Capítulo 11: Pecado... — Rubi Áurea
Símil a um olho, o obscuro pingente reluzia. A lótus negra decerto significava meu ainda existente vínculo com…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Símil a um olho, o obscuro pingente reluzia. A lótus negra decerto significava meu ainda existente vínculo com o Oráculo, como os sigilos no pulso, entretanto, eu não sabia o porquê, tampouco como aquilo se manifestaria. Por instantes pensei, ofuscada em mim, sob o mortal silêncio daquela estranha natureza... que a solidão, por muito rejeitada, talvez fosse a mais honesta escolha. Nunca estive só, eu pensava, desde que respirei sob a umidade do Castelo. Havia a criatura em meu cerne... sim... eu não a culpava ou a considerava odiosa... porém, era algo em mim que não deveria residir em minh'alma — eu nem sabia onde ela estava... no ser... no inconsciente... nas entranhas...
E, de repente, estive nos braços de Lëvri... e, então, selei um pacto com Lahgura... como se não bastasse... veio-me Seth... e outros que encontrei por tais tortuosas veredas. E, ainda, os medos que sempre me acompanhavam como vultos em vigia. A condição de solidão esteve sempre contígua mesmo sob tal verdade inabalável — fazia-me pensar que se é para tê-la, independente daqueles ao meu redor, então que seja na totalidade, sozinha e a sós, sentindo e vivenciando a solidão. Lembrava-me que, com Lëvri, por átomos de tempo, afastara-se este exílio impertinente e ínfimo e tão... tão amargo..., mas... um poço de mágoa se estendia... tudo mudou sobre Lëvri... como se a intensa paixão fosse nada além de uma ilusão lunar...
As minhas rubras íris, no reflexo daquelas águas, entristeciam-se. Eu esperava mais da vida logo que despertei, mesmo cingida por nada além de hialina reminiscência. Eu não sabia o que sentir sobre as vivências desde então, era como não pertencer a si mesma... atrelei isso à ausência das memórias, embora nada mudasse a cada relembrar... Antes, porém, que eu pudesse extrair alguma compreensão do mais medonho oceano que estava, no meu cerne, cada vez mais revolto, eu vi outro alguém refletido nas águas da fonte, logo atrás de mim. Respirei fundo... era Seth...
— O que tu queres? — Indaguei, irresignada. Seth sentou-se ao meu lado na fonte. Mantive-me olhando as águas, movimentando-as com a lentidão de mil noites. As dunas do plácido intermúndio que eu almejava eram, na verdade, cada grão de areia, um incômodo. Uma flor, então, desvelou-se à minha visão. Era inenarrável... Símil às dálias, tão leve e suave... com pétalas em voluta, formando um redemoinho escarlate; o vento ali já agitado, abriam-nas com um sopro contínuo. Resplandeciam em um negror-etéreo, com nuances carmesins, como se a noite tivesse derramado nela seu próprio sangue. No âmago daquelas pétalas, havia infinitesimais veias que pulsavam de forma quase imperceptível, como se a espécie tivesse um arcano coração, palpitando lento e sutil.
Seu aroma, um mistério adocicado e quente, invadiu-me os sentidos, evocando abstrações sentimentais que eu desconhecia possuir, arrancadas do meu mais merencório oblívio. Os espinhos grandes, como nas rosas selvagens, eriçavam-se agressivamente, curvado para cima, protegendo-a dos toques indignos, em uma beleza que se declarava proibida. O caule, negro como carvão polido, era robusto e sinuoso, morno ao toque, quase aquecido ao tom de uma tez, como se moldado na escuridão nociva do mármore negro das bordas do rio de lava, no inferno.
Ó, pulcritude absurda! Nunca vi espécie de tamanha perfeição. Era tão majestosa e tão estranha em sua beleza lúgubre, que trouxe às janelas de minh’alma um lacrimar vestal, embaçando-me a visão. A luz ao derredor minimizara drasticamente, era como estar apenas, sob minha presença, a flor e, sob a presença dela, eu; nada mais, nem o tempo, nem o dia ou a noite. E nenhum astro na imensidão. Minhas mãos tremiam, tocadas pela solenidade desse presente impensável, enquanto eu a segurava cuidadosamente, sentindo sua lanugem e a textura sedosa das pétalas.
Olhei para Seth, estava tudo tão escuro... meus olhos, tomados por uma emoção ambígua, entre gratidão e mágoa, contornavam meu semblante aflito. Seth era tão familiar... tão desconhecido...
— A nutrúrnia prometida... — Disse com sua voz abíssica. Fazia tempo que eu não o ouvia. Seus dedos tocaram a lágrima que vertia pelo meu rosto e eu o fitei, com mais rancor.
— Bela na pureza de sua constituição... tão doloroso e pungente, no entanto, é sê-la, pois, tudo o que é vestal trava encontro com a mentira e a traição... profanando a inocência... — Proferi, sem deixar de fitá-lo. Sei que minha face transbordava em amargura. Ele respirou fundo.
— Por que proferes tamanha complexidade? Se tens algo a me dizer, então diga.
— Sim, eu tenho... — Estava profundamente, cada vez mais, escuro ao redor. — Tua traição, tuas mentiras... um grandioso protetor tu és, eu já disse n’um outrora não tão longínquo... tu és capaz de enganar e trair a tua protegida...
— Do que... — Ele parecia confuso, mas eu sentia que tudo era um disfarce.
— Cinismo agora não! — Interrompi com a voz elevada. — Já basta, Seth. Tentaste colocar a criatura mítica como uma dupla personalidade que busca me fazer mal, como se eu tivesse um transtorno psíquico. Não ias me revelar sobre o que ocorria quando ela assumia minha consciência... o que mais tens escondido, demônio? — Ares superiores curvaram seu rosto.
— Demônio, sim... e, como tal, não tenho os mesmos princípios morais que um humano. Faço tudo para proteger a tua existência, se isso inclui mentir, será feito; não há maldade em mim, muito menos bondade... — Respondeu. Mais respirações profundas, silêncios sob o véu do vento intenso e cicioso. A feição de Seth se amainou no tempo silente. — Sentes minha falta, Aessatt? — Ele segurou-me em meu maxilar. — A criatura do teu âmago, não me permite mais possuir... possuir o teu corpo... Ela quebra nosso elo... incapacitando-me de saber onde tu estás e quando precisas de mim... Isso está me enlouquecendo...
— Dizes, então, que estás além do bem e do mau? Dizes que Corphidrae está expulsando-te e digo, pois, que a razão é o saber que ela possui sobre a tua maldade! — Argumentei após retirar suas mãos de mim. Eu não queria seu cálido toque, já muito me bastava ter de fitar seus olhos tão azuis...
— Sim, estou além do bem e do mal... eu não sou humano, Áurea. E Corphidrae também não é. Como um animal, ela apenas mantém protegido o seu território.
— Então... parece que já tenho uma protetora. Pode ir embora, Seth. — O silêncio voltou... e criou imensurável barreira entre nós. Seth ainda me olhava, entretanto, uma tênue tristura se espelhava em sua fisionomia.
— Não sentes... nenhum afeto por mim? — Murmurou, baixo e grave. Eu não esperava tal indagação, portanto, não sabia como respondê-la.
— Qual é o valor do afeto para um demônio além do bem e do mal? — Embarguei...
— Decerto muito maior do que para um humano... — Desviou seus olhos de mim, fitando o horizonte quase impossível de enxergar.
— Esperas algo de mim, Seth? Que eu lhe diga apreciar tua companhia desde o primeiro momento? Enquanto sinto tanto por tuas enganações... a rispidez do teu sarcasmo... sempre vieste a mim como bênção e como maldição.
— E sou aquele que está aqui. — Seth aproximou-se, pegando em meu rosto com suas mãos. — Eu estou aqui, Áurea, eu estou aqui... Estou buscando por ti, estou protegendo-te em teu âmago ou fora dele... usurpei uma nutrúrnia para o teu bel prazer, com um inominável risco à espreita... — Senti-o acariciar meu torso, próximo ao meu coração pulsante. — Questionas minha moral... minhas mentiras... entretanto, em nome de tuas memórias, compactuas com entidades traiçoeiras... desenvolves laços com oráculos hostis, sempre em busca do que tu eras... enquanto eu... estou em teu presente... no aqui e no agora... construindo ao teu lado uma nova história que se perde no teu saudosismo... — Seth acariciou meus cabelos. — Desejo a Áurea que vejo e não aquela que um dia existiu... nem mesmo tu, Áurea, deseja a Áurea d’este momento... sempre sondando quem ela era... e quem ela há de ser...
— Quem tu és sem as tuas memórias, Seth?
— Lembra-te quando despertaras? Quando me viste em Séttimor... e quando me desejaste... na biblioteca... ou quando te salvei naquela adega sombria...? — Eu lembrava, contudo, mantive-me silenciada. Seth levantou-me e segurou minha cintura, colocando meu corpo contra o seu no centro daquela escuridão. — Tem algum valor em tais memórias para ti? — Aproximou-se, beijando meu rosto, devagar...
— Eu... — Hesitei. Era difícil resistir... Seth me envolvia tanto... e eu sentia que ele tinha razão, pois, seus argumentos me mostravam que eu não dava valor ao que o despertar n’esta existência, em tal Castelo, proporcionava... pouco a mim valia tudo o que havia ao meu redor, pois eu precisava de minhas memórias, sem elas eu me sentia incompleta. Por outro lado, Seth criou memórias ao meu lado e esteve próximo, fazendo o que lhe era possível... sendo quem ele poderia ser... e, talvez, de todos os horrores, de todas as inverdades... desde Lëvri até Lahgura... ou mesmo o preço que devo ter pagado pelas previsões do Oráculo... havia manipulação em tudo... todos... eram enganações perpétuas... lâminas cortantes, translúcidas, abscindindo meu coração.
— O Corvo Esfaqueado: Invertida... eu sei que é sobre ti... — Murmurei.
— Queres crer em teu oráculo... eu compreendo... mesmo havendo Monm te alertado sobre os perigos... — Seth estava tão perto... eu sentia seu hálito quente...
— Tu esteves lá... — Lamurei já enlevada...
— Sim... preso pela Corphidrae, digno apenas de observar e temer... — Seth apertou-me a cintura, beijou o canto de meus lábios quando sua mão direita guiava minha nuca.
— Ah... o teu perfume mescla-se à nutrúrnia... — Sussurrou, beijando-me o pescoço; minha tez arrepiara e senti medo. — Um bálsamo ardente... almiscarado e doce...
— Eu não... eu não sei... — Tentei dizer algo que sequer sabia... balbuciando palavras em busca de alguma lídima racionalidade.
— Ah... mas eu sei... — A mão de Seth conduziu-se aos meus cabelos... — Eu sei... — Seus lábios tocaram nos meus... Seth era ardente, parecia possuir uma temperatura verdadeiramente mais elevada que a de qualquer outro corpo.
“Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss, esspussess erebriss daemoniss ssaeiva enssnura, ssaeiva enssnura voluass.” — Ouvi, não vinha de Seth, mas a voz amedrontadora estava nele; meus olhos que outrora se fecharam pelo que emergia em meu imo, abriram-se assustados.
— O que é isso? De quem é essa voz? Seth? — Ele me olhou, seus olhos brilhavam como fogo e sua respiração era ofegante...
— Hum...Tu ouviste...
— Sim! E não é a primeira vez! — Seth levou as mãos à sua cabeça, parecia transtornado. N’um impulso, pegou a flor do inferno e logo voltou-se a mim, puxando meu corpo contra o seu com mais força. Seu beijo, n’este instante, tornou-se voraz, intenso e promíscuo. Segurava-me os cabelos, a cintura, levando-me a caminhar para onde eu não via. Caímos em um monte de folhas secas, ao que parecia, ainda no jardim; mas tudo se mantinha muito escuro.
“Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss, esspussess erebriss daemoniss.” — Ouvi outra vez e tremi, em medo irrompente. Seth beijou meus seios, abrindo meu vestido... meu oceano íntimo desaguou por volúpia no instante em que o medo aflorou ainda mais em minha tez.
— Áurea... pulso tanto... por ti... — Murmuraram as sete vozes do abismo, ascendendo-me mais ao temor e ao prazer.
“Inuoss ssor Lussifferr!” — ouvi, mais alto, mais horrendo e austero. Meus olhos lacrimejaram de pavor dilacerante. Seth agitou sua cabeça, como se tentasse afastar o que ouvia.
— Seth... isso... estou amedrontada... — Confessei.
— Eu sei... — Disseram as sete vozes do abismo. Desde aquele momento anterior, Seth só se comunicava com elas. Era como o eco de sua própria voz, sete vezes se repetindo, um eco profuso e tétrico. — Eu sinto o teu medo... e também sinto o teu desejo... e quero sentir a tua boca... — Fui levada, ainda sendo segurada pelos cabelos, a ficar sobre o peito de Seth. Dominados pelo breu absoluto, eu mal podia enxergá-lo, pois, sempre que a luz adentrava ao derredor, pouco depois era consumida na escuridão. Ainda que privada de visão em razão d’esta estranha manifestação que pensei se tratar advir de Seth, as trevas pareciam nos proteger na intimidade apavorante. — Sinta o meu verdadeiro inferno... — Seth murmurou e levou meu rosto à tua plenitúrgida intimidade... abri meus lábios, um instinto perverso que não era meu, mas vinha de mim. “Abnaesss! Sserpen! Abnaesss!” — ouvi, o maldito som da voz, pior que a de Seth; o medo me consumia violento.
As mãos dele ordenavam minha cabeça, forçando-a contra seu membro que eu sorvia e me engasgava. Era tão quente... tão errado... de sabor sedutor... aroma viril... olhei para sua face de regozijo. Eu o desejava e senti-me profundamente envergonhada por isso. Eu não conseguia compreender. Seth me puxou para seu peito outra vez, e logo se colocou sobre mim, beijando-me e beijando mais. Senti-o subir meu vestido, tocando minhas pernas. Arrepiava a minha pele, em profundo temor e volúpia. Então... tocou o cimo de minha vulva, quente e, naquele momento, inundado por minha saliva. E lentamente foi se penetrando... devagar... bem devagar... seus olhos queimavam, assim, de forma literal havia fogo em suas retinas... e seu membro, se entrando em minha arculva, pronta para envolvê-lo... abraçá-lo... e tão pulsante, ele e eu... “Ssattaessatt erebriss esspussess daemoniss” — tremulei e vibrei.
Ainda cingida pela aflição do medo, entretanto, muito mais pelo deleite. Assim que o membro de Seth se escondeu em mim, tocando-me o ventre; seu ritmo ascendeu rápido, tanto quanto a exultação. E seus movimentos, entrando e saindo do meu íntimo, como um animal, gemendo e lamuriando demoníaco, faziam-me curvar meu corpo, enquanto suas mãos apertavam-me a cintura e as costas; minhas unhas cravavam-se novamente, agora por outras razões, em seu dorso, relembrando de nosso recente confronto.
— Ah... isso... ah... mais... mais... — Eu o ouvi, entre nossos gemidos e o terror. Eu estava descontrolada... perdida... minha cabeça volvia e volvia, embriagada, extasiada... e ele... dentro de mim... tão intenso... tão sensível... minha respiração completamente desorientada. Sua pele em minha carne... rígido, forte, deslizante... Eu sentia uma energia bizarra extraída do corpo de Seth e penetrando meu ventre, subindo pelos meus órgãos vitais. — Ah... ttssorr... — Ele dizia, tomado pela insanidade... eu sequer sabia o que aquilo significava... e cada vez mais agressivo, teso... obsceno em mim.
Naquele instante, vi minhas marcas em seu pescoço... vi suas veias... belíssimas... qual era a cor de seu sangue? Eu não me lembrava... segurei seu pescoço... cravei-lhe meus dentes e o ouvi ranger de dor. O sangue dele tocou minha língua como uma febre causada pela peste mais horrenda, como lava me queimou, ardeu! Tinha o sabor de um pecado oculto em veludo escarlate... era picante como uma planta maldita, amargo como vinho seco guardado há eras sob as colunas de mármore negro do inferno. E, no fundo, uma nota de morte... e o gosto de promessas quebradas, de mentiras seladas na dor e no prazer. Gota a gota... inundando-me os lábios e a garganta...
O sangue de Seth não alimentava — ele incendiava. Despertava. Corrompia e elevava ao mesmo tempo. Estava acima do sangue humano: não era vida, era poder. E, ao consumi-lo, minha alma sibilou: “sserssattua” — o significado era evidente à minha consciência: “pecado”. Seth me retirou do meu delírio ao ouvir-me, o seu sangue escorreu, pingando sobre meus seios. Ele segurou meu rosto; fitou-me com um sorriso mórbido. Suávamos tanto... e após sorvê-lo, eu me sentia mais tórrida...
— Perssattua ssorn aessatt... — murmurou. “Minha possuída... para sempre” significava. Contrações intensas em todos os meus músculos, um orgasmo súbito me governara. Arranhei o torso de Seth. Ele se abaixou, sussurrando em meu ouvido. — Sinta... — Eu queria mais. Puxei-o, pelo lado esquerdo, e cravei meus dentes no outro lado de seu pescoço; sorvi... deliciosamente... e tão logo enquanto sorvia, eu o senti tremer muito... bradar um prazer inumano... e o seu liquor demoníaco e fértil, banhou-me como uma onda obscura do oceano azul-gris. Seth vociferou horrores na língua dos demônios, parecia enfraquecido de tanto que fora sorvido por mim, e eu não parava. Novamente fui empurrada por ele; afastando-me de seu pescoço. Ele estava muito fraco. Prostrou-se ao meu lado, incapaz de se levantar... parecia dizer algo, mas eu não o ouvia bem... seu corpo começou a queimar como papel, algo nunca visto por mim, entretanto, meus sentidos estavam aguçados para tudo, eu podia enxergar em toda aquela escuridão e entendia que Seth estava indo para o inferno.
A nutrúrnia, por sua vez, também estava diferente, caída ao nosso lado, parecia mais viva... e eu podia ouvi-la sussurrar o ininteligível, como um canto feminino sôfrego. Em minhas pernas escorria um líquido denso, eu estava nua e tudo era preto e vermelho. Peguei a flor, fechando-a na palma de minha mão, de modo célere, fui ferida pelos espinhos; eu não me importava, pois, estava em uma afrodisíaca overdose. Finquei o caule da nutrúrnia em meu peito... sim... e senti profundo enlevo arrebatador, como doses absurdas de dopamina... eu senti... muito além da dor estarrecedora. Caminhei, cheia do poder demoníaco... e o desejo sexual ainda aflorado... meus passos na escuridão... uma escuridão que pertencia a mim... sozinha... imunda de sêmen... manchada de pecado.
Eu compreendi muitas coisas... sorver o sangue de Seth me fez uma daemoniss, em alguma instância... em alguma profundidade. Compreendi que a nutrúrnia consumia toda a luz ao seu redor, tornando qualquer pálido lume em um ponto opaco no breu absoluto. Compreendi que sua seiva causava o mesmo êxtase que o sangue de Seth, se sorvida... e que, regada de sangue e luz, ela propagava sua escuridão onde apenas os daemoniss eram capazes de enxergar. Compreendi o idioma de Lussifferr, entendi que ele alertava Seth a todo o instante, com sua voz de imponente horror, dizendo que o expulsaria do inferno se ele ousasse possuir uma humana..., mas eu... eu não me sentia humana... era, mesmo assim, vista como uma.
Eu tinha o poder de Seth... e apesar disso... apesar do que veio de encontro ao meu entendimento e apesar do intenso desejo, mesmo após o sexo... eu me sentia constrangida e uma intuição insistia em revelar que a solidão ainda era real, obstinava-se em me alertar que a paixão por Seth era hostil. Eu o vi abrasar e sumir... debilitado e... eu pensava nele. Voltei ao meu aposento e fiquei imersa nas águas frias de uma banheira de porcelana... impassível diante de meu próprio pecado... enquanto a nutrúrnia permanecia fincada, sem permitir esvair uma única gota do meu sangue. Eu via seu caule detrás de minha tez... respirar estava difícil...
E a estranheza tinha uma presença própria, quase tátil... ela se disseminava no calvário de um sentimento mofino que me pertencia tanto. Eu... eu sentia que era uma traidora... era isso... eu sentia que havia traído Lorrt, mesmo sem amá-lo como um dia amei.
Rubi Áurea
Áurea Lihran escrevera suas terríficas e fascinantes vivências após despertar em um antigo castelo, o Castelo Drácula. Sem memória alguma de seu passado, ela buscou encontrar respostas e sentidos que guiassem a sua existência, mas, para isso, teve de fazer escolhas sombrias e ainda lidar com a sua estranha sede por sangue e o seu desconhecido poder. Este seu manuscrito foi deixado por ela, como volume único, na biblioteca do Castelo Drácula e, agora, por razões obscuras, ele está em suas mãos. » Leia todos os capítulos.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Capítulo 12: Seu Raro Rubi — Rubi Áurea
O céu era como a De Sterrennacht, embora em tons azúleos, opacos e cinéreos — sombrio além…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O céu era como a De Sterrennacht, embora em tons azúleos, opacos e cinéreos — sombrio além, n’um mistério lôbrego. O vento soprava apenas no alto, ondulando as nuvens e distorcendo os astros. Gotas de orvalhos límpidos e luminescentes flutuavam no silêncio, como se pairassem à espera de um instante preciso para se desfazerem em si mesmos. Observei, do alto vitral de minha alcova, uma paisagem de névoa índigo-gris e tão logo vi que a escuridão em seu interior era grave, tornando as velas e suas flamas em pobres pontos oscilantes, símeis aos orvalhos que pairavam. O breu daquele antro, era causado por mim, eu sentia; entretanto, lá fora, estava tão símil... ou será que as trevas estão em meus olhos?
Sentei-me; meu corpo nu sobre o veludo negro e a nutrúrnia em meu peito, vívida. Sob tamanho êxtase... fui capaz d’esta insanidade? Por quê? Eu me lembro, mas não compreendo. Eu me questionava enquanto mantinha meus olhos nas veias que se criaram entorno do caule sob minha tez; tocava-as e sentia pulsar o que poderia ser sangue ou a seiva da planta. Sob tal estranha luz anil-acinzentada, a pele tomava um tom símil, embora mais escuro, demarcava o hematoma do corpo estranho que se alojava no meu torso. A respiração melhorara, porém, ainda era mais parca do que outrora.
Ao velutum cabinet guiei-me na lentidão própria do tempo frígido que espargia ao derredor; em seu interior, observei as roupas que não eram minhas, a quem pertenceram afinal? Meus tecidos, eu acreditava, jaziam sob a terra úmida ou protegidos na solidão da saudade por aqueles que um dia amei. Vasculhei as peças, nenhuma me parecia correta diante da necessidade de manter exposta a nutrúrnia de meu torso e, ainda, proteger-me do álgido clima. Em um lance tênue de segundos silentes, senti profunda sede. Sede? Era-me tão rara, entretanto, emergiu como exigência imediata. Quiçá pela nutrúrnia... consumindo-me o sangue...
Escolhi uma peça negra, com ornamentos em ouro envelhecido; tive, no entanto, de rasgá-la sutilmente no torso, de modo a permitir que a nutrúrnia permanecesse livre. Havia mais espinhos do que o comum em suas pétalas, entretanto, pareciam curvar-se diante de meu toque; impedindo que uma ferida se abrisse em meus dedos. Pouco antes de libertá-la da renda, ouvi algumas batidas em meus umbrais, as quais ressoaram no tangível silêncio. Um adequado e quente cálice de sangue humano? Um alguém desconhecido para um banquete ao deleite da besta obscura que me tornei? Tão só mais um enigma d’este lugar terrífico? Abri a porta, pesada e rangente.
— Liliana! — Surpreendi-me. Convidei-a para adentrar meu lúgubre recôndito e a abracei, com carinho; sua pele se translucidava, eu via todas as suas veias e artérias.
— Amada Áurea, demorei para encontrar-te n’este mausoléu! — Senti-me turva enquanto sua mélea voz se alastrava. — Quão escuro está aqui! Ah... uma.... flor? — Segurei em uma das mãos de Liliana.
— Venha... — Segui para fora d’alcova, precisava de sangue... embora não soubesse como consegui-lo. Meus olhos transmutavam o azul-gris em um escarlate mórbido conforme meus passos apressados percorriam os corredores. Levava comigo parte da luz que adentrava os vitrais e parte das que queimavam nas flamas das velas nos candelabros. Eu evitava olhar para Lil, eu sabia do grave risco que pendia entre nós. Entretanto, ela estava firme em minhas mãos, céleres, seguíamos. — Hohrriss esstt! — Murmurei, uma interjeição diabólica que amaldiçoava a condição que eu me encontrava; um murmúrio baixo como um rosnar intrínseco. O rubro morbígero se acentuava.
“À direita” ouvi, era minha própria voz... em minha mente. “Quarta porta” ela disse... eu disse... eu sabia que era a Corphidrae... ou eu mesma. Um tipo de sala-de-estar se apresentou aos meus olhos; um cravum cabinet próximo tão logo chamou minha atenção. Deixei a mão de Liliana e segui ao móvel, abrindo-o. Havia cálices e taças; nos rótulos, títulos inelegíveis; frascos e vidros com seiva carmim. Dentre tantos, um deles reluziu aos meus olhos, n’um era vivo e parecia possuir nuances em dourado. Sem pensar, apenas o verti sobre o cálice e bebi até o fim de todo o frasco. Era docílimo, poderoso, mel aos lábios, fascínio e prazer rapidamente s’ergueram no meu âmago. Minha visão entorpecida se alinhava à sanidade e, no rótulo, um único nome: Olga Nivïttz {RHNulo}.
— Áurea? — Ouvi. Olhei para Liliana que parecia assustada.
— Perdoe-me, Lil; eu estava precisando de... sangue... — Eu já havia contado a ela o mais importante sobre mim, um resumo, enquanto seguíamos para o Oráculo. Dentre as minhas verdades, o vampirismo ela soube sem delongas. Algo entre nós se estabelecia, um emocional identificatório; não sei se pela gratidão dela em receber uma previsão de morte; se pela verdade de meu olhar sobre seu semblante encantador; se por alguma outra razão além do tempo...
O escarlate ao derredor minguou-se, portanto, dando lugar ao cinéreo-azulescido que outrora ordenou meus sentidos à melancolia sepulcral do silêncio e do orvalho luminescente que pairava somo poeira. Meus batimentos cardíacos amansaram.
— Muito ocorreu desde que nos vimos sob os cinco olhos do Oráculo... — Sentei-me no sofá próximo, Liliana fez o mesmo.
— Vim trazer esperança aos teus olhos tristes, minha Áurea. Antes que tudo me reveles, deixe-me dizer quem conheci. — Ela parecia empolgada, seus olhos eram dois esplendores âmbar. Mantive-me atenta e Liliana segurou minhas mãos nas suas. — Uma sublime mulher veio ao meu encontro, estava a refletir sobre o ocorrido no Oráculo, bem como a cerca de Luíre... enfim... esta mulher, de nome Morgana, tem estudado sobre os sonhos e, porventura, ela possa levar-te à Somníria outra vez! — Respirei fundo diante da revelação. Soltei das mãos de Lil e levantei-me, caminhando à esmo pelo cômodo. Fui à fenestra semiaberta, observei o horizonte enevoado.
— Não sei se quero retornar à Somníria... — Confessei. Liliana levantou-se, um tanto incrédula.
— Como não? Lorrt é a chave de tudo, Áurea! Ele sabe de tua vida, do teu poder...
— Eu o traí, Lili... eu não... não saberia fitá-lo em seus olhos... eu não saberia ficar outra vez em frente ao amor que ele externa a mim com seu semblante gentil e austero. — Um silêncio espargiu, sôfrego... Liliana se aproximou.
— Como assim? — Indagou e eu a fitei no mais profundo de seus olhos âmbar. Senti a tristeza, íntima, nascendo como garoa na imensidão.
— Eu... encontrei Seth... no entardecer de ontem... quando um carmesim-opaco e escuro direcionava a luz do pôr-do-sol às folhas secas... e eu... — Era impossível desvelar com as palavras que cabiam dizer. — Senti... eu o senti... no inominável prazer... da carne e do cerne... uma intensidade lasciva que traz o tremor às minhas entranhas só de recuperar a lembrança... — Voltei-me à janela, deixando de olhar para Lili e ela, por sua vez, afagou meus cabelos e abraçou-me, delicada.
— Tu ainda amas o Dom Lorrt? — Questionou, serena.
— Não... — Respondi, precípite. — Quero dizer... eu acho que não... entretanto... sinto culpa.
— Estranhas que a culpa advenha sem haver, pois, amor?
— Estranho... — Voltei-me a Liliana e ela afagou meu rosto. — Talvez, em alguma instância profunda, o amor ainda exista e, quiçá, eu saiba... no plano intuicional, talvez... eu... eu sinto içar um caos hórrido em meus sentires, Liliana... outrora estive desperta, buscando tão somente minhas memórias... até este tempo... onde laços tornaram-se nós e nós se quebrantaram na estranheza e no desejo... — Suspirei, deitando-me no abraço de Liliana. — Quão injusto é dar uma traição àquele que tanto me respeita... lembro-me do sonho... o sonho recorrente que escapara de mim desde que me despertei este monstro que sou... no sonho... as crianças aos meus pés... e os pés de um homem... eu sei que era Lorrt, eu sinto... eu sonhava com ele... formando ao seu lado uma família. Agora, contudo, vês? Dormi com dois homens e nenhum deles era o homem que habitava meus sonhos mais próprios...
— Áurea, não te culpes. Teu oblívio adveio em razão do mau acaso. Nem Lorrt, nem ti, decerto que até mesmo nem Lëvri, detém a culpa pelo acaso em sua manifestação orgânica, ainda que um tanto perverso e obscuro seja tais vicissitudes. Mesmo assim, tu não podes permitir que estas contingências te façam ficar contra ti mesma. Guarda no peito o que te aflige, minha doce, mulheres sempre possuem segredos em seu coração e não devem revelá-los aos homens, pois, eles não entenderiam.
— E Seth? — Era agradável e apaziguador deitar-me daquela forma, n’um amável abraço aquecido.
— O Demônio? Bem... ele não me soa confiável, querida.
— Eu sei... — Soltei-me de Liliana, sem bruscos movimentos. Voltei-me à janela, as nuvens volutais e o azul-gris ainda despertavam minha melancolia. — Ele é, porém, tão intenso... ele me aquecera com a calidez de seu inferno. Eu não o amo... entretanto, como um súbito clarão na tempestade mórbida, eis a minha paixão manifesta; ora fere, ora cura, brincando com a minha mente.
— Mais razões eu vejo para que reencontres Lorrt, minha amada. Para que tenhas certezas sobre teus sentires. Se a paixão por Seth machuca e se desvela sempre na veemência atordoante, esteja atenta. Amor é paz e, portanto, pode ser perene. Paixão é volátil demais para perdurar... e pode ser até mesmo perigosa.
Ao seu lado, fiquei por um tempo em silêncio. E entre afagos nos cabelos e mãos, fui ajustando meus pensamentos conturbados. Era inegável que fugir de Lorrt resultaria em mais angústias e, de fato, havia tanto o que ele sabia sobre mim... talvez do lugar de onde vim, das coisas que eu apreciava. E saber dele resultaria em compreender o vampirismo Illitam, algo que me pertencia, portanto.
— É hora, querida. Vou te levar à Morgana. — Liliana me olhou com um sorriso único e eu concordei em seguir os seus planos. Eu não sabia o que esperar, entretanto, estava disposta. Enquanto percorríamos o destino incerto, foi compartilhado comigo algumas das angústias de Lil, acabei por não lhe revelar sobre os poderes demoníacos, permite-me apenas ouvi-la. — Chegamos. — Era um dos quartos do Castelo. Liliana adentrou, sem precisar bater à porta.
Dois olhos verdes lumiaram em nossa direção, vindos de um rosto feminino. Ela se levantou com elegância. O cômodo era menor, símil ao de Monm. Vestia uma peça sublime, negra como a noite de lua nova, com detalhes em alguma pedra escura, talvez ônix. Ela tinha os cabelos presos em um véu sútil que recaía até os seus ombros. Sua pele era de um marrom intenso, sim, marrom; castanho-escuro, pouco mais claro que seus cabelos.
— Prazer, sou Morgana Sttrattan. — Cumprimentei-a e me apresentei. — Sentem-se, por favor. — Assim o fizemos nas poltronas próximas à escrivaninha que Morgana estava ao chegarmos. Além destes móveis, um velutum cabinet e um leito de cedro escuro complementavam o aposento. Uma tapeçaria ornamental no mesmo tom cobria o assoalho. Do vitral à direita, para o oeste, uma vista para o precipício.
A partir daquele ponto, Morgana relatou sobre a sua vida e a razão pela qual buscava Somníria. “Em minhas pesquisas” ela disse “eu soube de uma lenda a respeito desse lugar e tinha o intuito de encontrá-lo forçando o sonho lúcido. Era a única maneira possível de saber se era real ou apenas uma fábula”. Eu a ouvia com uma admiração irrefutável, até que vi seu corpo sutilmente desvanecer, como se fantasmagórico. “O que viste, Áurea, é a instabilidade da minha atual condição. Eu estou dormindo. Forçada por um aparelho de nome soníer, capaz de captar e traduzir ondas oníricas. Coloquei-me vinculada ao aparelho, com algumas modificações e, crendo alcançar Somníria, encontrei este Castelo umbrífero”. Eu ouvi e fiquei incrédula.
— Como é possível? — Indaguei.
— Não sei como, entretanto, na noite anterior, decidi replicar soníer n’este plano, acreditando ser possível haver níveis de sono REM. Para minha surpresa, eu o encontrei em um dos cômodos enquanto perscrutava o local. Não posso vos afirmar tratar-se de um item pertencente a outrem ou se foi construído através da minha intenção...
— Sugere que estamos adormecidas? Pertencemos a um sonho teu? — Interrompi-a.
— Creio ser improvável. A imersão de vossas histórias pessoais, conduzem-me à percepção de que, ao induzir meu sono com o aparelho modificado, usando-me como a cobaia do experimento, fui levada a outra realidade. Estou adormecida, entretanto, projetada, de forma astral, aqui. Talvez, com soníer acionado, em nós três, possamos induzir um sonho lúcido para o local, pois, já estou no sono REM, em hipótese, e tu, Áurea, já estivesse em Somníria. — Ficamos em silêncio. Eu pensava sobre aquela insanidade narrada com tamanho fundamento. — Eu não tenho muito tempo, devo dizer. — Morgana continuou. — Meu corpo tem desvanecido cada vez mais, pois o tempo está passando lá onde estou sobre o meu leito, ligada ao soníer. Uma profunda instabilidade, além disso, rege minha condição astral n’este plano. Eu despertarei, a qualquer momento.
— Eu... pouco compreendi, entretanto, devemos tentar, certo, Áurea? — Perguntou Liliana. Eu a fitei, hesitante.
— Sim. — Eu não poderia discordar.
Assim, iniciamos o processo. Morgana compreendia muito sobre o que estava fazendo, sobre soníer e seu universo onírico. Enquanto nos preparava, contou-nos sobre Morgion Sttrattan, seu pai, que sofrera com sonhos lúcidos bizarros desde sua infância e, quando adulto, passou a estudar os fenômenos vinculados ao âmbito sonial. Morgana nasceu cingida por um ambiente de estudos acentuados e seu pai fora uma figura de extremo exemplo e imoderada admiração, por isso, ela seguiu seus passos, embora fizesse tudo o que Dom Morgion considerava perigoso e arriscado. O contexto de sua vivência pessoal, trouxe-me uma saudade que sequer imaginei pertencer ao cerne que possuo; eu decerto tenho ou tive uma família e, talvez, um pai para admirar. Senti que a determinação de Morgana me atravessava como um indício de que era preciso continuar tentando encontrar-me em mim mesma.
Sorvemos de um líquido hialino com nuances escuras, era doce e enjoativo. Tratava-se de um indutor de sono profundo. Adesivos com um tipo de metal frígido, um metal de nome unorom, foi adicionado em nossas têmporas e conectados, por cabos, à máquina soníer. Morgana fizera questão de explicar as minúcias. Fui instruída a focar meus pensamentos e lembranças no instante em que estive em Somníria, portanto recordei de cada detalhe. Confesso que Lorrt era a principal imagem à minha mente... seus olhos amáveis, suas palavras afáveis... sua tristeza. Queria amá-lo, queria tanto amá-lo... e o sono vinha sólido a mim, meus olhos se fecharam, permitindo a lágrima velada verter, morrendo sobre o travesseiro qual repousava minha cabeça.
Aos poucos, a imagem de Lorrt se estabelecida com mais nitidez; a escuridão granulada das pálpebras cerradas se expandia em palidez, pouco a pouco, onde nuvens impassíveis conduziam uma brisa que aclarava um céu alvililás em todo o entorno. Senti o toque dele, em meu rosto, n’uma carícia tenra e amorosa. “Encontre-me em teus pesadelos... zelarei por eles...” — ouvi, num murmúrio pertencente a ele, sua viril voz se expandia... eu estava recordando e, ao mesmo tempo, buscando pelos umbrais que precisava atravessar para alcançar o reino dos sonhos. “Eu vou cuidar de ti, Áurea...” — Ouvi, dessa vez com mais limpidez sonora. A visão estava mais refúlgida, entretanto, toda a paisagem enegrecia em súbitos átimos, a partir do ponto em que eu estava mais adentro daquele onírico plano.
Nos instantes que esta escuridão, n’um índigo opaco, se distendia entre as nuvens, nos átimos de segundos, um piscar de olhos, meu coração doía e eu sentia medo outra vez. Quando o tato se tornou o sentido mais claro, entendi que estava em Somníria. Senti meus pés caminharem sobre as nuvens e a brisa arrepiar a minha tez. A visão, outrora embaçada e rarefeita, tornou-se explícita em seus detalhes mais infinitesimais... assim vi imensos cristais negros e belíssimas ametistas, pairando na imensidão como ínsulas. Senti-me profundamente vinculada ao lugar e, portanto, sussurrei o nome de Lorrt, fechando os olhos. Assim que os abri novamente, estava em frente ao homem que amei.
Seus olhos estavam n’um tom violeta escurecido, não tão vívido como da primeira vez. Seu semblante estava um pouco mais melancólico, embora um lumiar tímido lhe tenha envolvido quando eu proferi seu nome. Era lindo... um anjo de asas negras, com austeridade em sua fronte. “Eu precisava...” — murmurei. Queria explicar-lhe que minha intenção não era desestabilizar Somníria, entretanto, era inestimável encontrá-lo outra vez. A sensação de fraqueza foi apaziguando e, após um silêncio acolhedor, eu senti que, finalmente, eu estava consciente em Somníria. Olhei para os arredores, buscando Lil e Morgana, mas apenas eu e Lorrt estávamos na paisagem alvililás.
— Eu... precisava te ver outra vez... — Proferi, tímida e hesitante. — Espero não estar... perturbando demais...
— Tu não és uma perturbação para mim... — A voz de Lorrt não era feita de som: era feita de reminiscências. Parecia emergir de mim poeiras de lembranças jamais acessadas. Era grave, sim, mas de uma gravidade que não pesava; antes, ascendia, tal qual a sombra de uma constelação inalcançável e colossal que, ao invés de lançar temor, imerge o âmago n’um anseio irreprimível, por admiração e fascínio. Um tecido de som entrançado de saudade e soberania, tão profundo que nem os mortos teriam coragem de esquecê-lo.
— Sinto que estou errando em todas as minhas escolhas... e não recordei mais de minha vida antes do despertar... estou abraçada às sombras hostis... — Confessei, lacrimosa. Lorrt ia tocar minha face, entretanto, não o fez. Pareceu-me consternado e olhou para o lado, talvez desejasse um alívio da visão que tinha de mim. Senti receio. — Ainda... reside amor por mim... no teu peito? — Seus olhos se voltaram aos meus, pareciam menos violeta. Fitaram meus lábios. Lorrt se aproximou.
— Intenso como fogo... fluído como o oceano... profundo como um abismo... sempre. Sempre aqui. — Sussurrou, próximo. Meu coração se comprimiu, embora eu sentisse uma quietude plácida em meu ser.
— Aquela que fui ou a que sou? — Indaguei, abaixando a cabeça. Fitando suas grandes mãos, firmes como as de um cavaleiro da morte, capaz de carregar a foice do destino e, ao mesmo tempo, segurar um crisântemo sem despedaçá-lo.
— Aquela que serás... carregando a que foste e a que és, com o fascínio do que há de ser... — Respondeu, inabalável. Eu estremeci pela beleza de suas palavras.
— Apesar do quanto eu possa errar? Dos pecados que eu possa cometer? Das dores que eu possa te causar? — Eu não entendia minhas perguntas, elas vinham de mim sem nenhum vínculo racional... tudo o que pensei em saber, sobre minha história e sobre os Illitan, parecia nunca ter sido pensado, parecia irrelevante. Lorrt respirou fundo, fechando seus olhos por alguns segundos e abrindo-os em seguida. Parecia pensar em algo muito além da minha indagação.
— Teu amor por mim foi sempre vestal. Qualquer pecado, erro ou dor que dele advenha, é por descuido recíproco, pois não há falha de caráter em ti. — Disse, um pouco frio, um pouco mais distante, mas ainda atento.
— Estou desestabilizando Somníria? — Perguntei, pois, sua sutil frialdade me sugeriu que uma preocupação o estivesse envolvendo.
— Não só Somníria... — Revelou, e ficamos em silêncio por um tempo. Senti uma tristura implacável... eu certamente o estava machucando, com minha presença e minhas perguntas.
— Então me acorde... eu compreendo... eu sei que não posso ficar aqui... — Murmurei, mesmo querendo falar mais, ouvi-lo mais.
— Eu... não posso... — Murmurou Lorrt. Eu o olhei, surpresa.
— Por que não? — Intriguei-me. Ele se aproximou um pouco mais.
— Porque, Áurea, teu perfume me agrada... — A voz de Lorrt tornou-se mais intensa. — Porque prefiro manter meus olhos em teu belo semblante... — Senti meu rosto aquecer, o olhar de Lorrt era de profunda paixão; envergonhava-me um pouco.
— Sempre me chamaste de Áurea? — Sem saber a razão, continuava lhe indagando o que não fazia sentido... talvez eu acreditasse que, me aproximando do que vivi ao lado dele, as lembranças aflorassem. Para o meu deleite, Lorrt sorriu... O sorriso de Lorrt era uma fratura no rigor de sua existência: uma fissura pela qual, brevemente, se vislumbrava o homem que ele poderia ter sido se o mundo lhe houvesse sido mais justo. Eu não compreendia, mas sentia, intuía... seu sorriso contornava sua face austera com uma suavidade viril, revelava-me em silêncio a sua essência que me fora outrora tão familiar...
— Não... Preferia chamar-te de Meu Raro Rubi. — Desvelou. Eu sorri e meu sorriso o fez sorrir um pouco mais.
— Raro Rubi? Por quê? — Indaguei, com uma felicidade inenarrável em meu coração vazio. Era quente poder ver a mesma alegria no olhar de Lorrt, e saber que ele não se abrigava tão somente em insondáveis mágoas.
— Porque nos conh...
Eu... daria tudo para ouvir a história por detrás de tal alcunha tão gentil... eu senti que daria minha vida, naquele átimo, quando minha pele começou a queimar tal qual papel em brasa e meu corpo era absorvido por um fogo crepitante.
Fogo... intenso. Meu corpo estava queimando.
Eu faria tudo tão só para ouvir Lorrt... e vê-lo sorrir... mesmo que não, o amasse mais... mesmo não me recordando do amor; havia algo... sabe? Apesar dos pesares, havia algo que me envolvia em alento, algo que vinha dele... da presença e da voz de Lorrt. Contudo, eu fui queimada viva naquele momento — assim eu sentia — meu corpo em brasas fulgurantes, meu rosto desaparecendo no estalar de nímias flamas, uma combustão. Olhei em desespero para Lorrt. Não doía, entretanto, assustava de modo terrível. E queimava... eu sentia o fogo no meu cerne.
— Não... não... ajuda-me Lorrt... eu não quero ir... deixe-me ficar aqui... deixe-me te ouvir... — Segurei no casaco negro que Lorrt vestia, pois no impacto da súbita combustão, abaixei-me de horror apavorante. Lorrt segurou minhas mãos, sua feição era de profundo tormento.
— Áurea!!! — Ele clamou por mim... Abraçou meu corpo e sentiu o fogo queimar sua tez. Gemeu de dor repentina e, por instinto, se afastou...
— Não... não... por favor... Lorrt... — Foram minhas últimas palavras...
Rubi Áurea
Áurea Lihran escrevera suas terríficas e fascinantes vivências após despertar em um antigo castelo, o Castelo Drácula. Sem memória alguma de seu passado, ela buscou encontrar respostas e sentidos que guiassem a sua existência, mas, para isso, teve de fazer escolhas sombrias e ainda lidar com a sua estranha sede por sangue e o seu desconhecido poder. Este seu manuscrito foi deixado por ela, como volume único, na biblioteca do Castelo Drácula e, agora, por razões obscuras, ele está em suas mãos. » Leia todos os capítulos.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Capítulo 10: O Oráculo das 7 Profecias
Uma monodia litúrgica bizarra atravessara nossas almas, tão mais que os tímpanos. A morte parecia habitar o derredor, as velas tremeluziam…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Uma monodia litúrgica bizarra atravessara nossas almas, tão mais que os tímpanos. A morte parecia habitar o derredor, as velas tremeluziam n’um escarlate-sanguíneo oxidado e meu coração era oprimido como nunca outrora fora. Eu sentia ser observada pela escuridão enrubescida. Eu e Liliana estávamos de frente aos umbrais do aposento-cárcere de Naomie e Noellie, eles foram abertos como se soubessem de nossa chegada; O cântico lôbrego era corpóreo, embora translúcido, vinha de todos e de nenhum lugar. Além do seu entoar mórbido, habitava um silêncio pouco silente, farto de um eco contínuo e tétrico, capaz de perturbar qualquer existência. Eu era cética sobre ser possível que alguém vivesse naquela alcova de horror oculto; como um nefasto véu esotérico.
Liliana alertara-me da aura insalubre do local, todavia, não adentrava em meu âmago a verdade dita por suas méleas palavras. Era, decerto, — eu pensava — mais um cômodo misterioso deste alcácer, só isso e nada mais. Arrependi-me do ceticismo quando vi aquelas gêmeas siamesas, seus corpos colados como um experimento macabro da existência. Não eram gêmeas siamesas comuns, compreende? Algo de dantesco habitava seus olhos vítreos; uma mancha negrume abaixo de seus olhos indicavam um choro perpétuo e seus pequenos lábios curvados para baixo, enegrecidos em tons púrpura, pareciam mortos; uma delas possuía uma cruz em sua fronte, como se marcada à ferro, uma pérola de lótus negra no centro do símbolo, estava encrustada na tez. Senti-me arrepiar. Elas usavam um tipo de vestido negro, cobrindo todo o corpo, dos pés ao pescoço. Com detalhes em ouro envelhecido. Usavam luvas e seguravam cartas em suas mãos.
Na parede carmim detrás delas, dezenas de cabeças de coelhos de todas as espécies inimagináveis; como quadros em prismas de vidro e moldura de ouro envelhecido. Muitas já em estado avançado de decomposição, não estavam empalhadas. Foram arrancadas e guardadas, como tesouro, nos prismas. Era nojento e sinistro; os olhos vermelhos das espécies vidrados no infinito do quarto escuro.
— Sente-se Áurea Lihran; há muito o que o Oráculo tem para lhe proferir. — Agouraram em uníssono; pois que a voz feminil que possuíam, era abismal em agouro, um vibrar símil ao poço mais profundo. Olhei para Liliana, ela parecia implorar para que eu apenas obedecesse, por isso o fiz. — Saia, Liliana; Áurea já mudou o teu destino, o Oráculo não quer a tua presença. — Ela respirou fundo e as portas se fecharam assim que ela deixou a recôndito. As meninas, se assim posso dizer, sempre falavam juntas, como uma única pessoa. Juntas, igualmente, embaralharam as cartas de suas mãos e, logo, olharam-me; elas tinham uma tristeza profunda na alma, é o que me parecia.
— O Oráculo está estarrecido com a tua visita, Áurea Lihran; ele reconhece o teu poder de vidência. É-lhe uma honra estar em tua presença. — Eu não sabia ao certo o que responder, meu medo era genuíno.
— É um prazer estar... sob a presença de tão grandioso... oráculo... — Hesitei.
— O Oráculo reconhece o teu temor, Áurea Lihran, e sente-se agraciado por ele. Feche teus olhos e sinta o poder do Oráculo, ele te responderá em três verdades e quatro profecias. — Este era o momento pelo qual eu estava ali. Talvez eu mesma me tivesse guiado para aquele lugar morbígero. Entretanto, eu não deveria lhe fazer uma pergunta? Fechei meus olhos e aguardei, enquanto pensava em uma indagação ideal.
— O Oráculo sabe todas as tuas perguntas, Áurea Lihran. — Ouvi e estremeci. O ambiente estava cada vez mais sufocante. Em dado momento, supus estar ouvindo uma voz masculina detrás da porta e logo me preocupei com Liliana. As gêmeas abriram sete cartas sobre a mesa.
— A primeira carta, observe a verdade. O Corvo Esfaqueado: Invertida. A tua inteligência é de inestimável valor, entretanto, Áurea Lihran, há um traidor que habita as tuas proximidades. — A voz delas se modificaram; antes femininas, agora demoníacas e viris. Suas cabeças tornaram-se trêmulas, um tremor célere e inumano. — O Corvo sangra e torna sanguíneo o céu da meia-noite e o sangue é veneno. A adaga no dorso do Corvo é a sutileza mendaz daquele que sorri. — Quando abriram a primeira carta, seus rostos pareceram dissolver.
— Segunda carta, observe a verdade. O Antílope Negro e as Cordas de Juta: Invertido. Tua prudência é admirável, Áurea Lihran; entretanto, a sombra que paira sobre teu crânio é a fênix da decadência e do temor; o negligenciar do teu poder imanente é o preço pela segurança. — Ainda mais rápidos em movimentos súbitos, contudo, naquele instante, lágrimas negrume começaram a verter dos olhos vítreos e, as vozes, cada vez mais terríficas. — Os chifres tocam o solo de lama pútrida e as varejeiras aguardam a carne apodrecer; as patas envoltas na corda de juta mostram a vulnerabilidade do que deveria ser o juízo à dignidade dos aplausos. — Senti uma dor repentina, como se milhares de agulhas perfurassem, em instantâneo, minha tez; olhei para meu corpo e, em cada poro, uma gotícula de sangue nascia. Fiquei horrorizada e ouvi uma forte batida na porta; meus olhos ardiam e eu parecia estar mais fundo em um abismo sem volta.
— Terceira carta, observe a verdade. A Corphidrae e o último elo. — Meu rosto aparecera na carta ao lado da mesma criatura mítica que vi nas águas de Lahgura. Meu sangue agora vertia para o assoalho, com uma lentidão mórbida. — Reconheça-a para que vivam em harmonia; o oblívio advém do paládio próprio da essência quimérica; discernir para o equilíbrio e a revinda d’outora. — As íris delas agora movimentavam-se com a mesma rapidez de suas cabeças e eu sentia minha pele queimar, em especial no braço esquerdo; tentei olhá-lo, porém, algo me fazia não desviar mais os olhos das cartas. Outro estrondo nos umbrais.
— Quarta carta, observe a profecia. — As cabeças das meninas se transfiguraram, fissurando-se ao meio por onde dentes e carne e cérebro ficaram à mostra em sangue e lodo. Um odor fétido escalou-se ao derredor e minhas pupilas dilataram diante o horror e eu sei, pois, a luz que era parca, tornou-se ainda mais exígua e fui obrigada, pela energia densa e tétrica do ambiente, a continuar enxergando cada mínimo detalhe das cartas e das meninas à minha frente. — Lúcifer, a Estrela da Manhã. — Ouvi, entretanto, um terceiro estrondo na porta, ainda maior, resultando em alguém adentrando a alcova obscura e segurando firme em meus ombros, tirando-me da cadeira e afastando-me, à força, do oráculo; ainda assim eu não conseguia deixar de manter meu olhar sobre elas. — Um anjo cairá dos céus... — Foi a última coisa que ouvi do Oráculo.
Ainda confusa, vi uma mulher proferindo palavras ancestrais e arrancando sangue de seu pulso, isso resultou, com mais um fragor, n’um selar da porta que levava ao oráculo. Somente quando selada, fui capaz de voltar a mim mesma, compreendendo o ambiente. Vi novamente a escada que desci com Liliana e vi Liliana olhando-me atônita. Eu estava nos braços de um homem desconhecido, sua pele acastanhada, seu relógio de bolso, seu complexo olhar. E, atrás dele, a mulher que fizera o que me parecera um ritual para selar os umbrais, ela era Olga. Meu próximo átimo de tempo levou-me a perceber meu próprio corpo, o sangue seco em toda a tez e, onde queimava o meu braço com mais afinco, eu vi quatro símbolos em um estigma, queimados à força. Pareciam sigilos.
— Áurea, escute! Estás me ouvindo? — Disse o homem, com sua voz paternal. — Estás à salvo, agora; beba isto. — Apenas obedeci. Parecia sangue. Minhas forças retornavam aos poucos.
— Perdoe-me, querida; eu não imaginava que isso... eu sinto muito. — Lamuriou Liliana. Olga apenas olhava, distante. Eu ainda não compreendia o que estava acontecendo; mas fui levada a outro cômodo, onde o homem que me acudia carregou meu corpo. Liliana e Olga não foram comigo. Ouvi o homem dizer “Eu cuido disso agora, depois vocês a encontrarão no aposento que a pertence”. No leito que não me pertencia, fui colocada pelo homem e ali fiquei, repousando. Mas não dormi. Fiquei observando o homem escrever por longas horas, com a luz baixa, em uma escrivaninha de cedro escuro. Eu o aguardei terminar e esperei que as minhas forças retornassem por completo.
— Bem-vinda de volta, Áurea. — Ouvi, assim que me movimentei, sentando-me na cama confortável. O homem virou-se para mim. — Saudades? — Ouvi, sentindo-me confusa. Ele se ajustou em sua poltrona, para fitar-me com mais atenção. — Áurea, o que te fez ir atrás do Oráculo depois de tudo o que conversamos? — Eu não o respondi, sentia-me merencória... — O Oráculo das Sete Profecias possui uma força inominável, Áurea; se permanecesses ali, serias perseguida pelas sombras deste poder, eternamente. — O homem encostou-se na poltrona, parecia buscar serenidade e paciência. — Olhe para teu pulso esquerdo. — Obedeci. Revi os sigilos. — São selos pherhesístas que assombrarão a tua existência para além deste tempo, para além desta vida. Por sorte, ou melhor, destino, são apenas quatro símbolos.
— Se é tão perigoso... por que mantê-lo no Castelo? Por que mantê-lo vivo? — Indaguei. O homem respirou fundo mais uma vez, não por impaciência, mas parecia-me realmente exausto de algo muito íntimo.
— Não há como destruir o Oráculo. Mantemos em cárcere, pois, é o que está em nosso alcance. Se me permites... — Ele retirou seu casaco e afrouxou sua gravata. — Naomie e Noellie foram escolhidas pelo Oráculo quando, o último manipulador das cartas, foi morto. Trancafiamos as cartas em um baú de unorom; entretanto, tamanho é seu poder, que Naomie e Noellie ouviram o chamado dele e o alcançaram, vindo pelo Espectumbral, o responsável por trazer ao Castelo aqueles que precisam de compreensão e conhecimento. Não tardou para que conseguissem abrir o baú; foi então que percebemos que só seria possível encarcerar o Oráculo, se o fizéssemos junto com seu manipulador. Assim ninguém mais ouviria o chamado.
— Como pude adentrar aquele cômodo, então? Não deveria estar inacessível?
— O teu poder entrou em sintonia com o poder do Oráculo. Liliana, ao guiar-te para os umbrais do cárcere, não imaginava que estaria te direcionando à linha reta desta sincronização. — O homem olhou para seu relógio de bolso e logo o deixou sobre a escrivaninha. — Sobre estar inacessível, o Oráculo, como já mencionei, é profundamente poderoso. Precisamos mantê-lo preso, mas, é importante que tenhamos acesso a ele. Em especial eu, Olga e Drácula. A razão, tu deves imaginar, pois, ficou claro quando te salvamos daquele antro. Olga selou, mais uma vez, os umbrais.
— O que aconteceria, então, comigo? Disseste das sombras... o que significam? — Eu começava a entender.
— Pelo que sei, havia duas possibilidades. A primeira é, com os sete sigilos em tua pele, assim como tantos outros, tu serias perseguida pelas sombras do Oráculo. Ouvindo seus sussurros e lamentos, sendo guiada a fazer o que ele desejasse... eu diria... enlouquecendo... Em outra situação e, sinceramente, é a mais provável, tu tomarias o lugar de Naomie e Noellie.
— Por quê? — Surpreendi-me. Ele sorriu com um estranho deboche.
— Tu sabes que é por causa do teu inestimável poder, Áurea. Isso, decerto, acrescentaria ainda mais valor para as profecias e verdades do Oráculo. Eu não sei o que ele te disse, mas decerto ele já conhecia o teu nome e já sabia o que buscavas. — Ficamos em silêncio. — Áurea... preciso te falar, de novo, sobre o teu poder... — O homem me olhava com uma seriedade pujante. — Tu viste, não é? Que nós a salvaríamos...
— Não... eu... não fazia ideia... — Fui sincera; algo de estranho havia entre nós, parecíamos nos conhecer, mas eu não me recordava.
— A vidência pode parecer um dom celeste, entretanto, não há nada mais perverso do que ser capaz de olhar o futuro dos outros e de si mesmo. E eu sei que tu não apenas viste o futuro de Liliana, como interferiste nele; fazendo-a tomar uma decisão que afetou toda a linha do tempo... eu sei, Áurea, eu sei de tudo o que afeta o tempo.
— Não foi por mal... eu... me assustei quando vi os horrores que ela passaria e imediatamente quis salvá-la... isso nunca aconteceu comigo... eu não sabia como agir... — Expliquei, lacrimante. O homem pareceu intrigado.
— Áurea... tu sabes quem eu sou?
— Não... eu sinto muito... — O homem expressou incredulidade e, ao mesmo tempo, espanto.
— Hum... isso pode ser verdade... — Senti um lapso de tempo, parecia o mesmo que outrora senti quando encontrei Anton. Um clarão súbito e célere. — Compreendo. Compreendo perfeitamente... Áurea, tu precisas abrir os teus olhos e se vincular com a Corphidrae. Sem isso, ambas ficarão entre o sono e a vigília, como se marinheiras de um mesmo veleiro, sem que se conheçam, sob o céu noturno, com duas rodas de leme, sempre opostas. A propósito, mais uma vez eu me apresento, eu sou professor Monm. Manipulo, controlo e compreendo o tempo. — Fiquei um tempo em silêncio, tentando assimilar as informações.
— Há uma Corphidrae dentro de mim... — Proferi, como se buscasse confirmação de Monm.
— Não uma, mas A Corphidrae. A última da espécie, a qual deveria ter morrido em teu ritual de transmutação vampírica.
— No entanto, com a invasão dos Ohrmons, o ritual foi eivado... levando-a ao sofrimento e, de alguma forma, a habitar meu ser... — Mais uma interrogação disfarçada de afirmação.
— Sim... Tu oscilas entre a personalidade da criatura e a tua própria. — Imediatamente lembrei das palavras de Seth.
— Então... ela tentou me matar? Levando-me ao Oráculo? — Monm gargalhou, embora tenha se controlado ao ver minha seriedade.
— A Corphidrae não é a tua inimiga. Ela sabia muito bem que tu não sofrerias o fim que o Oráculo almejava. Estou começando a achar que o Oráculo também sabia. De alguma forma, ambos os poderes, em grandeza, podem ter entrado n’um acordo. E se não me falha a memória, encontrei-te prevendo teu próprio futuro e te dei aquele sermão que tu não te recordas... o que é uma pena, pois, foi digno de aplausos. — Ele sorriu. — Áurea, não tema a Corphidrae. Ela está pedindo para se conectar contigo, caso contrário, tu já terias sido soterrada por ela. Ela é bem mais poderosa do que o teu vampirismo. Ela é uma criatura mítica, não esqueça disso. Criaturas míticas nunca são más.
Monm estava certo. Os enigmas com minha própria letra, o reflexo no lago; tudo indicava que a criatura mítica estava tentando se comunicar comigo e me ajudar a destruir o oblívio. O que fazia de Seth um verdadeiro farsante, por tudo o que dissera no cemitério. Além disso, Seth revelara que tentei matá-lo, talvez a Corphidrae saiba sobre quem ele realmente é, mais do que eu sei, por isso o atacou quando estava sob controle de minha consciência. Como se não bastasse, o Corvo Esfaqueado, a carta invertida da primeira verdade do Oráculo, falava com clareza de um impostor. Todas essas peças encaixadas, formavam a mais valiosa das compreensões, entretanto, eu não sabia como vincular-me à Corphidrae.
— Como posso me vincular à criatura? Quem poderia me ajudar? Talvez... Olga? — Questionei a Monm.
— Olga não pode ajudar-te, Áurea. Ninguém pode. Entretanto, a cada conhecimento e compreensão que adquires, vais abrindo mais clareiras nessa densa floresta do teu ser.
— Monm... podes me levar a algum momento de meu passado, para que eu me lembre? — Ousei pedir. Seu semblante mudou para consternação.
— Jamais farei isso... o tempo é perigoso... e a recordação... — Monm parecia olhar para um vazio nadificante. — Pode ser a sentença mais perniciosa da vida de uma criatura racional... de repente tu voltas no tempo, revê com perfeição aqueles que lhe foram importantes... de repente tu queres viver no passado, onde tudo lhe parecia mais fácil... onde todos estavam sentados envolta da mesa, em uma comemoração de Aborom ou Aesttera... entretanto, mesmo lá... a verdade de que tu não pertences àquele tempo, continuará te enlouquecendo... — Monm silenciou. Senti que tudo o que dissera, doía em seu coração, pois, as janelas de sua alma lacrimaram e sua fala se embargou.
— Desculpe, senhor Monm, não tive a intenção de...
— Está tudo bem... deixe-me descansar um pouco e... confie em quem tu és. E tome cuidado. — Monm sorriu como pôde e eu o deixei descansar.
Quando deixei o aposento, precisei sair do Castelo para sentir o ar límpido; sentir o sopro do vento, talvez do tempo. E assim o fiz. O céu estava n’um tom castanho-enrubescido e uma névoa rosé se estendia. O tempo era mesmo diferente naquele lugar... assim como a manifestação da natureza. Caminhei pelo jardim que outrora estive na chuva densa a observar os raios no horizonte azul-opaco; agora as árvores todas tinham folhas secas e, n’uma delas, as folhas ressequidas ganharam tom marfim; assemelhavam-se a papel. Eram belíssimas. Já na fonte, no centro do bosque, as águas tonalizadas pelo céu, hialinas com reflexos carmim, cantavam seus movimentos. Toquei-as, molhando minhas mãos. E vi-me em seu reflexo e reparei... um colar de ouro envelhecido, com um pingente de pérola de lótus negra, descansava em meu pescoço.
Rubi Áurea
Áurea Lihran escrevera suas terríficas e fascinantes vivências após despertar em um antigo castelo, o Castelo Drácula. Sem memória alguma de seu passado, ela buscou encontrar respostas e sentidos que guiassem a sua existência, mas, para isso, teve de fazer escolhas sombrias e ainda lidar com a sua estranha sede por sangue e o seu desconhecido poder. Este seu manuscrito foi deixado por ela, como volume único, na biblioteca do Castelo Drácula e, agora, por razões obscuras, ele está em suas mãos. » Leia todos os capítulos.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Capítulo 9 – Perturbadoras Revelações
Um abrupto sopro de vida e meus olhos foram circundados pelo lume de um dia nublado. Eu dormia? Ao derredor, um cemitério árido e lúgubre descansava…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Um abrupto sopro de vida e meus olhos foram circundados pelo lume de um dia nublado. Eu dormia? Ao derredor, um cemitério árido e lúgubre descansava, com carvalhos negros ressequidos e antigas estátuas de mármore cobertas por um tipo de limo amarantino à beira do índigo-profundo. À frente, um homem dava forma a uma sepultura, cavando sem pressa; observando a terra atra e úmida se amontoar ao lado da cova. Demorei-me para compreender que o indivíduo proferia palavras, as quais eu bem ouvia, após o súbito despertar que fizera um estranho chiado perturbar-me os ouvidos. Demorei-me, igualmente, para assimilar-me em pé, segurando em mãos um pequeno livro e vestida em tecido de veludo, na cor noite-violeta.
— … que entendia como algo irrelevante, tal qual a vida em si mesma é compreendida por um recém-nascido. Era, entretanto, aprazível viver nos augúrios nadificantes em Sihren, pois, vês? Cá é tudo cinza e silente. Lá, entre jardins de espécimes indizíveis e mais tantos visitantes a trazerem mudas crescidas de ascehderas e lihrios, eu podia me deleitar com o aroma místico enquanto aconselhava as criaturas que, na verdade, nunca precisaram de conselhos. Ah… sim… Sihren era mesmo o paraíso… aqui, entretanto, eu sou esta mórbida criatura que rasteja na terra e estes corpos, enterrados soltos no solo infértil, nunca recebem flores, tampouco saudações d’algum vivo que deles se recorde. — Após calar-se, o homem fitou os céus, como se mergulhasse em memórias. — Bom saber que eras de Sihren, senhora. Saber que tenho uma conterrânea, afaga esse meu velho coração. Não só uma, já conheci alguns outros… inclusive Olga… bem petiz, ela corria pelos corredores do Castelo do nosso imperador… ah… que saudade…
Minha reação, se é que posso dizer que reagi, era como um oceano infinito de incertezas sôfregas. Eu decerto o olhava confusa. Senti-me colocada em meio a algo que não me pertencia; desde o local até o corpo meu, pois, tão íntimo aquele senhor me dirigia sua palavra serena sobre o que tínhamos em comum, entretanto, como poderia saber? E eu lhe disse que sou de…Sihren? Mas como o poderia dizer se eu, decerto, não disse? E Olga, criança? Como e quando tal fenômeno ocorrera? Quem poderia ser este imperador? Eram tantas indagações, entretanto, nenhuma se clarificava à medida em que eu me esforçava para lembrar.
— Eu… — Sem que pensamentos torturantes florescessem, busquei algo sutil para trazer à tona e fazer com que o homem caísse em seu falatório que, por muito, soava-se valioso. Todavia, seus olhos se voltaram a mim e sua face, outrora tão tenra, transfigurou-se n’um pavor desmedido. O homem, na tentativa de fugir de mim como se eu lhe fosse a pior das assombrações, tropeçou em sua pá, ficando ainda mais horrorizado.
— Tu… tu és… um deles! — Bradou atormentado em medo.
— Senhor… por favor… eu não…
— Vampira!!! — Seu vocífero contornou os quatro quantos do universo. Ele ergueu-se com dificuldade, apoiando-se na terra, sujando suas mãos ainda mais.
— Eu não te farei mal… — Tentei explicar.
— Teus olhos… onde estão…? Mudaram… tu és…como eles! Eles! — O homem correu com uma pressa espectral, guiado por um frenesi de medo insano entranhado na alma, como se fugisse do próprio passado reencarnado diante dele. Não o impedi, pois, sei que quaisquer ações poderiam levá-lo à morte súbita, tamanho era seu terror abominável. Apenas fiquei observando-o se afastar como um animal selvagem... embora, talvez, eu que fosse animalesca de fato.
Diligenciei-me, sob uma promessa autoimposta, a absorver a cinesia do que me parecia um desvario meu, uma insanidade onírica; e, então, reordená-la para que fizesse sentido. Entretanto, toda a lógica sangrava diante de meus pensamentos toldados por um discernimento fragmentado. A verdade é que eu estava de volta ao prólogo, com os olhos abertos para o mundo e um oceano de enigmas para decodificar. Por infortúnio, diferente do sereno início, eu carregava muito mais fardos e, um deles, decidiu se manifestar enquanto eu ponderava...
— Devias ter mantido teus olhos no fulvo que os pertence. — Ouvi. Olhei para trás e Seth estava ali, recostado em um carvalho.
— Como... saíste? — Questionei incrédula. Ele pareceu meândrico. “Ó, fardo maldito!” pensei.
— Do que estás falando, Áurea? — A voz de falésia e voragem.
— O ritual... o círculo... como tu quebraste a magia? — Eu estava mesmo incrédula, a magia era poderosa, não poderia ter se desintegrado sem que alguém, intencionalmente, a tivesse rompido. Seth se aproximou.
— Tu não te lembras? — Ele é quem estava, naquele instante e, mais do que eu, cético. Mantive-me em silêncio. Eu poderia estar perdendo minhas memórias recentes como um despertar de um sonho? — Hum... — Murmurou rodeando-me e, por fim, abaixou-se perto à cova, tocando a terra úmida. — Não te lembras que foste ao teu aposento, com uma adaga-cruz em mãos? Esta que refulge em teu cós, presa por uma fita de veludo? — Toquei-me a cintura, senti a adaga frígida. — E não te lembras de encontrar-me preso ao aposento e não ao círculo, dificultando a tua obscura intenção de fincar em meu peito o teu novo artefato?
— Do que estás falando? — Interrompi-o, aflita. Seth gargalhou e levantou-se.
— Interessante... se tu não te recordas, não serei eu o responsável por te trazer a lembrança; ainda mais sendo vítima da tua loucura e pendor assassino. Se não fosse por Olga, eu teria me tornado pó; mas... é gratificante saber que teu ponto fraco é tu mesma.
— Fale-me agora, Seth! — Segurei-lhe em seu braço com uma força que eu não sabia me pertencer; estava com ira abíssica e desejei, confesso sem receios, que ele não existisse e que toda a sua ironia e seu sarcasmo sucumbisse junto dele para mais profundo que o inferno de onde ele vinha. Olhamo-nos de perto. Ele sorriu outra vez.
— Um olho carmim... um olho dourado... Ela está vindo, Áurea... vais deixá-la entrar? — Pressionei ainda mais o seu braço e vi em seus olhos um fogo rubro faiscante enquanto seu semblante deixava o aspecto satírico e contornava-se em cólera.
— Basta!!! — Murmurei furiosa.
— Pergunta para Lorrt, Áurea. O maldito nocturvo que tanto te venera.
Eu não sei como, mas, ouvi-lo falar de Lorrt fora o estopim do meu furor. Num único movimento célere, segurei a adaga-cruz e passei pelo rosto de Seth. Um sangue negro verteu quente da fenda aberta em seu queixo. Sua mão prendeu-me o pescoço no mesmo ímpeto e mais um corte fiz sobre ela até que, num golpe desordenado, Seth fez a adaga soltar-se de minha mão e cair sobre a terra. Desarmada, segurei sua camisa torcendo-a contra seu pescoço e o golpeei entre suas pernas, fazendo-o se curvar em dor; presos e entrelaçados no ódio, desequilibramo-nos e caímos na cova — não foi o suficiente para me fazer parar.
Talhei seu rosto com meu punho fechado, três vezes, enquanto ele tentava prender minha mão esquerda. Sem sucesso. Embora fosse forte como um touro, não tinha nenhuma habilidade física contra meu esgueirar-se. Prensei seu estômago com meu joelho e senti-o segurar meus cabelos com avidez, buscando me parar. Seu murmúrio demoníaco se alastrava; cravei meus dentes em seu braço, fazendo-o me soltar e, fugaz, cravei-os novamente, mas em seu pescoço e suguei seu sangue asqueroso para, pouco depois, cuspi-lo em sua face. Seth, atordoado, grunhiu algo ainda mais diabólico e vi a tez de sua fronte rasgar como se algo em seu interior quisesse pôr à vista a verdadeira forma de sua constituição.
— Ssatt esstt hrasstt — Rosnou dizendo, grave algar. Forçou-me contra o muro, tentava virar-me para ficar sobre mim, mas não deixei; cravei meu olecrano em seu peito, fazendo-o tossir; entretanto, um obscuro calor em meu corpo emergiu como se dentro de mim e o incêndio daqueles olhos satânicos parecia se alastrar n’um ardor pecaminoso. Gritei como a morte em fel e chamas, enterrei minhas unhas em seu pescoço e as arrastei para baixo, sulcando sua pele. Por instantes, jurei que não haveria um fim, mas, o fogo do inferno cessou e Seth conseguiu prender-me os braços. Seus olhos atentos, seu corpo prensando-me na terra.
— É desleal fazer isso, Áurea; eu não posso te ferir, eu devo te proteger, essa é a minha função. Foi tu que assinaste o acordo com Lahgura.
— Que maldita proteção é esta? Obscurecendo as verdades que possui sobre minha própria existência! — Seth respirou fundo e soltou-me. Entre nós o silêncio pareceu-nos perdurar mil e uma noites.
— Quando… — Ele iniciou, demonstrava exaustão. — Quando teus olhos refulgem dourados, ambos, uma outra personalidade se manifesta — Seth tocou suas feridas, feitas por mim, e gemeu de dor intensa. — Ela, a outra, determinada e ciente de toda a tua história, não teme nada, é instintiva. Ela desejou a minha morte na violência de suas mãos, com seu desprezível caráter incólume. Ela é perigosa... — Seth se apoiou, saindo da cova e se sentando à beira.
— Não é fácil dizer a alguém importante que sua doença é psíquica e que esta, decerto, é a razão pela qual suas memórias desapareceram. Ela as roubou de ti... e eu... eu só não sabia como revelar este lídimo e pernicioso fato. — Confessou e estendeu-me sua mão esquerda, supus que pretendia me tirar da cova. Hesitei, mas, ele relevou o que devia e eu queria sair daquele úmido túmulo. E saímos, sujos de terra. Seth, sangrava. Nada proferi a respeito da revelação. — Minha Aessatt, eu te perdoo... não traga em tua fronte tal desespero. — Ele sorriu e eu o fuzilei com minhas retinas trêmulas em gana. — Agora, devo ir.
Antes que eu pudesse desfrutar do seu desaparecimento, ele se esvaneceu. Tentou acariciar meu rosto, mas não o permiti. Apenas com sua expressão de cinismo, foi embora fazendo uma reverência arrogante. Com certeza foi para o inferno, lugar onde pertence.
Demorei-me ali, sozinha. Vi o pequeno caderno e a adaga-cruz lançadas no solo fúnebre, peguei-as e as limpei como pude. Pouca e mórbida era a aragem que soprava e parecia-me que o entardecer não chegaria. Os céus, por instantes, soavam-me espúrio e o Castelo Drácula, no horizonte, uma miragem. Guardei a adaga em meu cós, no veludo que lhe era apropriado; abri o pequeno caderno. Havia uma frase escrita na primeira página, com a minha letra cursiva.
Naomie e Noellie — no quarto umbral, de cor gaultéria. Há treze escadas abaixo, iniciando pela espiral da biblioteca. No estreito corredor, elas possuem o Oráculo das Sete Profecias.
Uma parca esperança, pelo Norte que se fez possível, emergiu no meu íntimo como um lume tenro na escuridão. Meu caminho se erguera à frente, tal uma ponte no abismo. Com ou sem a maldição de Seth, eu iria até estas duas mulheres e, de lá, algo ainda que mais infinitesimal que minha esperança, em absoluto, alcançaria meu coração dilacerado e olvidado. A fé não fazia parte do eixo de minha existência, entretanto, era a única que poderia perdurar em mim, pois, se eu estava mesmo dividindo minh’alma com um alter ego, se ela guarda minhas memórias para si, como afrontá-la se ela é, pois, eu mesma? Pelo espelho? Refletindo as janelas do espírito? Embora as revelações tenham sido ácidas, eu intuía que ela, a outra que eu era, não queria confronto — não comigo.
Um Oráculo, como previa aquela anotação, poderia ser deveras relevante para os que, como eu, perduram no longínquo de si mesmos. Portanto, pela lógica do enigma — pois era o que soava ser — descer uma escada em espiral na biblioteca do Castelo seria o iniciático movimento para alcançar o corredor estreito, onde a quarta porta em seu imo, de cor gaultéria, seria o aposento onde Noemie e Noellie estariam. Eu não sabia ao certo a localização da biblioteca, quero dizer, eu sabia sobre uma delas, local onde perscrutei sobre livros de exorcismos, entretanto, nesta, não avistei nenhuma escada em espiral, portanto, cri não se tratar dela. Deste modo, então, quando retornei ao alcácer — de volta às suas entranhas, sentindo o aroma de sangue e solidão, tive de acessar cada espaço em busca de uma orientação, ainda que intuitiva, para localizar um novo leito das palavras infindas.
Em um dos aposentos, quando as esperanças se desintegravam mais céleres do que na gênese de minha busca, deparei-me com uma figura enigmática — tal como outras naquele recôndito sombrio que mais se assemelhava a um labirinto grotesco de lamúrias, silêncios perturbadores e angústias. Ela vestia-se com mantos pesados, um deles negro como a noite e outro pálido como a névoa lôbrega de Séttimor — inclusive, havia tal neblina ao seu redor, como uma aura rarefeita. Assustou-se ao me ver abrir os umbrais, voltou-se abrupta para mim, porém, seu rosto estava oculto no capuz. O aposento era pequeno. Nas mãos enluvadas da figura, um tipo de colar do que se assemelhava, em cor, a ourídeo.
— Quem tu és? — Indagara com sutileza, sua voz feminil não me era estranha... na verdade... eu sabia bem de quem era aquela voz...
— Liliana? — Indaguei, confusa. Um breve silêncio se liquefez no aposento. Ela, então, revelou-me seu semblante, entretanto, surpreendi-me ao vê-la em perfeitas condições, como uma humana. Diferente do que avistei em Séttimor, ali, de frente a mim, Liliana estava perfeita; não havia sombras em metade de seu rosto, como um vazio imposto em sua carne; não havia o fumo, a dor, a lúgubre essência. Era apenas Liliana, bela, com longos cabelos lívidos e forte olhar. Eu não hesitei, fugaz a abracei, sem pensar em quaisquer consequências ou, ainda, sem considerar o seu primevo questionamento. Ela pareceu relutante ao abraço.
— É tão bom te ver aqui... mas... como? — Olhei para seu rosto, soltando-a com afago. Foi n’este átimo que... algo mórbido me aconteceu.
Assim que fitei seus olhos cinéreos, eu a vi em um sinistro lugar pálido em neve densa com altos edifícios negros pontiagudos. O ar era o vale da morte em sua mais atroz constituição. Liliana era levada por homens de olhos negros, sem esclera... eram Ohrmons. Foi jogada aos pés de um homem cujo rosto eu não saberia descrever, porém, senti perfeitamente a sua energia densa e mórbida. “Queres teu filho, pois então o encontrarás.” — a voz grave e rouca dissera. Liliana foi tomada novamente, sem cuidado, pelos Ohrmons e, então, levada.
Vi-a inalando um tipo de vapor enegrecido que a fez adentrar um estado de delírio semi-inconsciente. Não parecia sentir dor, mas decerto compreendida a perversidade. N'este calabouço, o seu corpo foi violado enquanto seu sangue era retirado por tubos introduzidos nas veias de seus pulsos, sendo trocado por um tipo de líquido espesso, fumegante e fétido. Palavras estranhas se proferiam no ar quando o homem sem rosto, da voz grave e rouca, adentrou ao local, expulsando os Ohrmons com seu poder abissal.
Liliana, ainda viva, olhou em direção ao homem tétrico. Ele tocou seu rosto e, imediatamente, metade de sua tez facial apodreceu. Segundos depois, ela estava morta. O homem maldito cortou-se, gotejando seu rubro sangue sobre a cabeça de Liliana. Parecia-me um ritual de sacrifício macabro. Todas as cenas, em milésimos de segundos, atormentaram meu cérebro, fazendo-me afastar de Liliana. Meu corpo estava trêmulo e minha respiração ofegante. Eu tinha uma certeza atroz: o que vi foi uma visão do futuro. E eu compreendi que a Liliana de Séttimor estava morta, possuía, em seu corpo fumegante, todos os sinais dos horrores que sofrera.
— Senhorita? O que está havendo? — Ela indagou, preocupada. De meus olhos vertia a lágrima dourada, eu a vi pingar em minhas mãos.
— Por favor... — Murmurei, em completo abalo. — Por favor, Liliana... — Ela se abaixou, tocando meus braços e secando minhas lágrimas.
— Diga o que queres, querida. Diga-me o que houve? — Eu apenas chorava.
— Não vá para a neve... não busque teu filho naquele sórdido lugar... eles... eles... aquele homem... — Eu não conseguia dizer, mas vi o semblante de Liliana mudar.
— Quem és tu? O que sabes sobre Luíre e sobre mim?
— Eu vi... nos teus olhos... eu previ... — Toquei-lhe a face, com cautela. — Apenas confie em mim... eu sei... é terrível... é um revolto oceano ambíguo, mas... Liliana... eu não me perdoarei se eu não te salvar... a certeza de minh’alma é que teu destino... eu posso... — Voltei a chorar em desespero. Liliana me abraçou, parecia perceber minhas lídimas intenções. Eu nunca esquecerei o que vi... a verdade daquela deletéria premonição.
— Está bem... acalma-te... — Busquei ouvi-la, ficamos em silêncio até que meu soluçar cessasse. — Em tua visão, havia um lugar hostil, com neve... e o que mais?
— Edifícios negros... pontiagudos... uma arquitetura que nunca vi... mastodôntica... bela e... amedrontadora... — Respondi em lamúria, mas ainda hesitei em lhe revelar o que causaram a ela, era demasiado chocante. Liliana respirou fundo.
— Krvieröm... — Proferiu, abalada... — Eu... estava decidida a ir até lá... deixar este Castelo com tudo o que aqui aprendi sobre Pherhesí... e enfrentá-lo... em nome do que eu sei que ele fez com meu filho... — De imediato, lembrei-me do homem mencionado por Lëvri como sendo o seu “criador”.
— Não sei quem é este homem, Liliana, mas ele é muito poderoso... é preciso muitos para conseguir destruí-lo... muitos ou, talvez, todos aqueles que existem... eu senti... a densa energia dele... infelizmente tu não poderás... tu não serás para ele sequer um exíguo cílio incômodo em seu olho. — Ela compreendia.
— Eu não duvido de tuas palavras... — Vi-a levantar-se, sentando-se à poltrona próxima ao que me parecia uma escrivaninha. — Contudo... chegaste sabendo meu nome antes mesmo de fitar meus olhos e ter a... horrenda revelação... de onde me conheces? — Hesitei... não parecia ser adequado dizê-la que sua alma está vagando em um corpo deformado e brumoso n’uma vila de nome Séttimor.
— Eu... não sei ao certo... perdoa-me... eu sequer sabia que essas visões poderiam acontecer... eu... perdi minhas memórias e há muito o que ainda não sei sobre mim e sobre o que conheço e o porquê... — Ela aparentou decepcionar-se um tanto com a minha resposta. Ficamos silentes outra vez.
— Entendo... e como vieste até aqui? N’este cômodo?
— Estava em busca de uma biblioteca que tivesse uma escada em espiral para baixo... busco encontrar Naomie e Noellie.
— Por que buscas por elas?
— Encontrei uma nota deixada em um caderno... com a minha letra... indicando o local... eu não temo em lhe contar tudo o que sei, Liliana, entretanto, sei tão pouco. Imaginei que, porventura, estas mulheres me ajudariam de alguma forma, uma vez que, segundo a nota, elas possuem o “Oráculo das Sete Profecias”.
— Posso levar-te até elas, sei o caminho... e creio te dever um favor... pois mudaste meu destino... — Ela sorriu-me. Um sorriso triste, lacrimejante. — Eu desconfiaria se não fosse pelo teu assombro... se não fosse pelo teu abraço... este alcácer é perturbador, então... por muitas vezes fui ludibriada. — Levantei-me, devagar. Liliana ajudou-me.
— Eu sei... quero dizer... estar aqui tem sido uma experiência obscura... por vezes merencório... e ad aeternum solitária... — Exprimi.
— Agora, ao menos o que diz respeito à última questão, não há mais o que se preocupar. — Novamente, Liliana sorriu, um pouco mais contente. — Venha, devemos ir. É um longo, e escuro, caminho com muitos degraus.
Deixamos o aposento. Em meu peito ainda pulsava um pesar aflitivo. Uma dúvida enraizada sobre o prenúncio que me dominou. Lembrei-me das visões que tive na Masqarilla. Pela primeira vez, encaixei peças na totalidade do que eu já sabia e isso liberara à minha consciência uma lógica e um sentido para muitas das caliginosas verdades desveladas a mim desde meu despertar. Ainda assim, não se bastavam. Havia muito o que eu ainda não sabia e, por isso, estava disposta e ir além e desvendar mais do mistério de minha própria existência.
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…