Semblantes

Mmoggun era um artesão que vivia em um vilarejo isolado, onde sua arte de esculpir máscaras era vista como uma habilidade quase mística…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Algum dia, algum mês, algum ano do século XIX 

Mmoggun era um artesão que vivia em um vilarejo isolado, onde sua arte de esculpir máscaras era vista como uma habilidade quase mística. Ele conseguia capturar expressões humanas com tanta precisão que era impossível distinguir entre uma máscara e um rosto.  

Mmoggun era um homem estranho, com olhos fundos, uma voz baixa que sempre parecia sussurrar para si enquanto trabalhava. Tinha poucos amigos e quase ninguém o visitava. Na verdade, as pessoas o evitavam, elas temiam que ele escondesse algo mais sombrio em seu talento. 

Obcecado pela perfeição, Mmoggun, decidiu que as máscaras que criava já não era suficientes. A madeira não conseguia capturar as emoções humanas na mesma profundidade que as feições vivas conseguiam, algo que somente a carne e a pele continham. 

Foi então que uma peste caiu sobre o vilarejo, e as pessoas começaram a morrer. Com a morte se espalhando, Mmoggun viu naquela situação a oportunidade de encontrar a expressão perfeita, capturando o momento exato entre a vida e a morte. Passou a visitar os doentes, esculpindo suas máscaras enquanto os observava em seus últimos momentos. 

Ele soube da morte de um amigo próximo, a única pessoa que se importava com ele, e isso o mudou profundamente. Seu amigo, Tomás, morrera após dias de agonia. Ao chegar em sua casa, Mmoggun se ajoelhou ao lado do leito, esculpindo o semblante de morte de seu amigo. 

Foi nesse instante que o artesão sentiu que aquele ato o mudara. Sentiu um vazio que nenhuma máscara do mundo poderia preencher. Desesperado, ofereceu uma oração sombria aos deuses antigos, às almas esquecidas que habitavam as florestas e as sombras, pedindo que o ajudassem a capturar a verdadeira essência do medo e da morte. Ele ofereceu sua alma, seu corpo e tudo o que possuía. 

Algo respondeu ao seu chamado. 

Um vento maligno soprou pelo vilarejo, e uma figura encapuzada visitou Mmoggun. Era uma alma ancestral, uma criatura que vivia nas sombras que havia escutado seu desejo. O ser ofereceu a ele o poder de capturar o medo eterno, mas o advertiu: 

— Se você aceitar, mortal, jamais poderá abandonar a sua busca, jamais poderá escapar dessa fome que o consome. Irá se tornar um caçador, incapaz de parar enquanto houver uma face que possa exibir um novo tipo de horror. 

MMoggun aceitou sem hesitar. 

Quando amanhece, ele já não era mais humano. Sua pele esticou, seu rosto se alongou, sua voz se tornou um sussurro gélido e vazio. Ele adquiriu o poder de capturar o semblante de suas vítimas, arrancando suas faces e usando-as como máscaras.  

Ao longo dos séculos, ele passou a visitar vilarejos, oferecendo presentes amaldiçoados aos seus escolhidos. Mmoggun se tornou uma criatura temida e sua história nunca foi esquecida. 

Tempos atuais 

Uma noite, em um inverno particularmente rígido, um jovem recém-chegado à cidade, Rafael, encontrou um presente. Ele acabara de se mudar, atraído pela calmaria do interior. Estava organizando sua mudança quando notou uma caixa preta à sua porta. A madeira escura da caixa parecia absorver a luz da lua, e o intrincado entalhe de runas desconhecidas a transformava em algo hipnótico. 

Ao abrir a caixa, Rafael encontrou um espelho de mão, com uma moldura prateada desgastada que, ainda assim, brilhava de forma inexplicável. Ao tocar o espelho, sentiu um frio subir por sua espinha, mas a curiosidade venceu o desconforto. Ele se olhou no espelho e, por um momento, teve a estranha sensação de que sua própria expressão o encarava. Algo nele parecia errado. Contudo, sem saber, esse olhar desconfortável era exatamente o que Mmoggun desejava: uma curiosidade misturada com um início de receio. 

Nas noites seguintes, outros presentes foram surgindo. Uma velha caixa de música, e um colar de pedra vermelha. Cada objeto era uma armadilha, um elo a mais que conectava Rafael ao domínio de Mmoggun. Fascinado pelos presentes, o jovem passava horas a sós com eles, perdendo-se no mistério de cada peça, sentindo-se hipnotizado pela aura sinistra que os envolvia. 

Foi quando ouviu o sussurro. 

— Mmoggun… mmoggun… 

O som vinha do nada, parecendo falar diretamente ao seu ouvido, suave, mas gélido. Rafael tentou ignorar, mas a cada noite o sussurro se tornava mais próximo e insistente. Ele já começava a sentir que era observado quando, numa noite, o sussurro se materializou em uma figura. 

Mmoggun estava parado na porta de seu quarto. Um vulto encoberto por um manto negro, alto e deformado, com olhos que eram buracos fundos, famintos por alguma emoção que apenas a visão de um rosto aterrorizado poderia saciar. Rafael, fascinado e assustado, ficou imóvel. Era como se um peso invisível o pressionasse contra o chão. 

A criatura estendeu a mão, de ossos longos e mostrou-lhe algo: uma última oferta. Era uma pequena escultura de madeira representando um rosto humano contorcido em uma expressão de medo. Rafael, dominado por uma atração inexplicável, tomou a peça e, ao segurá-la, sentiu o toque gelado de Mmoggun em sua pele, como uma promessa silenciosa de sua morte. 

Mmoggun avançou então, aproximando-se com uma lentidão aterradora, e com o rosto encoberto pelas sombras, tocou a face de Rafael. O jovem sentiu seu próprio rosto começar a pulsar sob a pressão daquela mão inumana, cada linha de sua expressão sendo medida, analisada, desejada. E antes que pudesse reagir, Mmoggun enfiou as garras na pele de seu rosto e começou a arrancá-lo, centímetro por centímetro, enquanto Rafael, paralisado, assistia ao próprio reflexo no espelho a se desfigurar. 

Enquanto o rosto era arrancado, Rafael sentiu o medo tomar conta de sua expressão, transformando-o em uma máscara viva de pavor absoluto. Era a imagem que Mmoggun desejava. Ele absorvia cada detalhe da agonia de sua vítima, a boca entreaberta num grito sufocado, os olhos arregalados em terror. 

Quando finalmente Mmoggun se vestiu com o rosto recém-roubado, seu sorriso era uma cópia vazia do que antes fora de Rafael. Ele admirou a máscara de carne no espelho, um prazer sombrio, e desapareceu na noite, carregando consigo mais uma expressão única de horror para atrair novas presas. 

Nos dias que se seguiram, a cidade foi tomada por um pavor silencioso. Pessoas relataram avistar Rafael vagando pela floresta, mas sabiam que algo nele estava errado. Aquela expressão aterrorizada que carregava não era a de um homem vivo, mas a de uma vítima aprisionada na última imagem de seu medo. Ninguém ousava falar sobre isso, mas todos entendiam que, uma vez marcado pelos presentes de Mmoggun, não havia como escapar de seu destino. 

E ao final de cada noite, o mesmo sussurro continuava a rondar as casas, mais próximo, mais persistente: 

— Mmoggun… mmoggun… 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Ninguém Vai Embora

— Cara, acho que não está dando certo — falou Fabrício, observando o copo imóvel no centro da tábua. — Pois é. Não se mexe. Talvez devêssemos…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

— Cara, acho que não está dando certo — falou Fabrício, observando o copo imóvel no centro da tábua. 

— Pois é. Não se mexe. Talvez devêssemos tentar outra coisa — concordou Renato. 

Paulo, Ricardo, Renato e Fabrício estavam ali pela primeira vez, reunidos para tentar invocar espíritos com um tabuleiro improvisado e um copo. 

— Ah, eu falei que era uma má ideia. Não tem graça nenhuma. Vamos parar com essa besteira — disse Ricardo, afastando-se um pouco, visivelmente incomodado. 

Paulo, mais teimoso, segurou o amigo pelo braço. 

— Espera. Olha o copo — a voz saiu baixa e trêmula. — A porra do copo está se mexendo. 

O copo deslizou lentamente sobre o tabuleiro, como se uma força invisível o empurrasse. O silêncio caiu sobre os quatro amigos, e um calafrio percorreu a espinha de cada um. 

— Vamos fazer uma pergunta? — sugeriu Fabrício, hesitante, olhando para os outros. 

— Vai lá, você começou essa merda — disse Renato, encarando Fabrício, tentando parecer corajoso, mas seu rosto denunciava o medo. 

Fabrício respirou fundo, engolindo em seco antes de formular a primeira pergunta. A resposta veio, letra por letra, formando palavras sobre o tabuleiro. Eles seguiram com outras perguntas, fascinados e, ao mesmo tempo, aterrorizados. 

Horas se passaram até que Paulo sugeriu o fim do jogo. 

— Já está tarde, pessoal. Vamos mandar o espírito embora. 

— Concordo — disse Fabrício, olhando nervosamente ao redor. — Vamos perguntar se ele quer ir. 

Ele posicionou a mão sobre o copo e fez a pergunta. O copo moveu-se lentamente até o "NÃO". 

— Ele não quer ir, não — Ricardo riu, tentando disfarçar o nervosismo. 

— Por que você não quer que a gente vá? — insistiu Paulo, agora sem tirar os olhos do tabuleiro. 

O copo começou a deslizar novamente, letra por letra, formando uma nova frase: N-I-N-G-U-E-M V-A-I E-M-B-O-R-A. 

Os quatro se entreolharam, sem saber o que fazer. 

— Puta merda, o que ele quer de nós? — perguntou Renato, a voz quase em um sussurro. 

Eles repetiram a pergunta, e a resposta veio rápida e fria: M-E S-I-N-T-O S-O-Z-I-N-H-O O-N-D-E E-S-T-O-U P-R-E-C-I-S-O D-E C-O-M-P-A-N-H-I-A. 

Ricardo levantou-se de repente, puxando a mão para longe do tabuleiro. 

— Eu vou embora. Isso está me assustando de verdade — anunciou, afastando-se. 

Mas, no instante em que deu um passo, a porta da sala bateu com força, fechando-se sozinha. O som ecoou pelo cômodo, e todos viraram na direção da porta, horrorizados. O copo voltou a se mover: N-I-N-G-U-E-M S-A-I. E-U J-A F-A-L-E-I. 

Ricardo soltou um grito abafado, com as mãos tremendo. 

— Eu sabia, eu sabia que isso ia dar merda! 

— Calma... — Paulo tentou controlar o grupo, embora ele próprio estivesse à beira do pânico. — Vamos perguntar o que ele quer. Talvez exista um jeito de a gente sair. 

— Como podemos sair daqui? — Renato se inclinou sobre a mesa, esperando uma resposta. 

O copo moveu-se novamente, a resposta deslizando lentamente entre as letras: S-O-M-E-N-T-E C-O-M I-G-O. 

Paulo arregalou os olhos. 

— O que isso quer dizer? Ir com ele? Pra onde? 

A resposta veio mais rápido, com uma fluidez perturbadora, como se o espírito estivesse ganhando força: P-A-R-A O-N-D-E E-U E-S-T-O-U. 

Renato praguejou baixinho, afastando-se enquanto olhava ao redor com desespero. 

— Esse filho da puta está pensando o quê? — gritou, desafiador. 

No instante em que as palavras deixaram seus lábios, seus olhos se arregalaram, fixos em um canto escuro da sala. Ele apontou com o dedo trêmulo, incapaz de falar. 

— Renato, o que foi? — Fabrício engasgou, os olhos arregalados. 

No canto escuro da sala, uma figura nebulosa, um vulto denso e ameaçador, começou a se formar. Algo sombrio e sem forma, mas terrivelmente real. Todos encararam o vulto, sem conseguir desviar o olhar, enquanto ele se aproximava, lentamente, como uma sombra rastejando. 

Então, uma batida aguda e insistente soou. O telefone tocava na sala ao lado, rompendo o silêncio mortal que preenchia o cômodo. Na casa ao lado, a mãe de Ricardo atendeu. 

— Alô? 

— Oi, Ana. Como você está? Os meninos ainda estão na casa? 

Ela sorriu. 

— Sim, estão aqui, trancados na sala de jogos. Vou chamá-los para você. Um instante. 

Desligou o telefone e caminhou rapidamente até a sala de jogos. Ao abrir a porta, um grito horrorizado escapou de sua boca. 

Quatro corpos jaziam no chão, rostos congelados em expressões de puro terror. Olhos arregalados, bocas abertas em gritos silenciosos, como se, naqueles últimos instantes, eles tivessem encontrado algo além do compreensível, algo que sequer a morte os libertaria. Naquele tabuleiro amaldiçoado, quatro vidas agora compartilhavam a infelicidade eterna com algo que jamais deveria ter sido perturbado. 

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Entre Peles e Almas

Ramalho era um homem praticamente invisível, não no sentido literal da palavra, mas na forma como ele caminhava pelo mundo sem chamar…

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Ramalho era um homem praticamente invisível, não no sentido literal da palavra, mas na forma como ele caminhava pelo mundo sem chamar a atenção, nunca deixou nenhum rastro. Era um taxidermista, e por isso vivia trancado em sua casa no centro da cidade. Ele restaurava corpos de animais, de qualquer criatura que encontrasse morto nas ruas.  

Sua loja era conhecida entre os colecionadores mórbidos da cidade. Mas havia algo, um segredo. Ramalho não se limitava a recriar os corpos, ele os colecionava. E havia um segredo sombrio, sua coleção não se limitava aos corpos, ele também colecionava o que restava das almas. 

Nos fundos de sua casa, havia um quarto onde ninguém entrava, nem mesmo ele, a não ser em certas ocasiões. O ar ali era denso, havia uma energia pesada. Dentro daquele quarto estavam as carcaças de sua mais preciosa coleção: humanos. Não eram apenas simples corpos, eram almas que ele retirava enquanto os mantinha vivos pelo tempo necessário. 

Seu método era perfeito. Escolhia sua vítima, geralmente homens ou mulheres solitários, aqueles que ninguém sentiria falta. Eles vinham até ele, atraídos por algum anúncio de emprego ou algo do tipo. Ramalho os convidava para entrar, oferecia um chá ou café. E quando suas vítimas começavam a relaxar, ele agia. 

Injetava um sedativo, algo que mantinha o corpo paralisado, mas permitia que a mente ficasse consciente. Era importante que suas vítimas estivessem acordadas durante todo o processo, sentindo cada instante.  

Uma noite, Ramalho sentiu que precisava adicionar mais uma peça à sua coleção. Ele escolheu uma fotógrafa, Camila, que tinha a curiosidade de explorar os cantos sombrios da cidade. Ela apareceu na loja, interessada em fotografar as peças de taxidermia para um projeto. Era perfeito. 

Quando Camila entrou, Ramalho percebeu algo diferente nela. Havia uma espécie de luz em seus olhos. Ele sorriu, sabendo que aquela seria uma adição única em sua coleção. Como de costume ofereceu chá, que ela aceitou sem suspeitar de nada. Assim que ela levou a xícara a boca, o líquido percorreu sua garganta e o efeito foi imediato. Camila caiu com seus olhos arregalados, completamente consciente, mas incapaz de se mover ou gritar. 

Ramalho a levou para o quarto dos fundos. As carcaças de sua coleção estavam dispostas nas paredes como mórbidas obras de arte. Corpos de homens e mulheres empalhados como animais com suas expressões de terror congeladas. O processo com Camila seria lento, mas ele estava ansioso. Preparou seus instrumentos e começou a trabalhar. Cada corte era feito com precisão. Ele começava pelos nervos, sempre pelos nervos, retirando-os meticulosamente enquanto a vítima sentia cada segundo de dor. O corpo permanecia vivo até que ele chegasse ao coração, onde ele retirava a última faísca de consciência, preservando-a em um pequeno jarro ao lado de cada corpo. 

Mas algo estava errado com Camila. 

Enquanto Ramalho trabalhava, ele percebeu que os olhos dela não estavam como os das outras vítimas. Havia um brilho que não deveria existir. Quando ele chegou perto de sua garganta para fazer mais um corte, ouviu algo que quase fez seu coração parar. Ela murmurava, com a boca quase paralisada, mas ainda com vida o suficiente para formar algumas palavras. 

— Você também está aqui Ramalho. 

Ele gelou. Era impossível. Nenhuma vítima havia falado durante o processo. Ela deveria estar completamente paralisada, sentindo a dor e incapaz de reagir. E, no entanto, ela o encarava com um suave sorriso que se formava vagarosamente em sua boca. 

— Você coleciona o que não entende. Mas o que você esqueceu é que nós também colecionamos você. 

Ramalho tentou ignorar. Ele avançou novamente com o bisturi, mas sua mão vacilou. Sentiu o quarto diferente. As carcaças estavam mudando. As bocas dos corpos empalhados agora murmuravam. Ele ouviu as vozes das vítimas que ele havia colecionado ao longo dos anos. 

— Ramalho, você é o próximo. 

Ele recuou. Não era possível. As almas não estavam mais aprisionadas, elas estavam ali com ele. Todas as vítimas pareciam estar em pé formado um círculo de sombras ao seu redor. Seus corpos agora o encaravam, seus olhos cheios de ódio. 

Os jarros ao lado dos corpos começaram a vibrar, e Ramalho caiu de joelhos segurando sua cabeça, tentando bloquear o som dos sussurros que agora estavam ficando cada vez mais altos.  

Cada alma que ele havia capturado não estava presa. Elas estavam se acumulando, esperando, se alimentando do medo e da dor que ele causava. E agora, elas o queriam. 

Camila, deitada na mesa, ergueu a cabeça o encarando e disse a última coisa que ele ouviria: 

— Você pertence a nós agora. 

Antes que ele conseguisse reagir, sentiu mãos o segurando, puxando seu corpo para a escuridão que ele mesmo criou. Os corpos caíram sobre ele, as suas bocas se abrindo em um grito tenebroso, enquanto a pele de Ramalho se rasgava, e sua vida sugada. 

Ramalho desapareceu, engolido pelas almas que havia colecionado. Quando a polícia invadiu sua casa semanas depois, tudo o que encontraram era um corpo empalhado, os olhos de Ramalho estavam arregalados, aprisionado na sua própria coleção que tanto amava. 

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Intruso

Eu sabia que algo estava errado comigo. Não era uma dor passageira e comum. Era uma presença, uma sensação de que havia algo se movendo dentro…

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Eu sabia que algo estava errado comigo. Não era uma dor passageira e comum. Era uma presença, uma sensação de que havia algo se movendo dentro de mim. No princípio de tudo, eu ignorei. Pensei que poderia ser o estresse, a falta de sono, inventava qualquer desculpa para que eu conseguisse me acalmar. Mas a sensação ficou cada vez mais intensa. Tinha algo crescendo dentro de mim. 

Até que, em uma noite, enquanto tossia sem parar, senti um gosto estranho na boca. Um pequeno ponto branco emergiu entre os meus lábios, coberto de sangue e muco. Consegui retirá-lo com minhas mãos trêmulas e, ao analisá-lo no banheiro, eu quase perdi a consciência. Era um globo ocular. Pequeno, muito pequeno. Ele me encarava, como se algo dentro de mim estivesse utilizando-o para me observar. 

Entrei em pânico. Corri para o hospital, mas nenhum médico viu algo anormal. 

— Você está bem. — diziam, sem fazer ideia do que eu segurava com minhas mãos. 

Eu tentei acreditar neles, mas aquela sensação desconfortável continuava. Algo rastejava por dentro do meu corpo, pelos meus pulmões, entre meus tecidos. Em cada respiração minha, eu sentia que havia algo, ou alguém, dentro de mim, respirando comigo. 

Os dias passaram, e a transformação se intensificava cada vez mais. Eu evitava me olhar. O espelho se tornou meu inimigo, um reflexo daquilo em que eu estava me tornando. No entanto, uma noite, o terror chegou ao seu clímax. Enquanto deitava, senti algo se movendo em meu abdômen. Um movimento estranho. O horror estava tão profundo que não consegui reagir. Apenas deitei com meus olhos arregalados, enquanto a coisa dentro de mim se mexia. 

Foi então que eu senti um braço. Esquelético, ele se moveu para fora de meu intestino, um osso branco rompendo minha pele. Gritei, mas era um grito abafado pela dor insuportável que sentia. O braço se mexia de forma descontrolada, como se estivesse tentando se libertar. Eu pude sentir cada movimento dele, as articulações se encaixando e se quebrando, tudo ao mesmo tempo. 

As dobras de meu intestino se enrolavam nele, como se meu corpo estivesse tentando mantê-lo preso. O cheiro de carne podre tomou o ar, um fedor que não podia ser lavado, tampouco ignorado. O braço finalmente parou de se mexer. 

Dias depois, enquanto passava as mãos pelo meu ventre, senti uma pulsação. Algo estava vivo, algo que não deveria estar. Minhas pernas amoleceram quando percebi a verdade. Eu estava grávida. Não de uma criança normal, não de algo humano. A coisa dentro de mim crescia, era como se se alimentasse de minha carne, de meu sangue. Eu conseguia senti-la, sentia seus movimentos, suas tentativas de romper a carne que ainda a mantinha presa. 

Numa manhã, eu a ouvi. Um grunhido vindo de dentro de meu ventre. Uma voz abafada, uma presença que se comunicava comigo. Uma vida horrenda e monstruosa que se nutria de meu medo e desespero. 

O que eu carrego dentro de mim não pertence ao nosso mundo. É uma afronta à natureza e à vida. Cada nova descoberta é um novo passo em direção à loucura. Talvez um aviso de que o final está perto de chegar. Eu sou uma prisão feita de carne, pele e ossos, e, quando essa coisa se libertar, eu não serei mais nada. 

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A Última Porta

A casa estava em completo silêncio. Julia, uma menina de apenas oito anos de idade, sentia o peso da ausência da mãe como um buraco em sua alma…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

A casa estava em completo silêncio. Julia, uma menina de apenas oito anos de idade, sentia o peso da ausência da mãe como um buraco em sua alma. O lockdown não terminava nunca. As janelas fechadas escondiam o mundo lá fora, como se o medo de que algo pudesse acontecer pudesse ser barrado da mesma forma que o vírus. Ela não se lembrava de uma época em que o medo não existisse. 

Seu pai, Ricardo, estava na sala, sentado no sofá. Desde que Camila, mãe de Julia, havia morrido, ele não era mais a mesma pessoa. Estava sempre com uma aparência cansada, olheiras profundas e uma tristeza que corroía sua alma. Ele quase não falava, mas, quando o fazia, suas palavras pareciam vir de um lugar distante. 

Julia andava inquieta pela casa. Ela sentia algo diferente, uma presença sutil, uma brisa gelada. Não era como o vento, pois as janelas estavam sempre fechadas. Era como se a casa respirasse, como se algo nela, além deles, tivesse vida. 

— Você ouviu isso, pai? — perguntou Julia. 

Ricardo levantou os olhos e deu de ombros, indiferente. Ele não ouvia nada. Somente ela ouvia e sentia. 

Nas primeiras semanas, era apenas um murmúrio que Julia fingia fazer parte de um sonho. Mas logo as coisas começaram a se mover: portas batendo, sombras pelos corredores... 

Em uma noite, enquanto Ricardo dormia no sofá, Julia acordou com um som. Uma batida suave na porta da frente. No começo, achou que era um sonho, mas ouviu outra batida, e mais outra. Seu coração acelerou, e ela desceu as escadas assustada. 

Ao se aproximar da porta, viu algo que a congelou. A maçaneta girava lentamente, como se alguém do lado de fora estivesse tentando entrar. Ela tentou gritar, mas o som não saiu. Até que ouviu uma voz familiar em seu ouvido. 

— Julia... 

Era a voz doce e gentil de sua mãe. Ela recuou, e, de repente, a porta parou de tremer. Tudo voltou ao silêncio inicial. 

Ela correu de volta para o quarto, sem contar nada ao seu pai. Ele jamais acreditaria. Nos próximos dias, o som das batidas prosseguia, e tudo se tornou mais frequente. A porta tremia, as janelas vibravam, e aquela voz tornava-se cada dia mais nítida. 

Ricardo começou a notar também. Uma noite, enquanto os dois jantavam em silêncio, a porta da cozinha se abriu. Os dois pararam. Os olhos de Ricardo encontraram os de Julia, e, pela primeira vez em semanas, ele falou: 

— Acha que é ela? 

Julia não respondeu, mas sentiu um frio tomar conta do local. Sabia que algo estava tentando entrar na casa, e já sabia o que era. 

Nas noites seguintes, a situação piorou. A porta batia com violência. Julia acordava com o som de arranhões na parede de seu quarto e o sussurro insistente de sua mãe: 

— Venham para mim... 

Então, em uma noite, enquanto a tempestade caía lá fora, Julia não resistiu. Ela desceu até a porta da frente, movida por uma força que não conseguia controlar. A maçaneta, como sempre, girava sozinha. Ela a segurou com força, mas, ao tocar o metal frio, a voz de sua mãe a envolveu. 

— Julia, meu amor, abra a porta. Eu só quero que estejamos juntos novamente. 

Julia hesitou, mas estava tão "quebrada" que não conseguiu resistir. Queria a presença de sua mãe, seu calor, sua proteção. Ela abriu a porta. 

No meio da escuridão da rua, a figura pálida de sua mãe se revelou. O rosto de Camila estava distorcido, seus olhos vazios. Ela sorriu macabramente. 

— Venham. Vocês precisam vir comigo. Aqui não é mais o lugar de vocês. 

Julia recuou. Mas algo na voz de sua mãe a fez parar. Ali havia dor e tristeza, como se a morte tivesse transformado sua mãe em algo sombrio. 

— Mamãe... — A voz de Julia saiu quase inaudível, seu coração despedaçado pela revelação de que aquela entidade que tanto a assustava era a pessoa que ela tanto amava. 

O que restava de Camila estendeu a mão. 

— Precisamos estar juntos de novo. Venha, minha filha. 

Julia olhou para trás e viu seu pai. Ricardo estava parado no topo da escada. Seu rosto estava cansado, derrotado, como se estivesse esperando por aquele momento desde o começo de tudo. Ele não falou, tampouco lutou. 

Com os olhos cheios de lágrimas, Julia compreendeu. Não havia como escapar. Sua mãe não queria que eles vivessem; não queria eles no mundo sem ela. Ela os queria em seu novo mundo. 

Julia deu um passo para trás, mas sentiu o frio crescendo ao seu redor. Ricardo, sem forças para reagir, olhou para a filha pela última vez. 

— Desculpa, Julia. 

A porta se fechou sozinha. 

A casa, antes um refúgio, agora era uma prisão para os vivos. A voz da mãe continuaria a chamar até que todos estivessem juntos no silêncio eterno da morte. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Pedido Noturno

Victor não era um simples vampiro. Ele se adaptou ao século XXI de uma forma que os antigos jamais pensariam: utilizando a tecnologia a seu favor…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Victor não era um simples vampiro. Ele se adaptara ao século XXI de uma forma que os antigos jamais pensariam: utilizando a tecnologia a seu favor. Em uma era de conveniências digitais, ele se sentia como uma aranha no centro de sua teia, onde suas vítimas vinham diretamente com um simples toque no celular. 

Naquela noite, em seu luxuoso apartamento, sentiu a familiar sensação de fome. Seu suprimento de sangue fresco havia terminado. Foi quando ele olhou para o celular sobre a mesa da cozinha. 

— É tão fácil — pensou. 

Ele abriu o aplicativo de delivery. Não precisava do cardápio, precisava de algo muito mais fresco, mais quente. Com alguns toques, ele pediu o prato mais caro da lista. Não importava o que viesse, mas sim quem iria entregar. 

Sofia, que trabalhava como entregadora, estava exausta. A última entrega tinha sido um pesadelo: escadas quebradas, brigas de casal na porta do prédio, e a impaciência do cliente. Seu corpo estava sedento por descanso, mas as contas no final do mês não iriam esperar. 

O pedido de Victor chegou, e ela sentiu um certo alívio. Um apartamento no centro da cidade, prédio luxuoso e sem nenhum risco. Uma entrega fácil para compensar o inferno que tinha passado. 

Ela se arrumou rapidamente, checou a sacola com o pedido e seguiu para o endereço. O porteiro do prédio permitiu sua entrada sem questionar, como se já soubesse para onde ela se dirigia. O elevador a conduziu de forma suave até o 25º andar. Sofia queria apenas entregar o pedido, receber sua gorjeta e voltar para casa. 

A porta se abriu antes que ela pudesse bater. Victor estava parado no meio da sala, observando-a com um sorriso, trajando um terno escuro que parecia ser de outros tempos. Seu olhar a fez tremer. Sofia tentava ser profissional, mas havia algo em Victor que parecia fora de lugar. 

— Entre, por favor — disse ele de forma sedutora. 

Ela hesitou. Não costumava entrar nas casas e apartamentos dos clientes, mas havia algo hipnótico na presença de Victor. Os pés de Sofia se moveram, e logo a porta se fechou atrás dela. 

Victor caminhou ao seu redor lentamente, analisando cada detalhe de sua nova presa. O cheiro de seu sangue já dominava o ambiente. Fresco. Jovem. Perfeito. Ele a deixou sentir o desconforto crescendo a cada segundo. 

Sofia entregou o pedido, mas ele não o pegou. Em vez disso, pegou sua mão e puxou-a para mais perto. 

— Você parece exausta. Por que não descansa um pouco? — comentou ele, ainda com o sorriso, mas agora mostrando a ponta de suas presas. 

Os olhos de Sofia caíram nos olhos de Victor, afundando em um poço de escuridão. Todo o medo, toda a urgência de sair dali desapareceram. Contra sua vontade, seu corpo relaxou, as pernas cederam até que ela caiu de joelhos no chão. 

Victor abaixou-se para ficar ao nível dela. Suas presas agora estavam completamente visíveis, e seus olhos brilhavam com um vermelho intenso. 

— É hora do banquete. 

Ele atacou de forma violenta. Suas presas perfuraram o pescoço de Sofia como facas afiadas, rasgando a pele. O sangue explodiu em sua boca, quente, doce. Ele sugou de forma voraz, enquanto seus olhos reviravam em êxtase. Cada batida do coração dela era como um passo em direção à sua morte, e ele saboreava cada gota. 

O corpo dela estremeceu em espasmos, sua pele perdia rapidamente a cor. Mas Victor não se importava. A fome era enorme. Ele a levantou do chão e o sangue escorreu pelo pescoço de Sofia, manchando sua camisa. O som do sangue sendo drenado diretamente de suas veias era grotesco. Quando ele finalmente a soltou, o corpo tombou como uma boneca, e o silêncio voltou a reinar. 

Victor olhou para o cadáver. Seu estômago estava cheio, mas sua mente fervilhava. Precisava se livrar do corpo. 

Arrastou Sofia para o banheiro, onde havia uma banheira de mármore. Com um estalo seco, quebrou seus ossos para que ela coubesse ali. 

Victor começou a cortar partes do corpo de Sofia com uma faca de cozinha, jogando os pedaços no triturador de lixo. No final, tudo o que restava dela eram resquícios de sangue no chão — que ele limpou. 

Na manhã seguinte, o apartamento de Victor estava impecável. O sol brilhava lá fora, mas ele se sentia renovado. 

Pegou seu celular e, com um leve sorriso, abriu o aplicativo de delivery novamente. Estava na hora de planejar seu próximo jantar. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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A Última Xícara

Todo dia começava com a mesma rotina. Fábio acordava às 6h, bocejava, descia para a cozinha e preparava uma xícara de café forte. Isso era imutável…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Todo dia começava com a mesma rotina. Fábio acordava às 6h, bocejava, descia para a cozinha e preparava uma xícara de café forte. Isso era imutável, praticamente um ritual. O aroma do café se espalhava pela casa, trazendo uma sensação de normalidade e conforto. Mas naquela manhã, algo parecia estranho. 

A casa estava absurdamente silenciosa. Fábio não era o tipo de pessoa que se deixava levar por sensações vagas, mas, naquele dia, ele sentiu uma certa tensão no ar. 

Ele entrou na cozinha, mas, em vez de sentir o habitual conforto, foi envolvido por uma sensação de desconforto. O relógio da parede, que sempre marcava 6h15min naquela hora, estava parado. O ponteiro dos segundos, congelado. Fábio ficou confuso e balançou a cabeça, tentando ignorar a sensação de que algo não estava certo. 

Ele pegou a cafeteira, encheu-a com água e a colocou no fogão. Tudo parecia normal por alguns segundos, até que o som da água fervendo soou mais alto, como se ecoasse em um vazio profundo. O cheiro do café começou a se espalhar, mas havia algo estranho nesse aroma. Um toque metálico que ele nunca havia sentido. 

Fábio tentou ignorar e se serviu de uma xícara. Quando a levou aos lábios, uma sensação fria percorreu sua espinha. Ao inclinar a xícara, percebeu que o líquido dentro não era como o café que tomava todos os dias. Era espesso, quase como sangue. 

Ele deixou a xícara cair, e o líquido derramou no chão, revelando uma mancha escura que não parecia café nem sangue, mas algo entre os dois. O pavor tomou conta de seu corpo, e ele deu um passo para trás, escorregando no líquido que agora estava vivo, movendo-se lentamente em sua direção. 

O barulho do relógio ressoou na cozinha novamente. Agora, os ponteiros haviam começado a girar ao contrário. O tempo estava distorcido, e o ambiente ao seu redor se transformava. As paredes da cozinha começaram a pulsar, como se fossem feitas de carne viva, e o teto parecia afundar, aproximando-se dele lentamente. 

Fábio tropeçou ao tentar correr, e, quando olhou para trás, viu a cafeteira. Ela não estava mais no fogão, mas no meio da cozinha, e do bico dela escorria um líquido negro, denso como piche. Era como se o café estivesse vivo, tentando alcançá-lo. 

Desesperado, ele correu até a porta, mas ela não estava mais lá. Em vez disso, havia uma parede lisa, como se a porta nunca tivesse existido. Ele se virou lentamente, e, na penumbra, viu uma figura de pé ao lado da mesa. 

Era ele mesmo. 

O outro Fábio, idêntico em todos os sentidos, exceto pelos olhos vazios e negros. O outro Fábio segurava uma xícara de café, com um sorriso vazio no rosto, e sussurrou com uma voz grave e distorcida: 

— Agora, você nunca mais sairá. 

Antes que Fábio pudesse reagir, o chão abaixo dele se abriu, e ele foi engolido, sentindo o cheiro metálico do café ao seu redor, como se estivesse se afogando em um oceano de escuridão. 

Na manhã seguinte, a cafeteira estava no mesmo lugar de sempre. A rotina havia sido restaurada. Mas quando os primeiros raios de sol tocaram a cozinha, Fábio não estava mais lá.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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