Ato de escrever I

Um poeta sentado escrevendo. Cenário que mescle contemporâneo e vintage (pode ser até um apartamento, prédio…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Os astros fulgem como ações próprias; as janelas do castelo brilham em um tom de pele madura. A forma dela se desenha nesse grande holofote. O poeta, de cabelos brancos como uma lebre, declama sua arte por todos os poros.   

Mas a obra do artista é seu sangue, e este é imortal. Como um quadro pintado com tinta ainda quente, pulsa. Ferida ao peito, caneta em riste.   

— Expulsa! Um coração que não se esvai em poemas.   

Assim acaba a noite e um microconto, pois todos os poetas são iguais: não aguentam o peso do mundo sozinhos e precisam, em linhas tortas, devagar seu pranto.   

Companheira grafia de luz, de noite, de dia.   

Garrafa de vinho, uma cama, um fogo e a mais profunda tragada — retrocedendo o cigarro com o tragar do passado da alma, que foi tocar no não vivido, que foi lamentar e escrever o que não ocorreu.  


Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Tornar-se espectro

Toda fotografia é uma imagem que carrega o espectral: a morte. O instante fotografado jamais será vivido novamente; assim jaz um tempo que passou…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

“Imaginariamente, a Fotografia (aquela de que tenho a intenção) representa esse momento muito sutil em que, para dizer a verdade, não sou nem um sujeito nem um objeto, mas antes um sujeito que se sente tornar-se objeto: vivo então uma microexperiência da morte (do parêntese): torno-me verdadeiramente espectro.” 

Roland Barthes, em Câmara Clara, página 27. 

Toda fotografia é uma imagem que carrega o espectral: a morte. O instante fotografado jamais será vivido novamente; assim jaz um tempo que passou, um tempo qualquer. Como o verde do capim, o tempo exato do fim do solstício de tal ano, o passeio com as antigas crianças, etc. 

Nesse momento único — o foco —, o fotógrafo, representando o seu olhar delirante de coveiro, enquadra e aprisiona o flagrante: o erro da pose, o silvo do vento no vestido comprido da senhora, a alegria de êxtase do casal e o retrato pálido pendurado na lápide. No caixão, a perfeita sincronia da candura de um corpo frio em profundo sono; eterno, deita-se em pose de mãos cruzadas em agradecimento, pois quer sua última fase serena. 

Assim como em Roland Barthes, a imagem fotografada é carregada de sentidos; o material revelado se desgasta, o papel corrói, mancha, se perde. A contribuição do tempo é feroz e dizima as esperanças de saudades dos familiares e dos personagens, que envelhecem como o papel, mas de maneira diferente: a carne apodrece e morre, a fotografia é a própria morte — ficando banguela, rasurada, rasgada, acariciada e pingada de lágrimas. Seus dias estão contados desde o momento inicial do clique. A fotografia já é o espectro. 

Na câmara escura de outrora, buscava-se a beleza no breu. Na Câmara Clara, Roland Barthes encontrou a essência, o cheiro da reprodução analógica que se perpetua na era digital: o jazigo dos vivos, o enclausuramento da finitude. A procriação do sepulcro. O mantenedor da reprodução do padecimento. 

Sendo assim carcomida, como o corpo do morto no meio do álbum que a mãe balança no colo — aquele cemitério de gentes e paisagens que já se foram — toda fotografia é um fato post-mortem

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Anomaly

Ando pelo único caminho que se atravessa na neblina cinza. Preciso chegar; devo estar atrasado. Inóspito. Inseguro. Lanço dúzias de preces e continuo…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Ando pelo único caminho que se atravessa na neblina cinza. Preciso chegar; devo estar atrasado. Inóspito. Inseguro. Lanço dúzias de preces e continuo. Caminho sem fim, sem trégua, nessa estrada que se apresenta tão conhecida, mas, sem memória, não posso. Estou sonâmbulo. Não sei se amanheceu ou se é noite ainda. 

Abre-se uma clareira, repentina, ofuscando o olhar. Surgem árvores, mas ainda estou ofuscado; ramos sobem pelas minhas pernas, parecem dedilhar, mas não há dedos, não há apalpadelas. Envolvido, inseguro diante da segurança. A prensa amaciada pelas folhas grandes que sobem pela minha boca. Grito de socorro calado, como uma mão que tapa os lábios; sufoco. 

Não é normal. Nada disso é normal. Apreensivo. Tudo ao redor começa a clarear. Não estou mais sufocado. Vejo tudo como câmera de cinema, minha visão de sétima arte: transeuntes ao redor com suas vidas normais e as sacolas cheias de pão, casais se beijando na porta da despedida, o cheiro de café e os cachorros nos postes, rasgando as bolsas de lixo. Mas ninguém me vê, nem toma nota; ambos passam com raiva, com gestos, alegria e desconfiança, mas ninguém parece me observar. Enquanto isso, tento sair da armadilha, implorar por aqueles seres humanos normais. Em vão. O bizarro me doma. 

Perdendo as forças, exausto. Perecendo. Entregue totalmente àquilo que a natureza pode fazer aos homens; a mim. Perdido em um íntimo profundo e escuro, como entre as paredes do quarto. 

Agora estou sentado na cama, sem ar. Suado como um porco pronto para o abate. Acendo meu cigarro. Ainda são três horas da madrugada. Devo um banho e passar um café. Logo mais terei de enfrentar a rotina. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Escrito por Tiago Serigy, -Prosa Poética Tiago Serigy Escrito por Tiago Serigy, -Prosa Poética Tiago Serigy

Tempos Difíceis te dão o Blues

A vida é se jogar de um parapeito sobre um copo d’água para sentir o tamanho do frescor do pomo da discórdia. O mundo parido em infinito vazio…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Tempos difíceis são cantados 

  “Há muitas maneiras de se ter o blues. Tempos difíceis te dão o blues." 
Blues.¹ 

A vida é se jogar de um parapeito sobre um copo d’água para sentir o tamanho do frescor do pomo da discórdia. 

O mundo parido em infinito vazio. 

Mas a encruzilhada cheira à vida, os espíritos se atravessam e surgem nas sombras com gaitas e violões. Uma dama se destaca como rainha dos condenados, de cantos agudos, “Come on and baby, baby”², soltando seu blues enquanto palmas ritmadas acompanham as batidas dos corações. E a força das negras reparte esse pomo maldito. Competem com o mais infinito barulho do vazio. Agora chove na encruzilhada, não há mais vida seca, o chão é sem dono, voar sem paraquedas, porque todos dançam, todos sentem, é da rainha que surge o blues da dor do infinito, do que não pode ser dito, a quem não foi chorado. 

Ali, na encruzilhada as almas se cruzam e o blues é livre.    

A ninfa frenética se joga, se abandona. Reconhece que seu corpo já não mais lhe pertence, está intimamente ligada ao blues. Vê as cordas tinirem de sofrimento, pois diz algo, a mente atende o corpo responde. 

Tempos Difíceis São Cantados. No blues o silêncio do amor ecoa pelas cordas. A voz da bela dona de branco deleitando o surdo amor, as mãos calejadas, os guetos escuros. 

Na encruzilhada as respostas não são postas em grafia, não há estudo ou modernidade — onde impera o blues não há grau de profissão. Os junkes sentem o corpo obedecer ao chamado dos jans e se entortam como cobra no bote, o espírito procura uma cura, uma magia e só no blues as encontra. 

                     “Oh, sente-se lá, oh, conte aqueles pingos de chuva... Vais sentir-se apenas como aqueles pingos de chuva, quando eles estão caindo, querida, a toda sua volta.”³  

¹ Blues é referência a um documentário de mesmo nome.
² ³ Músicas de Jannis Joplin. 

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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