Inefável
Inefável sentir o coração aterrorizado | Enfraquecer até parar | .O poder que exerço | De percorrer suas veias | Levando sua vida comigo...
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Inefável sentir o coração aterrorizado
Enfraquecer até parar.
O poder que exerço
De percorrer suas veias
Levando sua vida comigo...
Inefável.
Não foge, se não teme
Mas tema, porque é por mim
Que sua carne sucumbirá.
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Prólogo: Desperta
Quão amarga é a solidão do silêncio absoluto, o abismo que sangra em palavras mortas. Meus olhos fitam meu retorno, e de repente vejo o nascer das trevas…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Quão amarga é a solidão do silêncio absoluto, o abismo que sangra em palavras mortas. Meus olhos fitam meu retorno, e de repente vejo o nascer das trevas em meu peito, a poesia da escuridão ao lado do horizonte noturno. O espírito da finitude não beija meus lábios, de alguma forma eu sei disso. Despertei pela fresta de luz de um luar brando e vívido. Lembrei-me dos caminhos que fiz pelos sonhos mais frígidos e sei que atravessei cordilheiras distantes e precipícios símeis aos pélagos úmidos e aos arvoredos orvalhados.
A poeira ao redor sobre os lençóis de cetim escarlate, o espelho embaçado, as teias tecidas com esmero pelas aracnídeas cuja natureza é fascinante e silente. Estou acordada. O mundo humano ainda é o mesmo? A lua ainda reside no firmamento, embora as estrelas aparentem estar muito mais distantes do que outrora. Apoio-me no balaústre da varanda, quão alta esta torre se faz… posso ver o abismo e todos os pinheiros negros ao redor, junto à parte do castelo que está tomado por neve e galhos secos, sinto — enquanto estremeço — a brisa internamente densa em sua gélida composição. É inverno. Pela palidez que cai a neve em lentidão, não tenho dúvidas que estou no ápice da estação mais frígida. Quantos anos se passaram? Por que não envelheci?
Não ouço nada além do sibilar mórbido da aragem estonteante, e dos corvos a crocitarem tristes vez ou outra. Tenho pouquíssimas memórias, sinto-me como n’um nascimento prematuro, ainda entranhada em reminiscências do ventre em suas sombras, calidez e sons imprecisos, nada mais. Ainda não me fiz destrancar este umbral que me separa dos recônditos obscuros d’este lugar, pois temo — eis a razão desoladora. Do fogo que acendi na lareira umedecida, emergiu-me uma imagem efêmera de olhos escarlate e uma intensa dor em minh’alma, então senti minhas pálpebras estafantes, adormeci serena e lôbrega nos braços de alguém que não me lembro o semblante. Agora escrevo, porque posso não sentir a vida ebulir em minhas veias, mas sinto as mais fúnebres emoções que a ela pertencem.
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Drácula, Morcegos, Vampiros e Tudo Mais
A história dos vampiros remonta a tempos muito antigos, tão antigos que é difícil determinar sua origem precisa. No entanto, sua associação com os…
The Vampire (1897) by Philip Burne-Jones
A história dos vampiros remonta a tempos muito antigos, tão antigos que é difícil determinar sua origem precisa. No entanto, sua associação com os morcegos só foi estabelecida entre 1756 e 1763, quando o naturalista francês Conde de Buffon fez a ligação entre o morcego hematófago da América do Sul e o mito do vampiro em seu livro "Histoire naturelle, générale et particuliére (1749-1767)". Antes disso, havia apenas alguns relatos, no século XVI, de exploradores europeus que observaram morcegos se alimentando de sangue na América do Sul.
Em 1839, durante sua expedição a bordo do HMS Beagle, Charles Darwin fez uma observação crucial ao descrever a primeira observação direta de um morcego vampiro verdadeiro, o Desmodus rotundus, se alimentando de sangue. Este evento foi fundamental para inspirar a representação dos vampiros com características e comportamentos parecidos aos dos morcegos na literatura, como visto em uma ilustração de “Varney, o Vampiro” de James Malcolm Rymer (1845). As características que morcegos e vampiros têm em comum são incisivos afiados (apenas no caso de Nosferatu, os demais vampiros costumam ter os caninos afiados), se alimentam do sangue de outros mamíferos, possuem haréns, gostam de locais escuros e ambos também são mamíferos.
Apenas em 1897 que a ligação entre morcegos e vampiro ficou popular com a publicação do livro “Drácula”, onde Bram Stoker juntou o folclore da Transilvânia, com morcegos-vampiros e Vlad, o Empalador. Quando Stoker escreveu Drácula em 1890, alguns dizem que ele encontrou uma notícia em um jornal de Nova York que falava sobre os morcegos-vampiros, o que pode o ter inspirado, com isso a relação morcego e vampiro se consolidou mais ainda, porém ele preferiu ignorar o fato que o morcego-vampiro é uma espécie bem pequena com 9 cm de comprimento, pois toda vez que ele cita o morcego no livro ele o descreve como “um grande morcego”.
Pintura a óleo de Vlad Țepeș no Palácio de Ambras, Áustria, datada de 1560
Existe teoria de que Bram Stoker se inspirou na história de Vlad, o Empalador para escrever o livro de Drácula, mas não há comprovações para isso, aparentemente ele apenas viu o nome Drácula em um livro numa biblioteca e usou o nome por significar “diabo” em romeno para alguns mais supersticiosos e inimigos de Vlad. O nome “Draculea” tem como significado o filho do dragão. Porém, há quem diga que ele compôs a aparência de Drácula numa mistura de Henry Irving, ator e amigo de Bram, isso foi confirmado pelo próprio Bram e o poeta Walt Whitman, a quem ele admirava muito, há outras teorias de que Drácula pode ter se inspirado em Oscar Wilde, ao qual supostamente cortejava Florence Balcombe, que depois veio a casar-se com Bram. Talvez ele tivesse uma homoafetividade reprimida, e usou a personalidade de Oscar Wilde, que era na época considerado perigoso, porém fascinante, para compor Dracula. Tudo isso torna o livro de Bram Stoker ainda mais interessante.
Desmodus rotundus | Link | Autor: © Roberto Leonan Morim Novaes
Bram Stoker se inspirou bastante no folclore romeno para criar sua narrativa, inspirado por conversas que teve com o aventureiro Arminus Vambery e o explorador Henry Morton Stanley conhecidos seus do Beefsteak Club, que Henry Irving também fazia parte, principalmente Vambery que conhecia profundamente a cultura, o folclore e as paisagens da Transilvânia, assim o príncipe Vlad III Dracul da Valáquia ou Vlad, o Empalador se tornou também o conde Drácula, o nome Empalador veio por conta do hábito de Vlad III Dracul executar suas vítimas, ele recorria ao empalamento para assustar o exército Turco que na época queria conquistar a Valáquia, diziam que ele gostava de olhar as vítimas empaladas enquanto se banqueteava, ainda havia quem acreditava que ele bebia o sangue dessas vítimas. Para alguns ele era um sádico, mas para o povo da Valáquia um herói que manteve os Turcos longe por algum tempo, por conta de tantos mitos e histórias relacionadas a ele, como a crença de que bebia sangue, de que era imortal e segundo algumas análises químicas feitas em cartas de sua autoria, ele poderia ter hemolacria, uma doença rara que faz a pessoa chorar sangue, o que dava a ele uma essência mais mítica. A figura histórica e a fictícia de Drácula acabaram por se tornar uma só.
Diphylla ecaudata | Link | Autor: © Roberto Leonan Morim Novaes
Diaemus youngii | Link | Autor: © Roberto Leonan Morim Novaes
No livro o conde Drácula além de beber sangue e ser imortal se transforma em morcego e sai à noite para ingerir sangue. Existem cerca de 1400 espécies de morcegos no mundo, no Brasil existem cerca de 180 espécies e de todas essas apenas três são hematófagas, ou seja, se alimentam de sangue. Essas únicas três espécies de morcegos-vampiros só existem na América do Sul e na América Central, são elas: O morcego-vampiro-comum (Desmodus rotundus), espécie que se alimenta de mamíferos. O morcego-vampiro-de-asas-brancas (Diaemus youngii), que tem preferência por aves. E o morcego-vampiro-de-pernas-peludas (Diphylla ecaudata), que também tem preferência por aves. Os morcegos da Europa são insetívoros, eles se alimentam de insetos, então se o Conde Drácula saía à noite para se alimentar, era somente de insetos, mas o nome “Comedor de insetos” não traria tanto terror às suas vítimas quanto o nome “O bebedor de sangue”. Dessas espécies hematofagas também temos o extinto morcego-vampiro-gigante (Desmodus draculae) que provavelmente se alimentava de preguiças-gigantes e mamíferos gigantes. Seu nome é uma homenagem ao Conde Drácula. Mesmo que envoltos em mitos, os morcegos são criaturas de grande importância na nossa ecologia, não importando como a mídia os tenha mostrado, não são criaturas más, apenas pouco compreendidas, dessa forma é muito importante a preservação dessas criaturas da noite que, são tão diversas, que não se resume apenas a consumir sangue.
Referências:
DARKSIDE. SERIA DRÁCULA INSPIRADO EM OSCAR WILDE?: Relação entre o autor e Bram Stoker ia além do triângulo amoroso com Florence Balcombe. [S. l.]: Darkside, 18 fev. 2022. Disponível em: https://darkside.blog.br/seria-dracula-inspirado-em-oscar-wilde/. Acesso em: 12 mar. 2024.
PITTALÀ, Maria G. G. et al. Count Dracula Resurrected: Proteomic Analysis of Vlad III the Impaler’s Documents by EVA Technology and Mass Spectrometry. [S. l.]: ACS Publications, 8 ago. 2023. Disponível em: https://pubs.acs.org/doi/10.1021/acs.analchem.3c01461. Acesso em: 15 mar. 2024.
PROJETO MORCEGOS NA PRAÇA. História da Magia: O Mito de Drácula. Rio de Janeiro. 23 fev. 2023. Instagram: @projetomorcegosnapraca. Disponível em https://www.instagram.com/p/CpBbKhTpCRy/. Acesso em: 11 mar. 2024
PROJETO MORCEGOS NA PRAÇA. Quem veio primeiro, o morcego ou o vampiro?. Rio de Janeiro. 29 nov. 2021. Instagram: @projetomorcegosnapraca. Disponível em https://www.instagram.com/p/CW4HCfWpMsy/?img_index=1. Acesso em: 11 mar. 2024
NESTAREZ, OSCAR. De volta à estaca zero - uma jornada pela criação de ‘Drácula”. Barueri: Novo Século, 2021 (Suplemento literário).
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Okina Egao
Aconteceu em trinta e um, se não me engano, sei que foi antes da guerra isso que vou contar. Lembro-me bem, porque já naquele tempo chegava muita…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Aconteceu em trinta e um, se não me engano, sei que foi antes da guerra isso que vou contar. Lembro-me bem, porque já naquele tempo chegava muita gente vinda do Japão para São Paulo, algumas famílias de feições asiáticas traziam seus costumes e a tradição muito antiga dos japoneses. Existem até hoje bairros inteiros que conservam essa tradição. Naquela época muitos imigrantes se misturavam nas ruas e nas fábricas de São Paulo. Eu trabalhei na indústria quando jovem e vi muito bem isso tudo.
Tive amigos de todo jeito quando morei na capital, havia gente de toda a parte entre os meus conhecidos. Trabalhávamos na fábrica de latinhas, naquele calor da máquina que aquecia o metal para prensar as formas. Um desses amigos era um japonês de meia idade — denunciada pelo surgimento de alguns cabelos brancos — e recém-chegado do Japão; seu nome era Ishiro, possivelmente era. Não sei ao certo qual era seu nome porque logo os operários o chamavam por uma corruptela do outro idioma que era Ichinho. Aquele era um homem pequeno, baixo de altura e franzino de músculos, mas incrivelmente forte e tinha um rendimento impressionante na linha de produção. Tive uma breve amizade com ele, mas era difícil a aproximação, talvez muito se deva à sua dificuldade com o nosso idioma. O seu Ichinho era um sujeito recluso e pouco comunicativo, falava por palavras soltas que, quando juntadas, era necessário deduzir a mensagem pelo contexto. Além disso, era também naturalmente solitário, não estava sempre de bom humor, mas era uma pessoa muito amável quando possível.
Me lembro dos japoneses como gente muito hospitaleira, me vem na lembrança uma família que era vizinha do seu Ichinho, se instalaram numa casa perto de onde eu morava e, muitas vezes que passei por lá, passava horas conversando com eles, fazendo amizade e trocando costumes, assim aprendi um pouco da bela cultura asiática. Descobri que eles também tinham uma imagem de estranhamento daquele homem, achavam ele misterioso e recluso demais. Às vezes o Ichinho estava na casa deles, mas nunca os convidou para a própria, diziam que ele nunca acendia as luzes e a casa vizinha estava sempre escura.
Meu pequeno grupo de amigos gostava muito de pescar e caçar nos dias de folga. O trem era muito barato naquela época, comprávamos uma passagem até a alta paulista onde costumávamos ficar até uma semana ou mais, quando possível. Certa vez perguntei ao Ichinho se ele gostava de pescar, tive que explicar com gestos até ele entender, depois com um sorriso me respondeu “Peixe, eu gosta, eu pegava peixe Japão”. Convidei ele para uma de nossas aventuras nos rios da alta paulista, me surpreendi que de pronto ele aceitou, talvez tivesse, com o convite, encontrado o passatempo favorito do homem.
Nos tornamos mais amigos desde então. Embora ele falasse daquele jeito de quem não domina a língua. Com o passar do tempo começamos a entender melhor as coisas que ele pretendia dizer. Descobrimos que Ichinho tinha deixado a família, todos eles saíram do Japão, mas foram para o norte, para o estado do Pará, só ele, aparentemente, tinha vindo para São Paulo, entre outras coisas ele também nos contou que foi militar e notamos que tinha uma habilidade de mira excepcional, muito útil nas nossas caçadas. Talvez pelo tempo que servira, ainda carregava consigo uma espada que agora servia como facão para abrir picadas no mato. Nós que só tínhamos facões baratos, de aço fraco, ficávamos admirados de ver o homem tirar aquela antiga espada japonesa da cinta e sair golpeando os galhos, cipós e arbustos da mata densa. Em questão de instantes a trilha se formava na nossa frente, tamanha capacidade de corte daquele artefato e habilidade de quem o empunhava. Já ouvi a palavra Katana para se referir às espadas japonesas, mas depois de muito tempo me esclareci que os vocábulos que ele emitia que pareciam algo como “oxaxi”, se referiam a wakizashi, que é um tipo menor de espada, um pouco mais curta que a Katana.
Seu Ichinho, nos momentos de lazer, era uma pessoa alegre, mas logo começava a transparecer para mim aquele tal lado misterioso que seus vizinhos se referiam. Esse comportamento estranho não aconteceu nas primeiras vezes que fomos até a alta paulista, mas com o passar do tempo percebi um padrão suspeito. Quando era noite, já quando a maioria estava dormindo, Ichinho desaparecia do acampamento, depois ouvia-se o estampido de um tiro no meio do mato, então ele reaparecia. Passaram-se algumas noites em que o mesmo se repetia. Certa vez o vi botar a cartucheira nas costas, junto com a espada, e se embrenhar fora da trilha. Outra vez, junto de uns amigos, o vimos voltar da escuridão carregando os mesmos apetrechos, alguém perguntou “E então, matou algum bicho?”. Ele respondeu “Não, escapou”. O que era muito estranho, nas caçadas nunca o vi errar um único disparo e, nas nossas competições de tiro por brincadeira, era capaz de acertar uma garrafa a quase cem metros, coisa que nenhum de nós conseguia.
Mas esta história estranha tem seu lado obscuro que só se justifica por causa de uma ocasião. Numa dessas caçadas, já era tarde da noite — uma noite escura onde até o mato estava silencioso. Estávamos perto do inverno, no mês de maio. Os bichos estavam quietos e as caçadas não renderam nem sequer uma pequena paca, mesmo os peixes no rio eram difíceis de fisgar. Acho que naquele mês só fomos à alta paulista pela diversão do acampamento, passar um breve final de semana. No sábado eu estava sozinho perto do fogo quando vi Ichinho sair da tenda armado com seus dois apetrechos. Acho que ele esperava que não haveria ninguém ainda acordado, mas sem querer eu o interceptei. Ele chegou junto do fogo e se sentou um momento. Naturalmente perguntei “Que vai fazer?”. Ele parecia bem mais sério que de costume, me respondeu “Matar bicho, não queria, mas precisa… Seguir eu, seguir eu… Eu não quero mais… Seguir eu, seguir eu… Precisar matar”. Ele estava trêmulo e parecia nervoso, o modo como falava era desolador e o mal português era ruim até para ele. Estranhei aquele comportamento, mas ele se levantou e se dirigiu para o mato, sumindo na escuridão.
Pensei por um momento, não entendi o que ele disse, mas imaginei que fosse um pedido para que eu o seguisse. Embrenhei-me na floresta atrás dele, não o encontrava, ele não carregou nenhuma lamparina consigo e sequer eu o fiz. Tudo estava escuro, andei alguns metros me afastando da fogueira. Ouvia ao redor de mim o mato retorcer, mas não sabia identificar de onde vinha, minha única referência era o fogo do acampamento que eu deixava cada vez mais longe, ia mudando a todo momento a direção do meu caminho perto da margem do rio, conforme achava que escutava algo andar naquela floresta. Em certa altura percebi que seguia dois ruídos diferentes, em lados opostos dos meus ouvidos, um se aproximava e outro se afastava.
Ouvi o estampido de um tiro e nessa hora percebi algo se deslocar com uma velocidade incrível, um espectro pálido, que pensei que fosse um grande animal, correu rápido e perdi sua trajetória, que é bem verdade, não soube ao certo estimar tamanho ou qualquer outra coisa. Olhava por todos os lados enxergando muito pouco. Aquelas passadas no escuro, senti se aproximarem de mim, mas eram indiscerníveis para os meus sentidos, desejei ser uma coruja ou um morcego nessa hora. Quando a coisa parecia estar muito perto, já podendo me alcançar, ouvi um grito nas minhas costas. Um grito gutural e aberto, de quem empenha um golpe brutal. Assustei-me e repentinamente me virei, vi o homem com a espada desembainhada, aquele arco da lâmina reluzindo como um espelho era a única coisa discernível no escuro, dei um salto para trás caindo nas folhas de um arbusto e o pequeno japonês veio em minha direção, pensei que fosse me golpear, mas ele chutou algo no chão e depois abaixou a espada, percebi então que alguma coisa fugia fazendo um barulho horrível, já estava distante de nós, cruzou o mato e caiu nas águas daquele rio.
Perto de mim o homem estava muito nervoso, chegou mais perto indagando.
“Que você fazendo?! Que você fazendo?!”
“Segui você!” Respondi
“Você não seguir eu, não seguir… Eu fui pegar bicho”
Fiquei confuso na hora e perguntei:
“Você não pediu pra eu seguir você?!”
“Não pediu!” disse, bravo.
Voltamos para o acampamento seguindo a trilha daquela luz da fogueira que deixamos, sentamo-nos novamente perto da brasa, curiosamente ninguém acordou, refleti que afora o tiro e o grito de Ichinho que aconteceu um tanto longe das tendas dos outros companheiros, aquele acontecimento todo foi bem silencioso, mas pareceu barulhento para mim, pois foi pavoroso. Meu coração ainda estava disparado e eu, sem entender nada, fiz um gesto pedindo alguma explicação.
Seu Ichinho não entendeu aquele gesto, ainda estava sério e encarava o fogo pensativo. Depois insisti, não me lembro que palavras usei, mas me lembro como ele me respondeu. Arreganhou os dentes cerrados, fazendo uma careta que mostrava até as gengivas, apontava para a boca e dizia.
“Seguir eu, seguir eu… Como chama isso?”
Não compreendi de pronto o que ele quis dizer, mas como apontava para os dentes que mostrava, respondi “Sorriso”
“Sorriso grande… Seguir eu” ele disse.
Na manhã seguinte, pouco depois de recolher as coisas do acampamento e dobrar as tendas, fui andar na margem do rio, perto de onde me lembrava ter acontecido tudo aquilo na noite anterior. Poucos acreditam quando conto, mas ao ver marcado na terra da barranca o rastro do que eu imagino que foi a investida do golpe com a wakizashi, olhei ao redor pelo chão e encontrei algo absolutamente aterrador. Era uma mão humana, ou ao menos parecia um pouco humana, estava seca como a de um cadáver, pálida e tinha unhas negras compridas. Tomei aquele objeto com um lenço, só quando o ergui do chão é que percebi a natureza do que era. Há quem diga que foi o susto, isso bem justifica a minha atitude depois de segurar aquilo, mas juro que ainda acredito na minha versão primeira. Senti que os dedos se mexeram e então, rapidamente, arremessei aquilo no rio.
Não contei nada a ninguém, não quis criar nenhum problema ou causar desconfiança dos outros ao meu amigo japonês, acredito que naquela noite ele salvou a minha vida. Na semana seguinte soube que Ichinho pediu conta da fábrica, nunca mais o vi desde então. Seus vizinhos me entregaram uma carta que ele deixou com o meu nome. A carta era muito curta e muito simples, com aquele mal domínio da língua.
“Fui embora, vou Pará ver família, ficar com eles agora. Eu poder. Obrigado amigo. Sorriso grande não seguir mais”
Junto havia uma gravura, arrancada da página de um livro, quem sabe. No pedaço de papel, cercado de símbolos da escrita oriental que eu não entendo, tinha a imagem do que parecia ser uma máscara japonesa de samurai, mas tinha aspectos horrendos e assustadores, um rosto magro, com olhos penetrantes e o mais expressivo era aquela boca com os dentes à mostra e presas pontiagudas saltadas do canto. A mesma letra desajeitada do bilhete escreveu embaixo da gravura “Sorriso grande”.
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Conjuntra
Meu celular descarregou e agora tenho que anotar tudo em meu diário, ainda estou juntando algumas informações dessa sala em que me encontro…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Meu celular descarregou e agora tenho que anotar tudo em meu diário, ainda estou juntando algumas informações dessa sala em que me encontro. A cor de antes não se faz tão presente. Algo me diz que…
—Miau
— Jason querido, estou indo!
Tiramos quase todos os quadros possíveis em busca de alguma pista e agora o Jason, de frente para este quadro com o número quatro escrito envolto de rosas negras com uma serpente abocanhando o algarismo, me convida a abrir a maçaneta e entrar no oculto que eu tanto esperava.
— Miau
Jason me leva até algo.
Mal entrei no quarto para analisar tudo ao meu redor com calma, e já me deparo com um diário que muito me assusta, pois está datado em um ano muito distante do que estamos.
Quem será a dona destas palavras tão solitárias? Ela já teve acesso ao anfitrião? Será que ela ainda está viva?
“Benquisto amigo.
Admito minha insanidade ao crer na necessidade de oferecer-lhe o meu perdão, uma vez que és um ser inanimado, incapaz de ouvir-me ou sentir quaisquer sentimentos a respeito de minha terrível desatenção. A despeito disto, não devia tê-lo abandonado sobre a antiga arca no interior da sala de jantar, porém não controlei o impulso de atrair-me pela vista do antigo poço do pátio interno à luz do dia, envolto à neve nobre e alva, assentado sobre o pátio delicadamente. Sinto-me cada dia mais alheia e enfraquecida. Não usarei minha fraqueza como desculpa.
Penalizo-me por nossos segredos íntimos serem decodificados por uma figura masculina desconhecida. Pouco importa para mim sua origem, no entanto admito sentir o impulso de esbofeteá-lo no momento em que seus dedos tocaram sua encadernação e os óculos deslizaram em direção ao nariz assim que a respiração alcançou as páginas, embora, caso minha falha não fosse certa, descobriria não só o bisbilhoteiro como tantos outros embaixo do mesmo teto, como a mulher pálida de longos cachos cobres e seu gato, ambos sorrateiros como eu, escondidos nas sombras. Gostaria de poder conhecê-los, porém escondo-me em meu quarto por detestar quaisquer interações sociais.”
Me sento na cama para mergulhar ainda mais nessa evidência. Não consigo discernir muito bem os segredos dessa moça cujo nome parece ser Astrid, talvez ela tenha tido grande relevância para o aristocrata e poderia nos ajudar a encontrar as vozes que circulam no castelo.
Bisbilhotei ao máximo o diário, indo contra a minha vontade e me entregando na curiosidade de encontrar outra pessoa nesse castelo. Levantei-me da cama e já ia anotar no meu diário os acontecimentos, quando sinto um cheiro gostoso. O único alimento para esse corpo em que habito. Eis que me deparo com uma jovem atônita entrando no quarto, aparência jovial assim como minhas amigas de Fortaleza. Os cabelos cacheados, morena e…
— Jason!
— Miau!
— Meu amor, tenha cautela, preciso de sua ajuda neste momento, lembra de tudo o que conversamos. Estamos distantes de casa e precisamos ter calma, esconde essas presas agora.
Jason escondeu as presas e as garras, atendendo fielmente aos meus pedidos. Ele, vez ou outra, desperta um lado mais aguçado do vampirismo. Acredito que seja por ele ser um animal. Ainda estou aprendendo sobre tudo isso.
— Olá! Não tenha medo. Ele estava apenas sendo territorial. Chamo-me Maria e ele Jason, como já deve ter percebido. Como se chama?
Pergunto para a moça que está prestes a fugir. A jovem mulher quase despenca ao lado da cama, parece enfraquecida, meço a temperatura dela, porém ela se afasta bruscamente, provavelmente sentiu o quanto minha temperatura é diferente das demais pessoas, por eu ser uma vampira.
— És um dos moradores do castelo, estou certa?
Ela me questiona com um tom de voz arrastado.
— Não me considero bem uma moradora, sinto que estou apenas de passagem. Peço desculpas novamente pelo Jason, estávamos à procura do anfitrião e do diário que acabei encontrando… Aliás, você é Astrid?
Acho impossível que essa mulher tenha vivido anos sem ser uma vampira. Porém, não custa nada perguntar.
— É bom olhar para um rosto sob a claridade, não como vultos encobertos nas sombras. Sou Astrid Lencastre Mascarenhas.
Respondeu ela, massageando os pulsos de veias azuis salientes.
— Estamos em uma década diferente da qual está nas anotações do seu diário, Astrid. Hoje em dia temos uma tecnologia mais avançada e que as mulheres têm mais liberdade de escolha. Ainda falta muito a ser melhorado, mas posso te ajudar se quiser entender um pouco mais. Pergunto-me como viveu todos esses anos trancafiada neste lugar assombroso, sem se deparar com criaturas que vagueiam pela noite à procura de um pescoço para abocanhar. Tens noção que o anfitrião é um dos vampiros mais antigos?
Fico a pensar como ela, com essa aparência tão jovem, tem vivido aqui por todos esses anos sem se tornar a presa de alguma criatura do anfitrião. Será que ela é alguém tão importante para ele? Preciso descobrir mais detalhes e assim poderei entender melhor o que neste castelo me aguarda.
— Papai, e o meu colégio...
Respondeu Astrid levando a mão a boca, interrompendo sua frase, chocada com a notícia da passagem do tempo e da inexistência de pessoas do seu passado.* (Acrescentei)
— Já não existem mais!
Respondi confirmando seu maior temor
— Não estou pronta para ponderar a respeito.
A jovem mulher deixa o olhar vagar pela janela em busca de consolo na paisagem exterior.
— Eu escutei algumas vozes no castelo, mas não me atrevi a procurar outras pessoas senão o anfitrião.
Dei outro rumo ao assunto afim de dissipar a névoa melancólica que estava prestes a nos afastar.
— Eu a vi, ocorreu-me sobre sua necessidade de esconder-se, como eu. Não estou aqui por vontade própria, como sabes.
Ela aponta os dedos pequenos e pálidos em direção ao encadernado aberto sobre a cama.
— Não conheço o anfitrião, ele e seu estranho advogado, embora o tenha visto poucas vezes, geralmente pela noite, acredito que papai o tenha pedido para aterrorizar-me com suas estranhezas após...
— Quanto tempo você acreditava estar aqui, Astrid?
— Não compreendo parte do que vem ocorrendo e nada sei sobre o tempo, sinto-me ainda presa ao pesadelo remoto, justamente o qual venho vivenciando dias após dias.
— Entendo.
— Sonhas, Maria? Não sei discernir meus sonhos, ou melhor, pesadelos, desde minha estada neste castelo. Quando sonho vejo um relógio incrustado em ametistas, repousa ao meu lado, neste leito, embora eu o tenha abandonado anteriormente. Eu o aprecio e pouco me espanto no momento em que se transforma em uma obra de arte composta por ametistas rubras como o sumo da vida corrente em minhas veias, porém o rubro verte-se por todo o leito, emporcalhando a chemise em demasia, mesmo eu torno-me pegajosa e vermelha, e o sonho parece-me uma lembrança, uma lembrança ruim, a qual já não posso revelar. No fim, penso despertar, porém ainda estou presa ao sangue, mergulhada, e não mais no vermelho de outrora, agora a cor torna-se escura. Envolta ao plasma sangrento e viscoso, alcanço meu relógio de algibeira ao lado, e ao pousar meus olhos sobre ele, deixando a marca de minha impureza gosmenta e escorregadia, o dispositivo move os ponteiros freneticamente ao mesmo tempo em que o sino da catedral próxima, badala teimosamente quatro vezes.
Revelou Astrid.
— Bom, faz algum tempo que não tenho sonhos no meu leito, almejo muitas coisas, as quais minha alma gélida de alguma forma preenche o buraco que ficou quando a minha vida mudou drasticamente. Agora que você citou esse sonho, preciso te dizer, que ao entrar neste quarto, me deparei com um quadro com uma serpente e o algarismo quatro envolto de rosas negras, estas rosas para mim remetem a morte e nisso eu tenho experiência de sobra. Precisamos encontrar esse relógio, sinto que ele irá nos levar até as vozes e talvez até onde um certo aroma tem me inebriado desde que fui corrompida por uma sala violeta.
Expliquei a Astrid.
— Sei onde está o relógio incrustado em ametista.
Sinto certa surpresa por Astrid esconder essa informação durante todo o nosso encontro e me pergunto se seria muito intrometida em pedir sua ajuda para encontrar o objeto. *
— Por que nós três não saímos em busca das respostas?
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A Casa da Travessa
A ingenuidade é algo bobo, mas com o passar dos dias, meses e anos, simplesmente se torna uma burrice. Escrevo aqui como se fosse um diário, já que me…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
A ingenuidade é algo bobo, mas com o passar dos dias, meses e anos, simplesmente se torna uma burrice. Escrevo aqui como se fosse um diário, já que me faltam páginas nos cadernos, usei-os com intensidade escrevendo cartas que findaram a mim em dias melancólicos. Escrevi muitas cartas e, em todas elas, meus anseios sobre a casa… é a tal casa que irei preservar não só nas lembranças, mas também na pele, todos os fragmentos mais dolorosos que vivenciei.
É inútil me ater aos detalhes quando, nas palavras de meu âmago, estarei apenas descrevendo cada momento que me fez desconfiar de minha sanidade. Estive à beira muitas vezes, não só da loucura, mas também da vida, da fé e esperança.
Aqui então começo o meu pesar.
Quando mais nova encontrei o que achava ser o amor da vida toda, na mente adolescente e cheia de floreios, é fácil acreditar que a vida tem belas cores em todas as fases. Não me influenciei só pelo amor, mas também pela falta dele em casa, um lar conturbado deixa a mente de qualquer um à beira do abismo e eu só queria fugir, não tinha idade suficiente para tal, então, na primeira oportunidade, eu só abri a porta e lá quis ficar.
Nunca me esquecerei daquela casa. A casa da Travessa. No meio de tantas ruas e avenidas longas, numa viela de travessas eu me enfiei. Finalmente achei que um novo lar me traria bons sentimentos, só que as emoções ruins venceram e apagaram qualquer vestígio de algum dia ter visto aquela casa com belos olhos.
Quando vivemos em uma casa que está em completo caos, temos o intuito de achar que o piso do vizinho é melhor. Mas que piso? Aquela casa estava em um ar de insalubridade por anos, ceras de velas nas paredes. Sujeira de muitos anos de uma mente insana que dominou o local sem a menor assistência.
O ditado que a grama do vizinho nem sempre é o melhor, cabe bem neste parágrafo. Foi tudo apenas uma mera ilusão. O piso era encardido e nem com um ano de limpeza foi possível tirar todo aquele sebo que estava encarnado.
Submeti-me ao fracasso desde que dei uma chance ao tal amor e lá fui eu perder meu primeiro desabrochar, minha flor já estava corrompida e a mente aturdida nas palavras do potoqueiro.
Quando eu subia aquelas escadas, eu sentia como se fosse a maturidade batendo à minha porta. Era tão nova e tão bobinha, achava que a morte era apenas na velhice. Mal sabia que a minha mente estava morrendo a cada segundo naquela casa.
A casa era uma tragédia por si só, o fundo mais imenso do profundo poço existente. Minha alma ficou assim desde que entrei pela primeira vez, eu demorei a perceber com as nuvens e arco-íris ilusório. As lembranças que tenho do começo da minha jornada nesta casa são de uma pessoa que eu jamais voltaria a tornar-me.
Hoje sou o que sou, caminhando de mãos dadas com a esperança que vaga vez ou outra, e também sou as cicatrizes dessa época e, caro leitor, eu achei que jamais iria ficar bem. Não querendo ser motivacional neste desabafo, mas acredite, a vida ainda pode te surpreender.
Você acredita em fantasmas? No sobrenatural? Na espiritualidade?
Afinal, o que é um conglomerado de perguntas que nos rodeiam com tantas respostas no mundo atual? O que as pessoas estão pensando? O que você pensa e o que eu estou pensando agora?
Vou compartilhar com você o que mais me assustou nessa vida. Foi quando eu senti aquele vulto, não apenas de forma etérea, senti o seu toque gélido em meu pescoço. Estava tentando dormir com a minha criança ao lado. Aquela folga que toda mãe aproveita me foi tirada deixando meus pelos eriçados o dia inteiro. Ainda bem que tenho a mente forte e, mesmo incrédula com o que avistei me empurrando e sufocando contra a cama, eu consegui me afastar. E olha que neste dia eu estava faminta…
Eu sei a dor da fome, sei o que é ouvir o estômago embrulhando diversas vezes por dia. Acostumei-me com isso e já sabia até a hora que ele iria roncar de novo. Talvez seja por isso que ASMRs não me agradam. Aqueles sons baixos me lembram da minha única companhia fora o meu filho. Ouvir o estômago roncar mais e mais naquela casa escura.
Quando você entra numa casa que o cadeado não fecha, já suspeite logo. Algo normal não está ali dentro, e quando apenas uma lâmpada funciona, então saia correndo o quanto antes. Esse é o manual de sobrevivência cuja experiência posso te alertar. Não sou a voz da verdade, e ainda assim tudo que falo aqui é verídico. É duro ler algo que já foi macerado em uma pessoa quando você não costuma pensar em tais fatos. Nossa rotina às vezes não nos dá espaço para pensar no alheio e talvez seja por isso que mesmo em sociedade, às vezes nos sentimos tão sozinhos.
Destrinchei alguns fragmentos da casa, e com tantos pensamentos me levando a esse desabafo, te digo que ouça meu conselho. Até um homem de fé que prega a palavra correu ao entrar na casa, ele disse que precisaria derrubar tudo e reconstruir. Quando se tem apenas uma refeição por dia, como se pode derrubar o seu maior pesadelo? É fácil falar vendo do lado de fora, sentindo apenas a energia uma vez por dentro. Aquele ambiente era o mais profano dos lugares.
Você que gosta de casa assombrada, será que gostaria de sentir o horror que ela realmente proporciona?
A casa da travessa foi o meu maior medo por anos, eu senti e vivi a morte quase todos os dias. Eu não risquei só as folhas deixando cartas pela casa, acabei riscando também o meu corpo, mas a tinta era de outra cor. Não deixo mais um pingo sequer dessa tinta me atormentar, já agonizando tudo que tinha pra viver quando morei na travessa.
O declínio mora naquele lugar, a casa estava aos cacos e não só por ela ser daquele jeito, os membros passados não cuidaram bem e ela sentiu. Eu a julgo porque fui uma moradora que sofreu os traumas da casa, ela descontou em mim pensando que eu seria só mais uma, e eu superei as dores dela.
Como que se abraça uma casa?
A Bíblia com as fotos furadas nos rostos e apenas uma foto normal. As palavras clamando por um nome daquele em quem acreditam, mesmo algo estando fora das leis divinas.
A crença na existência se fez permanente naquela mente anterior. Eu fui apenas uma câmera para registrar tudo aquilo em alguns momentos, mesmo que minha lente estivesse embaçada e quebrada.
Guardo em mim as emoções daquela época e te digo, caro leitor, não entre numa casa da travessa. Principalmente se ela tiver tudo que te falei. Sua mente pode não ser mais a mesma. Ou você supera ou você encerra sua doce vida.
Não apague a única luz que tem dentro da casa. Ela pode ser a única fagulha que existe também em você. Se nem o eletricista conseguiu funcionar todas as luzes do ambiente, quem sou eu para apagar a única coisa que me restava.
Um dia eu saí e o banheiro caiu, ainda bem que ninguém se machucou. Ouvir os detalhes da casa não morando mais lá, me faz sentir naqueles jogos de realidade virtual, porque eu senti tudo e as cicatrizes que hoje estão fechadas, não doem mais como antes. O único declínio que me cerca é o da minha mente se deixar levar pelas lembranças mais dolorosas da casa da Travessa.
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4. Jardim da Morte
Na penumbra de um jardim oculto, úmido e sombrio, onde não existe tempo, onde todas as coisas sempre estão perto de findar, porém nunca se extinguem…
Kay Steventon - The Wheel of Fortune
Na penumbra de um jardim oculto, úmido e sombrio, onde não existe tempo, onde todas as coisas sempre estão perto de findar, porém nunca se extinguem; onde as flores eternamente exalam seu perfume como suspiros finais e os raios de uma lua cheia incomum derramam-se pálidos sobre a relva, uma mulher está sentada esperando. Os animais que lá estão já não podem ser diferenciados dos objetos que compõem aquele cenário, pouco se movem e mal fazem ruídos, parecem apenas aguardar, se ouve apenas o sussurro inquietante do vento, como se fosse um eco dos lamentos dos que se foram. Uma ceifadora, envolta com sua capa negra como uma mortalha, chega e se senta de frente à mulher em uma mesa de mármore gasta, com fissuras e imperfeições. A mulher, que aparenta estar habituada a toda aquela encenação, inicia a conversa:
— Vamos jogar xadrez desta vez?
A ceifadora responde com uma voz calma:
— Hoje não, deixarei você escolher.
A mulher, imersa em seus pensamentos, lembra-se que em vida era boa com cartas:
— Vamos jogar carteado dessa vez, nesse eu sou boa. — Murmura ela, com uma pontada de esperança de que dessa vez iria ganhar.
A ceifadora pega sua maleta, um artefato antigo coberto de runas estranhas, e tira um baralho tarô. As cartas, gastas pelo tempo, são embaralhadas com um ranger sinistro.
— Sério? Você vai ler meu futuro? — A mulher pergunta, com um riso nervoso. — Estou morta, não tenho um futuro.
— Apenas vamos jogar e ver o que pode acontecer. — Responde a ceifadora.
Com habilidade ela segura as cartas como se fosse um leque e olha para a mulher: — Tire uma carta, para que se dê início ao jogo.
A mulher olha a ceifadora com dúvida e pergunta:
— O que isso significa? Normalmente você é quem escolhe o jogo e é a mais falante e agora fica nesse silêncio e me pede para escolher uma carta? — A mulher dá mais um riso nervoso — Não era esse tipo de jogo que eu estava falando, há algo que eu preciso saber?
A ceifadora suspira e olha para a mulher:
— Há certas regras aqui no Sheol que não posso burlar, porém há outras que algumas pessoas que estão fora dele podem. E é isso que estou fazendo agora, fazendo um favor a um conhecido que pode burlar essas regras. Então apenas escolha a carta.
A mulher fita as cartas com uma mistura de temor e esperança. Sem saber muito bem o que esperar. A mulher tirou uma carta do leque e entregou à ceifadora que sorriu e mostrou a ela a carta.
— Ótimo, la roue de fortune. — Cantarola a ceifadora numa pronúncia perfeita e musical — A roda da fortuna.
— E isso significa que? — A mulher pergunta curiosa.
A ceifadora sorriu para ela, segurou as mãos da mulher e falou:
— Essa carta significa o ciclo da vida e com ela irei dar a você a oportunidade de ver a sua amada, pois eu sei que isso que passa pela sua cabeça o tempo inteiro, não é?
— Sim, isso passa pela minha cabeça sempre, falo sobre ela para você o tempo todo, mas se ela tiver que morrer para que isso ocorra eu prefiro não a ver.
A ceifadora falou: — Nesse momento ela está num local envolto em magia, num local de vivos, mortos e não tão mortos — a mulher arregalou os olhos — Calma, ela está viva e consciente, é claro — disse a ceifadora acalmando a mulher — Então será possível que vocês tenham um breve encontro, nesse exato momento, então aproveite.
— Eu tenho que ir? — A mulher fez uma careta.
— Oras, mas é claro, estou te dando a oportunidade de encontrar a sua amada em um lugar além dos véus da morte. Só aproveite, nem todos têm a chance de reencontrar os que perderam.
— Isso meio que parece uma pegadinha — diz a mulher ainda em dúvida.
— Oras, querida, apenas vamos, não há muito o que se fazer aqui no Sheol, um passeio fora irá ser bom para você, e não se preocupe, estarei por perto para te trazer de volta. — A ceifeira se levanta sorrindo e segura a mão da mulher — Então, vamos?
A mulher fecha os olhos e inspira profundamente e solta o ar por hábito:
— Sim, vamos, não é sempre que algo diferente ocorre nesse lugar.
E assim, uma porta roxa, adornada de arabescos prateados nas bordas envolta em uma névoa púrpura se materializou, a mulher e a ceifadora desaparecem daquele jardim incomum, deixando para trás apenas o eco de suas palavras e as cartas sobre a mesa.
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O Eterno Mestre do Terror: Edgar Allan Poe
Edgar Allan Poe é o Mestre da narrativa macabra e do mistério, deixou um legado literário…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Edgar Allan Poe é o Mestre da narrativa macabra e do mistério, deixou um legado literário profundamente influente que ecoa através dos séculos e há de ecoar, perpétuo, como um grito num abismo sem fim. Nascido em 1809, Poe viveu uma vida marcada por tragédias e dificuldades, isso moldou sua visão sombria do mundo e tornou sua escrita incomparável.
Poe começou sua carreira literária como crítico, destacando-se por suas análises afiadas e incisivas. No entanto, foi como escritor de contos e poemas que ele alcançou fama duradoura. Suas histórias, permeadas por elementos góticos e sobrenaturais, exploram os recantos mais sombrios da psique humana, mergulhando em temas como morte, insanidade e o desconhecido. O escritor e poeta influenciou todos os autores posteriores a ele, contos como “Os crimes da Rua Morgue” e “O Gato Preto” tornar-se-iam, quem diria, em obras relevantes não apenas na literatura, mas em todos as outras artes e, também, nos movimentos artísticos, tais como o romantismo, além de abraçar a escrita policial que veio a ser valiosíssima para autores como Conan Doyle e Agatha Christie (BELLIN, 2011).
Entre suas obras mais conhecidas, também consta "O Corvo", um poema que narra a visita de uma ave misteriosa a um homem atormentado pelo luto e pela perda. A musicalidade e a melancolia deste poema o tornaram um clássico da literatura mundial, ecoando através das eras e sendo adaptado para o cinema de forma recorrente e de maneiras singulares, sendo também símbolo na cultura gótica com sua marcante frase “Nevermore”.
Além de "O Corvo", Poe é célebre por contos como "O Coração Delator" — que, aliás, é um dos meus preferidos; nesta obra-prima, um narrador perturbado confessa um assassinato motivado pela obsessão com o olho de um idoso e, no final, sem spoiler, a profunda angústia e aflição são transmitidas ao leitor — algo que, para mim, nenhum outro escritor foi capaz de fazer com tanta maestria. "A Queda da Casa de Usher" é outro clássico de Poe, uma história de decadência e loucura que captura a imaginação com sua atmosfera sinistra e surreal; atualmente este conto foi adaptado, e modernizado, para uma série da Netflix, junto com outros elementos e obras importantes do autor, como a extravagância de “A Máscara da Morte Rubra”.
A habilidade de Poe em criar um clima de suspense e horror, aliada à sua prosa cuidadosamente elaborada, estabeleceu os padrões para o gênero do conto de terror e influenciou inúmeras gerações de escritores. Sua habilidade de penetrar nas profundezas da psique humana e explorar os abismos da alma humana continua a fascinar leitores até os dias de hoje. No entanto, o autor também foi influenciado pelos autores de sua época e antecessores, nomes como Lord Byron, William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge teriam sido suas instigantes leituras, com mistérios boêmios, descrições poéticas e sobrenaturais acontecimentos (BELLIN, 2011).
Segundo García (2019), Edgar parece residir em cada espectro da literatura sombria, até mesmo no que viera antes de sua existência, e não há como negar essa verdade, aliás, devo reiterá-la em outro aspecto: Poe habita os corações de toda a literatura gótica em razão do seu explorar profundo, em cada uma de suas tramas, das nuances perturbadoras da humanidade; sua técnica narrativa foi e é um marco tão imensurável, que é impossível ler quem quer que seja sem compará-lo à grandiosidade do autor de “Silêncio: Uma Fábula” — citado por ser o conto número um na minha lista de preferidos do poeta.
“Edgar Allan Poe parece estar em todos os lugares, e sua presença é tão impregnante que nos faz inverter o eixo cronológico, e ler até mesmo aqueles autores que o antecederam a partir dele. Em outras palavras, não apenas encontramos Poe em H. P. Lovecraft, Richard Matheson, Shirley Jackson e Stephen King: lemos Ann Radcliffe, Charles Maturim, Matthew Lewis e Mary Shelley, também a partir de Allan Poe” - García (2019)
Infelizmente, a vida pessoal de Poe foi marcada por tragédias e lutas constantes. Ele enfrentou dificuldades financeiras ao longo de sua vida e sofreu com o alcoolismo e a depressão. Parece que sua genialidade foi interrompida pela pobreza de suas condições básicas e suas amarguras emocionais. Sua morte prematura em 1849, aos 40 anos, permanece envolta em mistério, com as circunstâncias exatas ainda debatidas por estudiosos e admiradores. As causas de sua morte foram atribuídas a uma miríade de possibilidades, incluindo delirium tremens, doenças cardíacas, envenenamento por metais pesados e até mesmo rabia, mas nenhuma delas foi conclusivamente provada (ALLEN, 2001).
Apesar das adversidades, o legado de Edgar Allan Poe perdura como um monumento à imaginação humana e à capacidade de transformar o terror em arte. Sua obra continua a inspirar e fascinar leitores e escritores, garantindo-lhe um lugar permanente no panteão dos grandes mestres da literatura. Abaixo está uma lista dos contos publicados por Poe durante sua vida, nos títulos originais.
1831 - "Metzengerstein" - A primeira história que Poe publicou, marcando sua incursão no conto com um sabor gótico.
1832 - "The Duc de L'Omelette" - Um conto irônico e satírico sobre um duelo póstumo.
1832 - "A Tale of Jerusalem" - Um conto humorístico ambientado durante um cerco na Jerusalém antiga.
1833 - "MS. Found in a Bottle" - Um conto de terror marítimo e fantástico que ganhou um concurso literário.
1835 - "Berenice" - Uma história de terror psicológico focada em uma obsessão mórbida.
1835 - "Morella" - Uma reflexão sobre a reencarnação e a identidade.
1835 - "Lionizing" - Uma sátira sobre a fama e a sociedade.
1838 - "Ligeia" - Uma das obras mais elogiadas de Poe, explorando a morte e a ressurreição.
1839 - "The Fall of the House of Usher" - Um dos contos mais famosos de Poe, exemplificando o terror gótico.
1839 - "William Wilson" - Um conto que explora o doppelgänger e a consciência culpada.
1840 - "The Man of the Crowd" - Um estudo sobre a alienação e a observação urbana.
1841 - "The Murders in the Rue Morgue" - Frequentemente citado como o primeiro conto de detetive moderno.
1842 - "The Masque of the Red Death" - Uma alegoria sobre a inevitabilidade da morte. Excêntrico e trágico.
1842 - "The Pit and the Pendulum" - Uma história de suspense e terror ambientada durante a Inquisição Espanhola.
1843 - "The Tell-Tale Heart" - Um conto psicológico de culpa e loucura.
1843 - "The Gold-Bug" - Uma aventura envolvendo criptografia e um tesouro enterrado.
1843 - "The Black Cat" - Um conto de perversidade e culpa.
1844 - "The Premature Burial" - Uma história que explora o medo de ser enterrado vivo.
1845 - "The Purloined Letter" - Um conto de detetive que enfoca a psicologia do crime.
1845 - "The Facts in the Case of M. Valdemar" - Um conto que mistura elementos de horror e ficção científica.
1846 - "The Cask of Amontillado" - Uma história de vingança meticulosamente planejada.
Referências
KIEFER, Charles. A poética de Edgar Allan Poe. Letras de Hoje, v. 44, n. 2, 2009.
BELLIN, Greicy. Edgar Allan Poe e o surgimento do conto enquanto gênero de ficção. Anuário de literatura: Publicaçao do Curso de Pós-Graduaçao em Letras, Literatura Brasileira e Teoria Literária, v. 16, n. 2, p. 41-53, 2011.
ALLEN, Hervey. Vida e obra de Edgar Allan Poe. POE, Edgar Allan. Ficção Completa, Poesia & Ensaios. Trad. Oscar Mendes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001.
GARCÍA, Flavio; COLUCCI, Luciana; GAMA-KHALIL, Marisa Martins; PHILIPPOV, Renata (Orgs.). Edgar Allan Poe: efemérides em trama. Rio de Janeiro: Dialogarts, 2019.
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Amorphallus
Amarílis beijou o adorado esposo, apanhou o toucado e partiu. Era dia de consulta marcada, o doutor Cravino examinaria a dor que vinha a incomodando há tempos…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Amarílis beijou o adorado esposo, apanhou o toucado e partiu. Era dia de consulta marcada, o doutor Cravino examinaria a dor que vinha a incomodando há tempos, desde a infância para ser exata. Quando bebê, Amarílis quebrou a perna, imagine só um bebê com a pequena perna enfaixada, pois então, durante a vida, episódios como este ocorriam com espaços de seis anos, logo, aos quarenta, Amarílis era enfraquecida, torta e manca. Não fora por acaso que vivia quebrada, a mulher guardava um segredo, e este segredo a assombrava no sentido literal do vocábulo.
Ainda pequena, via fantasmas, embora os considerasse fantasmas, tinha ciência que caso fosse pedir proteção da mãe, a mesma os nomearia como demônios, pois era como acreditava, e a jovem Amarílis assustada o suficiente por ser assombrada por seres sobrenaturais, chamou-os pelo nome que sussurravam insistentemente antes de derrubá-la:
“Amorphalluss.’’
Os tais Amorphallus, eram medonhos em demasia para serem desprezados; eram esbranquiçados, de aparência cadavérica e translúcida, como envolvidos em um tecido de caimento enrugado e esticado, suas mãos, a maioria das vezes pousadas sobre o peito eram de aspecto humano, porém as extremidades eram avermelhadas em um tom rubro como se estivessem acabado de submergir de um lago sangrento, e de certa forma, por vezes pingavam o liquido avermelhado e viscoso o qual ao respingar sobre o chão transformava-se em pétalas de rosas, deixando um rastro por onde passavam. Os olhos eram tristes e melancólicos, de aspecto leitoso e vazio, as bochechas ossudas constantemente tingiam-se de vermelho, como os de suas mãos, em círculos arredondados e simétricos.
Amarílis temia os Amorphallus, pois a perseguiam desde sempre, quanto mais madura, mais incomodada se sentia com o toque gelado de suas mãos a apalpá-la, torcerem seus mamilos, inserirem objetos pontiagudos em seus pés e mãos, e espetarem seu corpo com alfinetes. Quando não a tocavam, balbuciavam frases incompreensíveis, as quais compreendeu mais tarde, porém somente aos vinte cinco anos.
Por um tempo Amarílis fechou-se para a vida, pois não havia meios para disfarçar o incomodo, e ao ofender as criaturas invisíveis aos demais, ganhou o rótulo de louca, acuada e supersticiosa. Logo, já não a incomodava viver rodeada de Amorphallus inconvenientes, a mansidão a deixava mais bonita, disseram as criaturas uma certa vez, e rendida, aceitou a mansidão.
Mesmo solitária, à espera de uma condução colaborativa, era vista trajando mantos pesados sobre os ombros, bonnets enormes na cabeça, que a impedia de olhar para os lados e serviam com o propósito de esconder sua beleza, e por último saias enormes de cores sóbrias, para que as criaturas sobrenaturais não rastejassem por debaixo do tecido e enfiassem as longas unhas em sua carne.
— Dói?
— Não.
Respondeu Amarílis, envergonhada pela quantidade de veias azuladas, as quais subiam por detrás de seus joelhos pálidos.
— Aqui?
— Não, porém sinto um estremecer no interior da perna e nos tornozelos.
— Hum...
A mulher mal finalizou sua resposta e um Amorphallus a encarou totalmente estático, porém, sentindo-se ignorado, o ser mal-intencionado abriu sua caixa toráxica de forma dramática a fim de apresentar o seu coração, muito parecido com o órgão humano, porém constituído de pétalas de rosas vermelhas. Doutor Cravino, alheio aos “problemas femininos’’ deixou o modesto leito em busca de uma compressa de gelo, a fim de aliviar a pressão do tornozelo de sua paciente.
— Onde sentes dor?
Questionou uma jovem no leito ao lado.
— Perna direita.
— Braço esquerdo.
— Desde menina...
— Desde bebê.
As duas damas se entreolharam em espanto, jamais tinham ouvido falar de uma situação como a delas, e logo em uníssono proferiram a razão de seus problemas:
— Amorphallus.
E com o simples pronunciar do nome, surgiram os seres de todas as partes, espalmando as mãos para cima e ascendendo a vela derretida que surgia de ambas as mãos sempre que as espalmavam.
— Chamo-me Lacinta, trabalho como ama seca em um casarão de fazenda, e por lá apenas um Amorphallus surpreendeu-me. Singular até o monstrinho residente do casarão, porém nada desagradável comparado aos outros que vi até o momento.
— Sou passadeira, e chamo-me Amarílis – Respondeu Amarílis de forma amigável.
– Vejo Amorphallus por todos os lados, consigo os identificar mesmo escondidos.
— Gostam bastante de se esconder e de clamar piedade.
— Minha mãe jamais viu um.
— A minha também não.
— Porém, meu irmão....
— Como disse, Lacinta?
— Meu irmão enxerga Amorphallus.
— Céus! Imaginei que apenas mulheres os enxergavam...
— Creio que poucos homens o veem, porém de forma diferentes, no entanto igualmente arrepiantes e dramáticos.
— O que os dele carregam no interior do peito?
— Um coração feito de penas de pássaros brancos e vermelhos.
— Conte-me, a pior situação em que passou com um Amorphallus?
Lacinta ponderou por um instante.
— Berraram ao meu ouvido, de modo que quase enlouqueci. Fizeram-me cometer fraude de assinatura e xingaram-me de nomes vulgares, acusaram-me injustamente e desapareceram por dias, deixando-me pensar que havia feito algo terrível e realmente merecia seus insultos. E os seus?
— Inferiorizaram algo que amava muito.
— Tudo bem, não se aflija, quando casarmos desaparecerão para sempre, disse mam...
Lacinta interrompeu a frase deslizando os olhos amendoados para o círculo dourado ao redor do dedo de Amarílis.
— Não vão embora, não é mesmo?
Exprimiu em preocupação.
— Jamais.
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Plácido Jardim
Plácido é o jardim onde posso me deitar | E simplesmente descansar | Alimentar as árvores com meu corpo, | Fazendo parte delas e elas de mim…
Foto de REGINE THOLEN
Plácido é o jardim onde posso me deitar
E simplesmente descansar
Alimentar as árvores com meu corpo,
Fazendo parte delas e elas de mim
Simples assim, afundar na terra
E quem sabe ser alimento,
adubo para esse calmo jardim
Consumida lentamente pelo solo,
que usufrui de mim
Que faz parte de mim e eu dele,
Aqui sozinha, porém rodeada de vida
Na morte do que fui, e trabalhei para ser
Destituída das máscaras que construí
Para no fim, enfim
Ser útil a esse sereno jardim
Deitada no solo eu olho as estrelas e tudo o mais não importa
Apenas o verde e o marrom me acomodam
E isso é o bastante para descansar
Sim! Tenho certeza absoluta
de que esse de fato é o meu lar
Fico calma sem movimentos
Sem sonhos e pesadelos
Sem esperanças e frustrações
E descanso, aqui jaz e até que enfim
Finalmente em paz.
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Escarlate
Antes de adentrar ao castelo, contemplei por mais uma vez aquela monstruosidade arquitetônica. Dentre as janelas, gárgulas e torres, algo me chamava a atenção…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Antes de adentrar ao castelo, contemplei por mais uma vez aquela monstruosidade arquitetônica. Dentre as janelas, gárgulas e torres, algo me chamava a atenção, se tratava das belíssimas e grandiosas rosáceas, despertando em mim as mais profundas emoções. Elas traziam um tom escarlate bastante vívido e brilhante, o pálido luar deixava-as ainda mais lindas, como se a tinta usada para as pintar fosse sangue. Ainda absorta, me aproximei da aldrava e, ao tocá-la, senti meu peito palpitar em desassossego, meu colo inflava de ansiedade, era nítido que aquele lugar clamava por mim e eu por ele. Fechei os olhos e escutei sutis passos, e sussurros, até mesmo um leve passar de páginas, algum escritor ou escritora talvez, mas eu estava decidida a entrar.
Minhas trêmulas mãos abriram delicadamente a majestosa porta rúbea, o ranger dela ecoou castelo adentro. Fui recebida por uma cálida lufada que embaraçava meus cabelos. Eu estava completamente arrepiada, pois aquele ambiente me parecia familiar, contudo, eu tinha de ser cautelosa, pois não sabia quem eu iria encontrar.
Pois bem, resolvi andar lentamente admirando tudo e, de fato, sua fachada era imponente, mas nada se comparava ao interior, quão aprazível era admirar aquele teto altíssimo, imaginar cada pedra sendo erguida, paredes sendo construídas, a decoração era de muito bom gosto, algumas poltronas vitorianas em tons escuros, uma mesa enorme de jacarandá repleta de cadeiras de veludo roxas. Notei uma grande quantidade de pratos de porcelana branca e talheres de prata dispostos, havia também guardanapos e taças de cristal que brilhavam ao longo da mesa; preciso citar o notável candelabro de ferro fundido. Outros móveis compunham o castelo, senti-me uma mísera formiga diante daquele majestoso lugar.
Os anseios em descobrir quem era o anfitrião deste castelo e quem eram os demais inquilinos que perambulam neste colossal castelo, preenchiam minha mente, porém, estava temerosa, pois logo menos eu sentiria fome.
Distraída em meus devaneios, me deparei com uma determinada porta, igualmente linda, com adornos talhados a mão. Admirei com um certo fascínio e respirei fundo ao sentir a gélida maçaneta de prata. Com o coração disparado, abri a pesada porta de mogno. Diante de mim estava um enorme cômodo que me parecia ser uma descomunal biblioteca recheada de incontáveis livros, todos em capa de couro das mais variadas cores, perfeitamente organizados do tom mais claro ao tom mais escuro. A estante ocupava toda a extensão das paredes que mediam por volta de quatro metros de altura. Toda a marcenaria foi pintada no mesmo tom presente nas rosáceas. No centro, havia uma mesa redonda vitoriana coberta por um manto negro e de imediato recordei do notável fenômeno das mesas girantes, popularmente difundido na Europa durante o século XIX. Acima da mesa havia uma obra de numerosas páginas, ao me aproximar, percebi algo nefasto, pois sua capa parecia ser feita de pele humana, exalava um terrível odor pútrido, sua coloração também era desagradável, um misto de tons avermelhados com pinceladas de marrom. As páginas estavam puídas, as traças haviam devorado horrivelmente as laterais das páginas.
Quanto mais eu contemplava aquele livro, mais queria folheá-lo. Finalmente fui derrotada pela minha curiosidade, cheguei até a mesa e debrucei-me diante dele, um misto de excitação e pavor percorria minha pele. Ao tocá-lo constatei que realmente era pele humana, eu estava prestes a abri-lo quando ouvi um ranger vindo da porta, alguém acabara de adentrar na biblioteca, paralisada, sinto a brisa soturna acariciar minha nuca, pergunto para mim mesma quem será? Ou... o que será?
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3. Castelo Vampírico: Agora e na Hora de Nossa Morte
Diário de Rute Fasano. 12 de dezembro - Depois daquele encontro com Drácula…
Criado para o Castelo Drácula com Midjourney
Diário de Rute Fasano
12 de dezembro - Depois daquele encontro com Drácula, pude me sentir inspirada o bastante para escrever. Aquilo foi um pouco parecido com a experiência que tive quando minha terapeuta me recomendou usar 2g do Psilocybe cubensis para tratar minha ansiedade, foi uma experiência ao qual eu não estava preparada e não sei definir se foi boa ou ruim, uma mistura de medo e prazer, inquietação e paz, que não quero repetir por ser algo muito imprevisível. Mesmo que depois dela eu tenha me tornado mais funcional por um breve momento. E assim como a viagem de cogumelo, eu não sei definir se quero outro encontro com Drácula. Esqueça as flores, esqueça o afeto por elas. Eu gostei daquele gesto, mas a experiência que veio antes eu não consigo definir bem o bastante para saber se quero repetir.
Estou um pouco irracional ultimamente, mesmo sendo bastante mente aberta e curiosa por demais, tem coisas que tem acontecido que estão além de uma explicação racional. Uma delas é essa minha vontade de andar nas madrugadas pelo castelo, feito aquelas damas de filmes góticos antigos com vestidos esvoaçantes e castiçal em mãos. Outra é a sensação latente de que eu irei ouvir a voz da minha amada a qualquer momento como um o sussurro do vento e seus dedos gélidos baterem à minha janela para que eu a deixe entrar. Isso faz com que eu queira perambular pelo castelo e apenas voltar para o quarto quando tiver que dormir. E realmente foi o que fiz, perambulei por todo ele sem encontrar uma alma viva ou morta. Investigando cada local que fosse possível e memorizando todos os caminhos que eu poderia passar sem que ninguém me percebesse.
13 de dezembro - Essas madrugadas de caminhada pelo castelo tem sido um bálsamo para mim, sem aquela ansiedade anterior que eu tinha de talvez encontrar Drácula ou um hóspede do castelo. Sei que uma hora ou outra terei que me dirigir a eles e compartilhar minhas dúvidas e reflexões sobre esse local que agora todos habitamos. Mas ainda não sinto que é chegada a hora. Estou escrevendo alguns contos, mas não os sinto bons o bastante, aquela sensação latente de sair do quarto tem me agitado, mais tarde sairei para caminhar.
Mais tarde - Escrevo isso com ódio, com um choro preso na garganta e usando tanta força para escrever que chega a marcar o papel. Fui, como de costume, perambular pelo castelo como há quatro dias já havia feito e caminhando pelos mesmos caminhos que eu havia memorizado. Me perdi por um momento em pensamentos sobre o que escrever dessa vez, o que fez com que eu caminhasse sem rumo. Encontrei uma capela abandonada em ruínas, odor de mofo entranhado nas paredes de pedra, bancos de madeiras todos danificados, castiçais com velas velhas e quebradas com suas chamas extintas, mesmo em destroços e esquecida, havia nela traços de que um dia fora bela e imponente, ainda era bela da sua maneira. Vitrais coloridos quebrados que em outros tempos mostravam imagens sacras, um crucifixo de ouro envelhecido acima do altar ao qual não pude olhar atentamente, pois a grande bíblia sobre o ambão tomou toda a minha atenção. Suas páginas estavam amareladas pelo tempo, porém intactas em comparação a todo o cenário envolta dela, aberta aguardando para ser lida. Toquei suas páginas e como esperado estava no salmo 91, porém marcado com o que parecia ser sangue seco estava o salmo 89, tentava em vão conseguir ler o versículo 48 que estava mais manchado, até que ouvi um sussurro muito perto do meu ouvido a pronunciar essas palavras:
— Que homem pode viver e não ver a morte, ou livrar-se do poder da sepultura?
Surpreendida, olhei a pessoa dona daquele sussurro, uma figura translúcida oscilante, vestida de branco, me aproximei devagar, sentindo o peso do meu próprio desconforto e angústia aumentarem. Seus olhos castanhos claros e a palidez sobrenatural que sempre a envolvera. Era ela, aquela que amei incondicionalmente sem nunca entender o porquê. Aquela que sempre soube que havia algo errado comigo, que via além das máscaras que eu usava para enfrentar o mundo, que compreendia minhas obsessões estranhas e meus medos mais profundos. Aquela que o nome eu nem sequer ouso mais pronunciar. Olhou-me com aquele seu olhar paciente e gentil e aquele sorriso doce que sempre me desarmava, e naquele momento minha mente se esqueceu do motivo de estar ali, pois nada mais importava. Tomei ela nos braços, senti-a com todo o meu corpo e meu coração, sentindo seu cheiro doce, fresco e leve. A beijei sem pressa como se nunca tivesse partido, ela me olhou ainda sorrindo e se desvencilhou delicadamente, segurou minha mão esquerda, e colocou minha mão em sua cintura e depois pôs a mão em meu ombro, e começamos a valsar, naquele silêncio incômodo, como nos velhos tempos. Dançamos, não sei por quanto tempo, até que abruptamente rodopiamos uma, duas, três, quatro vezes, ela olhou em meus olhos e curvou o corpo para trás com certa violência no meu braço direito e parou, e era como se eu tivesse despertado para aquele momento. Tudo aconteceu tão rápido que fui impedida de conseguir fugir da situação que me paralisou.
O pouco de cor que sua pele pálida tinha foi roubado, tornando seu rosto uma máscara de cera, seu belo rosto desvanecendo em um grito surdo. Aquela casca vazia, mole e sem movimentos. Pesada em meus braços, e sendo um peso sufocante em meu coração. Havia vozes, vindas não sei de onde, em uníssono sussurrando como em uma oração: — Pallor Mortis.
Seu corpo começava a pesar mais e mais, fazendo com que eu fosse obrigada a me sentar e acomodar melhor seu corpo sem vida, um frio gélido a envolveu, penetrando minha carne, me causando calafrios e um ardor nos olhos, como se eu tivesse em meus braços um mármore gelado. As vozes novamente: — Algor Mortis.
Eu tentava aquecê-la em vão, impedir que se fosse, friccionar sua pele, mas nada adiantava. Seus músculos se enrijeceram, uma imobilidade agonizante, deveria tê-la soltado para que não presenciasse mais nada daquilo, só que não havia coragem em mim para deixá-la sozinha mais uma vez. Vozes: — Rigor Mortis.
Sua pele começou a adquirir tons avermelhados profundos, com sangue estagnado nas extremidades, marcando seu corpo agora inchado, meus dedos afundaram na sua carne mole e apodrecida enquanto eu a banhava em lágrimas que não conseguia conter, pois, a cada estágio, sua falta de vida era um peso no meu coração, que me consumia e matava aos poucos. Vozes: — Livor Mortis.
Seu corpo começou lentamente a se desfazer nos meus braços, deixando seu rosto disforme, desconhecido. O odor repulsivo e forte, já conhecido meu, invadiu minhas narinas e adentrou a minha garganta, sentir ele tão fresco, tão perto, era lancinante, fazia revirar o meu estômago e tentava me controlar para não regurgitar, o que foi em vão, pois além de lágrimas, também a sujei de restos malcheirosos do meu estômago. Vozes: — Putrefação.
Ela foi resumida a um esqueleto com vestígios de algo que antes seria alguém. Despida de sua antiga beleza, para uma beleza macabra, sem carne, envolta num manto alvo, como uma santidade cadavérica. Vozes: — Decomposição.
As vozes em coro silenciaram. Seu esqueleto em meus braços. Vestígios de tudo que foi e nunca mais será. E eu presenciei cada etapa de seu inevitável fim. Aquele fim que imaginei detalhadamente quando a deixei sozinha apodrecendo naquele cemitério. Ela definhou em meus braços, pela segunda vez. Entre lágrimas e dor, vi-a morrer pela segunda vez. Meu olhar então se voltou para a cruz que antes eu não havia dado atenção, e lá, em lugar do Cristo morto, vi uma figura que me encheu de ódio. Era um Jesus vampírico, uma distorção grotesca daquilo que um dia acreditei por ela. Na primeira morte dela, reneguei Deus; agora, diante dessa imagem profana, reneguei Drácula, por me fazer passar por essa agonia novamente. Seu sorriso maldito parecia zombar de minha dor, alimentando ainda mais a minha revolta.
Ele desceu lentamente daquela cruz, como uma figura divina, era como se o tempo desacelerasse ao seu redor, coroado e envolto em um manto de sangue e carne, extremamente pálido como se não houvesse sangue em seu corpo. Eu tremia, não queria mais nenhum encontro com Drácula, mas aqui estamos novamente, e eu o temo e o odeio, porém sua figura parecia obrigar uma contemplação forçosa e uma paz ilusória que lutei para não me permitir sentir. Não agora, pois naquele momento eu precisava odiá-lo. Cada vez mais, a presença opressiva de Drácula se fazia sentir, seu olhar penetrante atravessando minha alma enquanto eu lutava para manter minha mente própria. Não queria permitir que ele exercesse nenhum poder sobre mim.
Eu estava perdida naquela capela abandonada, presa entre o céu e o inferno, entre o amor e o ódio, entre a vida e a morte. Talvez condenada àquele purgatório que era o castelo, uma prisioneira, talvez assim como Drácula. Sua presença me oprimindo, e com um comando de mãos, como da última vez, me fez despertar mais uma vez em meu quarto, onde estou nesse momento a escrever meu segundo encontro com ele.
P.S. Talvez Drácula, tentando pensar racionalmente agora, use desses subterfúgios para que os que estão no castelo se sintam mais inspirados, ou tenham sobre o que escrever, talvez olhar nossa dor, analisá-la e escrever sobre ela, não sei. Só sei que ele ultrapassou alguns limites nesses seus métodos. Usou de coisas que eu tentava esquecer ou achei que deveria esquecer. Outra coisa que percebi foi que em nossos encontros, nunca trocamos palavras, mas sim pensamentos, sensações, como se respeitássemos mutuamente a decisão de manter o silêncio. Ainda não o compreendo e isso me perturba, porém naquele momento terrível, pude compreender que minha jornada estava bem longe de terminar.
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Epitáfio de um infeliz
Fecho os olhos… e esqueço do que vi; | Esqueço a dor, a angústia dessa vida, | Esqueço da alegria não vivida, | Dos desejos daquilo que eu não fiz….
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Fecho os olhos… e esqueço do que vi;
Esqueço a dor, a angústia dessa vida,
Esqueço da alegria não vivida,
Dos desejos daquilo que eu não fiz.
Tenho agora tudo o que eu sempre quis:
Sinto toda a Vontade enrijecida,
A Esperança não é mais bem-vinda,
Nunca me senti antes mais feliz.
Tenho agora o descanso merecido,
Depois de esperar tanto a tal da Sorte,
O Destino, o Futuro Prometido…
A vida me mostrou ainda jovem
Que nada nesse mundo é garantido
Além da terra, quando chega a morte.
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Morto-Vivo
No altar o odor pútrido paira no ar, | Nessa igreja de cadáveres esquecidos, | Seu jardim sagrado é o cemitério, | Onde os mortos estão escondidos…
Foto de Zoltan Tasi
No altar o odor pútrido paira no ar,
Nessa igreja de cadáveres esquecidos,
Seu jardim sagrado é o cemitério,
Onde os mortos estão escondidos
Estou rezando e sentindo o péssimo odor do altar
Meu senhor está morto-vivo, morto e eu também vou estar
A terra engoliu todos aqueles corpos
Entre gemidos e lamentações
Neste santo jardim mal cuidado com odor de podridão
Eu vejo um manto de trevas cobrir o pouco de devoção que restou
Do alto do altar a morte se ergue em sua glória
Meu senhor está morto-vivo, morto e eu também estou
Os fiéis se curvam em dor
Sinto o odor pútrido, doce e forte
Ouço um hino sem o fim do redentor
Em meio a oração uma presença se manifestou
Vejo suas cicatrizes e seu sangue seco
Meu senhor está morto-vivo, morto-vivo e eu também estou
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Tumba para duas
Escrevo essas palavras sabendo que você nunca as lerá, | Mesmo assim mergulho em minha alma com ansiedade | Nesta noite turbulenta que agita a minha mente…
Foto de Veit Hammer
Escrevo essas palavras sabendo que você nunca as lerá,
Mesmo assim mergulho em minha alma com ansiedade
Nesta noite turbulenta que agita a minha mente
E as escrevo sem piedade,
Pois me odeio nesse momento por respirar sem a sua presença,
Percebo como é doloroso viver,
Sabendo que tudo que faço ou irei fazer
Não será mais do seu conhecimento.
Nem meus pensamentos,
Nem meu dia-a-dia a partir do momento de sua partida
Já que não está mais aqui,
Desejo apenas não sentir,
Não ter esses sentimentos,
Talvez atenuá-los e seguir minha vida,
Mas todos os caminhos que sigo me conduzem a você
E as vezes eu quero poder te fazer companhia,
Descansar, como você faz, na terra fria
Aquilo que outrora nos unia, agora parece uma barreira
Oh vida, como gostaria de dissolvê-la
Para nos deixar a sós novamente
As vezes ouço sussurros e passos,
E me percebo te procurando,
Como se de algum lugar você estivesse me assombrando
Não é real, é apenas meu cérebro a me enganar
Crendo que nosso amor além da morte poderia estar
E confesso silenciosamente que, eventualmente,
Eu queria poder descansar em paz
Naquela tranquilidade final que só a morte traz
E se por uma tranquilidade silenciosa
Nos deitássemos lado a lado pela eternidade nessa cova?
Sei que há espaço nessa tumba para nós duas.
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Post Mortem
Sussurram-me as feridas imortais: | A vida é nuvem, o destino é certo, | O amor é longo, o peito é deserto | para o perto que ficou pra trás…
Criado para o Castelo Drácula com Midjourney
Sussurram-me as feridas imortais:
A vida é nuvem, o destino é certo,
O amor é longo, o peito é deserto
para o perto que ficou pra trás.
Uma chama clama em cada passo,
Fogo de vela que o vento cessa,
Luz de janela que o tempo fecha
enquanto canto me atando o laço.
Caminho para o alto de um lugar,
Vem vindo a brisa que a face beija,
Indo com as cores que a vida deixa
numa ave quando vai voar.
Caio como as folhas de outono,
Pequeno como um grão no mundo,
Como gota de um mar profundo
dormindo, eternamente em sono.
Encontraram-me entre as flores,
Entre flores novamente me puseram,
Entre prantos um adeus disseram
indo ao canto me dizendo dores.
O dia termina à luz das velas,
Sou amigo querido, filho amado,
Ditoso poeta de olhar cerrado
que dorme às paredes da capela.
Indo ao lar, à quatro mãos amigas,
Vestido de noivo para a vã esposa,
Sinto de novo que uma flor repousa
em meu peito enquanto faz cantiga.
Outra mão segura a minha:
É minha mãe, de onde o choro vem,
E a terra, como manto de ninguém
vem cobrir o que restou das linhas.
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A Morte Ecoa
Morte. É o que parece gritar irônico e suave aos meus ouvidos. A culpa grita... O sangue vertido das entranhas minhas, a flecha lançada…
Naman Sood
Morte. É o que parece gritar irônico e suave aos meus ouvidos. A culpa grita... O sangue vertido das entranhas minhas, a flecha lançada. O corpo em cima do meu. O peso másculo e doloroso. A força que necessitei fazer para aquilo — ser inumano —, sair de cima de mim. Somente o encaro pela necessidade de conferir se ele estava mesmo morto. Se não fosse a minha lança, quem estaria morta seria eu. Mas estou. Morta por dentro.
Os olhos dele estão fechados, entretanto não há coragem da minha parte em aproximar-me e conferir se ele ainda respira. Eu choro — estava fraca, fraca de tanto lutar contra ele. Por que tua pele alvacenta bronzeada me feriu, por quê? Por que eu? Penso demais, enquanto olho aquele corpo ali, enquanto um fio de sangue passeia pacientemente doído e quente pelo interior de uma coxa minha. As entranhas ardem. Mas não dá tempo de chorar de dor agora.
— Eu o matei? — Vejo a lança cravada em seu peito, antes, com tantas perfurações profundas. Posso ser frágil intimamente, mas a minha força braçal não é brincadeira.
— Preciso fugir. Agora. — Penso. — Se ele acorda eu estaria condenada, ainda que ele também fosse até ser pego. Eu seria perseguida. Mas em um ato de coragem, me aproximo, 'inda distante, e puxo a lança dele. Nesse momento os seus olhos abrem grandiosos e a sua mão voa em direção ao meu tornozelo, o firmando. Eu grito!
Desperto, gritante, suada e chorosa. Não, ele não puxou o meu tornozelo, deu tempo de fugir e ele morreu, morreu... Tranquilizo a mim mesma. O pesadelo sempre me persegue. Pesadelo de uma cena real. Mas a sua mão parece tocar-me ainda. Sinto-me enojada como se tivesse acontecido hoje o ocorrido. Não posso assustar os residentes daqui assim, não posso... Mas sossego-me, respirando fundo. Onde estariam as governantas deste lugar neste momento? Preciso de ajuda. Preciso acalmar-me.
Lembro-me do banho doloroso que tomei no rio. A água lavou-me completamente, pele por pele. Os meus olhos fechados tentavam ver alguma esperança em continuar vivendo. Enterrei a lança em um lugar próximo. Jamais a usaria novamente. Assassina. Nauärah, assassina. A voz desconhecida ecoa em meus ouvidos. Mas ecoa também a violação que o meu corpo sofreu, antes de eu conseguir ceifar a sua vida. Espero eu que ele não tenha sobrevivido. Ou ele estaria sempre à espreita, me esquinando, me industriando por onde eu passar, para vingar-se... ou matar-me.
Dez anos... dez anos e nada esqueci. Nunca soube dele. Deve ter morrido com aquela lança que fora consagrada pelo nosso líder. O triste é que toda a sua geração foi amaldiçoada. Eles não têm culpa. Mas a alma do alvacento que me agradeça. Se ele sai vivo, eu não quero imaginar o rito diabólico que fariam com seu corpo. Das primeiras torturas até a entrega da sua carne aos animais da selva.
Paro de lembrar de dores e aconchego-me ao dossel que me acolhe, adormecendo. Não estou sozinha, sinto. E as presenças, por mais obscuras que eu possa sentir neste recinto cheio de mistério, são também dos meus protetores, visíveis e invisíveis.
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Devaneios
É inevitável negar a mudança em mim. Não somente mais bonita e sagaz, mas mais inspirada também. Sinto meu corpo tão frio e ao mesmo tempo tão vivo…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
É inevitável negar a mudança em mim. Não somente mais bonita e sagaz, mas mais inspirada também. Sinto meu corpo tão frio e ao mesmo tempo tão vivo. Sei que beira a insanidade, mas me delicio com cada gesto que faço ou toque que sinto em minha pele. A sensibilidade é imensa e igualmente prazerosa, fato esse que me manteve ocupada com Malus, explorando as novas sensações e necessidades.
Tenho sonhado com mais frequência, mesmo acordada. Alucinada, talvez. Suponho que tenha alguma ligação com o sangue azul de outrora. Mas não há sobre o que me queixar. O Conde Drácula me deu as boas-vindas pessoalmente. Um tanto fantasmagórico, concordo, mas foi uma noite memorável. Sedutor, cordial e erudito como ninguém, me fez ansiar por colocar no papel as palavras que imploram por saírem de mim.
Não sei dizer quanto tempo faz que não escrevo em meu diário, meu pobre amigo que por diversas vezes foi testemunha das minhas alegrias e tristezas. Provavelmente deve ter sido descartado após minha partida. Ainda absorta em lembranças, apanho meu novo companheiro de escrita, deixado por Malus como presente em minha escrivaninha, e começo o registro de minha jornada até aqui.
Poderia lamentar a perda de meus antigos poemas, mas a memória é uma dádiva, eis que deixo aqui um dos primeiros que escrevi, enquanto me deslumbrava com a Lua de Sangue.
Seu brilho mortal
Enche minha alma de esperança.
Nas noites
Você reina,
Solitária e autoritária,
Radiante, pálida e fria.
Como desejei ser como você,
Com inigualável beleza,
Lua de Sangue.
Muito eu ouvi falar do paraíso. De como as pessoas almejam ir para lá. Cá onde estou é deveras temido e amaldiçoado pelos tolos que de longe avistam. Mas o que diria minha mãe ao me ver plena, dona do meu próprio ser, como nunca antes? O que diriam os imbecis que zombaram de mim e que tanto fizeram, mas é o inferno que está destinado a eles? Ah, as palavras... saltam de meu interior em busca de morada nas páginas em branco... eu cedo a elas.
Dançando em harmonia, sensações e desejos percorrem o papel. Sussurros e sombras oscilam em meus aposentos. Poesias fluem, ecoam nas paredes frias e famintas deste castelo e eu as sinto se deliciarem junto a mim.
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Lamúrias
Túmulos no meu jardim, | Pelo tempo, ornamentados. | Sinto a pedra áspera e fria | Abrigo dos que há muito Já se foram…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Túmulos no meu jardim,
Pelo tempo, ornamentados.
Sinto a pedra áspera e fria
Abrigo dos que há muito Já se foram.
O vento gélido me abraça,
Esvoaçam os tecidos que me vestem.
Posso ver além,
Mas não encontro minha própria lápide.
As lágrimas que insistem em cair,
Queimam minha face.
Tolos arrependimentos,
Que tocam minha carne profana.
Acomodo minha matéria
Em solo fértil e imaculado.
Mas murcham-se todas as flores,
Extingue-se toda a vida que me cerca.
Condenada a sentir
A solidão e dor eterna.
Espreito feito um bicho
Para alimentar minha natureza fétida.
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Caça
Acreditar demais no sonho tido, | Depositando nele as esperanças: | O mesmo que um disparo só de tiro | Na mira, co'arsenal de nossa herança...
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Acreditar demais no sonho tido,
Depositando nele as esperanças:
O mesmo que um disparo só de tiro
Na mira, co'arsenal de nossa herança...
Pensando em atingir um alvo crido
Estar à nossa espera — quando a lança
Que nós julgamos ter obedecido
Às próprias ordens quebra e nada alcança…
A meta, perseguida e alcançada,
Contato visual tendo com ela…
Talvez, nem sendo aquela imaginada;
Mostrando ser, no fim, uma quimera…
Um leque d'infinitas ilusões,
Rateio de quem fica, de quem passa…
Vontades e caminhos, opções:
A vida, em seu percurso, é uma caça.
No pélago da noite púrpura, à deriva, os ignorantes gargalham uns dos outros. Enquanto divertem-se, a escuridão silente esparge frígida, tornando-se…