Dois Sóis

Em que ponto do espaço e tempo nós estamos? Não há nenhuma ciência empírica para descrever o porquê destes dois sóis. Agarro-me a uma…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

Em que ponto do espaço e tempo nós estamos? Não há nenhuma ciência empírica para descrever o porquê destes dois sóis. 

Agarro-me a uma cansada luneta, ansiando ver o despir do espaço. A ferrugem descortina os meus sonhos, enquanto atravesso a senda galopando com meu cavalo biônico. Sobrevivente, astuto, de uma recém tempestade. 

Enquanto isso, locomotivas nos agridem com a verdade de que a efemeridade não é exclusiva das rosas. Preciso, portanto, alertar a Camarilha, aos meus irmãos em sangue, de que os imortais também possuem prazo de validade. 

Tudo graças a uma criatura que ousou brincar girando, insistentemente, a roleta do tempo. Preciso dar um jeito, pois nutro uma afetividade pela vida que me escorre entre os dedos como areia cósmica. 

Os dois sois refletem-se em meus olhos vítreos enquanto contemplo o horizonte partido. É na confluência destes astros que percebo o quanto somos transitórios — até mesmo nós, os que bebemos da taça da eternidade. 

A Camarilha não aceitará facilmente este prenúncio. Seremos perseguidos como heresias ambulantes, portadores de um evangelho que ninguém deseja ouvir. Mas a verdade é implacável. 

Meu cavalo biônico relinchou três vezes quando avistou o fenômeno. Seria ele mais sensível que seus mestres? Talvez os mecanismos artificiais compreendam melhor as engrenagens do universo do que nós, presos à ilusão de nossa imortalidade. 

Sigo adiante, com a luneta pendente do pescoço e o peso da revelação nas costas. Dois sois. Dois destinos. Uma única e irrefutável sentença: até os imortais são feitos de tempo. 

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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O retorno de Cernunnos

A matéria que suavemente vela o meu corpo, fora feita da suprema energia que permeia o universo. Sou um navegante do tempo a brindar com esferas…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

A matéria que suavemente vela o meu corpo, fora feita da suprema energia que permeia o universo. Sou um navegante do tempo a brindar com esferas, no Limiar sou fragmento, sou aquele que as criaturas desperta… 

O sucumbido grito meu, tentou alertá-los sobre a travessia, todavia, o Limiar rejeita e castiga aquele que não estiver em sintonia, pois o tempo sob o comando teu, é navalha a gerir carnificina. 

Na fenda mais profunda, criaturas se gladiam, são deuses de suas histórias, imbuídos em prol da glória, de tecer seus destinos, com o sangue que agora jorra. 

No âmago da fenda, repousa o ancestral vampírico, semente adormecida no ventre do caos. Das essências derramadas, serpenteia a força primitiva - Cernunnos desperta, sua coroa de chifres tecendo sombras no limite do real. Em Lencastre, receptáculo da noite eterna, fundem-se as energias prístinas... O Limiar estremece, pois nas veias do imortal corre agora o poder do deus selvagem, e do sacrifício nasce a aliança sagrada, entidade que carrega em si a sabedoria das eras, onde predador e protetor são um só no tecer dos destinos. 

Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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