abissal, como o objeto daquele acordo.

Seu sangue régio devia banhar por treze dias o ídolo; preces numa língua distorcida, que apenas o diplomata conhecia, deviam ser repetidas em sessões demoradas. Para isso, Mietaz mandou construir uma sala oculta, adjacente à sala do trono.

No décimo quarto dia, o ídolo se partiu em estilhaços e Solas se manifestou.

Sua forma era estranha aos olhos humanos: uma coruja altíssima, de pernas longas e nuas. O torso era magro, mas suas asas quase tocavam todas as paredes da câmara. Seus olhos, macabramente vermelhos, ignoravam a presença do rei.

Ele conversou primeiro com Forrasis numa língua profana. Somente depois cedeu um pouco de atenção ao rei, que suava e retraía seu corpo pelo medo, mesmo que o diplomata garantisse a segurança.

O rei vomitou em resposta ao cheiro pútrido de Solas. A pedido de Forrasis, Solas ocultou parte de sua essência. Encolheu-se. Tornou-se uma coruja comum aos olhos de quem o visse. Seu cheiro pútrido também desapareceu.

Mietaz falou, ainda que tremendo, no idioma que sabia, de sua aflição. Revelou suas dores e prestou reverência à criatura. Solas, primeiro em silêncio, respondeu no mesmo idioma do rei.

Solas concordou. Mas em troca, exigiu uma sala do trono, uma coroa real e o título eterno de conselheiro absoluto da coroa de Zélis.

Mietaz hesitou, dessa vez com mais consciência. Olhou para o chão. Suas mãos tremiam. Por um instante, cogitou recusar. Mas ao lembrar-se do estado de Eneza, cedeu de novo. Murmurou para si que era por Zélis… mas sabia, no fundo, que era só por ela.

O contrato foi feito, o ritual selado.

Treze dias depois, Eneza levantou-se da cama. Suas bolhas haviam sumido. Sua pele era clara e firme. Sua saúde perfeita. O rei chorou de alegria. Agradeceu a Solas e prestou mais reverências.

Mas a princesa não parecia a mesma de antes. A amabilidade de seu rosto desapareceu; a gentileza, antes costumeira, não mais existia. Ela desprezava o conselho, o povo, o pariato. Falava pouco, e cada vez mais passava tempo com o demônio. E seu cheiro, quando sentido de perto, era o de um cadáver.

Ao passar das semanas, Mietaz percebeu que foi enganado. Sua filha redespertou como serva de Solas, como fantoche do Abismo.

Todos os sacrifícios que ele ofereceu ao demônio, as crianças e as donzelas, foram somente para alimentar sua transformação. Almas humanas foram os temperos dos remédios.

Ele não suportou o peso da culpa. No segundo mês da “cura” de Eneza, o rei Mietaz se jogou de sua torre.

Sua filha não chorou, nem fingiu luto. Assumiu o trono. Ela dissolveu o conselho e instituiu Solas, trajando agora diversas aparências humanas, como conselheiro real.

Solas, por séculos, atuou como conselheiro real, e como o governante de facto do reino. Por ele, o continente se tornou o centro da tecnologia de Palais. E também o berço da alquimeria abissal.

A corte de Zélis, hoje repleta de vassalos demoníacos, foi uma importante coluna para a Igreja abissal e para o surgimento da fissura em Alfara.

Solas, o arquidemônio dos segredos, ainda governa ali, trajando uma coroa esplendente. Loquaz, simpático, crente de ser o mais sábio dos entes antigos.

Revisão de Sahra Melihssa

Escrito por:
Ricardo Zanella

Ricardo Zanella, também Áster e Venez, é tradutor, escritor e poeta por vocação. Nascido no início do milênio, em Itaperuna, Rio de Janeiro, é um ardente mantenedor da antiga poética dos trovadores. Áster escreve por vocação e por necessidade interior, pois, como afirma, “há uma razão suficiente para cada verso”. Acredita na arte literária como o caminho mais belo para a elevação do espírito. É autor de "Abissais", fantasia sombria que mescla o horror metafísico a um vislumbre de redenção. Em seus escritos, o amor cortês é o tema mais recorrente. » Instagram do Autor
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A Relíquia

Eclipse é uma velha e aconchegante estalagem logo à entrada da cidade. Sempre usada por viajantes e também por aqueles que buscam a…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

“O mundo parece cheio de bons homens, mesmo que existam monstros nele”. — Bram Stoker

Eclipse é uma velha e aconchegante estalagem logo à entrada da cidade. Sempre usada por viajantes e também por aqueles que buscam a segurança da água corrente. Essa secular construção é um pequeno palacete assobradado, construído por monges ainda nos tempos medievais. Uma lenda sobre o local remonta a um período onde ainda havia uma fé fervorosa entre os homens. Segundo essa lenda, o Arcanjo Miguel – o Guerreiro de Deus – havia aparecido para dois pescadores na margem do rio e, apontando para uma ilha que ficava no meio das águas daquele caudaloso rio, lhes ordenara que construíssem uma fortaleza, que posteriormente serviria de abrigo a todos aqueles que buscassem a proteção da luz. São Miguel dissera ainda que aquele santuário, estando entre águas correntes, jamais poderia ser transposto por criaturas das trevas.

Esses dois pescadores buscaram auxílio entre os monges pedintes e, em menos de cinco anos, uma resistente fortaleza estava pronta. Contudo, a conselho dos Franciscanos, nenhuma ponte deveria ser construída, ligando as margens do rio àquela protegida ilha, onde agora havia o Santuário de São Miguel Arcanjo. Qualquer acesso a essa fortaleza só poderia ser feito através de barco ou a nado – para algum aventureiro que ousasse enfrentar as fortes correntezas do rio. Somente no final do século XIX, quando aquela fortaleza – abandonada há décadas – foi adquirida por um abastado comerciante inglês, é que uma robusta ponte foi construída, ligando a ilha às margens do rio. Esse rico burguês fez do antigo santuário uma aconchegante pousada e residência própria, para si e sua recém-formada família.

Esse comerciante falecera há alguns anos, deixando a pousada nas mãos de sua esposa e sua única filha. Há rumores que, além da suntuosa estalagem, deixara como herança uma faustosa fortuna para a esposa e a filha. A esposa, mesmo depois de mais de vinte anos de viuvez – e a cada dia com uma aparência mais juvenil – jamais tivera outro relacionamento, mesmo sendo cortejada por diversos homens de toda e qualquer tipo de classe socioeconômica. Com muita seriedade, mantinha sua castidade e o pleno respeito ao luto de uma forma literal, pois, além de sua moral inquestionavelmente ilibada, vestia negro dos pés à cabeça. Cecília era realmente um modelo exemplar de viúva. Talvez devido à sua idoneidade, ou quem sabe em respeito à memória do falecido marido, ninguém jamais a vira fora da estalagem desde que ficara viúva – alguns desocupados mais antigos asseguravam que nem mesmo antes –.

A pousada Eclipse era um lugar quente e confortável, desprovida de luz elétrica devido à sua posição geográfica; mantinha sua iluminação à moda antiga, à luz de velas e lampiões, o que dava ao ambiente um aspecto bastante lúgubre. Além dos odores comuns a todo e qualquer estabelecimento comercial do tipo, cheirava a fumaça de madeira de lei que queimava constantemente numa lareira, acesa a noite toda. Havia também no ar um agradável cheiro de flores silvestres. Era o tipo de estabelecimento que funcionava todas as noites sem exceção, servindo cama e comida, atendendo a qualquer um que pudesse pagar. Havia apenas uma peculiaridade estranha naquela estalagem: nenhum hóspede, independentemente de sua classe social, jamais era convidado a entrar. Quem quisesse adentrar em suas portas deveria fazê-lo livremente.

Aquela era uma noite como outra qualquer, sem muitas novidades. No céu, uma lua nova se despedia no horizonte, deixando atrás de si um céu sem nuvens, bastante estrelado. Com a ausência de seu mais nobre luminar, a noite se tornara escura e bastante traiçoeira para quem andasse às escuras sem conhecer o caminho a ser seguido, ou sem o auxílio de alguma luz artificial. A sorte de qualquer um que ousasse ir até a Pousada Eclipse era a luz dos vários lampiões ao longo da ponte, que iluminavam todo o caminho. Devido ao bom atendimento e à qualidade dos serviços oferecidos, a estalagem era sempre muito movimentada.

O homem no umbral da porta era alto, forte, mas com traços um tanto quanto melancólicos. Tinha olhos claros e distantes. Parecia um sujeito que havia tido uma vida inteira de infelicidade. Trajava vestes surradas, que em outros tempos teriam sido o ápice da moda; entretanto, pareciam estar carecendo urgentemente de uma lavagem há tempos. Essas vestes davam-lhe a aparência de ser um viajante de terras bem longínquas. Sem pedir licença, foi logo entrando e, quando se pronunciou pela primeira vez, percebeu-se que tinha uma voz cavernosa e sussurrante, com um acentuado sotaque das terras do Leste. Para quem conhecia, logo foi fácil perceber que seu principal idioma era o romani – antiga língua dos ciganos –. Contudo, sem muitas dificuldades, conseguia se fazer entender muito bem e foi logo dizendo:

– Boa noite, senhoras! – disse ele, dirigindo-se diretamente a Cecile e sua filha, como se já soubesse que ambas eram as proprietárias do local –. Gostaria de algo forte para beber. E se não for muito tarde e nem muito incômodo, um jantar seria muito bem-vindo.

Rapidamente, um conhaque fora-lhe servido. Após tomar de um único gole a dose oferecida, pediu que a garrafa – mesmo que já pela metade – fosse deixada sobre a mesa. Antes que a garçonete lhe pudesse dizer qualquer coisa, lançou sobre a mesa uma moeda de ouro, pagando adiantado um valor bem acima daquele que imaginava ser por uma garrafa lacrada. A jovem que lhe servira a bebida recolheu a moeda e disse-lhe:

– Seja bem-vindo à nossa humilde casa, cavalheiro! Meu nome é Lilian Leblanc. Aquela que atende no balcão é minha mãe. Seu nome é Cecile Leblanc. Estamos ao seu dispor para atendê-lo da melhor forma possível. Seu jantar será logo servido, nossa cozinha funciona durante toda a noite. O que mais duas humildes estalajadeiras podem lhe ser úteis? Senhor...?

– Rubens! Muito prazer. Eu estou bastante atrasado, terminando de jantar eu já vou embora. Como as coisas estão indo por aqui, madame?

– Alguns reclamam da crise aqui; outros, da seca acolá, e muitos comentam sobre uma tal de Depressão econômica. Mamãe e eu não nos importamos muito com o que acontece lá fora. Temos nossos fregueses cativos e nosso movimento é sempre o mesmo em todas as épocas do ano. Aqui, em nossa humilde casa, tudo ocorre na mais absoluta paz e quietude. Nossos fornecedores nos abastecem continuamente com tudo o que precisamos. Na verdade, há tempos que nem mesmo saímos daqui dessa ilha. Temos sempre muito trabalho por aqui.

– Depressão econômica! Mesmo que seja longa e castigante, não se deve, de forma alguma, ser comparada ao que foi a Peste Negra, a Átila, o Huno, ou a qualquer uma das Cruzadas. Independentemente dos flagelos, o ser humano tem um dom a resistir a qualquer coisa – disse ele, sorvendo mais uma dose do conhaque.

Madame Cecile, que servia outros fregueses no balcão, mas a todo o tempo prestava zelosa atenção naquele sinistro forasteiro, dirigiu-lhe a palavra pela primeira vez, o questionando:

– Que tipo de homem é o senhor? O que o traz à nossa humilde casa, senhor Rubens?

– Peço perdão se disse algo errado, senhora. Sou um humilde viajante em uma importante missão, a serviço de pessoas poderosas do lugar de onde venho. Não sou do tipo de homem perigoso. Sou apenas um viajante. Se o que eu disse ofendeu a senhora ou a essa casa de alguma forma, eu revogo imediatamente. Às vezes me excedo um pouco nas palavras, talvez porque ainda trago na lembrança os velhos costumes de quando eu ainda era professor de História em meu país. Por falar em História, gostaria de lhes contar uma bastante interessante, se permitirem. Quem sabe se, depois de ouvirem o que tenho para dizer, possam me ajudar de alguma forma.

Cecile, que era estalajadeira desde que conseguira alcançar a parte de cima do balcão, sempre acostumada às esquisitices de seus fregueses, deu de ombros, como se, para ela, alguém falando ou ficando em silêncio fosse totalmente irrelevante. Contudo, sabia que o que mais agradava a um viajante, além de uma cama macia, boa comida e bebida farta, era poder compartilhar suas estórias a quem quisesse ouvir. Naquela noite, havia uma dúzia de pessoas presentes, talvez até um pouco mais. Entretanto, a estória seria de maior interesse de mãe e filha.

O forasteiro enchera seu copo até a borda e o emborcou de um único trago. Após limpar a garganta, pediu licença aos presentes e principiou a seguinte narrativa.

– Antes de qualquer coisa ser dita, devo preveni-los que o que tenho a dizer possa parecer uma estória de viajante, ou até mesmo algum desvario de alguém desprovido de suas capacidades mentais. Mas quero que saibam que, da mesma forma que há a luz, também existem as trevas. E, se porventura acreditam em Deus e todas as hostes celestiais, também devem acreditar que haja o príncipe das trevas e seus seguidores – sendo também eles, anjos – que, junto com seu mestre, foram lançados no abismo e reinam naquele lugar onde a esperança não jaz...

... Alguns dizem que o primeiro deles foi Caim, por ter derramado o sangue de seu irmão na terra ainda virgem do pecado. A punição de Deus para esse primeiro homicida havia sido algo severo e exemplar. “... é maldito na terra e que esta não mais lhe dará frutos, sendo, portanto, fugitivo e errante...” Caim fora marcado e condenado a vagar pela terra, sendo eternamente perseguido pelos demais filhos de Adão. Pelo assassínio covarde de seu irmão, a Luz Divina abandonara sua fronte. Caim, uma vez órfão, havia sido adotado pelas trevas, sendo obrigado a viver nas sombras, tendo o sangue como seu único alimento. Uma vez que dera o sangue de seu irmão para que a terra bebesse, Caim e sua prole também assim o faria.

Outros, no entanto, defendem que o primeiro nosferatu foi Judas Iscariotes – o traidor. Aqueles que defendem essa teoria se baseiam nas próprias Escrituras Sagradas, que, ao mesmo tempo que está escrito que Judas, estando amargamente arrependido por ter vendido seu próprio Mestre, atentara contra sua própria vida, há rumores de que a morte – privilégio para todos aqueles que buscam conforto no sono eterno – lhe fora negada. De forma bastante obscura, as Escrituras relatam que o traidor passou a viver num lugar chamado “Aceldama”, ou seja, campo de sangue. Ninguém sabe ao certo o que fora feito do traidor, apenas que desapareceu nas sombras do esquecimento, sem deixar nenhum tipo de vestígio.

Durante séculos, as estórias sobre mortos-vivos caíram no esquecimento, até virarem lendas, e as lendas virarem mitos. Quase uma era se passara sem ninguém mais ouvir falar sobre os filhos das trevas que caminhavam na noite e se alimentavam de sangue, até surgir o príncipe da Valáquia, Vlad Tepes – o Empalador. Contudo, seus súditos o chamavam de Vlad Dracul – o “filho do dragão” – ou, simplesmente, Drácula. Esse príncipe, após perceber que sua imagem se envolvera em diversas estórias de horror e sangue e que certamente chamaria a atenção da Igreja, para evitar que uma Cruzada fosse convocada contra ele, forjara sua própria morte, e seus restos mortais teriam sido levados para a igreja de Santa Maria la Nova, em Nápoles, na Itália.

O que de fato ocorrera é que, com auxílio de alguns súditos mais fiéis que o ajudaram a forjar sua própria morte, se recolhera nas ruínas de um de seus castelos e, usufruindo de sua imortalidade, escondido nas sombras da escuridão, esperou que um longo tempo passasse, até que, por mais uma vez, sua existência caísse por completo no esquecimento.

Em fins do século XIX, essa sinistra criatura emerge mais uma vez na figura de um abastado e temido Conde, que, devido à importância de sua linhagem, não quisera abandonar nem o nome, muito menos o símbolo de seus antepassados. Esse Conde, após séculos e séculos sobrevivendo do sangue e do medo de camponeses inocentes, encontrou seu fim nas mãos de um sábio e destemido cientista holandês, que, além de médico, também era um grande estudioso das ciências ocultas e sabia como poderia colocar um fim ao reinado de terror do Conde...

O forasteiro interrompera sua narrativa, para molhar a garganta com mais uma dose de conhaque. Secou a garrafa e pediu outra, que muito rapidamente lhe fora servida. Empolgado pela atenção que recaíra sobre si e sua inverossímil narrativa, nem mesmo se dera conta de que o sabor da bebida havia mudado. Em seu momentâneo silêncio, percebeu que havia vários sussurros entre os demais presentes. Madame Cecile, sem ser indelicada e aproveitando que o viajante se calara por um momento, aproveitou a ocasião e disse:

– Certamente que o senhor fosse um ótimo professor. Mas, se não estiver enganada, pensei ter ouvido dizer que era um historiador e não um professor de Literatura...

– Ainda não terminei minha história, madame. O melhor ainda está por vir.

... O Conde Drácula, cansado de sua vida monótona em seu castelo – se alimentando de camponeses rudes e donzelas simplórias – decidira partir para a Inglaterra para expandir seu reino de terror em terras civilizadas. Seu corpo e alguns de seus bens pessoais foram transportados em um navio mercante chamado Deméter. Porém, quando esse navio chegou à costa da Inglaterra, todos os tripulantes haviam morrido durante a viagem. Os dois únicos corpos encontrados a bordo – o capitão amarrado ao leme e seu imediato crucificado de cabeça para baixo no mastro principal – estavam com suas veias vazias, sem uma única gota de sangue.

Junto ao capitão, escondido entre suas vestes íntimas, fora encontrado o Diário de bordo do navio, que, além de informações de praxe sobre a viagem e a carga transportada, também relatava a presença de um grande mal a bordo. Nesse diário estava registrada a presença de nove tripulantes a bordo em sua origem, quando o navio partiu do porto de Varna, na Romênia. Contudo, no decorrer da viagem, surgiu a presença de uma passageira clandestina, uma bela mulher que estava escondida entre a carga no porão do navio. Constava nesse mesmo diário que, desses nove primeiros tripulantes, seis deles haviam perecido de forma misteriosa durante a viagem. Um dos tripulantes e a passageira clandestina haviam desaparecido.

Pelos registros, era o médico de bordo, o doutor Clement, um médico desempregado – estudioso de astronomia, filosofia e também especialista em doenças obscuras, segundo ele mesmo – que havia ficado obcecado em caçar e matar o monstro a bordo, que, segundo ele, estava se alimentando do sangue dos tripulantes. Numa das páginas do diário, o capitão relatara que houvera uma terrível luta entre o doutor e um enorme morcego. O doutor tivera vários ferimentos graves, mas também conseguira, com uma cruz de madeira, tendo uma de suas pontas afiadas, ferir seriamente o monstro, que derramara bastante de seu sangue pelo convés do navio. Parte desse sangue fora recolhido pelo doutor, que, segundo ele, seria para análise posterior. Esse foi o último registro da presença do médico a bordo. Após o desaparecimento do médico, a passageira clandestina também não foi mais citada no diário.

O então médico, que ousara enfrentar o suposto monstro de frente, fora dado como desaparecido pela justiça inglesa. A história do Deméter fora logo esquecida – afinal, era apenas mais um navio, dentre tantos, que todos os anos a força da tempestade destruía e lançava seus destroços junto à praia. Doutor Clement, uma vez que juridicamente fora dado como desaparecido ou morto, lançado ao léu do esquecimento, de posse de parte do ouro que era transportado no Deméter e também de algo de um valor inestimável, decidira deixar de vez sua antiga vida de médico – quase todo o tempo desempregado – para trás.

Doutor Clement, sabendo que nenhuma autoridade em Londres, nem mesmo na Inglaterra – ou em qualquer outro lugar que fosse –, o levaria a sério sobre estórias de homens que se alimentam de sangue e poderiam se transformar em enormes morcegos, decidiu que o melhor a se fazer era seguir o exemplo de seu algoz e também ele mesmo, esconder-se nas sombras do esquecimento. Conseguiu novos documentos, trocou de nome e de origem, e após se mudar para o continente, iniciou uma nova vida comprando uma antiga e abandonada fortaleza, que, por séculos, funcionara como uma espécie de leprosário franciscano. Doutor Clement, durante o dia, era um simples estalajadeiro, recebendo em sua pousada viajantes de todos os cantos do mundo, sempre muito atento a todo tipo de estória contada sobre monstros e criaturas estranhas. Entretanto, durante a noite, era um incansável estudioso das ciências ocultas, enquanto sua bela e jovial esposa fazia as vezes de anfitriã do local...

Lilian, que estava próxima ao clandestino, muito interessada na estória que ele contava, após essa última parte da narrativa, se afastara sorrateiramente dele e se aproximara de sua mãe, que estava atrás do balcão com toda sua atenção voltada para o forasteiro, que, após se servir de mais uma satisfatória dose de seu conhaque, continuou:

– Segundo informações muito seguras, Maurice Leblanc – antigo doutor Clement – após ter dado um fim em sua antiga identidade, se mudara para o continente, casando-se em seguida com a estranha passageira que viajara clandestinamente na última viagem do Deméter. Essa mesma fonte me assegurara que o antigo doutor tivera uma filha, que, nos dias atuais, deveria estar com 40 anos ou talvez até um pouco mais. Pelo que ouvi, sua aparência é de alguém com vinte anos apenas. Contudo, o mais estranho de tudo isso seria o fato de sua mãe, a mesma clandestina do Deméter, nunca ter envelhecido um único dia desde o dia em que fora vista pela última vez, quando zarpara do porto de Varna.

Não tenho nenhum interesse com o que acontecera ao doutor Clement, muito menos em sua família, mas tão logo, naquilo que ele retirou do navio, quando, de uma forma bastante inteligente, tanto ele como sua futura esposa saltaram do barco na primeira oportunidade que tiveram após a hercúlea luta travada contra o monstro a bordo. Estou aqui para recuperar aquilo que as pessoas que me contrataram chamam de “Relíquia”. Ou seja, um frasco contendo parte do sangue do Conde Drácula. Essas pessoas a quem me refiro são bastante poderosas e, há tempos, investigam o paradeiro do doutor Clement. Após décadas de sigilosas investigações, suas informações, obtidas por fontes bastante seguras, me trouxeram até aqui.

Há rumores de que, com a morte do Conde, os outros de sua espécie perderam parte de seus poderes. Não conseguem mais transformar outros seres humanos, já não possuem o poder do rejuvenescimento e muito menos o de autorregeneração. São decrépitas criaturas se escondendo nas sombras, sobrevivendo como ratos nos esgotos. Contudo, acreditam que, com o sangue do Conde, qualquer um que o possua poderá tornar-se um mestre vampiro com todos os poderes de outrora. Ou quem sabe, até mesmo, trazer o próprio Conde de volta das profundezas do inferno.

Não tenho certeza se isso seja possível. Mas, por todas as coisas que já vi e ouvi nesse mundo, já não sei se a palavra "impossível" tem mais algum significado. Apenas tenho a plena certeza de que, se Drácula conseguir retornar ao nosso mundo, virá mais forte do que nunca e arrastará todo o ódio dos anjos caídos consigo. Alguns imaginam que, quando Drácula foi morto, assim que chegou àquele lugar onde a esperança não existe, fora recepcionado com honras de Estado, e o lugar à direita do Príncipe das Trevas lhe fora oferecido...

O forasteiro se calara e ficara observando qual seria a reação dos que estavam ali presentes. Seu maior interesse era como mãe e filha agiriam ao ouvir sua história. O que viu e ouviu o deixou bastante irritado, pois toda a estalagem caíra numa grande algazarra. Gargalhadas e gracejos por todos os lados. Uma das mulheres dentre a clientela se molhou de tanto rir. Madame Cecile, após conseguir com muita dificuldade conter o riso, disse ao forasteiro:

– Prezado senhor Rubens, ou seja lá qual for seu verdadeiro nome. Sua história foi realmente fantástica. Nesses dias em que qualquer escrito vira uma obra literária, o senhor bem que poderia virar escritor e, quem sabe, até ganhar aquele prêmio... Como é mesmo o nome?

Alguém dentre os presentes gritara do fundo do salão:

– Nobel!

– Isso mesmo! Prêmio Nobel. Realmente sua imaginação é muito fértil, senhor. Mas, como sou uma boa anfitriã e busco sempre agradar a todos os meus fregueses da melhor maneira possível, não o deixarei vagando sozinho ao léu, como se fosse uma pessoa desequilibrada. Tentarei, dentro de minhas faculdades mentais limitadas, participar de seus devaneios.

Houve mais um turbilhão de gargalhadas por todo o salão.

– Quanto à então "Relíquia", não se preocupe, ela está bem segura aqui dentro dessas paredes. Neste antigo Santuário, nenhuma criatura das trevas pode entrar livremente, exceto se for transportada por um ser inocente. Nenhuma alma viva ou qualquer coisa que caminhe na luz ou nas sombras jamais colocará suas mãos nessa tal Relíquia. Dou-lhe minha palavra...

Ainda bastante irritado, após tentar se levantar e suas pernas não responderem ao seu comando, questionou ele a madame Cecile:

– Como pode ter tanta certeza disso?

Após dar uma gargalhada tão alta que chegou a abalar todas as estruturas da estalagem, causando um silêncio geral em toda a casa, ela lhe respondeu:

– Qualquer coisa, para ser tocada, antes precisa existir. Garanto-lhe que tal coisa, se um dia existiu, não existe mais. Se essa tal Relíquia tivesse existido de fato, com todo esse poder que o senhor imagina, certamente eu já o teria usado em meu benefício há muito tempo...

Alguns dias depois, um destacamento da polícia fez uma batida na Pousada Eclipse à procura de um viajante que fora dado como desaparecido e fora visto pela última vez entrando naquele estabelecimento. Madame Cecília alegara que nada sabia sobre esse fato. Autorizara que toda sua casa fosse revistada e, com um sorriso muito inocente na face, oferecera aos policiais uma rodada de bebidas por conta da casa. O chefe daquela operação, encantado com a beleza e simpatia de Madame Cecília, não apenas aceitara a bebida oferecida, bem como solicitara humildemente mil perdões por tão inconveniente incômodo, ordenando que aquela missão fosse imediatamente dada por encerrada...


Escrito por:
Alex Miranda

Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Quando os deuses se cansam

No alto de um dos galhos eternos da Yggdrasil, a grande árvore que sustenta os nove reinos, duas figuras antigas contemplavam o vazio. Acima delas…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

(Adaptação do conto “A Carona”)

No alto de um dos galhos eternos da Yggdrasil, a grande árvore que sustenta os nove reinos, duas figuras antigas contemplavam o vazio. Acima delas, Asgard reluzia em sua glória estagnada; abaixo, Midgard pulsava com o caos dos mortais. Entre um mundo e outro, o tempo parecia hesitar, preso a num suspiro prolongado dos deuses.

Elas já haviam cruzado cada trilha dos nove domínios — de Niflheim, gélido e sombrio, até o abrasador Muspelheim. Conheciam os segredos de Alfheim e os lamentos de Helheim. Cada canto da existência havia sido explorado, sentido, moldado... e, com o passar das eras, perdera seu sabor.

Nada mais surpreendia: nem a fúria dos guerreiros em Vanaheim, nem a sabedoria dos anões em Svartalfheim. Tudo era apenas repetição. Mesmo os ecos do passado, que antes traziam nostalgia ou orgulho, agora não passavam de ruídos distantes.

Em silêncio, uma delas ergueu os olhos para os céus de Asgard, como quem procura um presságio. A outra voltou-se para Midgard, onde o coração humano ainda batia com força e imprevisibilidade. Havia algo ali — algo incerto, caótico, tolo, talvez... mas vivo.

E, naquele instante, sem dizer palavra alguma, ambas compreenderam: era tempo de descer.

**

Matias dirigia tranquilamente pela estrada deserta, após seu primeiro encontro com Paula. Havia alcançado uma sintonia bem interessante com a moça, o que lhe deu bons pressentimentos sobre um possível relacionamento. Ouvia Black Sabbath em volume baixo para seus padrões, pois não pretendia suprimir os pensamentos a respeito do date maravilhoso de algumas horas antes.

Após passar por um trecho com uma curva sinuosa, foi obrigado a frear bruscamente. O carro ancorou no chão como se houvesse batido em uma parede invisível, deixando seu corpo dolorido. À sua frente, estava uma jovem loira, que aparentava ter uns 20 anos. Vestia um jeans imundo, uma camiseta amarela rasgada e pincelada com manchas de várias cores e tons — sendo a maioria nuances de vermelho.

Olharam-se por alguns segundos e, enquanto ele tentava entender a situação, ela correu até seu carro, abriu a porta do passageiro, entrou e gritou desesperadamente:

— Vai logo, ela está vindo!!!

Matias, ainda atormentado pelo susto, olhava para o nada, e mais uma vez a jovem gritou, enquanto puxava a cabeça dele pelo queixo em sua direção, a fim de se fazer entender:

— Você é idiota, cara? Vai logo, vamos sair daqui agora!!!

Matias despertou do transe em que se encontrava e, ainda sem compreender muito bem a situação, arrancou com seu carro potente, deixando para trás uma mistura de mistério, poeira e fumaça. Após alguns minutos na estrada, e percebendo que não havia ninguém os seguindo, foi recobrando a consciência e perguntou incisivamente:

— Que porra foi essa? Quase não consegui parar o carro, garota. Você poderia me dizer o que caralhos tá acontecendo?

— Eu estava fazendo uma trilha, me perdi na mata e encontrei uma pessoa estranha vestida de preto. Foi isso! — disse, despretensiosamente.

— Tava sozinha?! — perguntou indignado.

— Sim.

— Você é maluca? Fazer trilha num lugar desses... e sozinha!

— Eu sempre fiz isso e nunca aconteceu nada.

— Nunca acontece nada, até que um dia acontece, né?

— Pode ser... — Respondeu, dando de ombro.

Matias não conseguia esconder seu mau humor, todos os seus pensamentos sobre uma noite agradável haviam sido sugados por um problema que não era dele, mas ele não podia deixar a moça sozinha na estrada. Decidiu encontrar um lugar seguro para deixá-la e depois iria embora antes que “sobrasse para ele”.

— Você tem um cigarro? — perguntou a jovem.

— Não, eu não fumo.

— Como assim? Com essa cara e não fuma?

— Quê? “Com essa cara” — repetiu indignado — o que você quer dizer com isso?!

— Bem, olha o que você escuta, olha para suas roupas e tatuagens... pensei que fosse um drogado. — Ela respondeu com uma risada sarcástica.

— Cara, você só pode ter problemas. Eu estou te ajudando e você vem zombar da minha cara? Sua sorte é que minha mãe sempre me ensinou a respeitar e cuidar das mulheres, senão eu ia te jogar pra fora do carro!

— Ei, calma garotão, eu tava brincando — disse levantando as mãos em sinal de rendição, tentando apaziguar a situação desagradável que havia gerado — Aff, você está muito estressadinho!

— Nossa, como você é engraçada...

— Tudo bem, isso foi péssimo mesmo. Vou tentar me redimir com você. Eu também curto esse tipo de música e tenho tatuagens, mas, ao contrário de você, eu curto uns “negócios a mais” ... Se é que você me entende. Aliás, posso usar aqui?

— Eu não disse que não curtia uns baratos, eu só disse que não fumava. Mas usa, ué... O que é que você tem aí?

— Ahhhh, é algo muito diferente de tudo o que você já viu. Eu mesma criei. — Respondeu com um sorriso soberbo e uma piscadela cúmplice.

— Tá, mas o que tem aí?

— Aí você teria que experimentar...

— Tá de sacanagem? Como eu vou usar um negócio que eu nem sei o que é?

— Só vai saber se usar...

Matias permaneceu irritado. A moça era enigmática demais, e ele não gostava desse tipo de interação, pois preferia tudo “preto no branco”, como costumava dizer. Resolveu ficar calado enquanto ela consumia a substância que, diferente das outras que ele estava acostumado a ver, era aplicada na pele como um creme hidratante.

Ela foi entrando, gradativamente, em um estado letárgico, o que deixava Matias ainda mais curioso — mas não a ponto de decidir usar, porque queria chegar logo em casa. “Esta noite infernal tem que terminar!”

Horas e horas de viagem e a estrada parecia não ter fim. Pensou estar perdido, mas não conseguia consultar o GPS, pois o celular havia descarregado. A moça permanecia quase inerte, despertando de vez em quando para reaplicar o “creme”.

O sono começou a bater forte. Matias aumentou o volume e tentou cantar para espantá-lo, mas estava ficando cada vez mais difícil manter-se acordado, precisava de um estimulante o quanto antes, mas naquela maldita estrada, não aparecia um posto de gasolina ou qualquer outro estabelecimento aberto àquela hora.

Depois de um tempo imensurável a estrada foi ficando iluminada por luzes fluorescentes piscantes e Matias imaginou que seu cérebro estava lhe pregando uma peça, então parou o carro no acostamento e começou a chorar desesperadamente.

— Que caralho tá acontecendo? — gritava ele, enquanto esmurrava o volante.

— Essa sensação é boa, né? — a jovem o olhava sensualmente, com um olhar simultaneamente penetrante e gélido.

— Quê? Cara, eu tô cansado e com sono, o que me deixa ainda mais sem paciência. Como isso pode ser bom?

— Você não está com sono... Você só está morrendo, bobinho. Rs.

— Morrendo??? Para mim, já deu! Saia agora do meu carro!!!

— CALA A BOCA!!! Já cansei de você! Você só reclama e reclama, não sabe aproveitar o presente que lhe foi dado... vamos acabar logo com isso então!

Ela abriu a bolsa, retirou outro pote, abriu a tampa e enfiou os dedos, retirando uma quantidade considerável de outro creme, de aspecto avermelhado, e passou no rosto de Matias. Ele começou a gritar desesperadamente. Luzes fluorescentes piscaram por um tempo impreciso, e então, se apagaram. Escuridão. Após suas pupilas se reajustarem à luz natural do luar percebeu que estava preso nas ferragens do carro. Paula jazia ao seu lado, a cabeça caída de uma forma humanamente impossível, mas ainda “ligada” ao corpo por uma fina camada de pele.

Em seus últimos respiros, Matias entendeu que havia batido contra uma árvore e que aquele era seu fim.

Ao lado da janela dele, estavam a jovem de camiseta amarela e uma outra vestida de preto, com metade da face cadavérica, ambas acenaram e riram descompassadamente enquanto falavam:

— Eu falei para você experimentar a outra substância, pelo menos teria morrido em paz... — disse a jovem de amarelo, dirigindo-se a Matias.

— Mas eles sempre insistem em ficar sóbrios até o fim haha. — disse a de preto enquanto virava-se para a outra — Freya, você insiste em inovar, mas acho que prefiro fazer como antigamente.

— Ah, Hela, mas era tudo tão rápido, sem diversão nenhuma... Olha a carinha de desespero dele. E olha como você está estilosa, mesmo insistindo no preto, mais sorridente e sem aquela roupa sem graça. Você precisava disso!

— Que seja! Eu estava entediada mesmo... Só acho asqueroso você ficar se esfregando com essa massa mórbida nojenta feita dos restos deles. Vamos embora, ainda há muito o que fazer por aqui.

E os ruídos finais de Matias foram embalados pelas risadas de escárnio das deusas. Estavam apenas começando a experimentar as novas sensações que as mortes e os corpos humanos poderiam lhes proporcionar... E ainda havia uma longa estrada à frente...


Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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A Vidente

Numa manhã escura de novembro, muito fria e de constante chuvisqueiro, após o término da missa, que aquele apaixonado casal frequentava…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

“E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios...”.
I Coríntios 13,2

Numa manhã escura de novembro, muito fria e de constante chuvisqueiro, após o término da missa, que aquele apaixonado casal frequentava regularmente todos os domingos, Odete, a dedicada esposa, participara ao marido seu desejo de consultar as cartas para ver o que o futuro reservava para eles três — estava esperando a chegada de um novo integrante da família antes que aquele ano terminasse. No caminho entre a igreja e sua casa, havia uma loja esotérica onde uma velha cigana atendia regularmente todos os dias, pois, nos fundos da loja, também ficava sua residência. Quem a conhecia — e até mesmo quem tenha usufruído de seus serviços — atestava que ela era uma pessoa de sabedoria incomparável e vidência inquestionável.

— Meu amor... Tenha piedade de minha falta de paciência e de meu suado ordenado. Quantas vezes já falamos sobre esses charlatães, que sobrevivem como parasitas da inocência de pessoas de mentes influenciáveis? Até onde se sabe, ninguém pode viajar no tempo — seja no passado ou no futuro —, sendo assim, prever o que está por vir é algo impossível. Não duvido de forma alguma que aqueles que vivem de fazer previsões o tempo todo, uma vez ou outra, venham a acertar alguma coisa. É como jogar na loteria: quem insiste em suas apostas um dia tende a tirar a sorte grande. — Disse Adalberto de forma bastante carinhosa, para não aborrecer a esposa, que estava vivendo dias bastante delicados para ter qualquer tipo de contrariedade.

— Não estou dizendo que seja verdade, meu bem. Nem mesmo que eu vá acreditar em nada do que ela disser. Estou apenas curiosa. E não se preocupe com seu suado ordenado, eu mesma pagarei pela consulta. — Disse, um tanto quanto irritada com a avareza do marido.

Adalberto, percebendo que a esposa mudara suas feições, mais do que depressa se desculpou e, conduzindo-a pelo braço, logo se dirigiu à porta da loja. O estabelecimento seguia os rígidos padrões desses tais locais de ocultismo: uma fachada em madeira escura, portas de vidraças com cortinas de miçangas e outros penduricalhos servindo de cortina, e um forte cheiro de incenso impregnado no ar. Assim que abriu a porta da frente para que a esposa entrasse, um sino tocou sinistramente sobre o umbral, avisando à cigana a entrada de novos clientes.

A mulher que veio atendê-los era uma impressionante criatura de prateados cabelos, presos numa bela e volumosa trança toda adornada de miçangas e algumas joias. Sua face exibia uma caprichada maquiagem que lhe dava uma aparência bem jovial, apesar de que suas mãos — bastante enrugadas — dissessem o contrário quanto à sua verdadeira idade. Diferente das mulheres mais velhas que Adalberto conhecia, com seus desagradáveis odores de vários tipos de cremes com cheiros diferentes, todos usados ao mesmo tempo, para sua surpresa, ela usava um agradável perfume com suaves notas de flores silvestres e, quando se dirigiu a eles, não tinha o tipo de voz rascante que ele imaginava que todas as videntes teriam, devido ao uso indiscriminado de tabaco.

— Bom dia, adorável casal. Sejam muito bem-vindos à minha humilde casa. Todos me conhecem como Madame Simone, mas podem me chamar da forma que melhor lhes agradar. Em que poderei ser útil a vocês?

— Bom dia, Madame Simone. Se não for incômodo, gostaríamos que consultasse as cartas sobre o que o futuro reserva para nós três. — Disse Odete, alisando sua enorme barriga.

A cigana lhe dirigiu um sorriso encantador e, como soubesse do ceticismo do marido, quis deixar claro a lisura de seu trabalho, dizendo de forma bastante convincente:

— Posso lhes atender de muito boa vontade, com conselhos espirituais, indicações de ervas e pós medicinais para o alívio de algum mal-estar ou até mesmo lhes vender alguma mercadoria de minha humilde loja. Contudo, prever o futuro, infelizmente, não sou capaz, e acredito que ninguém o seja. Não vou negar que, vez por outra, consultamos as cartas, as linhas do destino que todos têm nas mãos e outras coisas mais. No entanto, jamais podemos nos deixar levar por esses presságios; afinal, nosso futuro é fruto de nossas escolhas aqui no presente.

Odete ficou bastante maravilhada com a retórica de Madame Simone; quanto a Adalberto, ficou sem palavras, pois esperava que ela fosse imediatamente lhes extorquir uma substancial quantidade de dinheiro com sinistras profecias de um obscuro e trágico futuro. Completamente desarmado quanto às intenções da cigana, começou a olhar sem muito interesse para uma mercadoria e outra, pegando uma coisa aqui e outra acolá, quando ouviu Odete dizer que, mesmo assim, se não fosse incomodá-la, gostaria que ela lhe tirasse a sorte, fosse essa verdadeira ou não.

Madame Simone pediu que eles a acompanhassem até uma saleta contígua. Era um ambiente odorífero bastante agradável, com uma iluminação leve, quase em penumbra, que trazia certo obscuro charme ao lugar. No centro desse pequeno ambiente havia uma mesa redonda forrada com um belo pano escarlate, com um sorridente sol dourado bordado no meio. Ao redor dessa mesa havia quatro cadeiras em madeira trabalhada, de encosto baixo, na altura da metade das costas, com assento em veludo verde, que dava um toque de requinte ao conjunto da mobília. Assim que Odete e o marido entraram na pequena saleta, a cigana fechou a porta atrás de si e solicitou que os dois se sentassem, também se acomodando de frente a eles.

Uma vez sentados, Madame Simone pegou um baralho e, após uma breve prece com o conjunto de cartas encostado em sua fronte, mais uma vez lhes avisara que não levassem ao pé da letra o que fosse dito ali naquela mesa. De olhos fechados, baralhou as cartas, sussurrando algumas irreconhecíveis palavras num dialeto muito estranho e num tom praticamente inaudível, mesmo para o casal que estava à sua frente, que só sabia que ela estava dizendo alguma coisa pelo fato de seus lábios se moverem, como se ela entoasse uma canção. Logo que as cartas pareciam estar prontas, entregou o baralho para Odete e pediu que ela cortasse o pacote e escolhesse qual das partes gostaria de ver. Com as mãos um tanto quanto trêmulas, Odete partiu o monte ao meio e entregou a parte da esquerda à cigana, dizendo de forma maliciosa:

— Quero essa parte por ser o mesmo lado que fica o coração e também por representar nós, as mulheres, únicas criaturas no universo com possibilidade de dar continuidade à perpetuação da nossa espécie.

Madame Simone deu um leve sorriso, como se concordasse totalmente com ela e, assim que pegou as cartas, distribuiu sete delas sobre a mesa, o que fez com que Adalberto se manifestasse de imediato:

— Por que apenas sete?

— Além de ser um número celestial citado em várias partes das Escrituras Sagradas, como as sete trombetas, os sete selos etc., é também considerado o número da Perfeição Divina, pois no sétimo dia Deus descansou de todas as suas obras. Para nós, os ciganos, representa a sabedoria, a intuição e a capacidade de se adaptar a todas as situações. Sete cartas são mais do que suficientes para aquilo que pode ser mostrado, porque nem tudo nos é revelado. — Disse ela de forma bastante fria, demonstrando estar desapontada por ter sido interrompida.

Assim que a cigana foi desvirando as cartas uma por uma, explicava o significado de cada uma delas. Ao final, estavam viradas sobre a mesa: O Louco, A Roda da Fortuna, A Sacerdotisa, O Julgamento, A Torre, O Enforcado e O Carro. Odete ficou intrigada, pois a maioria trazia em si como significado viagem e mudanças repentinas. A cigana, tentando deixá-la mais tranquila, disse-lhe que as mensagens muitas vezes eram metafóricas, mas, estando ela grávida, certamente haveria mudanças radicais em sua vida e possivelmente algumas viagens também. Disse ainda que ela ficasse tranquila, pois as cartas demonstravam que tanto ela quanto sua filha estariam bem por um longo período de sossego e muita prosperidade.

— E quanto a mim? — questionou Adalberto, curioso.

— As cartas não foram tiradas para você; mesmo assim, uma delas diz que você estará em paz. — Disse a cigana com um ar bastante irritado, primeiro por achar que ele estivesse zombando dela, pois, a cada carta virada, ele dava um sorriso debochado e revirava os olhos; segundo, porque sabia de seu ceticismo; e, por último, por sua evidenciada sovinice, mesmo sendo ele um homem rico e muito bem-sucedido.

Odete pareceu se dar por satisfeita em saber que tudo estaria bem, tanto com ela mesma como com sua amada família. Seu temor era se deparar com algum tipo de profecia aos moldes das peças de Sófocles. Como forma de demonstrar sua gratidão pelos serviços prestados pela cigana, comprou uma sacola cheia de toda espécie de bugigangas e, quando quis pagar pela consulta às cartas, Madame Simone de forma alguma quisera receber, dizendo, por fim:

— Sua satisfação já é uma grande paga pelos meus serviços e, como disse seu gentil esposo: “... não passam de charlatães e parasitas quem vive da boa-fé alheia...”.

Tanto Odete como o próprio Adalberto ficaram boquiabertos quando ela dissera aquelas últimas palavras, já na porta, despedindo-os. Saíram os dois de cabeça baixa, bastante envergonhados pela conduta do marido, que, segundo Odete, sempre falava mais do que devia. Depois de caminharem certa distância da loja, como se temessem que a cigana ainda pudesse ouvi-los, Adalberto, num sussurro quase inaudível, dissera:

— Como ela poderia saber o que eu disse ou deixei de dizer, uma vez que ainda estávamos fora da loja?

— Sinceramente, não consigo te explicar. Apenas sei que: “... há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia...” e que esses ciganos sabem o que dizem.

Continuaram caminhando lentamente por mais alguns quarteirões antes de chegarem até sua casa. Estando eles já na porta de sua residência, assim que Odete se sentou numa cadeira ao lado da porta, ainda na varanda, enquanto ele pegava as chaves para abrir a porta, Adalberto se lembrou que estava sem cigarros e disse que ela o aguardasse ali mesmo, enquanto ele atravessaria a rua e os compraria na loja da esquina. Estava ela bisbilhotando a sacola de compras quando ouviu uma terrível frenagem de pneus e um forte estrondo de metal se chocando contra uma árvore. No entanto, o acidente não era entre um veículo e uma árvore.

Adalberto, além de ser filho único e herdeiro de uma esplêndida fortuna, tinha um pomposo seguro de vida, fato esse que tornou Odete uma viúva muito rica, podendo, ao lado da filha que nascera bastante saudável, desfrutar de uma vida próspera e muito sossegada, como dissera a cigana, que também não mentira ao afirmar que Adalberto estaria em paz. Porque as cartas não mentem jamais: conseguem ver o passado, o presente, o futuro e até um pouco mais...


Escrito por:
Alex Miranda

Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Milagre Maligno

Noutros tempos, quem a conhecera ainda na flor da juventude jamais diria que tal pessoa pudesse chegar a uma situação tão degradante…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

“Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim que minha filha está miseravelmente endemoninhada”.  — Mateus 15,22 

Noutros tempos, quem a conhecera ainda na flor da juventude jamais diria que tal pessoa pudesse chegar a uma situação tão degradante. Após deixar para trás seus tempos de inocência, com seus finos traços e a meiguice infantil, comuns a toda e qualquer criança, Dolores tornara-se uma bela mulher que a todos conseguia agradar: aos homens, por sua inquietante beleza; às mulheres, por sua amizade e simpatia. Maria Dolores, conhecida como D’asdor – nome pelo qual era chamada desde que se amasiara com o italiano Giuseppe Montanari – era uma mulher de estatura mediana, de vastos e longos cabelos negros, definidamente cacheados, caídos por toda a extensão de suas costas; trazia-os sempre soltos, livres como ela mesma o era. Sua pele era fortemente amorenada, num tom firme que dava a impressão de ser macia e sedosa como a pétala de uma rosa negra. Seus olhos eram negros e brilhantes, e traziam em si um brilho enigmático, típico das criaturas donas de seu próprio destino. Eu a conhecia desde que éramos crianças de colo. Como sempre fomos vizinhos, acompanhei e sei de toda a sua estória, menos, é claro, daquilo que ocorria em sua intimidade... 

Nessas exageradas palavras, Nhô Virgílio tentava buscar na memória a melhor definição tanto do talhe físico quanto da personalidade de Dona D’asdor, que em nada se parecia com a horrenda criatura que passara seus últimos momentos amarrada sobre a cama. A diferença entre aquela vaga lembrança e a atual realidade — daquilo que poderia ter sido visualizado por qualquer um — era tão discrepante, que era até difícil acreditar nas palavras daquele honorável ancião. 

Nos últimos quinze anos, quem tivera a oportunidade de estar em sua presença tinha visto uma franzina senhora acamada, desprovida de qualquer movimento nas pernas, desde que sofrera uma terrível queda de cavalo, que a deixara naquela situação. Esse acidente não tolhera sua vida, mas lhe deixara sérias sequelas. Além da perda dos movimentos de seus membros inferiores, adquirira uma aparência doentia e cadavérica, que trazia em si uma profunda nostalgia — típico sentimento que se apossa de tais desafortunadas criaturas. Seus olhos, sem brilho e vazios, estavam sempre vidrados em algum ponto distante, como se pudessem ver muito além das aparências. Talvez enxergassem os tempos idos, com suas conquistas e alegrias, numa época de frescor e juventude, onde tudo eram flores. Ou talvez esses mesmos olhos apenas vislumbrassem um melancólico fim para sua sofrível existência — presa para sempre numa cama, dependendo de outrem até mesmo para suas mais íntimas necessidades. Tal situação era tão definitiva que havia certa unanimidade: Dona D’asdor só sairia da cama direto para o caixão... 

No entanto, contradizendo toda e qualquer expectativa e se contrapondo a qualquer explicação lógica, nos últimos três dias, antes que o sopro da vida abandonasse de vez seu calejado corpo, ela se levantara da cama e iniciara uma verdadeira epopeia pela casa e por todo o seu quintal, correndo de um lado para outro numa ensandecida disparada. Quem, há mais de uma década, não conseguia mover um único músculo de suas pernas, de alguma forma inexplicável, levantara-se de seu leito e, num violento ataque de fúria, se lançava sobre qualquer um que atravessasse seu caminho. Sua aparência tornara-se sinistramente diabólica. Sua pele, que se tornara cinza e ressecada, mais parecia o couro de algum réptil. Suas mãos adquiriram uma feição aterradora e mais pareciam duas horrendas garras, com dedos afinados que terminavam em asquerosas unhas mal cuidadas. Seu rosto tornara-se chupado e cheio de marcas, como se deixadas por varíola. Ela, que nos últimos tempos quase nada dizia e trazia a face sempre fechada, devido à sua triste situação, começara a sorrir de tudo e de todos ao seu redor. Um sorriso sombrio, com traços maquiavélicos, mostrando dentes amarelados e pontiagudos que enfeitavam uma boca de lábios finos — quase ausentes —; boca essa que agora praguejava quem cruzasse o seu caminho, quase todo o tempo blasfemando e dizendo palavras em algum idioma desconhecido. Vez por outra, sentava-se como um cão e uivava para o céu, como se fosse um animal em triste lamento. 

Seu filho Agenor – filho único, e também única companhia – temendo aquele estranho comportamento de sua mãe, logo recorrera aos vizinhos em busca de socorro. Além do medo que sua mãe estava lhe causando, agindo daquela forma, ele também ficara temeroso de que algo pudesse vir a lhe acontecer de pior e que a culpa lhe fosse imputada. O fato de que sua mãe, há tempos entrevada, agora corresse pelo quintal como uma alegre criança também lhe era bastante assustador. De alguma forma, ele ansiava por testemunhas de todo aquele prodígio. E logo sua casa já estava apinhada de gente. Alguns amigos próximos, conhecidos distantes, ou até mesmo simples curiosos, logo foram chegando para verem com seus próprios olhos aquele inverossímil milagre. 

Por um breve momento, por mais estranho que pudesse parecer, aquele fato passou a ser visto como algum tipo de dádiva dos céus. No entanto, quando, dentre os presentes, alguém teve a ideia de fazer uma oração em agradecimento àquele notável acontecimento, assim que as primeiras palavras foram ditas, Dona D’asdor se lançara sobre essa pessoa e, com unhas e dentes, a atacara sem nenhuma piedade, deixando-a em lastimável situação. A infeliz religiosa só não fora morta porque, muito rapidamente, Dona D’asdor fora contida pelos presentes e, mesmo com muita dificuldade, logo fora amarrada à mesma cama onde passara os últimos anos de sua vida. Toda aquela situação levava a uma única certeza: Dona D’asdor estava possuída. Ela não havia sido curada; suas pernas não haviam retomado os movimentos de outrora. Mas, certamente, alguma entidade maligna havia tomado posse de seu combalido corpo e o estava usando para algum tipo de mal. 

Durante toda a noite, Dona D’asdor – ou quem, ou o que, estivesse no controle de seu corpo – tentara, de todas as formas, se ver livre das amarras que a prendiam àquela cama. Num primeiro momento, ela tentara persuadir quem estivesse próximo com palavras de afeto e ternura. Após perceber que tal intento era inútil, tentou utilizar-se de uma hercúlea força que ela não possuíra até então. O esforço para se libertar era tão grande que fazia com que a cama se movimentasse de um lado para o outro pelo quarto. Nesse estágio de violenta tentativa de se ver livre, ela tanto gritava com uma voz bastante sinistra, como emitia diversos sons – tanto de animais conhecidos, quanto de barulhos estranhos, jamais escutados por ouvidos humanos. 

Passado o primeiro momento de euforia, e sendo sabedores de que nenhum milagre ocorrera, logo muitos foram embora. Primeiro, os mais medrosos; em seguida, os menos curiosos; e, por fim, aqueles que nada poderiam fazer a respeito de tal situação e tinham seus afazeres os aguardando. Aqueles que ficaram rapidamente decidiram que um religioso entendido do assunto deveria ser chamado. Como o padre mais próximo distava pelo menos quarenta quilômetros dali, a pessoa escolhida fora o Pastor Ebenézer, o líder religioso de uma pequena unidade pentecostal, inaugurada há bem pouco tempo na região. Numa comunidade de maioria católica, aquele tipo de denominação religiosa fora recebida com certo receio pela população local. No entanto, como o carisma tanto do Pastor Ebenézer, bem como o de sua esposa, era algo bastante encantador, logo conseguiram conquistar a todos, sem maiores dificuldades. Sendo ele uma pessoa bastante prestativa, assim que fora acionado, rapidamente se prontificara a colocar seus serviços religiosos a postos. Até porque um fato como aquele poderia lhe servir como propaganda para sua humilde e recém-fundada igreja. 

Acompanhado de seu filho mais velho – Ezequias, que certamente seguiria os passos do pai, vindo também a se tornar pastor – chegara à casa de Dona D’asdor logo pela manhã. Além do leal e inseparável Ezequias, de vinte e três anos, o Pastor Ebenézer tinha outros quatro filhos: três moças – Rebeca, Ruth e Deborah –, todas em idade de contrair matrimônio, e o caçula, Samuel, com apenas doze anos. Recebido por Agenor – filho da dona da casa e o mais interessado no desfecho daquilo tudo – e por Nhô Virgílio, que a tudo acompanhava com bastante curiosidade, logo ficara a par de tudo que ocorrera até então. Sem mais delongas, acompanhado de seu filho Ezequias, e estando de posse de sua Bíblia, de um saltério e de um vasilhame contendo água benta, dirigiu-se o Pastor Ebenézer ao quarto onde, naquele momento, por algum motivo ainda desconhecido, um sepulcral silêncio se fazia presente. Tanto Agenor quanto Nhô Virgílio recomendaram insistentemente ao pastor e a seu filho que, em hipótese alguma, deveriam soltá-la de suas amarras, independentemente do que ela lhes dissesse. 

Antes mesmo de adentrar aquele recinto, logo à porta, já fora possível perceber a sinistra atmosfera do lugar. O quarto exalava um peculiar cheiro de mofo de cemitério – uma mistura de nauseabundos odores. Algo em decomposição, cheiro de velas e flores mortas – e um saturado e pegajoso cheiro de algo podre. Esse estranho odor se misturava ao cheiro de todo tipo de emplastos e cataplasmas que lhe era ministrado. Poderia ser apenas mais um ambiente comum, como qualquer local onde estivesse um moribundo em restabelecimento, exceto pelo extremo frio que havia no ambiente naquele momento. Mesmo já sendo dia claro, o quarto estava tomado pelas trevas, e fora necessário acender algumas velas para iluminar o ambiente. Dona D’asdor parecia estar dormindo placidamente. Seu semblante era meigo e sereno. Sua face transmitia uma intensa paz interior e, quando o Pastor Ebenézer a olhou de perto, teve quase certeza de que tudo o que ouvira sobre os últimos acontecimentos talvez fosse um ledo engano. Mesmo assim, achou por bem ungir o ambiente com orações e algumas passagens do saltério. Enquanto ele orava e citava salmos, Ezequias aspergia água benta por todos os lugares. Praticamente estavam dando aquele rito por encerrado, quando perceberam que Dona D’asdor estava sentada na cama, em posição de meditação, observando-os calmamente. 

– Que a paz do Senhor esteja contigo, Pastor Ebenézer... – disse ela, com uma doce voz infantilizada. 

O susto de Ezequias fora tão grande que ele deixou cair o vasilhame que trazia nas mãos, espatifando-se no chão do quarto. Pastor Ebenézer respondera prontamente: 

– Contigo também, irmã. Como está se sentindo hoje? 

– Poderia estar melhor, se meu filho ingrato não tivesse mandado me amarrar aqui nesta cama. Se não bastassem todos esses intermináveis anos que aqui estive presa, agora estou amarrada de vez... – respondeu ela, cada vez mais dócil. 

– Aqui fui chamado porque me disseram que a irmã estava tendo uma crise existencial. Creio, do fundo de minha alma, que talvez tenham se enganado quanto a isso, pois vejo que a irmã está bem, gozando de boa saúde e plena lucidez. 

– Sim! Estou ótima, como o senhor mesmo pode constatar com seus próprios olhos. Meu filho ingrato e seu amigo bêbado me amarraram sem motivo e ficam espalhando inverdades sobre mim, tentando difamar uma pobre velha e indefesa como eu. 

Tomado de profunda piedade por aquela pobre senhora e confiando em sua fé – imaginando que, se fosse algum estratagema do demônio para que a libertassem, ele e seu filho conseguiriam manietá-la novamente –, decidiu que a desamarrariam, deixando-a livre outra vez. Assim que uma das mãos de Dona D’asdor fora solta, ela agarrou a camisa de Ezequias e, trazendo-o para próximo de sua boca, mordeu-lhe o pescoço, rasgando-lhe a garganta. 

Com um urro de um animal selvagem, ela comemorou aquela medonha façanha e, ao ver o desespero do pastor, que tentava a todo custo ajudar o filho que se esvaía em sangue e certamente vivia seus últimos momentos, ela disse:  

– Pensou mesmo que um servo do pecado como você estaria à altura de vir até aqui me confrontar? É deprimente saber que pessoas iguais a você não tenham o mínimo de conhecimento sobre quem somos nós, de tudo que podemos e daquilo que sabemos. Nem por um momento passou pela sua cabeça que, quando você abusa de suas filhas, estamos nas sombras assistindo você profanar justamente aquelas que você deveria proteger a todo custo? Pois saiba você, filho de Belial, que o seu abjeto prazer é para nós um saboroso deleite. Aquele que se diz servo do Senhor, alguém que se autodenomina pastor de ovelhas, ser na verdade um lobo voraz. Tirei a vida de seu filho apenas para que você sinta o mesmo que suas filhas sentem quando você as obriga a abortar o fruto de seu pecado de seus inocentes ventres. Mesmo sendo uma criança incestuosa ainda assim é uma criança, e para nós é um deleite inigualável ver o próprio pai causando esse mal à sua própria semente, obrigando suas filhas a serem assassinas de seus próprios filhos... 

Agenor e Nhô Virgílio, que a tudo aquilo assistiam da porta do quarto – pois, assim que ouviram os gritos, vieram tentar ajudar –, olharam para o Pastor Ebenézer com um misto de escárnio e incredulidade, pois já haviam ouvido rumores estranhos sobre o comportamento do pastor com suas filhas, sendo estas proibidas, por ele mesmo, de manter qualquer tipo de relacionamento com outros rapazes, mesmo que fosse da mais respeitosa amizade. As três filhas do pastor, mesmo já sendo mulheres adultas, eram mantidas sempre em casa, sob a mais severa vigilância, sem qualquer tipo de envolvimento social. Pastor Ebenézer, que não dissera uma única palavra sequer, assim que seu filho, desfalecendo em seus braços, dera o último suspiro, lançara-se sobre Dona D’asdor e, num desvairado ataque de fúria, tentara com todas as forças esganá-la, mas logo fora contido por Agenor, enquanto Nhô Virgílio tentava amarrá-la novamente. Dona D’asdor, que gargalhava incontrolavelmente, talvez por isso mesmo tenha se deixado amarrar novamente. 

Não havendo mais nada a fazer naquele lugar, com o corpo inerte do filho nos braços, Pastor Ebenézer se fora sem ao menos dizer adeus. O que se soube depois foi que ele, assim que enterrara o corpo do filho numa cerimônia rápida e simples, abandonara esposa e filhos, lançando-se pelo mundo sem deixar nenhum vestígio de seu paradeiro. Sua esposa e filhos também logo se mudaram, e ninguém mais ouvira falar sobre nenhum deles. Agenor, imaginando não ter outra solução, decidira que, a qualquer custo, o Padre Ozório deveria ser chamado. Pela distância, esse somente chegaria no outro dia. Durante todo esse tempo, Dona D’asdor transitara por diversos tipos de comportamentos, desde o mais dócil até o mais violento possível. Sua selvageria era tão grande que, ao fim do dia, seus dois pulsos já estavam completamente dilacerados na tentativa de se soltar. Pela gravidade dos ferimentos, certamente ambos deveriam estar quebrados. Seus gritos, urros e gemidos eram ouvidos ao redor de toda a casa, a uma distância considerável. O som que ela emitia deixava todos os pelos do corpo arrepiados; até mesmo Nhô Virgílio, um septuagenário vivido e experiente, vez por outra tinha calafrios e se tremia todo de medo. 

Assim que o Padre Osório chegara, trazendo consigo dois auxiliares religiosamente paramentados, nem mesmo quiseram ouvir todos os relatos de Agenor e de Nhô Virgílio, pois já sabiam previamente do que se tratava e, rapidamente, foram entrando no quarto e preparando tudo para o exorcismo. Sendo eles pessoas já acostumadas com aquele tipo de situação – Padre Osório era um sábio demonologista e um exorcista renomado – em menos de uma hora conseguiram expulsar o demônio que assumira o corpo de Dona D’asdor. Assim que se viu livre da maligna entidade que o possuíra, o corpo entrou em um rápido estado de decomposição e teve que ser enterrado com urgência. 

Quando o exorcismo enfim se deu por encerrado e o Padre Osório saíra do quarto, trazendo na face o semblante de mais um dever cumprido, Agenor, timidamente, perguntou-lhe: 

– Minha mãe morreu? 

– Filho, sua mãe está morta há três dias! Aquilo que se levantou da cama e andou entre os vivos, atacando a quem quer que fosse, não era sua mãe... 


Escrito por:
Alex Miranda

Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Ardente

Era quase madrugada, e o alvoroço na casa da rua não cessava. Henrique pegou a arma que guardava no cofre e caminhou até a janela…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Era quase madrugada, e o alvoroço na casa da rua não cessava. Henrique pegou a arma que guardava no cofre e caminhou até a janela para investigar. Ele era um homem metódico, de olhar afiado, qualidades forjadas em anos de serviço militar exemplar. Nada lhe escapava — exceto, talvez, o preço que essa rigidez cobrava. Seu temperamento afastara todos que um dia cruzaram seu caminho, deixando-o sozinho, amargurado, corroído pela felicidade alheia. 

A alegria dos vizinhos, tão tarde da noite, era algo intolerável. Aquela algazarra precisava acabar. Em um mês, ele perdera a conta de quantas vezes fora dormir com horas de atraso, mais do que podia contar nas mãos calejadas e enrugadas. Sentia nelas o peso da arma, sua fiel companheira dos tempos de glória. Agora, ela carregava tanto o fardo de sua existência quanto a honra que restava de seus dias como major. Jamais a abandonaria — era tudo o que lhe sobrava. 

Pela janela imunda, a três casas de distância, avistou os malditos. Todas as noites era assim: eles se postavam na porta, estáticos, e, pontualmente às 23:45, a entrada se abria. Entravam, mas nunca saíam. No dia seguinte, outros apareciam para perturbar seu sono. Após inúmeras chamadas, a polícia finalmente apareceu — mas também não voltou. A viatura seguia lá, exposta ao sol e à chuva, há dias. 

Naquela noite, a porta se abriu novamente. As figuras desapareceram no breu do interior, mas, dessa vez, ela permaneceu escancarada. Seria um convite? Com a arma nas mãos, sentia-se forte, jovem outra vez. Poderia ir até lá e pôr fim àquela festa. Refletiu por um instante, mas decidiu não se expor. Ainda tinha um nome e uma honra a zelar, por mais tentadora que fosse a ideia de silenciar os arruaceiros. 

No domingo, acordou convicto de que teria paz. Era um dia em que as pessoas descansavam, ficavam em casa. Tudo correu bem até a noite, quando um estrondo vindo da frente o arrancou de um cochilo. Pegou o tablet que exibia as câmeras da casa e viu um adolescente parado perto do portão, encarando fixamente a direção da casa dos baderneiros. 

Era o estopim. Não toleraria uma criança malcriada chutando sua propriedade. Abriu o cofre, apanhou a arma e correu à janela da entrada. Chegou a tempo de ver o garoto atravessar a rua e se juntar à multidão diária diante do imóvel. Todos, imóveis, fitavam a porta. 

Ela se abriu mais uma vez. A escuridão do interior parecia engolir a da rua, como um buraco negro. O grupo entrou sem hesitar. Henrique já não sabia se queria punir ou salvar o menino, mas tinha certeza de que precisava tirá-lo dali. Preparou a arma, puxando o ferrolho, e avançou até o imóvel, cuja porta aberta o aguardava, mergulhada em um breu absoluto. 

Diante do batente, encarou a escuridão. Mesmo a um braço de distância, nada conseguia enxergar. Uma fraqueza, que outros chamariam de medo, atravessou sua mente. Poderia estar entrando em uma armadilha, mas não recuaria. Resgataria o garoto e, se necessário, acabaria com os arruaceiros. 

Ao cruzar o limiar, a escuridão o envolveu, roubando-lhe os sentidos. Caminhou às cegas pelo que pareceu uma eternidade, até que uma luz discreta surgiu no horizonte, atraindo-o como uma mariposa. Era uma árvore colossal, ardendo em chamas que lambiam galhos e folhas sem os consumir. Centenas de pessoas — talvez quinhentas — observavam, hipnotizadas, babando, tremendo, algumas à beira da inanição. 

Empurrando a multidão, chegou ao pé da árvore. Lá estava uma mulher imponente, vestida com trajes religiosos chamuscados, segurando um tomo enorme do qual lia incessantemente. De repente, ele notou: seus olhos estavam cobertos por um pano sujo de sangue. Aquilo era uma seita, percebeu. E ele não tinha munição suficiente para enfrentá-la. 

Algo se moveu entre os galhos. Um animal o encarava — semelhante a um macaco de pequeno porte, mas grotescamente deformado, com a pele derretida em uma massa disforme de músculos e tecidos. Mostrou os dentes afiados e correu pelos galhos, numa clara ameaça. 

Horrorizado, Henrique ergueu a arma e disparou todo o pente, acertando o ser três vezes. O grito de agonia ecoou, e a resposta veio rápido. Um titã, oculto entre as chamas e as folhas, desceu da árvore para proteger sua cria. A criatura, semelhante a um gorila monstruoso e igualmente deformado como o filhote, aterrissou, esmagando os hipnotizados mais próximos. Sua bocarra soltou um rugido que estourou os tímpanos de todos ali. 

Surdo e horrorizado, Henrique tentou atirar em vão. A entidade o agarrou como se fosse um brinquedo frágil, erguendo-o até sua face. Parecia avaliá-lo — seria comida ou algo mais? O fedor de sua respiração o sufocava, forçando-o a encarar as escolhas de uma vida rígida, vazia de afeto. O fim chegara, e ele sabia. 

Com facilidade, o monstro escalou a árvore colossal, levando-o ao ninho. Henrique nunca mais foi visto. A casa, até hoje, segue atraindo pessoas, e a porta permanece aberta, esperando. 


Escrito por:
Luiz E. Marcondes

Luiz E. Marcondes é um escritor brasileiro de literatura de terror cósmico e psicológico. Desde jovem, sempre foi curioso sobre a mente humana. Formou-se em Psicologia Comportamental e Existencial e faz uso de sua formação profissional para agregar mais complexidade e valor aos textos que escreve. Apaixonado por uma variedade de gêneros literários... » leia mais
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