Muffins de Caramelo
Akily agradeceu pelas rosas de Alberto com um selinho. Jogou-as no lixo assim que se tocou que ele não voltaria, pois já voltara uma vez para lhe dar um segundo beijo…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Akily agradeceu pelas rosas de Alberto com um selinho. Jogou-as no lixo assim que se tocou que ele não voltaria, pois já voltara uma vez para lhe dar um segundo beijo. Ela sorriu, reorganizando os ímãs na geladeira. Mas o sorriso se esmaeceu com peso na linha onde deveriam nascer rugas, e ela notou que alinhava ímãs já alinhados; que seu favorito estava descolando do esmalte ciano na porta do congelador.
Esqueceu de colocar o lixo para fora; agora os camarões podres teriam que esperar até o dia seguinte, aprisionados num cubículo de plástico quente junto das cascas de ovo e das rosas de Alberto. Passou aquele dia inteiro sozinha, embora não se sentisse assim. Começou preparando seus muffins de caramelo, cuja receita podia jurar que era primeira no mundo; separou a pasta em pequenas ilhas e as pôs no forno. Ligou a pequena Philco suspensa no teto num daqueles canais em que ela nunca sabia se as francesas discutiam ou se reconciliavam. Não é que, durante todos os séculos, não tivesse aprendido francês; havia parado de ouvir quando não lhe era necessário.
Havia passado o tempo correto. Ela abriu aquela grande boca de aço e sem querer queimou o polegar. A fumaça preta nunca havia saído do forno junto com os muffins. O sopro infernal subia tão agressivo que Akily largou o tabuleiro na mesa um segundo antes de espatifar no chão. Quanto mais a abanava, mais ela tomava formas distorcidas e dramáticas. Quanto mais a encarava, mais era encarada de volta; contornava seu corpo e encontrava seu rosto em algum ângulo imprevisível. Akily bufou. Não sabia quantas vezes teria checado a textura da massa antes de botar no compartimento pré-aquecido em toda a sua vida. Culinária vinha da mesma fonte que a música; um ajuste definia todo o corpo da receita, a melodia, a proporção; o que ela fazia com bolos de carne e tortas de maçã um século antes não era diferente, com exceção dos venenos açucarados extremamente gostosos dessa geração. Para ela, aquilo era felicidade com promessa e entrega instantâneas, seu estômago trituraria qualquer mal, as toxinas alimentariam seu sangue com vigor tal qual uma fruta colhida do pessegueiro alimentado com os restos da última bruxa de Salém.
Desligou a televisão. O francês a estava deixando com muito calor. Ouviu o barulho do lixeiro passando outra vez e abriu a boca, sentindo seu pulmão comprimir. Quando voltou à cozinha viu como o tabuleiro havia adquirido uma segunda pele de escamas marrons e pretas. Parecia a metade de cima de um dragão filhote, se eles não fossem mera fantasia. Enfiou seu dedo na massa e lambeu. O sabor familiar do caramelo em cubinhos nunca veio. A crosta de noz-pecã derretida amargou o céu da boca, mas o açúcar estava derretido o suficiente pela massa solada. Decidiu que estava bom. Apanhou uma mãozada e comeu assistindo seu reflexo cinza pela TV.
Ainda carregava satisfação em seu corpo quando resolveu se banhar à luz das velas aromáticas de uva, como se o caramelo tivesse escapado para o coração. Lembrou que devia beber logo do estoque novo de sangue, as três bolsas que guardara na geladeira junto da manteiga na promoção e o sangue quente que deixara no armário perto dos dois potes gigantes de creme de avelã. Faria isso assim que saísse do banho. Seu roupão fino permitia que a brisa gelada revelasse partes de seu corpo de que ela gostava bastante. Os cabelos, há muitos séculos retratados em pinturas agora engavetadas como liso morto, haviam conquistado ondulações suntuosas que refletiam as curvas de seus seios, coxas, dedos dos pés.
Pisou na água morna dentro da banheira, e só então se lembrou das pétalas de rosa guardadas num saquinho da loja esotérica dois quarteirões distante. Buscou-as e, num impulso que geralmente não lhe acometia, antes de notar que elas já murchavam, ao invés de jogá-las dentro da água: jogou-as para cima.
Estava submersa até a cintura; uma nova brisa gelada arrepiou sua clavícula, e sorriu de um modo que seus pelos se arrepiaram. Acabara de receber uma amostra do sopro de vida, tal como os seres vivos recebiam a água e o sol. O sol. Seu rosto contorceu, passando os dedos molhados pela barriga seca. “Se a vida é uma valsa cósmica que baila com o divino, a de um vampiro estará sempre um tempo atrasado, nunca sendo guiada pelas mãos do sol.” A frase da irmã ainda grudava. Ela não deixaria que a valsa parasse, mesmo assim. Seu coração se enchia tanto que enxergou sua condição com amor materno, tal qual um recém-nascido com uma alergia grave; mesmo que espirrasse, seriam espirros perfeitos, que a aproximariam cada vez mais do divino. Akily se levantou e fez os dedos contornarem a borda de alumínio do batente com bastante cuidado. Abriu mais a janela.
Depois que seus seios já balançavam na gravidade confortável da água, ela não sentiu vontade nenhuma de se tocar. Quando voltou para o quarto, havia decidido algo tão íntimo quanto seu nome ou quanto beber sangue.
Ao abrir o guarda-roupa de mogno antigo, dedilhou os vestidos suspensos no cabide e só parou em um daqueles poucos que nunca havia usado. Escolheu aquele azul com detalhes em marfim, que fora comprado num ato de altruísmo para sua irmã, antes que a dona cheia de pintas passasse na loja no dia seguinte. Se esqueceu de entregá-lo, afinal de contas, mas conseguia ver o rosto da irmã por entre as dobras de renda com cheiro de talco.
Demorou duas horas inteiras na frente do espelho da penteadeira, esfregando as cerdas macias pelos cabelos que passaram tempo demais no condicionador. Cheirava o sabonete em sua pele e depois dava um sorriso, seus olhos quase transbordando gotículas que faziam seus globos oculares doer. Sua barriga roncou. Pensar na bolsa de sangue fresca na geladeira pareceu tê-la saciado de quase todas as formas. Passou mais duas horas sentindo o quarto gelar com o ar-condicionado no 16. Lembrou-se do doce vento da Irlanda, a brisa gelada que arrepiou a pele quente e encheu o estômago de ar.
Só parou de alisar o lençol quando a palma da mão se irritou com a seda, e então repousou a cabeça de lado como quando dividia a cama com a irmã e deixou as pálpebras pesarem. Na manhã seguinte, quis ver a luz do sol pelo bumbum do tabuleiro de fazer muffins de caramelo.
Lavou a crosta doce com cheiro de açúcar artificial com força, afinal, não tinha tempo para compensar o vacilo de não o ter deixado de molho. Voltou para o quarto, calçou suas novas papetes roxas de borracha e vestiu a capa grossa de chuva com a qual recolhia as flores de Alberto diariamente. Caminhou fazendo barulho pelo azulejo do lado de fora e esticou o braço até o metal molhado encontrar a claridade do céu.
De repente sua varanda azuleou de tal modo que Akily se atribuiu asas. Estava voando por um verão sem nuvens, e então se deu conta de que havia tantos seres voadores no mundo. Podia fincar suas presas sorridentes e indolores nos corpos penados e ainda não faria a liberdade crescer em suas costas. Uma sobrancelha se levantou. Ela podia, claro que podia levitar. Mas não via graça nenhuma em manipular a gravidade com aquele formigamento todo na sola dos pés, na ponta dos dedos, das orelhas e pelo pescoço até o queixo. Ela queria voar como os anjos; mas não como nas pinturas no teto distante das catedrais em 1823 que tanto a irritavam. Detestava aquela leveza. Ela desejava os músculos eróticos que a conquistaram muito antes disso, que a tornariam uma deusa feita de curvas impossíveis; invejava o poder de voar até os céus com a promessa de ser um com o universo. No fundo, mesmo que não gostasse da ideia, sabia que seu voo pareceria muito mais leve do que gostaria.
Ainda contemplava em agradecimento a infinita luz azul, se perguntando se o sol era azul também, quando o tabuleiro escapuliu de seus dedos encapuzados. Seus ouvidos murcharam com o barulho estridente de um azulejo quebrado, o clarão do sol irradiando de uma forma que Akily se acuou para dentro da cozinha. Bateu a porta com tanta força que precisou conferir se a havia quebrado. Botou a mão no peito com os olhos arregalados. Não sabia o que dentro dela doía tanto. E então deu uma gargalhada desafinada e trêmula que expulsou o espírito daquela velha curandeira que lhe havia praguejado algumas décadas antes. Logo percebeu que respirava forçado demais, e ficou encarando o calendário da empresa de botija de gás enquanto sua alma, que voava tão alto, voltava para si. Teria esperado anoitecer para sair outra vez, mas sua garganta fechou; esperar algumas horas era tortuoso demais. Abriu a porta só mais um instante, um feixe de luz potente alcançando a geladeira ciano. Que luz poderosa e absoluta! Fechou a porta devagar e sem rir dessa vez.
Uma cólica tremenda a atravessou, a vista queimando. Um cheiro estranho e sinistro percorreu seu corpo. O lixo dentro de casa fazia aniversário. Se agachou para pegar o pote de Nutella, seu corpo pesando com exaustão. Foi para o quarto e ligou a TV. O francês piorou as dores no corpo. Passou o dia e a noite na cama.
Não se lembrava do sonho da madrugada, mas havia acordado com vontade de jogar mais pétalas para o ar. Ela viu o sol. Fechou os olhos com um sorriso bobo, quase como se pudesse ignorar as dores nas articulações. Por um momento, se imaginou novamente refletida naquela imensidão azuleada do céu da hora do almoço. Era quase como se tivesse memórias infantis que envolvessem dias solares encantados, embora soubesse que estava terrivelmente enganada. Preferia não ficar se corrigindo o tempo todo.
Tentou se levantar. Seu corpo não quis. Então espirrou tão forte que seu peito a fez deitar de novo. Em que momento havia resfriado? Passou a mão pelos braços, o rastro doendo até as dobras dentro da pele. A porta da cozinha devia estar se sentindo exatamente daquele jeito, foi o que pensou. O pote de creme de avelã havia deitado para dormir com ela e, por sorte, tivera sua boca fechada antes de ambos pegarem no sono. No fundo da colher ainda tinha Nutella, então ela a tomou na boca enquanto abria o pote outra vez.
No final do mesmo dia, estava tão faminta que precisou ir se arrastando com seu robe de seda rosa até o armário da cozinha. Embora seus cotovelos ainda lhe fossem fiéis, suas pernas tremiam como varas, e ela pensou que ter dado aquela risada histérica lhe havia custado caro; espantara espíritos importantes, que tomavam conta dela. Quando chegou no armário, percebeu como havia acumulado poeira no tecido fino. Arremessou o braço para dentro e rasgou a bolsa com a força que lhe restava. Virou-se para cima e deixou a cabeça descansar no travesseiro duro que era o chão do armário. Inclinou o líquido tão menos gostoso que avelã em direção à boca, mas seus braços fracos derramaram a primeira dose no colo do roupão.
Seu pescoço se levantou para abocanhar o corte no plástico, o sangue recheando sua boca por completo. Seu corpo mexeu um pouco. Ela tomou todo o sangue antes de lembrar de respirar, depois sentiu um espasmo fazendo-a contorcer como se despreguiçasse finalmente. Balançou os pés por um tempo, sentindo a dormência sendo expulsa, as unhas em vermelho descascadas. Estava completamente abastecida, o que a irritou profundamente. Conseguiu se levantar, xingando o roupão todo sujo. Ela não tinha deixado o chão imundo como parecia, aquilo não era verdade. Abriu a torneira e tomou água até que o gosto de ferro se dissipasse. Quando fez o movimento de jogar o restante da água na pia, sentiu que as juntas ainda reclamavam. Voltaria à loja esotérica para comprar mais pétalas depois que o sol se pusesse, mas antes das seis, se melhorasse. Compreendeu que era melhor, no fim, dormir em seu caixão naquela noite.
Ela só tirou o rosto do fundo estofado vermelho depois de algumas semanas; o velho despertador cismou de funcionar, e era sua primeira vez naquele ano inteiro, então Akily entendeu que era um sinal. Deu um pulo quando conferiu o horário; as cinco e meia da manhã na verdade eram cinco e meia da tarde, e então ela subiu pela escada em caracol até o quarto e trocou de roupa. Prendeu o cabelo, calçou a papete. Jogou o lixo podre no latão da rua. Catou o tabuleiro no chão da varanda. Havia esquecido as chaves dentro de casa; encostou o portão e saltitou com bastante convicção até a loja Bruxa Boa. Resolveu comprar uma balinha de cada tipo que pendia ao lado do caixa, a atendente dando piscadas tão demoradas que a tornou confortável em espiar tudo o que havia. Ah, vou levar essa mandala, também. Passou tudo no crédito pelo celular.
Fechou o portão e trancou a porta com carinho. Esticou a mandala pela mesa da cozinha, lamentando não ter um furo na parede para pendurá-la em sua cama. Comeu as três balinhas de alga de uma só vez, tendo certeza de que as cores diferentes não mudavam o sabor. Se o barulho do metal caindo ao chão não fosse tão alto, faria o sol aparecer pelo tabuleiro na tarde seguinte de novo. Abriu a barrinha de alfarroba e fez uma careta, depois pressionou o gosto com a língua até o céu da boca. Estava melhor do que seu muffin fracassado. Quando foi tomar banho para jogar as pétalas para o alto, passou pelo seu quarto e viu o pote de Nutella. Levou-o consigo.
O vapor do banho não queria subir, ruminando o calor dentro da água e transformando a banheira numa panela de cerâmica branca. Akily mergulhou lentamente, equilibrando a colher e o pote enquanto deixava a pele ceder e, quando os seios desceram, o perfume de rosas transbordou e molhou o tapete felpudo. Ao fundo, ouviu uma televisão vizinha alta, ligada na mesma novela que passava na Bruxa Boa. Deu um sorriso manso e levou uma colher cheia até a boca. Depois da segunda ou terceira colherada, resolveu que não precisava de doce para ser feliz, então a depositou no chão e inspirou profundamente. Encarou a janela, imaginando que tinha feito a noite se tornar manhã, recebendo o sol diretamente no rosto. Pensou que o calor que a cozinhava era dele, somente dele, e se pegou mordendo os lábios. Observou as pétalas que caíram com ela, tão murchas como a ponta de seus dedos, seus bebês com alergia grave. Ficou séria durante todo o resto do banho, seus olhos pesando tão pouco que ela mal precisava piscar.
Saiu da banheira, despediu-se da janela e foi para o quarto. As pegadas não a incomodariam daquela vez. Vestiu-se com o corpo ainda molhado, aquele vestido azul com rendas marfim que usara pela primeira vez semanas antes. Somente agora parecia entender tudo. Ousou rodopiar na frente do espelho da penteadeira. Sua irmã a teria puxado para dançar se lhe tivesse contado a descoberta. Colocou as mãos na frente da boca e rodopiou mais algumas vezes. Encarou-se no espelho como se não reconhecesse seus traços, embora ainda se achasse muito bonita. Talvez fosse um pássaro, quem sabe um Anjo. Era aquele passo que faltava em sua valsa.
Fez novos muffins, mas o caramelo havia sido orgulhosamente trocado pelo creme de avelã. Akily havia descoberto uma nova maravilha no mundo.
Aproveitou que ainda era antes das onze e ligou para Alberto. Dessa vez, não quis que ele a buscasse de carro, afinal, ela era a imortalidade encarnada, foi o que concluiu depois de séculos. Esqueceu a chave outra vez, mas fechou com firmeza a porta e o portão. Seus cabelos ainda escorriam e faziam cócegas molhadas pelas costas quando fez seus pés formigarem. Começou a levitar apenas o suficiente para o asfalto não machucar, e então foi levando seu corpo para frente. Mas o formigamento não valia a vagareza, portanto se atirou para o céu tão rápido que a fez se contorcer de frio. Como era bonito o bairro que escolhera para morar, pensou, à noite; apenas algumas luzes douradas acesas, sem o crescimento vertical excessivo das metrópoles poluídas. Desceu bem na frente da casa de Alberto e entrou sem tocar a campainha.
Alberto a tocou com paixão. Ela já lhe avisara que viajava às vezes, e ele compensou cada segundo de saudade com estocadas firmes. Akily o deixou admirar a pele nova sem que ele percebesse: ela não era mais como conhecia. Estava mantendo a virgindade de seu novo eu. Imaginou como seria enxergar o sol. Não era como se ela visse um fiapo de raio se esgueirando minutos antes do amanhecer para lhe beliscar a bochecha ou um clarão idiota num tabuleiro idiota. De forma alguma era aquilo. Sua boca se tornou passagem de gemidos molhados quando pensou no sol a enxergando de volta. Ele abriria os olhos, talvez um de cada vez, ou os dois ao mesmo tempo. Compreenderia suas feições, a cor de sua pele, e lhe diria com quem ela se parecia mais: a mãe ou o pai. Ela já não se lembrava, mas derreteu nos braços de Alberto, imaginando que se parecia mais com a mãe.
No dia seguinte, vestiu sua capa de chuva por cima do mesmo vestido azul e buscou as flores no correio. Rosas vermelhas. Não as jogou fora, porque aquele novo ser gostava muito das rosas vermelhas de Alberto. Na verdade, gostava dele como um todo, o suficiente para passar no banco e transferir a ele uma boa quantia do seu dinheiro secular antes de voltar para casa e se arrumar. Tinha um encontro, afinal de contas.
Preparou uma pequena lancheira da época de quando as escolas começaram a aceitar mulheres como alunas. Era o tipo de quinquilharia que ela não sabia para que guardava, mas preferiu não se julgar naquela situação agora que lhe era tão conveniente. Arrumou uma refeição com dois sanduíches de queijo e manteiga, depois foi até o banheiro, pegou o pote e enrolou mais dois pães-de-forma no creme de avelã. Faltava algum líquido, mas ela sabia que podia parar na banquinha logo antes de pegar o trem e comprar uma Coca-Cola. Guardou também o buquê de rosas.
— Desculpe, senhorita. Nós acabamos de fechar.
Akily não conseguia entender como a estação de trem tinha tão pouca opção na parte da noite. Então ela engoliu em seco e moveu lentamente seu polegar. O dono da banquinha perdeu qualquer expressão nos olhos, tornando-se o que Akily não gostava muito. Ele enfiou a mão com Parkinson no bolso largo da frente e buscou pela chave correta. Abriu a porta minúscula e barulhenta e catou uma latinha de Coca-Cola e uma garrafa de água com gás, as mais geladas que havia na geladeira e as depositou no chão sujo da estação. Ela segurou as bebidas e as limpou na barra do vestido azul. Abriu a água e deu uma golada, depois guardou as duas na lancheira e seguiu para a plataforma. Só deixou o homem retomar o controle depois que o fizera caminhar para bem longe, esperando que o tivesse guiado pela direção que ele pretendia.
Era 22:22 quando ela recebeu uma mensagem de Alberto. Estava fora de si, escrevendo palavras quase irreconhecíveis. Alguém havia mandado três milhões para a conta dele. Estava com medo de ser testemunha ou cúmplice ou mandante de algum crime, mandou áudio dizendo que seu coração doía. Akily pôs a mão no peito e se lembrou de quando o dela também doeu, compreendendo que o que sentira ao ver o sol no tabuleiro foi a sensação absurda de sorte que Alberto sentia agora. Mandou uma mensagem fazendo-o prometer que não contaria para ninguém que o dinheiro saíra de sua conta. Não queria que ele morresse, nem de preocupação nem de felicidade. Por fim enviou uma selfie e, sem esperar visualização, bloqueou a tela. Quando ouviu o trem que ela precisava pegar chegando na estação, jogou o celular no trilho e se preparou para embarcar.
Somente lá dentro conseguiu sentir um pouco de calma para observar o redor. Tudo o que existia na frente da vidraça manchada era um adolescente que ocupara seu lugar no banco. Desviou o olhar tão naturalmente que se esqueceu que tinha a intenção de observar. Aproveitou o assento de madeira bem alto e ficou mexendo as pernas descalça como estava, fazendo carinho na gola do vestido, enquanto encarava os homens de chapéu passando rumo a outra plataforma. A estação não era tão bem iluminada quanto a cidade vista do alto pelos seus pés formigantes, e concluiu que os limpadores não deviam receber tanto.
Quando o trem iniciou sua jornada às Dunas Múrmuras, algo dentro dela despertou uma felicidade extrema, como se Alberto a tivesse entendido. Como era prazerosa a nova carne recém parida, ainda nascente como sol do dia seguinte. Ela chegaria no deserto às 4h da manhã. Apanhou um sanduíche de queijo e manteiga já de olho no de Nutella. Sentia uma fraqueza sutil roendo seus braços. Abriu a Coca-Cola com um estalo orgulhoso e observou a paisagem como se a visse pela última vez. Sabia que em breve a pequena cidade seria substituída por uma série de construções cheias de janela, fumaça preta invasiva, trânsito que ela morreria dez vezes antes de pensar em pegar. Depois de algumas horas, jogou seu corpo para o lado e fingiu que o estofado vermelho era o interior de seu caixão.
Acordou com um formigamento e se assustou, pensando que estava tentando levitar dentro do trem. O breu que tomava conta do lado de fora só não a engoliu de vez por causa das luzinhas simpáticas que costuravam o tapete da cabine. Podia ter trazido um livro, ou até mesmo seu Kindle, se tivesse compreendido, antes, que seu novo eu gostava bastante de ler. Desceu na estação correta e estranhou ter sido a única. Colocou a lancheira nas costas e levitou lenta.
Akily sabia que precisava se afastar o máximo possível do trilho em linha reta. Logo tudo o que conseguia ver era a fina lua no céu, a aliança que o dia entregara para a noite como prova de seu amor. Seu dedão do pé bateu num monte mais volumoso de areia, e então ela percebeu que estava na hora de levitar mais alto. Atirou-se para frente numa súbita empolgação, o coração palpitando. Não sentia aquilo há mais tempo do que conseguia contar. O deserto brincava com seus olhos, de forma que parecia haver muitos pontos de luz colorida dentro da escuridão azúlea. Era como ir de encontro com o nada, sentindo a brisa fresca furando a pele com grãos gelados de areia. Eram tão virgens quanto ela, acariciando a face de um ser vivo pela primeira vez na vida, foi o que escolheu pensar. Sentiu-se fraca outra vez. Se já não estivesse no coração das Dunas, ao menos estaria em seu pulmão.
Deixou seu peso cair na areia quando percebeu uma leve declinação. Abriu a lancheira para retirar o buquê, acabou devorando logo os dois sanduíches cremosos antes que apodrecessem. Fechou os olhos, e cada vez que os abria, uma nova onda de claridade laçava seu corpo e a fazia tremer. Qual delas era a verdadeira face do Sol?
Ela vibrou quando se lembrou dele. Estava o evitando desde quando saiu do caixão, mas cada centímetro de sua pele nova gritava por ele, ansiava por sua aparição como os povos na época que ela nasceu. Falou seu nome em voz alta, depois seu queixo tremeu e sua risada virou um choro dolorido de sair dos olhos. Olhou para as pétalas que faziam cócegas no colo e sorriu, vendo que seu choro havia azuleado algumas das rosas vermelhas.
Um vento fez o corpo de Akily se expandir até sentir frio. Ela inclinou o rosto para não respirar areia, mas conseguia senti-la dançando entre os fios do cabelo. Seus olhos lacrimejaram outra vez. Enxergava tudo e qualquer coisa em sua frente. As dunas remetiam às catedrais com tetos que tanto lhe irritavam. As cordilheiras pareciam repetir as curvas de seu corpo, infinitas fileiras de areia moldada pelo vento, organizadas como nuvens num céu renascentista. Estava se casando. Fechou os olhos, sentindo uma fraqueza sem fim, e viu Alberto como um padrinho feliz, contente com o presente que acabara de receber na conta. Mas, do começo da passarela onde estava, Akily ainda não via seu noivo.
O arranjo no buquê continuava azulescendo; as rosas que já haviam azulescido antes tinham miolos distorcidos em marfim, como se Akily segurasse pequenas caveiras. Ela só não se lembrava em qual momento havia planejado um buquê daqueles. Mas não tinha problema; uma noiva deveria se lembrar de mil coisas e esquecer outras mil.
E então ela enxergou.
Ele não abriu um olho ou dois. O fogo galopava no horizonte trêmulo em cima de um cavalo dourado e forte. Akily gemeu quando sentiu a testa queimar, seus olhos incapazes de compreender o que via, ao passo que compreendia absolutamente tudo. O mundo era dourado para os que voavam.
Seu pescoço quase não se moveu, seus ossos rangendo conforme ela executava qualquer gesto. Somente ela podia se casar com ele, guardou aquela certeza em seu coração quando percebeu que não segurava mais o buquê. As duas rosas ainda vermelhas se derretiam em sangue pela areia. Num espasmo, as arrematou de volta e as lambeu, o gosto de ferro revigorando seu ser com um fogo quase tão ardente quanto o de seu futuro marido.
Seu estômago se revirou em ânsia; algumas cinzas inconvenientes tomaram a vista, mas, quando se viu livre delas, estava leve, como os anjos que tanto desgostava, e começou a rir. O fogo irradiava de seu peito para o deserto, seus olhos cegos por um clarão que a tomava inteira. Era a noiva mais linda, sairiam dizendo isso. Ela recebia o Sol impiedoso. Ele a atravessava crua. Não reconhecia aqueles pedaços de pele que rolavam com o vento forte sobre a areia fina.
Ela era toda Dourado, ela era toda Anjo, e recebia a coroa solar sobre o cabelo de fogo, na pele virgem que havia parido para ele.
Quando ele a segurou e a levou pelo horizonte em brasa, Akily enfim revirou os olhos e deixou uma última lágrima escapar, esquecendo-se de todos os muffins de caramelo que fez na vida.
Sophia Kaiser
S. Kaiser é escritora de ficção gótica contemporânea, fascinada por vampiros que parasitam o cérebro humano em forma de culpa e desejo. Sempre escreveu sobre ferida que grita antes que a palavra a decifre, geralmente na perspectiva do monstro rejeitado, tentando seu máximo para não romantizá-lo na vida real. Fortemente influenciada pela melancolia de Louis em “Entrevista com o Vampiro”, pela narração visceral de “Império do Vampiro” e pela complexidade psicológica de Dostoiévski e Clarice Lispector. Atualmente, revisita sua obra para relançamento na Amazon. » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Púrpura Espectral
Ainda não havia encontrado Malus, mas muito me foi oferecido no Castelo Drácula. Fui instalada em um suntuoso quarto vitoriano…
MidjourneyAI
Ainda não havia encontrado Malus, mas muito me foi oferecido no Castelo Drácula. Fui instalada em um suntuoso quarto vitoriano. Nunca tive tanto à minha disposição. A atmosfera sombria e gélida do castelo adentra a minha alcova e sinto paz. A tapeçaria em tons de púrpura é um deleite, sendo eu tão apaixonado por esta cor rara no vilarejo de onde vim.
A cama é de uma beleza e conforto inenarráveis, me delicio com o toque da ceda pura em minha pele. Reparo que toda a mobília mantém os mesmos ornamentos. Me distraio com apetrechos específicos em cima da penteadeira, mas a escrivaninha me chama ainda mais a atenção.
Ao me aproximar, uma vela de chama roxa acende sozinha. Pego a flor negra solitária que repousava em cima de um envelope, dentro havia uma carta com os seguintes dizeres:
Ane, sinto por não estar presente durante sua chegada, pois foram-me designadas ocupações para além do castelo. Você está segura aos cuidados do Conde.
Há um baú, você deve ter notado, nele encontrará o traje para a noite de hoje. Sim, se a chama violeta acendeu para você, é hora de se aprontar, minha cara.
Anseio pelo nosso reencontro.
Malus.
Um longo, mas não muito volumoso, vestido de um roxo tão escuro quanto o céu que eu podia ver por detrás das cortinas das janelas entreabertas, me deslumbrou. Suas delicadas rendas me fizeram lembrar das roupas simples que outrora usava, mas agora era diferente. Não mais me parecia com a frágil camponesa que fitava a lua. Eu sinto o poder que emana de mim, e embora tudo pareça tão fantástico, sinto-me despertar para a vida.
Ouvi o badalar das 7 horas. Não tinha certeza de qual parte do castelo o som saiu, mas sem alguém para me acompanhar ou impedir, caminhei até o jardim. Um vulto com roupas em tons violáceos me chamou a atenção. Segui-o. Suponho que estava perdido, pois, mesmo eu estando ali pela primeira vez, percebia que seus passos não eram seguros de si.
Estava obcecada. Não poderia desejar nada mais do que perfurar suas veias e beber de seu sangue, gota a gota. Quando finalmente me aproximei o suficiente para realizar tal ato de luxúria, fui abordada por uma voz cavernosa.
— Apreciando a noite, senhora?
— Muito mais me alegra apreciar você.
Uma névoa lilás translúcida nos envolveu. Malus tocou meu rosto e me beijou. Olhou por trás de mim e sorriu maliciosamente.
— Você estava caçando? Pois bem, faremos juntos.
De um modo o qual não compreendia, aquela figura, que antes me parecia perdida, caminhou para o nosso encontro. Pude ver que se tratava de um homem. Meu companheiro beijou sutilmente minha mão direita e a segurou. Mordeu o pescoço que eu tanto ansiava e, se voltou a mim. De suas presas enormes escorria um líquido roxo. Consentiu com a cabeça e me entregou o ser.
Indescritível o êxtase que me foi fornecido. O sangue púrpura se apoderou de mim e me arrebatou em uma explosão de sentimentos. Sensações nunca antes experimentadas me deixaram atônita. Tudo ao meu redor agora era de um esplendor violeta.
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Em um mundo repleto de diferenças e subjetividades, nem todas as preferências são iguais. Para alguns, o despontar de um novo dia, com a estonteante beleza da aurora trazendo luz e cores, representa um leque de possibilidades e um novo amanhecer promissor. Contudo, para outras criaturas, a chegada da luz de um novo dia pode significar dor, sofrimento ou até mesmo o fim — mesmo para aqueles já mortos.
Ewerton, antes mesmo do alvoroço dos galináceos iniciar nos distantes quintais ao longo da estrada, já estava de pé, preparando seu café em uma improvisada fogueira sob um frondoso e florido Flamboyant. Enquanto a água aquecia lentamente — após ter feito sua higiene pessoal matinal —, ele observava ao longe o despertar de um novo dia. A beleza das cores do amanhecer era hipnotizante, com nuances de amarelo e vermelho se alternando em um espetáculo mágico, capaz de fazer qualquer um se perder em seus próprios pensamentos, esquecendo-se completamente do mundo ao redor. Foi assim, perdido em devaneios, que ele não percebeu a aproximação de uma bela jovem vestida de negro, como uma dama da noite, que se aproximava sorrateiramente até o outeiro onde ele se encontrava.
A jovem, caminhando trôpega, tentava se manter de pé, aparentando estar embriagada — o que poderia ser considerado normal, dadas as vestes festivas que usava e o forte perfume que exalava. No entanto, Ewerton logo percebeu que não se tratava de mera embriaguez. A jovem estava gravemente ferida, com um dardo — possivelmente lançado acidentalmente por algum caçador — cravado no lado direito de seu ventre, de onde escorria um líquido viscoso e enegrecido com um odor acre, que sob a luz do dia, seria facilmente identificado como sangue. No entanto, no crepúsculo do amanhecer, era difícil discernir sua natureza. De imediato, soube-se apenas que era um ferimento grave e que ela necessitava de ajuda.
Educado a sempre ajudar os mais fracos e a proteger os indefesos, Ewerton prontamente se lançou ao socorro da jovem, que mal conseguia se manter de pé. Ao abraçá-la, sentiu um estranho arrepio, pois ela estava tão fria quanto uma manhã chuvosa de novembro. Suas faces pálidas e cadavéricas não mostravam o rubor da vida, um sinal claro do ferimento e da contínua perda de sangue, pensou ele. Com cuidado, a deitou em seu próprio leito — uma cama improvisada com os apetrechos de sua montaria —, onde ele próprio havia passado a noite sob as estrelas. Ao examinar mais de perto, percebeu que o ferimento era mais grave do que parecia e que, sem ajuda, ela não sobreviveria por muito tempo.
Antes de retirar o dardo, decidiu que deveria cauterizar a ferida para tentar estancar o sangramento. Após aquecer a lâmina de sua faca no fogo, com cuidado e firmeza, removeu o dardo do ferimento com um único movimento. A retirada da seta fez com que o líquido enegrecido escorresse ainda mais. Enquanto preparava a faca para a cauterização, ele analisou o estranho dardo, artesanalmente talhado, com uma ponta de prata e uma pequena incrustação de uma cruz de malta ao longo de sua haste. Após esse breve inventário, cauterizou a ferida com a faca aquecida. A jovem, saindo de seu estado letárgico, emitiu um urro lancinante e, com uma força descomunal, lançou-se sobre ele, derrubando-o ao chão.
Sem esperar por uma reação daquele tipo, ele que estava desprevenido, caiu de costas e logo percebeu que ela estava sobre ele com suas finas e delicadas mãos — que naquele momento não tão delicadas — agarradas ao seu pescoço num movimento de estrangulamento. Contudo, antes que qualquer outra coisa pudesse ter acontecido, a jovem levantou sua face em sentido ao horizonte e os traços de uma séria preocupação alterou suas feições. Antes que Ewerton pudesse esboçar qualquer reação ou dizer uma única palavra sequer, sentiu uma forte pancada na fronte e suas vistas se escureceram por completo fazendo com que ele perdesse tanto o sentido do tempo, bem como de tudo ao seu redor por alguns momentos, só voltando a si quando recebera em sua face um jorro de água fria que um estranho cavaleiro lhe aplicara.
Tonto e meio atordoado com tudo o que havia ocorrido, ele logo quis saber o que se passava naquela atípica manhã. Primeiro, uma jovem ferida em busca de ajuda; em seguida, a pancada que recebera, levando-o a um nocaute; e agora, quatro estranhos cavaleiros vestidos de forma bastante peculiar se apresentavam. Vestidos de preto da cabeça aos pés, ostentavam um estranho símbolo de uma cruz de malta no peito — a mesma marca presente no dardo — e, além de tudo, comportavam-se de maneira ainda mais estranha. Assim que foi despertado pela água fria, de maneira bastante hostil, um dos cavaleiros, segurando seu queixo com a mão protegida por uma manopla de aço — com a força de uma tenaz — inspecionou seu pescoço de todos os lados em busca de algum ferimento. Como nenhum arranhão foi encontrado, esse mesmo cavaleiro, com um olhar penetrante e traços sombrios, quase sussurrando, mas com uma entonação de liderança, disse aos seus companheiros:
– Por sorte ou pela proteção divina, quem sabe, esse daqui escapou ileso. Para seu próprio bem, é melhor que não se lembre de nada!
Virando-se uma vez mais para Ewerton, que ainda estava sendo firmemente segurado pelo queixo, dissera-lhe com voz firme em tom de soberania:
– Durma rapaz! Tudo não passou de um terrível pesadelo…
E mais uma vez Ewerton caiu na escuridão…
Já passava das dez da manhã, quando ele despertou. Sua cabeça doía absurdamente, como se ele estivesse enfrentando a pior ressaca de sua vida. Contudo, não se lembrava de ter bebido uma única gota na noite anterior. Fato que circunstância desmentiam em absoluto, pois sua camisa estava com cheiro de álcool e havia gosto de bebida em sua boca. Ainda um pouco zonzo, sentado em seu improvisado leito, tentou recolocar as ideias no lugar. Bem devagar, seus pensamentos foram se estabilizando e sua memória fora clareando aos poucos. Ao se recordar por completo de tudo que havia ocorrido com ele ainda de madrugada, rapidamente se colocou de pé e olhou ao redor em busca de algo que corroborasse o que havia acontecido. Para sua surpresa, tudo dava indícios que ele havia bebido tudo que podia e, pelo efeito da embriaguez, certamente havia tido aquele estranho pesadelo.
Próximo ao leito em que passara a noite havia uma garrafa de bebida completamente vazia, a fogueira — que ele aquecera a faca — estava apagada de tempos, e até mesmo a chaleira que deveria estar no fogo com a água para o preparo do café jazia pendurada entre suas coisas num dos galhos do Flamboyant. Após fazer uma busca minuciosa pelo dardo que retirara da ferida da jovem ou algum vestígio de sangue ao redor de um amplo perímetro ao longo da sombra da árvore e não encontrando nada, como já havia dormido embriagado por muitas outras vezes e também tido sonhos estranhos nessas noites ébrias, se deu por convencido que tudo não passara do fruto de uma mente bastante fértil. Ainda de pé, com a cabeça latejando nas têmporas, ficou por um tempo parado, olhando ao longo da estrada que ele já deveria estar trilhando desde as primeiras horas da manhã, decidiu pela enésima vez que deveria dar um tempo com a bebida — sua única companheira de noites insones –.
Rapidamente acendeu a fogueira, e sem demora preparou um café que logo fora saboreado com seu desjejum, um satisfatório pedaço de broa, com um naco de carne salgada. Com suas forças restabelecidas, selou seu cavalo — que naquela manhã estava bastante arredio e parecendo assustado — e saiu estrada a fora rumo ao seu destino, — uma cidade na qual ele era esperado para acompanhar uma boiada que seria levada para outro estado. Ewerton era peão estradeiro e vivia de tocar boiada de um lugar a outro. Tropeiro era seu ofício e as estradas seu ganha pão. Em mais de quinze anos na profissão, já conhecera muitos lugares diferentes. Contudo, naquela estrada em que se encontrava naquele momento, era a primeira vez que viajava, naquele ermo caminho, tudo era desconhecido. Cada curva, regato ou ponte era algo novo para se conhecer.
O dia claro de sol forte e brisa fresca possibilitou que a marcha tivesse um resultado bastante satisfatório, uma vez que ele já havia se alimentado bem e não precisou fazer nenhuma parada mais longa, exceto uma vez ou outra para se aliviar. Numa cavalgada continua, conseguiu vencer mais de oito léguas de estrada. Por volta das quatro da tarde, decidiu que deveria buscar um local mais apropriado para pernoitar, pois, logo à frente, uma forte tempestade se anunciava no horizonte e, debaixo de uma árvore ao relento, não seria apropriado passar a noite.
Não tinha seguido mais do que dois quilômetros, quando estando ele contornando uma curva bastante fechada após ter atravessado um belo regato de águas serenas e cristalinas, se deparou com um suntuoso casarão abandonado na beira da estrada. Era uma enorme construção em estilo colonial com traços de uma arquitetura bastante rebuscada. Suas feições — mesmo em ruínas, aparentando estar a bastante tempo abandonado — demonstravam que em seus tempos áureos havia sido um belo palacete. Talvez a residência de uma família muito importante, ou quem sabe uma pousada bastante movimentada na região. Porém, como tudo tem um fim, aquela bela casa estava encontrando o seu, nas garras do tempo, e se um dia fora habitada ou visitada por várias pessoas ilustres, naquele momento, certamente era moradia de várias criaturas que viviam nas sombras se escondendo na escuridão, e que naquela noite em particular, também lhe daria abrigo contra uma chuva que se anunciava de forma violenta e duradoura.
Muito cansado da viagem e das desventuras da noite anterior onde no mesmo sonho ele fora espancado duas vezes, Ewerton após apear e desarrear seu cavalo — deixando-o pastar livremente — decidiu adentrar o casarão e procurar uma forma de acender uma fogueira, tanto para lhe aquecer e espantar algum animal peçonhento bem como deixar o lugar mais iluminado. Por dentro o casarão não era de todo diferente ao seu externo. Tudo estava na mais completa ruína. O ambiente tinha um cheiro fétido de mofo e abandono. A poeira do tempo tomava conta do lugar. Havia alguns móveis abandonados, mas estavam velhos e comidos por traças, servindo apenas de suporte para as inúmeras teias de aranhas que infestavam o lugar. Temendo se deparar com alguma serpente ou algo do tipo, devido a escuridão interna que ocupava todos os cantos da casa, decidira ele, ficar no salão principal que contava com uma bela e grandiosa lareira. Rapidamente, utilizando-se de pedaços de alguns moveis velhos, logo conseguiu acender uma crepitante fogueira que trouxe luz e calor para aquele lúgubre ambiente.
Em um de seus embornais, ainda havia uma pequena garrafa com licor que ele logo abrira, emborcando alguns goles para acompanhar mais um pedaço de broa e alguns nacos de carne salgada, que naquela noite seria seu único jantar. Assim que terminou esse breve repasto, colocou mais alguns restos de cadeiras velhas no fogo e após de ter a certeza que num velho estofado de frente a lareira não havia nenhum animal peçonhento se escondendo em seu interior, se deitou e ficou ouvindo o crepitar das chamas na lareira e o ribombar dos trovões e da chuva que caia pesada no telhado, sem maiores preocupações, logo pegou no sono.
Acordou sobressaltado já tarde da noite com alguém lhe acariciando a face. Era uma bela donzela de olhos na cor de mel com longos cabelos ruivos na cor do entardecer. Ele jazia com a cabeça em seu colo e ela muito prestativamente lhe velava o sono. Num movimento rápido, se colocou de pé e logo percebeu que tudo ao seu redor havia mudado bruscamente. O casarão em ruínas cedera lugar a um suntuoso palacete cheio de luz e muito movimento, a mobília estava nova e brilhante, havia belíssimas cortinas nas janelas, o piso estava recoberto com finíssimos tapetes em alguns lugares. Havia inúmeras pessoas por todos os lados. Comendo, bebendo e se divertindo bastante como se uma animada festa estivesse ocorrendo ali naquela noite.
Belas e perfumadas mulheres de todas as idades, distintos cavalheiros com pose de serem homens bastante importantes se faziam presentes como convidados ilustres. Na lareira — que agora estava bela e limpa — ardia uma frondosa fogueira com toras de madeira perfumada dando ao local um agradável odor almiscarado. Num dos cantos do salão, um afinado piano alegrava o ambiente com notas musicais bastante animadas. Tudo era muito alegre e festivo como num sonho, até mesmo a chuva parecia ter dado uma trégua naquele momento. O barulho ao seu redor era de risos, animadas conversas e o harmonioso som do piano.
Um tanto embasbacado com tudo aquilo e ainda meio atordoado pelo sono, Ewerton foi conduzido até um recinto reservado. Lá, uma deslumbrante mulher, possivelmente na casa dos quarenta anos, conversava alegremente com um jovem ainda na flor da idade, que lhe fazia companhia. Esta mulher foi apresentada a ele como a Condessa do Araripe, viúva do nobre Conde do Araripe e proprietária daquela badalada pousada. Ela gerenciava o estabelecimento com a ajuda de suas três filhas e, naquela noite, seria sua anfitriã. A condessa era uma mulher de estatura alta, com longos cabelos cacheados tão negros quanto uma escura noite sem luar, que caíam em cascata pelas costas. Seus olhos brilhantes, da cor de esmeraldas, destacavam-se em seu rosto claro como a neve, e seus lábios na cor de carmim delineavam um sorriso que, embora inocente, denotava a seriedade e responsabilidade de quem governa um renomado estabelecimento e cuida de indefesas donzelas.
Assim que o distinto cavaleiro lhe foi apresentado, a condessa, que naquela noite trajava um longo vestido de veludo na cor verde como seus olhos, levantou-se e, após uma delicada reverência, ofereceu-lhe uma de suas mãos para que Ewerton a beijasse. Ao aproximar seu rosto da mão da condessa, ele pôde sentir o mesmo perfume que emanava da jovem ferida a quem ele havia prestado socorro — era o mesmo aroma de frescas flores de jasmim. Já bastante desconfiado de tudo aquilo, Ewerton se colocou ainda mais na defensiva, mas deixou que os eventos se desenrolassem para ver onde tudo aquilo iria culminar. A condessa então lhe ofereceu uma bebida, servida por outra de suas filhas — tão bela quanto a primeira –, uma jovem loira de olhos azuis como o céu em uma manhã de primavera. Com a bebida em mãos, mas ainda sem experimentá-la, ele refletiu por um instante, questionando-se se tudo aquilo não seria apenas mais um sonho. Para ter certeza dessa vez, e sem ser notado, para não parecer um lunático diante de tão belas mulheres, decidiu morder o lábio, de modo que a dor pudesse esclarecer suas dúvidas.
Talvez tenha sido esse seu maior erro, pois a mordida foi mais forte do que pretendia, resultando em um fino fio de sangue brotando de seus lábios. Esse brilhante fio escarlate se tornou sua perdição, pois, antes mesmo que pudesse reagir, logo se viu preso por braços que mais pareciam duas tenazes, enquanto a condessa se lançava sobre ele, abraçando-o como uma serpente. A bela face da condessa transformou-se em algo assustador e animalesco; os belos olhos, que antes eram de um verde estonteante, agora tinham a cor rubra do fogo mais ardente; seus dentes, longos e afiados, estavam prestes a banquetearem-se de sua carne. Ele já sentia o morno bafejar de sua boca em seu pescoço e uma língua pegajosa roçando sua pele como se estivesse saboreando-o. Ele tentou se libertar de todas as formas e, percebendo que era inútil se debater, fez a única coisa possível. Juntou o que restava de suas forças e, num átimo de desespero, soltou um grito tão alto e vigoroso que teve a certeza de que aquele ensurdecedor barulho despertaria qualquer coisa ao seu redor.
Por sorte ou mero acaso, seu grito de desespero lhe foi bastante promissor, pois quando imaginou que aquele seria o seu fim, ouviu uma voz doce próximo a ele, intercedendo a seu favor.
— Mãe! Solte-o! Tenho uma dívida de honra com esse cavalheiro! Foi ele, que ainda hoje pela manhã, veio em meu socorro. Se não fosse por ele, certamente os Cruzados teriam me capturado e talvez eu nem estivesse mais por aqui. Ele é digno de todo nosso respeito e proteção.
O abraço de morte que a condessa lhe aplicava se tornou num abraço de afeto e sincero agradecimento. As feições da condessa retornaram ao que era antes e ela mais uma vez estava encantadoramente bela outra vez. Ainda segurando Ewerton pela face, — que ainda tomado de pavor, sentia-se meio hipnotizado e sem reação — lhe beijou a testa e após deixar uma marca em sua face com uma de suas afiadas unhas, disse-lhe de forma muito afetuosa e maternal:
— Nada, nem ninguém em meus domínios tocara num único fio de cabelo seu! Nenhuma criatura da noite atentará contra sua integridade. De hoje em diante você será meu protegido!
A mesma jovem que ele ajudara pela manhã, agora tão bela quanto sua mãe — uma vez que as duas eram muito parecidas — também lhe dera um afetuoso abraço de agradecimento e logo após, soprou em sua face um pó esbranquiçado que mais uma vez o lançara no véu da escuridão. Ewerton acordara já bem tarde na manhã seguinte, com uma terrível dor de cabeça, — como na manhã anterior — ainda estava deitado no velho sofá de fronte a lareira que agora jazia apagada e mais uma vez fria e sem vida. Tudo no casarão estava igual ao momento em que ele ali adentrara; ruínas, abandono e sujeira por todos os lados. Mais que depressa, ajuntou suas coisas e logo deixou aquele assombroso ambiente. Já pelo lado de fora, na segurança da luz do sol, que naquela manhã brilhava radiante fez mais inventário de todos os acontecimentos e mais uma vez se fez convencer que tivera outro pesadelo horripilante. Seu cavalo, fora logo selado e mesmo sem preparar seu café, decidiu seguir viagem se afastando rapidamente daquele lugar.
Sobre sua sela, já a trote rápido, pegou um naco de carne para o desjejum, mas não conseguiu comê-lo devido ao sal que ofendia a ferida que ele tinha no lábio inferior…
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Ao abrir a porta, não consegui enxergar muito bem, mesmo com a visão de vampira, me senti como a míope que fui outrora…
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Ao abrir a porta, não consegui enxergar muito bem, mesmo com a visão de vampira, me senti como a míope que fui outrora antes da cirurgia, graças aos hospitais que fizeram um desconto… deixado um pouco de lado as minhas divagações, consegui sentir um cheiro… inebriante… totalmente diferente do cheiro de mofo que senti ao adentrar no castelo.
Percorri um longo caminho até aqui e, para a minha surpresa, ainda não cruzei meu caminho com o anfitrião. Eu sou apenas uma subordinada de algo maior, perdida num castelo com o meu gato. E se por algum momento eu cogitei tal façanha, não posso negar que experienciar essa jornada no castelo do Drácula, que já li no período escolar, faria algum sentido em minha “vida” pessoal. O vampirismo me trouxe diversas faces e eu me sinto sazonal em muitos momentos. Mas nessa sala em que me encontro tem um cheiro que me tortura e ao mesmo tempo me encanta.
Por que não consigo enxergar?
“Jason venha até aqui e pule nos meus braços, iremos nos guiar pelo cheiro que, parando para pensar de forma mais racional, me lembra muito nossa estalagem das lavandas.”
Quando fomos transformados em vampiros naquele lugar, o dia da minha morte e renascimento ao lado de quem mais amo, eu não podia imaginar que a lavanda — a flor que sempre me trouxera paz, a calmaria que me guiava nas noites de escritora virada por dias seguidos — seria tão presente nesse meu caminhar imortal. Agora sua cor e seu cheiro me transbordam tantos outros sentimentos, me levam ao mais profundo abismo de mim mesma e me inebriam algures.
Existe uma névoa intensa nessa sala e agora meus olhos estão se acostumando e o odor que percorre em minhas entranhas, me desliza caminhando para um ponto que tem uma outra porta. A madeira tem um toque de carvalho que acredito ser seu material.
“Devemos entrar Jason?”
“Miau”
Somos vampiros e, mesmo que imortais, estamos suscetíveis a uma outra morte. Se o Drácula aqui estiver, outros devem existir, sejam outros seres sobrenaturais ou outros como nós. Minha intuição diz que há outros vampiros e outros que possam ser futuras vítimas. O desconhecido nem sempre me encantou, vivi anos na monotonia de uma vida pacata com os amigos e meu gato. A curiosidade me despertou para esta “vida” e o amor que percorre em minhas veias resplandece nessa realidade gélida e nesse castelo assombrado. Meu coração padece dessas indagações momentâneas e giro a maçaneta.
Meus olhos descortinados agora vislumbram uma sala violeta e o aroma ainda é como um bálsamo, se isto é que me trouxera até aqui, preciso entender os fundamentos compostos desta sala. Essa cor que me lembra as lavandas…
Assim como o “violeta” está ligado ao nosso chakra coronário, irei me interligar com a minha espiritualidade. Quem diria que eu, uma vampira, ainda poderia me guiar por coisas tão humanas e entender o significado proposto dessa sala que é a cor referente a essa ligação interior.
“Venha Jason, vamos olhar por trás de cada quadro em busca de algo.”
E esse cheiro? Não sai do meu alcance, preciso examinar o ponto exato de sua emanação ou se está presente na sala inteira. São tantos quadros que iremos levar algum tempo, são todos de épocas diferentes e isso confirma meus pensamentos de antes. Será que em breve iremos encontrar alguém?
“Miau”
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Emergi das entranhas da Revolução Francesa, envolto pelo terror e caos que assolavam as ruas ensanguentadas de Paris…
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Emergi das entranhas da Revolução Francesa, envolto pelo terror e caos que assolavam as ruas ensanguentadas de Paris. Ferido durante os tumultos da revolta, fui forçado a desertar, buscando refúgio nas terras desoladas e sinistras que testemunharam a brutalidade da guerra. Meu corpo curvou-se à dor, e, em súbito, abracei o solo de uma floresta sob o testemunho de hematófagos morcegos.
Fui resgatado por uma senhora, cujas escamas no rosto a tornavam uma figura ímpar, distanciando-a de qualquer similaridade com a condição humana. Ela, detentora de um silêncio descomunal, cuidou do meu corpo como quem pretendia embalsamá-lo. Ervas e muitas tiras de tecido tocavam minha pele carcomida. Eu vi tudo!... Mas toda vez que tentava falar, indagar onde eu estava, a minha língua mais parecia uma lemimscata, limitada a movimentar-se perpetuamente em si.
Fiquei sete dias e sete noites sob a tutela da anciã, até que, numa noite de plenilúnio, ela resolveu servir-me como oferenda para uma jovem e bela mulher. Todavia, por detrás de todo aquele véu de beleza e sensualidade, estava escondida uma fera faminta. Antes que a criatura se aproximasse de mim, a velha bruxa despiu-me de todas as ervas e tecidos e, com uma jarra, encharcou-me de vinho enquanto proferia algumas palavras em língua estranha, as quais evocavam a feroz criatura que habitava o corpo mais belo que pude conhecer em vida, pois também despida, em meio à penumbra, suas curvas se desenhavam alimentando os meus olhos com um espetáculo de rara beleza.
Enquanto a cópula era presente, a dama da noite, o ser advindo das trevas, em lascívia abocanhou o meu pescoço e cravou sem piedade suas presas. Fui do prazer à dor, da dor à morte, da morte à vida, pois renasci como uma nova criatura, mal sabia eu que havia sido escolhido devido ao meu ofício quando humano. Eu era um arquiteto, um dos mais requisitados da França, e ela, a besta da noite, pertencia ao clã Toreador e estava recrutando os melhores artistas para servi-los. A fome me apertava e o cheiro de sangue me atiçava a querer atacar a anciã que assistia a tudo com expressão de prazer.
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A primeira vez que a vi foi numa noite sem lua, tão escura quanto a alma dos homens corrompidos pela luxúria. Mal sabia eu que contemplava minha própria ruína…