A Colecionadora

Falos. Colecionava-os, de todos os tipos e tamanhos. Os primeiros, comprara em sex shops. Depois que se tornara médica legista, ficou mais…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Falos. Colecionava-os, de todos os tipos e tamanhos. Os primeiros, comprara em sex shops. Depois que se tornara médica legista, ficou mais fácil conseguir exemplares reais. Mas, ainda assim, os conservados em formol não a satisfizeram por muito tempo — não tinham o viço e o vigor de um retirado de um corpo quente. 

Estava excitada com a possibilidade de ter um novo e diferenciado item para sua coleção. A experiência anterior, com um doador vivo, falhara completamente; o exemplar não durara tanto quanto o desejado, suas técnicas de taxidermia ainda eram imperfeitas. Além do mais, o doador sangrara muito — tentara estancar o sangramento, mas ele se movia demais, tentando fugir, e acabou por sangrar até a morte. Deu muito trabalho para se livrar do corpo. 

Só precisava acalmar o novo doador. Terminou de preparar a seringa para a anestesia local e disse: 

— Calma, Armandinho, tenho certeza de que farei melhor uso do que você. Não se preocupe, vou cauterizar depois, sou médica, você não vai morrer… Mas te aconselho a seguir as minhas recomendações: não se mova, não grite. Ah, sim, você não pode gritar, né? O que achou do tamanho desse que está em sua boca? Depois que retirarmos o seu, poderemos comparar qual é o maior. Qual você acha que é? O seu ou o dele? 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Desafio Sombrio 2024, Escrito por Valesca Afrodite, -Contos Valesca Afrodite Gomes Desafio Sombrio 2024, Escrito por Valesca Afrodite, -Contos Valesca Afrodite Gomes

Minha bela coleção de almas amigas

Na minha maldição de viver muitas vidas, ainda tenho a vã esperança de encontrar, além dela, todas as minhas almas amigas…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Na minha maldição de viver muitas vidas, ainda tenho a vã esperança de encontrar, além dela, todas as minhas almas amigas. E, enquanto esse momento frívolo não chega, adquiri um hábito que todos olham com estranheza: essa mania de colecionar lembranças. Dizem ser mórbido, e talvez até seja mesmo, mas o que eles sabem sobre corações mortos? Sobre a fria solidão dos séculos? Toda a minha coleção, que repousa em minha casa, em molduras gastas, em velhos baús, em álbuns, são as únicas coisas capazes de fazer o meu coração morto chegar perto de bater. Minha coleção favorita: minhas fotografias post-mortem, memórias fiéis das minhas almas amigas que um dia caminharam comigo, compartilharam seus risos, sua vida e seus gostos tão duvidosos quanto a própria eternidade.

Doralice, que sonhava com o mar, sentia como se a maré pudesse alcançá-la mesmo nas terras mais áridas. Júlia, que murmurava consigo mesma versos melancólicos com uma doce tristeza, que quase me faziam querer ser mortal e experimentar a efemeridade. Endora, a ousada, que dançava como se fosse sempre a última dança; ela tinha fome pela vida. Vitória, o farol em meio à tempestade, aquela que não se abalava; e, mesmo agora, sua imagem ao meu lado na fotografia mostra em seus olhos mortos a força que ela tinha. E minha amada Lara, que, ainda viva, ainda espera com um coração que bate com um anseio por algo que não se explica; enquanto o tempo passa, ela mantém minhas lembranças vivas.

Cada vez que uma dessas almas amigas se vai, eu morro um pouco mais em minha não vida. E, em meu luto, preciso de descanso, pois a eternidade às vezes me esgota. Então eu repouso, mas não o repouso do fim, apenas um sonho breve em meu sepulcro silencioso, onde espero, mais uma vez, a chance de despertar e passar momentos na companhia de minhas almas amigas.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

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O colecionador

Sou acumulador destas saudades | que fazem coleção dentro de mim… | Eu guardo todas co’a maior vontade, | e ao peso que elas dão não dou um fim…

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Sou acumulador destas saudades
que fazem coleção dentro de mim…
Eu guardo todas co’a maior vontade,
e ao peso que elas dão não dou um fim.

Algumas sem razão, de antiga idade,
não têm mais serventia e, outrossim,
compõem com as outras um destaque
que faz eu me orgulhar do meu jardim.

Usando de outras mais, de outras menos,
dão todas, de algum modo, o seu exemplo
às vezes, se alguém pede que as exiba…

É quando eu alivio o enorme peso
de nunca dividir o meu apreço
por coisas que ninguém pensa que exista…

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

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O que os olhos não vêm, o coração [em cera] não sente...

Na cidade pulsante de Nova Arcadia, onde o neon iluminava…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Na cidade pulsante de Nova Arcadia, onde o neon iluminava o abismo da decadência humana, Rhys, um pintor exilado, vagueava entre a vida e a morte, sua essência dilacerada pela perda e pela obsessão. Em seu estúdio, um espaço escuro e claustrofóbico, ele transformava a dor em arte, mas a arte que criava era uma celebração grotesca do horror. 

Rhys não apenas pintava; ele coletava corações. 

A cada batida de seu coração mecânico, uma vida era arrancada. Ele retirava os olhos de suas vítimas, aqueles orbes que uma vez brilharam com esperanças e medos, e os inseria nos corações, preenchendo-os com cera derretida. 

Em frascos de vidro, os olhos se tornavam prisioneiros, testemunhas silenciosas de sua obsessão. Era um ato de controle, uma maneira de capturar a essência efêmera da vida e do sofrimento. 

Ele mesmo era um enigma, um corpo sem alma, com um coração que pulsava ao ritmo de engrenagens frias. 

Os dias se transformavam em um borrão de sombras e cores, enquanto ele buscava a beleza em sua própria degeneração. 

Sem olhos reais, Rhys habitava um mundo distorcido, onde a visão se tornava uma lembrança distante, substituída por uma percepção tortuosa da realidade. 

Suas telas eram um reflexo de sua psique fragmentada. 

Ele mergulhava em uma paleta de vermelhos e negros, suas pinceladas violentas expressando a luta interna entre a vida e a morte, amor e dor. 

Cada quadro era uma narrativa visceral, uma explosão de emoções que desafiava os limites do que era aceitável. 

Rhys acreditava que, ao retratar o sofrimento, poderia, de alguma forma, entender sua própria dor. 

A cidade, repleta de sombras e ecos, tornava-se sua inspiração. Cada grito distante, cada lamento sussurrado nas ruas, alimentava sua criatividade, transformando-o em um predador de almas. 

Mas, à medida que coletava corações, a linha entre a arte e a vida se tornava cada vez mais tênue. 

Rhys se via não apenas como artista, mas como juiz e carrasco, preso em um ciclo vicioso que o consumia. 

Em uma noite fatídica, enquanto a chuva caía como um lamento, Rhys encontrou uma jovem artista que desenhava nas ruas, sua energia vibrante contrastando com a escuridão que o cercava. Seus olhos brilhavam com uma intensidade que o desarmou, despertando algo há muito adormecido dentro dele. 

Ao observá-la, ele sentiu uma faísca de humanidade, um desejo de conexão que não podia ignorar. Ele hesitou. 

A tentação de capturá-la, de transformá-la em mais uma de suas obras, lutava contra o impulso de se abrir para ela. 

Rhys percebeu que, em vez de extrair a essência de mais uma vida, ele desejava entender a beleza do que era ser humano. 

Em sua mente, o dilema se intensificava, uma batalha entre o instinto predatório e a necessidade de se redimir. 

Naquela noite, em meio a um turbilhão de sentimentos, Rhys decidiu se afastar do horror que o definia... 

Ele começou a pintar a jovem, mas não como um objeto de desejo; ele a retratou como um símbolo de esperança. 

Cada pincelada era um esforço para resgatar sua própria alma, uma busca por redenção em meio à sua perdição. 

Com o tempo, as telas de Rhys passaram a contar uma nova história, uma narrativa de luta e amor, onde os olhos que uma vez desejou capturar eram agora um convite à empatia. 

Ele percebeu que, embora seu coração fosse mecânico, ainda existia uma centelha de vida dentro dele, uma prova de que a arte poderia ser um meio de cura. 

No estúdio de Rhys, a luz fraca filtrava-se através da neblina, revelando um mundo onde o grotesco dançava com a beleza. 

As paredes estavam cobertas de quadros, cada um mais intenso que o anterior e, diante de cada tela, a dor e a vida se entrelaçavam em um abraço mortal. 

Os potes de vidro, alinhados como sentinelas em uma prateleira empoeirada, continham não apenas corações, mas a essência de vidas perdidas. Dentro de cada frasco, a cera espessa envolvia os corações e olhos, criando uma superfície viscosa e reluzente que refletia a luz em fragmentos de cor. O que os olhos não veem, o coração não sente... 

Era como se, ao capturar o olhar de suas vítimas, Rhys tivesse aprisionado também a alma que pulsava dentro delas. 

Aqueles olhos, embora imóveis, pareciam vibrar com a energia das memórias, como ecos distantes de risos, lágrimas e sussurros. 

Os quadros, por sua vez, eram um umbral entre a vida e a morte, uma passagem onde a dor se transformava em beleza. 

Rhys mergulhava seu pincel nas cores mais sombrias — o carmim profundo do sangue e o negro da noite —, e cada traço se tornava um grito silencioso. 

As formas que surgiam eram distorcidas, mas, em sua grotesca deformidade, emanavam uma vitalidade palpável. 

Os rostos que surgiam nas telas refletiam não apenas sofrimento, mas uma luta visceral pela existência, um desejo ardente de serem vistos, de serem compreendidos. 

Cada obra era uma ode à vida que brotava do horror. 

Nos detalhes mais sutis, as sombras pareciam pulsar... 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Entre Peles e Almas

Ramalho era um homem praticamente invisível, não no sentido literal da palavra, mas na forma como ele caminhava pelo mundo sem chamar…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Ramalho era um homem praticamente invisível, não no sentido literal da palavra, mas na forma como ele caminhava pelo mundo sem chamar a atenção, nunca deixou nenhum rastro. Era um taxidermista, e por isso vivia trancado em sua casa no centro da cidade. Ele restaurava corpos de animais, de qualquer criatura que encontrasse morto nas ruas.  

Sua loja era conhecida entre os colecionadores mórbidos da cidade. Mas havia algo, um segredo. Ramalho não se limitava a recriar os corpos, ele os colecionava. E havia um segredo sombrio, sua coleção não se limitava aos corpos, ele também colecionava o que restava das almas. 

Nos fundos de sua casa, havia um quarto onde ninguém entrava, nem mesmo ele, a não ser em certas ocasiões. O ar ali era denso, havia uma energia pesada. Dentro daquele quarto estavam as carcaças de sua mais preciosa coleção: humanos. Não eram apenas simples corpos, eram almas que ele retirava enquanto os mantinha vivos pelo tempo necessário. 

Seu método era perfeito. Escolhia sua vítima, geralmente homens ou mulheres solitários, aqueles que ninguém sentiria falta. Eles vinham até ele, atraídos por algum anúncio de emprego ou algo do tipo. Ramalho os convidava para entrar, oferecia um chá ou café. E quando suas vítimas começavam a relaxar, ele agia. 

Injetava um sedativo, algo que mantinha o corpo paralisado, mas permitia que a mente ficasse consciente. Era importante que suas vítimas estivessem acordadas durante todo o processo, sentindo cada instante.  

Uma noite, Ramalho sentiu que precisava adicionar mais uma peça à sua coleção. Ele escolheu uma fotógrafa, Camila, que tinha a curiosidade de explorar os cantos sombrios da cidade. Ela apareceu na loja, interessada em fotografar as peças de taxidermia para um projeto. Era perfeito. 

Quando Camila entrou, Ramalho percebeu algo diferente nela. Havia uma espécie de luz em seus olhos. Ele sorriu, sabendo que aquela seria uma adição única em sua coleção. Como de costume ofereceu chá, que ela aceitou sem suspeitar de nada. Assim que ela levou a xícara a boca, o líquido percorreu sua garganta e o efeito foi imediato. Camila caiu com seus olhos arregalados, completamente consciente, mas incapaz de se mover ou gritar. 

Ramalho a levou para o quarto dos fundos. As carcaças de sua coleção estavam dispostas nas paredes como mórbidas obras de arte. Corpos de homens e mulheres empalhados como animais com suas expressões de terror congeladas. O processo com Camila seria lento, mas ele estava ansioso. Preparou seus instrumentos e começou a trabalhar. Cada corte era feito com precisão. Ele começava pelos nervos, sempre pelos nervos, retirando-os meticulosamente enquanto a vítima sentia cada segundo de dor. O corpo permanecia vivo até que ele chegasse ao coração, onde ele retirava a última faísca de consciência, preservando-a em um pequeno jarro ao lado de cada corpo. 

Mas algo estava errado com Camila. 

Enquanto Ramalho trabalhava, ele percebeu que os olhos dela não estavam como os das outras vítimas. Havia um brilho que não deveria existir. Quando ele chegou perto de sua garganta para fazer mais um corte, ouviu algo que quase fez seu coração parar. Ela murmurava, com a boca quase paralisada, mas ainda com vida o suficiente para formar algumas palavras. 

— Você também está aqui Ramalho. 

Ele gelou. Era impossível. Nenhuma vítima havia falado durante o processo. Ela deveria estar completamente paralisada, sentindo a dor e incapaz de reagir. E, no entanto, ela o encarava com um suave sorriso que se formava vagarosamente em sua boca. 

— Você coleciona o que não entende. Mas o que você esqueceu é que nós também colecionamos você. 

Ramalho tentou ignorar. Ele avançou novamente com o bisturi, mas sua mão vacilou. Sentiu o quarto diferente. As carcaças estavam mudando. As bocas dos corpos empalhados agora murmuravam. Ele ouviu as vozes das vítimas que ele havia colecionado ao longo dos anos. 

— Ramalho, você é o próximo. 

Ele recuou. Não era possível. As almas não estavam mais aprisionadas, elas estavam ali com ele. Todas as vítimas pareciam estar em pé formado um círculo de sombras ao seu redor. Seus corpos agora o encaravam, seus olhos cheios de ódio. 

Os jarros ao lado dos corpos começaram a vibrar, e Ramalho caiu de joelhos segurando sua cabeça, tentando bloquear o som dos sussurros que agora estavam ficando cada vez mais altos.  

Cada alma que ele havia capturado não estava presa. Elas estavam se acumulando, esperando, se alimentando do medo e da dor que ele causava. E agora, elas o queriam. 

Camila, deitada na mesa, ergueu a cabeça o encarando e disse a última coisa que ele ouviria: 

— Você pertence a nós agora. 

Antes que ele conseguisse reagir, sentiu mãos o segurando, puxando seu corpo para a escuridão que ele mesmo criou. Os corpos caíram sobre ele, as suas bocas se abrindo em um grito tenebroso, enquanto a pele de Ramalho se rasgava, e sua vida sugada. 

Ramalho desapareceu, engolido pelas almas que havia colecionado. Quando a polícia invadiu sua casa semanas depois, tudo o que encontraram era um corpo empalhado, os olhos de Ramalho estavam arregalados, aprisionado na sua própria coleção que tanto amava. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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